sexta-feira, 4 de abril de 2008

Fátima Bettencourt - blog

Blog da escritora cabo-verdiana Fátima Bettencourt


http://fatimabettencourt.blogspot.com/



Lá, encontramos uma breve resenha sobre o seu livro de contos Mar - caminho adubado de esperança.



terça-feira, 1 de abril de 2008

Álvaro de Campos e Dina Salústio

A ausência de autocrítica e a dissimulação do comportamento humano nas relações sociais em Álvaro de Campos e Dina Salústio

RESUMO:
O presente texto procurará desenvolver questões sobre como a competição acirrada entre os homens na modernidade alterou o comportamento social, conduzindo-os a ocultar seus fracassos, medos e dúvidas, levando-os à criação de personagens artificiais para que prevalecessem perante o outro. Entretanto, essa escolha desencadeou uma vivência envolvida em ilusões, estimulou a concorrência, aumentou a hipocrisia, provocou o isolamento e motivou a ausência de autocrítica em uma era marcada pela supremacia do capital, como será analisado em “Poema em Linha Reta”, de Álvaro de Campos (heterônimo de Fernando Pessoa), e no conto “Campeões de Qualquer Coisa”, de Dina Salústio.

O século XX apresentou importantes renovações nas literaturas de língua portuguesa. A primeira foi o surgimento de Fernado Pessoa e seus heterônimos, que o elevaram a ser um dos principais nomes de nossa língua em todos os tempos, ao lado, sem sombra de dúvidas, de Luís de Camões e Machado de Assis. O segundo momento foi a consolidação das literaturas dos países africanos de língua portuguesa, especificamente, para este texto, a cabo-verdiana, aqui representada por Dina Salústio.

O século passado ficou marcado pelo predomínio do capital, das leis de mercado, pelo acirramento da convivência entre os homens. A vitória do capitalismo, acompanhada de sua ideologia triunfalista baseadas na conquista e acúmulo de bens, estimulou a competitividade e conduziu-nos a um comportamento hostil com o outro. O filósofo Leandro Konder define da seguinte maneira esse momento:

“É uma ideologia que está ligada ao fato de a nossa sociedade ter sido organizada de tal maneira, que ela gira de modo cada vez mais exclusivo em torno do mercado, isto é, em torno de uma lógica calculista, competitiva, que é a lógica que tem resultado no crescimento da economia e também no aumento de todas as desigualdades sociais, de todas as exclusões mais perversas. Que incita os indivíduos a serem competitivos e que, a partir de um certo nível, os incita também a serem hipercompetitivos, isto é, solitários, infelizes e cruéis, desprovidos da possibilidade de viver mais intensamente a experiência da solidariedade humana.” (KONDER)

É em relação à hiper-competitividade entre os indivíduos e a quase exclusão de valores como a solidariedade que procuraremos escorar nossa análise, a partir do conto “Campeões de Qualquer Coisa”, de Dina Salústio, e de “Poema em Linha Reta”, de Álvaro de Campos, heterônimo de Fernando Pessoa.

Todavia, convém, primeiro, apresentar os autores que serão comentados.

Bernadina Oliveira Salústio nasceu em 1941 na ilha de Santo Antão, Cabo Verde. É, hoje, uma das principais representantes da literatura cabo-verdiana. Apesar da presença discreta, a literatura de autoria feminina pode ser considerada como o grande destaque do arquipélago, nas belas letras de Vera Duarte e Fernanda Bettencourt. Todas, lançadas no pós-independência, em 1975.

Dina Salústio autodenomina-se "uma mulher que escreve coisas" (Apud: Sepúlveda, 2000, p. 114), porém, é uma escritora multifacetada. Participou da antologia poética “Mirabilis – veias ao sol” (1991), que reuniu novos nomes preocupados em apresentarem estéticas inovadoras e temas universais para a literatura cabo-verdiana. Em romance, lançou “A louca do Serrano” (1998); como ensaísta publicou “Insularidade na literatura cabo-verdiana” (1998); e, em contos, “Mornas eram as noites” (1994), de onde foi extraído o conto aqui analisado, apenas para citarmos alguns trabalhos.

A mulher possui papel preponderante em seus textos. Salústio acompanha de perto as questões que afligem a condição feminina em seu cotidiano. Embora tenha Cabo Verde como pano de fundo, sua narrativa procura movimentar-se entre o local e o universal, ou seja, ao falar da mulher cabo-verdiana, Dina atinge todas as mulheres do mundo. Essa preocupação com a mulher podemos constatar em declaração dada à Profa. Simone Caputo Gomes (USP), a respeito dos contos de “Mornas eram as noites”:

“necessidade de publicar as inúmeras histórias de mulheres, histórias de vida que passam por mim (...) Não são ficção, é cá um encontro que é verdade, um momento só (...) Não fiz uma seleção desses textos, só o primeiro foi intencional, para querer mostrar o meu reconhecimento a estas mulheres cabo-verdianas que trabalham duro, que fazem o trabalho da pedra, carregar água, trabalham a terra, que têm a obrigação de cuidar dos filhos, de acender o lume. Quis prestar homenagem a esta mulher (...) Falo das mulheres intelectuais, daquelas que não são intelectuais, daquelas que não têm nenhum meio de vida escrito, falo da prostituta, falo de todas as mulheres que me dão alguma coisa, e que eu tenho alguma coisa delas (...) Em Cabo Verde, quando nasce uma menina, ela já é uma mulher.” (Apud: Sepúlveda, 2000, p. 114)

Dentre os vários heterônimos que Fernando Pessoa criou, Álvaro de Campos é um dos mais importantes, junto com Alberto Caeiro e Ricardo Reis. Os três possuem biografia própria, estilos literários diferentes e produzem uma obra paralela a de Pessoa. Para o crítico e poeta Ferreira Gullar, os heterônimos:

“habitam Fernando Pessoa. Convivem com ele, discutem com ele, misturam sua voz à dele, o influenciam. São portanto parte de Fernando Pessoa e compõem a sua personalidade contraditória e multiforme. Que Pessoa projeta e realiza neles tendências e qualidades pessoais está dito na carta de 13 de janeiro de 1935 a Adolfo Casais Monteiro. Pessoa escreve: ‘E contudo —penso-o com tristeza— pus no Caeiro todo o meu poder de despersonalização dramática, pus em Ricardo Reis toda a minha disciplina mental, pus em Álvaro de Campos toda a emoção que não dou nem a mim nem à vida.’” (GULLAR)

Gullar considera que, talvez, Álvaro de Campos:

“seja um heterônimo mais perto de Pessoa que os outros, mais perto da pessoa de Pessoa. Mesmo porque, como o cidadão Fernando Pessoa – ao contrário de Caeiro e Ricardo Reis – Álvaro de Campos é citadino, urbano, metropolitano, contemporâneo das usinas e da luz elétrica”. (GULLAR)

Campos é um entusiasta das inovações industriais e tecnológicas da virada do século XIX para o XX, o que o aproxima do movimento modernista conhecido como futurismo, idealizado pelo italiano Marinetti. Poeta moderno, “ligando-se à estética de vanguarda futurista, em sua poesia, é possível perceber as transformações do espaço social bem como o desenvolvimento da tecnologia”. (SILVA)

O encantamento e posterior desencanto com as mudanças tecnológicas, levou-o a se tornar um crítico feroz da modernidade. Suas conseqüências ao homem moderno e à sociedade burguesa mantêm a atualidade. Em sua fase final, seus poemas demonstram desapontamento com os rumos tomados pela sociedade industrial. Campos passa a ser um homem solitário e angustiado; descrente com a perda de valores e artificialidade das relações humanas, motivadas com o recrudescimento do capitalismo.

Um outro aspecto da personalidade de Álvaro de Campos associado a Fernando Pessoa, e, apontado por muitos críticos, inclusive Ferreira Gullar, é o homossexualismo. Gullar menciona que “por ser tão preso aos sentidos, ao corpo, é natural que nele (Álvaro de Campos) se manifeste o lado feminino de Pessoa, que Pessoa, por temor, reprime”. Como constatamos em carta a Adolfo Casais Monteiro,

“Se eu fosse mulher – na mulher os fenómenos histéricos rompem em ataques e coisas parecidas – cada poema de Álvaro de Campos (o mais histericamente histérico de mim) seria um alarme para a vizinhança. Mas sou homem - e nos homens a histeria assume principalmente aspectos mentais: assim tudo acaba em silêncio e poesia.” (PESSOA – Fernando Pessoa por ele mesmo)

Apresentações feitas, comentaremos, a seguir, as obras escolhidas.

No conto “Campeões de Qualquer Coisa”, a atitude masculina é redimensionada e reavaliada por um novo prisma, a partir de um homem que se considera normal e não aceita a disputa desenfreada, comum entre seus pares. No conto, uma narradora-personagem conversa com um indivíduo em uma festa. Mostra-o vários grupos presentes, identificando-os como “os campeões das anedotas estão ao fundo, ao lado, os campeões da política internacional, à esquerda os do futebol, os do sexo, debaixo do abacateiro, os do copo, junto ao bar (...)” (SALÚSTIO, 1999, p. 13). Porém, o personagem afirma que “não eras campeão em coisa nenhuma e nem sequer eras bom em qualquer coisa e que eras do tipo normal” (SALÚSTIO, 1999, p. 13).

Logo em sua primeira intervenção, o personagem assume sua condição: a de ser normal. Apreendemos que a normalidade é algo ruim, ser normal é não ser campeão, não ser competitivo, o que pode ser tachado como uma pessoa derrotada. E apesar de a narradora-personagem surpreender-se com a declaração, pois está acostumada com as histórias inventadas pelos homens, a postura do interlocutor a conduz à reflexão, questiona suas posições, contudo, ela insiste em enquadrá-lo em algum grupo e propõe-lhe que atue como os outros:

“Não havia tristeza nas tuas palavras e, como pensei que um homem normal o mínimo que se devia sentir era triste pela revelação e porque já havia percorrido vários grupos onde cada um era melhor que todos e estava com uma espécie de raiva concentrada, disse-te não te preocupes, pois há um campo onde não precisas provar nada. Vai para debaixo do abateiro. (...) Conta as tuas fantasias e os teus fantasmas. (...) Inventa situações, viagens e encontros, princesas e prostitutas, (...) Inventa. Inventa o mais que puderes. Faz como os outros. (...) Mente. Mente muito. E sobretudo exagera. Exagera até o impossível. Vá. Campeão é assim.” (SALÚSTIO, 1999, p. 13-14)

O personagem permanece convicto em sua posição, em uma linguagem ferina ironiza o comportamento masculino, expõe a imaturidade e arrogância dos homens, e o incômodo causado pelas declarações artificiais. Depreendemos que, além da ironia, percebemos um certo tom de tristeza com a hipocrisia de seus contemporâneos:

“Teimosamente disseste que não podias, que não querias fazer-te de atleta de façanhas tantas, porque eras adulto e há muito passaras os dezassete anos e que as tuas necessidades e os teus interesses eram outros e que as tuas fantasias eram as tuas parceiras e expô-las em público seria como veres-te ao avesso num grande écran. E acrescentaste que o ridículo te perturbava e, muito sério ajuntaste: o pior é que o ridículo de cada um de nós perturba a todos profundamente.” (SALÚSTIO, 1999, p. 14)

O personagem posiciona-se de forma diferenciada ao padrão comportamental masculino. Questiona a hipocrisia de uma vida em mentiras, as máscaras que os homens se vêm obrigados a criar, para sobressaírem em uma sociedade hiper-competitiva. Por possuir autocrítica e não se enquadrar na norma estabelecida, considera inadequadas tais atitudes. Por ser um observador arguto da sociedade em que vive, encontra dificuldade em se relacionar com pessoas falsas e imaturas. Ao comparar-se com os outros, revela-se diferente, e, com ironia, justifica-se:

“Ensinaram-nos que devíamos ser heróis de qualquer coisa. Exigem que façamos permanentemente exercícios de auto afirmação. Não nos educaram para corajosamente debatermos os nossos medos, falhas, hesitações, infernos. Apetrecharam-nos com o mito de super-machos e esperam que sejamos vencedores, fazendo-nos inimigos da própria maneira de estar, escamoteando a verdade, falseando as fronteiras. E porque somos apenas normais e temos vergonha da nossa normalidade, passamos o tempo todo a pensar numa roupagem que impressione. E vestimo-nos de atletas e mascaramo-nos de campeões, para, às escondidas, chorarmos a nossa simplicidade, a vulgaridade que enforma os nossos sentimentos íntimos. Não temos coragem para dizer não sou o melhor e não tenho que o ser, nem justificar-me da minha fragilidade. Entrar em competição com as minhas fantasias e as dos outros seria sinal de simples imaturidade e falta de respeito por mim próprio – prosseguiste descontraído, quase a rir.” (SALÚSTIO, 1999, p. 14-15)

Já Álvaro de Campos, na segunda década do século XX, denuncia a dissimulação dos homens no impactante e incomum primeiro verso do “Poema em Linha Reta”: “Nunca conheci quem tivesse levado porrada”. E enfatiza o porquê de tal enunciação: “Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo”.

