Um espaço dedicado à literatura negro-brasileira, às literaturas africanas de língua portuguesa e demais literaturas negro-diaspóricas
quinta-feira, 10 de abril de 2008
Aniversário (Álvaro de Campos)
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a.olhar para a vida, perdera o sentido da vida.
Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo,
O que fui de coração e parentesco.
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui — ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui...
A que distância!...
(Nem o acho... )
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!
O que eu sou hoje é como a umidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes...
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio...
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos ...
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim...
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!
Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais copos,
O aparador com muitas coisas — doces, frutas, o resto na sombra debaixo do alçado,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos. . .
Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira! ...
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...
Os versos acima, escritos com o heterônimo de Álvaro de Campos, foram extraídos do livro "Fernando Pessoa - Obra Poética", Cia. José Aguilar Editora - Rio de Janeiro, 1972, pág. 379.
quarta-feira, 9 de abril de 2008
José Craveirinha: Depoimento Autobiográfico
José João Craveirinha nasceu em 28 de Maio 1922 em Maputo. Completa hoje 75 anos!!!
Iniciou a sua carreira como jornalista no "O Brado Africano", e colaborou/trabalhou com diversos orgãos de informação em Moçambique. Teve um papel importante na vida da Associação Africana a partir dos anos 50.
Grande parte da sua poesia ainda se mantém dispersa na imprensa, não tendo sido incluída nos livros que publicou até à data. Outra parte permanece inédita.
Esteve preso pela Pide, de 1965 a 1969, na celebre Cela 1 com Malangatana e Rui Nogar, entre outros.
Tem muitas obras publicadas, sendo considerado um dos grandes poetas de Africa e da Língua Portuguesa.
Depoimento autobiográfico, Janeiro de 1977:
"Nasci a primeira vez em 28 de Maio de 1922. Isto num domingo. Chamaram-me Sontinho, diminutivo de Sonto. Pela parte da minha mãe, claro. Por parte do meu pai fiquei José.
Aonde? Na Av. do Zichacha entre o Alto Maé e como quem vai para o Xipamanine. Bairros de quem? Bairros de pobres.
Nasci a segunda vez quando me fizeram descobrir que era mulato. A seguir fui nascendo à medida das circunstancias impostas pelos outros. Quando o meu pai foi de vez, tive outro pai: o seu irmão. E a partir de cada nascimento eu tinha a felicidade de ver um problema a menos e um dilema a mais. Por isso, muito cedo, a terra natal em termos de Pátria e de opção. Quando a minha mãe foi de vez, outra mãe: Moçambique.
A opção por causa do meu pai branco e da minha mãe negra.
Nasci ainda mais uma vez no jornal "O Brado Africano". No mesmo em que também nasceram Rui de Noronha e Noemia de Sousa. Muito desporto marcou-me o corpo e o espírito. Esforço, competição, vitória e derrota, sacrifício até à exaustão. Temperado por tudo isso.
Talvez por causa do meu pai, mais agnóstico do que ateu. Talvez por causa do meu pai, encontrando no Amor a sublimação de tudo. Mesmo da Pátria. Ou antes: principalmente da Pátria. Por causa da minha mãe só resignação.
Uma luta incessante comigo próprio. Autodidacta.
Minha grande aventura: ser pai. Depois eu casado. Mas casado quando quis. E como quis.
Escrever poemas, o meu refúgio, o meu país também. Uma necessidade angustiosa e urgente de ser cidadão desse país, muitas vezes altas horas da noite."
terça-feira, 8 de abril de 2008
Mia Couto - crônica
Nasci e vivi entre meandros de rios, preguiçosas águas que se apegavam às margens. A estação ferroviária obedecia a essa líquida paisagem. O comboio era um barco e eu entendia porque se chamava "cais" àquela plataforma onde as mães agitavam os lenços brancos. Para mim, os modos lentos do comboio não resultavam de incapacidade motora. Eram, sim, gentileza. Uma afabilidade para com essas pequenas mortes, que são as despedidas.
Muitas vezes me desloquei para a estação dos caminhos-de-ferro com o fim de não me deslocar para lado nenhum. Ficava no banco de madeira a olhar a gente transitando. E me abandonava naquele assento durante horas, sem que o tempo me pesasse. Talvez eu viajasse mais que os próprios passageiros que chegavam e partiam. A minha cidade era pequena, tão pequena que os domingos, com seu tédio antecipado, não eram notados. Eu inventava os meus tempos fora do Tempo, ali na arrastada azáfama da estação ferroviária.
Não tive propriamente uma educação religiosa. Apenas de quando em quando eu entrava em recinto de igreja. Fazia-o porque havia ali um sossego que me refrescava a alma. Qualquer coisa parecida com o que eu encontrava na gare ferroviária. Com a diferença de que a estação me facultava um recolhimento do lado de dentro da Vida, um resguardo entre as pessoas e as almas que eu nelas inventava. Os fantasmas da igreja moravam na sombra fria. Os da estação eram solarentos, riam alto e falavam línguas que eu desconhecia.
Algo me ficou desse estacionamento de alma, como se eu ganhasse residência perene nas velhas estações de todo o mundo. Afinal, essa contemplação me trouxe como que um irreparável vício: ter um banco de madeira onde eu possa ver desfilar pessoas em flagrante viagem.
Mia Couto
Crônica sobre a cidade da Beira, sua cidade natal.
Jornal Expresso. Suplemento Única, pp. 40-44. Lisboa, 09 de fevereiro de 2007.
Paulina Chiziane - O Alegre Canto da Perdiz
Paulina Chiziane - O Alegre Canto da Perdiz

Colecção: «Outras Margens», n.º 0Código: 93.000
Pepetela - O quase fim do mundo (entrevista)
Fonte: Diário de Notícias - Editado por Angola Digital
Tuesday, 11 March 2008
http://www.angoladigital.net/artecultura/index.php?option=com_content&task=view&id=878&Itemid=39
«O Quase Fim do Mundo» de Pepetela
«Este romance podia ter mais 800 páginas». «Há uma personagem que diz que cada civilização vive até inventar as armas que a vão liquidar. Estamos próximos disso... Ao mesmo tempo que há um instinto de sobrevivência, há um instinto de destruição.» Uma entrevista do Diário de Notícias ao escritor, a propósito do novo livro.
E se houvesse um holocausto agora? A história começa assim. Quando terminou o romance “Os Predadores”, disse que lhe apeteceu beber champanhe. No fim deste livro voltou a ter essa vontade?
Foi diferente. Este livro foi um jogo; espécie de brincadeira. Eu estava mais à vontade. Não estava tão agarrado à realidade. É ficção pura e quando terminei pensei: "Isto até dava mais umas 800 páginas." Mas tinha de parar. Foi um livro que não me custou escrever. Podia inventar as sociedades que quisesse e tive até uma certa pena de parar. No outro apeteceu-me beber champanhe talvez por saber que estava a fechar um ciclo. Houve um corte e um corte fundo.
E porque parou se o livro poderia ser o triplo?
O livro estava a pedir-me para parar ali. Mas hoje quando releio a parte final, vejo que podia continuar. Mas bastava não pôr ali um epílogo e continuar, reconstruindo a história da humanidade.
Parte de um hipotético holocausto e uma frase que posiciona logo o leitor. "Chamo-me Simba Ukolo, sou africano, e sobrevivi ao fim do mundo"...
Dou muita importância às primeiras frases e, neste caso particular, foi muito trabalhada.
Como dá importância aos nomes...
Este foi escolhido de modo a nunca se definir muito bem a origem da personagem e a sua situação no terreno. O leitor mais conhecedor de África consegue situar mais ou menos uma região onde é possível estarem cinco países que fazem quase fronteira: Tanzânia, Congo, Burundi, Uganda, Ruanda. É na região dos grandes lagos.
Há uma ou outra referência ao Kilimanjaro. Percebe-se que Nairobi não está assim tão longe. Mas não é importante que o leitor saiba situar. Se não conhecer a região, tanto melhor. Normalmente, como sou angolano, até poderão pensar que é em Angola. Mas não tem nada a ver com Angola. Fiz todos os esforços para que não se percebesse. O importante é que se perceba que é uma parte de África, muito próxima do sítio onde hoje se pensa que terá começado a Humanidade.
A causa do holocausto só é revelada no fim. Até lá só sabemos do repovoamento...
