sexta-feira, 6 de junho de 2008

FESTLIP – FESTIVAL DE TEATRO DA LÍNGUA PORTUGUESA


O FESTLIP – FESTIVAL DE TEATRO DA LÍNGUA PORTUGUESA em sua primeira edição reúne grupos teatrais de Angola, Brasil, Cabo Verde, Moçambique e Portugal no período de 06 a 15 de junho de 2008. Além de apresentações nos teatros Ginástico e Espaço Sesc, o festival contará com oficinas teatrais, uma exposição - "O teatro no Brasil e a chegada da família real" no Espaço Sesc, festa gratuita no Circo Voador nos dias 7 e 14/06, e uma mostra gourmet no Restaurante 00 com a culinária dos cinco países representantes.

GRUPOS TEATRAIS

PORTUGAL
Grupo da Garagem
Companhia fundada em 1989, dedica o seu trabalho artístico à pesquisa e experimentação, através da investigação de novas formas de escrita para teatro e de novas formas cénicas que a acompanham. A companhia trabalha com um autor/encenador residente, Carlos J. Pessoa, que é também o responsável pela Direcção Artística do Teatro da Garagem, um músico residente que compõe e interpreta a banda sonora dos espectáculos, um núcleo de actores fixos, uma equipa de produção, um dramaturgista, um responsável técnico, um cenógrafo e figurinista e uma designer gráfica.

Para além das criações próprias, a partir de textos originais de Carlos J. Pessoa, e da releitura dos clássicos, a companhia desenvolve um trabalho pedagógico, através do Serviço Educativo, com as escolas e associações da zona onde se encontra situado o teatro.

Assim as personagens vão-se cruzando e moldando, com traços precisos, como num tabuleiro de xadrez: o cavalo, o bispo, a torre, o rei e a rainha…

Sinto que todos nos sentimos, por um instante, vítimas deste, poderosos face a outro, impiedosos… Personagens que aprendem a viver com determinado rótulo, estigma, deveres e obrigações, de acordo com um teatro íntimo em que se enleiam. Maria, vive na clausura de uma torre de marfim, faz um périplo pela sua vida, experimenta as vozes das personagens que fizeram ou ainda, fazem parte da sua vida, da sua encenação.
Ao fazê-lo abdica, por um momento, do papel principal.

Sinto que andei a fazer encenações a vida toda, ou melhor, a encenar a minha vida com os outros. A diferença é que eu fazia parte de um elenco, composto pela minha família, amigos, conhecidos e desconhecidos, no qual as personagens executam um papel muito preciso e, parece-me, previsível. A mãe que sufoca, o pai que oprime, os avós que acarinham, o filho que a dada altura nos vai abandonar e construir a sua vida, o colega que nos quer bem, a professora que nos quer mal, o vizinho com o qual nos cruzamos todas as manhãs e que nos sorri, o marido, a irmã com a qual praticamente não temos ligação, a outra que sempre nos defendeu…

Grupo o Bando
O BANDO é conhecido internacionalmente e começou em 1974, tendo em seu repertório mais de 65 espetáculos montados.

Quem não gostava de ser “mosquinha” e ouvir as conversas secretas dos outros? O casal no café que ri baixinho, os velhos no jardim, os namorados que se beijam dentro dos carros, as mulheres às varandas.

Quem nunca sentiu, mesmo que o esconda, o desejo de conhecer melhor alguém, ouvindo os seus desabafos, numa conversa de que não fazemos parte?

Neste espetáculo do bando vamos espreitar o mundo da clandestinidade. Vai-nos ser permitido pôr uns auriculares e ser “mosquinha” durante meia hora, seguir uns desconhecidos e ouvir uma conversa íntima, sobre medo, perversidade, amor, morte... luto?
E quem sabe se esta experiência de aproximação ao outro não será esclarecedora para vermos melhor o mundo e percebermo-nos a nós próprios? Quem sabe se esta experiência de voyeurismo não será parte de uma viagem introspectiva?

Espectáculo de rua para 50 pessoas/representação, O espetáculo decorre em movimento. Os atores estão equipados com sistema de emissão de rádio e os espectadores com sistema de recepção .

CABO VERDE
Grupo Raiz Di Polon
A Companhia de Teatro e Dança Contemporânea Raiz di Polon foi fundada em Cabo Verde na década de noventa por Mano Preto, diretor do grupo até os dias atuais. Dentre as várias montagens, o grupo se destaca pela preciosidade dos textos em plena composição com a rica expressão corporal e o elemento musical, sempre presente nas peças.

O grupo apresentará durante o FESTLIP dois espetáculos, ambos do músico e escritor Mário Lúcio Souza, a peça Dom Quixote das Ilhas que traz uma leitura cabo-verdiana do original Dom Quixote de La Mancha de Miguel de Cervantes.

A peça fala de Quixote que gostava do vento. E por aqui havia dois bandos: Barlavento e Sotavento. Com os ventos vinham os gafanhotos – esses anjos do deserto. Os moinhos de vento nasciam já cansados de poços que nunca deram de mamar à terra. E na velhice tinham como única ocupação ceifar asas dos gafanhotos.

Quando o vento soprava de um lado Quixote ficava magro, magro, magro. E do engenhoso fidalgo descenderam muitos meninos eternamente magros no tempo e no espaço. Quando o vento soprava do outro lado Quixote se convertia em Sancho Panza, e parecia gordo, mas não o era, estava apenas prenhe de outros tantos meninos gordos no espaço e magro no tempo.

E a vida é um andar que se cruza ao ritmo de tudo: rápido, lento, fugaz, frente a frente, lado a lado, na vertical, em cima, em baixo, com encontros, encontrões, e desencontros fatais porque o que era ódio se fez amor na parte em que o ódio é mais forte. Rasgaram-se, comeram-se mutuamente, mataram-se, sobreviveram, rebelaram, fugiram juntos e um do outro e cada um para dentro e para fora de si. Só então, e para a posteridade dos dois, soube Quixote que ele e o outro eram a mesma pessoa.

A peça trata da presença da mulher como importante símbolo da ritualização e tradição africanas.

A partir deste contexto, surgiu a idéia de transformar o imaginário feminino num dueto feito pelas atrizes e bailarinas da companhia.

O canto e a utilização do corpo como instrumento musical são também constantes na cultura cabo-verdiana, permitindo o multiplicar da linguagem corporal, dos ritmos e sonoridades, obra que levou o grupo ao Prêmio Especial do Júri nos 5º Encontros Coreográficos da África e do Oceano Índico.

O grupo já esteve em turnês por topo o território africano e europeu.

Grupo Teatral do Centro Cultural Português do Mindelo
O Grupo de Teatro do Centro Cultural Português do Mindelo – Cabo Verde, atua desde 1993 e tem mais de 30 espetáculos montados entre textos de autores conhecidos com leituras “crioulas” ou caboverdianas como: Oscar Wilde, Molière, Garcia Lorca, William Shakespeare e também criações coletivas do grupo. Com participação em inúmeros festivais já se apresentou em palcos de Portugal, Itália, Espanha, Holanda e Brasil, já ganhou por duas vezes o Prêmio do Mérito Teatral por Portugal e por Cabo Verde.

No FESTLIP o grupo apresentará a peça “O Doido e a Morte”, texto de Raul Brandão, autor português, e direção de João Branco. A peça classificada pelo teatrólogo Luiz Francisco Rebello como “a mais singular e genial obra dramática do século XX português” leva à cena dois personagens, um político poderoso, confortavelmente instalado no seu gabinete, e o outro, que adentra pelo gabinete com uma bomba de grande impacto, anuncia com a maior calma do mundo que em instantes irá tudo pelos ares. Traz consigo, diz ele, a morte debaixo do braço

Considerada uma pérola da história da dramaturgia portuguesa – e em língua portuguesa – “O Doido e a Morte”, é uma farsa existencial, onde talvez faça sentido falar de expressionismo, por se tratar da revolta de um indivíduo perante a crueldade, a incongruência, a abjeção do mundo moderno e porque a obra de Raul Brandão está cheia de «gritos» em suas entrelinhas que fazem com que tenhamos sempre presente o quadro de Edward Munch, “O Grito”. A encenação inspira-se, precisamente nesta idéia e neste paradigma. Daí a opção pela utilização das máscaras, o estilo de interpretação, os próprios adereços, figurinos, som e luz. A estética da peça é o retrato de um imenso grito que pode servir, senão para acordar deste estranho sonho que é o presente, pelo menos para nos tornar mais alertas no futuro.


MOÇAMBIQUE
Grupo Mutumbela Gogo
Grupo Mutumbela Gogo de Maputo, capital de Moçambique, foi fundado no ano de 1986, pela diretora cênica Manuela Soeiro.

Hoje o grupo tem sua sede no Teatro Avenida, onde já montou inúmeros espetáculos encenados por toda Europa.

Reconhecido pelo talento dos atores que integram o grupo, dos quais, a maioria já participou de filmes de diretores norte-americanos e ingleses, motivo pelo qual o diretor de cinema Ingmar Bergman dirigiu um dos espetáculos do grupo. O Mutumbela Gogo trará para o FESTLIP a peça “As Filhas de Nora”, uma livre adaptação de Henning Mankell, diretor do grupo, a partir do texto original “Casa de Bonecas”, de Henrik Ibsen.

A versão é adaptada de forma a permitir uma leitura atual tendo como fundo a experiência moçambicana. A contemporaneidade do espetáculo se dá pela força das próprias palavras de Ibsen em confronto com a sociedade moderna africana. A adaptação moçambicana inclui uma mudança de nomes noruegueses para nomes moçambicanos e a ação decorre na época do carnaval.

No texto original Nora, a protagonista, abandona o marido e as suas três filhas porque de repente ela descobre que foi sempre tratada como uma boneca e não como uma mulher. É um escândalo para a sociedade. O Grupo Mutumbela Gogo, através do Henning Mankell, faz uma réplica à peça criando "As Filhas da Nora". O que terá acontecido às três meninas depois da saída brusca da sua mãe? Enfrentamos, nesta peça, as contradições dos indivíduos e os seus esforços para compreender as relações de afeto e o outro que se torna, muitas vezes, sentido da própria individualização e caráter dos sujeitos.

Grupo Gungu
Companhia teatral formada em 1992, pelo escritor e diretor Gilberto Mendes que integrou o elenco do grupo Mutumbela Gogo até a fundação da sua própria companhia, o Grupo de Teatro Gungu o qual se destaca pelas montagens contemporâneas e a forte musicalidade em seus espetáculos já tendo se apresentado em Festivais na Noruega, Portugal, Espanha e França.

Obs.: Num mundo extremamente machista como é o moçambicano, a batalha pela afirmação feminina ganha cada vez mais espaço.

Enquanto o homem macho se serve da sua força e virilidade para se impor, a mulher se utiliza da sua sedução e, acima de tudo, da sua inteligência que , diga-se de passagem, está alguns pontos acima da masculina.

A peça gira em torno de quatro personagens: um executivo próspero e bem posicionado, mas que não consegue a mesma performance em casa; Um deputado "bem sucedido" que não permite que a sua noiva trabalhe; um empresário analfabeto, para quem a posse de dinheiro é sinônimo de poder e grandeza; um homem que, por motivo da morte de seu irmão mais velho, tenta tomar para si a viúva socorrendo-se na tradição do "ku txinga". Esse cenário social e cultural são o mote para esta peça de teatro, um retrato do sociedade moçambicana na atualidadeo.

ANGOLA
Etu-Lene
Fundado 1993, o grupo Etu-Lene conta com dez integrantes e já levou ao palco inúmeras obras, conquistando importantes prêmios entre o "Prêmio Cidade de Luanda / 2001", com a obra "Balumuka", e o "Prêmio Nacional de Cultura e Artes / 2002", com a peça "Uíje-Uijia", espetáculo que também arrebatou o prêmio revelação de teatro "Angola - 20 anos".

Grupo teatral formado há mais de uma década, tem seu repertório, focado em comédias, já angariou duas premiações internacionais de Teatro.