Apreendemos nos dois primeiros versos o tom amargo, irritado e decepcionado com os homens, sendo esta última característica a que perpassará por todo o poema.

Na estrofe seguinte, o sujeito-lírico aponta várias características que o tornam um ser humano desprezível: “irrespondivelmente parasita”, indesculpavelmente sujo”, “que tenho sofrido enxovalhos e calado” e “que tenho sofrido a angústida das pequenas coisas ridículas”. O sujeito-lírico é um ser desterritorializado, não encontra lugar no meio em que vive, não se ajusta aos parâmetros estabelecidos pela sociedade competitiva. Em sua crise existencial, despersonalizado e tratado com desdém pelos seus pares, conclui, melancólico: “Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo”.

A competição desenfreada força as pessoas à exibição pública, elas precisam se promover a todo instante, a arrogância ostentada perante o outro atinge níveis insuportáveis. Todos aparentam ser líderes, fortes e competentes, ou seja, são todos “príncipes”:

“Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...” (PESSOA)

O sujeito-lírico clama aos homens com incontestável irritação e, da ironia, parte para o sarcasmo. À beira do desespero, implora para que os homens sejam eles mesmos, que desçam do pedestal de mentiras em que se encontram e ajam como pessoas normais. Em uma sociedade desajustada como a vivenciada pelo sujeito-lírico, as pessoas vangloriam-se de seus atos violentos, porém são incapazes em admitir suas covardias. O poeta procura pessoas frágeis, falíveis. Pessoas comuns, humanizadas, solidárias com o próximo:

“Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia! (...)
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,
Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?” (PESSOA)

Revoltado e magoado com os homens, ainda assim recorre à ironia, e pergunta: “Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?”. Há uma proposital discordância gramatical na oração, pois assim o sujeito-lírico enfatiza que não é ele que “é vil e errôneo”, mas, sim, o que as pessoas pensam dele. Na comparação, distancia-se dos outros, e o que seria prejudicial para ele é, na verdade, válido e de bom grado, porque afasta-se da conduta ignominiosa, da desumanidade reinante em um mundo de ilusões.

Até quando erram e resolvem comentar seus erros, os homens não assumem suas falhas, escoram-se na diminuição ou ocultam os fatos, tentam se proteger e, com isso, escapam da desmoralização:

“Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.” (PESSOA)

Na última estrofe, a pergunta surge ironicamente “Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?” e mostra o seu desajuste em relação ao mundo de seres perfeitos, logo ele que é “vil”. Em todo o poema, depreendemos que o sujeito-lírico se coloca como um ser acomodado com a imperfeição natural dos homens, que considera as qualidades e defeitos humanos como normais, que a vida é feita de altos e baixos, de derrotas e vitórias. Por isso, não aceita a exclusão social ao qual é submetido, da frieza e desprezo que as pessoas têm pelos que não são perfeitos, por aqueles que vivem uma vida real, não uma vida idealizada. E, principalmente, apresenta um erro crasso cometido pelas pessoas na modernidade: a ausência de autocrítica.

Os dois textos têm em comum a reflexão da autocrítica, entretanto, os dois autores vão além da questão ao tratar da reflexão à falta de autocrítica dos outros. Novamente, recorro a Leandro Konder:

“acho que o que há de novo e o que há de mais original, mais forte no “Poema em linha recta” é o desdobramento da autocrítica, não mais numa crítica ao outro, mas uma crítica à falta de autocrítica dos outros. Quer dizer, acho que se pode enxergar nesse poema a revolta de alguém que se mostra efetivamente capaz de se interpelar a respeito do seu lado noturno, digamos. Discorre sobre o que ela tem de mais problemático, mais doloroso e mais fracassado, sobre sua própria vileza, e vê essa sua franqueza, essa sua coragem resvalar na muralha hipócrita de um sistema que está alicerçado em uma enfática autovalorização artificial, por parte das pessoas em geral.” (KONDER)

Percebemos que tanto Dina Salústio quanto Álvaro de Campos utilizam a ironia para escancarar uma sociedade dominada pela perversidade da competição capitalista, que despreza os incapazes e debocha dos fracos. Que estimula a dissimulação, a mentira, o egoísmo nas relações sociais. Os dois autores já são irônicos nos títulos das obras: “Poema em Linha Reta” é a metáfora do quanto é impossível se ter uma vida em linha reta, pois se formos traçar uma linha da vida ela será sinuosa, em curvas a simbolizar os altos e baixos da experiência humana; e “Campeões de Qualquer Coisa” denuncia a artificialidade das relações sociais. A franqueza e a coragem em admitirmos erros, são problemas que devem ser ocultados de qualquer maneira na época atual. Devemos mentir. Mentir para garantir o nosso lugar no mundo, mesmo que para isso tenhamos que inventar títulos ininterruptos, novos, melhores e maiores.

Os textos aqui apresentados tratam de dois seres despersonalizados diante da sociedade moderna, no mundo que lhes couber viver. São solitários e amargurados. Como são observadores perspicazes da época em que vivem, utilizam-se da ironia como elemento crítico da ordem estabelecida e procuram alcançar o riso incômodo do leitor. Subvertem a situação vigente, ao assumir o que é considerado grotesco por ela. Ao não se alinharem na disputa feroz entre os homens, estimulada pelo capitalismo, distanciam-se dos outros, são excluídos, ignorados e tratados como fracassados. Contudo, seus desejos passam pela vontade de conviver com pessoas que acertam e erram, perdem e ganham, ou seja, pessoas que são apenas homens.

Concluímos que há muito a aprender sobre nosso comportamento, a refletir sobre a ética distorcida da contemporaneidade, que valoriza aquilo que a pessoa não é em detrimento daquilo que realmente a pessoa é. Inferimos a despersonalização do ser em um mundo idealizado, ilusório e virtual. E os textos de Álvaro de Campos e Dina Salústio, o primeiro escrito no raiar do século XX e o segundo na derradeira década do mesmo, atentam-nos para as contradições e a degradação do ser humano em uma sociedade hipercompetitiva, como a vivenciada por nós no alvorecer do século XXI.



FONTES:
GOMES, Simone Caputo. Mulher com paisagem ao fundo: Dina Salústio apresenta Cabo Verde. In: SEPÚLVEDA, M. C. & SALGADO, M. T. (ORGs). África & Brasil: letras em laços. Rio de Janeiro: Atlântica, 2000.

GULLAR, Ferreira. Fernando Pessoa: a razão poética. Folha de São Paulo, Caderno Mais!, 10/11/1996. Acessado em 25/03/2008, em http://www.secrel.com.br/jpoesia/gular04.html

KONDER, Leandro. A questão da ideologia na ficção literária. Revista Semear nº 5. PUC/RJ. Acessado em 25/03/2008, em http://www.letras.puc-rio.br/Catedra/revista/5Sem_10.html

PESSOA, Fernando. Poema em Linha Reta. In: Fernando Pessoa - Obra Poética. Rio de Janeiro: José Aguilar, 1972.

SALÚSTIO, Dina. Campeões de Qualquer Coisa. In: Mornas eram as noites. Colecção Lusófona. Lisboa: Camões, 1999, pp. 13-15.

SILVA, Wellington Augusto da. Álvaro de Campos: a moderna crítica da Modernidade. Revista Garrafa nº 8 – janeiro-abril/2006. Departamento de Ciência da Literatura da faculdade de Letras da UFRJ. Acessado em 26/03/2008, em http://www.ciencialit.letras.ufrj.br/garrafa8/al-wellingtonaugusto.html

sexta-feira, 28 de março de 2008

José Luís Hopffer Almada (Cabo Verde)

O escritor e ensaísta cabo-verdiano José Luís Hopffer Almada possui uma coluna, de extremo interesse para os estudantes das Literaturas Africanas de Língua Portuguesa, sobre a literatura de seu país no jornal on line Liberal. Abaixo, segue o endereço:

http://www.liberal-caboverde.com/search/search.asp?idautor=154&autorName=José%20Hopffer%20Almada&SearchType=0&SearchLocal=0&SearchRange=3&IdSeccao=0

Riso

quinta-feira, 27 de março de 2008

Pepetela: entrevista

http://www.portaldaliteratura.com/entrevistas.php?id=18

FOLHEANDO COM
Pepetela
26-03-2008

Nasceu em Angola, licenciou-se em Sociologia, foi guerrilheiro, político, ganhou o Prémio Camões em 1997, é actualmente professor na Universidade Agostinho Neto, em Luanda. Falamos naturalmente de Pepetela a quem tivemos o prazer de entrevistar.

«E os bairros estavam vazios. Pensei, terá havido um festival de música, única razão levando toda a gente para fora dos bairros? Ou um culto monstro de uma igreja que oferece todas as curas? Nunca um fenómeno assim acontecera, bairros inteiros desertos, sem sequer um bebé, com viaturas pelos cantos, algumas de portas abertas. Devia ser outra coisa. E nada boa, disse o meu coração apertado.»
A ideia de sobrevivência a um holocausto, tema do livro, pode ser vista como uma simples ficção ou como um sério aviso para os actuais caminhos da humanidade?

Digamos que é uma ficção, e era isso que queria fazer, uma ficção onde me sentisse livre de inventar o que me desse na gana. Mas como sou um cidadão preocupado com os rumos do Mundo, é evidente que essas preocupações aparecem. Pode ser tomado também como um aviso para as consequências das brincadeiras que nos permitimos fazer com o ambiente.

«Estava mais que provado não ser possível construir uma população a partir de um par original, sem contributos de genes externos, a ciência contrariando as crenças bíblicas de um Adão e Eva serem antepassados únicos de toda a humanidade.»
Ao lermos o livro ficámos sempre com a sensação de uma clara intolerância às crenças religiosas, que de resto justifica. Porém, um dos personagens é um quimbanda (feiticeiro) por quem o narrador tem sempre uma visível tolerância, atribuindo-lhe até conhecimentos ancestrais capazes de o fazerem adivinhar uma gravidez. Não haverá alguma condescendência da sua parte em relação a estes feiticeiros?

