domingo, 13 de abril de 2008

Língua e estilo de Elomar (livro)


Língua e estilo de Elomar
SALOMÃO, Any Cristina.SIMÕES, Darcilia.KAROL, Luis.PICCININI, Fernanda.
Publicações Dialogarts, 2006

Belo trabalho acadêmico sobre a obra do violeiro Elomar, disponível para download no endereço acima.

sexta-feira, 11 de abril de 2008

Manuel Bandeira: Crônicas inéditas I (lançamento)

CHACAL VIVE BANDEIRA

A Cosac Naify lança o livro Crônicas inéditas I, de Manuel Bandeira (organização de Julio Castañon Guimarães), na Livraria Travessa, Rio de Janeiro, no dia 13 de abril.

O lançamento contará com a presença do poeta Chacal, que fará uma apresentação performática ao ler a crônica “Antonieta Rudge”, escrita por Bandeira em 1930 e originalmente publicada no Diário Oficial.

Leia, a seguir, texto em que Chacal fala sobre suas impressões diante da prosa inédita de Manuel Bandeira, exclusivo para este site.

Lançamento de Crônicas inéditas I, de Manuel Bandeira
13 de abril, às 19h
Livraria da Travessa
Rua Visconde de Pirajá, 572 – Rio de Janeiro


BANDEIRA PRA VIDA INTEIRA

Estou imerso em Bandeira. Faz bem ao batimento cardíaco. Como me acalma! Crônicas Inéditas I, recém lançado pela Cosac Naify, é um bálsamo. Como cronista, Manuel faz sua cruzada com aqueles toques certeiros de um cidadão, de um poeta. Ele se bate, ele se contradiz. Ele exalta e reclama. Bandeira roga a cidadania que preserve um certo nível artístico, prestigiando a música clássica, o canto lírico e observa:

“... a invasão do morbus fox-trot alucionou a nossa população, desviou-a do caminho que conduz à civilização, desorientou-a com a liberdade expressiva tolerada por uma sociedade que só pensa em diversões... Vencer esse meio, atrair uma parte dos fascinados pelos sports, pelos cinemas e pela dança licenciosa, não é tarefa das mais fáceis, mas a pertinácia do Doutor Duque Estrada, do maestro Francisco Braga e de seus excelentes auxiliares que formam a Orquestra da Sociedade de Concertos Sinfônicos, tem alcançado várias vitórias.

O público já procura ouvir Mozart, Beethoven e Wagner, deseja conhecer os nossos compositores, percebe que temos um meio artístico, aos poucos vai fugindo da formidável atração dos sports, cinemas e dancings”. (“Concertos”, de 1925, escrita para Brasil Musical)

Quem achar esse recado um tanto conservador, mesmo para uma época em que a cultura de massa ainda não era absoluta, veja esse comentário de Bandeira sobre o livro de Mário de Andrade, Paulicéia Desvairada, então recém lançado: “Para muita gente a arte moderna não passa de uma enorme mistificação. Sem dúvida aqui, como em todos os movimentos, e nem só os artísticos, há os aproveitadore, os adeístas, os débeis, os Camille Mauclair, que mais tarde viram a casaca de empréstimo com que a princípio acompanhavam a procissão. Guillaume Apollinaire, porém, sugeriu que não se conhece em toda a história das artes um só exemplo de mistificação coletiva. Esse corajoso movimento que alastrou toda a Europa e agora suscita em São Paulo um gruopo de artistas como Brecheret, Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Anita Malfatti, Rubens de Morais, Sérgio Buarque e tantos outros (leiam a Klaxon!) não é uma mistificação efêmera, mas a integração definitiva na consciência artística de uma porção de cousas que antes oscilavam pesadamente e penosamente nos limbos do instinto. E que alegria ver refletido na arte o momento que vivemos!” (“Mário de Andrade”, escrita em 1922 para a revista Árvore Nova)

A crônica é a trincheira do poeta. Assim vi Torquato Neto guerrear em sua coluna "Geléia Geral" na Última Hora pelas cores do movimento tropicalista. Manuel Bandeira batalha pelo que acredita enquanto observa a cidade e seus descaminhos urbanísticos, com ruas pequenas para uma progressiva capital e um até hoje elefante branco chamado Teatro Municipal.

Mas Bandeira também nos brinda com confidências, com delicadezas como a belíssima crônica de nome “Antonieta Rudge” em que fala do seu encantamento e medo de Machado de Assis, o bruxo do Cosme Velho. É um banho de beleza, uma aula de crônica.

A Cosac Naify se esplende ao publicar o que Bandeira pôs em papel. Ela sabe muito bem o que é “Bandeira pra vida inteira”.

Chacal

http://www.cosacnaify.com.br/noticias/extra/bandeira_inedito1/

quinta-feira, 10 de abril de 2008

Aniversário (Álvaro de Campos)

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a.olhar para a vida, perdera o sentido da vida.

Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo,
O que fui de coração e parentesco.
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui — ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui...
A que distância!...
(Nem o acho... )
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!

O que eu sou hoje é como a umidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes...
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio...

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos ...
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim...
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!

Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais copos,
O aparador com muitas coisas — doces, frutas, o resto na sombra debaixo do alçado,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos. . .

Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira! ...

O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...

Os versos acima, escritos com o heterônimo de Álvaro de Campos, foram extraídos do livro "Fernando Pessoa - Obra Poética", Cia. José Aguilar Editora - Rio de Janeiro, 1972, pág. 379.

quarta-feira, 9 de abril de 2008

José Craveirinha: Depoimento Autobiográfico

28 de maio de 1997.
José João Craveirinha nasceu em 28 de Maio 1922 em Maputo. Completa hoje 75 anos!!!
Iniciou a sua carreira como jornalista no "O Brado Africano", e colaborou/trabalhou com diversos orgãos de informação em Moçambique. Teve um papel importante na vida da Associação Africana a partir dos anos 50.
Grande parte da sua poesia ainda se mantém dispersa na imprensa, não tendo sido incluída nos livros que publicou até à data. Outra parte permanece inédita.
Esteve preso pela Pide, de 1965 a 1969, na celebre Cela 1 com Malangatana e Rui Nogar, entre outros.
Tem muitas obras publicadas, sendo considerado um dos grandes poetas de Africa e da Língua Portuguesa.

Depoimento autobiográfico, Janeiro de 1977:

"Nasci a primeira vez em 28 de Maio de 1922. Isto num domingo. Chamaram-me Sontinho, diminutivo de Sonto. Pela parte da minha mãe, claro. Por parte do meu pai fiquei José.

Aonde? Na Av. do Zichacha entre o Alto Maé e como quem vai para o Xipamanine. Bairros de quem? Bairros de pobres.