O velho Katy-Ngotè, um sujeito que deu tudo o que tinha para a formação de seu único filho Caetano. Em troca do interesse financeiro o velho exigiu que Caetano ficasse junto de Madó e não da mulher amada. Caetano cedeu às exigências do seu pai. Para a surpresa do velho ele descobre ouvindo um telefonema da sua querida nora o verdadeiro autor da gravidez que ela ostentava, o que o levou a pensar: “Afinal, quem está na barrigada de Madó não é do meu sangue”, para o sofrimento do velho Katy-Ngotè.

Grupo Henriques-Artes
O espetáculo: “Côncavo e Convexo" - Obra vencedora do prêmio de teatro Cidade de Luanda 2008.

O texto de Flávio Ferrão nos faz compreender que o homem em Luanda deve viver uma história de amor tal qual como em Côncavo e Convexo. O espetáculo se passa através de um diálogo onde o casal sobrevive a fortes embates durante todo o texto que é baseado na situação política, econômica e social de Luanda. O texto aborda o tema de forma atípica e espetacular. Uma obra recheada de drama, pois, a reflexão e a nota dominante do espetáculo é a utilização de signos através de velas, latas vazias de cervejas, baldes coloridos, mobílias velhas e cansadas. Os signos estão a espera do público que se propõe a ser vítima desse espetáculo.

BRASIL
Grupo de Curitiba
Capitu Memória Editada é inspirada na obra do maior escritor brasileiro e reúne artistas paranaenses na construção de uma peça teatral que está situada entre a literatura e o leitor, entre o palco e o público, refletindo todo o universo machadiano. O espetáculo escrito e dirigido por Edson Bueno estreou no dia 29 de setembro de 2005 no Teatro da Caixa em Curitiba. Não é uma novela, um romance ou uma adaptação de Dom Casmurro, de Machado de Assis.

A proposta de Capitu Memória Editada não é levar o romance ao palco e sim, a sensação de mistério que o livro traz. “Não é nem o que o leitor entende do livro e não é o livro. É a dúvida, o mistério, a memória e a fantasia”, explica Edson Bueno. A trama de Dom Casmurro é contada não só pela memória de Bentinho, mas também por personagens paralelos e contemporâneos, que interagem com o texto centenário de Machado de Assis e fazem referência a ele, convidando o público (leitor) a preencher as lacunas, assim como fez o grande escritor.

O projeto é uma iniciativa de Janja, que integra o elenco, e foi viabilizado por meio da lei Municipal de Incentivo à Cultura. Segundo a atriz, a idéia de realizar a montagem partiu de um gosto pessoal pelo romance e, trabalhando o texto com Edson Bueno, percebeu que o texto original era sobre memória. “Queríamos privilegiar a literatura. Quando a gente começou a ensaiar, fizemos referência aos contadores de histórias. Isso deu o tom e a linguagem da peça”, comenta Janja. A montagem preserva a prosa original de Machado de Assis quando é levada ao palco. “Fiz questão de manter a forma literária dele, que é moderníssima e deliciosa”, comenta Edson Bueno.

Os ensaios e improvisações dos capítulos do original Dom Casmurro ajudaram a trabalhar a idéia de Capitu, até chegar na concepção final do espetáculo e do texto. “Eu me permiti também brincar com a ilusão e com a realidade do teatro. O texto brinca muito com as convenções teatrais e as perverte muito também”, diz Edson Bueno. Por conta dessa traquinagem, atores e personagens (do romance e outros especialmente criados para a peça) misturam-se aos olhos do público, e também dissimulam a realidade e a ficção, tal como o mistério que cerca o romance. “Foi um desafio para os atores, porque a forma de construção das pessoas no palco não é a convencional”, explica Bueno.

Tropa do Balaco Baco (Arcoverde / Pernambuco)
A TROPA DO BALACO BACO – EQUIPE TEATRAL DE ARCOVERDE surge da junção de dois núcleos de produção teatral da cidade de Arcoverde, no sertão pernambucano, que ante a necessidade de dar visibilidade as suas ações, uniram forças e lançaram-se à empreitada de garantir uma ação mais contundente que denotasse a qualidade e compromisso ético-estético que sempre permearam o fazer teatral em suas trajetórias distintas.

A PAIXÃO E A SINA DE MATEUS E CATIRINA conquistou os prêmios de Melhor Espetáculo, Direção, Figurino e Maquilagem, além das indicações para Melhor Ator, Música e Cenário, no Festival Janeiro de Grandes Espetáculos – Prêmio APACEPE/2008, na cidade de Recife-PE.

Catirina, grávida já pra mais de doze meses e com desejo de comer língua de boi, arma diversas artimanhas para convencer Mateus, por ela apaixonado, a lhe presentear com esse regalo, pondo em risco o seu próprio desenlace matrimonial. Mateus de sua parte também tenta de mil maneiras driblar as jogatinas de Catirina oferecendo-lhe toda sorte de arreliques, sendo, no entanto, sempre rejeitado até que sucumbindo as lacrimejâncias de Catirina, arranca a língua do boi patrão e oferece-lhe como prova de amor e sujeição de comprometimento, deixando a estrebuchar o famoso e alardeado novilho brasileiro, boi maravilha trazido do Maranhão pelo Coronel para presentear sua filha em seu aniversário.

Satisfeitos os desejos de Catirina, vem a inevitável descoberta do Patrão/Coronel/Amo que esbraveja e pragueja todo tipo de ameaça contra o possível agressor deixando os dois culpados, em uma mútua troca de acusações tentando livrar cada um a própria pele até que Mateus num joguete de palavras convence o Coronel a lhe dar um tempo para providenciar a cura do desfalecido animal. Fechado o acordo, Mateus e Catirina têm a deixa para dar entrada as passagens de três figuras tradicionais do brinquedo do bumba meu boi: o Padre, a Mãe Preta, e o Doutor, que cada um a seu tempo depois de várias tentativas e desistem da empreitada e deixam o boi moribundo.

Vendo extinguir-se o prazo concedido pelo Coronel, Mateus e Catirina, já cansados da longa jornada noite à dentro, dão-se por vencidos e já se considerando perdidos, para comprovar sua redobrada fama de festeiros decidem enfrentar o Coronel não mais choramingando e lamentando, mas da melhor maneira que é dançando e cantando. Armam a maior festança e entretidos nem percebem que esse sim era o melhor remédio para levantar o boi, que vindo do Maranhão, acostumado com a dança, não resiste à tentação, levanta, dança, rodopia e cai na folia varrendo a poeira do chão.

Volta então o Coronel para saber o resultado da contenda sendo recebido por Catirina que entre loas de adulação e elogios de pavulagem ao grande feito pessoal, devolve o boi renascido pra alegria do patrão que faz entrar o Padre, convocado por si para a extrema-unção dos dois, mas que dada paz reinante, celebra o tão esperado matrimônio de Mateus mais a Nega Catirina.

Volta o Mestre Carpina, que inicialmente apresentara a brincadeira e que agora convoca todos os brincantes que retornam à cena para o festejo final quando cantam e dançam a toada de despedida.


PROGRAMAÇÃO - TEATRO
DIA 06/06
TROPA DO BALACO BACO (ARCO VERDE/PERNAMBUCO)
Espetáculo: “A PAIXÃO E SINA DE MATEUS E CATIRINA”
Teatro Ginástico : 19h - Brasil

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GRUPO DE CURITIBA
Espetáculo: ““CAPITU” - MEMÓRIA EDITADA”
Espaço Sesc Arena :21h - Brasil

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GRUPO GUNGU
Espetáculo: “MULHERES DO H MAIÚSCULO”
Espaço Sesc Sala Multiuso:20h - Moçambique


DIA 07/06
GRUPO HENRIQUES-ANTAS
Espetáculo: “Côncavo e Convexo”
Teatro Ginástico: 19h - Angola

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GRUPO TEATRAL GARAGEM
Espetáculo: “A Hora do Arco-Íris”
Espaço Sesc Arena: 21h - Portugal

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GRUPO O BANDO
Espetáculo: “LUTO CLANDESTINO”
Calçadão de Copacabana - Copacabana em frente à Rua Santa Clara, com retirada de senha 1 hora antes do espetáculo no Espaço SESC :20h - Portugal


DIA 08/06
GRUPO TEATRAL DO CENTRO CULTURAL PORTUGUÊS DO MINDELO
Espetáculo: “O DOIDO E A MORTE”
Teatro Ginástico: 19h - Cabo Verde

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GRUPO RAIZ DI POLON
Espetáculo: “DUAS SEM TRÊS”
Espaço Sesc Arena: 19h30 - Cabo Verde

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ETU-LENE
Espetáculo: “Atiraram o velho Katy-Ngotè para sua última morada”
Espaço Sesc Sala Multiuso: 19h – Angola


DIA 12/06
TROPA DO BALACO BACO (ARCO VERDE/PERNAMBUCO)
Espetáculo: “A PAIXÃO E SINA DE MATEUS E CATIRINA”
Teatro Ginástico: 19h - Brasil

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GRUPO MUTUMBELA GOGO
Espetáculo: “AS FILHAS DE NORA”
Espaço Sesc Arena: :21h - Moçambique

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GRUPO O BANDO
Espetáculo: “LUTO CLANDESTINO”
Calçadão de Copacabana - Copacabana em frente à Rua Santa Clara, com retirada de senha 1 hora antes do espetáculo no Espaço SESC :20h - Portugal


DIA 13/06
GRUPO TEATRAL DO CENTRO CULTURAL PORTUGUÊS DO MINDELO
Espetáculo: “O DOIDO E A MORTE”
Teatro Ginástico: 19h - Cabo Verde

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GRUPO TEATRAL GARAGEM
Espetáculo: “A Hora do Arco-Íris”
Espaço Sesc Arena: 21h - Portugal

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GRUPO GUNGU
Espetáculo: “MULHERES DO H MAIÚSCULO”
Espaço Sesc Sala Multiuso:20h - Moçambique


DIA 14/06
GRUPO HENRIQUES-ANTAS
Espetáculo: “Côncavo e Convexo”
Teatro Ginástico: 19h - Angola

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GRUPO DE CURITIBA
Espetáculo: “CAPITU” - MEMÓRIA EDITADA”
Espaço Sesc Arena:às 21h - Brasil

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ETU-LENE
Espetáculo: “Atiraram o velho Katy-Ngotè para sua última morada”
Espaço Sesc Sala Multiuso: 20h - Angola


DIA 15/06
GRUPO RAIZ DI POLON
Espetáculo: “DUAS SEM TRÊS”
Teatro Ginástico: 19h - Cabo Verde

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GRUPO MUTUMBELA GOGO
Espetáculo: “AS FILHAS DE NORA”
Espaço Sesc Arena: :19h30 - Moçambique

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Entrega Prêmio Revelação FESTLIP
Espaço Sesc Sala Multiuso: 22h



EXPOSIÇÃO

A exposição “O teatro no Brasil e a chegada da família real”, com curadoria de Álvaro de Sá e design de Isabela Muller, será inaugurada no dia 05 de junho no Espaço Sesc Copacabana.

A mostra pretende traçar um breve painel do teatro no Brasil no século XVIII, com suas casas de ópera, e sua transformação a partir da chegada da família Real em 1808.

“As distrações do teatro progrediam de par com os assuntos de maior importância. Não somente o Regente dava largas ao que nele parecia ser forte inclinação pessoal, comparecendo assiduamente aos espetáculos, como neles aparecia acompanhado da sua família”.

Esse texto escrito no século XIX após a chegada de Don João no livro “Notas sobre o Rio de Janeiro e partes meridionais do Brasil” por John Luccock, nos dá a dimensão das modificações ocorridas no teatro do Brasil após a chegada da Família Real Portuguesa. Uma mudança de um teatro com hábitos provincianos para um teatro mais cosmopolita. Com a chegada da Corte o Rio de Janeiro se transformou na capital teatral do Brasil.


FESTA FESTLIP

Durante os doze dias de atividades, o FESTLIP realiza nos dias 07/06 e 14/06, aos sábados às 22h, uma Festa no Circo Voador, na Lapa reunindo músicos de todos os países participantes. A festa que contará com a presença dos atores do FESTLIP, será aberta gratuitamente ao público, sendo encerrada no final de toda noite pelo DJ português, Señor Pelota, que explora diferentes linguagens de electro, minimal, techno, acid house e disco digital de punk-funk.

