quinta-feira, 17 de abril de 2008

Mia Couto: A resistência da ancestralidade espiritual em O adeus da sombra

A resistência da ancestralidade espiritual em O adeus da sombra, de Mia Couto

Ricardo Riso

A preservação da cultura autóctone moçambicana é uma constante na produção do escritor Mia Couto. Em O adeus da sombra, um dos contos de Estórias abensonhadas, o autor não faz diferente e mais uma vez nos apresenta sua genialidade no choque entre o regional e o universal, em travar o embate do cotidiano contemporâneo global que tanto afasta os moçambicanos de suas tradições seculares, e estes resistindo às inovações dos novos tempos.

A partir da doença que parece ser fulminante a vitimar sua vizinha, causada pelo desaparecimento de seu amado companheiro, o narrador conduz-nos a uma instigante reflexão entre a medicina do homem ocidental inserida em Moçambique pelo colonizador português, e o conhecimento tradicional do povo moçambicano que recorre aos homens mais velhos, sabedores dos poderes das plantas curadoras. Além de demonstrar como a questão da Saúde é tratada no país.

O conto passa-se durante o período da guerra civil moçambicana entre a FRELIMO (grupo político que permaneceu no poder no pós-independência) e a RENAMO (grupo armado apoiado pela Rodésia e África do Sul); e como não poderia deixar de ser, a guerra atua como pano de fundo para o conflito das tradições moçambicanas e o conturbado mundo moderno.

Uma menina adoece com a ausência inesperada e inexplicável do amado que pode ter sido morto em um ataque qualquer. Rotineiro, infelizmente. A mãe desesperada após ministrar “essências, queimando incensos, rezando bênçãos”[1] e com a sentença dada por um médico que decretou a proximidade da morte, procura o vizinho para ajudá-la, pois sabe que este adentrará as matas e entrega-lhe um exemplar de uma planta “capaz de descrucificar Jesus”[2]. Aqui encontramos o sincretismo religioso e o primeiro sinal de resistência da cultura moçambicana, apesar de assimilada pela religião católica trazida pelos portugueses ainda recorre às antigas tradições de cura das plantas medicinais.

O vizinho-narrador, que posteriormente apresenta-se como um biólogo (profissão de formação do autor), compromete-se em trazer a milagrosa planta e parte para a mata acompanhado de um guia, Julinho Casa’beto, recém ex-presidiário, que está sedento por conversa e não respeita o caráter sagrado da palavra: “A palavra é divinamente exata, e o homem deve ser exato como ela. Falar pouco é sinal de boa educação e nobreza.”[3] O motivo de sua prisão foi o assassinato de um homem, porém não foi um assassinato qualquer, matou para pegar a “moya” a pedido da mulher que amava. Ele justifica a moya como: “o respirar da vida”[4]; e o narrador espanta-se: “Aquele moço não era, afinal, o comum assassino. Ele matara não um ser mas a sua sombra, esse barco que nos faz navegar por pessoas e tempos”[5]. Segundo Nei Lopes, Mooyo (a energia vital), e não moya, diz: “todos os seres do Universo têm sua própria força vital, e esta é o valor supremo da existência. Possuir a maior força vital é a única forma de felicidade e bem-estar.”[6]. Quando o corpo acomete-se de doenças, ou há morte, “é conseqüência de uma diminuição da força vital, causada por um agente externo dotado de uma força vital superior. O remédio contra a morte e os sofrimentos é, portanto, reforçar a energia vital, para resistir às forças nocivas externas.”[7] E a respeito da sombra, Lopes comenta que: “Entre os elementos que compõem o ser humano, há o corpo físico, que desaparece após a morte e é uma exteriorização de sua riqueza interior e o receptáculo de suas sensações. Esse corpo vive acompanhado de uma sombra, que é a sua irradiação para o exterior e que também se desvanece com a morte”[8].

O narrador explica o motivo de sua ida à mata, a “agnóstica paisagem”: conhecer as plantas medicinais. Contudo, a pesquisa será cancelada por falta de investimento dos órgãos competentes. “Os dinheiros foram retirados, a coisa foi tida sem importância. Prioridades são outras (...)”[9] Ele critica abertamente o descaso com que a Aids (Sida) é tratada no seu país e no continente africano: “Proliferam as ciências desumanas e os cientistas ocultos. Que posso eu contrafazer?”[10], que afastam-se gradativamente da essência do homem, do descaso para com o próximo. A desterritorialização do narrador é sentida por seu guia ao questionar: “que anda fazer, abichando-se por estas selvas? (...) Mas o senhor sai do jardim para entrar no capim? É que cada um no seu buraco.”[11] Para enfatizar sua declaração, a ironia, largamente utilizada pelo autor, surge na inversão de provérbios: “Me diga, peço a desculpa: jibóia usa chinelos?”[12]

Podemos até pensar que há uma conspiração para que a situação desoladora da África fique como está ou até piore, pois, ao se manter o vírus da doença incurável, a indústria farmacêutica permanece com a produção e venda dos seus medicamentos, e encontra justificativa para a continuidade dos vultosos orçamentos para as pesquisas. Porém, descompromissada com a urgência em salvar vidas porque a descoberta da cura quebrará a perniciosa cadeia vigente.