Nasci a segunda vez quando me fizeram descobrir que era mulato. A seguir fui nascendo à medida das circunstancias impostas pelos outros. Quando o meu pai foi de vez, tive outro pai: o seu irmão. E a partir de cada nascimento eu tinha a felicidade de ver um problema a menos e um dilema a mais. Por isso, muito cedo, a terra natal em termos de Pátria e de opção. Quando a minha mãe foi de vez, outra mãe: Moçambique.

A opção por causa do meu pai branco e da minha mãe negra.

Nasci ainda mais uma vez no jornal "O Brado Africano". No mesmo em que também nasceram Rui de Noronha e Noemia de Sousa. Muito desporto marcou-me o corpo e o espírito. Esforço, competição, vitória e derrota, sacrifício até à exaustão. Temperado por tudo isso.

Talvez por causa do meu pai, mais agnóstico do que ateu. Talvez por causa do meu pai, encontrando no Amor a sublimação de tudo. Mesmo da Pátria. Ou antes: principalmente da Pátria. Por causa da minha mãe só resignação.

Uma luta incessante comigo próprio. Autodidacta.

Minha grande aventura: ser pai. Depois eu casado. Mas casado quando quis. E como quis.

Escrever poemas, o meu refúgio, o meu país também. Uma necessidade angustiosa e urgente de ser cidadão desse país, muitas vezes altas horas da noite."
FONTE:
Lenamarve (Mensagem original) Enviado: 29/5/2007 03:40
Date: Wed, 28 May 1997 15:42:23 gmt+0200 From: Joaquim Fale' <> To: <>

terça-feira, 8 de abril de 2008

Mia Couto - crônica

Sou de um tempo e lugar em que os comboios eram lentos, tão vagarosos que pareciam arrependidos da viagem. Na estação, não havia despedida. Nada de separação traumática, o golpe definitivo da partida. Tudo era tão lento e esfumado que se convertia em irrealidade. A despedida como repentina ruptura eu aprendi mais tarde, no meu primeiro aeroporto. Voar é o sonho da própria poesia. Mas o voo tem despesas de afecto muito pouco poéticas.

Nasci e vivi entre meandros de rios, preguiçosas águas que se apegavam às margens. A estação ferroviária obedecia a essa líquida paisagem. O comboio era um barco e eu entendia porque se chamava "cais" àquela plataforma onde as mães agitavam os lenços brancos. Para mim, os modos lentos do comboio não resultavam de incapacidade motora. Eram, sim, gentileza. Uma afabilidade para com essas pequenas mortes, que são as despedidas.

Muitas vezes me desloquei para a estação dos caminhos-de-ferro com o fim de não me deslocar para lado nenhum. Ficava no banco de madeira a olhar a gente transitando. E me abandonava naquele assento durante horas, sem que o tempo me pesasse. Talvez eu viajasse mais que os próprios passageiros que chegavam e partiam. A minha cidade era pequena, tão pequena que os domingos, com seu tédio antecipado, não eram notados. Eu inventava os meus tempos fora do Tempo, ali na arrastada azáfama da estação ferroviária.

Não tive propriamente uma educação religiosa. Apenas de quando em quando eu entrava em recinto de igreja. Fazia-o porque havia ali um sossego que me refrescava a alma. Qualquer coisa parecida com o que eu encontrava na gare ferroviária. Com a diferença de que a estação me facultava um recolhimento do lado de dentro da Vida, um resguardo entre as pessoas e as almas que eu nelas inventava. Os fantasmas da igreja moravam na sombra fria. Os da estação eram solarentos, riam alto e falavam línguas que eu desconhecia.

Algo me ficou desse estacionamento de alma, como se eu ganhasse residência perene nas velhas estações de todo o mundo. Afinal, essa contemplação me trouxe como que um irreparável vício: ter um banco de madeira onde eu possa ver desfilar pessoas em flagrante viagem.

Mia Couto
Crônica sobre a cidade da Beira, sua cidade natal.
Jornal Expresso. Suplemento Única, pp. 40-44. Lisboa, 09 de fevereiro de 2007.

Paulina Chiziane - O Alegre Canto da Perdiz

http://html.editorial-caminho.pt/show_produto__q1obj_--_3D71151__--_3D_area_--_3Dcatalogo__q236__q30__q41__q5.htm

Paulina Chiziane - O Alegre Canto da Perdiz
Editorial Caminho
Delfina é uma mulher bonita, «uma negra daquelas que os brancos gostam». A história de vida desta Delfina, «dos contrates, dos conflitos, das confusões e contradições», é a história da mulher africana, a história da apocalíptica perda do sonho. Esta mulher debate-se entre «escolher o caminho do sofrimento», o amor que sente por José dos Montes, e eliminar a sua raça para ganhar a liberdade», procurando o homem branco que lhe dará o alimento e o conforto que deseja. Mas o que é o amor para a mulher negra? Na terra onde as mulheres se casam por encomenda na adolescência? O problema arrasta-se ao longo do livro, aparentemente sem solução: «viver em dois mundos é o mesmo que viver em dois corpos, não se pode. Tu és negra, jamais serás branca». Mesmo assim a mulher negra «procura um filho mulato, para aliviar o negro da sua pele como quem alivia as roupas de luto».O sufoco das palavras outrora silenciadas, a valentia e a frontalidade gritam alto nos romances de Paulina Chiziane. Neste diálogo consigo própria, a conhecida escritora moçambicana, mistura imaginação, fantástico, misticismo, num retrato poderoso e peculiar da sociedade e da mulher africanas.

Acabamento: brochado
Dimensão: 13,4x21 cm
Páginas: 342
Peso: 425 g
Colecção: «Outras Margens», n.º 0Código: 93.000
ISBN: 978-972-21-1976-4
1.ª edição: Março 2008
Data: Março 2008

Pepetela - O quase fim do mundo (entrevista)

Fonte: Diário de Notícias - Editado por Angola Digital
Tuesday, 11 March 2008
http://www.angoladigital.net/artecultura/index.php?option=com_content&task=view&id=878&Itemid=39

«O Quase Fim do Mundo» de Pepetela

«Este romance podia ter mais 800 páginas». «Há uma personagem que diz que cada civilização vive até inventar as armas que a vão liquidar. Estamos próximos disso... Ao mesmo tempo que há um instinto de sobrevivência, há um instinto de destruição.» Uma entrevista do Diário de Notícias ao escritor, a propósito do novo livro.

E se houvesse um holocausto agora? A história começa assim. Quando terminou o romance “Os Predadores”, disse que lhe apeteceu beber champanhe. No fim deste livro voltou a ter essa vontade?

Foi diferente. Este livro foi um jogo; espécie de brincadeira. Eu estava mais à vontade. Não estava tão agarrado à realidade. É ficção pura e quando terminei pensei: "Isto até dava mais umas 800 páginas." Mas tinha de parar. Foi um livro que não me custou escrever. Podia inventar as sociedades que quisesse e tive até uma certa pena de parar. No outro apeteceu-me beber champanhe talvez por saber que estava a fechar um ciclo. Houve um corte e um corte fundo.

