sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Festival Pan-Africano de Cinema tem sua primeira mostra brasileira

Festival Pan-Africano de Cinema tem sua primeira mostra brasileira

Monique Cardoso, Jornal do Brasil

http://jbonline.terra.com.br/nextra/2009/02/26/e260217011.asp

RIO - A cerimônia de abertura começa com discursos do presidente e de ministros diante de um estádio de futebol, com capacidade para mais de 40 mil pessoas, lotado. Pelos telões, o público vê as delegações de diversos países sendo apresentadas, no início de uma competição que dura quase duas semanas. Olimpíada? Não. Mais uma dica: o palco é um país da África. Copa do Mundo? Também não. É o Festival Pan-Africano de Cinema, o Fespaco, que começa neste sábado e tem, este ano, sua primeira mostra de cinema brasileiro.

O festival, que acontece em Burkina Fasso, tem 40 anos e 21 edições. Conhecido como Cannes da África, dele pouco se ouviu falar no Brasil, a segunda nação do mundo em população negra, depois da Nigéria. A resposta para tamanho desconhecimento, o ator e diretor brasileiro Zózimo Bulbul (Terra em transe, Ganga Zumba), que está levando 21 filmes brasileiros (longas, médias e curtas) de cineastas afro-descendentes para lá, tem na ponta da língua.

– Na Europa, a África está nos noticiários, todo mundo sabe o que se passa por lá, e não falo de guerra e refugiados. A gente tem 60% de população negra e por aqui o continente parece não existir – indigna-se Bulbul. – Falta intercâmbio entre os países africanos e o Brasil, tanto comercial como cultural. O abismo é inexplicável.

Entre os filmes, cinco são longas e todos enfocam, por diversos ângulos, a presença da cultura negra no Brasil: Filhas do vento e Cinderelas, lobos e um príncipe encantado, ambos de Joel Zito Araújo; Abdias Nascimento - Memória negra, de Antonio Olavo; Abolição, do próprio Bulbul; e Bom dia eternidade, de Rogério Moura. Também serão exibidas duas produções para TV. Uma delas é Tão perto, tão longe, de Paulo Betti e da documentarista inglesa radicada no Rio Vick Birkbeck. Trata-se de uma coprodução para o Canal Brasil rodada no próprio festival em 2007 que acaba de ser finalizada e terá sua primeira projeção.

– Na África eles conhecem muito do cinema brasileiro dos anos 60 e 70, discutem com propriedades filmes como Terra em transe, Os fuzis e Barravento. E são interessadíssimos no cinema latino – diz Bulbul, que conheceu o Fespaco em 1997 e trouxe ao Brasil, no ano passado, o diretor do evento para a segunda edição do Encontro de Cinema Negro Brasil-África. – É impressionante ver como a África está se fazendo conhecer pelo cinema, como fez a Índia e a China. Eles estão muito interessados em saber como a cultura deles é representada nos lugares para onde os negros foram levados séculos atrás.

Ex-colônia francesa, que faz fronteira com o Mali, Gana, Costa do Marfim, Togo, entre outros países, Burkina Faso estava, em 2006, em último lugar no ranking de Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) da ONU. Sem litoral, no meio do Sahel, é um dos países mais pobres do mundo. Devido ao analfabetismo, o cinema acabou se tornando, ao lado da música, uma das principais formas de consumo cultural. Bulbul quer registrar em vídeo a recepção dos filmes brasileiros e também fazer entrevistas não só com participantes do festival, mas também com integrantes da sociedade local:

– Pretendo elaborar um documento sobre este intercâmbio e distribuir aqui para conseguirmos estreitar o diálogo com a África.

Danny Glover no meio-fio

A comitiva reúne 12 cineastas afro-brasileiros, a atriz Zezé Motta e o secretário do audiovisual Silvio Da-Rin. O único diretor de pele clara a acompanhar o grupo é Paulo Betti. Ele exibiu, na última edição do Fespaco, há dois anos, seu longa Cafundó. Agora, volta para mostrar um filme feito lá. A idéia de rodar um documentário em Burkina Faso surgiu na porta da casa de sua infância, em Sorocaba (SP), hoje sede da instituição Quilombinhos, que atende crianças carentes. De lá saem, todo carnaval, cortejos e blocos à moda antiga, com tambores, maracatus.

– Estava com a passagem na mão. Mas o desfile das crianças naquele ano me impressionou tanto que eu pensava que já estava na própria África – lembra Betti. – Tinha certeza de que conhecia aquele mundo. Até que pouco antes de embarcar encontrei o Eduardo Escorel e ele me perguntou: “Já tomou vacina?”. Então me toquei que não era tão parecido assim.

Tão longe, tão perto registra semelhanças e diferenças entre a cultura brasileira e a africana, além de promover comparações entre a vida nos dois países. Traz ainda entrevistas com artistas e cineastas de diversos países. Na volta ao Brasil, Betti conheceu Vicky, que também tinha vasto material rodado na Fespaco. Os dois resolveram reunir tudo numa produção só, que depois de estrear em Burkina Faso será exibida, ainda neste semestre, no Canal Brasil, dividido em três episódios.