A dupla chega ao lugar onde encontrariam uma curandeira, em um muti[13], tradicional aglomerado de casas de um mesmo grupo familiar, nas zonas rurais de Moçambique. O muti poderia ser o local que, segundo Bauman, “a reconstrução cultural tem limites que nenhum esforço poderia transcender. Certas pessoas nunca serão convertidas em alguma coisa mais do que são. Estão, por assim dizer, fora do alcance do reparo. Não se pode livrá-las de seus defeitos: só se pode deixá-las livres delas próprias, acabadas, com suas inatas e eternas esquisitices e seus males.”[14] E no muti outras tradições permanecem, como: “Ficamos sentados na entrada do muti, conforme os pedidos de licença. Em boa casa africana o dia transcorre fora da casa, no pátio. Por ali rondam as crianças, ciscam as galinhas.”[15] Até que chega a curandeira Nãozinha de Jesus[16]. A onomástica, outra característica da obra coutiana, apresenta-se. Na referida personagem, trata-se de um sinal de resistência à cultura invasora, à religião do colonizador apesar da assimilação do nome, que mesmo assim a nega. Contrária ao catolicismo imposto, procura perpetuar a tradição do conhecimento passado através da oralidade. Nãozinha de Jesus conhece a magia das plantas e “a magia é manipulação das forças e pode se revelar útil ou nociva, de acordo com o uso que dela se faz. (...) A boa magia, (...) visa a purificação dos seres, para recolocar as forças em ordem e evitar a morte”[17].

Nãozinha, com generosidade, inicia o narrador, e este com a humildade devida, no aprendizado das plantas medicinais. Assim é a passagem de conhecimento entre os povos africanos, cultura em que os mais velhos escoram-se em suas experiências de vida e a proximidade com os antepassados marcam a fundamental importância na sociedade, à qual Nãozinha é a curandeira de seu muti, sabedora das plantas curadoras que vêm do chão, cujo o avançar da idade está mais próxima dos antepassados que estão no chão. E a energia vital está no chão.

Sendo assim, o narrador revela a ela o motivo da aparição: que seria a última visita e mostra a planta pedida pela mãe da menina que está no leito de morte. Nãozinha não aceita a despedida: “Lhe prometera combatermos juntos, ambos querendo salvar os seus vitais materiais, guardar em mundo suas antigas sabedorias.”[18] Dessa maneira quebra-se o elo entre o arcaico e o moderno, a cura pelas plantas medicinais e a medicina “científica”. Na cultura tradicional o conhecimento é passado pela tradição oral, Nãozinha passava os seus conhecimentos para o narrador, e o conhecimento das plantas curadoras não poderia encerrar-se com ela, alguém tinha que continuar a tradição, mesmo que fosse um de fora, um que tenha estudado a medicina do homem branco como o narrador, conforme diz Lopes: “A transmissão oral do conhecimento é o veículo do poder e da força das palavras, que permanecem sem efeito em um texto escrito, (...) o Verbo Atuante, tem o valor de uma iniciação, que não está no nível da compreensão, porém na dinâmica do comportamento. Essa iniciação é baseada em reflexos que operam no raciocínio e que são induzidos por impulsos nascidos no fundamento cultural da sociedade.”[19]

Dessa maneira, será uma tradição que se perderá diante da avançada idade da curandeira e, que, talvez, com a obrigatória desistência do narrador, ninguém na aldeia queira se iniciar nas plantas medicinais. Assim, atua a cultura daqueles que estão no poder, através da assimilação desencorajando as novas gerações a conhecer a cultura dos antepassados, ou seja, tornar a diferença semelhante. Como diz Bauman: “em vez de se manter intacta a maneira como as coisas existiam, tornou-se mudar a maneira como as coisas ontem costumavam ser, criar uma nova ordem que desafiasse a presente (...) De fato, pode-se definir a modernidade como a época, ou estilo de vida, em que a colocação em ordem depende do desmantelamento da ordem ‘tradicional’, herdada e recebida; em que ser significa um novo começo permanente.”[20] O narrador ainda tenta uma última tentativa de aprender mais: “se andarmos juntos, nas devidas pressas”[21]; mas não é atendido pela curandeira: “Eu já não tenho após, meu filho. Para que as pressas?”[22] O processo de iniciação não pode ser acelerado, pois na cultura africana o aprendizado deve ser vivenciado, sentido, compartilhado às tarefas do cotidiano, o que leva a um acúmulo de conhecimento contínuo e constante. Porém, o desânimo de Nãozinha é evidente porque perde o seu discípulo e as plantas cada vez mais raras diante da depredação, ganância e descontrole dos que ‘vem de fora’: “Agora já não dá mais tempo. É que nos levam tudo, esses que vem da cidade cortam tudo, nem raízes nos deixam...”[23], e que provavelmente estão a serviço das indústrias farmacêuticas, entretanto, ignoram o conhecimento dos curandeiros locais, pois tratam-se de competidores, e por se incluírem nesta posição devem ser desacreditados e, se possível, aniquilados, por que na ordem vigente são estranhos que não aceitam as mudanças impostas. Diante dessa postura, a planta pedida já quase não se encontra: “Essas folhas, já há muito tempo que foram, voaram, borboletaram-se por aí.”[24] E realmente não é encontrada: “Até ali os vendedeiros haviam chegado. Até dali eles haviam arrancando, levado em carradas para a cidade”[25]. Por conseguinte, o narrador não poderá cumprir o prometido à mãe.

