segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

José Vicente Lopes (Cabo Verde) - Morabeza

O cabo-verdiano José Vicente Lopes teve sua estreia literária na revista Ponto-e-Vírgula, nos anos 1980. Contista, possui uma verve ferina ao ilustrar o ilhéu, procurando desmistificar a passividade do homem cabo-verdiano em um mundo fragmentado e assolado pela crueldade das dificuldades impostas por um país carente em estrutura e de forte desigualdade social. Suas histórias, rudes e cruas, geralmente dialogam com o fantástico.
Ricardo Riso

Morabeza
“Um navio encalhou neste Sul”
Baltasar Lopes, Os trabalhos e os dias

Aconteceu numa noite de breu e já lá se vão muitos e muitos anos. O navio dirigia-se, decidido e imperturbável, em direção à costa e, como era de se prever, encalhou. Ficou a caminho, suspenso, entre o mar e a terra.

Quando o dia clareou, a população – como sabeis, amável, hospitaleira e generosa – deu com aquele monstro de metal à entrada da pequena baía, que os pescadores ainda hoje utilizam como abrigo. Refeita da surpresa, provocada por tão inusitado espetáculo, em pouco tempo, fez-se o que se tinha que fazer com aquele “presente de Deus”.

O navio foi inteiramente pilhado, como é habitual em situações do género, sem que os tripulantes tivessem podido impedir o assalto. Aliás, deram-se por felizes quando, três dias depois, deixaram a ilha a salvo.

Volvidos tantos anos, o navio, ou melhor, o que dele hoje resta, como que para provar que o acidente realmente aconteceu, continua no lugar em que o deixaram. Vez ou outra, vem a ilha algum turista, faz perguntas sobre como aquela embarcação foi parar ali, e acaba por tirar fotografias da imagem tão surreal, essa mesma que um fotógrafo francês, deslumbrado, haveria de eternizar anos depois num célebre postal que tem corrido o mundo.

Em noites de lua cheia há quem diga que o navio ganha vida e tenta retomar a viagem. Mas eu não acredito.

Lopes, José Vicente. Morabeza. In: A fortuna dos dias. Praia: Spleen, 2007.

Mito - menção trágigo-heróica

Visitando o site do artista plástico cabo-verdiano Mito, o Mare Calamus - http://www.tanboru.org/mito/index.htm, resolvi acessar as páginas da segunda edição da revista “Sopinha de Alfabeto”, publicada e perseguida durante os anos 1980, e deparei-me com este belo poema:


MENÇÃO TRAGIGO - HERÓICA

Quem não viu
Aquele soldado
Espetando uma baioneta
Ao coração
Jorrando
Lacre e não sangue

Quem viu e ouviu
Um ecologista
A ser devorado
Por uma planta carnívora
Ao tentar beijar uma borboleta

Quem não viu já ouviu falar
Do sucessor de Camões
Que naufragou
N'areia movediça
Na tentativa
De salvar um poema

MITO - I - 86

Fonte: http://www.tanboru.org/mito/sopinha/SP2Pag12.htm

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Filinto Elísio - alguns poemas, Das frutas serenadas

Alguns poemas do livro Das frutas serenadas (Praia: IBNL, 2007), daquele que considero o grande nome da atual literatura cabo-verdiana, Filinto Elísio.

Ricardo Riso




Das serenadas. Mito.

3

As frutas, uma a uma, darão suas entranhas à boca
O roçar leve de língua ao gosto de todas as coisas
As frutas saberão trazer do antanho nossas memórias
Em paraísos de proibir nas árvores todo o proibido.

Uma a uma, não nos poderemos delas jamais apartar,
Sílabas poderosas no ulterior dos verbos acamados
Nos leitos de horizontes surgidos do útero da baía
E nas janelas abertas para o império dos sentidos.

De quantas frutas somos benditos no ventre das vontades,
Quantas lágrimas, suores e sémenes, vagidos de nada,
A esventrar a espessura de tudo ser mais prima matéria.

Ajoelhados ante o silêncio, soletraremos ao infinito
O que desta idade temos ainda de eterna saudade
E entoaremos, de sussurros tão-somente, o hino às frutas.