– Fiquei muito impressionado com aquele festival, com a qualidade das projeções. Tambores chamam para as sessões. Não tem jogo de poder, vaidade... É como o um Fórum Social Mundial do cinema – compara Betti. – O cinema africano tem se mostrado muito combativo, voltado para questões importantes. Não tem essa coisa de gente engomadinha. Lá você vê o Danny Glover sentado no meio-fio, conversando com todo mundo.


20:44 - 26/02/2009


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quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Mia Couto - Venenos de Deus, remédios do Diabo (resenha)

por Ricardo Riso

O prazer e a curiosidade motivam a travessia das cento e oitenta e oito páginas do recente lançamento de Mia Couto: Venenos de Deus, remédios do Diabo (Rio de Janeiro: Companhia das Letras, 2008). Exímio contador de história que é, Mia Couto neste novo romance instiga o leitor com uma história recheada por personagens complexos e intrigantes, levando-nos à Vila Cacimba, distante cidade de sua Moçambique. Cidade em que nada é exatamente como deve ser nem seus moradores são e dizem o que realmente são, o que logo nos remete à inversão proposta pelo título do livro, e é nessa relação de troca de papéis que se calcará a história.

Sidónio Rosa, ou Sidonho, o protagonista do romance é um médico que resolve ir para Vila Cacimba para prestar serviços em uma organização internacional, mas com o intuito de reencontrar Deolinda, uma mulher que conheceu em Portugal, filha de Bartolomeu Sozinho e sua esposa Munda. No vilarejo depara-se com uma doença misteriosa que ataca os soldados estrangeiros, os “tresandarilhos”, em sua maioria.

Para sua surpresa, não encontra Deolinda, todavia, é informado pelos pais que ela está no estrangeiro fazendo cursos de aperfeiçoamento, porém seu retorno é ignorado. Contudo, Sidónio recebe cartas de Deolinda pelas mãos de sua mãe, Munda, deixando-o desconfiado com a chegada misteriosa das cartas:

– Quem são esses misteriosos mensageiros que trazem as cartas de Deolinda? Quem são eles que ninguém os vê?
– O senhor quer saber muito, Doutor. São familiares. O senhor sabe, aqui, em África, todos são familiares. (p. 47)

Nas cartas, Deolinda pede para que Sidónio dê assistência aos seus pais, papel que o médico presta, mas com a intenção de adquirir a confiança dos pais de sua amada. Com isso, o médico começa a conviver com os Sozinhos, outras pessoas do vilarejo e seus estranhos hábitos, esperançoso em rever sua paixão o mais breve possível. Essa relação de troca de favores remete-nos aos tempos coloniais que se perpetuam no pós-independência em razão da miséria vivenciada pela maioria da população, fazendo com que o estrangeiro procure comprar a confiança das pessoas com o seu dinheiro, enquanto os pobres aceitam o papel de vítima e assim obter o máximo proveito com a ajuda externa.

É no desenrolar da espera de Sidónio que vamos conhecendo a complexidade dos personagens a começar por Bartolomeu Sozinho, um ancião negro saudoso da época colonial. Dos anos 1960 até a independência em 1975, viveu a bordo do transatlântico Infante D. Henrique da Companhia de Navegação Colonial cumprindo a função de mecânico. Bartolomeu orgulhava-se de ser o único negro da tripulação, mas a independência do país coincidiu com a quebra e a inutilização da embarcação. Assim como o navio, Bartolomeu também se sente fora de uso e enclausura-se no quarto de sua casa, saudoso dos tempos coloniais.

Na casa, Bartolomeu vive com sua esposa Munda uma relação conflituosa, confusa e de dependência entre eles: “Já não temos outra coisa para fazer. Sabe o que penso, Doutor? A zanga é a nossa jura de amor” (p.10). Munda esconde mistérios a respeito do paradeiro da sua filha Deolinda e sobre o que aconteceu no passado entre sua filha e o pai, sugerindo uma relação incestuosa a Sidónio Rosa, fato que a leva a planejar a morte do marido e ao mesmo tempo prestar-lhe toda a assistência médica.

Um outro personagem de destaque é o antagonista de Bartolomeu, o administrador de Vila Cacimba, Alfredo Suacelência. A princípio, Bartolomeu revela-nos que o administrador é uma pessoa corrupta como todos os políticos de Moçambique, impressão reforçada pela conduta de Suacelência que se vale da influência do cargo para manipular situações e oprimir pessoas:

– Pois mandei chamá-lo – repete enfaticamente o anfitrião – para conversarmos sobre a situação da Vila. E tinha que ser aqui, no conforto da minha casa. (p. 67)
– Eu não bebo outra coisa, para mim whisky é a única coisa que existe. (p. 68)
serve-se generosamente e, mais generosamente ainda, emborca, de uma assentada, um copo inteiro. Volta a encher o copo, ao mesmo tempo que desaperta o cinto e esfrega a barriga deixada a descoberto. Um poderoso arroto mistura-se com a voz e o administrador é forçado a repetir a fala:
– Sabia que eu posso mandá-lo prender, Doutor?
– Sei.
– Fica preso e ninguém sabe de nada. Aqui em Vila Cacimba é muito longe, não há embaixadas, consulados, jornalistas... (p. 71)

