domingo, 5 de abril de 2009

Domi Chirongo, a nova literatura moçambicana

Domi Chirongo é um dos representantes da nova literatura moçambicana. Nasceu em 1975, ano da conquista da independência do país. Licenciado em Psicologia e Pedagogia, é membro do Sindicato Nacional dos Jornalistas (SNJ) e do Instituto de Comunicação Social da África Austral (MISA Moçambique).

Em literatura, Chirongo já publicou o romance “Um Pequeno XIDAMBANE Africano vítima das cheias”, seus poemas e contos encontram-se dispersos pela web. Além disso, o autor possui um blog onde encontramos vários poemas de sua autoria: http://www.domichirongo.blogspot.com/

Recebi de Domi Chirongo um conto e os poemas que seguem abaixo. O fortíssimo conto “Tiros ao alto” retrata o devastador cotidiano da guerra fratricida patrocinada criminosamente pela África do Sul e EUA que assolou Moçambique. De como a população de lugares ermos era atingida pela violência, obrigando-a viver em estado permanente de vigília e medo, mesmo durante as festas de final de ano. Enquanto a chegada deste sendo anunciada por tiros, metáfora de um conflito que se estenderia por longos anos, dilacerando os sonhos do povo moçambicano com as promessas não cumpridas com a independência, infelizmente.

O desencanto com os rumos tomados pela pátria no pós-independência está presente nos poemas em prosa de Chirongo. Amargura, melancolia, decepção, revolta, são marcas de um eu-liríco inconformado com o meio em que vive e faz do espaço do poema lugar de denúncia e reflexão das mazelas que impedem o desenvolvimento do país. Por outro lado, o eu-lírico interioriza-se, refugia-se em um erotismo libertador em poemas dedicados à Mulher e ao Amor, buscando no caminho ilimitado das letras substituir as agruras de uma vida de intensas dificuldades sociais e econômicas. Em seu blog, os poemas trilham por este caminho.

A presença de um eu-lírico de cariz existencial é marcante na poesia moçambicana, encontrando ecos na história poética do país. Apesar do predomínio, necessário, no que se configurou chamara de “poesia de combate” da luta revolucionária nos anos 1960/1970 e o “cantalutismo” do país independente, apreendemos sua presença em poetas como Virgílio de Lemos, Rui Knopfli, Fernando Couto e o José Craveirinha dos poemas dedicados à Maria. Na contemporaneidade Luís Carlos Patraquim, Eduardo White, entre outros, demonstram e solidificam a rica diversidade estética da produção atual sem afastar-se das críticas a uma realidade excludente e cada vez mais desumanizada.

Domi Chirongo, como representante da nova geração, parece comprometido com essa poesia, uma poesia atenta e descontente, entretanto, que ainda acredita na força utópica do Verbo e da própria poesia. Que o autor continue o seu caminho, se aprimore. Domi Chirongo, um nome para ser olhado com atenção.

Ricardo Riso

* As informações biográficas do autor foram enviadas pelo próprio e retiradas dos endereços abaixo:
http://www.african-writing.com/six/domichirongo.htm
http://aladecuervo.net/logogrifo/0605/chirongo.html

TIROS AO ALTO*

Poucos dias depois do 24 de Dezembro. O grande dia da família! Era noite. Meu pai tinha ido a confraternização do partido. Meus irmãos mais velhos tinham ido a uma banga. Em casa estavam: a minha mãe, os meus dois irmãos que sigo e eu. Lá fora tudo estava calmo.

A cidade era pacata e pacífica. Fria para um clima tropical. Não havia semáforos. Nem tráfego que justificasse. Taxi não havia. Machimbombo muito menos. O prédio mais alto tinha quatro andares. Estava um pouco distante do centro da cidade. Não me recordo duma avenida transformada em prostíbulo. Não havia Universidade. Em escadas rolantes então, nunca se havia pensado. Telemóvel, nem se sonhava que existiria. Computador, nem se imaginava. Não havia televisão. Escutávamos muito pouco a rádio. Da guerra sabíamos através de testemunhos vivos. Os nossos mortos trazidos e os estranhos abatidos. Havia também os capturados. Apresentados nos julgamentos públicos. Que acabavam com numerosas chambocadas ao vivo. Depois do discurso de arrependimento. Não me ocorre na mente alguém que tivesse sido linchado em público. Lembro-me, porém, de pessoas contando cenas piores, de rapazes obrigados a manter relações sexuais com as progenitoras. De pais obrigados a pilar os seus próprios filhos. De pessoas cortadas os lábios, alegadamente para se rirem eternamente. De mães obrigadas a cortar o nariz e as orelhas dos seus irmãos. Outros até a processos mais complexos, como cortar os membros inferiores e superiores. Tudo era por causa da guerra. Guerra que tinha outras causas!