(p. 21)


Das frutas noite e dia




(Reabre-se o pano: Eis que frutal e louco,
ele entra em cena para fazer o madrigal.
Imagina-se o diálogo das frutas entrelaçadas no cesto.
Mais arfantes do que plásticas, elas se permitem à fala)

Solfejo no gosto de pitanga o acordar contigo
O arfar fruído, quando não tão-só flutuante
- e há de o sol descrever seu arco no diurno -,
Em que as horas soluçantes se perdem…

Dou graças ao cajá e à fruta-do-conde, a terra,
O vento, a água, o ar e o arfante deste animal,
Medusa, como dizes, que petrificas de olhar,
Para além das cobras do teu “dread”…

Cai a noite e, de brumosa tocatina, dançam
Os pés que, embebidos no teu pântano, és tu
Virada pelo avesso, manga rosa e seu reverso…

E quando, em carnuda, me mordem os lábios,
desfeito em rosa manga, de laço e de caroço, eu
amanheço, resinado e pura fruta, nesse leito…

(p. 33)


O que a eternidade ora me concede

Grutas, lapas e concavidades, esse escuro,
Esse estágio de contra-luz, lábios & gretas,
Presságios, loucuras, tantas elucubrações,
Excertos de nada, de tudo e de todos, em mim...

Lagos, lagoas e águas, barcos pelos espelhos,
Meus labirintos e rincões, recifes e outros mares,
As espumam que chalaçam natais, os reveillons
Do tremeluzir das velas frágeis – frias e frágeis...

Estatuas que não contam palavras e beijos,
Nem dizem ao crepúsculo vasto e violeta, o sol
A ser ali solfejo, aqui regaço, em todo o momento...

E o mais é molhares-me desse viscoso, o sereno
Serpentear das coisas em denodo, seres tu,
Fêmea fugaz, que a eternidade ora me concede...

(p. 39)


Esse mar revisitado




(A palavra mar morreu há muito.
Esse mar, quem sentiu mar?
Mas tu, de acreditares em fénix e
nas cinzas dos caminhos, profanas.
Impiamente, profanas esta quietude)


Quando pronuncias a palavra mar
Este ilhéu diante de ti se liquefaz
E vira ele próprio metáfora e parte
Como onda para o abraço das terras...

Só de o teres ementado, os peixes
Saltitam no assombro das pedras
E as sereias saem, loucas das lendas,
E aproximam-se ao cio das marés...

As algas, limos, areias, espumas -, tudo
Soletra-lhe ali em maresia e de tão longe
Estará ele navio na solidão do mundo...

Nesse surrealismo tão bizarro e vão
Quão poemas de longe e de saudade
De repente, substantivos de quem os ouve...

(p. 48)

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Verão, Amar, Hélio Oiticica, Caio F., Filinto Elísio e alguns outros devaneios


Olá! 2009 começa devagar para o blog. Janeiro é assim, inquietação e rua, sempre nas ruas – como me sinto bem. Verão é a estação da cidade outrora maravilhosa. No verão, o Rio de Janeiro é realmente Rio de Janeiro, com todas as suas belezas e neuras, muitas neuras. Ando por aí, estarrecido e revoltado com o que acontece na Faixa de Gaza, ponto. Encontro os amigos e as amigas do antigamente. Tento (mas não querendo) retomar um amor antigo, procuro desesperadamente um amor novo, curto intensamente as aventuras que aparecem, que não são nada demais. E os dias passam. Emociono-me com as pinturas de Petrillo, os penetráveis de Hélio Oiticica estão aí para quem quiser ver (falarei deles em breve) reafirmando-o como o melhor das artes plásticas deste país, a Armazém Cia. de Teatro surpreende com o fantástico “a inveja dos anjos”. A Lapa ferve. Confirmo: a literatura de Caio Fernando Abreu é sensacional. Devoro os textos recolhidos em Caio 3D: o essencial da década de 1980, com especial encantamento pelos contos d’Os dragões não conhecem o paraíso. Caio F. sabia muito da inquietação humana, foi embora prematuramente. Como faz falta. Grato pela generosidade de Lêdo Ivo e o seu fundamental Poesia Completa. Deslumbrado com as metáforas dissonantes do albatroz cabo-verdiano Filinto Elísio em Das frutas serenadas. Para este ano, mestrado tentarei, procurar melhorar algumas coisinhas, um filho talvez. E agradecer a todos que por aqui passam, pelas palavras de incentivo, pelas trocas, pelo carinho, respeito, admiração. Viver é bom.