Não acho haver intolerância em relação a crenças religiosas, que respeito. Sou intolerante em relação às intolerâncias, o que é diferente. E por que não ter alguma simpatia por práticas ancestrais em que tantos do meu povo acreditam? Não é por aí que vem grande mal ao Mundo…

«Uma civilização desenvolve-se até poder fabricar as armas capazes de a destruir, tal é o seu destino.»
Estará o ser humano irremediavelmente perdido? O que podemos fazer para contrariar este vaticínio?

Perdido não estará irremediavelmente. Mas tem de aprender a usar o enorme poder que tem entre mãos e, sobretudo, a dominar os seus apetites e arrogâncias. Alguma humildade só lhe faria bem.

O leitor vai certamente surpreender-se com a explicação para o quase fim do mundo. A sensação que se tem, quando se acaba de ler o livro, é que o escritor se vai preparar para continuar a história. Como é que a nova humanidade se vai desenvolver, de quem serão as crianças que vão nascer, como é que se compatibilizarão mentalidades tão diferentes como o da Dona Geny, o de Riek ou o de Ísis, ou o do estranho Jan Dippenaar. O Pepetela já terá certamente imaginado, ainda que superficialmente, no que poderia vir a acontecer. Há a possibilidade de retomar o tema?

De facto, já disse que esse livro podia ter outras tantas páginas. A estória pediu-me para terminar ali e eu fiz-lhe a vontade. Mas é evidente que dava para continuar. Até chegarmos a uma nova civilização que se destruísse. Mas não tenho a intenção de retomar o tema, embora nunca diga de uma forma definitiva. Quem sabe?

Que diferença há entre o Pepetela que escreve Predadores e o Pepetela que escreve O Quase Fim do Mundo?

Os livros são diferentes, como devem ser todos os livros de todos os autores. O tema é outro, até mesmo o cenário. Mas, provavelmente, haverá uma mesma preocupação de fundo, o destino das pessoas.

Quais têm sido as suas principais referências literárias? Que livro leu ultimamente que mais o tenha impressionado?

Há muito variadas. Na minha juventude foi a literatura brasileira e a norte-americana, com excursões sérias pela francesa, italiana e russa. Mais tarde fui encontrando outros. Ultimamente, um autor que me impressionou muito e de quem já li praticamente toda a obra foi Phillip Roth.

Sabemos que faz parte da União dos Escritores Angolanos. Gostaríamos que resumisse para o Portal a situação actual da literatura angolana, os valores que vão despontando e, finalmente, o que pensa do acordo linguístico recentemente assinado.

A literatura angolana ainda não se afirmou como poderia. Houve períodos em que até era difícil publicar no país e os jovens tinham poucos hábitos de leitura. Isso reflecte-se na actualidade, em que têm aparecido poucos escritores jovens que se afirmam. Um problema sério é o fraco domínio que têm da língua portuguesa, pela fraca qualidade de ensino que enfrentamos. Há talentos, há estórias, muita criatividade, mas por vezes falta a ferramenta linguística ou os apoios necessários ao começo. Mas penso que a literatura se vai desenvolvendo progressivamente.
Quanto ao acordo ortográfico, acho que se está a discutir muito sobre pouco. Ou era um acordo radical, que unificaria de facto a grafia (e só isso) ou então não valeria a pena mexer. Nunca ouvi de alguém não ter conseguido ler um livro brasileiro porque tem tremas ou certas consoantes que caíram no meio das palavras. O importante seria os governos porem-se de acordo para, de uma vez por todas, acertarem uma política comum de desenvolvimento e promoção da língua portuguesa. Isso sim, seria importante.

quarta-feira, 19 de março de 2008

Novos lançamentos

O caderno Idéias, do Jornal do Brasil, de 15 de março de 2008, em sua página I5, informa futuros lançamentos de livros de autores africanos de língua portuguesa:

Mia Couto comparece com dois inéditos por aqui: O fio das missangas e O gato e o escuro, ambos pela Companhia das Letras. A Escrituras publicará O osso côncavo & outros poemas, de Luís Carlos Patraquim. Já a Língua Geral soltará no mercado Sodoma divinizada, organizada por Zetho Cunha Gonçalves; Estação das chuvas, de José Eduardo Agualusa; Chovem amores na rua do matador, de José Eduardo Agualusa e Mia Couto; e Predadores, de Pepetela.

Aguardaremos!

Abraço,
Riso

*Agradecimento especial à Profa. Marta Faraco (UNESA) por me entregar uma cópia do jornal.

terça-feira, 18 de março de 2008

Eduardo White: Poemas da ciência de voar e da engenharia de ser ave

Eduardo White é poeta moçambicano. Em sua poesia veremos uma linguagem poética que será levada pelo vôo onírico em questões existenciais, filosóficas e metapoéticas, ou como lembra Mia Couto, o poeta segue a tradição de que a "poesia lírica sempre arriscou em Moçambique" (WHITE, 1992, pp. 9). Essas questões são retomadas pela literatura moçambicana a partir dos anos 1980, com o país independente, porém, arrasado pela guerra de desestabilização realizada entre a Frelimo (partido que liderou a independência do país) e a Renamo (partido apoiado pela Rodésia e África do Sul).

Diante da situação de asfixia de séculos de colonização portuguesa e a posterior libertação de Moçambique, a poesia, principalmente nas décadas de 1960-1970, era engajada, política, doutrinária, não havendo espaço para questões existenciais e metapoéticas, que só seriam retomadas no raiar dos anos 1980 com Luís Carlos Patraquim (Monção) e Mia Couto (Raiz do orvalho), e a seguir pela geração da revista Charrua (1984), da qual Eduardo White é contemporâneo.

Selecionei alguns poucos poemas de raríssima beleza do livro Poemas da ciência de voar e da engenharia de ser ave (Lisboa: Caminho, 1992). Ao prefaciar a obra, Mia Couto aponta para a relevância da poesia de White diante de um momento delicado pelo qual passava o país, dilacerado e desgastado por tantos anos de uma fratricida guerra:

"Aqui está uma poesia fortemente embrenhada nos conflitos do seus tempo, empenhada com a alma moçambicana. Talvez a abundância da morte, a irracionalidade da tragédia moçambicana alimentem, pela negativa, os versos de Eduardo White. Porque há nestes textos fôlego de esperança que só os magos e adivinhos pressentem. Num mundo de caos e violência é preciso cuidar das palavras como se, no seu ventre, elas trouxessem o núcleo prenunciador de um outro mundo. (...)
Tudo nesta escrita quer voar. A pedra, o fogo, a casa. Porque estes versos sugerem um ritual de iniciação ao belo, uma reaprendizagem do fascínio. O poema confirma: sonhar é uma imitação do voo. Só o verso alcança a harmonia que supera os contrários - a condição de sermos terra e a aspiração do eterno etéreo. (...) O poeta vai a pedra e lhe concede a respiração. Toca no fogo e lhe empresta a febre da água. Magia de quem recusa a condição terrestre, ilusão da eternidade: as aves não envelhecem. Tradutor de uma caligrafia celestial, essa que só a pluma da asa pode redigir, Eduardo White reinventa as imensas paisagens do seu país, a geografia da ternura que só os pássaros sabem percorrer.
Eduardo não escreve sobre aves. Escreve em aves." (WHITE, 1992, pp. 9-10)

Espero que gostem.
Riso

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Não faz mal.

Voar é uma dádiva da poesia.
Um verso arde na brancura aérea do papel,
toma balanço,
não resiste.

Solta-se-lhe
o animal alado.
Voa sobre as casas,
sobre as ruas,
sobre os homens que passam,
procura um pássaro
para acasalar.

Sílaba a sílaba
o verso voa.

E se o procurarmos? Que não se desespere, pois nunca o iremos encontrar. Algum sentimento o terá deixado pousar, partido com ele. Estará o verso connosco? Provavelmente apenas a parte que nos coube. Aquietemo-nos. Amainemo-nos esse desejo de o prendermos.

Não é justo um pássaro
onde ele não pode voar.

(p. 22)


Vou mostrar-vos de outra maneira toda a substância desta mania. Um pássaro bebe nu na minha boca e em vão vai querer saber que álcool o comove com tanta frescura. Primeiro pia, limpa as asas robusta ainda húmidas da saliva e depois canta e ferve e sua, e num minuto já todo o corpo lhe estrebucha. Chama por mim. São muito velozes e bruscas as suas tonturas e eu face a isso pergunto-vos por que terá vindo nu um pássaro a beber à minha boca? Que esplendor ou embriaguez ele procura? Que obscuros dons, que vocação, que loucura?
Vamos, entremos agora no mistério onde o poema nos vigia, rente ao murmúrio para que a alegria não retina e podem ver ao fundo, ali, um estábulo onde as palavras se abrigam, acolá, um bebedouro onde a memória bebe, os restos de feno, dois tipos que trabalham em pleno escuro e já visível a farma, a terra em uso. Estão aqui os instrumentos, os moldes da mania de que vos falei há bocado.
Voemos.
Voar não é senão essa ilusão,
fazê-la possível. Tê-la vivendo.
Voar é estender as mãos
a esse desejo que nos dói
como um punhal insurgente.

(p. 26)


Ocorre-me agora
a pupila minúscula de uma criança.
A sua engenharia
desde o corpo na guerreira pequenez
ao dedo provador da boca.
Ocorre-me esta criança
este monge da franqueza em seu templo de inocência.
Amo-a. Vivo-a.

Voar é poder amar uma criança.
Sonhar-lhe o peso no colo, as mãos acariciantes
sobre a palma da alma.

Voar é tardar a boca
na rosa do rosto de uma criança.
Pronunciar-lhe a ternura,
a seda fresca e pura
da sua infância.

Voar é adormecer o homem
na mão sonhadora
de uma criança.

(p. 28)


Por exemplo, o fogo.
O fogo estabelece o seu trabalho,
a sua centígrada destreza para arder.
E não sei se notaste
que na digital matriz das suas febres
o fogo opõe-se,
insubmisso,
a morrer.

Arde como se definitivo
e quando assim sucede tende a crescer,
busca aquela leveza das altas labaredas,
a implícita tontura das fagulhas.
O fogo arde como se quisesse fugir do chão,
das suas cavernas metalúrgicas,
ascende ao impulso dos foguetões,
à infância astral, à casa solar.

O fogo entristece, por vezes.
Chora inflamável na sua fatalidade terrestre
a estranha e lenhosa prisão
que o prende e embrutece.

Quer voar,
quer a sua ancestral condição de estrela
mas na corrida espacial com que o fogo queima,
na perpétua evasão,
a gula intestina-o
à sua pressa.

(p. 19)

quinta-feira, 13 de março de 2008

Mia Couto: Três fantasmas mudos para um orador luso-afónico

O orador avisado faz uso de toda a estratégia para considerar o tema da palestra como sendo do domínio do impossível. Neste caso, sucedeu o inverso: o tema é que tornou impossível o orador. Identidade, língua, marcas culturais: são três fantasmas partilhando a mesma cama. E quando se entra no quarto, acreditando surpreendê-los em flagrante delito eis que descobrimos que não há cama, nem quarto, nem amantes.

Corremos o risco de somar aos três anunciados fantasmas um outro inesperado. Esse outro fantasma sou eu mesmo. Venho de longe, para muitos de vocês sou um escritor desconhecido. Sou moçambicano e Moçambique é do domínio das miragens. Tenho uma pronúncia que, aos ouvidos da maioria dos brasileiros, me atira para a identidade de um “português”.

O mais fácil, pensei eu, seria começar por desvanecer o meu estatuto fantasmagórico. E é isso que tentarei fazer. Irei falar não de mim, mas da língua portuguesa em Moçambique, da errante identidade de uma literatura moçambicana e de marcas culturais brasileiras em sucessivas gerações de escritores moçambicanos.