Ao chegar na casa da menina doente sem a planta, a mãe percebe o insucesso da missão e conduz o narrador ao quarto da menina, com seus momentos de vivente próximos do fim: “fitava o que não há, paisagens de nenhures.”[26]

Entretanto, a menina visualiza a chegada de Julinho Casa’beto, o assassino, que apunhala com uma faca o coração do narrador, “em golpe de raiz”. Repete o que o levou ao cárcere. A menina abraça Julinho “e se debruçam, ambos, para recolher a minha sombra”[27]. A sombra é integrante da energia vital: “Entre os elementos que compõem o ser humano, há o corpo físico que desaparece após a morte e é uma exteriorização de sua riqueza interior e o receptáculo de suas sensações. Esse corpo vive acompanhado de uma sombra, que é a sua irradiação para o exterior e que também se desvanece com a morte”[28].

A respeito do assassinato do narrador algumas considerações podem ser tecidas. Julinho Casa’beto havia matado um homem para salvar a mulher que estava à beira da morte, como a vizinha do narrador; o fato da mãe da menina saber que o narrador iria para a mata atrás das plantas de cura e o ex-presidiário servir como guia faz-nos pensar em um possível crime premeditado contra o narrador; a repentina felicidade da menina quando percebe a sua chegada e a sua intenção, será a menina conhecedora das tradições?; o “golpe de raiz” remete-nos ao duelo travado por Julinho e Nãozinha de Jesus, vencido por esta, que acertou o tronco de uma árvore sagrada com sua faca, pois este símbolo pode ter servido como indicação do que viria acontecer diante do insucesso da missão do narrador. Podemos interpretar o narrador como a planta curadora (a moya) a ser utilizada para fortalecer a energia da vizinha doente, pois ele é um aprendiz dos sagrados conhecimentos das plantas medicinais, assim o ato de Nãozinha serviu, indiretamente (ou não?), como uma maneira de Julinho compreender o que deveria ser feito para salvar a menina. Ou seria simplesmente uma tentativa dos moradores locais por não concordarem que um “de fora”, um estranho, conhecesse as tradições locais, mesmo sendo um moçambicano, todavia infectado pela cultura do colonizador branco, pois este estranho “significa o desmantelamento da ordem existente e sua substituição por um novo modelo de pureza”[29]. As plantas podem ser consideradas patrimônio daquela cultura, a pureza daquela cultura, e eles não podem permitir que até isso caia no poder da classe dominante.

Esse problema de resistência local com o outro, o que vem “de fora”, das grandes cidades, é retomado sistematicamente na obra de Mia Couto, foi assim n’A varanda do frangipani, em que o investigador Izidine Naíta precisou do auxílio da enfermeira Marta Gimo para compreender a cultura daquele afastado povo, que se recusavam a lhe ajudar a elucidar um assassinato; também em O último voo do flamingo, o investigador Massimo Rissi necessita de um tradutor nascido em Tizingara para entender os costumes locais e, a partir daí, tentar desvendar os mistérios que se apresentam entre os viventes locais. Com isso, o autor procura mostrar a dificuldade dos que não conhecem as tradições moçambicanas em compreendê-las.