Ricardo Riso

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Petrillo – Lugares Possíveis

Transcendência poético-pictórica em novos trabalhos confirma a excelência do artista

Compromisso com a pintura, paixão pelas paisagens, poesia em telas com predomínio da horizontalidade das formas em uma parca paleta de cores são o que encontramos ao contemplar as pinturas em grande formato do artista plástico Petrillo (http://www.petrillo.com.br), em sua nova exposição Lugares Possíveis, que ficará até o dia 25/01 no Centro Cultural Correios.

Inspiradas no ambiente incomum do deserto de sal boliviano, as pinturas recentes de Petrillo subvertem a percepção do observador ao explorar os limites da relação figura/fundo e da noção de profundidade. Ao recriar paisagens a partir da questão já clássica da pintura: de transpor a linha tênue entre figuração/abstração, Petrillo constrói uma trajetória poético-pictórica vigorosa, segura e surpreendente, merecedora de grande expectativa a cada nova exposição.

Favorece, nas telas ali apresentadas, o fato de Petrillo captar a transcendência entre a amplidão da paisagem desértica do sal boliviano e o céu, dissipando cores, desconstruindo formas. Com isso, Petrillo traduz o silêncio, o vazio que eleva o espírito. Por suas telas buscamos a paz interior, viajando na sensação de harmonia com uma força superior a nós somente experimentada em lugares ermos, descontaminados da interferência hostil do homem, podem oferecer.

Ricardo Riso

Petrillo – Lugares Possíveis
Centro Cultural Correios. Rua Visconde de Itaboraí, 20, Centro, 2253-1580. Terça a domingo, 12h às 19h. Grátis. Até 25 de janeiro de 2009.

quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

Feliz 2009


A todos os visitantes deste blog, um feliz 2009!!!

Abraços,
Ricardo Riso



Cesária Évora - Rádio Mindelo

Ao Gonçalo Ivo

O cd Cesária Évora – Rádio Mindelo reúne raras gravações da cantora cabo-verdiana Cesária Évora na Rádio Barlavento, no início dos anos 1960. São 22 músicas (a maioria de autoria de Ti Goy) separadas em seis sessões diferentes de puro prazer e que já confirmavam o talento de Évora.

A seguir o texto do encarte do bem cuidado cd, em edição trilíngüe francês-inglês-português.

Ricardo Riso

Cesária na Rádio Barlavento: o início de uma carreira


No início dos anos 60, vive-se em Mindelo, uma euforia à volta do género Coladera, que constituía uma novidade. Vive-se igualmente o pós-B.Léza. Recentemente falecido (1958), B.Léza, é recordado com muita emoção e existe um sentimento de que a sua obra deve ser continuada e seguidos os seus ensinamentos. A inovação do momento é o género Coladera, que no Mindelo conta com grandes mestres, como Ti Goy (Gregório Gonçalves) ou Frank Cavaquim (José Vicente Gomes). Estes dois compositores lideram na feitura de composições que naquele período surgem ..em grande quantidade. Por.. outro lado, é de notar que Rádio Barlavento, vem desempenhando um papel importante na vida cultural da cidade do Mindelo. Fundada em meados dos anos ..50, a.. Rádio Barlavento cedo começa a gravação de músicos e cantores locais, como meio de obter música para difusão nas suas antenas. As gravações daquela época (realizadas com um único microfone) têm uma qualidade razoável, tendo em conta os meios utilizados. A criação de planos sonoros, era obtido, com a colocação, mais ou menos afastada do microfone, dos diferentes instrumentos e do cantor. De salientar ainda que esta emissora de ondas curtas, chegou a comprar uma máquina de gravação de ..discos com o.. fito de arranjar receitas. A máquina gravava um disco de cada vez em tempo-real, o que não compensava. A ideia de comercialização de discos foi então abandonada, mas foi dos estúdios dessa antiga estação de rádio que saíram as fitas para prensagem no exterior ..de discos com os.. grandes sucessos dos finais dos anos ..50 a.. meados de 60. Gustavo Albuquerque, que trabalhou desde a fundação da Rádio Barlavento como “Operador de Gravação e Montagem de Programas” recorda, que ele gravou “vários artistas como Amândio Cabral, Djosinha, Jack Monteiro, Cesária, Titina, Arlinda Santos, Mité Costa e outros.”