Este livro nasce de uma notícia. Mas hesitei algumas vezes se iria ou não revelar a causa ou se deixaria em suspenso. Depois também achei que era demasiado pesado para o leitor. Acho que o leitor ficaria frustrado, a interrogar-se sobre o que aconteceu. Era pesado demais não saber o que levou a tal destruição.
Quando diz que isto é pura ficção, não é bem verdade. A reflexão política e ecológica, por exemplo, estão muito presentes.
Há uma personagem que diz que cada civilização vive até inventar as armas que a vão liquidar. Estamos próximos disso... Ao mesmo tempo que há um instinto de sobrevivência, há um instinto de destruição. O livro é uma metáfora. Cuidado! Para onde estamos a ir?
E começa com um homem que pensa estar completamente só no mundo, até que um mosquito o pica e ele percebe que tem companhia. Esse sentimento de solidão absoluta tomou conta de si enquanto escritor?
Sim. Se não, não seria capaz de escrever. Mas tentei usar um estilo muito ligeiro. Em qualquer livro há um tactear do próprio autor. Também no meu caso. Nunca sei como é que vai acabar, nem me preocupo muito a não ser a partir do meio. Até lá é um tactear sempre. Daí que talvez neste caso tenha sido mais fácil. Alguém que inicia este livro a tactear e continua por ele fora. No fundo aquele primeiro homem é uma espécie de companhia.
A ironia ajuda na desgraça?
Sim. Nós, os angolanos, agarramo-nos muito ao humor. É a nossa arma principal para sobreviver. Até a sátira em relação a nós próprios, o gozarmos, o rirmos connosco. Isso está aqui. A ideia foi pôr esse lado africano de ver o mundo.
Uma visão que, aqui, tem muito de geográfica e segundo a qual o europeu é alguém de espírito pequeno. É assim que o africano vê o europeu?
Não posso generalizar. Depende do africano e depende do europeu, mas de um modo geral o que nós pensamos, por exemplo dos portugueses, é que os portugueses têm esse espírito pequeno. Os portugueses que viveram África e estão aqui em Portugal falam sempre é da pena de ter perdido a distância, o espaço que tinham lá. Essa saudade ficou.
Este livro foi um exercício diferente para si enquanto escritor, já o disse...
Foi. Era um tema diferente e o próprio facto de ser fora de Angola era novo. Pegar em qualquer coisa que é tremendo, mas poder contar uma história que até parecesse ligeira... Foi isso que quis fazer. Posso não ter atingido.
Essa angústia do resultado termina quando?
Nunca vai terminar. Essa angústia acho que existe sempre.
Por exemplo, em relação aos ‘Predadores’, ficou tranquilo com o resultado?
Agora sim.
Então há uma altura em que passa?
Há. Mas nunca tenho a certeza. O que sei é que tenho de parar e esperar pela reacção dos leitores. Depois posso dizer "acertei ou não acertei tão bem..."
O leitor não lhe é indiferente?
De modo nenhum. Houve livros que escrevi em que o leitor me era indiferente, porque os escrevi para mim, sem pensar em publicar.
Por exemplo?
Os primeiros. Sabia que não tinha hipótese, quando andava na luta pela libertação, etc. Onde é que iria arranjar editor? Aí há um à vontade enorme. Também o penúltimo livro, ‘O Terrorista de Berkeley’, escrevi para mim. Era uma brincadeira, não era para publicar.
Porque publicou?
Começou a haver pressão. Diziam que a história estava gira e não sei o quê, mas até hoje não estou convencido.
Ainda não se tranquilizou com ele?
Não. Era para mim, não era para mais ninguém. Ficou parado dois ou três anos e marcou um salto. Aquilo não tinha nada a ver com Angola. Era só os EUA, só americanos, mais nada. Era para me divertir. Tinha todo o tempo do mundo, não tinha nada para fazer...
O que é isso de ter todo o tempo do mundo?
(risos) É estar numa cidade de que se gosta, por onde já se andou (São Francisco). Dava de manhã um passeio. Estava num hotel, com nada para fazer, e um quarto de hotel é um lugar aborrecido. Tem uma televisão, a pessoa vê um bocado mas cansa-se da língua, tem uma secretária e um computador portátil, que anda sempre comigo. Não tinha nada para fazer e escrevi para passar o tempo. Resolvi escrever uma história. Era sobre aquilo que via todos os dias. Mas acho que marcou uma ruptura para começar a escrever sobre outras coisas e outras paragens.
Antes dos 'Predadores'?
Sim. Há uns 15 anos.
Porque adiou tanto?
Foram aparecendo outros temas que se impunham. Tenho sempre três ou quatro para trabalhar. Às vezes pego num, brinco com outro. Até ao dia em que há uma frase, uma personagem, qualquer coisa que me agarra e começo.
Pepetela - O quase fim do mundo

O QUASE FIM DO MUNDO
Chamo-me Simba Ukolo, sou africano, e sobrevivi ao fim do mundo.
Trailer do Livro: http://www.youtube.com/watch?v=GMnJAm3l9zQ
domingo, 6 de abril de 2008
Filinto Elisio - Blog
http://albatrozberdiano.blogspot.com/
POEMAS
Haikai Agridoce (Poesia III)
Ao Mito
a flor de lótus, o mel de abelha, a borboleta exótica...
ainda que cuidemos do nosso jardim de sonhos
no vinagre dos dias haverá sol para o cravo do amanhecer?
Acerca do Amor
Do amor só digo isto:
o sol adormece ao crepúsculo
no oferecido colo do poente
e nada é tão belo e íntimo.
O resto é business dos amantes.
Dizê-lo seria fragmentar a lua inteira.
(Poesia Africana de Língua Portuguesa: (antologia) / Maria Alexandre Dáskalos, Livia Apa, Arlindo Barbeitos - Rio de Janeiro: Lacerda Editores, 2003, p. 171)
sábado, 5 de abril de 2008
Vera Duarte: um tributo à literatura cabo-verdiana em "O Arquipélago da Paixão"
Entretanto, Vera Duarte subverte o habitual caminho de seus pares e não busca o confronto com o passado literário do arquipélago, mas, sim, presta tributo aos escritores que sedimentaram o corpo poético cabo-verdiano, parafraseando os temas que os caracterizaram. Solução condizente com a definição de epígrafe como podemos constatar no Minidicionário Sacconi: epígrafe é "palavra, expressão ou frase usada como título no princípio de livro ou no início de um capítulo para indicar a finalidade ou a inspiração da obra, o tema do assunto, ou declarar os sentimentos do autor".
Todavia, convém primeiro apresentar a poeta, romancista, ensaísta e juíza Vera Duarte. Nascida na cidade de Mindelo, na ilha de São Vicente, formou-se em Direito na Universidade Clássica de Lisboa, em Portugal. É Juíza Desembargadora e presidente da Comissão Nacional dos Direitos Humanos e a Cidadania (CNDHC) de Cabo Verde. Desempenhou ainda os cargos de Juíza Conselheira do Supremo Tribunal de Justiça, de Procuradora da República, de Diretora Geral de Estudos, Legislação e Documentação do Ministério da Justiça, de Conselheira do Presidente da República, de Membro do Conselho Superior da Magistratura Judicial e de Directora Geral dos Assuntos Judiciário do Ministério da Justiça. (1)
Na área de Literatura escreve poesia desde a tenra idade, ganhou seu primeiro prêmio literário em 1976, os Jogos Florais 76, em comemoração ao primeiro ano de independência do país. Em 1981 conquistou o 1º Prêmio no Concurso Nacional de Poesia. Em 2001, pelo conjunto da obra conquistou o "Prix Tchicaya U Tam'si de poésie africaine"; ganhou o Prémio Sonangol em 2003, dedicado a escritores de Angola, São Tomé e Príncipe e Cabo Verde. Publicou "Amanhã Amadrugada" (Lisboa: Vega, 1993; poesia), "O Arquipélago da Paixão" (Mindelo, Artiletra, 2001; poesia), "A Candidata" (Luanda: UEA, 2003; ficção), "Preces e Súplicas ou os Cânticos da Desesperança" (Lisboa: Piaget, 2005; poesia), “Construindo a Utopia” (ensaio) entre outros. (2)
Como em seu primeiro livro de poesia, "Amanhã amadrugada", este "O Arquipélago da Paixão" também divide-se em quatro partes, ou "cadernos", como denomina a autora, sendo os dois primeiro em poesia; e os outros, em prosa poética. E percebemos que as homenagens aos poetas cabo-verdianos espalham-se nos quatro cadernos. Todavia, não restringem-se aos compatriotas, mas estendem-se aos portugueses Manuel Alegre e Florbela Espanca, ao angolano Mario de Andrade e ao maior nome da literatura de Angola, Luandino Vieira, ao papa João Paulo II e ao músico de seu país, Tony Pina.