ENTRADA FRANCA CIRCO VOADOR : Rua dos Arcos, S/N - Lapa - Rio de Janeiro - RJ - Brasil

MÚSICOS

BRASIL
Macau (Participação Especial de Sandra de Sá)

No inicio dos anos 80, surge no cenário musical “Olhos Coloridos”, uma canção que em meio a tantas canções de protesto da época se destacou pela forma romântica e ao mesmo tempo forte, que denunciava a repressão e a discriminação racial. Seu autor, Macau, tocava essa música canção de uma forma tão peculiar e marcante que parecia entoar tambores africanos que choravam chamando o país a uma reflexão.

“Olhos Coloridos” - música gravada por Sandra de Sá, que se tornou um hino da música negra no Brasil. Com seu suingue black, ela é mais do que uma canção, é um estilo musical, é um grito negro, é amor, uma denúncia, é contestação. Além de Sandra outros artistas e grupos expressivos no Brasil e no exterior a gravaram como, por exemplo, Jim Capaldi na Inglaterra, Les Etoiles na França e Funk como Le gusta, de Paula Brasil. A música também foi tema do filme “ABC Paulista”, interpretada em diversos programas de televisão e fez parte do Projeto Lonas Culturais, onde foi gravada por Fafá de Belém e Sandra de Sá, ao som do violão de Macau.

Hoje Macau possui uma extensa obra que reúne seus antigos sucessos e músicas compostas com Luiz Melodia, Durval Ferreira, Sandra de Sá, Kátia Drumond. Grandes nomes também gravaram suas composições como: Eliana Pitman, Rosana, Elaine Guedes, Dom Mita, Adelmo Casé, Denise Pinaud. A mais recente regravação foi de Preta Gil, que cantou“Estágio do Perigo”, funk feito em parceria com Sandra de Sá, em seu último trabalho.

Sua capacidade de estar de bem com a vida e manter o astral, em todos os momentos fizeram de Macau o “Negro dom do amor”. O cantor e compositor através da leveza de suas composições e interpretações consegue levar ao público a verdadeira música de qualidade.

SANDRA DE SÁ

Considerada a “Rainha do Soul Brasileiro”, Sandra de Sá, cantora e compositora, é considerada a maior representante da Soul Music brasileira da atualidade. Após o seu último CD, “AO VIVO – Música Preta Brasileira”, lançado em 2005, Sandra viajou pelo Brasil e exterior, já ganhou novos prêmios e estreiou no cinema e na tv, sempre com o astral “SANDRA de ser!”.

Música Preta Brasileira, nome deste show/CD/DVD, é um termo criado por Sandra há mais de 10 anos, brincando com a sigla MPB da Música Popular Brasileira. Sandra afirma:
“A nossa música é essencialmente preta, pois começa e termina no tambor, no suíngue. Não há ritmo que cantemos ou toquemos que não contenha este toque de brasilidade. Isto é a nossa ‘pretitude’. Até porque se é popular, é do nosso povo, que é altamente miscigenado.”

É esta atitude que ela coloca em tudo que faz nestes mais de 26 anos de carreira. MPB também é o tema que Sandra carimba em tudo, desde um programa de rádio que apresentou na ong “Viva Rio” até o projeto musical alternativo que fez, por mais de quatro anos, ao lado de Toni Garrido (da banda Cidade Negra) e do parceiro Zé Ricardo. (Projeto com Capítulo 1 – Tim Maia Racional e Capítulo 2 – Jorge Benjor).

Sandra está sempre realizando projetos paralelos, ao lado de grandes amigos como Nana Caymmi, Luiz Melodia, Elba Ramalho, Zezé Motta, Lecy Brandão, Margareth Menezes, Leila Pinheiro, entre muitos outros importantes nomes da nossa Música, pois ela acha fundamental estas parcerias e experimentações dentro e fora do palco.

Como descendente direta de caboverdianos, tem desenvolvido um trabalho em Portugal com shows e eventos, que resultou em apresentações como o Reveillon da Ilha da Madeira, Optimus Open Air e o Rock in Rio Lisboa. Além de participar, em Paris, do Brasil na França e, na Alemanha, da Copa da Cultura de Berlim, como um dos grandes símbolos da nossa música. Esteve presente também no Festival de Gambôa 2007, na África.

Mas não é só no exterior que Sandra tem desenvolvido projetos de grande representatividade cultural. A artista acaba de ser eleita como presidente da “Academia Afro Brasileira de Artes”, onde realizará projetos que visem aprimorar e desenvolver a cultura negra no Brasil; e tem sido com freqüência, escolhida para realizar o show de abertura de importantes eventos culturais, tais como a Conferência dos Intelectuais da África e da Diáspora, a CIAD (subsidiada pelo Ministério das Relações Exteriores), evento social da Petrobrás Loucos por Música (também como diretora musical) e na Feira Música Brasil (em Recife realizada pelo MINC).

Em 2007, Sandra também brilhou nas “telinhas e telonas”, estreando como atriz no filme e seriado “Antônia”, da Rede Globo. Em 2008, já, agitou a Bahia, no Carnaval elétrico de Salvador, no Expresso 2222 de Gilberto Gil e no Bloco Skol D+!, E também já está em estúdio, na pré produção do seu novo CD e DVD, com gravação prevista para Maio e lançamento para o segundo semestre deste ano. Sandra de Sá não só continua realizando shows, “Ao Vivo”, por todo Brasil, destaca-se o projeto experimental BATUCOFONIA, que é seu grande xodó e sua aposta através da interação com o público pra movimentar a Música Preta!

Vivianne Tosto
Vivianne nasceu no bairro carioca do Catete, em 1964. Segunda filha do casal Francesco e Marly, já pequena, demonstrava grande interesse pela música: ficava embevecida durante horas, vendo a mãe tocar piano.

Em 1973 recebeu o primeiro convite para cantar em bar, e então fez sua primeira temporada musical em "O Cortiço", em Laranjeiras, RJ. Logo após aceitou um o convite de passar um mês cantando à bordo do Navio Seawind Crow, que fazia a rota das ilhas caribenhas. Bem, um mês virou dois meses e meio de saudade, prazer e desafio de apresentar-se para um grande e diversificado número de pessoas, entre brasileiros, gregos, americanos, africanos, tchecos, europeus, croatas. Vendo o Brasil de fora, e por estar fora, também foi levada a um interessante encontro com a cultura nacional do próprio país. No navio, só cantava música brasileira, apresentando um repertório altamente eclético que incluía Caetano, Djavan, Milton, Axé music, bossa-nova, forró e samba. Ao retornar, Vivianne deu início a um novo trabalho. Montou uma banda e se apresentou no "Mistura Fina". De volta aos palcos do Rio, e muito feliz por esse encontro definitivo com a música, decidiu que estava na hora de gravar seu CD.

Vivianne sempre quis algo orgânico, sem guitarras, com mais violões, mas acabou seduzida por sons e efeitos eletrônicos, que vieram a somar no resultado final do disco, um trabalho que define como “quase artesanal”. O título foi tirado da faixa que seria a música de trabalho, "PEDAÇOS", de sua autoria. Mas, depois de submeter o CD a audições de amigos e profissionais do ramo, "CONTRAMÃO", composição que também assina, assumiu quase unanimemente o lugar de eleita. O CD foi concebido e concluído. E, sem nenhuma pretensão, já pode ser considerado um sucesso.

Nesse mesmo período, conheceu Alex Sancher, no bar Santa Saideira, em Santa Teresa, onde se apresentava com freqüência. Ele mostrou algumas músicas e Vivianne ficou encantada. Desse novo encontro saíram as faixas "SURPRESA" e "OLHOS CLAROS". Pelas mãos da amiga, Ilka Villardo, conheceu o percussionista e compositor, Luiz Octávio Albornoz, e dele, então, selecionou “PODIA DIZER” que, ao lado ainda de "MOEDA DE UM LADO SÓ", de Moska, fecharam o repertório do disco. Parecia que o céu estava conspirando em seu auxílio. O primeiro show do CD aconteceu no Sesc de Ramos, em 2003. Também em junho de 2003, apresentou um show acústico no Teatro Bibi Ferreira em Botafogo.

O CD PEDAÇOS foi e pré-selecionado para o Prêmio Tim de Música deste ano. Maria Bethânia levou o troféu de melhor disco, com o seu Brasileirinho.

MOÇAMBIQUE
José Mucavele
José Mucavele, foi trompetista nos anos 60 e 70 tocou em vários agrupamentos, Comandante de Luta de Libertação Nacional, investigador etno-cultural músico Moçambicano, Membro fundador do agrupamento musical da Rádio Moçambique, já viajou em espetáculo para os seguintes países: Africa: Zimbabué, Cabo Verde, África do Sul. Europa: Portugal, Espanha, Holanda, Bélgica, Alemanha e Dinamarca. América Latina: Cuba e Brasil.

Compôs trilhas sonoras para os seguintes filmes: Compass In Mozambique, Granada Television, Children of Austral Afrika, Colheita do Diabo, Fronteiras de Sangue e outros.
Gravou seu primeiro album “Atravessando Rios” em 1985 em Portugal pela E.M.I Valentim de Carvalho, com a produção dos músicos Portugueses: Rui Veloso e Zé Carrapa.

Em 1996 grava na Dinamarca o álbum “Compassos 1” É convidado a dar uma palestra na universidade de Rooskild Dinamarka. Membro da comissão instaladora do Instituto do Património Cultural e Natural de Moçambique. compositor interprete, toca guitarra acústica com afinações descobertas por ele mesmo. Foi quadro sênior do Governo, atualmente é Técnico Superior para a Cultura no Ministério da Educação e Cultura.

CABO VERDE
Mário Lúcio Souza
Mário Lúcio Sousa, natural de Tarrafal, na Ilha de Santiago, Cabo Verde, em 21 de Outubro de 1964 iniciou sua carreia artística e de ativista cultural desde cedo, tornando-se uma personalidade de destaque no campo político através do cargo de Assessor do Ministro da Cultura, que ocupou em 1992. Recentemente foi constituído Embaixador Cultural de Cabo Verde.

Na área artística é o idealizador e líder do grupo musical Simentera, que marcou a tendência da música de Cabo Verde para o acústico e reivindicou a cultura continental africana como elemento da identidade cultural caboverdeana. Multi-instrumentista e arranjador de vários álbuns de solistas caboverdeanos, é também membro fundador da Associação Cultural Quintal da Música, cujo Centro Cultural Privado trabalha na valorização da música tradicional e no acesso das crianças à aprendizagem e à promoção dos seus talentos.

É compositor permanente da companhia de teatro e dança Raiz di Polon, que também participará do FESTLIP, além de outras compisções e trilhas sonoras. Com experiência internacional, Mário Lúcio e a Simentera, já se apresentaram nos em boa parte da Europa, Brasil e África naturalmente. Gravou recentemente em França com o Grupo Simentera o CD Tr'adictional, seu projeto musical sobre a mestiçagem e que conta com a participação do camaronês Manu Dibango, dos senegaleses Touré Kunda, do brasileiro Paulinho da Viola, e dos portugueses, Maria João e Mário Laginha. Mário Lúcio se destaca ainda na literatura com a edição de 02 livros de poesias, 01 peça teatral e 01 livro de ficção como qual conquistou o prêmio do Fundo Bibliográfico da Língua Portuguesa. Ainda na pintura o artista soma ao movimento da nova geração de pintores africanos com obras em exposição no seu país e no exterior.

ANGOLA
Trio Vikéia
Criado em 1988 em Benguela, pelos músicos António Hugo de Oliveira Manjenje (TÓ MANJENJE), Loureiro Paulino (LOY) e Josué de Campos (MOISÉS KAFALA).

Constituído por trovadores dedicados a pesquisa, exploração e divulgação dos ritmos da região centro e sul de Angola, como o “Nhatcho”, o “Njando” e o “Tchipuete”.