Naquela época, as editoras eram prestigiadas casas comerciais, como a Casa do Leão, ou então a Casa João Mimoso, que comercializavam os pequenos discos de vinil, 45 rotações por minuto, com 4 músicas (2 em cada lado) que eram prensados na Alemanha e Holanda. O “técnico das gravações ..e montagens dos.. programas dessa rádio” Gustavo Albuquerque, teve um papel importante na recolha da “Música da nossa terra” como então de dizia. Gustavo não só, foi um dinamizador das recolhas contactando os artistas, como realizou um trabalho técnico que se pode considerar de altíssima qualidade tendo em conta os condicionalismos da época, numa ilha então isolada ..do mundo,.. que se chama, S. Vicente. ....

Cesária ou Cize como é tratada pelos mais próximos, revelou-se ao público naquela época, naquele ambiente pós B.Léza e de sucesso do género Coladera. O Técnico Gustavo, conta que “Cesária Évora foi trazida para a antiga Rádio de Barlavento, por Gregório Gonçalves “Ti Goy” e Frank Cavaquim, a título de experimentar a sua voz em fita magnética gravando as belíssimas Coladeras compostas por esses dois compositores, isto na década dos anos 60… ela tinha 20 e tantos anos, e se não estou com erro ela começou a cantar com 14 ou 16 anos.” A versão da Cesária Évora não difere e ela conta assim como tudo se passou: “Bom, naquele tempo o Gustavo que trabalhava na Rádio Barlavento, falou comigo, e perguntou-me se eu gostaria de ir com o Ti Goy, o Caraca e outros músicos cujos nomes já não me lembro, fazer umas gravações… eu disse-lhe que sim, que combinasse com o Ti Goy porque para o Ti Goy, o seu maior prazer era que eu fosse à casa dele, para ele me ensinar as suas música para eu cantar…”

Naquela época, finais dos anos 50, princípios dos anos 60, os grandes compositores e músicos, tinham os seus “meninos”, a quem ensinavam novas músicas e que eram lançados na vida artística com o seu patrocínio. As revelações apareciam nas tocatinas de pau e corda, nos ensaios de blocos de Carnaval ou nos ensaios para ..as apresentações dos.. chamados “teatro” no “Cine-teatro Éden-Park”, espectáculos de variedades, com música, anedotas e “sketches”. Cesária Évora, era a “pérola” do Ti Goy. O prestigiado compositor, andava de um lado para outro a elogiar a jovem cantora a quem dava em primeira-mão as suas novas criações e não se cansava de levá-la para cantar nos mais variados locais. Diz a Cize: “Olha, eu o Goy, encontrávamo-nos sempre! Quando eu ia à casa dele, ele me ensinava as suas novas composições e quando era de tocar com o conjunto, íamos juntos… Eram aqueles dois corcundas, que tocavam sempre juntos comigo: o Goy e o Caraca!”

As sessões de gravação da Cesária Évora na antiga Rádio Barlavento, contam na sua maioria com composições do Ti Goy, ou seja Coladeras a especialidade deste músico que tocava violão e bateria. Cesária recorda que foi várias vezes, à Rádio Barlavento, para gravar. E como é que as coisas se passavam nessa altura, perguntamos? “Bem disseram-me que em princípio me pagariam 25$00 por cada gravação, e foi isso que me pagaram.” No Rádio Clube, outra estação daquela época, em Mindelo, a Cize também foi gravar, mas diz: “Ali nunca me pagaram nada!!!”