Naquele quadro, para mim era fácil desenhar o arrependimento. Descrever um sonho. Não sei porquê, nunca cheguei a presenciar uma sessão de fuzilamento. Talvés por ser criança! Também não cheguei a perguntar aos meus pais. Nem a ninguém. Acho que nunca me importei. Das pessoas que conheci naquele tempo, não me recordo de ninguém da minha idade que tivesse assistido a um fuzilamento. Porém, a toda a hora falàvamos disso e muito mais.

As notícias circulavam na cidade através da oratura. Foi nesse contexto que soubemos quem era o Ministro da Justiça, do Interior, da Educação e Cultura, entre outros. Foi nesse contexto que soubemos da história do homem cobra. Foi nesse contexto que passamos a conviver com várias outras histórias locais. Foi também nesse contexto que perdemos muitos acontecimentos internacionais e nacionais. Um dia ainda contarei o perdido!

Como vos ia dizendo, a noite já tinha caído. Estàvamos alguns membros da família nuclear em casa. Estàvamos a escassas horas para sair de um ano, quando o som dos tiros começou a penetrar nos nossos tímpanos. Nunca nos tinha acontecido algo igual.

Os sons eram intensos, profundos, melancólicos, amargos e sem mensagem. Não se escutava som de granadas nas proximidades das nossas grades. Nem distante delas. Acredito que era som de “espera-pouco” dos filmes russos, intercalado com o de Makarov. Ah! De certeza AKM estava lá. A minha arma preferida! – O meu pai ensinou-me a manejar antes de eu ter dez anos de idade. Passei a gostar dela, apesar de nunca ter atirado a alguém.

Aquele dia apetecia-me pegar a AKM, que meu pai escondia no guarda-fato. Mas não era eu que dirigia as operações. E ainda não era uma situação extrema.

Placamos como meu pai nos havia preparado. Meus irmãos começaram a dizer a minha mãe e a mim algumas palavras de ordem. Lembro-me de nos terem informado do tratamento que os rebeldes gostariam de ter e não aquele nome de bandidos que era comum na cidade. Os meus irmãos tinham apreendido muito do discurso de arrependimento aquando dos julgamentos públicos. Compreendi naquele momento que o saber não era da escola. Nem era da Igreja. Muito menos dos Ritos de Iniciação.

Em pouco tempo tivemos uma preparação urgente para caso de sermos capturados. Não me lembro de ter tido uma licção concisa e clara em toda a minha vida. Naquele dia não choramos. Estàvamos firmes e dispostos a viver. Os gritos e tiros continuaram até ao amanhecer. A comida da nossa grande ceia ninguém tocou. Os nossos batuques, nossas marimbas e guitarras ninguém mexeu.

De madrugada, só de madrugada, chegaram os nossos irmãos mais velhos e o meu pai. Todos estavam bem animados. Tínhamos entrado num novo ano! O governo tinha decretado a autorização de uso de algumas armas de fogo nos festejos da passagem de ano, e só nós não sabíamos.
Domi Chirongo

POEMAS


SEGUNDA REPÚBLICA
No meio de discursos gratuítos e infrutíferos. Fui odeiado e velipendiado por trocar os três mosquiteiros pelos três tenores. Sim, sem questionar o presente d’então, deixei-me abraçar pelos ventos vindos até mim. E com os braços musculosos também envolvi profundamente aquela música. Num exercício intensamente romântico... Sim, jamais esquecerei aquele cenário! Hoje, eis-me aqui desarrependido, despido de cobardia, pronto p’ra ser cuspido e fuzilado por todos incoformados, adeptos incondicionais da hipocrisia e cinismo deste sítio.

PRESENTE
Assinando o nosso acordo de paz numa pátria dos outros, ninguém sabia deste presente e nem mesmo o ex-colono, admitindo mulheres no exército, imaginava o presente que se revela. Quem era eu filho? Quem era p’ra vaticinar as vidas armadilhadas nas esquinas diárias? Se realmente suspeitasse deste presente, teria substituído a metralhadora p’la caneta e papel higiénico. Quem sabe, talvés sairia menos sujo deste dinheiro presente.

RODA DE DANÇA
Antigamente fazíamos uma singela roda de gente. Em improviso entrava um a um dançando, tjambando. Ou um par. À imagem do ensaio, era substituído por outro par. Mais outro. Assim sucessivamente até a música terminar aplaudida por todos. Adolescentes lindos nós éramos! Antigamente a gente daqui era maravilhosa e simpática! Aqui era agradabelíssimo viver. Conviver. Beat estava a bater e muito bem! Hoje tudo mudou. A música baixou. Nossa face murchou. A roda parece machucada. Crianças, jovens, adultos, idosos, chacina na catedral de dança. Pneu p’ra abrandar o cheiro, petróleo p’ra acelerar o acto. Um casal linchado.


DORMIR ETERNO
O chão choramingão clamando, chamando por mim. Poeta silvestre. Declamador terrestre. Em cada desastre desta vida, abandonada por Deus e despida de toda moral conhecida! O chão choramingão, coercivo, chamando por mim, logo eu, bolas! Para um lugar incerto caminho. Não sei se correndo ou voando. Quem sabe gatinhando. Ou talvés rastejando para não ser rasteirado. Caminho. Não desejo caminhar, mas caminho.