Um momento crucial na afirmação literária do arquipélago se dá com o surgimento da revista Claridade, em 1936, tendo como principais colaboradores Jorge Barbosa, Baltasar Lopes (Osvaldo Alcântara) e Manuel Lopes, que ficaram conhecidos como claridosos. Para a professora Simone Caputo Gomes (USP): "a revista Claridade (1936-1960) é a primeira manifestação intelectual da elite crioula, traçando uma divisória entre a poética tributária do modelo português e o mergulho nas raízes locais, passando pela leitura do modernismo brasileiro". (GOMES, 2006, p. 165)
A geração pré-claridosa, das primeiras décadas do século XX, procurava alternativas ao modelo português colonizador para a construção da origem de Cabo Verde. Há, nesse momento, o reconhecimento da mãe-terra cabo-verdiana (mátria), porém ainda há vínculo com a pátria lusitana, em uma indefinição nomeada de transpátria lusia por Simone Caputo Gomes. Com isso, apesar de já considerarem a terra como mãe, os escritores recorrem ao terra-longismo para caracterizar suas idéias, constróem um passado próspero e rico, e buscam no mito hesperitano ou mito arsinário um passado de glórias como forma de acalanto ao presente sofrido e opressor.
O recurso a este mito como origem (associado à idéia de pátria) remonta às ilhas do velho Hespério – pai das Hespéridas – que abrigavam jardins repletos de pomos de oiro, guardados pelo dragão de cem cabeças, morto por Hércules. As "ilhas perdidas no meio do mar", destacadas por Jorge Barbosa em seu antológico Arquipélago, 1935, e já eram identificadas por Camões, em Os lusíadas (canto V, VII, VIII, IX), como Cabo Verde (Cabo Arsinário ou Estrabão). Como podemos inferir, a afirmação da identidade ainda é conflitante no período, pois ainda procuram referenciais europeus na reconstituição do passado das ilhas.
O pré-claridoso José Lopes refere-se em seus versos ao poeta português e à descoberta lusa: "Mas somos filhos – nós – de outros gigantes / Que, 'por mares nunca de antes navegados' - / Nossas ilhas tiraram do mistério".
(Hesperitanas, p. 29. Apud: trecho de poema retirado de um ensaio de Simone Caputo Gomes publicado em Marcas da diferença, p. 163)
Já o seu contemporâneo Pedro Cardoso, declara o seu apreço à pátria e à terra-mãe:
"Nasci na Ilha do Fogo
Sou, pois, caboverdeano,
E disso tanto me ufano
Que por nada dera tal.
Se filho de Cabo Verde,
Assevero – fronte erguida –
Que me é honra a mais subida
Ser neto de Portugal."
(Algas e corais, p. 5. Apud: trecho de poema retirado de um ensaio de Simone Caputo Gomes publicado em Marcas da diferença, pp. 163-165)
Como podemos depreender nos versos acima, o aspecto físico do arquipélago está presente. Aliás, característica preponderante nas letras do país. A condição insular de Cabo Verde e suas conseqüências espaciais agindo sobre o homem, limitando-o, marcarão a formação da literatura e da construção da identidade do cabo-verdiano. O espaço hostil ao homem por causa das condições climáticas adversas e pelos dramas da ação opressora do colonizador, serão fecundadores dos poemas. Buscarão no mito da submergida Atlântida um passado de glórias e prosperidade, em contraste com a época vivenciada. Segundo Simone Caputo Gomes:
"o motivo pelo qual o mito relativo a espaços de felicidade foi retomado pelos pré-claridosos consiste numa releitura das concepções românticas, relativas ao mundo pré-diluviano, muito em voga na virada do século XIX para XX. (...) A formulação do mito remontaria às pesquisas de José Lopes e Pedro Cardoso nos alfarrábios e enciclopédias da biblioteca do Liceu de S. Nicolau, do qual foram alunos." (GOMES, 2006, pp. 164-165)
Comprovamos esses aspectos nos títulos das obras de José Lopes e Pedro Cardoso, e nos seguintes versos de Lopes:
"Das vastas extensões assim submersas
Então ficaram estas nossas ilhas".
(Hesperitanas, Apud: trecho de poema retirado de um ensaio de Simone Caputo Gomes publicado em Marcas da diferença, p. 165)
Ou neste trecho de Pedro Cardoso:
talvez a mesma terra que os Atlantes"
(Hespéridas, Apud: trecho de poema retirado de um ensaio de Simone Caputo Gomes publicado em Marcas da diferença, p. 165)
Na prosa poética dedicada ao claridoso Jorge Barbosa, Vera Duarte abordará um novo paradigma ao terra-longismo dos pré-claridosos: o mito de Pasárgada, inspirado no modernista brasileiro Manuel Bandeira. Sobre a relação com nosso poeta, Simone Caputo Gomes afirma que o "Brasil, recém-independente e com literatura divulgada em terras lusas, passava a ser um modelo de afirmação mestiça no qual Cabo Verde buscava a sua identidade", e cita João Lopes no número inicial de Claridade:
"dada a insuficiência de materiais de estudo que permitam refazer a história econômica e social das ilhas, temos que preencher as lacunas com as ilações tiradas da situação actual e subsidiariamente dos estudos levados a efeito no Brasil, para a explicação do fenômeno brasileiro."
A aproximação geográfica e as péssimas condições sociais de Cabo Verde serão comparadas com o Nordeste brasileiro. A aridez causando seca e a fome serão exploradas pelos claridosos, que utilizarão da emigração ou da evasão como soluções para encarar as dificuldades. Todavia, não se limitarão à fuga, mas denunciarão a insustentabilidade do sistema colonial português. Jorge Barbosa admira tanto o poeta brasileiro, que o considera seu "irmão atlântico", e faz de Pasárgada o lugar de evasão, o lugar ideal, contrapondo-se à pobreza das ilhas, diferenciando-se de Bandeira, em que sua evasão é motivada pela sua péssima saúde, castrando-o de levar uma vida com maiores sabores.
Em "Os meninos", dedicado a Jorge Barbosa, a autora usa o pasargadismo como evasão, denuncia a condição miserável em que se encontram "os meninos da pobreza, do abandono e do desespero. De ranho no nariz, pés descalços e calções rotos eles passeiam seus corpos esqueléticos" (DUARTE, 2001, p. 81). Como alento à triste situação os meninos "sonharão com terras distantes, glórias inexistentes e banquetes fabulosos até que o romper do sol e a fome crónica os arranque do sossego cúmplice dos botes para mais um dia de desesperanças." (Op. cit. 81) E apenas com a solidariedade, Vera Duarte recorre ao gesto feito pelo poeta claridoso na "sua 'Carta para Manuel Bandeira', e vai empreender uma viagem imaginária em busca da estrela da manhã, para ofertá-la, do outro lado do Atlântico, ao poeta brasileiro, através da porta – o Atlântico, estrada cultural – entreaberta", como menciona Simone Caputo Gomes ao prefaciar O Arquipélago da Paixão. Ou como versa o eu lírico: "Queria então estar ao lado deles e sem qualquer palavra, passar-lhes a Estrela da Manhã". (Op. cit. 81)
Na reflexão seguinte, Vera Duarte homenageia outro relevante claridoso, Baltasar Lopes (Osvaldo Alcântara), autor do célebre romance Chiquinho. Em "A viagem", como o próprio título sugere, o mito do pasargadismo permanece sendo enfatizado. A imagem de Pasárgada não é motivada pela doença, como acontece nos poemas de Bandeira, mas, sim, pela pobreza do arquipélago. Daí o sentimento de evasão como transposição de limites:
"No seu cotidiano de miséria, dormindo no chão húmido de terra batida, coberto de serapilheira e comendo os restos repartidos, (...)