Os grandes sucessos daquela época, e a voz límpida da Cize, maravilharam a cidade do Mindelo daquele tempo. A difusão pela rádio de novidades musicais, sobretudo Coladeras picantes e com críticas ácidas a acontecimentos que marcavam a vida social, naquela época, contribuiu ainda mais para o sucesso desta cantora, que passou a ser chamada para actuar nos mais diversos locais. Diz a Cesária: “Recordo, que íamos (eu, e o Ti Goy) para muitos lugares juntos, íamos cantar em muitas casas, e íamos a bordo daqueles barcos portugueses, naquele tempo…” A fama de Cesária foi tão grande que ela foi convidada, para cantar no Grémio Recreativo Mindelo, clube muito reservado, frequentado pela alta sociedade, numa época em que vigorava uma divisão social muito rígida. Ali aconteceu um episódio que marcou a vida da Cesária e que ela conta assim: “Eram os irmãos Marques da Silva que me iam acompanhar. Era eu, a Arlinda…havia outra pessoa… Éramos três ou duas que íamos cantar… já não me lembro dos nomes. Foi então que o Lulu Marques, resolveu me dar um par de sapatos para eu, calçar… Eu disse-lhe: eu não quero sapatos, porque se não for descalça, eu não vou!!! Ele insistiu, e então acabei por aceitar um par de umas sandalhinhas pretas, que ele tinha comprado no Sr. João (Pereira) sapateiro… Bem, era para eu lá estar às 9 horas da noite e lá fui. E então, eu entrei e atravessei o corredor de entrada do Grémio calçada… e fiquei lá à espera, e quando chegou a minha vez de cantar, eu tirei os sapatos e coloquei-os ali ao lado de uma árvore, perto do palco... e fui cantar descalça. Olha, aquela gente toda me aplaudiu e ficaram contentes. Foi então que veio uma senhora (não me lembro do nome)… ela veio falar comigo e disse, para eu estar à vontade porque se era assim que gostava de cantar, então eu podia estar à vontade e podia descalçar e cantar descalça, porque não havia nenhum problema… Bem na hora da saída no final do espectáculo, eu não calcei e saí do Grémio descalça e levei os sapatos numa bolsa.”

Este episódio, foi naquele tempo muito comentado em voz baixa, na sociedade mindelense e deu origem a várias versões mais ou menos fantasiosas, o que acabou por popularizar, o retrato da “Diva dos pés descalços”.

O sucesso desta primeira fase da carreira de Cesária Évora, nos anos 60, atinge culmina com convite para gravar o seu primeiro disco que foi editado pela Casa João Mimoso. Cize recorda como tudo se passou: “Ele mandou-me chamar para eu falar com ele no seu escritório. Ele disse-me que gostaria de gravar um disco comigo. Eu disse-lhe: é para ir a Lisboa? Ele disse-me, não, vamos gravar o disco aqui em S. Vicente, não é preciso ir a Portugal. E então fomos fazer a gravação. O Damatinha tinha um bom gravador… E então gravamos: eu, o Luís Rendall e o seu filho John Rendall e mais outra pessoa que já não me lembro.” E onde foi realizada a gravação? A Cize responde: “Na casa do Gustavo, que morava na rua 1.º de Maio… a Rua da Papa Fria.”

Das lembranças do que se poderá agora classificar de sessões históricas de gravação na antiga Rádio Barlavento diz a Cize: “Uma daquelas músicas que eu gravei foi Terezinha - Dinher d’Angola já Cabá -, parece-me, Vaquinha Mansa. Da Coladera Terezinha da autoria de Gregório Gonçalves (Goy), a Cesária não poderia esquecer, pois foi um dos sucessos retumbantes daquele tempo. Vaquinha Mansa do mesmo compositor, junta-se a uma lista grande de Coladeras, deste mesmo compositor, gravadas em várias sessões que decorreram sensivelmente, entre 1962 e 1964: Pé di Boi, Nutridinha, Mata Morte, Falta de Força, Sayko Dayo… Quanto às Mornas, Cesária prefere composições novas e pouco batidas, uma vez que as suas colegas na altura, já tinham quase que esgotado o reportório B.Léza e Eugénio Tavares. E julgamos que Cize escolheu também Mornas que mais se adaptavam ao seu estilo de cantar como: Belga, Oriundina, Frutu Proibido, Mar Azul (esta uma Morna B.Léza que não tinha sido gravada) e Cize. Esta Morna (..de Morgadinho) nada.. tem a ver com a Cize, Cesária Évora. Sobre isso ela diz: “Pensam que fui eu que a fiz. Mas não, foi para outra Cesária...”