Composto atualmente por António Hugo de Oliveira Manjenje (Tó Manjenje), Francisco de Sousa Joaquim Barros (Magas) e José Augusto Brás (Zé Brás), o grupo tem passagens por vários países do mundo, como Suécia, Alemanha, Portugal, Polónia, França, Índia, Coreia do Norte, Egipto, Congo e outros.

Possui no seu palmarés, dois títulos do “Variante” Festival Nacional de Música Popular e outras participações em eventos nacionais e internacionais.
O repertório do grupo é vasto e tem por base o cancioneiro tradicional da região centro e sul do país que se entrosa com a balada moderna.

PORTUGAL
DJ Señor Pelota
André Soares começa a sua aventura como um DJ em 1998, tocando em vários bares em torno de Lisboa e também em alguns eventos, mas apenas depois de quatro anos, seu alter ego Señor Pelota é nascido. Hoje ele se vê como um promotor de música avançada, através de conjuntos onde ele explora diferentes linguagens de electro, minimal, techno, acid house, disco digital de punk-funk.

Ele surpreende a platéia porque Senor Pelota não tem limites, qualquer tipo de música pode desembarcar em sua placa giratória enquanto ela dança e faz você se sentir bem. Señor Pelota é um obsessivo perseguidor de novas tendências, sempre fugindo do lugar comum, fazendo uma fusão que reinventa a música do amanhã. Ele tenta encontrar a perfeita simbiose de fazer as pessoas se divertir e soltar a cabeça, promovendo a boa música, mas nunca esquecendo a "cultura club". Neste momento, Señor Pelota é responsável pelo alinhamento da música Velvet bar, um clube pequeno, mas popular no (in) famoso Bairro Alto.

Ele também faz uma aparição mensal no Lounge bar, intituled "Portanto Freshhhhh!", Onde ele convida dj novos talentos para jogar com ele durante toda a noite. Ele está envolvido em vários projetos musicais como: o coletivo FREIMA de Porto, o coletivo "Music Mob dj's" com dj Vahagn associeted para o rótulo Music Mob e "Glam Slam Dance", em parceria com o dj Mário Valente, que, em maio de 2007 eles lideraram a Kubik fase e a fase Radio Soulwax Creamfields Festival de Lisboa. Ele espalhou sua peculiaridade em famosos clubes em todas as regiões de Portugal: Lux, Op Art, Clube Mercado, Fragil, Cabaret Maxime, Incógnito, Industria (Porto), MAUS Hábitos (Porto), Hard Club (Gaia), Office Club (Caldas da Rainha), Marginal (Funchal), Clinic (Alcobaça), Budha Club (Povoa do Varzim), Tamariz (Estoril), Clube da praia (Zambujeira do mar), Horta da Fonte (Cartaxo), T Club (Vilamora), etc… E ele também tocou com música nacional e internacional de celebridades como Spektrum, Digitalism, Soul Wax, Erol Alkan, Tiefschwarz, 2 Muitos Dj's, Mandy Idjut Boys, Prins Thomas, Muallem, Who Made Who, Chloe, SASSE aka Freesltyleman, Putch 79 de Girl Crazy, dj Periférico, Télépathique, Lady Eyedealism, Dezperados, Disorder, Rosa rapaz, Zé Pedro Moura, Nelson Flip, Anthony Myllard, Stereo Adiction, para citar apenas alguns

MOSTRA GOURMET DA LÍNGUA PORTUGUESA
De 04 a 15 de junho a Mostra Gourmet FESTLIP será comandada pelo Chef Ray Cardoso do Restaurante 00, que reunirá em um cardápio especial a culinária de cada país da língua portuguesa participante. São eles Angola, Cabo Verde, Moçambique, Portugal e Brasil.

O Restaurante 00 abre para o jantar às 20:30h.
Reservas: 21 2540-8041
Endereço: Rua Padre Leonel Franca, 240 - Gávea
OFICINAS TEATRAIS

AS OFICINAS TEATRAIS PARA OS ATORES PARTICIPANTES, ABERTA PARA ESPECTADORES, ACONTECERÁ DAS 14 ÀS 18 H NO ESPAÇO SESC ARENA.

09 de Junho
Diretor: GILBERTO GAVRONSKI

Nascido em Porto Alegre, Gawronski se despediu da cidade em 1983, com a peça de Caio Fernando Abreu “Pode Ser que Seja só o Leiteiro lá Fora”. No Rio de Janeiro, trabalhou com Naum Alves de Souza em “Aurora de Minha Vida”, com Moacyr Góes em “Sonho de uma Noite de Verão” e “Eduardo II”, e com Tônio Carvalho em “Chapeuzinho Vermelho – Em Busca do Coração Secreto”, pela qual ganhou o Mambembe de melhor ator em 1990. Ainda naquele ano, Gilberto foi assistente de direção de Luiz Antonio Martinez Correa em “Theatro Muzical Brasileiro” e de Naum em “Cenas de Outono” de Mishima e no show “Francisco” de Chico Buarque. Em 1989, dá os primeiros passos para o que seria um dos espetáculos mais marcantes de sua carreira: “Dama da Noite”, de Caio Fernando Abreu. Uma nova versão estreou em 1996 e cumpriu temporada em Lyon, na França com o titulo “Belle de Nuit”. Desde então tem se apresentado em quase todos os estados brasileiros, e no exterior já marcou presença nos palcos de Londres, Sanary-Sur-Mer, Lyon e Nova York. Com este trabalho, ganha Prêmio Sharp de melhor direção em 1998.

Como diretor Gawronski já dirigiu nomes como Betty Faria em “Um caso de vida ou morte” de Eliane May; Eva Todor e Rubens de Falco em “Cartas na mesa”, de Joe Orton; Lucélia Santos em “Ajuda-me a Lembrar”, de Jean Claude Carriére; Reginaldo Faria em “Um caso de Amor”, de David Stevens.

Seus trabalhos mais recentes são como diretor da montagem de “Pode Ser Que Seja Só o Leitero Lá Fora”, nos dez anos de falecimento de seu autor, Caio fernando Abreu e a criação do poeta Torquato Neto em “Artorquato”, espetáculo de Antonio Quinet. Dirigiu a encenação do texto “Campo de Provas”, de Aimar Labaki, que inaugurou o Teatro Solar. O último trabalho foi com “Gaivota”, criação de Enrique Diaz baseada na obra de Tchekhov.

10 de Junho
Diretor: SÉRGIO FERRARA
O diretor Sérgio Ferrara, depois que deixou o CPT (Centro de Pesquisa Teatral) supervisionado pelo diretor Antunes Filho, dirigiu espetáculos como “Antígona” de Sófocles na jornada Sesc de teatro com o ator Paulo Autran, Tarsila de Maria Adelaide Amaral, Barrela e Abajur Lilás de Plínio Marcos, “Mãe Coragem” e seus filhos de Brecht com a atriz Maria Alice Vergueiro. Recebeu o Prêmio APCA (Associação Paulista dos Críticos de Arte) de melhor diretor pelo espetáculo “Pobre Super-Homem” de Brad Fraser.

Com o ator Raul Cortez realizou a peça “Fica Frio” do dramaturgo Mario Bortoloto e recentemente no seu espetáculo “O Mercador de Veneza” de William Shakespeare, o ator Luis Damasceno recebeu o Prêmio Shell de melhor ator. Em 2005, em parceria com o escritor Ignácio de Loyola Brandão e a artista plástica Maria Bonomi realizou o espetáculo “A Última Viagem” de Borges. Foi diretor convidado da EAD (Escola de Arte Dramática) da USP, onde dirigiu a peça “Vereda da Salvação” de Jorge Andrade. Dirigiu “O Inimigo do Povo” de Henrik Ibsen, em comemoração ao Centenário de morte do dramaturgo norueguês, com o apoio da Embaixada Real da Noruega no Brasil. Juntamente com o Grupo dos SATYROS dirigiu o texto: “A Noite do Aquário” de Sérgio Roveri. Convidado pelo diretor Antunes Filho, em 2007 dirige seu primeiro trabalho para a Televisão. Em parceria com SESCTV, a TV CULTURA abre espaço para os novos tele teatros. Dirige : “O Encontro das Águas, repetindo a parceria com o dramaturgo Sérgio Roveri, premiado como o melhor dramaturgo do ano, pelo Prêmio Shell.

11 de Junho
Diretor: MOACYR GÓES
Natalense, 48 anos, diretor teatral há 28 anos, formado em Artes Cênicas pela UNIRIO, foi professor de interpretação no curso de formação de Ator da Casa das Artes de Laranjeiras (CAL) durante 04 anos e professor do Curso de Pós-Graduação em Teatro da UFRJ..

No teatro dirigiu espetáculos como os “Os justos” de Camus; “A visita da velha senhora” de F. Dürrenmatt, com Tônia Carrero; “Pinóquio” do próprio Moacyr Góes e Amândio Gomes; “Alarmes” de Michael Frayn; “Bonitinha, mas ordinária” de Nélson Rodrigues; “Bispo Jesus do Rosário” de Clara Góes; “Os 7 gatinhos” de Nélson Rodrigues; “Toda nudez será castigada” de Nélson Rodrigues; “Gata em teto de zinco quente” de Tenessee Williams ; “O Presépio de Vieira” de Padre Antonio Vieira;“Divinas Palavras” de Ramon del Valle-Inclan; “Assembléia de mulheres” de Aristófanes; “Cartas portuguesas” de Mariana Alcoforado; “O Doente imaginário” de Moliére; “Gregório” de Clara Góes; “Trilogia Tebana: Édipo Rei e Antígona” de Sófocles; “Eduardo II” de Christopher Marlowe; “Peer Gynt” de Henrique Ibsen; “O livro de Jó” adaptação de Clara Góes; “Epifanias” adaptação de O Sonho de August Strindberg; “Comunicação a uma Academia” de Franz Kafka; “Antígona” de Sófocles, com: Marieta Severo, Ítalo Rossi e “Romeu e Julieta” de Shakespeare, entre muitos outros espetáculos.

Com o elenco da sua Companhia de Encenação Teatral realizou entre 1990 e 1991, “Os gigantes da montanha” de Pirandello; “A escola de bufões” de Michel de Guelderode; “Othelo” de Shakespearer; “A trágica história do Dr Fausto” de Christopher Marlowe; “Baal” de Bertold Bretch e Nosferatu, sinfonia de vida e morte” de Janice Teodoro da Silva.

Dirigiu ainda os espetáculos infantis “Olho de gato” e “Sonho de uma noite de verão” no Teatro Glauce Rocha, RJ em 1995. Na televisão dirigiu na TV GLOBO as novelas “Vale Tudo”; "Laços de Família"; Diretor "Suave Veneno", além de "Malhação".

Moacyr sempre ampliou seus horizontes e deixou marcas também em direção de shows, como de Chico Buarque, Olívia Byington e Elba Ramalho; Óperas, como A “Flauta Mágica”, de W. A. Mozart noTeatro Municipal do Rio de Janeiro sob a Regência de Silvio Barbato e grandes eventos como o Projeto Aquarius.
No cinema em 2003, além da estréia com “Dom”, consolidou sua parceria com o produtor Diler Trindade dirigindo mais dois longas-metragens: “Maria - A mãe do filho de Deus”, com padre Marcelo Rossi no elenco, e “Xuxa Abracadabra”, totalizando três longas-metragens dirigidos em um mesmo ano. A parceria com Diler continuou em seus filmes seguintes: “Irmãos de fé “(2004), novamente um projeto com padre Marcelo, “Um show de verão” (2004), com Angélica e Luciano Huck, “Xuxa e o tesouro da cidade perdida” (2004), “Xuxinha e Guto contra os monstros do espaço” (2005), de Clewerson Saremba, onde dirigiu o núcleo live action, e “Trair e coçar é só começar” (2006), adaptação de peça de sucesso escrita por Marcos Caruso. Em 2007, lança “O homem que desafiou o diabo”, com produção de Luis Carlos Barreto. Seus próximos projetos são “Iracema”, “Bonitinha mas ordinária”, baseado na obra de Nelson Rodrigues, e “Um amor do outro lado do mundo”.