O centro da minha intervenção, porém, será a questão da identidade. Ou das identidades no plural. Escolhi falar deste tópico exactamente porque as identidades não são faláveis. Elas são esquivas, fortuitas, inventadas. As identidades não são nomes. São verbos que se enunciam sempre no futuro. Recorro a um provérbio dos macuas, um povo do norte de Moçambique. E o provérbio diz assim:

Não fales sobre Deus porque Deus é como o ovo. Se apertas muito ele quebra; se não agarras bem ele cai.

A mesma condição volátil contamina o tema da nossa conversa de hoje.

A alguns de vocês terão visto o filme de Vítor Lopes sobre a Língua Portuguesa onde aparecem João Ubaldo, José Saramago, Martinho da Vila e outros. Quando dei o depoimento para este filme eu estava na Ilha da Inhaca, onde durante anos trabalhei como biólogo na Estação de Biologia da Universidade Eduardo Mondlane. (não só escritor, também sou uma pessoa séria...) Pois nessa ilha passou-se o seguinte (fala de improviso):

Certa vez eu estava no cais de saída para a capital quando vi chegar, num outro barco, que eu conhecera em Nápoles, um apaixonado pela África que vinha pela primeira vez a Moçambique. Ele não sabia uma palavra de português e viajava por sua conta para a ilha de Inhaca, durante a minha ausência. Na despedida, ele a si mesmo se consolou: “pois nós os italianos falamos muito com as mãos, vocês aqui também usam muito gesto, eu lá me entenderei...”

O homem ficou por lá uma semana, regressou a Maputo, feliz e gratificado por ter conseguido um entendimento pleno. Mais tarde, eu lá fui para a ilha, para a Estação de Biologia onde eu trabalhava. Cruzei com um velho funcionário, perseguido pelo italiano e, logo, veio a inesperada observação: “esse homem não tem juízo completo”. O que se passara? Pois, logo numa primeira conversa um grupo de ilhéus quis saber do italiano se ele tinha filhos. A resposta afirmativa foi reforçada com gestos para assinalar os tamanhos de seus rebentos. E aqui sucedeu o mal entendido. O italiano marcou a altura dos filhos com um gesto que, ali, na ilha era quase uma obscenidade. Qualquer europeu fazia o mesmo: estenderia a mão, paralela ao chão. Mas nos códigos locais, a mão plana, bem aberta, indica um objecto inanimado, um morto sem ligação afectiva. A mão curva, fechada e virada para cima indica o tamanho de quem está crescendo, de uma criança em trânsito para ser adulto. Que raio de pai era aquele europeu que falava assim dos seus próprios filhos?

Recordei-me deste episódio porque a identidade é como o tamanho da criança: está em trânsito, não pode ser capturada em gesto, nem em palavras.

Afinal, na pequena história que evoquei todos estão com a razão. Está certo o gesto do italiano. Na lógica do meu amigo europeu, a pessoa só tem tamanho quando se converte em medida, número e risco na fita métrica. Mas a questão, para os ilhéus da Inhaca, é que um menino não é ainda uma pessoa. É um indivíduo em trânsito para a idade adulta.
Na cosmogonia dos moçambicanos ninguém nasce pessoa. Vamo-nos tornando gente à medida que somos iniciados por experiências e vivências.

É por isso que a criança pode ir mudando de nome, à medida que cresce e cumpre rituais de passagem. O menino pequeno, quando falece, é enterrado junto ao rio. Só depois de receber o seu segundo nome é que pode ser sepultado em chão firme. É esse o nosso destino: nascemos água, vamos a caminho de sermos terra.

Aqui há algo que é anterior às línguas, e que são as lógicas com que vemos o mundo e o modo como damos nome às coisas e aos seres. No mundo rural africano, a identidade é definida de forma aberta, transitável e transitória. Alguém pode ser pessoa de dia, árvore de tarde e bicho de noite. Os mortos podem usar a voz e o corpo dos vivos, a vida está disponível para ser vivida pelos mortos.

Chegamos, assim, a uma primeira constatação: as identidades são transitórias e precárias. O problema é que elas são quase sempre vividas como definitivas e eternas. Mais grave ainda é que a identidade toma-se a si mesma muito a sério. E atira-nos para a tentação de nos definirmos como essências, entidades puras, certezas inabaláveis que justificam guerras e cruzadas.

Não sou um especialista para falar do tema que escolhi. Sou sim, uma vítima predilecta dos equívocos gerados em redor da identidade. Já explico. Na nossa vida quotidiana os dados de identificação são facilmente sumarizados e constam de quase todos os formulários burocráticos. Esses dados são: o nome, o sexo, a nacionalidade, a raça, a língua, a idade, o estado civil. Seguiremos agora para cada uma dessas categorias e veremos como todas podem suscitar curiosos embaraços. Comecemos pelo nome.

O nome

Aos dois anos de idade tive a infeliz idéia de reclamar um novo nome para mim mesmo. Contra o António de nascença – eu inventei um outro nome: Mia. Rebaptizei-me com esse nome em celebração com a minha vivência com os gatos da vizinhança. Não é que eu gostava de gatos. Eu acreditava ser gato. Eu não pensava: eu era um gato.

Veremos, mais tarde, que tive que pagar por esse meu rebaptismo. O meu nome, esse que me confere a primeira identidade, tem-me causado um sem número de penosos mal-entendidos. Já li, por exemplo, uma tese argumentando que “Mia” é uma palavra africana bantu com significados mágico-religiosos.

Mais grave ainda é a forma com a tribo dos amantes de gatos me têm adoptado como membro incondicional. Certa vez, numa cidade de Portugal onde eu lançava um livro, uma simpática senhora me chamou e disse:

- Venha à minha livraria que eu quero que conheça o Gil Vicente.

Lá fui intimidado com a solenidade do encontro. Alguém que tinha o nome do célebre dramaturgo lusitano seria certamente pessoa de valor. Entrei na livraria, não havia ninguém. Foi quando a proprietária do estabelecimento se aproximou da caixa registadora e apontou para um enorme gato. E anunciou com ar formal:

- Gil Vicente, este é o escritor de que falei e que é um apaixonado por gatos.

De imediato, já ela apontava uma câmara fotográfica para eternizar em imagem o nosso encontro. Sugeriu para que me chegasse mais perto do bicho e, no momento em que tentei fazer-lhe uma carícia, o gato deu-me uma vigorosa dentada. Foi assim que surgi na fotografia, exibindo um esgar de dor e espanto perante os dentes felinos que se cravavam no meu braço.

Até hoje, guardo a cicatriz desta dentada. A dona do estabelecimento tornou-se uma amiga. E ganhei o orgulho de poder dizer que fui mordido por Gil Vicente.

O sexo

Não é que eu possua, devo dizer à partida, dúvidas de identidade neste capítulo. O problema são os mal-entendidos que decorrem do nome “Mia” que se acredita ser um nome feminino. Há tempos, na Argentina, o protocolo do Ministério da Educação que me tinha convidado, pediu para que esperasse na recepção do hotel pois tinham que mudar algo na acomodação prevista. Soube, depois, que me haviam reservado o chamado “quarto-cor-de-rosa”.

Numa visita como jornalista a Cuba, nos anos oitenta, recebi uma prenda do Presidente Fidel. Era um pequeno baú de madeira, que seguiu no porão. Estávamos em guerra, não tínhamos nada em Moçambique. A curiosidade perseguiu-me durante toda a viagem de regresso: o que se escondia no caixote? Chegado a casa não podia ser maior a minha desilusão: o baú continha eram vestidos, brincos, colares. O protocolo cubano tinha sido ludibriado pelo tom feminino do meu nome. Guardo a certeza de ter sido o único homem a quem Fidel Castro ofereceu uma saia.

A raça e a etnia

Nos lugares chamados de “civilizados” ninguém pergunta a que grupo étnico pertencemos. Mas quando se fala sobre África já se acredita que é importante discriminar a pertença étnica. África para uma certa facilidade televisiva explica-se facilmente pelas tribos e etnias.

A este propósito quero lembrar a história do missionário Henri Junod que nos finais do século 19 saiu da Suíça Francesa para vir pregar em Moçambique. Ao contrário das grandes potências europeias, a Suíça não tinha colónias em África. A Igreja Livre de Lausane a que pertencia Junod só podia sobreviver se encontrasse nos territórios africanos uma espécie de terra de ninguém. Junod chegou a Moçambique e deparou com um conjunto de clãs dispersos que se nomeavam a si mesmos em função da família dominante: havia os Kossas, os Bilas, os Maluleques, os Matsolo, etc. O que Junod fez foi propor uma espécie de língua franca a partir de variantes dialectais destes grupos. Fixou a língua, codificou-a, organizou uma gramática e publicou um dicionário. Deu a essa língua o nome de Tsonga. Depois sugeriu que os povos do Sul de Moçambique fossem igualmente denominados por Tsongas. Encontrou uma generalizada resistência. Tsonga era o nome que os invasores sul-africanos zulus davam aos moçambicanos escravizados. Era um termo depreciativo. Mas o termo ficou e foi abraçado por elites locais que estavam em conflito com a administração colonial portuguesa. Ocorreu assim uma espécie de negociação entre as chefaturas negras e os missionários suíços. Os religiosos suíços outorgavam uma identidade etno-linguística e recebiam em troca, a legitimidade para a sua presença em África. Eles faziam da língua aquilo que outros fizeram da terra.

Ainda hoje, mais de cem anos passados, uma grande parte dos moçambicanos oficialmente designados como tsongas não se reconhecem nesse nome. Mas a verdade é que cada vez há mais gente que não apenas se aceita como tsonga mas acredita que essa identidade sempre existiu e que a sua etnia é tão antiga quanto a Humanidade.

Este é um exemplo claro e recente de como se fabricam identidades. Eu vivi esta revisitação histórica na companhia de um amigo meu, que está na Suíça fazendo o seu doutoramento em filosofia.

Historio de Severino Nguenha. Ele me dizia em Genebra: quando parti eu sabia que era Moçambicano. Aqui na Europa eu aprendi que era africano. E como africano ele sentia que devia escolher um tema africano para a sua tese. Mas ele não sabia o que escolher. Foi então que lhe sugeriram que visitasse um missionário de noventa anos, de nome Clerg, que era dos poucos discípulos de Henri Junod que ainda sobreviva. Nguenha nessa tarde mesmo foi a casa do velho suíço, bateu à porta e escutou a voz cansada perguntando num francês rouco:

- Quem é?

- Sou um estudante que veio de Moçambique.

Então, Severino Nguenha escutou passos arrastando-se pelo corredor e se arrepiou quando ouviu a pergunta:

- I wena mani? (quem é ?)

Clerk perguntava quem era, falando em tsanva. E o moçambicano respondeu:

- Mina ni Nguonha. (Sou o Nguenha)

Então, retorquiu o suíço, então és um dos nossos, entra que esta é casa dos tsongas.
Severino Nguenha, um moçambicano negro de quarenta anos de idade aprendeu naquele dia que era um tsonga, da mesma tribo de um suíço branco com mais de noventa anos.

A nacionalidade

No tempo da infância, sempre que regressava das brincadeiras no manguezal, quem me recebia em casa era o baiano Dorival Caymmi. As canções do mar se repetiam infinitamente no velho toca-discos e eu escutava inebriado como era doce morrer no mar. E para mim já era claro: o que era doce não era morrer mas o modo de dizer essa morte. Esse sotaque adocicado de uma língua que era minha e que eu desconhecia me revelou um novo litoral na minha alma. Severino Nguenha viu abrir as portas de identidade tsonga pela mão de um suíço. A porta para uma outra condição de nação foi-me aberta pela canção de Caymmi. Esse deslumbramento cresceu quando, mais tarde, se voltou a acender com os poetas e os cantores brasileiros. Eu não apenas amava essa outra pátria sem contornos. Eu me tinha convertido num brasileiro. E sempre que visito o Brasil renovo essa cidadania de uma nação que inventei.