As primeiras gravações da Cesária Évora, testemunham o início da carreira desta grande artista, que desde o princípio se revelou como dona de uma bela voz, categoria na interpretação e presença. Alguns dos companheiros da Cesária que gravaram nessas históricas sessões da Rádio Barlavento, por Gustavo Albuquerque, conseguiram logo singrar e começar carreiras de sucesso, em disco e no palco. Cesária, apesar do sucesso inicial, foi ficando no Mindelo profundo, das tocatinas pelos bares, das noites cabo-verdianas e das serenatas… ..De meados dos.. anos ..60 a.. meados do anos 80 Cesária Évora, esteve longe da popularização que os circuitos da edição discográfica alcançam até foi redescoberta. Tempo longo é certo, mas que permitiu a esta grande diva, uma maturação, sempre na defesa da autenticidade e das raízes da Morna e Coladera. Note-se que ao longo destes 20 anos de espera da Cize, Cabo Verde foi trespassado por diversos movimentos: música revolucionária, retorno às fontes, Funaná, etc. etc. Serenados os ânimos aí pelos finais dos ..80, a.. Morna e a Coladera, encontram então no talento e na voz de Cesária Évora, o veículo ideal para se revelarem ao mundo, que por coincidência, assiste nesta altura, a um movimento que se dá pelo nome ..de 'World Music..'. Cesária inicia nos anos 90, um carreira fulgurante, conseguindo alcançar uma mundialização, que até hoje nenhum outro artista cabo-verdiano conseguiu… uma vingança do destino e uma vitória da música de Cabo Verde!....

Praia, 15 de Setembro de 2008....

Carlos Filipe Gonçalves....
Músico e Jornalista

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

Dina Salústio - Natal


É época do Natal. De prendas, de frutas secas e fios dourados. De perus e bebidas várias. De plásticos. De muitos plásticos. E de sacrifícios.

Também festa de família.

Estou numa loja. Três mocinhos semi-esfarrapados entram. Não têm pressa. Não pedem para serem atendidos. Os olhitos passam de um brinquedo para o outro e neles vejo o mesmo brilho dos olhos dos meus filhos.

Timidamente, quando não se sentem observados pela vendedora, passam a mão – um dedo só – pela carroçaria de um camião. Estão mudos, num mundo à parte e nem sequer trocam olhares uns com os outros. Cada um vivendo o sonho de uma viagem, aventura de uma corrida.

Os compradores entram e saem atarefados. E não vejo alegria neles. A cada presentinho, a cada pacotinho de uma bagatela qualquer, um balanço às notas que ficam, um cálculo mental, uma decepção. E começam as lamentações que os artigos estão caros, que a vida está cada vez mais difícil, que já é tempo de se acabar com o Natal.

Não estou de acordo. É bom haver Natal. É bom escrever aos amigos e dizer-lhes que estão comigo o tempo todo, apesar do meu silêncio. É bom haver Natal e poder dizer-te que tenho saudades tuas, que te amo e que te queria abraçar forte. É bom haver Natal, quando não é época de sacrifícios e angústias e dívidas, para se manter uma ridícula aparência de sucesso.

A vendedora fica nervosa entre o atender os clientes e vigiar os meninos esfarrapados. Onde está a família deles? Já terão comido hoje? Só sei que estão a viver mais um Natal. O seu Natal, tecido com olhares e imaginação: um Natal de espreita.

Uma freguesa entra: Dezembro é mau, mas Janeiro é pior. Um mês comprido. Um mês de contas. Ela fala alto, enquanto enumera as prendas que faltam comprar. O show, para se fazer notada. No fundo, a eterna necessidade.

Um dos miúdos distrai-se e solta uma exclamação. Os clientes olham para ele, para eles e para vendedora e apertam com mais força os embrulhinhos de Natal. E a raiva e as frustrações que a contabilidade provoca soltam-se e aparecem nos olhos e nos murmúrios. São gente de bem que não podem aceitar a vadiagem que os fatinhos rotos deixam perceber.

A rapariga do balcão sente-se apoiada e expulsa os garotos. E não percebeu, porque não podia perceber que o que os compradores queriam era que as lojas fechassem, que não houvesse coisas para comprar e que um decreto proibisse aquela mascarada toda. A sua consciência ficaria tranqüila, o orgulho salvo. Talvez o natal passasse a ser mais humano, mais de compromisso, porque não artificial.