ERRO HUMANO

Abra essa luminosa porta, amor. Deixa teu querido penetrar. Com jeito. P’ra desaguar o cansaço, brotado da jornada diária. Ingrata. Descompensada pelos berros do patrão. Salário desigual! Salafraio alimentando esta pobre cabeça desregularizada. Aliada natural do coração que te ama. Sofre meu corpo honesto. Erecto. Decidido. Determinado a felicidade até a exaustão. Abra a porta, porra! Esqueçamos os erros. Até mesmo os berros do patrão. Deixe-me aconchegado, amor.


LUSOAFINANDO

Quando axe atingiu o topo no Brasil, eu estava aqui sentado. Marrabentado até aos tímpanos. Com o pescoço saramingado, minguado pela pátria, via a via p’ra vila da felicidade transformar-se em sangue. Mas não era sangue. Era suor dos que ousaram desviajar em atmosferas virgens, mais puras que as maravilhosas ilhas nacionais. Outras até internacionais!


S/T
Estas são as cores do coração corajoso tropeçado em ti Pese embora ignores a essência delas Vale a pena chamar-te a razão Mais uma vez

O SIGNIFICADO
Atravessando a praça da Travessia do Zambeze, rapidamente o jardim, a heroína, o Hotel e o Museu te consomem. Mas por acaso saberás dizer quanto custa uma escrita desenraizada da realidade? Sabes, devias escutar a mescla de rimas ritmadas nas teclas d’alma que dão vigorosa vida ao coração. Oiça atentamente e terás o significado deste amor.


ÁGUIA D’OURO
Neste
galinheiro
águia
permaneço
preparado
p’ra amar.


S/T
Oásis do amor que hasteei em ti é um pêndulo. Guia-me na estrada vital, mais intelectual que qualquer bandeira.


TUA ...
Tua é a alma iluminando meus tristes caminhos. Não. Não posso ser inimigo dessa alma escondida em ti. Abre-te. É no teu corpo descoberto, onde encontro o indicador da felicidade. Por isso, sob o pretexto de combater o stress, tomei a forte decisão de entregar-te o meu coração.


* conto e poemas enviado por e-mail pelo autor às 5h42, dia 02 de abril de 2009.

Arco da Velha - blog de Tchalê Figueira

O amigo cabo-verdiano Tchalê Figueira acaba de me informar sobre o seu blog - http://tchale.blogspot.com/

Tchalê é escritor e artista plástico. Escreveu Ptolomeu e a sua viagem de circum-navegação e Solitário, além de crônicas, contos e poesias dispersas em jornais, antologias etc. Nas artes plásticas, sua obra é uma das mais consistentes do arquipélago. Em seu blog, temos contato com suas diversas facetas. Estão lá poemas, pinturas, contos e algumas reflexões sobre o país, as pessoas, a vida.

Recomendo a visita.

Abraços,
Ricardo Riso

sábado, 4 de abril de 2009

“GRIOTS” - I Colóquio de Culturas Africanas: Literatura, Linguagens, Memória, imaginário

“GRIOTS”
I Colóquio de Culturas Africanas:
[Literatura, Linguagens, Memória, imaginário]
Data: 25 a 27 de maio de 2009.
Horário: 9h às 12h
Local: Auditório do CCLH - Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN)
Mais Informações no Departamento de Letras
Fone 3215- 3282

Inscrições no site: www.ufrn.br/ufrn2/coloquioafricano

Apoio: UFRN, Núcleo Câmara Cascudo, Memorial Câmara Cascudo.
Realização: Departamento de Letras - UFRN
Fonte: e-mail enviado por Tania Lima, do Departamento de Letras da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN)

I Simpósio Brasil-África de Ensino Superior - UFPE

I Simpósio Brasil-África de Ensino Superior - UFPE

de 22 a 24 de abril de 2009

Local: Centro de Filosofia e Ciências Humanas e Centro de Educação - UFPE




Fonte: e-mail enviado pela colega Paula Santana às 15h05, dia 03 de abril de 2009.

quinta-feira, 2 de abril de 2009

A kitabu Livraria Negra, a editora União de Escritores Angolanos – UEA e a autora convidam para o lançamento de:

O Espaço do Oprimido nas Literaturas de Língua Portuguesa do Século XX: Graciliano Ramos, Alves Redol e Castro Soromenho.

de Jurema Oliveira

Local: Kitabu Livraria Negra
Data: 07.04.2009
Horário: 19:00
End: Rua Joaquim Silva, N. 17, loja – Lapa – RJ
Tel: 2252-0533

Local: Kitabu Livraria Negra
Data: 07.04.2009
Horário: 19:00
End: Rua Joaquim Silva, N. 17, loja – Lapa – RJ
Tel: 2252-0533

Fonte: e-mail enviado pela Kitabu – Livraria Negra às 12h48 do dia 02/04/2009

quarta-feira, 1 de abril de 2009

África e Africanidades - 5ª edição (chamada para artigos)

Prezados,

o quinto número da revista acadêmica África e Africanidades (http://www.africaeafricanidades.com/) estará disponível no dia 01 de maio. Artigos ou resenhas devem ser enviados para avaliação até o dia 10 de abril. As normas para publicação encontram-se no site da revista.