Dentre os diversos prêmios que conquistou durante sua trajetória estão:
Prêmio Shell
1993 – Melhor diretor por “Antígona”
1990 – Melhor diretor por “A escola de bufões”
1988 – Melhor diretor por “Baal”
Prêmio Moliere
1990 – Melhor diretor por “A escola de bufões”
1988 – Melhor diretor por “Baal”
Prêmio Fundacen
1989 – 05 melhores espetáculos por “Fausto”
1988 –0 5 melhores espetáculos por “Baal”
Troféu Mambembe
1985 – Melhor diretor infantil por “Olho de gato” e
“Sonho de uma noite de verão”
Prêmio Cultura Inglesa de Teatro
1999 – Melhor diretor por “Gata em teto de zinco quente”
Por Ricardo Riso

terça-feira, 3 de junho de 2008

Literaturas africanas e afro-brasileira na prática pedagógica



Literaturas africanas e afro-brasileira na prática pedagógica
Iris Maria da Costa Amâncio, Nilma Lino Gomes, Miriam Lúcia dos Santos Jorge

http://www.autenticaeditora.com.br/livros/item/406

Sinopse
Integrante da Coleção Cultura Negra e Identidades, este livro propõe ao docente uma postura pedagógica mais responsável, que privilegie o diálogo intercultural e supere preconceitos e estereótipos. Para isso, as autoras mostram ao professor e à professora as contribuições das Literaturas africanas e afro-brasileira na prática pedagógica.
O universo literário africano como ferramenta para a efetivação da Lei nº 10.639/03 é o cerne deste livro que parte da necessidade de uma educação da diferença para apresentar aos leitores quais são as pesquisas que caminham nesse sentido no campo educacional e chamar a atenção para a importância de investir na educação como direito social.
Até quando os cursos de Pedagogia e de licenciatura continuarão negando ou omitindo a inclusão do conteúdo da Lei nº 10.639/03 nos seus currículos? O que fazer diante das lacunas que comprometem a implantação dessa Lei? Essas são algumas das questões tratadas neste livro que busca analisar como têm sido os cursos de formação inicial de professores quando o assunto é a discussão sobre África e questão afro-brasileira.

Detalhes do livro
Páginas: 168
Formato: 15,5 x 22,5 cm
Editora: Autêntica
ISBN: 9788575263013
Código: 10153
Área temática: Educação em geral
Coleções: Cultura negra e identidades

Sobre os autores
Nilma Lino Gomes

É doutora em Antropologia social pela USP e professora adjunta da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais. É coordenadora do Programa Ações Afirmativas na UFMG e membro da equipe do Programa Observatório da Juventude pela mesma universidade. Possui vários livros sobre questão racial.

segunda-feira, 2 de junho de 2008

Mia Couto - O fio e as missangas

Encontro JMC sentado num banco de jardim. Está recatado, em solene solidão, como se só ali, em assento público, encontrasse devida privacidade. Ou como se aquele fosse seu recinto de toda a vida morar. Em volta, o tempo intacto, só com horas certas.

Nunca soube o seu nome por extenso. Creio que ninguém sabe, nem mesmo ele. As pessoas chamam-no assim, soletrando as iniciais: jota eme ce.

Saúdo-o, em inclinação respeitosa. Ele ergue os olhos como se a luz fosse excessiva. Um subtil agitar de dedos: ele quer que eu me sente e o salve da solidão.

– Lembra que sentámos neste mesmo lugar há uns anos atrás?

– Recordo, sim senhor. Parece que foi ontem.

– O ontem é muito longe para mim. Minha lembrança só chega às coisas antigas.

– Ora, o senhor ainda é novo.

– Não sou velho, é verdade. Mas fui ganhando muitas velhices.

E deixámo-nos, calados. Vou lembrando os tempos em que este homem magro e alto desembocava neste mesmo jardim. Acontecia todo final de tarde. Recordo as suas confidências. Que ele, sendo devidamente casado, se enamorava de paixão ardente por infinitas mulheres. Não há dedos para as contar, todinhas, dizia.

– A vida é um colar. Eu dou o fio, as mulheres dão as missangas. São sempre tantas, as missangas...

Sempre que fazia amor com uma delas não regressava directamente a casa. Ia, sim, para casa de sua velha mãe. A ela lhe contava as intimidades de cada novo caso, as diferentes doçuras de cada uma das amantes. De olhos fechados, a velha escutava e fingia até adormecer no cansado sofá de sua sala. No final, tomava nas suas as mãos do filho e ordenava que ele tomasse banho ali mesmo.

– Não vá a sua mulher cheirar a presença de uma outra – dizia.

E JMC se enfiava na banheira enquanto a velha mãe o esfregava com uma esponja cheirosa. Acabado o banho, ela o enxugava, devagarosa como se o tempo passasse por sua mãos e ela o retivesse nas dobras da toalha.

– Continue, meu filho, vá distribuindo esse coração seu que é tão grande. Nunca pare de visitar as mulheres. Nunca para de as amar...

– E o pai, o pai sempre lhe foi fiel?

– Seu pai, mesmo leal, nunca poderia ser fiel...

– E porquê?

– Seu pai nunca soube amar ninguém...

Agora, tantos anos passados, quase não reconheço o mulherengo homem alto e magro.

– Desculpe perguntar; JMC. Mas o senhor ainda continua visitando mulheres?

Ele não responde. Está absorvido, confrontando unhas com os respectivos dedos. Ter-me-á ouvido? Por recato, não repito a pergunta. Após um tempo, confessa num murmúrio:

– Nunca mais. Nunca mais visitei nenhuma mulher.

Uma tristeza lhe escava a voz. Me confessava, afinal, uma espécie de viuvez. Foi ele quem quebrou a pausa:

– É que sabe? Minha mãe morreu...

Meu coração sapateia, desentendido. Pudesse haver silêncio feito da gente estar calada. Mas esse silêncio não há. E nesse vazio permanecemos ambos até que, por entre o cinzentear da tarde, surge Dona Graciosa, esposa de JMC. Está irreconhecível, parece deslocada de um baile de máscaras. Vem de brilhos e flores, mais decote que blusa, mais perna que vestido. Me soergo para lhe dar o lugar no banco. Mas ela se dirige ao marido, suave e doce:

– Me acompanha, JMC?

– E você quem é, minha flor?

– O meu nome você me há-de chamar, mas só depois.

– Depois? Depois de quê?

– Ora, só depois...

De braços dados, os dois se afastam. A noite me envolve, com seu abraço de cacimbo. E não dou conta de que estou só.


COUTO, Mia. O fio das missangas. Lisboa: Caminho, 2004, 2a. ed, pp. 67-69.

sábado, 31 de maio de 2008

Fernando Pessoa - Especial Globo News

Globo News (NET/CANAL 40) - dias 1/6, 8/6 e 15/6, às 23h.
A história de Fernando Pessoa na Globo News (NET/CANAL 40) por Claufe Rodrigues
A Globo News apresenta, em junho, um especial sobre o "poeta fingidor". Não perca!
O poeta fingidor
Dom, 25/05/08 por Claufe Rodrigues
"O homem é um baú sem fundo", disse-me o poeta português Eugénio de Andrade, quando o entrevistei no ano 2000 para um documentário sobre Fernando Pessoa (que, aliás, permanece inédito) para uma produtora do Rio de Janeiro.
Quando sugeri aqui na Globo News a pauta da série O POETA FINGIDOR, pensei que teria de contar basicamente a mesma história. Mas quase oito anos depois, em minha volta a Lisboa, encontrei um Fernando Pessoa muito mudado. É impressionante: quanto mais morto, mais vivo ele fica! Agora já é outra geração de especialistas que estuda os milhares de escritos deixados na lendária arca que, diga-se de passagem, existe mesmo! E a cada nova intersecção de textos, os estudiosos encontram outras faces, vertentes, leituras e significados.
O poeta parece multiplicar-se por mil. É esse Pessoa - um mito em mutação - que flagramos nesta versão 2008.
SOBRE O PROGRAMA
Fernando Pessoa, um dos ícones mais populares do século XX, viveu praticamente no anonimato. Publicou apenas um livro em português, "Mensagem", em 1934, um ano antes de morrer. Mas deixou cerca de 27 mil escritos que, desde os anos 40, vêm sendo revelados a um público cada vez maior e mais diversificado. O jornalista e poeta Claufe Rodrigues foi a Lisboa para contar a história do maior escritor português desde Camões. Visitou os lugares que ele freqüentava, entrevistou diversos especialistas e conversou com as duas únicas pessoas ainda vivas que conviveram com o poeta. A fascinante história do homem que escolheu viver uma vida pequena para construir uma grande obra será exibida na Globo News por ocasião dos 120 anos de nascimento de Fernando Pessoa (comemorados no dia 13 de junho deste ano). A série, composta de três programas (O mito, O homem, O poeta) irá ao ar nos dias 1/6, 8/6 e 15/6, às 23h.

quinta-feira, 29 de maio de 2008

Simone Caputo Gomes, uma entrevista

A entrevista que segue foi gentilmente enviada pela Profa. Dra. Simone Caputo Gomes (Universidade de São Paulo) para mim. Ela conta sobre a sua infância, juventude, Educação, e, é claro, Cabo Verde e sua literatura.
Ricardo Riso