Assim, Mia Couto nos apresenta o abismo que há entre as tradições moçambicanas e o mundo globalizado que não respeita a cultura africana. Mundo que vagarosamente afasta os moçambicanos de suas origens e conhecimentos passados pela tradição oral, prejudicada por governantes entreguistas e corrompidos. A literatura de Mia Couto atua como resistência, como defensora da ancestralidade espiritual de um povo, que desmascara a destruição criativa[30] do poder globalizante, que pretende demolir e construir ao mesmo tempo, num estado de extinção contida[31] que deixa as novas gerações confusas num permanente estado de incerteza. Por isso, sua literatura compromete-se com a denúncia e a afirmação das manifestações de moçambicanidades, diante do agressivo avançar da ordem globalizante neoliberal. É uma literatura atenta aos dilemas da contemporaneidade, que oprime as diferenças, subjuga o excluído e aniquila o fraco. O fazer literário em Mia Couto é o espaço em que cada homem é uma raça, a religiosidade surge sem religião, local de sonho e lirismo aliados na incansável espera da chuva abensonhada que trará um novo tempo com uma sociedade igualitária, em favor da paz, em favor da vida.
NOTAS:
[1] Couto, Mia. O adeus da sombra. In: Estórias abensonhadas. Editora Nova Fronteira. p. 125.
[2] Idem. Ibidem. p. 126.
[3] Lopes, Nei. Kitábu. Senac Rio Editora. p. 31.
[4] Couto, Mia. O adeus da sombra. In: Estórias abensonhadas. Editora Nova Fronteira. p. 128.
[5] Idem. Ibidem. p. 128.
[6] Lopes, Nei. Kitábu. Senac Rio Editora. p. 28.
[7] Idem. Ibidem. p. 28.
[8] Idem. Ibidem. p. 26.
[9] Couto, Mia. O adeus da sombra. In: Estórias abensonhadas. Editora Nova Fronteira. p. 127.
[10] Idem. Ibidem. p. 127.
[11] Idem. Ibidem. p. 127.
[12] Idem. Ibidem. p. 127.
[13] Idem. Ibidem. p. 128.
[14] Bauman, Zigmuth. A criação e anulação dos estranhos. In: O mal-estar da pós-modernidade. p. 29.
[15] Couto, Mia. O adeus da sombra. In: Estórias abensonhadas. Editora Nova Fronteira. p. 128.
[16] O nome Nãozinha repete-se no romance A varanda do frangipani, de Mia Couto. Neste, a personagem é uma feiticeira.
[17] Lopes, Nei. Kitábu. Senac Rio Editora. p. 30.
[18] Couto, Mia. O adeus da sombra. In: Estórias abensonhadas. Editora Nova Fronteira. p. 129.
[19] Lopes, Nei. Kitábu. Senac Rio Editora. p. 31.
[20] Bauman, Zigmuth. O sonho da pureza. In: O mal-estar da pós-modernidade. p. 19-20.
[21] Couto, Mia. O adeus da sombra. In: Estórias abensonhadas. Editora Nova Fronteira. p. 129.
[22] Ibid. Ibidem. p. 129.
[23] Couto, Mia. O adeus da sombra. In: Estórias abensonhadas. Editora Nova Fronteira. p. 129.
[24] Idem. Ibidem. p. 129.
[25] Idem. Ibidem. p. 129.
[26] Idem. Ibidem. p. 130.
[27] Idem. Ibidem. p. 130.
[28] Lopes, Nei. Kitábu. Senac Rio Editora. p. 26.
[29] Bauman, Zigmuth. O sonho da pureza. In: O mal-estar da pós-modernidade. p. 20.
[30] Bauman, Zigmuth. A criação e anulação dos estranhos. In: O mal-estar da pós-modernidade. p. 29.
[31] Ibid. Ibidem. p. 30.

terça-feira, 15 de abril de 2008

Colóquio/Letras - revista sobre literatura

A revista portuguesa Colóquio/Letras, da Fundação Calouste Gulbenkian, disponibiliza em seu site todas as edições lançadas entre 1971 e 2004, totalizando 169 publicações.


http://coloquio.gulbenkian.pt/bib/sirius.exe/lastissue

Ricardo Riso

domingo, 13 de abril de 2008

Língua e estilo de Elomar (livro)


Língua e estilo de Elomar
SALOMÃO, Any Cristina.SIMÕES, Darcilia.KAROL, Luis.PICCININI, Fernanda.
Publicações Dialogarts, 2006

Belo trabalho acadêmico sobre a obra do violeiro Elomar, disponível para download no endereço acima.

sexta-feira, 11 de abril de 2008

Manuel Bandeira: Crônicas inéditas I (lançamento)

CHACAL VIVE BANDEIRA

A Cosac Naify lança o livro Crônicas inéditas I, de Manuel Bandeira (organização de Julio Castañon Guimarães), na Livraria Travessa, Rio de Janeiro, no dia 13 de abril.

O lançamento contará com a presença do poeta Chacal, que fará uma apresentação performática ao ler a crônica “Antonieta Rudge”, escrita por Bandeira em 1930 e originalmente publicada no Diário Oficial.

Leia, a seguir, texto em que Chacal fala sobre suas impressões diante da prosa inédita de Manuel Bandeira, exclusivo para este site.