Abraços,
Ricardo Riso
(Conselho Editorial - África e Africanidades)

terça-feira, 31 de março de 2009

Nei Lopes - História e Cultura Africana e Afro-Brasileira

Terça-feira, Março 10, 2009

‘HISTÓRIA E CULTURA AFRICANA E AFRO-BRASILEIRA’ É DISPONIBILIZADA AOS ESTUDANTES BRASILEIROS PELA EDITORA BARSA PLANETA

BARSA lança seu primeiro livro didático. Obra trata exclusivamente do continente africano e de sua influência na história do Brasil

Especialista em cultura afro-brasileira, o pesquisador Nei Lopes assina a obra, indicada para professores e alunos dos ensinos fundamental e médio, além de público em geral. O livro contém Atividades, desenvolvidas pela escritora Carmen Lucia Campos

Apesar de o Brasil ser o País de maior população formada por afro-descendentes fora do continente africano, o País ainda é carente de informações sobre a história deste continente e de seu povo, principalmente, sobre as lutas e realizações dos herdeiros das tradições culturais africanas dos tempos remotos até os dias atuais. Por conta dessa relevância, o Ministério da Educação (MEC), sob a Lei Federal 10.639/03 instituiu que, a partir deste ano, 2009, as escolas de ensino fundamental e médio terão como obrigatoriedade temática a História do povo e do continente africano como conteúdo básico na grade curricular. A tiragem inicial é de 100.000 exemplares – destes, boa parte já vendida para diversos estados do Brasil.

Como reforço dessas diretrizes, a Editora Barsa Planeta lançou este mês o livro didático “História e Cultura Africana e Afro-Brasileira”, escrito por Nei Lopes, referência em pesquisa e material literário de temática africana no Brasil. Obra traz, também, conteúdo de atividades elaborado pela escritora Carmen Lucia Campos (biografia abaixo*). “Conhecer as origens é fundamental para a ampliação da consciência social e histórica do povo brasileiro (...) África, Europa e América percorreram juntas uma tormentosa trajetória, especialmente nos últimos cinco séculos. O futuro para barbárie ou para dar luz, também terá que ser construído em conjunto”, afirma o professor Amauri Pereira, grande incentivador das obras de Lopes.

A obra – que segue a nova ortografia da língua portuguesa – é composta por oito Unidades que explicitam, por meio de imagens, iconográficos, glossário e referências de filmes, livros e sites, todo processo de desenvolvimento da África, desde a origem dessa civilização no próprio continente à identidade afro-brasileira e o processo de formação brasileira a partir desses povos. “Ao longo de suas oito Unidades – que vão da História da África e a chegada dos negros ao Brasil às discussões atuais sobre a multiculturalidade no país –, este livro vem para promover o debate, dentro e fora da sala de aula, e para demonstrar o quanto o continente africano é fundamental para a formação do Brasil, tal o conhecemos hoje e nele vivemos”, afirma Nei Lopes.

Do ponto-de-vista histórico, o livro começa por narrar os feitos do continente, que foi o berço das civilizações, com o Egito representando o auge das conquistas humanas. No campo da ciência, para se ter uma ideia da importância do continente, a África é a única região onde se encontram ininterruptamente vestígios de todos os estágios do desenvolvimento humano. A cultura, por sua vez, também é considerada na obra. “A cultura tradicional africana não conhece a arte voltada apenas para o prazer estético. Nela, a ação artística tem sempre uma finalidade concreta. A música, por exemplo, quase sempre em conjunto com a dança, serve para invocar e louvar divindades, exaltar os feitos de um herói ou de um povo, suavizar um trabalho árduo ou manifestar um sentimento”, atesta Lopes.

Unidades:
1. História da África: Das civilizações e organizações pré-coloniais à intervenção europeia
2. Contribuições para o Brasil: Os povos africanos e a cultura afro-brasileira na construção do país
3. Os quilombos ontem e hoje: De Palmares às comunidades quilombolas remanescentes
4. Heranças culturais: Manifestações fundamentais para a formação do Brasil
5. Ancestralidade e religiosidade: A alma da África no Brasil e o entendimento dos sincretismos
6. Abolicionismo e Lei Áurea: Da rebeldia escrava à abolição e suas consequências nos dias atuais
7. Fim do escravismo: Da discriminação e exclusão à luta pela igualdade e representatividade
8. Identidade afro-brasileira: O mito da democracia racial e a defesa de ações afirmativas

Carmen Lucia Campos é licenciada em Letras pela USP. Editora e consultora editorial, é também organizadora de quatro antologias literárias e autora de 15 obras de ficção para crianças e jovens. Em seus textos, mesclando ficção e realidade, Carmen costuma abordar a identidade racial e a questão das diferenças, como fez nos livros Não tem Dois Iguais (2005) e A Cor do Preconceito (2006).