E porque parou se o livro poderia ser o triplo?

O livro estava a pedir-me para parar ali. Mas hoje quando releio a parte final, vejo que podia continuar. Mas bastava não pôr ali um epílogo e continuar, reconstruindo a história da humanidade.

Parte de um hipotético holocausto e uma frase que posiciona logo o leitor. "Chamo-me Simba Ukolo, sou africano, e sobrevivi ao fim do mundo"...

Dou muita importância às primeiras frases e, neste caso particular, foi muito trabalhada.

Como dá importância aos nomes...

Este foi escolhido de modo a nunca se definir muito bem a origem da personagem e a sua situação no terreno. O leitor mais conhecedor de África consegue situar mais ou menos uma região onde é possível estarem cinco países que fazem quase fronteira: Tanzânia, Congo, Burundi, Uganda, Ruanda. É na região dos grandes lagos.
Há uma ou outra referência ao Kilimanjaro. Percebe-se que Nairobi não está assim tão longe. Mas não é importante que o leitor saiba situar. Se não conhecer a região, tanto melhor. Normalmente, como sou angolano, até poderão pensar que é em Angola. Mas não tem nada a ver com Angola. Fiz todos os esforços para que não se percebesse. O importante é que se perceba que é uma parte de África, muito próxima do sítio onde hoje se pensa que terá começado a Humanidade.

A causa do holocausto só é revelada no fim. Até lá só sabemos do repovoamento...

Este livro nasce de uma notícia. Mas hesitei algumas vezes se iria ou não revelar a causa ou se deixaria em suspenso. Depois também achei que era demasiado pesado para o leitor. Acho que o leitor ficaria frustrado, a interrogar-se sobre o que aconteceu. Era pesado demais não saber o que levou a tal destruição.

Quando diz que isto é pura ficção, não é bem verdade. A reflexão política e ecológica, por exemplo, estão muito presentes.

Há uma personagem que diz que cada civilização vive até inventar as armas que a vão liquidar. Estamos próximos disso... Ao mesmo tempo que há um instinto de sobrevivência, há um instinto de destruição. O livro é uma metáfora. Cuidado! Para onde estamos a ir?

E começa com um homem que pensa estar completamente só no mundo, até que um mosquito o pica e ele percebe que tem companhia. Esse sentimento de solidão absoluta tomou conta de si enquanto escritor?

Sim. Se não, não seria capaz de escrever. Mas tentei usar um estilo muito ligeiro. Em qualquer livro há um tactear do próprio autor. Também no meu caso. Nunca sei como é que vai acabar, nem me preocupo muito a não ser a partir do meio. Até lá é um tactear sempre. Daí que talvez neste caso tenha sido mais fácil. Alguém que inicia este livro a tactear e continua por ele fora. No fundo aquele primeiro homem é uma espécie de companhia.

A ironia ajuda na desgraça?

Sim. Nós, os angolanos, agarramo-nos muito ao humor. É a nossa arma principal para sobreviver. Até a sátira em relação a nós próprios, o gozarmos, o rirmos connosco. Isso está aqui. A ideia foi pôr esse lado africano de ver o mundo.

Uma visão que, aqui, tem muito de geográfica e segundo a qual o europeu é alguém de espírito pequeno. É assim que o africano vê o europeu?

Não posso generalizar. Depende do africano e depende do europeu, mas de um modo geral o que nós pensamos, por exemplo dos portugueses, é que os portugueses têm esse espírito pequeno. Os portugueses que viveram África e estão aqui em Portugal falam sempre é da pena de ter perdido a distância, o espaço que tinham lá. Essa saudade ficou.

Este livro foi um exercício diferente para si enquanto escritor, já o disse...

Foi. Era um tema diferente e o próprio facto de ser fora de Angola era novo. Pegar em qualquer coisa que é tremendo, mas poder contar uma história que até parecesse ligeira... Foi isso que quis fazer. Posso não ter atingido.

Essa angústia do resultado termina quando?

Nunca vai terminar. Essa angústia acho que existe sempre.

Por exemplo, em relação aos ‘Predadores’, ficou tranquilo com o resultado?

Agora sim.

Então há uma altura em que passa?

Há. Mas nunca tenho a certeza. O que sei é que tenho de parar e esperar pela reacção dos leitores. Depois posso dizer "acertei ou não acertei tão bem..."

O leitor não lhe é indiferente?

De modo nenhum. Houve livros que escrevi em que o leitor me era indiferente, porque os escrevi para mim, sem pensar em publicar.

Por exemplo?

Os primeiros. Sabia que não tinha hipótese, quando andava na luta pela libertação, etc. Onde é que iria arranjar editor? Aí há um à vontade enorme. Também o penúltimo livro, ‘O Terrorista de Berkeley’, escrevi para mim. Era uma brincadeira, não era para publicar.

Porque publicou?

Começou a haver pressão. Diziam que a história estava gira e não sei o quê, mas até hoje não estou convencido.

Ainda não se tranquilizou com ele?

Não. Era para mim, não era para mais ninguém. Ficou parado dois ou três anos e marcou um salto. Aquilo não tinha nada a ver com Angola. Era só os EUA, só americanos, mais nada. Era para me divertir. Tinha todo o tempo do mundo, não tinha nada para fazer...

O que é isso de ter todo o tempo do mundo?

(risos) É estar numa cidade de que se gosta, por onde já se andou (São Francisco). Dava de manhã um passeio. Estava num hotel, com nada para fazer, e um quarto de hotel é um lugar aborrecido. Tem uma televisão, a pessoa vê um bocado mas cansa-se da língua, tem uma secretária e um computador portátil, que anda sempre comigo. Não tinha nada para fazer e escrevi para passar o tempo. Resolvi escrever uma história. Era sobre aquilo que via todos os dias. Mas acho que marcou uma ruptura para começar a escrever sobre outras coisas e outras paragens.

Antes dos 'Predadores'?

Sim. Há uns 15 anos.

Porque adiou tanto?

Foram aparecendo outros temas que se impunham. Tenho sempre três ou quatro para trabalhar. Às vezes pego num, brinco com outro. Até ao dia em que há uma frase, uma personagem, qualquer coisa que me agarra e começo.

Pepetela - O quase fim do mundo

http://www.dquixote.pt/Livre/Ficha.aspx?id=2001


O QUASE FIM DO MUNDO
Pepetela


Chamo-me Simba Ukolo, sou africano, e sobrevivi ao fim do mundo.

«E se a vida animal de repente desaparecesse da Terra, excepto num pequeno recanto do mundo e em doses mínimas? Talvez as causas se conheçam depois, mas o que importa é a existência de alguns seres, aturdidos pelo desaparecimento de tantos, e procurando sobreviver. É sobre estes sobreviventes e as suas reacções, desejos, frustrações mas também pequenas/grandes vitórias que trata este romance. Detalhe importante: o recanto do mundo que escapou à hecatombe situa-se numa desgraçada zona da desgraçada África. O que permitirá questionar as relações contemporâneas no velho Mundo.»