Aguarda contudo com ânsia o dia da partida.
A viagem. O vapor.
Sabe que um dia, escondido em um navio cargueiro, ele irá demandar novos horizontes, zarpará à procura da terra prometida.
Então sim ele poderá decifrar a angústia que lhe encolhe a alma quando o seu corpo celebra a ânsia da partida." (Op. cit. 82)
Entretanto, não podemos conceber a evasão proposta pelos claridosos como fuga da realidade. Devemos compreender tal sentimento como recusa e forma de resistência ao sistema opressor do colonizador português agravado pela ditadura salazarista. Gomes cita o crítico e escritor Manuel Ferreira:
"Para Manuel Ferreira, 'esse evasionismo (...) não pode ser, de maneira nenhuma, tido como fuga', como propuseram Onésimo da Silveira e Ovídio Martins. A questão é mais complexa e o pasargadismo, para o grande sistematizador das literaturas africanas Prof. Manuel Ferreira pode ser explicado 'pelo desejo manifestado da fuga à degradada situação colonial que encerrava o horizonte à juventude pensante e interrogadora. Era um protesto. Um desdém. Não é de mais dizer: era a fuga à erosão colonial, mas não era voltar as costas à caboverdianidade'. Itinerário de Pasárgada, de Osvaldo Alcântara, é um excelente poema da Recusa e da Utopia, segundo Ferreira."
(FERREIRA, Manuel em "A emergência da inter-textualidade afro-brasileira. IN: O discurso no percurso africano I. Lisboa: Plátano, 1989. p. 160. Apud: trecho retirado de um ensaio de Simone Caputo Gomes – Cabo Verde: um amor pleno e correspondido)
A epígrafe de abertura do livro, de Jorge Barbosa, auxilia na elucidação da questão e o quanto são injustas e incorretas as acusações sofridas pelos claridosos:
"Eu trago dentro de mim um pássaro fechado...
Bate asas – quer voar! – em ânsias desmedidas...
Bem o sinto no peito, ardente, alucinado,
Num gigantesco arfar de ondas enfurecidas."
(DUARTE, 2001, p. 33)
Outro problema apontado pela autora inspirado na obra de Lopes é a ausência da figura paterna. Comum em Cabo Verde, lugar em que as mulheres, na verdade adolescentes de 12 ou 13 anos ou até com idade inferior, são forçadas a iniciar a vida sexual prematuramente, depois são abandonadas pelos homens que não assumem a paternidade, ou são obrigados a emigrar do arquipélago em busca de uma condição melhor de vida:
"Para além da linha do horizonte traçado de azul, Pidrim vê imagens confusas e distantes dos portos de desembarque de que lhe falou Nhô J'sê seu avô de mãe pois pai nunca soube se tinha." (Op. cit. 82)
O último grande claridoso celebrado é Manuel Lopes, autor do clássico Flagelados do vento leste. A autora enfatiza a relação do homem com o espaço geográfico e suas conseqüências por causa da seca, de todo o sofrimento perpetrado por ela ao ilhéu, que espera "ano após ano, sementeira após sementeira, esperança após esperança" (Op. cit. 84) as nuvens chorarem do céu. Expõe a persistente fé que move o cabo-verdiano, da chuva que nunca vem, a resistência à crueldade do clima árido das ilhas na bela metáfora das ondas que estouram insistentemente na praia:
"Num céu de um azul indescritível navegam nuvens carregadas de esperança. (...)
Pouco abaixo uma terra fissurada por anos de seca, desesperadamente espera que as nuvens se precipitem sobre ela abençoando as sementeiras dolorosamente parturientes, as almas ressequidas e as rochas escalabradas. (...)
E os camponeses e os poetas, como as ondas que teimosamente, regularmente e sem desfalecer banham as areias das praias, ano após ano, sementeira após sementeira, esperança após esperança, teimosamente perscrutarão o horizonte à procura dos sinais.
Quando finalmente a esperança sorrir num céu carregado de nuvens e num arrepio da pele mal agasalhada, as águas desabarão violentas e, sem compaixão, arrastarão para o mar profundo tudo o que foi esforço, entrega e devoção, nesta crença irrenunciável e dolorosa da chuva que virá." (Op. cit. 84)
Podemos depreender pelas letras de Vera Duarte celebrando os claridosos, além da presença de Manuel Bandeira, a forte influência exercida pelos romancistas da Geração de 1930 de nossa literatura. Tratam-se de escritores cujo os problemas sociais do Nordeste são tematizados em textos pungentes. Autores como Graciliano Ramos, José Lins do Rego, Rachel de Queiroz e Jorge Amado foram lidos com entusiasmo e admiração pelos cabo-verdianos, que se aproveitaram da semelhança geográfica e da caótica seca, já comentada anteriormente.
Ao aprofundarmos a questão da relação de Cabo Verde com o Brasil, inferimos, ainda, que nosso país serviu, para os claridosos, como modelo de miscigenação e de independência cultural em relação a Portugal, como comenta Gomes:
"Em Cabo Verde, a geração da revista Claridade preferiu imaginar-se não mais à luz do modelo colonizador ou de uma literatura colonial apologética da figura do herói navegador, e escolheu mirar-se em outro paradigma cultural forte, irmão, independente: o Brasil dos mulatos, malandros e heróis ignorados (...)"
Contudo, o pasargadismo sofreu severas críticas de outros poetas de cunho marxista, influenciados pelo realismo social na década de 1940. A princípio, com os integrantes da folha acadêmica Certeza (1944, dois números), surgida durante a Segunda Guerra Mundial, tendo como colaboradores alunos do Liceu Gil Eanes, entre eles Arnaldo França, Nuno Miranda e Tomaz Martins. Posteriormente, com o Suplemento Dominical (1958, um número), ou da Geração da Nova Largada (Ovídio Martins, Gabriel Mariano, Onésimo Silveira e outros) os poetas lançam o lema "Não vou para Pasárgada", acusam os claridosos de evasionistas e assumem a postura de "ficar para resistir". Carmen Lucia Tindó Secco comenta esse momento:
"cuja proposta literária era fazer a denúncia político-social da miséria reinante no Arquipélago, houve a dignificação do crioulo e da morabeza como traços caracterizadores da alma cabo-verdiana. (...) a literatura, (...) começou a criticar essa ideologia de que o cabo-verdiano era um ser destinado a emigrar e as gerações seguintes propuseram, então, 'o ficar para resistir'. O mar, que era concebido como meio de evasão, encapelou-se e suas águas revoltas passaram a conotar a necessidade da ação política, do mergulho nas raízes cabo-verdianas." (SECCO, 1999, pp. 11-13)
Para combater as idéias da geração da Claridade, o poeta Ovídio Martins critica, metapoeticamente, o poema "Itinerário de Pasárgada", de Osvaldo Alcântara (Baltasar Lopes), com viscerais e furiosos versos no famoso poema "Anti-evasão":
"Pedirei
Suplicarei
Chorarei
Não vou para Pasárgada
Atirar-me-ei ao chão
E prenderei nas mãos convulsas
Ervas e pedras de sangue
Não vou para Pasárgada
Gritarei
Berrarei
Matarei
Não vou para Pasárgada"
(ANDRADE, 1977, p. 48)
A radicalização de uma postura comprometida com o social coincide com os primeiros movimentos para libertação das colônias portuguesas, em contrapartida o recrudescimento da repressão da ditadura salazarista pode ser percebido com os parcos números das publicações cabo-verdianas, no decorrer das décadas de 1930 a 1960. Em 1956, é criado o PAIGC (Partido Africano para a Independência de Guiné e Cabo Verde), liderado por Amílcar Cabral. O momento exige uma posição determinada, combativa, direta. Os poetas começam a revelar em seus poemas o drama dos contratados que partem para as lavouras de São Tomé e Príncipe, um outro modelo perverso de emigração, forçada, cruel e desumana.
A agonia dos contratados é explorada por diversos autores, tais como Gabriel Mariano:
"Caminho
Caminho longe
ladeira de São Tomé
Não devia ter sangue
Não devia, mas tem.
Parados os olhos se esfumam
no fumo da chaminé
Devia sorrir de outro modo
O Cristo que vai de pé.
E as bocas reservam fechadas
a dor para mais além
Antigas vozes pressagas
no mastro que vai e vem.