A rivalidade entre Bartolomeu e Suacelência é interessante por retratar Moçambique antes e depois da independência. Bartolomeu possuía posição de destaque por trabalhar no transatlântico supracitado durante o colonialismo, fato que era desprezado pelo administrador recordando um importante momento da hipocrisia da ditadura salazarista que tentava convencer a opinião pública internacional que não havia racismo nas colônias portuguesas:

O administrador fazia pouco das suas glórias marítimas. Quando Bartolomeu desembarcava do Infante D. Henrique, as pessoas olhavam-no como um herói que vencera horizontes. Suacelência minimizava-lhe os feitos: “Ora, esses colonos precisam de um preto decorativo”. Não era por méritos próprios que o mecânico negro seguia no navio. Ele era tripulante apenas como instrumento de uma mentira: de que não havia racismo no império lusitano. (p. 26)

Todavia, Suacelência soube manipular a seu favor a sua não permanência na embarcação e a recusa em submeter-se aos portugueses, o que era bastante prestigiado na década de 1960, quando começou guerra colonial em Moçambique (1964) alçando-o aos cargos burocráticos após o país ter se tornado independente. Suacelência também era tripulante do navio, mas ao ficar gravemente doente, necessitou abandonar a embarcação para maiores cuidados na então capital Lourenço Marques, atual Maputo. A partir daí, surgiu a sua revolta com Bartolomeu:

O jovem Suacelência demorou-se na capital e, quando regressou à sua terra natal, trouxe consigo uma versão heróica da sua passagem pelo navio. Que ele tinha sido expulso do transatlântico por razões patrióticas. Ele, Suacelência, filho e neto da linhagem Susiweia, tinha capitaneado uma revolta à moda do assalto do Santa Maria, por Henrique Galvão. A revolta abortara – em parte pela conveniência de Bartolomeu para com os portugueses – e Suacelência tinha sido lançado ao mar. Salvara-se graças à ajuda de uns pescadores que o trouxeram para a praia. (p. 72)

Entretanto, a complexidade de Suacelência surge quando fala de sua relação com o partido: “– A minha vida não é muito feliz, o senhor sabe? (...) Sabe o que acontece no final? Acabo dizendo mal do meu partido” (p. 71). Depois, ficamos sabendo que Suacelência é um personagem que, de certa maneira, possui um bom caráter que esbarrou diante de interesses escusos, típicos de um país mergulhado em corrupção e em favorecimentos tanto particulares quanto a grandes corporações:

Suacelência tinha sido demitido do cargo. Sem razão, nem motivo nem explicação. A medida fora tomada enquanto o Administrador recebia tratamento na cidade. (p. 161)
O que tinha ocorrido era simples, no dizer de Suacelência. Ele se tinha oposto ao descontrolado abate de madeira, sem saber que o negócio era desenvolvido por uma empresa de um político poderoso. (p.171)

Esta personagem ainda nos surpreenderá com a generosidade ao gastar suas economias para realizar o último desejo de seu rival: que o seu enterro tivesse um barco para levar seu corpo até o cemitério – “Era um pedido louco, mas Suacelência iria cumprir. Caso ainda sobrasse dinheiro, talvez comprasse umas tintas e pintasse no casco do barco o nome Infante D. Henrique”. (p. 177)

Explorando a pluralidade étnica de Moçambique como na relação do casal Bartolomeu-Munda, ela mestiça e descendente de alemães, enquanto ele negro que contrariou a família ao escolhê-la para casar, gerando Deolinda que se apaixonou por um homem branco português, Sidónio, Mia procura demonstrar como a questão racial ainda é pertinente no país, geradora de conflitos e preconceitos ainda enraizados.

Em Venenos de Deus, remédios do Diabo, Mia Couto mantém-se fiel a sua consagrada fórmula de contrapor tradição e modernidade neste Moçambique do século XXI, em que não há curandeiros, pois Deolinda vai procurar um em outro país, no Zimbábue, a presença marcante de um médico, Sidónio (que não possui habilitação para tal), assim como a figura de Bartolomeu, presa ao passado colonial. Ainda deparamo-nos com problemas contemporâneos como casos de corrupção política, AIDS, incesto e aborto em um país que procura a melhor maneira de construir o seu caminho, e tem em Mia Couto um observador arguto a respeito do descompromisso político e à perniciosa ocidentalização das culturas locais.

Aproveitando-se do nevoeiro já proposto no nome do lugarejo, Vila Cacimba, Mia Couto utiliza com mestria a sua verve de ótimo contador de história para manter enevoada as vidas de seus personagens e o leitor é conduzido por imagens imprecisas, recheadas de verdades e mentiras que se confundem e se revelam no decorrer das páginas. E, assim, a partir da casa de Bartolomeu, tão doente quanto ele, metonímia de Moçambique, procurar denunciar e sanar seus males e apresentar um caminho menos conturbado para a nação. Tudo em excelente literatura.

domingo, 22 de fevereiro de 2009

Curso de Extensão "Brasil e África em Sala de Aula: conteúdos e recursos didáticos na perspectiva da Lei 11.645/08" - RJ

O Instituto Federal do Rio de Janeiro, ex CEFETQ, Campus São Gonçalo, está oferecendo Curso de Extensão: Brasil e África em Sala de Aula: conteúdos e recursos didáticos na perspectiva da Lei 11.645/08 - gratuito - visa auxiliar professores, estudantes de licenciaturas e militantes sociais, para que construam conhecimentos e aptidões visando a aplicabilidade da Lei 11.645/08.