Barsa Planeta – Um compromisso com a América Latina:
Fundada em 1949, a Barsa Planeta é uma divisão de venda direta do Grupo Planeta. A Editora, localizada na zona oeste da cidade de São Paulo, tem por missão levar conhecimento e cultura aos lares e é conhecida por seu amplo catálogo, nas línguas portuguesa e espanhola, com títulos de interesse geral, por sua qualidade editorial, sua diferenciada forma de venda door to door por meio de seus assessores culturais, além do engajamento com as novas tecnologias como multimídia e Internet, disponibilizada aos seus clientes. A credibilidade da Barsa Planeta faz com que suas obras sejam adotadas em milhões de lares espalhados pela América Latina, bem como sejam utilizadas em bibliotecas e no acervo de renomadas universidades.

Qualidade Barsa:
As obras são todas produzidas com encadernações resistentes e papel de altíssima qualidade, feitas para durar muitos e muitos anos. A missão da empresa é colaborar no desenvolvimento educacional da nação brasileira.

História e Cultura Africana e Afro-Brasileira, Nei Lopes
1 volume, 144 páginas 20 x 26 cm.
www.barsasaber.com ou 0800 772 1050

Para visualizar o índice, bibliografia e informações sobre os autores, acesse
http://www.palmares.gov.br/_temp/sites/000/2/download/livrohcaab.pdf

Fontes:
http://www.neilopes.blogger.com.br/
E-mail enviado pela Fundação Palmares: Informe Palmares - Número 43 - Ano 3 - 1 a 31 de Março de 2009

segunda-feira, 23 de março de 2009

Manuel Rui – Cinco dias depois da independência

Por Ricardo Riso

Manuel Rui Monteiro, ou Manuel Rui, é um escritor multifacetado, pois passeia por diversos gêneros literários como o conto, a poesia, a novela, o romance, além de escrever ensaios, músicas populares, cabe aqui ressaltar a intensa amizade com o compositor brasileiro Martinho da Vila, além de ter participado da luta de libertação contra o jugo colonial português e ser o autor do hino nacional de Angola. Só esta última citação já nos dá ideia da importância deste escritor para o seu país.

Lançado originalmente no livro Sim camarada! (Luanda: UEA, 1977), o conto Cinco dias depois da independência foi publicado em formato de bolso na série 2K da União dos Escritores Angolanos, em 1979, e será o objeto analisado neste texto.

Publicado próximo à independência de Angola, conquistada em 1975, Cinco dias depois da independência focaliza sua ação no comportamento das crianças durante o longo conflito contra as forças colonizadoras. As crianças, ou melhor, os pioneiros, como eram conhecidos pelos militantes do MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola), formavam “uma frente paralela, insubmissa e dispersa, (...) regida por leis que escapam à compreensão imediata dos adultos (...), contra o invasor das suas ruas, contra o estrangeiro que se atrevera a calcar o sonho de liberdade novinho em folha (...)” (contracapa do livro).

Influenciados e encantados com a maciça propaganda e os lemas – O Éme-Pé-Lá é o povo, o povo é o Éme-Pé-Lá (p. 20) –, esses pioneiros vivenciam intensamente os acontecimentos da guerra e participam de maneira limitada, de pequenas ações contra o inimigo, que aliam coragem e astúcia, sendo exaltadas pela população assim como pelos combatentes das Faplas, o braço armado do MPLA. Os pioneiros representam a utopia, a confiança nos ideais da revolução – A vitória é certa! –, repetem todo momento.

Entretanto, o cotidiano da guerra caótico somado aos parcos recursos das forças angolanas demonstra que nem sempre a presença dos pioneiros representa ajuda, como na chegada de graves feridos a um hospital que não tinha condições de atendimento: “Mas para quê que trazem camaradas mortos e camaradas que necessitam de intervenção cirúrgica? (...) Estou farto de dizer, nestas condições não podemos ir além de primeiros-socorros e pequena cirurgia” (p. 16). Em situações assim, os pioneiros para nada serviam e deveriam sair dali, causando desapontamento ao líder do pequeno esquadrão:

Comandante Kwenha cabisbaixo. Como um general de maiores condecorações a quem, injustamente e em público, desprezaram as estrelas de comando. Mas as condecorações, essas, permaneciam bem dentro do peito.
Pela primeira vez o grupo era desautorizado ali. Na delegação do MPLA. E pelo simples fato de nomadizarem chamavam-lhes vadios. Eles que tinham cinco bases. Presentes, sem uma baixa, em quase todas as confusões. Eles que recuperaram duas armas à fnla entregando-as à primeira patrulha de Fapla que passou. Aquele esquadrão! Que, ainda sem nome, assistiu e ajudou no desalojamento dos chipendas.
(p. 22)