ENTREVISTA COM A PROFA. DOUTORA SIMONE CAPUTO GOMES, DE LITERATURAS AFRICANAS DA UNIVERSIDADE DE S. PAULO, PARA O PORTAL DA EMBAIXADA DE CABO VERDE NO BRASIL
em 24/05/2008
1. Onde nasceu?
Na Cidade Maravilhosa do Rio de Janeiro.
2. Conte um pouco sobre a sua infância e juventude.
Minha infância foi boa, alegre,com a família, avó que contava estórias, avô italiano que cantava ópera e fazia discursos à mesa do almoço, cercada de primos que corriam pela casa, amigos. Morávamos numa casa grande e vivíamos às voltas com o meu cão, o Lilico, que conosco brincava de esconde-esconde, imagine. Muitas brincadeiras sadias, de um tempo de pureza, como pular amarelinha, corda, brincar de roda, de miss (adorava os sapatos altos da mamãe), de professora, de “casinha” e vendinha. E muito estudo, que foi sempre uma paixão natural para mim. Li muito cedo e isto me distraía muito, imaginava mundos. Na adolescência, de famíliapobre (como a maioria das famílias brasileiras daquela época), estudava muitopara poder ingressar nos melhores colégios. Fazia esportes, tocava piano,enfim, tive uma vida muito rica em todos os sentidos.
3. Que sonhos tinha quando jovem?
Queria ser bailarina clássica. Achava maravilhoso aquele vôo dasbailarinas e a sua leveza. Não cheguei a realizar este sonho profissionalmente(meus vôos são outros, em outras artes), mas já na casa dos vinte e poucosanos fiz balé clássico por algum tempo e mais tarde ainda, balé flamenco. Outros sonhos eram ter uma vidaconfortável e harmônica, viajar bastante,ter uma utilidade para a comunidadee, quem sabe, para o mundo (adolescente sonha grande, não é?). Fazendo umbalanço da minha trajetória, penso que, degrau a degrau, pedra a pedra,consegui tudo isto. É uma sensação plena, muito boa. Nunca tive grandesambições, porque nossa vida em família sempre foi dura em termos econômicos,mas não menos feliz e produtiva.
4. E hoje, que sonhos povoam a sua mente?
Manter a harmonia feliz de minha família, fazer mais amigos e conquistardia-a-dia os já conquistados, ver os netinhos adotivos crescerem, ver o alunosbrilharem e criarem novas áreas de estudo, escrever mais livros, ter mais tempopara pintar, criar documentários. Viagens obrigatórias: aos países africanosde língua portuguesa que ainda não conheço, também ao Egito e à Grécia.Outro sonho, uma casa no campo_ com água de cachoeira correndo_ para cultivaramigos, telas, discos e livros... e muito mais, como diz a letra da música “Casano campo” do José Rodrix, cantada pela divina Elis Regina.
5. O que a motivou a se interessar, em especial, por Cabo Verde?
Um livro chamado A invenção do amor, de Daniel Filipe, que descobriser cabo-verdiano. A poderosa comunicação que o autor estabelecia com oleitor, os sentimentos de indignação com a ditadura portuguesa e a proposta deespalhar um “vírus contagiante” (palavras do poeta), o AMOR, puxou-me comouma corrente de rio para Cabo Verde e sua literatura; concomitantemente, comeceia estudar sua língua, sua cultura e a admirar a beleza de sua terra e de seu povo.
6. Quando e de que maneira ocorreu sua primeira visita a Cabo Verde?
Em 1993, para lançamento do livro (originalmente dissertação de Mestrado,defendida em 1979 no Brasil) sobre Cabo Verde na poética de Daniel Filipe, fuiao arquipélago, convidada pelo Presidente do Instituto Caboverdiano do Livro edo Disco na época, Tomé Varela. Generosamente, fui recebida peloscabo-verdianos e, guiada principalmente pelos olhos do hoje grande amigo Tomé edo Embaixador do Brasil em Cabo Verde naquele momento, Dr. Nuno Álvaro (eesposa), pude conhecer várias ilhas e referendar um amor por Cabo Verde quecomeçou nas páginas do livro e se mantém pelo contato com o vento na pele e ocheiro da terra, com as paisagens agrestes, os mares verde-turmalina às vezesesmeralda, as gentes alegres e calorosas, cheias de morabeza.
7. Quais as transformações marcantes que ocorreram em Cabo Verde, desde asua primeira visita ao país?
Muitas e positivas. A melhora da qualidade de vida dos cabo-verdianos éimpressionante, assim como o desenvolvimento das cidades, da arquitetura e daconstrução civil, do turismo, das telecomunicações, a dessalinização daágua (investimento caro) em várias ilhas, possibilitando vencer comdeterminação um dos flagelos referidos pelos escritores _ a seca persistente.Os sucessivos governos cabo-verdianos têm sido sensíveis e atuantes no sentidode solucionar os problemas do arquipélago, sobretudo os provocados pelocontexto geoclimático, incrementando ainda o desenvolvimento da educação, dacultura, assim como a preservação do patrimônio material e imaterial.
A erradicação do analfabetismo,que vem ocorrendo aceleradamente desde a independência, e a alfabetizaçãobilíngüe, facilitada pela instituição do ALUPEC, têm possibilitado aocidadão o acesso à leitura do mundo, como diria Paulo Freire.
Cabo Verde na África, hoje, éum dos países mais bem sucedidos e, no mundo, encarado como promessa dedesenvolvimento, especialmente no que toca ao setor turístico e à suaimportância para os estudos dos ventos.
8. O que há de melhor em Cabo Verde?
Acho que Cabo Verde exacerba em qualidades. Sem dúvida, tudo o que emana dopovo cabo-verdiano é excepcional: sua música (hoje, o bilhete de identidade docabo-verdiano no mundo), as tradições orais, os rituais (como o batuque e atabanca), o artesanato, a panaria, a culinária. Na vertente intelectual, sualiteratura alcança graus notáveis de criatividade e representatividade, tantono texto em língua portuguesa quanto no texto em crioulo, que busca umacomunicação maior com a população que só domina a língua materna e trazpara o texto em língua portuguesa a fala e as tradições populares. As artesplásticas, sobretudo a pintura, são também expoentes do poder criativo de umpovo que sabe viver a vida: trabalha muito, constrói vencendo os ventos e aspedras, e dança, canta, acolhe, ama.

E a natureza... a beleza de cadailha, as paisagens que não estou habituada a ver, as surpresas a cada viagemque faço: uma ilha com aspecto lunar e majestade do vulcão aqui (ilha doFogo), outra de praias branquíssimas, com longas faixas de areia solitárias,faróis bucólicos à beira de penhascos, extensões agrestes com um oásisverde, luxuriante, de vez em quando, casinhas isoladas em vastidõesmontanhosas, vento violentos que curvam as árvores, mas não conseguem dobraras pessoas.
9. Qual foi a sua experiência mais positiva naquele país?
Na verdade, só tive experiências positivas em Cabo Verde. Diria mesmomágicas. A maior e sequer imaginada, receber de um Presidente da República (oDr. Pedro Pires) a mais importante condecoração de um país: a Ordem do Vulcão de Primeira Classe (Medalha), a 4 de julho de 2007, pelos 31 anos de pesquisa e trabalho desenvolvidos com a cultura e a literatura de Cabo Verde.Chorei de emoção durante dois dias seguidos quando tive a notícia da comenda,porque nem nos meus mais caros sonhos poderia supor que, nesta vida de muitoestudo e trabalho quase anônimo poderia ser vista com olhos tão amorosos erecebida como irmã por (a)braços tão carinhosos.
10. O que acha que poderia ocorrer para acelerar o crescimento de Cabo Verde?Qual o seu pensamento acerca de uma aliança com os Estados Unidos?
Um investimento maior no setor de Turismo (nacional e internacional), emvirtude das belezas naturais singulares que o arquipélago apresenta nadiversidade das suas ilhas, assim como possibilidade de sol durante todo o ano,devido às características peculiares do clima. Para tanto, é fundamentalincrementar e aperfeiçoar os transportes das cidades mais importantes do globoaté Cabo Verde (no Brasil, os TACV partem de Fortaleza) e as ligaçõesinter-ilhas (aéreas e, sobretudo, marítimas). Já há hotéis e resorts excelentes, mas é preciso um investimento nacional maior nas infra-estruturas turísticas e na divulgação do país como paraíso atlântico, de vida calma edemocracia consolidada. A localização privilegiada do arquipélago entre oscontinentes africano, europeu e americano _ constatada pelos navegadores daépoca colonial _ concorre para que países como os EUA já percebam e valorizema importância de investir em Cabo Verde para a expansão comercial, além daturística. Qualquer aliança que contribuapara o desenvolvimento do país, sem interferir na sua trajetória de democracia, soberania e paz social, com certeza será bem recebida. Investimentos também no que diz respeito à economia da cultura, àpreservação e divulgação do patrimônio são também relevantes. A música ea pintura de Cabo Verde, por exemplo, de qualidades excepcionais, merecem maior destaque nos mercados internacionais.
11. O que acha da decisão do Ministério da Educação de liberar R$ 2milhões para serem investidos no Programa de Ações Afirmativas para aPopulação Negra nas Instituições Federais e Estaduais de Educação Superior(Uniafro)?
O conhecimento profundo da África, derrubando estereótipos e dando visibilidade à riqueza plural que a compõe, tem sido um dos objetivos do atualgoverno brasileiro. A costela africana que constitui a identidade brasileira e acontribuição do Brasil para a consolidação das nações e das culturasafricanas, em especial as de língua portuguesa, é um fenômeno recíproco queos cidadãos brasileiros, desde o ensino fundamental ao superior, precisamconhecer e valorizar no dia-a-dia. Nossa música, nossos hábitos, nossa línguatêm inúmeras afinidades que a história conta e a educação formal devequalificar.

A implantação de núcleos deestudos afro-brasileiros nas universidades está se tornando um hábito salutar.Neste sentido, a Universidade de S. Paulo (USP), onde trabalho, tem sido umapioneira, com o nosso CELP (Centro de Estudos de Literaturas e Culturas deLíngua Portuguesa) e o famoso Centro de Estudos Africanos.
12. Está a par se a Lei 10 639, de 9 de janeiro de 2003, está sendoaplicada no Brasil?
A Lei 10 639, de 9 de Janeiro de 2003, revista agora pela LeiOrdinária nº 11 645,de 10 de março de 2008, na verdade altera ecomplementa a Lei 9.394, de 20 de Dezembro de 1996, que Estabelece as Diretrizese Bases da Educação Nacional, lei máxima da educação no Brasil, portanto.As duas leis que alteram a LDB o fazem no sentido de incluir os segmentosindígena e afro-descendente da população brasileira, relegados por muitotempo a papel secundário a partir da própria legislação educacional. Paraincluir no currículo oficial da rede de ensino a obrigatoriedade do estudo dahistória e cultura das populações afro-brasileira, africanas e indígena ogoverno Lula estabeleceu essa legislação e o Conselho Federal de Educaçãoemitiu o Parecer CNE/CP Nº 3/2004, em 10.3.2004, e a Resolução nº 1,de 17 de junho de 2004, que regulamentam as alterações da Lei de Diretrizes eBases da Educação Nacional traçando as Diretrizes Curriculares Nacionais paraa Educação das Relações Étnico -Raciais e para o Ensino de História eCulturas Afro-Brasileira e Africana.
Este conjunto jurídico buscacumprir o estabelecido na Constituição Federal nos seus Art. 5º, I, Art. 210,Art. 206, I, § 1º do Art. 242, Art. 215 e Art. 216, bem como nos Art. 26, 26 Ae 79 B da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, que asseguram odireito à igualdade de condições de vida e de cidadania, assim como garantemigual direito às histórias e culturas que compõem a nação brasileira, além do direito de acesso às diferentes fontes da cultura nacional a todos os brasileiros.

A Resolução do CNE diz respeito à capacitação de professores pelas instituições de ensino superior, aotratamento temático e disciplinas relativas à Educação das Relações Étnico-Raciais e ao Ensino de História e Culturas Afro-Brasileira e Africanas, em todos os níveis e modalidades da Educação Brasileira.
O cumprimento das referidas Diretrizes Curriculares, por parte das instituições de ensino, seráconsiderado na avaliação das condições de funcionamento do estabelecimento.A implantação das Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação dasRelações Étnico-Raciais e para o Ensino de História e CulturasAfro-Brasileira e Africanas constituem-se de orientações, princípios efundamentos para o planejamento, execução e avaliação da Educação, e têmpor meta, promover a educação de cidadãos atuantes e conscientes no seio dasociedade multicultural e pluriétnica brasileira, buscando relaçõesétnico-sociais positivas, rumo à construção de nação democrática.
A Educação das Relações Étnico-Raciais tem por objetivo a divulgação e produção de conhecimentos, bem como de atitudes, posturas e valores que eduquem cidadãos quanto àpluralidade étnico-racial, tornando-os capazes de interagir e de negociarobjetivos comuns que garantam, a todos, respeito aos direitos legais evalorização de identidade, na busca da consolidação da democraciabrasileira. O Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana tem porobjetivo o reconhecimento e valorização da identidade, história e cultura dosafro-brasileiros e africanos, bem como a garantia de reconhecimento e igualdadede valorização das raízes africanas da nação brasileira, ao lado dasindígenas, européias, asiáticas.
O ensino sistemático deHistória e Culturas Afro-Brasileira e Africanas na Educação Básicarefere-se, em especial, aos componentes curriculares de Educação Artística,Literatura e História do Brasil.
Os sistemas de ensino tomarãoprovidências no sentido de garantir o direito de alunos afro-descendentes defreqüentarem estabelecimentos de ensino de qualidade, que contenhaminstalações e equipamentos sólidos e atualizados, em cursos ministrados porprofessores competentes no domínio de conteúdos de ensino e comprometidos coma educação de negros e não negros, sendo capazes de corrigir posturas,atitudes, palavras que impliquem desrespeito e discriminação.
Esta estrutura, que não édivulgada com a ênfase que deveria, já está a ser implantada nas escolas,desde a educação fundamental. As universidades, públicas e provadas, têmtentado abrir espaço para a aplicação da LDB e legislação correlata,formando os professores que atuarão em todos os níveis educacionais, masconsidero que ainda estamos em tempos de implantação e há um caminho apercorrer – e devemos fazê-lo rapidamente, sobretudo as universidades, queformam os quadros que atuarão nos níveis subseqüentes do ensino. É precisoque a sociedade civil se sensibilize e cobre da universidade e das escolas aefetiva aplicação do conjunto jurídico referido.
13. Como profunda estudiosa de Cabo Verde, considera que há vantagens eoportunidades de negócios para quem deseja investir no país?
No momento, Cabo Verde é o país que atrai mais investimento em África,segundo o jornal da RTP, em virtude de seu crescimento econômico. Investimentosturísticos nas várias ilhas podem ser realizados, diluindo a concentração deresorts apenas na ilha do Sal e expandindo o potencial do arquipélago (asopções turísticas podem ser várias: Turismo Náutico e Balnear, Ecoturismo,Turismo de Montanha, Turismo Cultural e Turismo de Negócios, atraindo outrosmercados emissores para além dos habituais italianos e portugueses). Também investimentos imobiliários, em construção, de pesquisa da energia eólica, em companhias aéreas e marítimas (de transporte rápido entre as ilhas), em comunicações, em recursos humanos têm ampliado o campo dos investimentos cabo-verdianos para os países asiáticos, como a China, europeus como a Inglaterra e a Espanha, e para os EUA. Uma missão do Fundo Monetário Internacional (FMI), em visita ao arquipélago em 2007, concluiu que, no ano anterior, a economia do país cresceu 10,8 %, oferecendo portanto possibilidades de investimento seguro para o empresariado.