Lançamento de Crônicas inéditas I, de Manuel Bandeira
13 de abril, às 19h
Livraria da Travessa
Rua Visconde de Pirajá, 572 – Rio de Janeiro


BANDEIRA PRA VIDA INTEIRA

Estou imerso em Bandeira. Faz bem ao batimento cardíaco. Como me acalma! Crônicas Inéditas I, recém lançado pela Cosac Naify, é um bálsamo. Como cronista, Manuel faz sua cruzada com aqueles toques certeiros de um cidadão, de um poeta. Ele se bate, ele se contradiz. Ele exalta e reclama. Bandeira roga a cidadania que preserve um certo nível artístico, prestigiando a música clássica, o canto lírico e observa:

“... a invasão do morbus fox-trot alucionou a nossa população, desviou-a do caminho que conduz à civilização, desorientou-a com a liberdade expressiva tolerada por uma sociedade que só pensa em diversões... Vencer esse meio, atrair uma parte dos fascinados pelos sports, pelos cinemas e pela dança licenciosa, não é tarefa das mais fáceis, mas a pertinácia do Doutor Duque Estrada, do maestro Francisco Braga e de seus excelentes auxiliares que formam a Orquestra da Sociedade de Concertos Sinfônicos, tem alcançado várias vitórias.

O público já procura ouvir Mozart, Beethoven e Wagner, deseja conhecer os nossos compositores, percebe que temos um meio artístico, aos poucos vai fugindo da formidável atração dos sports, cinemas e dancings”. (“Concertos”, de 1925, escrita para Brasil Musical)

Quem achar esse recado um tanto conservador, mesmo para uma época em que a cultura de massa ainda não era absoluta, veja esse comentário de Bandeira sobre o livro de Mário de Andrade, Paulicéia Desvairada, então recém lançado: “Para muita gente a arte moderna não passa de uma enorme mistificação. Sem dúvida aqui, como em todos os movimentos, e nem só os artísticos, há os aproveitadore, os adeístas, os débeis, os Camille Mauclair, que mais tarde viram a casaca de empréstimo com que a princípio acompanhavam a procissão. Guillaume Apollinaire, porém, sugeriu que não se conhece em toda a história das artes um só exemplo de mistificação coletiva. Esse corajoso movimento que alastrou toda a Europa e agora suscita em São Paulo um gruopo de artistas como Brecheret, Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Anita Malfatti, Rubens de Morais, Sérgio Buarque e tantos outros (leiam a Klaxon!) não é uma mistificação efêmera, mas a integração definitiva na consciência artística de uma porção de cousas que antes oscilavam pesadamente e penosamente nos limbos do instinto. E que alegria ver refletido na arte o momento que vivemos!” (“Mário de Andrade”, escrita em 1922 para a revista Árvore Nova)

A crônica é a trincheira do poeta. Assim vi Torquato Neto guerrear em sua coluna "Geléia Geral" na Última Hora pelas cores do movimento tropicalista. Manuel Bandeira batalha pelo que acredita enquanto observa a cidade e seus descaminhos urbanísticos, com ruas pequenas para uma progressiva capital e um até hoje elefante branco chamado Teatro Municipal.

Mas Bandeira também nos brinda com confidências, com delicadezas como a belíssima crônica de nome “Antonieta Rudge” em que fala do seu encantamento e medo de Machado de Assis, o bruxo do Cosme Velho. É um banho de beleza, uma aula de crônica.

A Cosac Naify se esplende ao publicar o que Bandeira pôs em papel. Ela sabe muito bem o que é “Bandeira pra vida inteira”.

Chacal

http://www.cosacnaify.com.br/noticias/extra/bandeira_inedito1/

quinta-feira, 10 de abril de 2008

Aniversário (Álvaro de Campos)

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a.olhar para a vida, perdera o sentido da vida.

Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo,
O que fui de coração e parentesco.
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui — ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui...
A que distância!...
(Nem o acho... )
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!

O que eu sou hoje é como a umidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes...
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio...

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos ...
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim...
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!

Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais copos,
O aparador com muitas coisas — doces, frutas, o resto na sombra debaixo do alçado,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos. . .

Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira! ...

O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...

Os versos acima, escritos com o heterônimo de Álvaro de Campos, foram extraídos do livro "Fernando Pessoa - Obra Poética", Cia. José Aguilar Editora - Rio de Janeiro, 1972, pág. 379.

quarta-feira, 9 de abril de 2008

José Craveirinha: Depoimento Autobiográfico

28 de maio de 1997.
José João Craveirinha nasceu em 28 de Maio 1922 em Maputo. Completa hoje 75 anos!!!
Iniciou a sua carreira como jornalista no "O Brado Africano", e colaborou/trabalhou com diversos orgãos de informação em Moçambique. Teve um papel importante na vida da Associação Africana a partir dos anos 50.
Grande parte da sua poesia ainda se mantém dispersa na imprensa, não tendo sido incluída nos livros que publicou até à data. Outra parte permanece inédita.
Esteve preso pela Pide, de 1965 a 1969, na celebre Cela 1 com Malangatana e Rui Nogar, entre outros.
Tem muitas obras publicadas, sendo considerado um dos grandes poetas de Africa e da Língua Portuguesa.

Depoimento autobiográfico, Janeiro de 1977:

"Nasci a primeira vez em 28 de Maio de 1922. Isto num domingo. Chamaram-me Sontinho, diminutivo de Sonto. Pela parte da minha mãe, claro. Por parte do meu pai fiquei José.