Caminho
caminho longe
ladeira de São Tomé
Devia ser de regresso
devia ser e não é."
(ANDRADE, 1977, pp. 240)
A insularidade e a conturbada relação com o mar, ora cantado como beleza ora definido como fator de isolamento e solidão, são os motivadores das polêmicas evasão/emigração, "querer ir e ter que ficar" ou "ter que ficar e querer partir" que perpassam pela literatura do arquipélago.
Contudo, os poetas publicados na antologia Mirabilis – de veias ao sol (Instituto Caboverdiano do Livro, 1991) buscam novas formas de lidar com as questões relacionadas à cabo-verdianidade, a desconstrução dos temas é realizada por todos sendo retomadas em prismas ampliados e universais. Além da releitura dos temas tradicionais, a nova geração apresenta ironia, humor e erotismo.
O contato com a tradição lusitana é refeito com ironia e recusa do passado à procura de novas relações com o mar em Euricles Rodrigues:
"Viola a tua tradição
Enterra a tua paranóia
Marítima secular (...)
E busca
Novas formas
Novas artes
Novos engenhos
De estabelecer nova aliança com o mar"
(Euricles Rodrigues, p. 190. Apud: Poesia Sempre, p. 270)
A chuva, de presença marcante entre os claridosos, é tratada com amargura e rejeitada por José Luís Hopffer Almada:
"Os sonhos fedem à chuva
E os braços apodrecem
Ante o frágil tornozelo dos subúrbios
(...)
os sonhos fedem
no aglomerado acocorado de
desânimo
ante a futilidade dos meses
e a inadiável fome
de todos os dias
e eis-nos, de órbitas alagadas,
sem saber o que fazer
da turva humidade
e do vazio que com os sonhos
fenecem"
(À sombra do sol, p. 16. Apud: Poesia sempre, pp. 271-272)
David Hopffer Almada propõe o abandono do olhar amargurado, triste e conformado sobre a falta de chuva, a seca, a insularidade, a evasão/anti-evasão, e lança um novo canto de esperança e alegria:
"Quero
Um canto diferente
Para Cabo Verde
Já não somos
Os flagelado do vento leste
Dominamos os ventos
Já não somos os contratados
Como animais de carga para o Sul
Conquistamos a dignidade de gente
Por isso
Vou cantar
De forma diferente
Para esta pátria do Meio do Mar
Vou esquecer, enterrar
Os lamentos, as lamúrias
A tristeza
De quem quer ficar
Com o destino de ter de partir
Não vou chorar
A pobreza, a fraqueza
A seca
A natureza madrasta
Canto
Para este povo
Um canto de alegria"
(1988. Apud: trecho de poema retirado de um ensaio de Simone Caputo Gomes publicado em Marcas da diferença, p.168-169.)
Já Mário Fonseca recebe uma bela homenagem em um longo poema dedicado à liberdade, às conquistas de todos os povos e às mulheres. Mário Fonseca foi um dos principais nomes da revista Seló (1962, dois números), de intensa temática social. No poema-manifesto "Ortodoxias em desagregação", o eu lírico agradece a premonição do poeta, sua certeza na Utopia, sua defesa da justiça, sua exaltação nas vitórias diversas em todas as partes e em todas as épocas: "O fascínio vem-me de longe / de tudo o que foi esperança / desde o início dos tempos" (DUARTE, 2001, p. 59). Um poeta em constante luta revolucionária, contrário a qualquer forma do mais forte subjugar os desfavorecidos. O poema celebra as revoltas, as vitórias comunistas, as guerras contra o colonizador português nos anos 1960, as independências:
"O fascínio vem-me
Dos momentos iniciáticos
Que incendiaram o coração dos homens.
Das revoltas dos escravos
Dos outubros de dezassete
Dos maios subversivos
Dos abris
Todos os abris
E das mulheres que ousaram
Das mulheres que fizeram (...)
Quero poder ouvir
Para sempre
As canções heróicas
Que deram som às revoluções
Cantar os hinos
Todos os hinos
De todas as épocas
De todas as gestas libertárias
Quero poder
Por meus pés
Cruzar ares
Cruzar mares
Conhecer gentes
Visitar povos
Cantar independências
E tudo que cheirar a liberdade
(...)
o que quero ter nos braços
é a idéia de ter
e poder cantar abril
e cantar independências
e cantar o orgulho de ser-se Povo
cantar a glória de ser-se Nação" (Op. cit. 60-61)
Ao colaborador da Claridade, Arnaldo França, que Vera Duarte considera como "o maior intelectual vivo e a viver em Cabo Verde", dedica o poema "A alma - acto primeiro d'A Trilogia do Amor". O eu lírico demonstra todo o seu amor e entrega ao arquipélago, numa viagem intimista após "desvendado o segredo do amor", propõe a evasão apenas no universo onírico: "quero permanecer na ilha / e navegar apenas em sonhos". Assim, o eu lírico ultrapassa a polêmica evasão/emigração, "não quero mais partir!", ao declarar toda a sua paixão a Cabo Verde:
"De malas desfeitas
quebrarei na ilha
a prisão das ilhas
e voarei para lá do horizonte
com os pés fincados na areia
que abrigou nossos corpos em festa." (Op. cit. 64-65)
Ao poeta participante das revistas Certeza e Seló, Oswaldo Osório, o eu lírico retoma questões tratadas no primeiro caderno, "Da impossibilidade do amor", reflete e denuncia a dor sofrida pela mulher, dos espancamentos feitos pelos companheiros, da estreita relação entre amor e morte. Navega com inquietação, divaga, "confusa me pergunto se o amor rima com escravidão, submissão, humilhação", indaga o destino cruel reservado:
"Até quando
viver prisioneiro
nas malhas da paixão
converter-se de humano a farrapo
no destino caótico de vidas
que a vida nada reservou" (Op. cit. 94)
A presença de autoria feminina na literatura cabo-verdiana é discreta, como em diversos campos da sociedade apesar da mulher constituir 52% da população do arquipélago, segundo Vera Duarte (3). Constatamos a ausência de escritoras nos movimentos literários em boa parte do século XX, porém a situação começa a ser resolvida com nomes significativos que consolidam seu espaço no pós-independência, dando voz à mulher e à condição feminina, seus anseios e seus dramas com extrema qualidade. Duarte, na já citada entrevista, comenta a participação das mulheres no corpo literário cabo-verdiano:
"A Fátima Bettencourt gosta muito de dizer que 'Nha Claridade só pariu filhos homens', numa clara alusão ao facto de a quase totalidade dos autores claridosos serem homens. Graças a Deus estamos a ajudar a mudar este cenário e a moderna literatura cabo-verdiana já começa a estar profundamente marcada pela presença feminina e há mesmo quem acha (Luandino Vieira, por exemplo) que esta presença é o melhor da literatura cabo-verdiana. Eu entendo, juntamente com Simone Caputo Gomes e Carmem Lucia Tindó Secco, que embora os homens continuem a ser numericamente superiores há já claramente uma literatura de cunho feminino em Cabo Verde." (4)
A última epígrafe analisada neste texto é dedicada à Dina Salústio, escritora contemporânea de Vera Duarte e um dos pilares da literatura do arquipélago. Salústio, em suas obras, aborda os mais variados aspectos da condição feminina. A mulher, sofrida e humilhada, é a sua principal fonte de inspiração e procura, em alguns momentos, subverter temas, posições e comportamentos sociais, mostrando novos paradigmas para velhos problemas.
O poema "A outra", interliga-se com o poema anterior, "A dor", ao abordar a submissão feminina. No novo poema há o conflito existencial de uma mulher simbolizado pelas mulheres bíblicas (antagônicas) Maria – a virgem mãe, e Madalena. A vontade de ser a mulher que se rebela contra as normas sociais em convívio inquietante com a mulher que aceita a submissão, além do questionamento diante de uma "civilização incoerente":
"Quem é essa outra mulher que me habita e abusivamente ocupou quase todos os espaços? (...)
Quem é essa mulher que me oferece as bem-aventuranças e me cega para os precipícios?
Por vezes apetece-me segui-la de olhos vendados, até onde ela quiser levar-me.
A meio do caminho ou antes de iniciar a caminhada.
E fico observando, carente e deliciada, o evoluir das bem-aventuranças, a felicidade suprema, a total insubmissão.
Madalena a mulher espreita e tenta. Ela quer e sabe.