O curso prioriza conteúdos didáticos e conhecimentos relativos às relações Brasil – África, assim como sobre a situação do afro-brasileiro na sociedade brasileira, numa perspectiva transdisciplinar.

O Curso está organizado em seis módulos; será oferecido no horário noturno, terças e quintas feiras, de 18:00 H às 22:00 H, nas dependências da Escola Municipal Ernani de Farias, sito à Rua Endereço: Rua Oliveira Botelho, s/nº, Neves − São Gonçalo, 5 Telefone para contato: (21) 2628-0099.

A carga horária total de 182 horas/aula está organizado em regime semestral para o desenvolvimento de aulas teóricas, oficinas e outras atividades pedagógicas.

Em cada semestre serão oferecidas disciplinas de mais de uma área das Ciências Humanas, assim como palestras de pesquisadores e militantes dos Movimentos Sociais. Os(as) professores responsáveis são mestres e doutores, em sua maioria.

Maiores informações: Coordenação de Extensão – Profª Rosalia Lemos – (21) 9997-9202 (período de recesso) e (21) 2628-0099.

ROSALIA LEMOS
Tel: (021) 2611-6725 / 9997-9202 / 8646-7734 / 8329-3092


Fonte: http://socursosgratis.blogspot.com/2009/02/curso-de-extensao-brasil-e-africa-em.html

Alma Carioca - Um Choro de Menino (curta)

Alma Carioca - Um Choro de Menino é um belo e emocionante animação do acervo do site www.portacurtas.com.br
Sinopse:
História de um menino que vive na zona portuária do Rio de Janeiro da década de 20 e testemunha o surgimento do Choro, quando encontra os grandes mestres pioneiros desse estilo puramente carioca.
Acesse o endereço abaixo:
Gênero Animação
Diretor William Côgo
Ano 2002
Duração 5 min
Cor Colorido
Bitola Vídeo
País Brasil
Ficha Técnica
Produção Labareda Design Roteiro William Côgo Som Direto Youle Produções Direção de Arte William Côgo Empresa produtora Youle Produções Montagem Youle Produções Música Pixinguinha, Caio César
Festivais
Anima Mundi 2003
CineSul 2003
Festival Internacional de Curtas de São Paulo 2003
Gramado Cine Vídeo 2003

Luís Carlos Patraquim - Pneuma (livro)

«Há muitas formas de se entrar e outras tantas de sair deste belíssimo Pneuma. E uma delas é bem clara: Luís Carlos Patraquim vive no delta da língua portuguesa. Entre Pasárgada e Inhambane. Como um de seus poetas mais completos e mais inspirados.» Marco Lucchesi

Luís Carlos Patraquim nasceu em Lourenço Marques (actual Maputo), Moçambique, em 1953. Colaborador do jornal A Voz de Moçambique, refugia-se na Suécia em 1973. Regressa ao país em Janeiro de 1975, integrando os quadros do jornal A Tribuna. Membro do núcleo fundador da AIM (Agência de Informação de Moçambique) e do Instituto Nacional de Cinema onde se mantém, de 1977 a 1986, como roteirista/argumentista e redactor do jornal cinematográfico Kuxa Kanema. Criador e coordenador da «Gazeta de Artes e Letras» (1984-1986) da revista Tempo. Desde 1986 residente em Lisboa, colabora na imprensa moçambicana e portuguesa, em roteiros para cinema e escreve para teatro. Foi consultor para a Lusofonia do programa Acontece, de Carlos Pinto Coelho, e é comentador na RDP-África.

Género(s): Literatura/ Poesia
Acabamento: brochado
Dimensão: 13,4x21 cm
Páginas: 80
Colecção: «Outras Margens», n.º 0
Código: 93.000
ISBN: 978-972-21-2026-5
1.ª edição: Fevereiro 2009
Data: Fevereiro 2009
Preço: 14,99 €

Fonte: http://html.editorial-caminho.pt/show_produto__q1obj_--_3D72477__--_3D_area_--_3Dcatalogo__q236__q30__q41__q5.htm

sábado, 21 de fevereiro de 2009

II ESPELHO ATLÂNTICO - MOSTRA DE CINEMA DA ÁFRICA E DA DIÁSPORA (Caixa Cultural/RJ)


II ESPELHO ATLÂNTICO - MOSTRA DE CINEMA DA ÁFRICA E DA DIÁSPORA - 03 A 08 DE MARÇO.

Em parceria com o African Film Festival, de Nova York, a mostra traz um panorama contemporâneo de filmes que refletem a herança do continente africano.