Em sua inocência, os pioneiros compreendiam os símbolos da luta de libertação, fitavam as propagandas encontradas no caminho, e admirados prestavam homenagens mesmo não sabendo ler:

Em frente ao dip, mudaram de passeio para aproveitarem ver o jornal da parede, parando deslumbrados nos recortes onde vinha a fotografia do camarada Presidente e pioneiros a marchar com espingardinhas de fisga e bala. Um ritual. Mesmo que as colagens não fossem substituídas durante dias, eles repetiam a contemplação que já fazia parte das regras do grupo. Entendiam pelas fotografias. Ninguém sabia ler no pelotão. (p. 23)

Com as vidas entremeadas ao dia-a-dia da guerra, os pioneiros sabiam identificar as armas das Faplas e dos inimigos pelos sons que emitiam: “Eles não falhavam nos sons. Distinguiam bazuka, metralhadora anti-aérea ou canhão” (p. 29), ou como transcreve o narrador amargurado: “O tempo tinha posto assim as crianças nessa precocidade de aceitar a guerra como uma brincadeira séria a salvar a vida” (p. 31).

Acostumados à brutalidade de tempos de conflito, ao convívio constante com a morte, à insensibilidade dominante os pioneiros ficavam ávidos para agir próximos às zonas de combate:

“A rua estava deserta. Os pioneiros apenas. Naquela progressão de corpo vergado procurando a proteção das paredes e muros dos quintais. Para eles a direção só podia ser uma: o sítio de onde vinha o tiroteio” (p. 35).

Um diálogo travado entre uma jovem grávida e um pioneiro, escondidos em tubo de esgoto, traduz o espírito de luta que guiava esses destemidos pequenos combatentes:

– E essa arma mata o quê?
– Tudo – respondeu o miúdo segurando a arma com as duas mãos – lacaios do imperialismo.
– E se for blindado?
– Entro nele e estoiro o maquinista. Blindado sem homem não anda. Um camarada falou num comício o homem é que faz andar a máquina.
– E se for barco?
– Qual barco?
– De guerra?
– Aqui não estamos no mar mas o meu esquadrão completo afunda.
– Mas já afundaram?
– Não. Porque o inimigo não vem no mar. Ainda, os pescadores organizados tudo ÉME. Se vierem vamos afundar.
– E se for avião?
– Abato. Deixa só ele voar baixo, também um camarada me contou ele abateu licóptero na primeira. (...)
– E se eles param aí perto?
– Aqui não tem perigo. Isto é zona libertada. Base número cinco do esquadrão Kwenha. (...)
A salientar não só a confiança como também a responsabilidade e a argúcia necessária à situação. (...) Ganhava confiança nas afirmações do miúdo, lembrando-se, por instantes, de todas as histórias de heroísmo que ouvira sobre pioneiros. (...) Pensou na hipótese de conseguir sair sã e salva e sentiu um singular orgulho por se encontrar ali com um pioneiro, naquela situação de perigo e guerra.
(p. 47-52)
Apreende-se que o tubo de esgoto é uma metáfora do útero, da gestação e do nascimento da nação, pois quando a dupla consegue sair dali é praticamente o momento em que a vitória pela independência se consolida.

A frieza do corajoso pioneiro assusta-nos, mas trata-se de um ambiente de radicalização diante de uma situação colonial insuportável e agonizante. A postura desses pioneiros retrata o meio violento que os gerou, ou seja, as crianças são consequência de uma época crucial para a futura nação angolana, são sujeitos da história na guerra de libertação de um país que estava nascendo. Nesse sentido, o texto de Manuel Rui é de importância extrema ao captar o momento da utopia fortalecida e de como as crianças lidavam com esses acontecimentos, com a chegada da independência. “A vitória é certa! A luta continua”, o lema repetido diversas vezes no decorrer do texto concretizou-se.

Por outro lado, Cinco dias depois da independência chama-nos atenção para o foco de mudança da luta, que não passa mais a ser apenas contra o colonizador português, mas entre os angolanos que não se submetem à ideologia do MPLA. Novamente o pioneiro, com sua sabedoria e experiência, no conflito armado aponta para a dissidência do povo angolano ao identificar os sons das armas:

É deles
é nosso
é nosso
é nosso
é deles (p. 66)

Essa passagem ilustra as fissuras que viriam a dilacerar o país, desencadeando uma longa e tenebrosa guerra civil.