ISBN: 978-972-20-3525-5

Páginas: 384

Dimensões: 15,5x23,5 cm

Colecção: AUTORES DE LÍNGUA PORTUGUESA

Ano de Edição: 2008

Encadernação: Brochado

domingo, 6 de abril de 2008

Filinto Elisio - Blog

Blog do poeta contemporâneo cabo-verdiano Filinto Elisio

http://albatrozberdiano.blogspot.com/


POEMAS

Haikai Agridoce (Poesia III)
Ao Mito

a flor de lótus, o mel de abelha, a borboleta exótica...
ainda que cuidemos do nosso jardim de sonhos
no vinagre dos dias haverá sol para o cravo do amanhecer?


Acerca do Amor

Do amor só digo isto:

o sol adormece ao crepúsculo
no oferecido colo do poente
e nada é tão belo e íntimo.

O resto é business dos amantes.
Dizê-lo seria fragmentar a lua inteira.

(Poesia Africana de Língua Portuguesa: (antologia) / Maria Alexandre Dáskalos, Livia Apa, Arlindo Barbeitos - Rio de Janeiro: Lacerda Editores, 2003, p. 171)

sábado, 5 de abril de 2008

Vera Duarte: um tributo à literatura cabo-verdiana em "O Arquipélago da Paixão"

Por Ricardo Riso
O segundo livro de poesia da escritora Vera Duarte, "O Arquipélago da Paixão" (Mindelo: Artletra, 2001), apresenta, em suas epígrafes, um tema instigante na literatura cabo-verdiana, diferenciando-o dos outros países de literaturas africanas de língua portuguesa: o constante diálogo entre os poetas de gerações posteriores com as tendências temáticas de seus predecessores. Sendo que, muitas vezes, tais exercícios metapoéticos desencadeiam verdadeiras rupturas com os temas predominantes na literatura do país, no decorrer do século XX.

Entretanto, Vera Duarte subverte o habitual caminho de seus pares e não busca o confronto com o passado literário do arquipélago, mas, sim, presta tributo aos escritores que sedimentaram o corpo poético cabo-verdiano, parafraseando os temas que os caracterizaram. Solução condizente com a definição de epígrafe como podemos constatar no Minidicionário Sacconi: epígrafe é "palavra, expressão ou frase usada como título no princípio de livro ou no início de um capítulo para indicar a finalidade ou a inspiração da obra, o tema do assunto, ou declarar os sentimentos do autor".

Todavia, convém primeiro apresentar a poeta, romancista, ensaísta e juíza Vera Duarte. Nascida na cidade de Mindelo, na ilha de São Vicente, formou-se em Direito na Universidade Clássica de Lisboa, em Portugal. É Juíza Desembargadora e presidente da Comissão Nacional dos Direitos Humanos e a Cidadania (CNDHC) de Cabo Verde. Desempenhou ainda os cargos de Juíza Conselheira do Supremo Tribunal de Justiça, de Procuradora da República, de Diretora Geral de Estudos, Legislação e Documentação do Ministério da Justiça, de Conselheira do Presidente da República, de Membro do Conselho Superior da Magistratura Judicial e de Directora Geral dos Assuntos Judiciário do Ministério da Justiça. (1)

Na área de Literatura escreve poesia desde a tenra idade, ganhou seu primeiro prêmio literário em 1976, os Jogos Florais 76, em comemoração ao primeiro ano de independência do país. Em 1981 conquistou o 1º Prêmio no Concurso Nacional de Poesia. Em 2001, pelo conjunto da obra conquistou o "Prix Tchicaya U Tam'si de poésie africaine"; ganhou o Prémio Sonangol em 2003, dedicado a escritores de Angola, São Tomé e Príncipe e Cabo Verde. Publicou "Amanhã Amadrugada" (Lisboa: Vega, 1993; poesia), "O Arquipélago da Paixão" (Mindelo, Artiletra, 2001; poesia), "A Candidata" (Luanda: UEA, 2003; ficção), "Preces e Súplicas ou os Cânticos da Desesperança" (Lisboa: Piaget, 2005; poesia), “Construindo a Utopia” (ensaio) entre outros. (2)

Como em seu primeiro livro de poesia, "Amanhã amadrugada", este "O Arquipélago da Paixão" também divide-se em quatro partes, ou "cadernos", como denomina a autora, sendo os dois primeiro em poesia; e os outros, em prosa poética. E percebemos que as homenagens aos poetas cabo-verdianos espalham-se nos quatro cadernos. Todavia, não restringem-se aos compatriotas, mas estendem-se aos portugueses Manuel Alegre e Florbela Espanca, ao angolano Mario de Andrade e ao maior nome da literatura de Angola, Luandino Vieira, ao papa João Paulo II e ao músico de seu país, Tony Pina.

Um momento crucial na afirmação literária do arquipélago se dá com o surgimento da revista Claridade, em 1936, tendo como principais colaboradores Jorge Barbosa, Baltasar Lopes (Osvaldo Alcântara) e Manuel Lopes, que ficaram conhecidos como claridosos. Para a professora Simone Caputo Gomes (USP): "a revista Claridade (1936-1960) é a primeira manifestação intelectual da elite crioula, traçando uma divisória entre a poética tributária do modelo português e o mergulho nas raízes locais, passando pela leitura do modernismo brasileiro". (GOMES, 2006, p. 165)

A geração pré-claridosa, das primeiras décadas do século XX, procurava alternativas ao modelo português colonizador para a construção da origem de Cabo Verde. Há, nesse momento, o reconhecimento da mãe-terra cabo-verdiana (mátria), porém ainda há vínculo com a pátria lusitana, em uma indefinição nomeada de transpátria lusia por Simone Caputo Gomes. Com isso, apesar de já considerarem a terra como mãe, os escritores recorrem ao terra-longismo para caracterizar suas idéias, constróem um passado próspero e rico, e buscam no mito hesperitano ou mito arsinário um passado de glórias como forma de acalanto ao presente sofrido e opressor.

O recurso a este mito como origem (associado à idéia de pátria) remonta às ilhas do velho Hespério – pai das Hespéridas – que abrigavam jardins repletos de pomos de oiro, guardados pelo dragão de cem cabeças, morto por Hércules. As "ilhas perdidas no meio do mar", destacadas por Jorge Barbosa em seu antológico Arquipélago, 1935, e já eram identificadas por Camões, em Os lusíadas (canto V, VII, VIII, IX), como Cabo Verde (Cabo Arsinário ou Estrabão). Como podemos inferir, a afirmação da identidade ainda é conflitante no período, pois ainda procuram referenciais europeus na reconstituição do passado das ilhas.