A capacidade de criar novos mercados para produtos nacionais pode ainda ser um tipo de investimentorentável, por exemplo o Mercado dos Emigrantes e Descendentes Cabo-verdianos no Estrangeiro – cerca de 2 milhões. Assim, instituir políticas e programas para colocar produtos cabo-verdianos junto à comunidade crioula na diáspora não só serve para alavancar a economia nacional, mas também para o Estado aproximar e integrar a comunidade de emigrantes às raízes.
Esse desafio social eeconômico leva o emigrante a ter uma participação mais ativa na economianacional, não somente enviando divisas mas também consumindo os produtos fabricados nas ilhas.
14. Em sua opinião, o que mais atrai o visitante/investidor em Cabo Verde?
Sua potencialidade turística e cultural, a paz social e a segurança daspolíticas praticadas, o clima temperado de sol contínuo, as águas tépidas eque não conhecem a poluição, a culinária, os ritmos (morna, coladeira, funaná, batuque) e a alegria contagiante do povo. Enfim, a beleza em todas as suas variações: da paisagem física, humana, social.
15. Das estórias antigas que a comunidade local conta, qual acha maisinteressante ou marcante?
Gosto muito das lendas sobre a origem ou o nascimento do arquipélago deCabo Verde. É mais ou menos assim: o Deus Criador trabalhou seis dias no barrooriginal e criou todo o mundo, espalhou todas as riquezas por ele e deu suatarefa por terminada. Limpou o barro que ainda sobrou nas mãos e disse pronto. Agora vou descansar no sétimo dia. Só que, do resto de barro das mãos dedeus, respingos formaram as ilhas que compõem o arquipélago de Cabo Verde. Eentão Deus pensou: mas lá, nestas terras escalavradas e secas, quasedesérticas, ninguém vai ter coragem de morar, com tanta terra rica no mundo.Deus não conhecia a determinação do povo cabo-verdiano, que se instalou nasilhas e formou uma civilização ímpar no Atlântico.
Outra lenda, a atlante, concebeas ilhas de Cabo Verde como destroços da submersão do antigo continente Atlântida. Por isto o oceano que abriga o arquipélago se denominariaAtlântico.
Outro mito, este jáerudito, apresentado pelos intelectuais, é que as ilhas de Cabo Verde seriam as Hespérides, (f)ilhas do rei Héspero, virgens guardadas por um feroz dragãoporque simbolizavam ilhas onde nasciam árvores com frutos (pomos) de ouro. Nesta versão, Cabo Verde abrigaria uma riqueza ímpar, em compensação à secura de suas terras.
16. Possui muitas fotografias de cabo Verde? Poderia nos ceder cópia?
Sem dúvida, tenho procurado documentar minhas viagens a Cabo Verde e possoceder fotos e imagens filmadas de grande beleza e significação cultural esocial.
17. O que é felicidade, na sua concepção?
Primeiramente, partilhar de uma família feliz, seja ela de sangue ouadotiva (no meu caso, as duas se entrelaçam a ponto de não distinguirmos asorigens). Depois, ter amigos, uma dádiva realmente. Em síntese, e com não menos importância, gostar da vida que tenho e daquilo que faço. Acho que este é o segredo do sucesso pessoal, da felicidade, do entusiasmo que rejuvenesce. Estar em sintonia com o que o cosmos me concede, que tem sido muito mais do que um dia desejei.

terça-feira, 27 de maio de 2008

João Melo: críticas ácidas à sociedade angolana contemporânea em "The serial killer e outros contos risíveis ou talvez não"

Por Ricardo Riso


João Melo nasceu em Luanda, em 1955, formou-se em Direito e Comunicação Social. É membro fundador da UEA - União dos Escritores Angolanos. Jornalista profissional e deputado na Assembléia Legislativa em Angola.

Representante da “geração das incertezas”, expressão alcunhada por Luis Kandjimbo, começou sua trajetória literária na poesia, nos anos 1980, tendo lançado sete livros: Definição (1985), Fabulema (1986), Poemas Angolanos (1989), Tanto Amor (1989), Canção do Nosso Tempo (1991), O Caçador de Nuvens (1993), Limites e Redundâncias (1997). Posteriormente, dedica-se ao conto, constando quatro publicações no seu currículo: Imitação de Sartre e Simone de Beauvoir (1998), The Serial Killer e outros contos risíveis ou talvez não (2000), Filhos da Pátria (2001), O dia em que o Pato Donaldo comeu pela primeira vez a Margarida (2006); e na área de ensaios, Jornalismo e política (1991).

O livro The Serial Killer e outros contos risíveis ou talvez não reúne dezessete contos, com temas diversificados acerca da atual sociedade angolana. João Melo, detentor de uma escrita corrosiva, utiliza um narrador implacável com os hábitos da nova burguesia angolana. Sua indignação é tão intensa que apela com freqüência para expressões vulgares e agressivas ao tecer comentários que vão da ironia ao sarcasmo, em situações geralmente inusitadas do cotidiano da cidade de Luanda, capital de Angola. Contudo, suas histórias não se restringem a Luanda, expandem-se pelo interior do país e em outros continentes.

Deve-se salientar o sopro de renovação proporcionado pelos contos de The Serial Killer... no corpo da prosa literária angolana, muitas vezes preso a temáticas exaustivamente trabalhadas (e muito bem trabalhadas) por nomes consagrados como Luandino Vieira, Arnaldo Santos entre outros. João Melo fornece-nos um panorama caótico do país, de uma sociedade entregue aos perigosos caminhos das regras neoliberais do mundo globalizado, e as mazelas dessa situação na cidade de Luanda o narrador não teme em descrever:

Mais um dia em Luanda. O lixo deitado ontem à tarde pelos chamados pacatos cidadãos amanheceu incólume. As putas tiveram uma jornada infrutífera e já foram dormir há algumas horas, com vontade de se matarem ou de se casarem com um gringo. Os farristas voltam para casa, alguns deles por simples inércia, outros por autêntico milagre. Os ladrões, pelo menos os, digamos assim, artesanais, acabaram de proceder à avaliação do pecúlio arrecadado em mais uma noite de labuta e preparam-se para o merecido repouso. Os doutores e os ministros, ocupadíssimos como sempre, ainda dormem o sono dos justos, pelo menos por enquanto. As mulheres começam a ocupar os seus postos: as bancas dos mercados, as esquinas, as ruas, praças e avenidas da cidade, vendendo seus produtos, dos tradicionais aos globalizados. É por isso, com certeza, que alguns dizem que Luanda agora não passa de um grande bazar. O que resta da tradicional pequena burguesia luandense deve roer as unhas de raiva com isso, mas que tenho eu a ver com ela? (p. 61-62)

Angola sofreu várias mudanças no decorrer do século XX aos dias atuais. Da guerra colonial, iniciada nos anos 1960, à independência em 1975, passando pelos anos de socialismo e a posterior guerra fratricida que durou até o ano de 2002, e agora a entrada no mundo capitalista globalizado. Em seus contos, João Melo não deixa de mencionar os rumos do processo histórico angolano com ironia:

O nosso querido país, como se sabe, tem uma historia muito rica e diversificada, eu diria mesmo – embora correndo o risco de ser considerado mais um ufanista – sui generis. O nosso assim chamado processo histórico já passou por tantas fases, etapas, contextos e conjecturas, que a maioria, pelo menos até agora, tem tentado tudo para entendê-lo, mas apenas tem desconseguido, ou não fosse esse saboroso verbo uma criação tipicamente angolana. Os computadores da CIA, por exemplo, já tiveram de ser investigados várias vezes, pois, ao contrário das suas previsões rigorosamente binárias, os angolanos conseguiram chegar vivos ao século XXI. (p. 37)

A historiografia é uma constante em The Serial Killer..., João Melo rememora passagens da recente pátria angolana para entremear seus personagens na criação dos seus contos, como em “O Esquadrão Marreco”, que retrata o “Período dos Búlgaros e do Peixe Frito” (p. 37), época de escassez e racionamento na economia do país nos anos 1980 devido à guerra fratricida, causando grandes transtornos à vida da população:

posso dizer que a designação de tal período resultava do facto de se viver, então, uma época de profunda escassez alimentar, mas de alguma abundância em termos de fornecimento de cerveja, de tal maneira que, em todos os restaurantes da cidade, quando se pedisse alguma coisa para comer, o garçom trazia invariavelmente um prato de arroz com peixe frito e uma bandeja de finos servidos em búlgaros (frascos de compota provenientes da Bulgária e que, uma vez esvaziados do seu conteúdo original funcionavam como copos). É nesse tempo que se situa a estória do Esquadrão Marreco. (p. 38)

Os descaminhos da revolução e o afastamento dos dirigentes políticos dos ideais da independência são denunciados em diversos contos de Melo. A corrupção, o tráfico de influências, o carreirismo e o conseqüente enriquecimento ilícito são alguns dos temas abordados na ficção a respeito da nova burguesia angolana e tratados ironicamente pelo narrador em “Uma estória canina” e “O rabo do chefe”:

Tinha sido nomeado, há menos de um ano, administrador de uma subsidiária da companhia estatal de petróleo, o que o catapultou, definitivamente, para o reduzido e fechado círculo que comanda os destinos do país, com toda a justiça, aliás; (...)
Detalhe: aparentemente, e falando curto e grosso (vocês já me conhecem, não é?), ele não tinha grande breine para ser administrador de porra nenhuma, quanto mais dessa empresa em que o colocaram, mas um extraordinário acaso tornou possível o que ainda hoje muitos consideram inacreditável. O facto é que, um dia qualquer, (...) reencontrou um amigo de infância que não via praticamente desde a independência e que, segundo ele sabia, se tinha tornado uma das pessoas mais influentes do país. (p. 22-23)

O Doutor Chico, em vez de dirigir convenientemente a ELMA, U.E.E., como rezam os manuais de gestão da coisa pública (pelo menos desde que o capitalismo, nos principais centros, se civilizou), utilizou o seu cargo de director-geral, desde o primeiro dia, para resolver os inúmeros problemas pessoais, ou seja, para se safar, como costuma afirmar o já várias vezes mencionado povo em geral. É por isso que, a partir de uma dada altura, quando a roubalheira passou a ser feita às escâncaras, isto é, quando a gestão se transformou, digamos assim, em simples “mamação”, os trabalhadores o apelidaram de “Chico Mamão” (o que, obviamente, não tem nada a ver com a fruta homônima).
(...) De igual modo não apontarei o meu dedo acusatório aos variados indícios do seu espantoso, gradual e consistente enriquecimento nos últimos dez anos. (p. 34-35)


Isto se dá por causa da grande produção de petróleo em território angolano explorado por empresas estrangeiras, que encontraram uma elite submissa pronta a se submeter às vontades do capital internacional em troca de vantagens pessoais, desconsiderando o que é importante para a nação e até a soberania da mesma. Um problema comum não só aos países africanos, mas estende-se aos países latino-americanos.