Amin Malouf escreveu um livro sobre aquilo que chamou de “identidades assassinas”. Em resposta, necessitamos nós de assassinar a identidade singular e redutora a que nos querem obrigar. Necessitamos assumir a nossa condição errante, de eternos contrabandistas de culturas. Há que ter raiz, sim. Mas quem tem demasiada raiz não chega nunca a ganhar asas.

Lembro um episódio que me aconteceu nos anos oitenta numa pequena cidade chamada Malmo, no Sul da Suécia. Eu trabalhava na adaptação teatral de textos meus quando uma das actrizes suecas organizou um jantar para que eu conhecesse o seu professor de lambada, um brasileiro acabado de chegar à Escandinávia. Esse natural do Rio de Janeiro abrira uma pequena escola de danças brasileiras. A actriz estava encantada com o charme do professor carioca e queria saber se ele poderia participar na peça teatral. Quando o brasileiro entrou na sala e se apresentou, verifiquei com espanto que falava comigo em italiano. Pensei, primeiro, que ele não soubesse o que era Moçambique e que língua seria a minha. Mas não. O dito dançarino era italiano, nunca tinha visitado o Brasil e não sabia uma palavra de português. Fazia-se passar por brasileiro por razões de marketing de imagem. Entendemo-nos, à custa do meu pobre italiano, perante o olhar encantado da actriz sueca que nos imaginava falando em português. Embaraçado, o falso professor desculpou-se:

- Por favor, me entenda, não tenho outro emprego.

O que podia eu fazer senão entender? Já o italiano se despedia quando regressou atrás e me segredou:

- E eu posso garantir-lhe uma coisa, quando danço lambada eu deixo mesmo de ser italiano.

Quando mais tarde a actriz sueca me perguntou se havia gostado do seu brasileiro, eu
respondi:

- Não há lugar neste mundo em que não se encontre um pedaço do Brasil.

Como podem ver, não apenas vou sendo abusivamente brasileiro como até já conferi a nacionalidade brasileira a europeus em estado de aflição. Espero que nenhum agente da polícia de migração esteja presente nesta sala.

No capítulo da nacionalidade e de como a nação define identidades farei ainda referência a alguém que todos vocês conhecem. Todos descobrimos os nossos mestres na arte de pular fronteiras identitárias. Para mim o maior mestre foi um brasileiro chamado João Guimarães Rosa.

A identidade da escrita

Sou moçambicano, filho de portugueses, vivi o sistema colonial, combati pela Independência, vivi mudanças radicais do socialismo ao capitalismo, da revolução a uma guerra civil que demorou 16 anos e fez um milhão de mortos. Nasci num tempo de charneira, entre um mundo que nascia e outro que morria. Entre uma pátria que nunca houve e outra que ainda está nascendo. A minha condição sempre foi a de criatura de fronteira. As duas partes de mim exigiam um medium, um tradutor. A poesia veio em meu socorro para criar essa ponte entre mundos aparentemente distantes. O que creio que todos carecemos é de um passaporte (ou se quisermos esse password) para emigrarmos de nós, saltarmos a fronteira daquilo que alguém chamou de identidade pessoal.

Quando li pela primeira vez Guimarães Rosa experimentei uma sensação que já tinha sentido quando escutava os contadores de histórias da minha infância. Perante o texto eu não simplesmente lia: eu ouvia vozes antigas. Os livros de Rosa me atiravam para fora da escrita como se, de repente, eu me tivesse convertido num analfabeto selectivo. Para entrar naqueles textos eu devia fazer uso de um outro acto que não é “ler” mas que pede um verbo que ainda não tem nome.

Mais que a invenção de palavras, o que me tocou foi a emergência de uma poesia que me fazia sair do mundo, que me fazia inexistir. Aquela era uma linguagem em estado de transe, que se deixava possuir como os mediuns das cerimónias mágicas e religiosas. Havia como que uma embriaguez profunda que autorizava a que outras linguagens tomassem posse daquela linguagem. Exactamente como o dançarino da minha terra que não se limita a dançar. Ele prepara a possessão pelos espíritos. O dançarino só dança para criar o momento divino em que ele emigra do seu próprio corpo. O italiano da lambada também sabia disto.

Os contadores de histórias do meu país têm que proceder a um ritual quando terminam a narração. Tem que “fechar” a história. “Fechar” a história é um ritual em que o narrador fala com a própria história. Pensa-se que os relatos históricos são retirados de uma caixa que nos foi deixada por Guambe e Dzavane, o primeiro homem e a primeira mulher. No final da cerimónia, o narrador volta-se para a história — como se a história fosse um personagem e diz-lhe: “Volta para casa de Guambe e Dzavane”. É assim que a história volta a ser encerrada nesse baú primordial.

O que acontece quando não se “fecha” a história? A multidão que assiste fica doente, contaminada por uma enfermidade que se chama a doença de sonhar. João Guimarães Rosa é um contador que não fechou a história. Ficamos doentes, nós que o escutamos. E nos apaixonamos por essa doença, esse encantamento, essa aptidão para a fantasia.

Volto à categoria da identidade. E vou falar na questão do idioma.

A língua

Na categoria do idioma gostaria de me demorar um pouco mais. Afinal, a língua é um dos temas de cartaz deste Fórum. E a pergunta que seria preciso fazer não tem a ver comigo mas com o meu país, esse que confere identidade colectiva a 17 milhões de habitantes. E a pergunta é esta: será que Moçambique é um país de língua portuguesa?

E aqui gostaria de fazer um grande parêntesis. Nas zonas rurais onde trabalho existe uma curiosa maneira de responder ás perguntas formuladas por um estranho. Sobretudo se essas questões solicitam a cruel dicotomia do “sim” e do “não”. Resolve-se da seguinte maneira: responde-se sempre sim. O “não” simplesmente não se diz.

Esta forma de retórica (ou melhor esta ausência de retórica) traduz a nossa condição geográfica: Moçambique já é Oriente. Não negar é uma educação. Mas esta elegância de trato cria, por vezes, problemas aos que necessitam de respostas claras e concisas. É o meu caso quando chego a uma zona litoral e necessito organizar o meu trabalho. À minha pergunta:

- A maré está a subir?

A resposta já aconteceu assim:

- Está a subir, sim senhor, mas já começou a descer há mais de duas horas.

Uma outra vez, tendo por missão identificar a fauna numa floresta, perguntei a um velho que me acompanhava:

- Isto que está cantar é um pássaro?

- É, sim.

- E como se chama este pássaro ?, quis eu saber.

- Bom este pássaro, nós aqui em Niassa não chamamos bem-bem pássaro. Chamamos de sapo.

Num balanço da aplicação do lema de governação “por um futuro melhor” a Televisão de Moçambique fez um inquérito popular. A pergunta era: “sente que a sua vida está a melhorar?” Um cidadão respondeu assim:

- “Está melhorar, sim senhor. Mas está a melhorar muito mal’

Evoco estes episódios para regressar à questão inicial que é: Moçambique é um país lusófono? Tomando a lógica rural eu responderia, pronto e ligeiro: é, sim senhor. Mas sei que há outras lógicas que mandariam que eu dissesse: não, Moçambique não é um país lusófono.

Explico: fala-se hoje mais português em Moçambique que se falava na altura da Independência. O governo moçambicano fez mais pela língua portuguesa que os 500 anos de colonização. Em 1975, ano da Independência Nacional, mais de 60 por cento dos moçambicanos não falavam português. Trinta anos depois existem ainda 40 por cento de moçambicanos que não falam português. Mesmos os que tem essa competência fazem-no como segunda língua. Hoje cerca de 7 por cento dos moçambicanos tem o português como língua materna. Nas cidades, porém, este número já é de quase 20 por cento.

O meu país é, assim, um território de muitas nações e muitas línguas (mais de vinte diferentes idiomas). O idioma português é a língua de uma dessas nações — um território cultural inventado por negros urbanos, mestiços, indianos e brancos. Sendo minoritário e circunscrito às cidades, esse grupo ocupa lugares chaves nos destinos políticos e na definição daquilo que se entende por moçambicanidade. A língua portuguesa não é a ainda língua de Moçambique. Está-se exercendo, sim, como a língua da moçambicanidade.

Comecei a minha intervenção com alguns dados da minha meninice. O que tem a questão da língua a ver com estas lembranças? Para manter residência na infância necessito de uma língua em estado de infância. Essa é a minha aposta quando escrevo. Tenho a meu favor o facto de Moçambique ser ele próprio um lugar em infância, uma nação em flagrante invenção de si mesma e da sua língua de identidade. Estranha coincidência: a minha pátria é-me contemporânea. Fui nascendo com ela, ela está nascendo comigo. Eu e a minha terra somos da mesma geração.

A minha língua portuguesa, repito a minha língua portuguesa, é a pátria que estou inventando para mim. Essa língua nómada é viagem viajada, namoradeira de outras vozes e outros tempos. O importante não é tanto a língua, nem sequer o quanto ela nos é materna. Mais importante é essa outra língua que falamos mesmo antes de nascermos. Nesse registo está a porta e o passaporte em que todos nos fazemos humanos, fabricadores da palavra e, com igual mestria, criadores de infinitas identidades.

Conclusão — identidades fugidias

Tenho ao que parece a raça errada, o nome errado, o sexo errado, e aqui no Brasil tenho a pronúncia errada. A verdade é que, para mim, a escrita me ajudou a dissolver esses erros. Foi a aceitação da poesia como uma lógica para entender o mundo que me deu a solução. E me fez criar um modo de ser outro e outros, e me deu uma forma de desembarcar em novas entidades. Quando escrevo sobre uma mulher eu me converto em mulher, quando escrevo sobre uma criança eu sou uma criança. Essa liberdade contraria a ideia comum que nascemos para ter uma única e singular identidade. Alguns insistem que a identidade pede pureza e essência. A única maneira de sermos puros, porém, é sermos híbridos. A verdade é que só seremos um se formos muitos. E só seremos felizes se abraçarmos identidades plurais, capazes de reinventarem e se misturarem em imprevisíveis simbioses e combinações.

Ensinaram-nos a ter medo da indefinição e da imprevisão. Mas nós brasileiros e moçambicanos construímos sociedades em que a previsão não passa de uma falível contingência. A força do oculto e do não nomeável é muito forte. Devemos tirar partido disso: inventemos para nós a identidade que nos apetecer. E façamo-lo não porque seja politicamente correcto mas porque nos dá prazer sermos o que somos, mesmo que não saibamos exactamente o que isso é. Só poderemos sentir prazer se criarmos um universo de diferença num mundo em que o futuro se está já a escrever apenas em inglês.

Aquilo que nos torna próximos — a nós falantes do português no Brasil, em Portugal e em África — não é apenas a língua mas componentes culturais e, sobretudo, religiosos. Fomos moldados e moldamos percepções do mundo que resultaram de migrações e transculturações antigas. Os nossos santos são os mesmos. Os nossos santos protectores — mesmo que neles não acreditemos — poderiam sentar-se nesta sala, no Rio, com o mesmo à vontade que manteriam em Lisboa, Maputo ou Luanda.

O que estaremos discutindo nestes dias não são questões académicas. O que está em debate é a possibilidade de sermos construtores de identidades que, tal como a criança da ilha, não podem ser medidas, nem reduzidas a um nome ou a um gesto. Estaremos falando, muito simplesmente, de identidades, línguas e marcas culturais que nos tornem mais felizes, mais humanos e mais solidários.