O pré-claridoso José Lopes refere-se em seus versos ao poeta português e à descoberta lusa: "Mas somos filhos – nós – de outros gigantes / Que, 'por mares nunca de antes navegados' - / Nossas ilhas tiraram do mistério".
(Hesperitanas, p. 29. Apud: trecho de poema retirado de um ensaio de Simone Caputo Gomes publicado em Marcas da diferença, p. 163)

Já o seu contemporâneo Pedro Cardoso, declara o seu apreço à pátria e à terra-mãe:

"Nasci na Ilha do Fogo
Sou, pois, caboverdeano,
E disso tanto me ufano
Que por nada dera tal.
Se filho de Cabo Verde,
Assevero – fronte erguida –
Que me é honra a mais subida
Ser neto de Portugal."
(Algas e corais, p. 5. Apud: trecho de poema retirado de um ensaio de Simone Caputo Gomes publicado em Marcas da diferença, pp. 163-165)

Como podemos depreender nos versos acima, o aspecto físico do arquipélago está presente. Aliás, característica preponderante nas letras do país. A condição insular de Cabo Verde e suas conseqüências espaciais agindo sobre o homem, limitando-o, marcarão a formação da literatura e da construção da identidade do cabo-verdiano. O espaço hostil ao homem por causa das condições climáticas adversas e pelos dramas da ação opressora do colonizador, serão fecundadores dos poemas. Buscarão no mito da submergida Atlântida um passado de glórias e prosperidade, em contraste com a época vivenciada. Segundo Simone Caputo Gomes:

"o motivo pelo qual o mito relativo a espaços de felicidade foi retomado pelos pré-claridosos consiste numa releitura das concepções românticas, relativas ao mundo pré-diluviano, muito em voga na virada do século XIX para XX. (...) A formulação do mito remontaria às pesquisas de José Lopes e Pedro Cardoso nos alfarrábios e enciclopédias da biblioteca do Liceu de S. Nicolau, do qual foram alunos." (GOMES, 2006, pp. 164-165)

Comprovamos esses aspectos nos títulos das obras de José Lopes e Pedro Cardoso, e nos seguintes versos de Lopes:

"Das vastas extensões assim submersas
Então ficaram estas nossas ilhas".
(Hesperitanas, Apud: trecho de poema retirado de um ensaio de Simone Caputo Gomes publicado em Marcas da diferença, p. 165)

Ou neste trecho de Pedro Cardoso:
"pisamos...
talvez a mesma terra que os Atlantes"

(Hespéridas, Apud: trecho de poema retirado de um ensaio de Simone Caputo Gomes publicado em Marcas da diferença, p. 165)

Na prosa poética dedicada ao claridoso Jorge Barbosa, Vera Duarte abordará um novo paradigma ao terra-longismo dos pré-claridosos: o mito de Pasárgada, inspirado no modernista brasileiro Manuel Bandeira. Sobre a relação com nosso poeta, Simone Caputo Gomes afirma que o "Brasil, recém-independente e com literatura divulgada em terras lusas, passava a ser um modelo de afirmação mestiça no qual Cabo Verde buscava a sua identidade", e cita João Lopes no número inicial de Claridade:

"dada a insuficiência de materiais de estudo que permitam refazer a história econômica e social das ilhas, temos que preencher as lacunas com as ilações tiradas da situação actual e subsidiariamente dos estudos levados a efeito no Brasil, para a explicação do fenômeno brasileiro."
(S. Vicente, março de 1936, p. 9. Apud: retirado de um ensaio de Simone Caputo Gomes publicado em Marcas da diferença, p. 165)

A aproximação geográfica e as péssimas condições sociais de Cabo Verde serão comparadas com o Nordeste brasileiro. A aridez causando seca e a fome serão exploradas pelos claridosos, que utilizarão da emigração ou da evasão como soluções para encarar as dificuldades. Todavia, não se limitarão à fuga, mas denunciarão a insustentabilidade do sistema colonial português. Jorge Barbosa admira tanto o poeta brasileiro, que o considera seu "irmão atlântico", e faz de Pasárgada o lugar de evasão, o lugar ideal, contrapondo-se à pobreza das ilhas, diferenciando-se de Bandeira, em que sua evasão é motivada pela sua péssima saúde, castrando-o de levar uma vida com maiores sabores.

Em "Os meninos", dedicado a Jorge Barbosa, a autora usa o pasargadismo como evasão, denuncia a condição miserável em que se encontram "os meninos da pobreza, do abandono e do desespero. De ranho no nariz, pés descalços e calções rotos eles passeiam seus corpos esqueléticos" (DUARTE, 2001, p. 81). Como alento à triste situação os meninos "sonharão com terras distantes, glórias inexistentes e banquetes fabulosos até que o romper do sol e a fome crónica os arranque do sossego cúmplice dos botes para mais um dia de desesperanças." (Op. cit. 81) E apenas com a solidariedade, Vera Duarte recorre ao gesto feito pelo poeta claridoso na "sua 'Carta para Manuel Bandeira', e vai empreender uma viagem imaginária em busca da estrela da manhã, para ofertá-la, do outro lado do Atlântico, ao poeta brasileiro, através da porta – o Atlântico, estrada cultural – entreaberta", como menciona Simone Caputo Gomes ao prefaciar O Arquipélago da Paixão. Ou como versa o eu lírico: "Queria então estar ao lado deles e sem qualquer palavra, passar-lhes a Estrela da Manhã". (Op. cit. 81)

Na reflexão seguinte, Vera Duarte homenageia outro relevante claridoso, Baltasar Lopes (Osvaldo Alcântara), autor do célebre romance Chiquinho. Em "A viagem", como o próprio título sugere, o mito do pasargadismo permanece sendo enfatizado. A imagem de Pasárgada não é motivada pela doença, como acontece nos poemas de Bandeira, mas, sim, pela pobreza do arquipélago. Daí o sentimento de evasão como transposição de limites:

"No seu cotidiano de miséria, dormindo no chão húmido de terra batida, coberto de serapilheira e comendo os restos repartidos, (...)
Aguarda contudo com ânsia o dia da partida.
A viagem. O vapor.
Sabe que um dia, escondido em um navio cargueiro, ele irá demandar novos horizontes, zarpará à procura da terra prometida.
Então sim ele poderá decifrar a angústia que lhe encolhe a alma quando o seu corpo celebra a ânsia da partida."
(Op. cit. 82)

Entretanto, não podemos conceber a evasão proposta pelos claridosos como fuga da realidade. Devemos compreender tal sentimento como recusa e forma de resistência ao sistema opressor do colonizador português agravado pela ditadura salazarista. Gomes cita o crítico e escritor Manuel Ferreira:

"Para Manuel Ferreira, 'esse evasionismo (...) não pode ser, de maneira nenhuma, tido como fuga', como propuseram Onésimo da Silveira e Ovídio Martins. A questão é mais complexa e o pasargadismo, para o grande sistematizador das literaturas africanas Prof. Manuel Ferreira pode ser explicado 'pelo desejo manifestado da fuga à degradada situação colonial que encerrava o horizonte à juventude pensante e interrogadora. Era um protesto. Um desdém. Não é de mais dizer: era a fuga à erosão colonial, mas não era voltar as costas à caboverdianidade'. Itinerário de Pasárgada, de Osvaldo Alcântara, é um excelente poema da Recusa e da Utopia, segundo Ferreira."
(FERREIRA, Manuel em "A emergência da inter-textualidade afro-brasileira. IN: O discurso no percurso africano I. Lisboa: Plátano, 1989. p. 160. Apud: trecho retirado de um ensaio de Simone Caputo Gomes – Cabo Verde: um amor pleno e correspondido)

A epígrafe de abertura do livro, de Jorge Barbosa, auxilia na elucidação da questão e o quanto são injustas e incorretas as acusações sofridas pelos claridosos:

"Eu trago dentro de mim um pássaro fechado...
Bate asas – quer voar! – em ânsias desmedidas...
Bem o sinto no peito, ardente, alucinado,
Num gigantesco arfar de ondas enfurecidas."

(DUARTE, 2001, p. 33)

Outro problema apontado pela autora inspirado na obra de Lopes é a ausência da figura paterna. Comum em Cabo Verde, lugar em que as mulheres, na verdade adolescentes de 12 ou 13 anos ou até com idade inferior, são forçadas a iniciar a vida sexual prematuramente, depois são abandonadas pelos homens que não assumem a paternidade, ou são obrigados a emigrar do arquipélago em busca de uma condição melhor de vida:

"Para além da linha do horizonte traçado de azul, Pidrim vê imagens confusas e distantes dos portos de desembarque de que lhe falou Nhô J'sê seu avô de mãe pois pai nunca soube se tinha." (Op. cit. 82)

O último grande claridoso celebrado é Manuel Lopes, autor do clássico Flagelados do vento leste. A autora enfatiza a relação do homem com o espaço geográfico e suas conseqüências por causa da seca, de todo o sofrimento perpetrado por ela ao ilhéu, que espera "ano após ano, sementeira após sementeira, esperança após esperança" (Op. cit. 84) as nuvens chorarem do céu. Expõe a persistente fé que move o cabo-verdiano, da chuva que nunca vem, a resistência à crueldade do clima árido das ilhas na bela metáfora das ondas que estouram insistentemente na praia:

"Num céu de um azul indescritível navegam nuvens carregadas de esperança. (...)
Pouco abaixo uma terra fissurada por anos de seca, desesperadamente espera que as nuvens se precipitem sobre ela abençoando as sementeiras dolorosamente parturientes, as almas ressequidas e as rochas escalabradas. (...)
E os camponeses e os poetas, como as ondas que teimosamente, regularmente e sem desfalecer banham as areias das praias, ano após ano, sementeira após sementeira, esperança após esperança, teimosamente perscrutarão o horizonte à procura dos sinais.
Quando finalmente a esperança sorrir num céu carregado de nuvens e num arrepio da pele mal agasalhada, as águas desabarão violentas e, sem compaixão, arrastarão para o mar profundo tudo o que foi esforço, entrega e devoção, nesta crença irrenunciável e dolorosa da chuva que virá."
(Op. cit. 84)

Podemos depreender pelas letras de Vera Duarte celebrando os claridosos, além da presença de Manuel Bandeira, a forte influência exercida pelos romancistas da Geração de 1930 de nossa literatura. Tratam-se de escritores cujo os problemas sociais do Nordeste são tematizados em textos pungentes. Autores como Graciliano Ramos, José Lins do Rego, Rachel de Queiroz e Jorge Amado foram lidos com entusiasmo e admiração pelos cabo-verdianos, que se aproveitaram da semelhança geográfica e da caótica seca, já comentada anteriormente.

Ao aprofundarmos a questão da relação de Cabo Verde com o Brasil, inferimos, ainda, que nosso país serviu, para os claridosos, como modelo de miscigenação e de independência cultural em relação a Portugal, como comenta Gomes:

"Em Cabo Verde, a geração da revista Claridade preferiu imaginar-se não mais à luz do modelo colonizador ou de uma literatura colonial apologética da figura do herói navegador, e escolheu mirar-se em outro paradigma cultural forte, irmão, independente: o Brasil dos mulatos, malandros e heróis ignorados (...)"

Contudo, o pasargadismo sofreu severas críticas de outros poetas de cunho marxista, influenciados pelo realismo social na década de 1940. A princípio, com os integrantes da folha acadêmica Certeza (1944, dois números), surgida durante a Segunda Guerra Mundial, tendo como colaboradores alunos do Liceu Gil Eanes, entre eles Arnaldo França, Nuno Miranda e Tomaz Martins. Posteriormente, com o Suplemento Dominical (1958, um número), ou da Geração da Nova Largada (Ovídio Martins, Gabriel Mariano, Onésimo Silveira e outros) os poetas lançam o lema "Não vou para Pasárgada", acusam os claridosos de evasionistas e assumem a postura de "ficar para resistir". Carmen Lucia Tindó Secco comenta esse momento:

"cuja proposta literária era fazer a denúncia político-social da miséria reinante no Arquipélago, houve a dignificação do crioulo e da morabeza como traços caracterizadores da alma cabo-verdiana. (...) a literatura, (...) começou a criticar essa ideologia de que o cabo-verdiano era um ser destinado a emigrar e as gerações seguintes propuseram, então, 'o ficar para resistir'. O mar, que era concebido como meio de evasão, encapelou-se e suas águas revoltas passaram a conotar a necessidade da ação política, do mergulho nas raízes cabo-verdianas." (SECCO, 1999, pp. 11-13)

Para combater as idéias da geração da Claridade, o poeta Ovídio Martins critica, metapoeticamente, o poema "Itinerário de Pasárgada", de Osvaldo Alcântara (Baltasar Lopes), com viscerais e furiosos versos no famoso poema "Anti-evasão":

"Pedirei
Suplicarei
Chorarei

Não vou para Pasárgada

Atirar-me-ei ao chão
E prenderei nas mãos convulsas
Ervas e pedras de sangue

Não vou para Pasárgada

Gritarei
Berrarei
Matarei

Não vou para Pasárgada"

(ANDRADE, 1977, p. 48)

A radicalização de uma postura comprometida com o social coincide com os primeiros movimentos para libertação das colônias portuguesas, em contrapartida o recrudescimento da repressão da ditadura salazarista pode ser percebido com os parcos números das publicações cabo-verdianas, no decorrer das décadas de 1930 a 1960. Em 1956, é criado o PAIGC (Partido Africano para a Independência de Guiné e Cabo Verde), liderado por Amílcar Cabral. O momento exige uma posição determinada, combativa, direta. Os poetas começam a revelar em seus poemas o drama dos contratados que partem para as lavouras de São Tomé e Príncipe, um outro modelo perverso de emigração, forçada, cruel e desumana.