A II Espelho Atlântico - Mostra de cinema da África e da Diáspora, com direção geral da cineasta Lilian Solá Santiago, traz mais uma vez ao Rio de Janeiro sua primorosa seleção de filmes africanos e da diáspora negra.

A mostra proporcionará uma abordagem atual e significativa tanto da produção cinematográfica africana contemporânea quanto a realizada fora do continente, mas que dialoga diretamente com a herança cultural do continente africano.

Para a curadoria dos filmes internacionais a Mostra conta com a parceria da organização sem fins lucrativos AFF – African Film Festival, que contribui para a realização de importantes eventos culturais internacionais, todos de divulgação do cinema africano e da diáspora. Entre esses eventos, podemos destacar a realização do festival de cinema FESPASCO – Festival PanAfricano de Cinema e Televisão de Ouagadougou, o mais importante do continente africano, em Burkina Faso, e do Sidney African Film Festival, na Austrália.

A II Espelho Atlântico - Mostra de cinema da África e da Diáspora será uma oportunidade única de assistir a importantes títulos de um acervo praticamente inédito no Brasil, capaz de fomentar discussões e ampliar nosso conhecimento da diversidade cultural do vasto continente africano e de seus descendentes pelo mundo, propondo um novo caminho para a leitura e identificação com a identidade africana por parte do público brasileiro.

PROGRAMAÇÃO – Sempre às 19h

Dia 03
O jardim de outro homem - Dir.: João Luis Sol de Carvalho
(Moçambique/ Portugal/ França, 2006, 80 min.) - (*12 anos)
Maior produção cinematográfica moçambicana realizada até agora, "O Jardim de outro homem" retrata o cotidiano de uma jovem estudante que enfrenta muitas dificuldades para realizar seu maior sonho: tornar-se médica. Na trama, Sol de Carvalho também denuncia a presença da Aids na sociedade local. Indicado ao 3º Cineport, em 2007, na categoria melhor filme.


Cabo Verde, meu amor - Dir: Ana Lisboa
(Portugal/ França/ Cabo Verde, 2007, 76 min.) - (* 12 anos)
A condição feminina em Cabo Verde na atualidade é o foco principal deste primeiro longa metragem da cineasta Ana Lisboa. Falado em crioulo cabo-verdiano, foi totalmente rodado na Cidade da Praia com um vasto elenco de atores amadores. Primeiro filme realizado e produzido em Cabo Verde, por cabo-verdianos.


Dia 04
Bafata Blues - Dir: Babetida Sadjo
(Guiné Bissau, 2007, 26 min)
Em dezembro de 2004, Babetida volta ao país pela primeira vez desde 8 anos, após viver 13 anos em vários lugares da África, 4 anos no Vietnã e residir na Bélgica, desde 2000. Ela reencontra uma aldeia, um passado, uma família. O filme retrata de modo intimista esse reencontro com seu país de origem, comentado sobre a forma de um livro de viagens.


O Comboio da Canhoca - Dir: Orlando Fortunato
(Angola / Portugal/ França / Tunísia/ Marrocos, 2005, 90 min.) - (*10 anos)
O filme descreve a luta pela sobrevivência de um grupo de angolanos detidos pelas autoridades coloniais portuguesas na província de Malanje. Durante cinco dias, os homens detidos são esquecidos no vagão e chegam a se acusar de traição e morte.


Dia 05
Ossudo - Dir: Júlio Alves
(Portugal, 2007, 14 min.)
Baseado no conto "Ossos", do famoso escritor moçambicano Mia Couto, este filme é uma história de amor entre duas pessoas desamparadas. Participou de mais de vinte festivais pelo mundo. Recebeu, entre outros, o Troféu de Melhor Filme Português e o Troféu Ouro Animação no 36º Festival Internacional do Algarve.


Cinderelas, lobos e um príncipe encantado - Dir: Joel Zito Araújo
(Brasil, 2008, 107 min.) - (*12 anos)
O filme vai do nordeste brasileiro a Berlim, buscando entender os imaginários sexuais e raciais de jovens, que se arriscam num caminho até a Europa, para mudar de vida ou encontrar seu príncipe encantado, e que compõem uma realidade de 900 pessoas traficadas para fins de exploração sexual e 1,8 milhões de crianças vítimas de pornografia e turismo sexual.


Dia 06
O som e o resto - Dir: André Lavaquial
(Brasil, 2007, 23min)
Jahir é um virtuoso baterista carioca que toca numa banda evangélica. Ao se indispor com o pastor da igreja, se vê sozinho na rua com seu instrumento e inicia uma jornada existencial rumo à sua música. Participou de importantes festivais internacionais e, em 2008, foi o único curta-metragem brasileiro a conquistar uma vaga do Festival de Cannes, na seção Cinéfondation.


Cariocas - Dir: Ariel de Bigault
(França, 1989, 57 min.)
"Cariocas" mostra diversas facetas do samba no Rio de Janeiro. Grande Otelo, nos guia ao encontro dos grandes músicos da cidade. Realizado originalmente para a TV francesa, conta com importantes depoimentos de Martinho da Vila, Paulo Moura, Velha Guarda da Portela, Nelson Sargento, Wilson Moreira, e Joel Rufino dos Santos.