Esta é a derradeira história e, de novo, relembro algo ocorrido na EB da Inhaca. Numa noite escura, eu e os meus colegas acabávamos de jantar na varanda da Estação quando escutamos tambores e sinais de que haveria, algures, uma festa. Decidimos ver o que se passava. Quando chegamos deparamos não exactamente com uma festa mas com uma cerimónia de agradecimento pela chegada das chuvas. Ao redor de uma fogueira havia só mulheres de uma certa idade. Receberam-nos com a maior das simpatias, foram buscar cadeiras (os homens não se sentam no chão) e serviram-nos de ngovo, uma bebida fermentada. Considerei que seria de bom tom usar da palavra para agradecer a hospitalidade. Eu era o único branco entre os meus colegas e era o que menos falava o xironga, a língua local. Quando nos dirigimos ao centro do pátio, as mulheres fizeram silêncio e esperaram que começássemos a falar. O meu colega porém, foi mandado calar logo nas primeiras palavras: Eh, Eh, se é para dizerem quem são não queremos que falem, queremos que dancem. Vocês vão dizer quem são e de onde vieram através da dança.

Entrei em pânico. Eu não danço coisa nenhuma e essa inaptidão é tão funda que eu já imaginei que eu apenas escrevo porque não sei dançar. Mas o problema é que os meus colegas dançavam qualquer coisa irreconhecível, uma mistura de Michael Jackson e Zeca Pagodinho. As mulheres, ante o patético espectáculo, levantaram os braços e clamaram: podem parar que nós não sabemos que país será esse onde se dança assim.

Esse país onde se inventa uma identidade dançada é o mesmo onde o italiano continua ensinando lambada, a mesma nação onde Guimarães Rosa vai tornando as palavras dançáveis. E como diz o provérbio moçambicano: quem dança não é o que levanta poeira; quem dança é aquele que inventa o seu próprio chão.

E muito obrigado.


VALENTE, André (ORG.). Língua portuguesa e identidade. Rio de Janeiro: Caetés, 2008. pp. 11-22.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

Mia Couto revisitado (entrevista)

Quinta-feira, 14/9/2006
Elisa Andrade Buzzo
http://www.digestivocultural.com/colunistas/coluna.asp?codigo=2047

Ele tinha mãos calmas e as apoiava em cima do gravador. O tempo quente não o impedia de vestir uma camisa - fora rendido pelo calor, indicavam as leves dobras em cada manga.

Ouvir a fita cassete, gravada em 29 de agosto de 2004 no Hotel Luzeiros, traz inevitavelmente à tona o ambiente da noite. A maciez da fita magnética premida pela pequena almofada traz mistérios, completa o ar de sons amortecidos, que agora ressoam novamente. As palavras do escritor moçambicano Mia Couto inundam o cômodo.

A entrevista que irá se seguir a este texto foi feita na ocasião de uma viagem à Bienal Internacional do Livro de Fortaleza, em 2004. No entanto, a conversa com o escritor não havia sido publicada até o momento. Recuperada a fita cassete, transcrevi apenas as perguntas feitas por mim e respondidas por Mia, abstendo-me de incluir a parte de um jornalista de Pernambuco também presente.

Em junho deste ano Mia Couto esteve novamente no Brasil, desta vez para lançar o livro O outro pé da sereia pela editora Companhia das Letras. Lá estavam, mais uma vez, as mãos em calmaria no teatro do Sesc Vila Mariana, onde Mia fez uma pequena conferência ao público, seguida de uma seção de autógrafos.

António Emílio Leite Couto nasceu em 1955 na cidade de Beira, em Moçambique. O "Mia" é apelido que veio da infância. Trabalhou como jornalista dirigindo a Agência de Informação de Moçambique, a revista Tempo, e o jornal Notícias de Maputo; foi militante da Frelimo (Frente de Libertação de Moçambique). Atualmente trabalha como biólogo.

O escritor foi editado no Brasil inicialmente pela Nova Fronteira, na década de 1990. As edições dos livros Terra sonâmbula, Histórias abensonhadas e Cada homem é uma raça estão esgotadas. Mais três livros foram editados nos últimos anos, desta vez pela Companhia das Letras: Um rio chamado tempo, uma casa chamada Terra, O último vôo do flamingo e O outro pé da sereia.

Também vale a pena conferir livros do autor não-publicados no Brasil, no site da editora portuguesa Caminho Editorial.

Elisa – Posso te chamar de António... Mia?

Mia Couto – Ah, Mia! António já não existe [risos].

Elisa – Estive lendo algo sobre quinze livros ser a média de publicações por ano em Moçambique. Você sabe se esse número aumentou, se há hoje uma vida literária mais intensa no país?

M. C. – Eu imagino que quinze livros é o que está a ser publicado agora. Quinze, vinte livros, que deve ser aquilo que o Brasil publica em meio dia ou algumas horas só, né? [risos] Uma situação recente esta, porque nós, até sete anos atrás, publicávamos só dois, três por ano. Então isso origina um círculo vicioso porque a pouca produção não estimula que novos valores nasçam. Mas é algo que eu acho que realmente é contingente, quer dizer, é uma herança de um país que, ao mesmo tempo, é um dos países mais pobres do mundo. Moçambique está dentre os dez mais pobres do mundo; e é também uma herança de uma guerra que demorou dezesseis anos e que paralisou por completo o pouco que havia. Então, nós estamos a sair disso, estamos emergindo de alguma coisa que foi uma espécie de uma noite apocalíptica quase.

Elisa - Você acha que o país agora está caminhando para...

M.C. – O problema é esse “para”. Está caminhando, mas está para onde? Não sabemos. Porque ali tudo é muito frágil, nós vamos ter eleições agora em novembro e o grande drama é este, uma eleição aqui é alguma coisa que não pode alterar profundamente muito, não precisa já ter rotinas, já tem procedimentos, tem esquemas que funcionam independentemente da política, quer dizer independentemente da política não tanto assim, mas que não estão tão dependentes da política como no nosso caso. No nosso caso, nós dependemos absolutamente do que vai a passar numa eleição. E isso pode terminar que este caminho, que é um caminho de estabilidade, que é um caminho de crescimento que temos tido desde... a independência foi em 1975, depois tivemos paz em 92, desde 92 nós temos um caminho que é um caminho de crescimento, de consolidação desta paz. E esta turbulência que o país foi vivendo é tão ligada à vida de cada um, que nossos escritos percorrem um caminho que é quase paralelo a isso. No meu caso, por exemplo, eu escrevi aquilo que era antes da guerra, durante a guerra, depois da guerra. Os meus livros seguem muito próximos a essa espécie de crônica do fazer e desfazer de um país.

Elisa – Você sempre morou em Moçambique?

M.C. – Sempre morei em Moçambique. Mesmo durante a guerra eu nunca saí.

Elisa – A gente aqui no Brasil tem uma visão da África que muitas vezes é estereotipada. Agora, qual é a visão que você acredita que Moçambique tem do Brasil?

M.C. – Olha, há visões diferentes. Mas em geral é uma visão estereotipada também, né? Eu acho que os moçambicanos em geral, os moçambicanos urbanos, sabem o que é o Brasil, sabem que há o Brasil, sabem um bocadinho da história do Brasil, sabem que o Brasil fala português. E mesmo os menos escolarizados têm essa consciência de que está ali alguém da família do outro lado. O reverso já não é tão verdadeiro, eu vejo que muitos brasileiros com quem eu falo na rua, etc, quando eu me apresento como moçambicano, eles às vezes perguntam, “Moçambique"? E perguntam coisas extraordinárias, sobre onde é que fica... Ambos os que olhamos para o outro lado e vemos alguma coisa, vemos alguma coisa que não há. Vemos um Brasil que não há, vocês vêem um Moçambique que não há; mas os que vêem, mesmo essa imagem mistificada, são mais os moçambicanos que têm esse acesso a um Brasil. Há que se dizer, por exemplo, o moçambicano comum, o que ele sabe do Brasil é um bocadinho daquilo que o Brasil sabe exportar, sabe exportar a si mesmo. E conhece muito da música, embora provavelmente não seja a de maior qualidade, mas conhece, sabe o que se passa. Os discos mais vendidos em Moçambique, a música mais ouvida na rádio é provavelmente música brasileira. As novelas chegam lá, chega lá a Igreja Universal do Reino de Deus, um grande canal de comunicação [risos] internacional.

Elisa – Que tipo de música chega até lá?

M.C. – Olha, uma das cantoras mais vendidas é a Roberta Miranda, por exemplo. Duplas sertanejas, Chitãozinho e Xororó... era o Roberto Carlos, foi o Nelson Ned, estes nomes assim, Agnaldo Timóteo. Chegam estes com uma certa hegemonia, depois os outros como o Chico [Buarque], como o Caetano [Veloso], como o Milton [Nascimento]... tocam um pequeno grupo só, não são tão populares assim. Algumas canções deles conseguiram, mas não têm a popularidade que têm estes outros cantores.

Elisa – Mia, eu queria muito ter lido alguma coisa de sua poesia para hoje... [no entanto não pude ter acesso ao livro de estréia de Mia Couto]

M.C. – Melhor não... [risos]

Elisa – Você não gosta mais da sua poesia?

M.C. – Eu fiz um livro de poesia só. Foi o meu primeiro livro, chama-se Raiz de orvalho. Foi publicado em Moçambique e depois em Portugal. Eu não me revejo muito ali, eu acho que eu sou um poeta que escreve em prosa. O que eu estou fazendo é poesia, em grande medida. Aquela é uma poesia datada, eu queria dizer qualquer coisa contra o que estava passando e o verso era a minha arma. Mas não, não me envergonho, mas não acho que é a melhor maneira de começar por travar conhecimento com a minha escrita.

Elisa – Você acredita que escreve uma prosa poética?

M.C. – Ou uma poesia em prosa. Quem sabe o que é que é uma coisa e outra, onde é que está a fronteira, né? Mas eu me considero um poeta, por exemplo, se me dissessem que eu sou um escritor, eu tenho uma certa resistência, se alguém me disser que eu sou um poeta, eu acho que isso me honra muito.

Elisa – Como foi pra você essa transição da poesia para a prosa, apesar dessas relações?

M.C. – Eu era jornalista naquela altura, tanto que eu comecei a trabalhar como jornalista em 74. E por volta de 85, eu já tinha percorrido muito do meu país, das zonas interiores, aquilo que é o nosso sertão, que lá se chama savana. E eu recolhi muitas histórias, enfim, uma instigação forte daquilo que eram as vozes rurais que ecoavam na minha cabeça. E eu escrevi o primeiro livro de contos que se chamava Vozes anoitecidas, exatamente porque era um livro de vozes, era alguma coisa que me chegava do outro lado do mundo e que, digamos, que estavam veladas pela noite e que a minha operação era simplesmente desocultar isto. Eu não era um autor, eu era uma espécie de caixa de som. E essa foi a minha forte motivação para passar a contar histórias e contá-las usando a prosa, mas sendo uma prosa premiada pela poesia.

Elisa – Que é seu grande diferencial...

M.C. – Ah, eu não sei fazer de outra maneira. Não é um mérito, eu não sei fazer de outra maneira.

Elisa – Então, você acha que o jornalismo talvez tenha te ajudado de alguma forma a caminhar para a prosa?