Há um sorriso nos mocinhos que eu não percebo, como se não fizessem parte de nós. Como se fôssemos uns palhaços para os divertir. Ou quem sabe, uma certa nostalgia de não serem palhaços como nós.

Tranqüilamente saem, em busca de outras lojas de sonhos.” (p. 69)

SALÚSTIO, Dina. Mornas eram as noites. Colecção Lusófona. Lisboa: Camões, 1999. p. 68-69

Feliz Natal

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Desejo a todos os freqüentadores deste blog um feliz Natal com o máximo de afetos reunidos, longe do consumo desvairado.
Abraços,
Ricardo Riso

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Carlos Drummond de Andrade - Organiza o Natal


Alguém observou que cada vez mais o ano se compõe de 10 meses; imperfeitamente embora, o resto é Natal. É possível que, com o tempo, essa divisão se inverta: 10 meses de Natal e 2 meses de ano vulgarmente dito. E não parece absurdo imaginar que, pelo desenvolvimento da linha, e pela melhoria do homem, o ano inteiro se converta em Natal, abolindo-se a era civil, com suas obrigações enfadonhas ou malignas. Será bom.

Então nos amaremos e nos desejaremos felicidades ininterruptamente, de manhã à noite, de uma rua a outra, de continente a continente, de cortina de ferro à cortina de nylon — sem cortinas. Governo e oposição, neutros, super e subdesenvolvidos, marcianos, bichos, plantas entrarão em regime de fraternidade. Os objetos se impregnarão de espírito natalino, e veremos o desenho animado, reino da crueldade, transposto para o reino do amor: a máquina de lavar roupa abraçada ao flamboyant, núpcias da flauta e do ovo, a betoneira com o sagüi ou com o vestido de baile. E o supra-realismo, justificado espiritualmente, será uma chave para o mundo.

Completado o ciclo histórico, os bens serão repartidos por si mesmos entre nossos irmãos, isto é, com todos os viventes e elementos da terra, água, ar e alma. Não haverá mais cartas de cobrança, de descompostura nem de suicídio. O correio só transportará correspondência gentil, de preferência postais de Chagall, em que noivos e burrinhos circulam na atmosfera, pastando flores; toda pintura, inclusive o borrão, estará a serviço do entendimento afetuoso. A crítica de arte se dissolverá jovialmente, a menos que prefira tomar a forma de um sininho cristalino, a badalar sem erudição nem pretensão, celebrando o Advento.

A poesia escrita se identificará com o perfume das moitas antes do amanhecer, despojando-se do uso do som. Para que livros? perguntará um anjo e, sorrindo, mostrará a terra impressa com as tintas do sol e das galáxias, aberta à maneira de um livro.

A música permanecerá a mesma, tal qual Palestrina e Mozart a deixaram; equívocos e divertimentos musicais serão arquivados, sem humilhação para ninguém.

Com economia para os povos desaparecerão suavemente classes armadas e semi-armadas, repartições arrecadadoras, polícia e fiscais de toda espécie. Uma palavra será descoberta no dicionário: paz.

O trabalho deixará de ser imposição para constituir o sentido natural da vida, sob a jurisdição desses incansáveis trabalhadores, que são os lírios do campo. Salário de cada um: a alegria que tiver merecido. Nem juntas de conciliação nem tribunais de justiça, pois tudo estará conciliado na ordem do amor.

Todo mundo se rirá do dinheiro e das arcas que o guardavam, e que passarão a depósito de doces, para visitas. Haverá dois jardins para cada habitante, um exterior, outro interior, comunicando-se por um atalho invisível.

A morte não será procurada nem esquivada, e o homem compreenderá a existência da noite, como já compreendera a da manhã.

O mundo será administrado exclusivamente pelas crianças, e elas farão o que bem entenderem das restantes instituições caducas, a Universidade inclusive.

E será Natal para sempre.


Texto extraído do livro "Cadeira de Balanço", Livraria José Olympio Editora - Rio de Janeiro, 1972, pág. 52.
http://www.releituras.com/drummond_organizanatal.asp