Dia 07
Doze Discípulos de Nelson Mandela - Dir: Thomas Allen Harris
(EUA/ África do Sul, 2005, 75 min.)
O filme mostra o encontro de 12 amigos que deixaram a cidade de Bloemfontein (África do Sul) nos anos 60 para montar o Congresso Nacional Africano com Nelson Mandela. Com entrevistas, material de arquivo e reconstituições dramáticas, Harris recria essa importante história. Vencedor do Festival de filmes de Pan Africanos de Los Angeles, na categoria melhor documentário, em 2006.


Adeus, até amanhã - Dir: Antonio Escudeiro
(Portugal/ Angola, 2007, 60 min.)
Antonio Escudeiro é conhecido com diretor de fotografia. Forçado a sair de Angola contra sua vontade, a volta só acontece trinta e dois anos mais tarde. O filme é uma viagem pelo tempo, pelas belas paisagens da África e pelas recordações do diretor. Selecionado para a competição o último DocLisboa – Festival Internacional de Cinema Documental de Lisboa.


Dia 08
Graffiti - Dir: Lílian Solá Santiago
(Brasil, 2008, 10 min.) - (* 10 anos)
São Paulo é a cidade mais grafitada do mundo. "Graffiti" acompanha o rolê solitário de Alê numa das noites mais sinistras que essa cidade já viveu. O que o move a enfrentar as ruas nessa noite? Ganhador do Prêmio Estímulo ao Curta-Metragem (2006), do Governo do Estado de São Paulo, o filme é a estréia na ficção desta premiada documentarista. Com Sidney Santiago e Chico Santo.


Esperando os homens - Dir: Katy Lena Ndiaye
(Senegal/ Mauritânia/ Bélgica, 2007, 56 min.) - (*12 anos)
Em Hassania, no abrigo de Oualata, uma cidade vermelha na fronteira distante do deserto de Sahara, três mulheres praticam pintura tradicional decorando as paredes da cidade. Em uma sociedade dominada pela tradição, pela religião e pelos homens, estas mulheres expressam-se livremente, discutindo o relacionamento entre homens e mulheres. Presente em mais de 20 festivais internacionais.

Classificação etária livre: exceto quanto indicado *

SERVIÇO:
CAIXA Cultural RJ – Cinema 1 e 2
Av. Almirante Barroso, 25 – Centro
(ao lado da estação Carioca do metrô)
Tel.: 2544.4080
Ingressos: R$ 4,00 RS 2,00 (meia entrada)
Acesso para portadores de necessidades especiais


CONCEPÇÃO E COORDENAÇÃO GERAL
Lilian Solá Santiago, cineasta premiada no Brasil e no Exterior, têm entre seus trabalhos mais recentes o filme curta-metragem "Graffiti" (2008), ganhador do Prêmio Estímulo ao Curta-Metragem de São Paulo, que também está presente na Mostra.
Seu documentário "Balé de Pé no Chão – a dança afro de Mercedes Baptista" (2006, com Marianna Monteiro) recebeu, entre outras importantes premiações, o prêmio de Melhor Documentário no I Festival de Cinema Brasileiro de Hollywood (fev/2009).
Lilian também produziu e dirigiu o premiado filme documentário "Família Alcântara" (2004, com Daniel Santiago) e, como produtora executiva e assistente de produção, colaborou em vários filmes da retomada do cinema brasileiro, como "Latitude Zero", de Toni Venturi, "Ed Mort" de Alain Fresnot, "Os Matadores", de Beto Brant, entre outros.
Historiadora e Mestre em Integração da América Latina pela Universidade de São Paulo, têm atuado como docente de produção e direção audiovisual em importantes instituições educacionais.
Em 2006, ganhou o prêmio "Zumbi dos Palmares", conferido pela Assembléia Legislativa de São Paulo e o "Prêmio Cooperifa", da Cooperativa Cultural da Periferia, por sua destacada atuação artística em projetos que resgatam e revelam importantes facetas da cultura afro-brasileira e da diáspora.


*Informações enviadas gentilmente pela amiga Denise G. Santos.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Partido Alto (curta) com Candeia, Manacéia e Paulinho da Viola

O carnaval aproxima-se, por isso um curta de uma época do samba que já parece ser muito distante. Neste curta, com direção de Leon Hirszman, Candeia, em um fundo de quintal, apresenta as variações do partido alto, instrumentos de percurssão utilizados e formas de dançar. Em seguida, uma reunião de partido alto na casa de Manacéia com comentários de Paulinho da Viola a respeito da crescente e perigosa perda de raízes do samba, no início da década de 1980.
"Partido Alto", o curta, é um documento histórico por registrar uma maneira de tocar que se foi com o tempo.
Ricardo Riso
Para ver o curta, clique em
Partido Alto
Gênero Documentário
Diretor Leon Hirszman
Elenco Candeia, Manacéia, Paulinho da Viola
Ano 1982
Duração 22 min
Cor Colorido
Bitola 16mm
País Brasil

Com raízes na batucada baiana, o partido alto sofre variações porque, ao contrário do samba comprometido com o espetáculo, é uma forma livre de expressão e comunicação imediata, com versos simples e improvisados, de acordo com a inspiração de cada um. Partido Alto é uma forma de comunhão, reunindo sambistas em qualquer lugar e hora pelo simples prazer de se divertir.