A agonia dos contratados é explorada por diversos autores, tais como Gabriel Mariano:

"Caminho
Caminho longe
ladeira de São Tomé
Não devia ter sangue
Não devia, mas tem.

Parados os olhos se esfumam
no fumo da chaminé
Devia sorrir de outro modo
O Cristo que vai de pé.

E as bocas reservam fechadas
a dor para mais além
Antigas vozes pressagas
no mastro que vai e vem.

Caminho
caminho longe
ladeira de São Tomé
Devia ser de regresso
devia ser e não é."
(ANDRADE, 1977, pp. 240)

A insularidade e a conturbada relação com o mar, ora cantado como beleza ora definido como fator de isolamento e solidão, são os motivadores das polêmicas evasão/emigração, "querer ir e ter que ficar" ou "ter que ficar e querer partir" que perpassam pela literatura do arquipélago.

Contudo, os poetas publicados na antologia Mirabilis – de veias ao sol (Instituto Caboverdiano do Livro, 1991) buscam novas formas de lidar com as questões relacionadas à cabo-verdianidade, a desconstrução dos temas é realizada por todos sendo retomadas em prismas ampliados e universais. Além da releitura dos temas tradicionais, a nova geração apresenta ironia, humor e erotismo.

O contato com a tradição lusitana é refeito com ironia e recusa do passado à procura de novas relações com o mar em Euricles Rodrigues:

"Viola a tua tradição
Enterra a tua paranóia
Marítima secular (...)
E busca
Novas formas
Novas artes
Novos engenhos

De estabelecer nova aliança com o mar"
(Euricles Rodrigues, p. 190. Apud: Poesia Sempre, p. 270)

A chuva, de presença marcante entre os claridosos, é tratada com amargura e rejeitada por José Luís Hopffer Almada:

"Os sonhos fedem à chuva
E os braços apodrecem
Ante o frágil tornozelo dos subúrbios
(...)

os sonhos fedem
no aglomerado acocorado de
desânimo
ante a futilidade dos meses
e a inadiável fome
de todos os dias
e eis-nos, de órbitas alagadas,
sem saber o que fazer
da turva humidade
e do vazio que com os sonhos
fenecem"
(À sombra do sol, p. 16. Apud: Poesia sempre, pp. 271-272)

David Hopffer Almada propõe o abandono do olhar amargurado, triste e conformado sobre a falta de chuva, a seca, a insularidade, a evasão/anti-evasão, e lança um novo canto de esperança e alegria:

"Quero
Um canto diferente
Para Cabo Verde

Já não somos
Os flagelado do vento leste
Dominamos os ventos
Já não somos os contratados
Como animais de carga para o Sul
Conquistamos a dignidade de gente

Por isso
Vou cantar
De forma diferente
Para esta pátria do Meio do Mar
Vou esquecer, enterrar
Os lamentos, as lamúrias
A tristeza
De quem quer ficar
Com o destino de ter de partir
Não vou chorar
A pobreza, a fraqueza
A seca
A natureza madrasta

Canto
Para este povo
Um canto de alegria"

(1988. Apud: trecho de poema retirado de um ensaio de Simone Caputo Gomes publicado em Marcas da diferença, p.168-169.)

Já Mário Fonseca recebe uma bela homenagem em um longo poema dedicado à liberdade, às conquistas de todos os povos e às mulheres. Mário Fonseca foi um dos principais nomes da revista Seló (1962, dois números), de intensa temática social. No poema-manifesto "Ortodoxias em desagregação", o eu lírico agradece a premonição do poeta, sua certeza na Utopia, sua defesa da justiça, sua exaltação nas vitórias diversas em todas as partes e em todas as épocas: "O fascínio vem-me de longe / de tudo o que foi esperança / desde o início dos tempos" (DUARTE, 2001, p. 59). Um poeta em constante luta revolucionária, contrário a qualquer forma do mais forte subjugar os desfavorecidos. O poema celebra as revoltas, as vitórias comunistas, as guerras contra o colonizador português nos anos 1960, as independências:

"O fascínio vem-me
Dos momentos iniciáticos
Que incendiaram o coração dos homens.

Das revoltas dos escravos
Dos outubros de dezassete
Dos maios subversivos
Dos abris
Todos os abris
E das mulheres que ousaram
Das mulheres que fizeram (...)

Quero poder ouvir
Para sempre
As canções heróicas
Que deram som às revoluções
Cantar os hinos
Todos os hinos
De todas as épocas
De todas as gestas libertárias

Quero poder
Por meus pés
Cruzar ares
Cruzar mares
Conhecer gentes
Visitar povos
Cantar independências
E tudo que cheirar a liberdade

(...)
o que quero ter nos braços
é a idéia de ter
e poder cantar abril
e cantar independências
e cantar o orgulho de ser-se Povo
cantar a glória de ser-se Nação"
(Op. cit. 60-61)

Ao colaborador da Claridade, Arnaldo França, que Vera Duarte considera como "o maior intelectual vivo e a viver em Cabo Verde", dedica o poema "A alma - acto primeiro d'A Trilogia do Amor". O eu lírico demonstra todo o seu amor e entrega ao arquipélago, numa viagem intimista após "desvendado o segredo do amor", propõe a evasão apenas no universo onírico: "quero permanecer na ilha / e navegar apenas em sonhos". Assim, o eu lírico ultrapassa a polêmica evasão/emigração, "não quero mais partir!", ao declarar toda a sua paixão a Cabo Verde:

"De malas desfeitas
quebrarei na ilha
a prisão das ilhas
e voarei para lá do horizonte
com os pés fincados na areia
que abrigou nossos corpos em festa."
(Op. cit. 64-65)

Ao poeta participante das revistas Certeza e Seló, Oswaldo Osório, o eu lírico retoma questões tratadas no primeiro caderno, "Da impossibilidade do amor", reflete e denuncia a dor sofrida pela mulher, dos espancamentos feitos pelos companheiros, da estreita relação entre amor e morte. Navega com inquietação, divaga, "confusa me pergunto se o amor rima com escravidão, submissão, humilhação", indaga o destino cruel reservado:

"Até quando
viver prisioneiro
nas malhas da paixão
converter-se de humano a farrapo
no destino caótico de vidas
que a vida nada reservou"
(Op. cit. 94)

A presença de autoria feminina na literatura cabo-verdiana é discreta, como em diversos campos da sociedade apesar da mulher constituir 52% da população do arquipélago, segundo Vera Duarte (3). Constatamos a ausência de escritoras nos movimentos literários em boa parte do século XX, porém a situação começa a ser resolvida com nomes significativos que consolidam seu espaço no pós-independência, dando voz à mulher e à condição feminina, seus anseios e seus dramas com extrema qualidade. Duarte, na já citada entrevista, comenta a participação das mulheres no corpo literário cabo-verdiano:

"A Fátima Bettencourt gosta muito de dizer que 'Nha Claridade só pariu filhos homens', numa clara alusão ao facto de a quase totalidade dos autores claridosos serem homens. Graças a Deus estamos a ajudar a mudar este cenário e a moderna literatura cabo-verdiana já começa a estar profundamente marcada pela presença feminina e há mesmo quem acha (Luandino Vieira, por exemplo) que esta presença é o melhor da literatura cabo-verdiana. Eu entendo, juntamente com Simone Caputo Gomes e Carmem Lucia Tindó Secco, que embora os homens continuem a ser numericamente superiores há já claramente uma literatura de cunho feminino em Cabo Verde." (4)

A última epígrafe analisada neste texto é dedicada à Dina Salústio, escritora contemporânea de Vera Duarte e um dos pilares da literatura do arquipélago. Salústio, em suas obras, aborda os mais variados aspectos da condição feminina. A mulher, sofrida e humilhada, é a sua principal fonte de inspiração e procura, em alguns momentos, subverter temas, posições e comportamentos sociais, mostrando novos paradigmas para velhos problemas.

O poema "A outra", interliga-se com o poema anterior, "A dor", ao abordar a submissão feminina. No novo poema há o conflito existencial de uma mulher simbolizado pelas mulheres bíblicas (antagônicas) Maria – a virgem mãe, e Madalena. A vontade de ser a mulher que se rebela contra as normas sociais em convívio inquietante com a mulher que aceita a submissão, além do questionamento diante de uma "civilização incoerente":

"Quem é essa outra mulher que me habita e abusivamente ocupou quase todos os espaços? (...)
Quem é essa mulher que me oferece as bem-aventuranças e me cega para os precipícios?
Por vezes apetece-me segui-la de olhos vendados, até onde ela quiser levar-me.
A meio do caminho ou antes de iniciar a caminhada.
E fico observando, carente e deliciada, o evoluir das bem-aventuranças, a felicidade suprema, a total insubmissão.
Madalena a mulher espreita e tenta. Ela quer e sabe.
Mas há uma inquietação também por um destino feminino sem subversões, feito de silêncio e de renúncias, que garantem Maria, virgem mãe.
Quantas vezes me quedarei perplexa e angustiada perante as encruzilhadas desta civilização incoerente?"
(DUARTE, 2001, p. 95)

Apreendemos no livro O arquipélago da paixão, o amor incondicional de Vera Duarte a Cabo Verde e, principalmente, à literatura das ilhas através das epígrafes dedicadas aos poetas, ora do passado claridoso, ora aos seus pares contemporâneos. Com esse auxílio, vimos que podemos percorrer o percurso de afirmação da literatura cabo-verdiana no decorrer do século XX. Suas inquietações, conflitos e mudanças temáticas de acordo com os acontecimentos históricos: da colônia à independência, do sonho utópico às frustrações com as irrealizações políticas e sociais da liberdade desejada. É a poesia agindo com olhar crítico aos problemas inerentes a ela e às indefinições de um jovem país em construção.

Depreendemos que a obra de Vera Duarte abrange outros caminhos, apresenta novos paradigmas ao corpo literário cabo-verdiano. A ênfase dada à situação da mulher, oprimida e excluída, sua defesa incontestável dos direitos humanos, da liberdade e da justiça, e a alta qualidade de sua poesia que abrange problemas universais, eleva-a entre os principais destaques das letras do arquipélago. Esta "mulher de causas" possui uma obra relevante que se insere em um quadro mutável, imprevisível e belo, tendo a literatura, a paisagem e a mulher cabo-verdianas como fatores fecundadores na esperança de um novo mundo.

Amparados pelas epígrafes, libertamos o pássaro fechado de Jorge Barbosa e voamos pela magia das letras cabo-verdianas que reescrevem a literatura e a história da nação, percorrem um desconhecido caminho, vislumbram e reinventam um novo futuro para Cabo Verde, de acordo com o lema de vida da autora: Liberdade, Justiça, Paz e Amor.

"Mas sou e acho que vou continuar a ser sempre uma mulher de causas. Antes de mais esta grande causa da emancipação e promoção da mulher mas na realidade de todas as causas de emancipação e promoção do ser humano na permanente busca da felicidade." (5)



NOTAS:
(1) http://www.caboverde.com/artist/vduarte.htm
(2) http://www.acaboverdeana.org.pt/modules.php?name=News&file=print&sid=55
(3) Entrevista ao jornal A Semana, em 01/10/2005.
(4) Trecho de entrevista retirado de http://www.acaboverdeana.org.pt/
(5) Trecho de entrevista retirado de www.acaboverdeana.org.pt


BIBLIOGRAFIA:
AAVV. Poesia Sempre n° 23 – Angola e Moçambique. Rio de Janeiro: Fundação Biblioteca Nacional, 2006.

ANDRADE, Mário de. Antologia temática de poesia africana: na noite grávida de punhais. Lisboa: Sá da Costa Editora, 1977.

DUARTE, Vera. O arquipélago da paixão. Mindelo: Artletra, 2001.

GOMES, Simone Caputo. Cabo Verde e Brasil: um amor pleno e correspondido.
http://www.simonecaputogomes.com/arquivos.htm . Acessado em 20 de dezembro de 2007.

GOMES, Simone Caputo. Rostos, gestos, falas, olhares de mulher: o texto literário de autoria feminina em Cabo Verde. In: Chaves, Rita e Macedo, Tânia. (Orgs.) Marcas da diferença: as literaturas africanas de língua portuguesa. São Paulo: Alameda, 2006.

SECCO, Carmen L. T. R. (Org.). Antologia do mar na poesia africana de língua portuguesa do século XX: Cabo Verde. Rio de Janeiro: UFRJ, Coordenação dos Cursos de Pós-Graduação em Letras Vernáculas e Setor de Literaturas Africanas de Língua Portuguesa, 1999. v.2.

VENÂNCIO, José Carlos. Literatura e poder na África lusófona. Lisboa: Ministério da Educação. Instituto de Cultura e Língua Portuguesa, 1992.


INTERNET:
Vera Duarte, mulher de causas.
http://www.acaboverdeana.org.pt/modules.php?name=News&file=print&sid=55. Acessado em 27 de março de 2008.

Vera Duarte, Capeverdean poeat
http://www.caboverde.com/artist/vduarte.htm. Acessado em 27 de março de 2008.

Vera Duarte apresenta hoje, na Praia, "Construindo a Utopia"
http://www.vozdipovo-online.com/conteudos/cultura/vera_duarte_apresenta_hoje,_na_praia,_%22construindo_a_utopia%22/