Aonde? Na Av. do Zichacha entre o Alto Maé e como quem vai para o Xipamanine. Bairros de quem? Bairros de pobres.

Nasci a segunda vez quando me fizeram descobrir que era mulato. A seguir fui nascendo à medida das circunstancias impostas pelos outros. Quando o meu pai foi de vez, tive outro pai: o seu irmão. E a partir de cada nascimento eu tinha a felicidade de ver um problema a menos e um dilema a mais. Por isso, muito cedo, a terra natal em termos de Pátria e de opção. Quando a minha mãe foi de vez, outra mãe: Moçambique.

A opção por causa do meu pai branco e da minha mãe negra.

Nasci ainda mais uma vez no jornal "O Brado Africano". No mesmo em que também nasceram Rui de Noronha e Noemia de Sousa. Muito desporto marcou-me o corpo e o espírito. Esforço, competição, vitória e derrota, sacrifício até à exaustão. Temperado por tudo isso.

Talvez por causa do meu pai, mais agnóstico do que ateu. Talvez por causa do meu pai, encontrando no Amor a sublimação de tudo. Mesmo da Pátria. Ou antes: principalmente da Pátria. Por causa da minha mãe só resignação.

Uma luta incessante comigo próprio. Autodidacta.

Minha grande aventura: ser pai. Depois eu casado. Mas casado quando quis. E como quis.

Escrever poemas, o meu refúgio, o meu país também. Uma necessidade angustiosa e urgente de ser cidadão desse país, muitas vezes altas horas da noite."
FONTE:
Lenamarve (Mensagem original) Enviado: 29/5/2007 03:40
Date: Wed, 28 May 1997 15:42:23 gmt+0200 From: Joaquim Fale' <> To: <>

terça-feira, 8 de abril de 2008

Mia Couto - crônica

Sou de um tempo e lugar em que os comboios eram lentos, tão vagarosos que pareciam arrependidos da viagem. Na estação, não havia despedida. Nada de separação traumática, o golpe definitivo da partida. Tudo era tão lento e esfumado que se convertia em irrealidade. A despedida como repentina ruptura eu aprendi mais tarde, no meu primeiro aeroporto. Voar é o sonho da própria poesia. Mas o voo tem despesas de afecto muito pouco poéticas.

Nasci e vivi entre meandros de rios, preguiçosas águas que se apegavam às margens. A estação ferroviária obedecia a essa líquida paisagem. O comboio era um barco e eu entendia porque se chamava "cais" àquela plataforma onde as mães agitavam os lenços brancos. Para mim, os modos lentos do comboio não resultavam de incapacidade motora. Eram, sim, gentileza. Uma afabilidade para com essas pequenas mortes, que são as despedidas.

Muitas vezes me desloquei para a estação dos caminhos-de-ferro com o fim de não me deslocar para lado nenhum. Ficava no banco de madeira a olhar a gente transitando. E me abandonava naquele assento durante horas, sem que o tempo me pesasse. Talvez eu viajasse mais que os próprios passageiros que chegavam e partiam. A minha cidade era pequena, tão pequena que os domingos, com seu tédio antecipado, não eram notados. Eu inventava os meus tempos fora do Tempo, ali na arrastada azáfama da estação ferroviária.

Não tive propriamente uma educação religiosa. Apenas de quando em quando eu entrava em recinto de igreja. Fazia-o porque havia ali um sossego que me refrescava a alma. Qualquer coisa parecida com o que eu encontrava na gare ferroviária. Com a diferença de que a estação me facultava um recolhimento do lado de dentro da Vida, um resguardo entre as pessoas e as almas que eu nelas inventava. Os fantasmas da igreja moravam na sombra fria. Os da estação eram solarentos, riam alto e falavam línguas que eu desconhecia.

Algo me ficou desse estacionamento de alma, como se eu ganhasse residência perene nas velhas estações de todo o mundo. Afinal, essa contemplação me trouxe como que um irreparável vício: ter um banco de madeira onde eu possa ver desfilar pessoas em flagrante viagem.

Mia Couto
Crônica sobre a cidade da Beira, sua cidade natal.
Jornal Expresso. Suplemento Única, pp. 40-44. Lisboa, 09 de fevereiro de 2007.