Ficha Técnica
Fotografia Lúcio Kodato, Leon Hirszman
Empresa produtora Embrafilme
Montagem Alain Fresnot

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Mia Couto - O fio das missangas (livro)


O FIO DAS MISSANGAS (Contos)
Mia Couto

Editora Companhia das Letras


"A missanga, todos a veem. Ninguém nota o fio que, em colar vistoso, vai compondo as missangas. Também assim é a voz do poeta: um fio de silêncio costurando o tempo."


"A vida é um colar. Eu dou o fio, as mulheres dão as missangas. São sempre tantas as missangas." É assim que o donjuanesco personagem do conto "O fio e as missangas" define a sua existência.
Fazendo jus a essa delicada metáfora, cada uma das 29 histórias aqui agrupadas alia sua carga poética singular à forma abrangente do livro como um todo - vale dizer, ao colar em questão. Com um texto de intensidade ficcional e condensação formal raras na literatura contemporânea, Mia Couto demora-se em lirismos que a sua maestria de ourives da língua consegue extrair de uma escrita simples, calcada em grande parte na fala do homem da sua terra, Moçambique, um pouco à maneira de Guimarães Rosa, ídolo confesso do autor.
A brevidade das pequenas tramas e sua aparente desimportância épica estão focadas na contemplação de situações, de personagens, ou simples estados de espírito plenos de significados implícitos, procedimento típico da poesia. Os neologismos do autor, a que os leitores já se habituaram, para além de mera experimentação formalista revelam-se chaves fundamentais de interpretação da leitura.
Não por acaso, a maioria dos contos de O fio das missangas adentram com fina sensibilidade o universo feminino, dando voz e tessitura a almas condenadas à não-existência, ao esquecimento. Como objetos descartados, uma vez esgotado seu valor de uso, as mulheres são aqui equiparadas ora a uma saia velha, ora a um cesto de comida, ora, justamente, a um fio de missangas. "Agora, estou sentada olhando a saia rodada, a saia amarfanhosa, almarrotada. E parece que me sento sobre a minha própria vida", diz a narradora de uma dessas belíssimas "missangas" literárias.

Capa Rita da Costa Aguiar
Páginas 152
Formato 14,00 x 21,00 cm
Peso 0,225 kg
Acabamento Brochura
Lançamento 30/01/2009
ISBN 9788535913811
Preço R$ 34,00
Fonte: http://www.companhiadasletras.com.br/

domingo, 15 de fevereiro de 2009

It's better to burn out than to fade away


It's better to burn out than to fade away
acrílica s/tela - 113 x 77 cm - 2003 (Ricardo Riso - coleção particular)
Não entendo certas atitudes, situações, pessoas. Ando cansado com algumas passagens da vida.
Ricardo Riso

sábado, 14 de fevereiro de 2009

Ondjaki - Materiais para Confecção de Um Espanador de Tristezas (poesia)

...Segundo Paulinho Assunção (escritor brasileiro):

«Você pode imaginar uma esquina do mundo onde Ondjaki encontra Manoel de Barros, Luandino Vieira, Guimarães Rosa, Adélia Prado, Raduan Nassar. [...] Você também pode imaginar o que eu imagino ao ler este novo livro de Ondjaki. É um livro que tem um jeito de apalpar a língua como quem apalpa o dorso de um rio. Ou tem um jeito de escrever as palavras da língua como quem rumoreja sussurros para não assustá-las. E acho que o Ondjaki não tem medo de trazer para o seu livro os seus afetos todos literários. E faz bem o Ondjaki não ter medo disso porque é uma coisa muito bocó a gente esconder os afetos e as dívidas e os tributos aos que, também, como Ondjaki, gostam e gostaram de apalpar a polpa da língua como quem apalpa o dorso de uma fruta.»


Género(s): Literatura/ Poesia
Acabamento: brochado
Dimensão: 13,4x21 cm
Páginas: 88
Peso: 0 g Colecção: «Outras Margens», n.º 0
Código: 93.000
ISBN: 978-972-21-2029-6
1.ª edição: Fevereiro 2009
Data: Fevereiro 2009
Preço: 10,50 €

Fonte: http://html.editorial-caminho.pt/show_produto__q1obj_--_3D72478__--_3D_area_--_3Dcatalogo__q236__q30__q41__q5.htm



pequeno espanador de tristezas “[a derradeira confissão?]”

há qualquer coisa de lágrima numa celebração minha.

se soubesse aceitar a beleza das lágrimas não tinha que [me] explicar a origem delas e podia sorrir com as bochechas molhadas mais vezes sem as rugas.