Um dado importante é a maneira como o narrador trata o passado comunista de Angola, seus ícones, vocabulário e ideais revolucionários. São tratados com ironia e muitas vezes sarcasmo, em situações que seriam inadmissíveis nos primeiros anos da revolução. Assim, as táticas de guerrilha de Mao Tsé-Tung são adaptadas em um manual para que os homens se aproximem de mulheres, em “O livro da deambulação”:

Estas duas etapas – a abordagem e o papo – pertencem ainda à fase do cerco. Se correrem bem, passa-se então à fase do aniquilamento, como diria o mais-velho Mao Tsé-Tung (quem diria que o velhote, além de um teórico da luta de guerrilhas, também gostava de outros tipos de combates, hein?!) (p. 48)

ou o desprezo com o passado revolucionário e o encantamento com a competitividade capitalista, no conto “O celular”: “Depois da independência, dei uma de revolucionária (eu estava mesmo maluca!...) e ingressei nas FAPLA, mas felizmente consegui sair... Agora sou uma mulher de negócios!” (p. 16).

Conseqüência da época vivenciada por nós, dominada pela economia neoliberal e pela globalização, os contos de João Melo acusam o mal-estar emitido pelo consumismo desmedido da sociedade contemporânea sob as garras do capital. Em Angola não poderia ser diferente, o exibicionismo que beira o ridículo da nova burguesia é duramente criticado pelo narrador:

Um rico que se preze, seja ele velho ou novo, tem que ter três coisas, pelo menos (além de muito cumbu, claro): cão, guarda pessoal e uma amante. Guarda e amante ele tinha, mas cão, não. Recusava-se terminantemente a ter bichos de qualquer espécie, na casa oficial (era assim que ele designava a casa onde morava com a chamada esposa e mais três filhos) ou até mesmo no apartamento que recentemente arranjara para a amante. (p. 21)

A efemeridade e a inevitável mediocridade das celebridades atuais aparece no conto “Caricatura do escritor enquanto jovem”. Aqui, um jovem escritor de talento para lá de duvidoso e extremamente polêmico, Pedrito Manungola, alcança espaço na mídia mais pelas declarações bombásticas do que pelo talento literário, procurando derrubar cânones da literatura angolana:

O consagrado poeta Manungola, na verdade, nem sequer tinha 30 anos de idade, mas já era consagrado porque uma vez, num recital de poesia na União dos Escritores Angolanos, começou a gritar que o maior poeta angolano não era Agostinho Neto, como a propaganda oficial do regime tentava impingir a todos os angolanos e até à própria comunidade internacional. O maior poeta angolano de todos os tempos, contando (ou descontando?), inclusive, os mortos, era ele, Manungola, (...) ao contrário do que Agostinho Neto e sua camarilha (desde que ouvira um comissário provincial apresentar com essa fórmula o poeta-presidente e os ministros que o acompanhavam, durante um comício popular, Manungola nunca mais deixara de utilizá-la, apenas lamentando não ter sido ele a cria-la) (...) (p. 49-50)

Em uma sociedade que preza o espetáculo, “artistas”, com comportamento deplorável, atingem seus exíguos momentos de fama proferindo declarações inescrupulosas, infundadas e sem o mínimo de ética. O personagem Manungola com sua metralhadora giratória em um denuncismo incontrolável, ataca a suposta política que comanda a literatura angolana em um programa de televisão:

Manungola deu um verdadeiro show, demonstrando as suas fabulosas qualidades histriónicas. Começou por dizer que a poesia política é uma merda. Que a questão do conteúdo da literatura é um resquício do centralismo democrático. Que Jdánov era filho de alguém que, lamentavelmente, ele não poderia mencionar, por estar na televisão. Que os escritores mais antigos estavam tão obcecados pelo colonialismo – coisa com que a geração dele, Manungola, não estava muito inquieta – que não reparavam nos erros cometidos após a independência pelos ditos revolucionários. Que, mais do que discursivos, eram prolixos e cantalutistas (...). Que existe uma conspiração dos mais velhos, que tudo fazem para impedir o surgimento de novos valores literários no país. Que os piores são os luso-descendentes, os quais, além de receberem todos os prémios literários do país, ainda implicam com os jovens escritores, pois estes, alegadamente, não dominam a língua portuguesa. (p. 50-51)

Entretanto, nem só de críticas negativas são feitos os contos de The serial killer... Há espaço para o humor e o fascínio que a cidade de Luanda pode causar a um estrangeiro, como narrado no hilariante “O engenheiro nórdico”. Trata-se da história de um estrangeiro que é transferido para trabalhar em Angola, só que antes estuda os hábitos do país, assiste a palestras e conhece a literatura local. Quando chega a Luanda decidi ir ao célebre mercado Roque Santeiro, para experimentar uma comida tradicional, o cabrité: “Coincidência ou não, apanhou uma tremenda amebíase, que o deixou prostrado durante uma semana, a cagar feito um condenado à morte” (p. 28).

O caso virou uma grande maka (confusão) nacional a respeito das péssimas condições de higiene do mercado, envolvendo governo e oposição, e o narrador, sempre com ironia, mostra a desestabilidade política do país. A oposição se pronunciava:

Para a oposição, por exemplo, tinha ficado clara, mais uma vez, não apenas a falta de capacidade, mas sobretudo a profunda insensibilidade do governo perante os problemas do povo, pois há muito tempo que os cabriteiros do Roque Santeiro, e não só, reclamavam em vão por melhores condições de trabalho, a fim de poderem mitigar a fome do povo e até mesmo, se não a fome propriamente dita, pelo menos o apetite dos estrangeiros, no mínimo daqueles que, dando mostras do seu multiculturalismo exemplar, faziam questão de experimentar os quitutes nacionais, recusando-se, portanto, a viver apenas de importados e enlatados. (p. 28)

Tais declarações fizeram com que o ministro do Interior fosse à televisão, em rede nacional, e rebatesse com veemência as críticas sofridas:

qualificar de savimbistas todos aqueles que se atrevessem a pôr em xeque o empenho do governo em melhorar as condições higiénicas da cidade e, principalmente, em bem receber aqueles que, de boa-fé, vinham contribuir com o seu esforço para a reconstrução e desenvolvimento do país. No tempo em que estes factos inventados, ser savimbistas era pior do que ser filho da puta. (p. 29)

A imposição da religião católica imposta pelos séculos de colonialismo é tratada no conto “O baptizado”. Neste, o personagem Godofredo tem trinta e dois filhos em um relacionamento poligâmico com suas “três mulheres, uma preta, uma mulata cafusa e uma albina” (p. 80). Nenhum deles havia passado pelo batismo cristão, o que escandalizou o novo padre recém chegado ao vilarejo interiorano, que “resolveu imediatamente desencadear uma cruzada contra o herege” (p. 77).

A conturbada relação de Portugal e dos portugueses com sua ex-colônia é sentida até os dias atuais e em dois contos, “Vêm aí as portuguesas” e “A herança”, apreendemos os preconceitos e mitos que acercam o imaginário luso quando se trata de Angola. No primeiro, o problema é sobre as mulheres angolanas que seduzem e enfeitiçam os homens brancos portugueses:

A RTP Internacional, vulgo RTPi, interrompeu a sua programação normal, para transmitir em directo a manifestação de um grupo de mulheres no Terreiro do Paço, em Lisboa, que exigia do governo português apoio para a sua deslocação a Angola, a fim de resgatarem os respectivos maridos das garras pecaminosas daquelas negras e mulatas que os haviam seduzidos com pozinhos e mandingas ainda desconhecidos pela ciência (...) (p. 97)

No segundo conto, a hipocrisia tenta encobertar o preconceito racial latente na carta enviada pela família e lida por um português, morador de Luanda, casado com uma negra, que comenta, com raiva e revolta, o relato dos seus parentes e a idéia em Portugal de atraso tecnológico do continente africano. Como se o país luso não fosse responsável por impedir o desenvolvimento angolano durante a colonização:

Esperamos sinceramente que esta missiva o vá encontrar de boa saúde, em companhia dos seus, em especial a D. Paciência, sua esposa, e os seus quatro filhos. (...) A propósito, nunca mais tivemos notícias de nossos amados sobrinhos. Como vão eles? (...)
“Olha-me os cínicos! Olha-me os hipócritas! Os gajos nunca quiseram saber da minha família, em particular dos meus filhos – ‘Então, você também resolveu fazer mulatos?’, perguntaram-me eles na cara, na primeira e única vez que levei a Paciência e os garotos a Portugal, para conhecerem a sua família portuguesa (...)” (p. 105)

Olhe, já agora, pode tirar-nos uma dúvida, pois aqui em casa ninguém sabe a resposta? Há dias, perguntámos igualmente ao compadre Mota, que já esteve em África, mas ele também não sabe... Vocês aí em Angola têm televisão?
“O quê?! Ora, ora... Então esses tipos, apenas porque o governo lhes pôs lá na terrinha uma caixinha de fabricar doidos, agora estão armados de finórios?... Se eu tivesse mais paciência, dir-lhes-ia o que é a televisão... Mas, infelizmente, jamais os aturei. (...)” (p. 107)


João Melo em sua literatura procura enfatizar o multiculturalismo angolano. A diversidade étnica é valorizada em seus textos como forma de integração do país em negros, brancos e mestiços. Todavia, o preconceito racial na sociedade contemporânea está presente e é denunciado pelo narrador em praticamente todos os contos. A personagem Chiquinha Setenta, por exemplo, ao anunciar o roubo de seu celular, acusa um albino: “Chiquinha Setenta fez tenção de se atirar contra o albino, que olhava para ela com nítido terror, talvez pensando nas enormes provações por que tem passado (e, não se iludam, continuará a passar) a sua raça” (p. 18). A conduta dela é recriminada pelo policial que tenta desvendar o assalto: “E porquê que escolheu logo um albino? Isso é descriminação!” (p. 19).

O preconceito em relação aos mestiços é abordado no conto “O mulaticida”. Neste, a posição radical de um negro, “o tema da raça sempre foi uma obsessão para ele” (p.113), contra os “mulatos” beira o hilário, com afirmações estapafúrdias de enriquecimento e favorecimento político:

(...) posso dizer-lhes que ele é daqueles que ainda acredita, hoje, quase trinta anos volvidos após a independência, que o poder em Angola é controlado pelos mulatos. Eu acho isso bizarro, pois basta ver as fotos dos membros do governo para verificar que esse tempo já passou. De igual modo, ele ainda não ultrapassou outra ficção, segundo a qual os mulatos são os mais ricos do país. (p. 113)

O exílio voluntário de um angolano é narrado no conto “O exilado”. Ngolo Valentim é um músico que fixa residência em Estocolmo, capital sueca, e após vários subempregos consegue se firma como músico de jazz. A onomástica presencia-se, Ngolo refere-se ao famoso grupo do período colonial angolano Ngola Ritmos, enquanto Valentim menciona a valentia do jovem que saiu do seu país e se aventurou no exterior. Ngolo Valentim assimila-se ao padrão de vida sueco e é grato pela nova vida:

Na verdade, naquela “cidade verde junto à água”, com mais de sete séculos de história e tão longe do Andulo, no coração perdido de Angola, ocorreu o seu segundo nascimento. Ele seria eternamente grato aos “deuses brancos” que o acolheram e lhe deram uma espécie de segunda existência. (p. 84)

Sobre o conto “The Serial Killer” várias leituras podem ser feitas, dentre as quais a da metáfora dos dirigentes políticos que arrasam o país, escondendo-se na despersonalização, a capacidade de metamorfosear-se de acordo com as mudanças políticas em detrimento dos interesses da população. Situação típica dos países periféricos e grande mal que reprime o desenvolvimento dessas nações:

– O seu nome?
– Qual deles?
– Bem, como é que você se apresenta?
– Depende...
– Depende?
– Sim, depende. Não sabe o que é depender? É...
– Sei, sei. Mas depende de quê?
– Ora, não imagina? Do contexto, das minhas conveniências... (p. 11)

Depreendemos nos contos de The Serial Killer e outros contos risíveis ou talvez não a preocupação de João Melo em dissecar as entranhas da sociedade angolana contemporânea, as incoerências e distorções de uma época dominada pela superficialidade e competitividade das relações, da ganância e ausência de escrúpulos da classe política. Atento aos incontáveis problemas que se passam durante a construção de Angola, João Melo faz da sua literatura instrumento para denunciar os absurdos da situação vigente. Aliás, a melhor maneira de se fazer literatura na contemporaneidade.



BIBLIOGRAFIA:

MELO, João. The Serial Killer e outros contos risíveis ou talvez não. Lisboa: Caminho, 2004.