M.C. – Eu acho que o jornalismo ajuda muito a perceber como é que se comunica com os outros, mas é um mestre que tem que se matar rapidamente porque senão nos aprisionam num certo tipo de linguagem, e nós ficamos olhando os outros de uma maneira que eu acabo por não gostar. Uma das razões pela qual eu deixei o jornalismo foi porque entrei em ruptura com certos tipos de atitude. Como posso explicar? Não fiquem magoados comigo porque eu ainda sou jornalista, nunca deixei de ser jornalista. Mas ali há uma certa tentação de arrogância, quer dizer, o jornalista não tem tempo. Não tinha o tempo que eu queria. Nós somos enviados para um lugar ou para um acontecimento e não podemos telefonar para a redação dizendo “olha, eu preciso de um mês para ganhar o espírito e para ir fundo, para mergulhar nas coisas”. Ninguém nos autoriza a uma coisa dessas. Então, isto é um certo convite à uma certa mentira, pois temos que dizer que somos supostos transmissores de uma certa idéia do mundo. E tinha uma outra coisa, ter mais tempo, viajar mais fundo, não ir a correr nesta espécie de ditadura do estar lá e estar em cima do acontecimento. Essa idéia de tempo é uma idéia fatal, é uma idéia que nos acaba por matar.

Elisa – Mia, queria pensar numa questão, você se considera um escritor moçambicano ou um escritor português nascido em Moçambique?

M.C. – Não, sou um escritor moçambicano, eu não me considero português. Quer dizer, eu sei que eu tenho um lado português, mas não sou português. Não por uma razão de nascimento no sentido geográfico, mas porque eu só me concebo... aquilo que me falta ainda nascer só pode nascer lá [Moçambique], nesse sentido. As vezes que eu nasci, todas elas foram lá e acho que ainda eu vou nascer, são lá. É mais nesse território da fé, no território da minha geografia cultural que está ali em Moçambique. Obviamente não tenho nenhuma briga com aquilo que é minha herança portuguesa, gosto dela. Se há alguma coisa que eu possa dizer que eu sou, eu sou dali, daquela Moçambique, sim.

Elisa – Há escritores brasileiros que você sente ter influenciado sua obra? Ou o que escreve veio apenas de si, um jeito seu?

M.C. – Ah, não, não, um jeito meu, não. Agora é meu, mas começou por ser de outros. É uma influência muito marcada por João Cabral de Melo Neto, pelo [Carlos] Drummond de Andrade, pelo Manoel de Barros, pelo Guimarães Rosa. Eu deixei por último este, embora seja a influência que mais me fascinou. Eu comecei escrevendo recriando o português muito na esteira daquilo que pessoas como o Guimarães Rosa fez. Mas sem saber que existia o João Guimarães Rosa. Eu conhecia alguém que foi muito influenciado por ele, que foi Luandino Vieira, um angolano, que depois numa entrevista que eu li, escreveu que ele tinha sido marcado pelo Guimarães Rosa. Eu comecei a perseguir este Guimarães. E aquilo foi um incêndio, foi uma coisa cataclística. Muito importante pra mim, impressionante como uma espécie de caução, havia ali um sancionar, é possível fazer isto, há uma luz verde. Mas não é um caso que acontece só comigo, acho que a literatura moçambicana, toda ela, está marcada por uma influência brasileira fortíssima e muitas vezes mais forte do que a portuguesa ou qualquer outra africana.

Elisa – Por que acha que isso aconteceu?

M.C. – Porque a maneira como a língua brasileira, variante da língua portuguesa, se aproxima mais de nós, da maneira como uma outra cultura está a trabalhar na língua portuguesa e, portanto ela tem que reformular, tem que vestir de uma outra forma. E quando nós descobrimos o Brasil, nesse sentido, foi como uma descoberta de nós próprios. E o Brasil tinha, desde o Manuel Bandeira, o Mário de Andrade, essa preocupação também de encontrar linhas de ruptura com a literatura portuguesa, com a língua portuguesa. Havia esta idéia do abrasileiramento da linguagem, que era a nossa preocupação também, nós vamos buscar socorro à literatura brasileira durante muito tempo. Depois foi Jorge Amado, Graciliano Ramos, a Rachel de Queiroz, num ou noutro momento, foram fontes de inspiração muito, muito grandes. Não há escritor moçambicano, não há geração de escritores moçambicanos que não tenha vindo beber aqui com muita força. Eu sempre digo isto porque é uma espécie de homenagem que eu faço a vocês, ao Brasil.

Elisa – Quero falar um pouco sobre o Primeiras Estórias e seu livro da Companhia das Letras, eu sempre confundo o nome, é Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra...

M.C. – Sim. Eu também confundo.

Elisa – Enquanto eu estava lendo o livro, pensei na “Terceira margem do rio” [conto do livro de Guimarães Rosa], o rio é a parte central, e no seu livro o rio também é um elemento bastante importante, não é? É esse componente do maravilhoso que vejo, assim como no Guimarães.

M.C. – É provável que haja qualquer coisa ali, não refuto, mas acho que ali há duas coisas. A primeira coisa é que eu atravessava um rio, durante três anos trabalhei numa estação de biologia que ficava na outra margem do Maputo e era preciso atravessar o estuário do rio para chegar ao outro lado, e eu não sabia nadar, não sei nadar até agora. E aquilo pra mim era uma viagem, sei lá, num limiar, era uma viagem numa condição extrema. E esse outro lado, é aí que eu fui buscar a minha inspiração para construir essa pequena vida onde se passa essa história, o Luar-do-Chão. E depois, o maravilhoso é uma coisa que está completamente presente na realidade moçambicana, a fronteira entre aquilo que nós podemos dizer que é o fantástico e a realidade está toda reformulada lá. Portanto, eu acho que mesmo que um escritor moçambicano não tenha nenhuma relação com qualquer autor, eu não falo no Guimarães Rosa, mas qualquer autor latino-americano da escola do realismo mágico... ele só pode fazer isso, ele não pode escrever de outra maneira porque ali, aquilo que é percepção do mundo, aquela racionalidade é uma outra racionalidade. Os meus colegas que são bons cientistas, que são geneticistas, são gente da ciência, da linha de ponta da ciência, se lhe dissessem que de noite tu conversas com o mar eles acreditam que é possível.

Elisa – Neste livro, por exemplo, você tem tanto o componente rural, quanto o urbano.

M.C. – Em tantos livros passa sempre essa questão desse trabalho de alfaiate, dessa costura, dos mundos distintos que hoje existem em Moçambique, que não se conhecem, que nem sequer sabem como falar uns com os outros. Então, o mundo rural e o mundo urbano, meio que são mundos que se desconhecem. E, provavelmente, se é que a escrita tem alguma missão, o que os escritores podem fazer é desfazer, dissolver esses medos. Até convidar, neste sentido que essa viagem nos dá intenso prazer de entrar com realidade, urbanidade. E, entrar modernidade e a tradição, é uma espécie de convite para que os outros façam essa viagem sem temor. Uma coisa que me aflige, que me aflige muito, é que Moçambique passou estes dezesseis anos de guerra, perdeu um milhão de pessoas e nós somos só dezessete milhões, portanto foi um momento muito sofrido, um momento de luto. Nós ainda não fizemos o luto e de repente Moçambique esqueceu-se, se fores hoje a Moçambique ninguém fala do que se passou. É uma esponja que passou ali, não há resquícios. E isso não é bom, quer dizer, isso significa que nós perdemos aquilo que deixou de ser nosso, nós temos que ter acesso àquela memória. E os escritores podem ter aqui um outro papel ao escrever, ao abrir portas, ao fazer uma espécie de catarse sobre esse momento.

Elisa – Tem muito, então, de autobiográfico nesse livro?

M.C. – Sim, esse Marianinho sou um bocadinho eu [risos]. Eu também nunca conheci um avô meu, então é uma espécie de tentativa de escrever a minha própria história.

Nelson Saúte: A sombra vagabunda

- Estou a apodrecer vivo.

Olhei para trás e dei de chofre com o homem que pronunciara aquela frase. Mais do que uma pessoa, parecia o fiapo de uma extinguível sombra. Uma silhueta de si próprio, réstia de alguém que fora um ser humano. Olhei-o nos olhos. Olhei-o fixamente. Tinha um olhar que encenava uma tragédia. Um olhar que denunciava o estado do seu corpo já desfeito pelo tempo, não obstante a idade. Estava curvado e parecia levitar. Caminhava empurrado pela aragem. Com ele, havia a manhã de sol e algum frio naquele sábado findava. Tinha alguma luz naqueles olhos que acenavam à vida, que lhe fugia. Certamente.

Estávamos os dois em plena avenida Samora Machel, na baixa de Maputo. A cidade imitava o bulício de outros dias. Interrompi meus pensamentos sobre o esqueleto do prédio Pott, que também apodrecia – como as palavras pungentes do homem que parara diante de mim -, resistindo as suas paredes mijadas e defecadas, sujas e ultrajadas depois de longos anos de abandono. Também o prédio, cuja construção começara em 1905, cem anos antes justamente, se queixava das mazelas do corpo. Deixei-me do corpo de pedra e dediquei-me àquele homem que entrara na minha solidão.

Eu estava à espera que o Moisés e os seus mufanas (rapazes, miúdos) acabassem de lavar o meu carro. Há muito que eles cuidam do meu automóvel. Em compensação o Moisés -, o patrão, tem uma avença. Tudo isto ali na praça.

Pensava vagarosamente sobre as mutações constantes da cidade. Do alto da avenida surgia, hierático, o edifício da câmara municipal, vulgo conselho executivo, terminologia que veio a reboque da revolução.

- O senhor doutor não está a ver quem sou eu?

Não hesitei em ser sincero.

- A sua cara não me é estranha. Mas do nome não me lembro.

Fixei a sua imagem sofredora. Era um homem escuro, demasiadamente escuro. Magro, pelo pescoço se adivinhavam as marcas das veias. No olhar, a sombra dele próprio. Fiquei aturdido perante aquela imagem de um homem que sobrara naquele esqueleto, da vida que resistia naquela expressão.

- Estou a sofrer senhor doutor.

Nada disse. Permaneci em silêncio.

- Estou a vir do hospital, tenho bolhas por todo o corpo...

Sem acabar a frase, baixou-se vagarosamente e puxou as calças pela bainha. Fiz-lhe um sinal com as mãos e a cabeça:

- Não precisa, meu caro senhor.

De nada me valeu a advertência. O homem mostrou as suas partes íntimas, naquele instante breve entre a sua primeira frase e o meu inescondível espanto.

- Está a ver? Tenho o corpo todo assim. Preciso de setenta meticais para o hospital. Não posso prometer, mas um dia eu vou pagar.

Para evitar constrangimentos de ser interpelado e não saber mentir, muitas vezes, quase sempre, ando sem dinheiro. Como era sábado, naquela manhã, eu tinha algum.

O homem tinha os ombros recurvos, que os fez dobrar para intensificar a sensação da dor, perante meu indisfarçável espanto. Pensei comigo: por que razão não darei os setenta meticais? Talvez contribua com mais um dia de vida no incauto destino deste homem.

Provavelmente o dinheiro teria outra utilização e não o hospital ou a farmácia. Mas lá tranqüilizei minha consciência por estar a partilhar com o próximo as parcas benesses que me couberam neste mundo.

- Muito obrigado. Nem sei como lhe agradecer, doutor.

- Não tem que me agradecer. Desejo-lhe rápidas melhoras.

O homem baixou-se numa vênia, o movimento foi feito com a lentidão das forças que lhe restavam. Vestia uma camisa às riscas, de flanela, uma camisola por dentro, umas calças jeans, sapatos pretos e meias grossas igualmente escuras. Olhei outra vez para a sua mão e tornei a reparar nas manchas que lhe brotavam daquela zona do corpo.