Como bem observou a Profa. Dra. Tania Macêdo, a descrição do amanhecer durante o primeiro dia de Angola independente com a rajada de balas dada por um guerrilheiro saudando os novos tempos, demonstra as dificuldades que deveriam ser encaradas pelo país, como a continuação da guerra que perdurou até esta década (MACÊDO, 2007, p. 366-367):

E a noite, fustigada pelo tiroteio de glória, estendia já seus braços de fadiga nos contornos da aurora. Estrelas que fugiam para seu repouso diurno. Ruídos matinais desabrochavam do corpo das plantas. Flores, tocadas pelo sabido vento de tantos heróis, desprendiam o orvalho fresco e doce na boca da terra. Então, quando o sol se levantou do mar antigo e ultrajado dantes, desprendendo sua solta cabeleira de luz e força, Carlota ficou que instante a contemplá-lo. Era o primeiro sol em liberdade.
– Já nasceu o sol. Primeiro dia depois da independência! Parece um soldado camarada.
O guerrilheiro ergueu-se num salto, deu dois passos em frente, apontou a espingarda nos esconderijos da lua e de rajada limpou o carregador.
– Sim camarada. – Disse depois de assoprar o fumo do cano.
E nas narinas de Carlota, o cheiro de pólvora entrava parecia um perfume.
(p. 94)

A tragicidade da guerra após percorrer todo o texto, faz sua última vítima ao final da história, mostrando a sua faceta mais cruel e onipresente em um tempo de horror: o pequeno e audaz pioneiro é morto pelas tropas inimigas. Esse acontecimento mostra com clareza o que se poderia esperar dos novos duros e difíceis tempos para esses jovens pioneiros (MACÊDO, 2007, p. 367), as incertezas que encarariam na reconstrução de um país sofrendo com os recursos escassos, as pressões de países como a África do Sul e os EUA que alimentavam a Unita, guerrilha contrária ao MPLA. Por conseguinte, a guerra civil que devastou a nação, ceifando milhares de vidas, muito contribuiu para destroçar os sonhos de uma geração que tanto acreditou na vitória e nas conquistas da revolução.

Cinco dias depois da independência é uma bela e comovente história das raízes primeiras da nação angolana, da participação determinada desses pequenos anôminos que atendiam pela alcunha de pioneiros, pois, como afirma o narrador, "dois ou três anos antes, as pessoas perguntavam-se sempre os nomes. Agora tudo mudara. Bastava pioneiro." (p. 58) Infelizmente, a História foi cruel com os caminhos trilhados pelo país nos anos seguintes dilacerando a utopia revolucionária.


Bibliografia:
RUI, Manuel. Cinco dias depois da independência. Luanda: União dos Escritores Angolanos, 1979. Coleção 2K.

MACÊDO, Tania. Monandengues, pioneiros e catorzinhas: crianças de Angola. CHAVES, Rita, MACÊDO, Tania, VECCHIA, Regina (orgs.). A kinda e a missanga – encontros brasileiros com a literatura angolana. São Paulo: Cultura Acadêmica; Luanda: Angola, Nizla, 2007. p. 357-374

domingo, 22 de março de 2009

(arte3) arte ao cubo (curadoria: João Magalhães)

Uma nova exposição com curadoria do meu ex-professor e eterno mestre João Magalhães, revelando novos nomes da Escola de Artes Visuais do Parque Lage que apostam na pintura como meio.
Ricardo Riso

( arte3 )
ARTE AO CUBO

Uma receita para um bom e sempre original texto sobre arte tem que necessariamente aludir, em seu bojo, a pensadores fundamentais.O que seria desse texto se não tocasse no mito da caverna, na reprodutibilidade técnica? É forçoso citar Foucault, Deleuze, um pouco de Freud, muito Lacan, quase nenhum Young, embora este último ainda seja consideravelmente apreciado pela turma da energia. Derrida, quem não sabe o que é desconstrução? Quem tem medo da différance? E a sociedade do espetáculo, absolutamente indefectível. Baudelaire, Barthes e todos os Bergs. Argan, o sublime e o pitoresco.Husserl e Merleau-Ponty. Todos os franceses, todos mesmo. Nietzsche. Krauss e o incontornável esquema paisagem/arquitetura. Alguns Adornos, como eventualmente Bourdieu e Wittgenstein, podem acrescentar alguma elegância. Caso ainda se tenha espaço, Belting e Danto.Os analíticos, de um modo geral, podem ser dispensáveis. Um texto que siga rigorosamente os preceitos da presente receita, será,
pela densidade e originalidade, muito bem recebido. Inclusive pela Academia.

João Magalhães, março de 2009.

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ARTE AO CUBO

ANNA MARIA NIEMEYER APRESENTA SEIS NOVOS ARTISTAS AO CIRCUITO DE ARTE

A exposição ( arte3 ) apresenta obras de seis novos artistas, a partir de 12 de março, na matriz da Galeria Anna Maria Niemeyer. Com curadoria de João Magalhães, a coletiva expõe seis pinturas de Alessandro Sartore, Bet Katona, Felipe Fernandes, Jimson Vilela, Raul Leal e Virginia Paiva - todos alunos de João Magalhães na Escola de Artes Visuais do Parque Lage (EAV- Parque Lage). A mostra poderá ser visitada de segunda a sábado, das 10h às 22h, exceto domingos e feriados até o dia 4 de abril de 2009.