Paulina Chiziane - O Alegre Canto da Perdiz

http://html.editorial-caminho.pt/show_produto__q1obj_--_3D71151__--_3D_area_--_3Dcatalogo__q236__q30__q41__q5.htm

Paulina Chiziane - O Alegre Canto da Perdiz
Editorial Caminho
Delfina é uma mulher bonita, «uma negra daquelas que os brancos gostam». A história de vida desta Delfina, «dos contrates, dos conflitos, das confusões e contradições», é a história da mulher africana, a história da apocalíptica perda do sonho. Esta mulher debate-se entre «escolher o caminho do sofrimento», o amor que sente por José dos Montes, e eliminar a sua raça para ganhar a liberdade», procurando o homem branco que lhe dará o alimento e o conforto que deseja. Mas o que é o amor para a mulher negra? Na terra onde as mulheres se casam por encomenda na adolescência? O problema arrasta-se ao longo do livro, aparentemente sem solução: «viver em dois mundos é o mesmo que viver em dois corpos, não se pode. Tu és negra, jamais serás branca». Mesmo assim a mulher negra «procura um filho mulato, para aliviar o negro da sua pele como quem alivia as roupas de luto».O sufoco das palavras outrora silenciadas, a valentia e a frontalidade gritam alto nos romances de Paulina Chiziane. Neste diálogo consigo própria, a conhecida escritora moçambicana, mistura imaginação, fantástico, misticismo, num retrato poderoso e peculiar da sociedade e da mulher africanas.

Acabamento: brochado
Dimensão: 13,4x21 cm
Páginas: 342
Peso: 425 g
Colecção: «Outras Margens», n.º 0Código: 93.000
ISBN: 978-972-21-1976-4
1.ª edição: Março 2008
Data: Março 2008

Pepetela - O quase fim do mundo (entrevista)

Fonte: Diário de Notícias - Editado por Angola Digital
Tuesday, 11 March 2008
http://www.angoladigital.net/artecultura/index.php?option=com_content&task=view&id=878&Itemid=39

«O Quase Fim do Mundo» de Pepetela

«Este romance podia ter mais 800 páginas». «Há uma personagem que diz que cada civilização vive até inventar as armas que a vão liquidar. Estamos próximos disso... Ao mesmo tempo que há um instinto de sobrevivência, há um instinto de destruição.» Uma entrevista do Diário de Notícias ao escritor, a propósito do novo livro.

E se houvesse um holocausto agora? A história começa assim. Quando terminou o romance “Os Predadores”, disse que lhe apeteceu beber champanhe. No fim deste livro voltou a ter essa vontade?

Foi diferente. Este livro foi um jogo; espécie de brincadeira. Eu estava mais à vontade. Não estava tão agarrado à realidade. É ficção pura e quando terminei pensei: "Isto até dava mais umas 800 páginas." Mas tinha de parar. Foi um livro que não me custou escrever. Podia inventar as sociedades que quisesse e tive até uma certa pena de parar. No outro apeteceu-me beber champanhe talvez por saber que estava a fechar um ciclo. Houve um corte e um corte fundo.

E porque parou se o livro poderia ser o triplo?

O livro estava a pedir-me para parar ali. Mas hoje quando releio a parte final, vejo que podia continuar. Mas bastava não pôr ali um epílogo e continuar, reconstruindo a história da humanidade.

Parte de um hipotético holocausto e uma frase que posiciona logo o leitor. "Chamo-me Simba Ukolo, sou africano, e sobrevivi ao fim do mundo"...

Dou muita importância às primeiras frases e, neste caso particular, foi muito trabalhada.

Como dá importância aos nomes...

Este foi escolhido de modo a nunca se definir muito bem a origem da personagem e a sua situação no terreno. O leitor mais conhecedor de África consegue situar mais ou menos uma região onde é possível estarem cinco países que fazem quase fronteira: Tanzânia, Congo, Burundi, Uganda, Ruanda. É na região dos grandes lagos.
Há uma ou outra referência ao Kilimanjaro. Percebe-se que Nairobi não está assim tão longe. Mas não é importante que o leitor saiba situar. Se não conhecer a região, tanto melhor. Normalmente, como sou angolano, até poderão pensar que é em Angola. Mas não tem nada a ver com Angola. Fiz todos os esforços para que não se percebesse. O importante é que se perceba que é uma parte de África, muito próxima do sítio onde hoje se pensa que terá começado a Humanidade.

A causa do holocausto só é revelada no fim. Até lá só sabemos do repovoamento...

Este livro nasce de uma notícia. Mas hesitei algumas vezes se iria ou não revelar a causa ou se deixaria em suspenso. Depois também achei que era demasiado pesado para o leitor. Acho que o leitor ficaria frustrado, a interrogar-se sobre o que aconteceu. Era pesado demais não saber o que levou a tal destruição.

Quando diz que isto é pura ficção, não é bem verdade. A reflexão política e ecológica, por exemplo, estão muito presentes.

Há uma personagem que diz que cada civilização vive até inventar as armas que a vão liquidar. Estamos próximos disso... Ao mesmo tempo que há um instinto de sobrevivência, há um instinto de destruição. O livro é uma metáfora. Cuidado! Para onde estamos a ir?

E começa com um homem que pensa estar completamente só no mundo, até que um mosquito o pica e ele percebe que tem companhia. Esse sentimento de solidão absoluta tomou conta de si enquanto escritor?