Mas há uma inquietação também por um destino feminino sem subversões, feito de silêncio e de renúncias, que garantem Maria, virgem mãe.
Quantas vezes me quedarei perplexa e angustiada perante as encruzilhadas desta civilização incoerente?" (DUARTE, 2001, p. 95)
Apreendemos no livro O arquipélago da paixão, o amor incondicional de Vera Duarte a Cabo Verde e, principalmente, à literatura das ilhas através das epígrafes dedicadas aos poetas, ora do passado claridoso, ora aos seus pares contemporâneos. Com esse auxílio, vimos que podemos percorrer o percurso de afirmação da literatura cabo-verdiana no decorrer do século XX. Suas inquietações, conflitos e mudanças temáticas de acordo com os acontecimentos históricos: da colônia à independência, do sonho utópico às frustrações com as irrealizações políticas e sociais da liberdade desejada. É a poesia agindo com olhar crítico aos problemas inerentes a ela e às indefinições de um jovem país em construção.
Depreendemos que a obra de Vera Duarte abrange outros caminhos, apresenta novos paradigmas ao corpo literário cabo-verdiano. A ênfase dada à situação da mulher, oprimida e excluída, sua defesa incontestável dos direitos humanos, da liberdade e da justiça, e a alta qualidade de sua poesia que abrange problemas universais, eleva-a entre os principais destaques das letras do arquipélago. Esta "mulher de causas" possui uma obra relevante que se insere em um quadro mutável, imprevisível e belo, tendo a literatura, a paisagem e a mulher cabo-verdianas como fatores fecundadores na esperança de um novo mundo.
Amparados pelas epígrafes, libertamos o pássaro fechado de Jorge Barbosa e voamos pela magia das letras cabo-verdianas que reescrevem a literatura e a história da nação, percorrem um desconhecido caminho, vislumbram e reinventam um novo futuro para Cabo Verde, de acordo com o lema de vida da autora: Liberdade, Justiça, Paz e Amor.
"Mas sou e acho que vou continuar a ser sempre uma mulher de causas. Antes de mais esta grande causa da emancipação e promoção da mulher mas na realidade de todas as causas de emancipação e promoção do ser humano na permanente busca da felicidade." (5)
NOTAS:
(1) http://www.caboverde.com/artist/vduarte.htm
(2) http://www.acaboverdeana.org.pt/modules.php?name=News&file=print&sid=55
(3) Entrevista ao jornal A Semana, em 01/10/2005.
(4) Trecho de entrevista retirado de http://www.acaboverdeana.org.pt/
BIBLIOGRAFIA:
AAVV. Poesia Sempre n° 23 – Angola e Moçambique. Rio de Janeiro: Fundação Biblioteca Nacional, 2006.
ANDRADE, Mário de. Antologia temática de poesia africana: na noite grávida de punhais. Lisboa: Sá da Costa Editora, 1977.
DUARTE, Vera. O arquipélago da paixão. Mindelo: Artletra, 2001.
GOMES, Simone Caputo. Cabo Verde e Brasil: um amor pleno e correspondido.
http://www.simonecaputogomes.com/arquivos.htm . Acessado em 20 de dezembro de 2007.
GOMES, Simone Caputo. Rostos, gestos, falas, olhares de mulher: o texto literário de autoria feminina em Cabo Verde. In: Chaves, Rita e Macedo, Tânia. (Orgs.) Marcas da diferença: as literaturas africanas de língua portuguesa. São Paulo: Alameda, 2006.
SECCO, Carmen L. T. R. (Org.). Antologia do mar na poesia africana de língua portuguesa do século XX: Cabo Verde. Rio de Janeiro: UFRJ, Coordenação dos Cursos de Pós-Graduação em Letras Vernáculas e Setor de Literaturas Africanas de Língua Portuguesa, 1999. v.2.
VENÂNCIO, José Carlos. Literatura e poder na África lusófona. Lisboa: Ministério da Educação. Instituto de Cultura e Língua Portuguesa, 1992.
INTERNET:
Vera Duarte, mulher de causas.
Vera Duarte, Capeverdean poeat
http://www.caboverde.com/artist/vduarte.htm. Acessado em 27 de março de 2008.
Vera Duarte apresenta hoje, na Praia, "Construindo a Utopia"
http://www.vozdipovo-online.com/conteudos/cultura/vera_duarte_apresenta_hoje,_na_praia,_%22construindo_a_utopia%22/
sexta-feira, 4 de abril de 2008
Fátima Bettencourt - blog
http://fatimabettencourt.blogspot.com/
Lá, encontramos uma breve resenha sobre o seu livro de contos Mar - caminho adubado de esperança.
terça-feira, 1 de abril de 2008
Álvaro de Campos e Dina Salústio
RESUMO:
O presente texto procurará desenvolver questões sobre como a competição acirrada entre os homens na modernidade alterou o comportamento social, conduzindo-os a ocultar seus fracassos, medos e dúvidas, levando-os à criação de personagens artificiais para que prevalecessem perante o outro. Entretanto, essa escolha desencadeou uma vivência envolvida em ilusões, estimulou a concorrência, aumentou a hipocrisia, provocou o isolamento e motivou a ausência de autocrítica em uma era marcada pela supremacia do capital, como será analisado em “Poema em Linha Reta”, de Álvaro de Campos (heterônimo de Fernando Pessoa), e no conto “Campeões de Qualquer Coisa”, de Dina Salústio.
O século XX apresentou importantes renovações nas literaturas de língua portuguesa. A primeira foi o surgimento de Fernado Pessoa e seus heterônimos, que o elevaram a ser um dos principais nomes de nossa língua em todos os tempos, ao lado, sem sombra de dúvidas, de Luís de Camões e Machado de Assis. O segundo momento foi a consolidação das literaturas dos países africanos de língua portuguesa, especificamente, para este texto, a cabo-verdiana, aqui representada por Dina Salústio.
O século passado ficou marcado pelo predomínio do capital, das leis de mercado, pelo acirramento da convivência entre os homens. A vitória do capitalismo, acompanhada de sua ideologia triunfalista baseadas na conquista e acúmulo de bens, estimulou a competitividade e conduziu-nos a um comportamento hostil com o outro. O filósofo Leandro Konder define da seguinte maneira esse momento:
“É uma ideologia que está ligada ao fato de a nossa sociedade ter sido organizada de tal maneira, que ela gira de modo cada vez mais exclusivo em torno do mercado, isto é, em torno de uma lógica calculista, competitiva, que é a lógica que tem resultado no crescimento da economia e também no aumento de todas as desigualdades sociais, de todas as exclusões mais perversas. Que incita os indivíduos a serem competitivos e que, a partir de um certo nível, os incita também a serem hipercompetitivos, isto é, solitários, infelizes e cruéis, desprovidos da possibilidade de viver mais intensamente a experiência da solidariedade humana.” (KONDER)
É em relação à hiper-competitividade entre os indivíduos e a quase exclusão de valores como a solidariedade que procuraremos escorar nossa análise, a partir do conto “Campeões de Qualquer Coisa”, de Dina Salústio, e de “Poema em Linha Reta”, de Álvaro de Campos, heterônimo de Fernando Pessoa.
Todavia, convém, primeiro, apresentar os autores que serão comentados.
Bernadina Oliveira Salústio nasceu em 1941 na ilha de Santo Antão, Cabo Verde. É, hoje, uma das principais representantes da literatura cabo-verdiana. Apesar da presença discreta, a literatura de autoria feminina pode ser considerada como o grande destaque do arquipélago, nas belas letras de Vera Duarte e Fernanda Bettencourt. Todas, lançadas no pós-independência, em 1975.
Dina Salústio autodenomina-se "uma mulher que escreve coisas" (Apud: Sepúlveda, 2000, p. 114), porém, é uma escritora multifacetada. Participou da antologia poética “Mirabilis – veias ao sol” (1991), que reuniu novos nomes preocupados em apresentarem estéticas inovadoras e temas universais para a literatura cabo-verdiana. Em romance, lançou “A louca do Serrano” (1998); como ensaísta publicou “Insularidade na literatura cabo-verdiana” (1998); e, em contos, “Mornas eram as noites” (1994), de onde foi extraído o conto aqui analisado, apenas para citarmos alguns trabalhos.