às vezes uma celebração minha é uma timidez – um dia tenho que conseguir abandonar isso e elevar-me a lesma, gambozino, helibélula. acreditar no fio que o grilo ata às estrelas lá longe no universo vincado de negrume; emprestar a minha pele numa jangada quase a afundar; afastar nuvens que dançam nas peles do mar; soprar uma madrugada pra ela voltar a mim [ainda gostava de ter uma crise de asma por excesso de nuvens nos pulmões respiratórios].

sem ser só nas palavras vividas em poesia, pra mim a morte devia ser um voo dançado por um papagaio-pipa – eu quero ser a aragem desse voar. se morrer um dia vou celebrar a palavra morte com incensos e música cantada por andorinhas – a morte anda por aí à solta e a vida afinal parece é uma máscara...

«a palavra vida é maior que a palavra morte», disse-me o meu sobrinho tchiene hoje que ainda faltam dezasseis dias pra ele nascer.

quando ele chegar ao mundo vou mostrar-lhe uma garça gaga que encontrei num poema e me passou a gaguez dela. eu passei a gaguez toda pra uma tarde e foi bonito ver a tarde esticar-se porque não sabia bem como pronunciar o definitivo pôr-do-sol. a noite ficou extenuada – à espera de chegar.

há qualquer coisa de adélia na palavra fé. talvez porque ela seja uma mulher de palavras pesadas com tanta leveza e saiba cavalgar medos selvagens. há na obra dela manchas leves de infância – essa varicela foi muito manuseada por luuandino [o que viajava com intimidade pelas ruas de antigamente, passando por tetembuatubia, kinaxixi, makulusu, olhos das crianças, pássaros e peixes]. certa noite, no lubango, vi o joão vêncio pendurado numa estrela; ao pé da casa onde sonhei nesse serão havia uma represa que era doadora de ruídos bons – apadrinhados por sapos gordos. espreitei pela janela fechada e quase cometi o erro de olhar um gambozino nos olhos. fechei os olhos e abri a janela, limitei-me a olhar assim as estrelas brilhantes numa ternura interna que eu lembro pouco de frequentar [no lubango a ternura brota em mim sem cerimónias].

às vezes uma chuva molhada é uma coisa boa para escorregar momentos em direcção a mim. quando uma chuva molhada cai sobre o mundo redondo, as coisas da vida e a vida das coisas encontram-se num quintal vasto. foi sob uma chuva molhada em canduras que encontrei as barbas do meu pai num poema e o sorriso da minha mãe noutro. foi nas entrelinhas dum poema ensopado que encontrei, várias vezes, a autorização interna pra falar a palavra amor [vou tentar não apagar isto: eu tenho certo receio da palavra amor, espero só que ela não me tenha receios também; seria triste].

foi com as mãos sujas de restos de amor que estiquei uma madrugada. quando digo a palavra madrugada também sinto um esticão no coração. se agora abuso muito das madrugadas é porque cada uma delas tem restos de amor que eu sempre vou perdendo. qualquer dia acumulo esses restos todos e faço uma construção de amor [talvez chame uma mulher pra se encostar ao outro lado dessa construção]. a palavra amor pode ser um labirinto com mais de catorze lados avessos. depois de esticar uma madrugada encosto a madrugada na minha pele e espero. a pele gosta de ser esculpida de novo muitas vezes na vida.

se puser um «v» na palavra esticar, poderei estivar uma madrugada. aí elevo-me a estivador de madrugadas e posso pensar num caixote com luar, um caixote com geada, caixotes pesados de estrelas, caixotes de nuvens carregadas de pingos, um caixote hermético com lágrimas, uma caixinha de costura com restos concretos de amor.

as palavras são muito bonitas também porque têm significados cicatrizados nelas – falo a palavra kwanza e sou invadido pelas belezas de um rio e o sol todo a bater-lhe nas peles da água escura que ele tem. o rio transporta o barro e os peixes e nunca ninguém se queixou de cócegas. há qualquer coisa de jangada na palavra rio. liberdade seria abraçar um jacaré sem lhe apetecer provar-me. eu queria fazer festinhas na carcaça antiga de um jacaré mas se ele me fizer festinhas magoa-me. vou olhar o jacaré de longe e o rio de perto – provar as minhas mãos nele. a pele do rio tem mais espelho que a minha e que a do jacaré. o céu e o sol gostam de verter reflexos nas peles paradas do rio kwanza e eu gosto de saber isso com os meus olhos atónitos de humidade. ali onde o mar beija o rio a espuma celebra o evento com pássaros que perseguem peixes. assim a poesia seja salobra ou salgada.

seria bonito ver os mangais depositarem raízes num poema meu – era a minha maior alegria fluvial.

há qualquer coisa de sapiência na palavra tristeza. e algumas tristezas não são de espanar – um dia posso descobrir que elas me fazem falta e ter que ir buscá-las na lixeira da catin ton.

vou encher-me de silêncios e imitar as pedras. adormecer entre as pedras pode ser que me contagie delas. depois de conseguir ser pedra vou exercitar o sorriso dessa pedra que eu for. com esse sorriso vou iniciar uma construção...

uma construção pode bem ser o lado avesso de uma certa tristezura.


Fonte: http://www.kazukuta.com/LIVROS/espanador_de_tristezas.html