Sim. Se não, não seria capaz de escrever. Mas tentei usar um estilo muito ligeiro. Em qualquer livro há um tactear do próprio autor. Também no meu caso. Nunca sei como é que vai acabar, nem me preocupo muito a não ser a partir do meio. Até lá é um tactear sempre. Daí que talvez neste caso tenha sido mais fácil. Alguém que inicia este livro a tactear e continua por ele fora. No fundo aquele primeiro homem é uma espécie de companhia.

A ironia ajuda na desgraça?

Sim. Nós, os angolanos, agarramo-nos muito ao humor. É a nossa arma principal para sobreviver. Até a sátira em relação a nós próprios, o gozarmos, o rirmos connosco. Isso está aqui. A ideia foi pôr esse lado africano de ver o mundo.

Uma visão que, aqui, tem muito de geográfica e segundo a qual o europeu é alguém de espírito pequeno. É assim que o africano vê o europeu?

Não posso generalizar. Depende do africano e depende do europeu, mas de um modo geral o que nós pensamos, por exemplo dos portugueses, é que os portugueses têm esse espírito pequeno. Os portugueses que viveram África e estão aqui em Portugal falam sempre é da pena de ter perdido a distância, o espaço que tinham lá. Essa saudade ficou.

Este livro foi um exercício diferente para si enquanto escritor, já o disse...

Foi. Era um tema diferente e o próprio facto de ser fora de Angola era novo. Pegar em qualquer coisa que é tremendo, mas poder contar uma história que até parecesse ligeira... Foi isso que quis fazer. Posso não ter atingido.

Essa angústia do resultado termina quando?

Nunca vai terminar. Essa angústia acho que existe sempre.

Por exemplo, em relação aos ‘Predadores’, ficou tranquilo com o resultado?

Agora sim.

Então há uma altura em que passa?

Há. Mas nunca tenho a certeza. O que sei é que tenho de parar e esperar pela reacção dos leitores. Depois posso dizer "acertei ou não acertei tão bem..."

O leitor não lhe é indiferente?

De modo nenhum. Houve livros que escrevi em que o leitor me era indiferente, porque os escrevi para mim, sem pensar em publicar.

Por exemplo?

Os primeiros. Sabia que não tinha hipótese, quando andava na luta pela libertação, etc. Onde é que iria arranjar editor? Aí há um à vontade enorme. Também o penúltimo livro, ‘O Terrorista de Berkeley’, escrevi para mim. Era uma brincadeira, não era para publicar.

Porque publicou?

Começou a haver pressão. Diziam que a história estava gira e não sei o quê, mas até hoje não estou convencido.

Ainda não se tranquilizou com ele?

Não. Era para mim, não era para mais ninguém. Ficou parado dois ou três anos e marcou um salto. Aquilo não tinha nada a ver com Angola. Era só os EUA, só americanos, mais nada. Era para me divertir. Tinha todo o tempo do mundo, não tinha nada para fazer...

O que é isso de ter todo o tempo do mundo?

(risos) É estar numa cidade de que se gosta, por onde já se andou (São Francisco). Dava de manhã um passeio. Estava num hotel, com nada para fazer, e um quarto de hotel é um lugar aborrecido. Tem uma televisão, a pessoa vê um bocado mas cansa-se da língua, tem uma secretária e um computador portátil, que anda sempre comigo. Não tinha nada para fazer e escrevi para passar o tempo. Resolvi escrever uma história. Era sobre aquilo que via todos os dias. Mas acho que marcou uma ruptura para começar a escrever sobre outras coisas e outras paragens.

Antes dos 'Predadores'?

Sim. Há uns 15 anos.

Porque adiou tanto?

Foram aparecendo outros temas que se impunham. Tenho sempre três ou quatro para trabalhar. Às vezes pego num, brinco com outro. Até ao dia em que há uma frase, uma personagem, qualquer coisa que me agarra e começo.

Pepetela - O quase fim do mundo

http://www.dquixote.pt/Livre/Ficha.aspx?id=2001


O QUASE FIM DO MUNDO
Pepetela


Chamo-me Simba Ukolo, sou africano, e sobrevivi ao fim do mundo.

«E se a vida animal de repente desaparecesse da Terra, excepto num pequeno recanto do mundo e em doses mínimas? Talvez as causas se conheçam depois, mas o que importa é a existência de alguns seres, aturdidos pelo desaparecimento de tantos, e procurando sobreviver. É sobre estes sobreviventes e as suas reacções, desejos, frustrações mas também pequenas/grandes vitórias que trata este romance. Detalhe importante: o recanto do mundo que escapou à hecatombe situa-se numa desgraçada zona da desgraçada África. O que permitirá questionar as relações contemporâneas no velho Mundo.»



ISBN: 978-972-20-3525-5

Páginas: 384

Dimensões: 15,5x23,5 cm

Colecção: AUTORES DE LÍNGUA PORTUGUESA

Ano de Edição: 2008

Encadernação: Brochado