A mulher possui papel preponderante em seus textos. Salústio acompanha de perto as questões que afligem a condição feminina em seu cotidiano. Embora tenha Cabo Verde como pano de fundo, sua narrativa procura movimentar-se entre o local e o universal, ou seja, ao falar da mulher cabo-verdiana, Dina atinge todas as mulheres do mundo. Essa preocupação com a mulher podemos constatar em declaração dada à Profa. Simone Caputo Gomes (USP), a respeito dos contos de “Mornas eram as noites”:
“necessidade de publicar as inúmeras histórias de mulheres, histórias de vida que passam por mim (...) Não são ficção, é cá um encontro que é verdade, um momento só (...) Não fiz uma seleção desses textos, só o primeiro foi intencional, para querer mostrar o meu reconhecimento a estas mulheres cabo-verdianas que trabalham duro, que fazem o trabalho da pedra, carregar água, trabalham a terra, que têm a obrigação de cuidar dos filhos, de acender o lume. Quis prestar homenagem a esta mulher (...) Falo das mulheres intelectuais, daquelas que não são intelectuais, daquelas que não têm nenhum meio de vida escrito, falo da prostituta, falo de todas as mulheres que me dão alguma coisa, e que eu tenho alguma coisa delas (...) Em Cabo Verde, quando nasce uma menina, ela já é uma mulher.” (Apud: Sepúlveda, 2000, p. 114)
Dentre os vários heterônimos que Fernando Pessoa criou, Álvaro de Campos é um dos mais importantes, junto com Alberto Caeiro e Ricardo Reis. Os três possuem biografia própria, estilos literários diferentes e produzem uma obra paralela a de Pessoa. Para o crítico e poeta Ferreira Gullar, os heterônimos:
“habitam Fernando Pessoa. Convivem com ele, discutem com ele, misturam sua voz à dele, o influenciam. São portanto parte de Fernando Pessoa e compõem a sua personalidade contraditória e multiforme. Que Pessoa projeta e realiza neles tendências e qualidades pessoais está dito na carta de 13 de janeiro de 1935 a Adolfo Casais Monteiro. Pessoa escreve: ‘E contudo —penso-o com tristeza— pus no Caeiro todo o meu poder de despersonalização dramática, pus em Ricardo Reis toda a minha disciplina mental, pus em Álvaro de Campos toda a emoção que não dou nem a mim nem à vida.’” (GULLAR)
Gullar considera que, talvez, Álvaro de Campos:
“seja um heterônimo mais perto de Pessoa que os outros, mais perto da pessoa de Pessoa. Mesmo porque, como o cidadão Fernando Pessoa – ao contrário de Caeiro e Ricardo Reis – Álvaro de Campos é citadino, urbano, metropolitano, contemporâneo das usinas e da luz elétrica”. (GULLAR)
Campos é um entusiasta das inovações industriais e tecnológicas da virada do século XIX para o XX, o que o aproxima do movimento modernista conhecido como futurismo, idealizado pelo italiano Marinetti. Poeta moderno, “ligando-se à estética de vanguarda futurista, em sua poesia, é possível perceber as transformações do espaço social bem como o desenvolvimento da tecnologia”. (SILVA)
O encantamento e posterior desencanto com as mudanças tecnológicas, levou-o a se tornar um crítico feroz da modernidade. Suas conseqüências ao homem moderno e à sociedade burguesa mantêm a atualidade. Em sua fase final, seus poemas demonstram desapontamento com os rumos tomados pela sociedade industrial. Campos passa a ser um homem solitário e angustiado; descrente com a perda de valores e artificialidade das relações humanas, motivadas com o recrudescimento do capitalismo.
Um outro aspecto da personalidade de Álvaro de Campos associado a Fernando Pessoa, e, apontado por muitos críticos, inclusive Ferreira Gullar, é o homossexualismo. Gullar menciona que “por ser tão preso aos sentidos, ao corpo, é natural que nele (Álvaro de Campos) se manifeste o lado feminino de Pessoa, que Pessoa, por temor, reprime”. Como constatamos em carta a Adolfo Casais Monteiro,
“Se eu fosse mulher – na mulher os fenómenos histéricos rompem em ataques e coisas parecidas – cada poema de Álvaro de Campos (o mais histericamente histérico de mim) seria um alarme para a vizinhança. Mas sou homem - e nos homens a histeria assume principalmente aspectos mentais: assim tudo acaba em silêncio e poesia.” (PESSOA – Fernando Pessoa por ele mesmo)
Apresentações feitas, comentaremos, a seguir, as obras escolhidas.
No conto “Campeões de Qualquer Coisa”, a atitude masculina é redimensionada e reavaliada por um novo prisma, a partir de um homem que se considera normal e não aceita a disputa desenfreada, comum entre seus pares. No conto, uma narradora-personagem conversa com um indivíduo em uma festa. Mostra-o vários grupos presentes, identificando-os como “os campeões das anedotas estão ao fundo, ao lado, os campeões da política internacional, à esquerda os do futebol, os do sexo, debaixo do abacateiro, os do copo, junto ao bar (...)” (SALÚSTIO, 1999, p. 13). Porém, o personagem afirma que “não eras campeão em coisa nenhuma e nem sequer eras bom em qualquer coisa e que eras do tipo normal” (SALÚSTIO, 1999, p. 13).
Logo em sua primeira intervenção, o personagem assume sua condição: a de ser normal. Apreendemos que a normalidade é algo ruim, ser normal é não ser campeão, não ser competitivo, o que pode ser tachado como uma pessoa derrotada. E apesar de a narradora-personagem surpreender-se com a declaração, pois está acostumada com as histórias inventadas pelos homens, a postura do interlocutor a conduz à reflexão, questiona suas posições, contudo, ela insiste em enquadrá-lo em algum grupo e propõe-lhe que atue como os outros:
“Não havia tristeza nas tuas palavras e, como pensei que um homem normal o mínimo que se devia sentir era triste pela revelação e porque já havia percorrido vários grupos onde cada um era melhor que todos e estava com uma espécie de raiva concentrada, disse-te não te preocupes, pois há um campo onde não precisas provar nada. Vai para debaixo do abateiro. (...) Conta as tuas fantasias e os teus fantasmas. (...) Inventa situações, viagens e encontros, princesas e prostitutas, (...) Inventa. Inventa o mais que puderes. Faz como os outros. (...) Mente. Mente muito. E sobretudo exagera. Exagera até o impossível. Vá. Campeão é assim.” (SALÚSTIO, 1999, p. 13-14)
O personagem permanece convicto em sua posição, em uma linguagem ferina ironiza o comportamento masculino, expõe a imaturidade e arrogância dos homens, e o incômodo causado pelas declarações artificiais. Depreendemos que, além da ironia, percebemos um certo tom de tristeza com a hipocrisia de seus contemporâneos:
“Teimosamente disseste que não podias, que não querias fazer-te de atleta de façanhas tantas, porque eras adulto e há muito passaras os dezassete anos e que as tuas necessidades e os teus interesses eram outros e que as tuas fantasias eram as tuas parceiras e expô-las em público seria como veres-te ao avesso num grande écran. E acrescentaste que o ridículo te perturbava e, muito sério ajuntaste: o pior é que o ridículo de cada um de nós perturba a todos profundamente.” (SALÚSTIO, 1999, p. 14)
O personagem posiciona-se de forma diferenciada ao padrão comportamental masculino. Questiona a hipocrisia de uma vida em mentiras, as máscaras que os homens se vêm obrigados a criar, para sobressaírem em uma sociedade hiper-competitiva. Por possuir autocrítica e não se enquadrar na norma estabelecida, considera inadequadas tais atitudes. Por ser um observador arguto da sociedade em que vive, encontra dificuldade em se relacionar com pessoas falsas e imaturas. Ao comparar-se com os outros, revela-se diferente, e, com ironia, justifica-se:
“Ensinaram-nos que devíamos ser heróis de qualquer coisa. Exigem que façamos permanentemente exercícios de auto afirmação. Não nos educaram para corajosamente debatermos os nossos medos, falhas, hesitações, infernos. Apetrecharam-nos com o mito de super-machos e esperam que sejamos vencedores, fazendo-nos inimigos da própria maneira de estar, escamoteando a verdade, falseando as fronteiras. E porque somos apenas normais e temos vergonha da nossa normalidade, passamos o tempo todo a pensar numa roupagem que impressione. E vestimo-nos de atletas e mascaramo-nos de campeões, para, às escondidas, chorarmos a nossa simplicidade, a vulgaridade que enforma os nossos sentimentos íntimos. Não temos coragem para dizer não sou o melhor e não tenho que o ser, nem justificar-me da minha fragilidade. Entrar em competição com as minhas fantasias e as dos outros seria sinal de simples imaturidade e falta de respeito por mim próprio – prosseguiste descontraído, quase a rir.” (SALÚSTIO, 1999, p. 14-15)
Já Álvaro de Campos, na segunda década do século XX, denuncia a dissimulação dos homens no impactante e incomum primeiro verso do “Poema em Linha Reta”: “Nunca conheci quem tivesse levado porrada”. E enfatiza o porquê de tal enunciação: “Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo”.