Enquanto o bulício da cidade se imiscuía nos meus pensamentos, deixei-me por uns momentos fixado na imagem daquele homem que dobrava a esquina da avenida Zedequias Manganhela, em direcção ao mercado Central, o famoso Bazar da baixa. Eu continuava ali na Samora Machel, a avenida que termina justamente na praça 25 de junho, onde se levam os carros, que se encontrava encerrada, em obras, ouvindo ao longe as buzinas dos motoristas impacientes, o trânsito caótico do meio-dia, da cidade toda que descera à baixa, dos veículos que não tinham onde estacionar.

- Sou da família Nhantumbo, dissera.

Confesso que anuíra com a cabeça mas, na verdade, não o conhecia. A cidade é pequena, quase todos nos conhecemos. É provável que este homem tenha sido alguém que tivera ou travara algum conhecimento comigo no passado. É provável, mas não me recordo. Olhava fixamente para o cimo da Samora Machel e tentava descortinar, nas teias da memória, algo que trouxesse aquele rosto aos dias do presente.

Há muito que não escrevo, pensei, a matéria prima está aqui, nos dias que passam rente ao meu nariz. Aqui estão as histórias, as vidas destes homens desencontrados com o seu tempo.

Lembrei-me então da mulher grávida e imensamente magra que se cruzara comigo horas antes. Era também o mapa de uma mulher sofrida, cuja barriga era maior que o seu corpo. Caminhava sem olhar para a frente. Caminhava como muitos dos que se perdem na esquina adiante. Caminhava como quase todos nós caminhamos. Deixava pelo caminho um pouco de nós próprios, perdendo em cada rasto a nossa desconhecida biografia. Como aquele homem que me deixara assombrado e que caminhava, não obstante. Provavelmente, em cada esquina da cidade ele deixava cair – já poucas forças restavam – o que lhe sobrava da sua sombra vagabunda.

Saúte, Nelson. A sombra vagabunda. In: Rio dos bons sinais. Rio de Janeiro: Língua Geral, 2007. 1ª edição. pp. 47-51.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

Novos Baianos – Acabou Chorare

Acaba de sair um livro de autoria de Moraes Moreira com a sua versão para a história do criativo grupo/comunidade Novos Baianos, surgido na virada dos anos 1960/1970 em meio ao terror estabelecido pela sangrenta ditadura militar que assombrava nosso país. Soube do livro pelo programa Espaço Aberto – Literatura (Globo News/Net) com o sereno jornalista Edney Silvestre, e fiquei a recordar os meus primeiros contatos com a obra do conjunto de cabeludos, sujos e largados. Verdadeiros hippies.

Entre os incontáveis discos de vinil que meu pai possuía, havia o antológico “Novos Baianos – Acabou chorare”. Álbum de capa dupla com diversas fotos dos numerosos integrantes no sítio que ocupavam em Jacarepaguá. Eu ficava espantado (tinha então uns seis ou sete anos de idade) com o estilo despojado, alegre, descontraído e sem maiores caprichos com a aparência que eram parecidos com as primeiras idas da minha família para Figueira, em Arraial do Cabo, no final da década de 1970. Lugar que na época não tinha energia elétrica, anoitecia e ficávamos sob a inconstante luz do lampião de querosene, ausência de água encanada conseguida através de uma bomba manual à qual os adultos tinham que ficar agachados para “tentar” tomar banho. A comida era feita em um fogão de tijolos e todas as pessoas ficavam amontoadas em barracas. Bons tempos em vida comunitária, mesmo que fosse por poucos dias.

Diante de tais semelhanças, logo de cara construí uma simpatia por aquela desconhecida galera. Peguei o disco e coloquei na minha vitrolinha portátil Philips. Era um aparelho que, quando fechado, parecia uma maletinha, quando aberto posicionava-se a caixa de som que ficava presa à tampa.

Os Novos Baianos chegaram ao Rio de Janeiro em 1971 e iniciaram sua experiência comunitária em uma cobertura na zona sul e um belo dia receberam a visita de João Gilberto, um dos grandes nomes da bossa nova. Esse contato faria com que o grupo ampliasse suas influências no clássico álbum “Acabou chorare”, um dos mais antropofágicos discos da música brasileira, e a bossa nova faz-se na música-título, composição de Galvão e Moraes, tanto no som quanto na letra:

“Acabou chorare, ficou tudo lindo
De manhã cedinho, tudo cá cá cá, na fé fé fé
No bu bu li li, no bu bu li lindo
No bu bu bolindo
No bu bu bolindo”

Depois, o grupo estabeleceu-se no famoso sítio de Jacarepaguá onde uniu música, futebol e vida alternativa. Tudo com muito humor e alegria, contrastando com a barra pesadíssima da sanguinária passagem do ditador Médici pelo poder usurpado, e os versos iniciais de Brasil Pandeiro (composição de Assis Valente), “Chegou a hora dessa gente / bronzeada mostrar seu valor”, retratam a coragem e ousadia dos integrantes ou como canta Baby em “Tinindo trincando” (composição de Moraes e Galvão), mostrando o espírito que norteava o grupo:

“Eu vou assim
E venho assim

Porque quem invade não
não chega não
chega não porque pera aí
sou mesmo assim
sou mesmo assim
sou mesmo assim
assim”

Entretanto, nessa transição que desencadearia no movimento do desbunde, a experiência no sítio, a idealização e tentativa de concretização do sonho da contracultura em levar uma vida libertária a enfrentar o sistema capitalista pela mudança de comportamento, e não se associando ao radicalismo da esquerda que na época vivia o auge da luta armada, Moraes Moreira na entrevista a Edney Silvestre relata que a experiência foi bem sucedida até a chegada dos filhos do grupo. Aí, a falta de grana começou a pesar e o sonho do flower power tropical começou a ruir.

Para combater o inferno astral do período, “Besta é tu” (composição de Galvão, Pepeu Gomes e Moraes Moreira) convoca a todos a buscar um novo olhar perante a realidade estabelecida:

“Besta é tu, besta é tu
Besta é tu, besta é tu

Não viver nesse mundo, se não há outro mundo

(Por que não viver?)
Não viver nesse mundo
(Porque não viver?)
Se não há outro mundo
(Por que não viver?)
Não viver outro mundo

E pra ter outro mundo, é preci-necessário
Viver, viver contanto em qualquer coisa
Olha só, olha o sol. O maraca domingo. O perigo na rua

O brinquedo menino
A morena do Rio, pela morena eu passo o ano olhando o Rio
Eu não posso com um simples requebro
Eu me passo, me quebro, entrego o ouro

Mas isso é só porque ela se derrete toda só porque eu sou baiano”


Galvão, inspirado, para confundir a censura, a caretice de direita e esquerda, defini-se em “Mistério do planeta”:

“Vou mostrando como sou e vou sendo como posso
Jogando meu corpo no mundo, andando por todos os cantos
E pela lei natural dos encontros, eu deixo e recebo um tanto
E passo aos olhos nus ou vestidos de lunetas.
Passado, presente, participo sendo o mistério do planeta.

O tríplice mistério do "stop", que eu passo por
e sendo ele no que fica em cada um.
No que sigo o meu caminho e no ar que fez e assistiu.
Abra um parênteses, não esqueça que independente disso
eu não passo de um malandro.
De um moleque do Brasil, que peço e dou esmolas.

Mas ando e penso sempre com mais de um,
por isso ninguém vê minha sacola.”

No disco encontramos frevo, samba, bossa nova, rock’n’roll e outras citações sonoras exploradas com ousadia e competência por Moraes, Galvão, Baby Consuelo, Pepeu Gomes, Paulinho Boca de Cantor, Dadi, Jorginho Gomes, Baixinho e Bolacha num intenso diálogo com as idéias tropicalistas de Gil, Caetano e Mutantes. Talvez a melhor fusão do rock com ritmos brasileiros já feita por aqui.

Para termos uma noção da recepção do álbum “Acabou chorare” pela crítica, cito o que Torquato Neto, compositor, músico, ator, jornalista, poeta e um dos pilares do tropicalismo ao lado de Gilberto Gil e Caetano Veloso, escrevia entusiasmado a respeito do grupo:

“Essa é pra ninguém perder: o Teatrão da Siqueira Campos vai apresentar hoje, à meia-noite, um superconcerto dos Novos Baianos, o conjunto (conjunto?) mais ligado desta banda de cá. Quem se amarra neles não pode, mesmo, perder. Quem não se amarra está por fora e é muito bom entrar nessa dança: vamos lá: é no Teatrão, à meia-noite, hoje, hoje, hoje.” (NETO, 22/10/71. p. 123)

Em outra nota de sua famosa coluna Geléia Geral, no jornal Última Hora, Torquato Neto extravasa toda a sua empolgação com o show citado acima, em uma simpática forma de escrever. E creio que tenha sido uma experiência além do que retratou:

“Eu não estou sabendo de nada mais importante pra ser curtido do que o show dos Novos Baianos. Todo mundo já sabe: começa hoje e vai até domingo, no Teatrão da Siqueira Campos, vulgo Teatro Teresa Raquel. Um concerto hoje, outro amanhã e dois no domingo: dá de sobra pra ninguém arranjar desculpas: se querem ficar por fora, fiquem, mas fiquem sabendo que a transa dos Novos Baianos é o que existe de melhor, mais limpo e integralmente porreta entre tudo o que está pintando por aí depois do show da Gal.” (NETO, 29/10/71. p. 131)

Fui crescendo ao som de “Acabou chorare”, chegou o Rock in Rio em 1985, estavam lá Baby Consuelo, Pepeu Gomes e Moraes Moreira. Além da gravidez de Baby, o fato que mais me marcou das apresentações dos antigos representantes do grupo naquele festival foi o solo de guitarra arrasador de Pepeu Gomes na chamada “noite dos metaleiros”. Aliás, considero Pepeu o mais criativo guitarrista do Brasil! Seu disco instrumental “A geração do som”, gravado no final dos anos 70, é uma pérola perdida da mistura rock e ritmos brasileiros, não devendo nada a álbuns de Stevie Vai, Joe Satriani e Ingwie Malmsteen.

Portanto, coloco “Acabou chorare” como um dos melhores álbuns de todos os tempos da música popular brasileira, fundamental na década de 1970 e que marca uma época em que a transgressão e a utopia andavam de mãos dadas. Uma referência cultural que jamais poderemos perder.

Bom, este texto foi motivado pelo livro de Moraes que ainda nem vi, mas que pretendo comprá-lo em breve. Em Uma outra história dos novos baianos e outros versos, lançado pela Editora Língua Geral, Moraes escolheu o estilo da literatura de cordel para narrar a sua versão da história do grupo. Uma opção interessante e agradável. A literatura de cordel já rendeu ótimos exemplos nas nossas letras. Inspirou João Cabral do Melo Neto, com o obrigatório “Morte e vida Severina”, e contou com a simpatia do respeitável poeta Ferreira Gullar em sua passagem pelo CPC da UNE, no raiar da década de 1960.

Para quem quiser conhecer uma outra versão da história dos Novos Baianos, basta procura o livro Anos 70 – Novos e Baianos, de Luiz Galvão, pela Editora 34.

A seguir, alguns vídeos raros que estão no Youtube com músicas de Acabou Chorare. É só curtir!

Riso

A menina dança
http://www.youtube.com/watch?v=mqcq4wwjL8o&feature=related

Brasil pandeiro
http://www.youtube.com/watch?v=jY3cppFA3aQ&feature=related

Mistério do planeta
http://www.youtube.com/watch?v=WWfseMcAUZY&feature=related

Preta pretinha
http://www.youtube.com/watch?v=2eomEoNO4qc&feature=related

Novos Baianos e Marisa Monte – A menina dança
http://www.youtube.com/watch?v=H3E_JrEKFvQ&feature=related



BIBLIOGRAFIA:
NETO, Torquato. Os últimos dias de paupéria. Ed. Aeroplano. 1973.