Apreendemos nos dois primeiros versos o tom amargo, irritado e decepcionado com os homens, sendo esta última característica a que perpassará por todo o poema.
Na estrofe seguinte, o sujeito-lírico aponta várias características que o tornam um ser humano desprezível: “irrespondivelmente parasita”, indesculpavelmente sujo”, “que tenho sofrido enxovalhos e calado” e “que tenho sofrido a angústida das pequenas coisas ridículas”. O sujeito-lírico é um ser desterritorializado, não encontra lugar no meio em que vive, não se ajusta aos parâmetros estabelecidos pela sociedade competitiva. Em sua crise existencial, despersonalizado e tratado com desdém pelos seus pares, conclui, melancólico: “Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo”.
A competição desenfreada força as pessoas à exibição pública, elas precisam se promover a todo instante, a arrogância ostentada perante o outro atinge níveis insuportáveis. Todos aparentam ser líderes, fortes e competentes, ou seja, são todos “príncipes”:
“Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...” (PESSOA)
O sujeito-lírico clama aos homens com incontestável irritação e, da ironia, parte para o sarcasmo. À beira do desespero, implora para que os homens sejam eles mesmos, que desçam do pedestal de mentiras em que se encontram e ajam como pessoas normais. Em uma sociedade desajustada como a vivenciada pelo sujeito-lírico, as pessoas vangloriam-se de seus atos violentos, porém são incapazes em admitir suas covardias. O poeta procura pessoas frágeis, falíveis. Pessoas comuns, humanizadas, solidárias com o próximo:
“Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia! (...)
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,
Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?” (PESSOA)
Revoltado e magoado com os homens, ainda assim recorre à ironia, e pergunta: “Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?”. Há uma proposital discordância gramatical na oração, pois assim o sujeito-lírico enfatiza que não é ele que “é vil e errôneo”, mas, sim, o que as pessoas pensam dele. Na comparação, distancia-se dos outros, e o que seria prejudicial para ele é, na verdade, válido e de bom grado, porque afasta-se da conduta ignominiosa, da desumanidade reinante em um mundo de ilusões.
Até quando erram e resolvem comentar seus erros, os homens não assumem suas falhas, escoram-se na diminuição ou ocultam os fatos, tentam se proteger e, com isso, escapam da desmoralização:
“Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.” (PESSOA)
Na última estrofe, a pergunta surge ironicamente “Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?” e mostra o seu desajuste em relação ao mundo de seres perfeitos, logo ele que é “vil”. Em todo o poema, depreendemos que o sujeito-lírico se coloca como um ser acomodado com a imperfeição natural dos homens, que considera as qualidades e defeitos humanos como normais, que a vida é feita de altos e baixos, de derrotas e vitórias. Por isso, não aceita a exclusão social ao qual é submetido, da frieza e desprezo que as pessoas têm pelos que não são perfeitos, por aqueles que vivem uma vida real, não uma vida idealizada. E, principalmente, apresenta um erro crasso cometido pelas pessoas na modernidade: a ausência de autocrítica.
Os dois textos têm em comum a reflexão da autocrítica, entretanto, os dois autores vão além da questão ao tratar da reflexão à falta de autocrítica dos outros. Novamente, recorro a Leandro Konder:
“acho que o que há de novo e o que há de mais original, mais forte no “Poema em linha recta” é o desdobramento da autocrítica, não mais numa crítica ao outro, mas uma crítica à falta de autocrítica dos outros. Quer dizer, acho que se pode enxergar nesse poema a revolta de alguém que se mostra efetivamente capaz de se interpelar a respeito do seu lado noturno, digamos. Discorre sobre o que ela tem de mais problemático, mais doloroso e mais fracassado, sobre sua própria vileza, e vê essa sua franqueza, essa sua coragem resvalar na muralha hipócrita de um sistema que está alicerçado em uma enfática autovalorização artificial, por parte das pessoas em geral.” (KONDER)
Percebemos que tanto Dina Salústio quanto Álvaro de Campos utilizam a ironia para escancarar uma sociedade dominada pela perversidade da competição capitalista, que despreza os incapazes e debocha dos fracos. Que estimula a dissimulação, a mentira, o egoísmo nas relações sociais. Os dois autores já são irônicos nos títulos das obras: “Poema em Linha Reta” é a metáfora do quanto é impossível se ter uma vida em linha reta, pois se formos traçar uma linha da vida ela será sinuosa, em curvas a simbolizar os altos e baixos da experiência humana; e “Campeões de Qualquer Coisa” denuncia a artificialidade das relações sociais. A franqueza e a coragem em admitirmos erros, são problemas que devem ser ocultados de qualquer maneira na época atual. Devemos mentir. Mentir para garantir o nosso lugar no mundo, mesmo que para isso tenhamos que inventar títulos ininterruptos, novos, melhores e maiores.
Os textos aqui apresentados tratam de dois seres despersonalizados diante da sociedade moderna, no mundo que lhes couber viver. São solitários e amargurados. Como são observadores perspicazes da época em que vivem, utilizam-se da ironia como elemento crítico da ordem estabelecida e procuram alcançar o riso incômodo do leitor. Subvertem a situação vigente, ao assumir o que é considerado grotesco por ela. Ao não se alinharem na disputa feroz entre os homens, estimulada pelo capitalismo, distanciam-se dos outros, são excluídos, ignorados e tratados como fracassados. Contudo, seus desejos passam pela vontade de conviver com pessoas que acertam e erram, perdem e ganham, ou seja, pessoas que são apenas homens.
Concluímos que há muito a aprender sobre nosso comportamento, a refletir sobre a ética distorcida da contemporaneidade, que valoriza aquilo que a pessoa não é em detrimento daquilo que realmente a pessoa é. Inferimos a despersonalização do ser em um mundo idealizado, ilusório e virtual. E os textos de Álvaro de Campos e Dina Salústio, o primeiro escrito no raiar do século XX e o segundo na derradeira década do mesmo, atentam-nos para as contradições e a degradação do ser humano em uma sociedade hipercompetitiva, como a vivenciada por nós no alvorecer do século XXI.
FONTES:
GOMES, Simone Caputo. Mulher com paisagem ao fundo: Dina Salústio apresenta Cabo Verde. In: SEPÚLVEDA, M. C. & SALGADO, M. T. (ORGs). África & Brasil: letras em laços. Rio de Janeiro: Atlântica, 2000.
GULLAR, Ferreira. Fernando Pessoa: a razão poética. Folha de São Paulo, Caderno Mais!, 10/11/1996. Acessado em 25/03/2008, em http://www.secrel.com.br/jpoesia/gular04.html
KONDER, Leandro. A questão da ideologia na ficção literária. Revista Semear nº 5. PUC/RJ. Acessado em 25/03/2008, em http://www.letras.puc-rio.br/Catedra/revista/5Sem_10.html
PESSOA, Fernando. Poema em Linha Reta. In: Fernando Pessoa - Obra Poética. Rio de Janeiro: José Aguilar, 1972.
SALÚSTIO, Dina. Campeões de Qualquer Coisa. In: Mornas eram as noites. Colecção Lusófona. Lisboa: Camões, 1999, pp. 13-15.
SILVA, Wellington Augusto da. Álvaro de Campos: a moderna crítica da Modernidade. Revista Garrafa nº 8 – janeiro-abril/2006. Departamento de Ciência da Literatura da faculdade de Letras da UFRJ. Acessado em 26/03/2008, em http://www.ciencialit.letras.ufrj.br/garrafa8/al-wellingtonaugusto.html