Segundo o curador, os alunos foram selecionados pelo compromisso e qualidade dos trabalhos. “Eles já estão maduros e merecem expor como artistas”, afirma ele, comentando que as obras expostas utilizam materiais convencionais de pintura, como tinta em tela sobre chassi, e trabalham com imagens em diálogo com a contemporaneidade.

Sartore apresenta um díptico, inteiramente dourado de grandes dimensões, formado por duas telas, de medidas iguais, em posições diferentes. Bet expõe uma de suas pinturas, onde utiliza o máximo da síntese em uma pintura gráfica para investigar figuras, paisagens e interiores. Felipe utiliza, principalmente, retratos de amigos da época de criança, recriando essas imagens com toque de deboche, como a obra selecionada. Quem também explora a fotografia é Raul, em pesquisa sobre o meio urbano, onde indivíduos são retratados como seres totalmente anônimos. Jimson, que experimenta diversos suportes e pigmentos, apresenta tela crua, de grande dimensão, onde a interferência da tinta é quase zero. Virginia chega à compulsão ao recorrer à mistura energética de elementos esfumaçados em cores baixas e frias e em dourado.

A ( arte3 ) integra o projeto criado em 2000 pela galeria, onde artistas convidados apresentam o trabalho de seus alunos em coletivas. Edições mais recentes tiveram curadoria de Nelson Leirner, Edmilson Nunes e Chico Cunha. “Desde que abri minha galeria, em 1977, sempre me preocupei em dar espaço aos iniciantes”, ressalta Anna Maria Niemeyer, destacando que já estrearam por lá nomes como Eliane Duarte, Jorge Guinle e Victor Arruda.


ALESSANDRO SARTORE
Eu bebo porque é líquido, se fosse sólido eu comeria!
É a resposta do bêbado. Acho que cabe para pintura, não porque pintar seja uma cachaça, longe disso, pintura é imagem e não palavra ou número.
Criar e resolver problemas pela imagem, acho que é isso. Mesmo com vários outros meios, a pintura ainda é referência. Não como a nobre Arte, mas porque ela está presente. Quantas vezes ouvi: Que vídeo!Até parece pintura!
realmente é.
É esse campo ampliado, que me interessa. Ampliar, reduzir, potencializar, a pintura serve como meio mais imediato, direto, é já tão impregnado de tudo (foto,vídeo,objeto, etc.) que mesmo quando reduzido quase a nada, só tela e tinta, tem um poder de reverberar quase que infinitamente. Criar e tentar resolver problemas pela pintura, não só de pintura, é uma armadilha extremamente atraente. É como mosca na teia, pode não ser aparentemente nada mas ela está lá.
Pinto porque é imagem, se fosse palavra escreveria!

BET KATONA
Escolhi a pintura como suporte para expressar ideias, pensamentos, poesias.
A pintura torna real o meu espaço interno e imaginário.
A pintura torna material o que não é material.
As deformações ou distorções são a realidade do pensamento.
Enfim pinto o que desejo.
Pinto porque me dá tesão.

FELIPE FERNADES
Eu pinto por um pouco de egoísmo. Pinto qualquer cena que eu possa tornar mais interessante, ideal. Altero seu sentido pra algo que me entretenha ou possa causar estranhamento. No geral, escolho cenas que me comovem, mas que nunca deixo de evitar que se tornem ridículas ao final do processo.

JIMSON VILELA
Pinto, pois, para mim, a pintura é a linguagem mais complexa para se estabelecer uma poética, talvez seja a que mais exija do artista uma conjugação, equilibrada, entre a prática e a teoria (forma e conceito).
A pintura tem suas verdades, dizia Matisse. Além disso, a possibilidade de dialogar com mais de dois mil anos de história da pintura, de repertórios da pintura, e, principalmente, da história da imagem; e a partir disso criar saídas e possibilidades para um trabalho me interessa. Gosto de ser exigido de um trabalho, e de fazer deste algo vivo e perturbador para o observador. Minhas paisagens possuem isso, uma inquietação sobre a visualidade no contemporâneo. Pintar hoje, para mim, é desafiar a lógica de uma sociedade firmada na rápida criação de imagens que mediam nossas relações

RAUL LEAL
Citando Peter Doig, a pintura atualmente é uma coisa que se você pensar muito você simplesmente não faz. O quê levaria um artista contemporâneo a investir trabalho e conhecimento num meio que tem sido sistematicamente declarado morto desde fins do século XIX?
Talvez seja por teimosia que insistimos em continuar pintando numa época em que, a cada dia, surgem meios mais e mais sofisticados de produção de imagens. Soma-se a isso o enorme desafio de inserir o trabalho de pintura nos processos que regem a sociedade contemporânea e nas questões filosóficas e conceituais da arte atual.
Enfim, pinto porquê é o meu modo de me relacionar com as questões impostas pelo mundo que me cerca, porquê a pluralidade do meio artístico atual permite que ainda existam pintores, porquê encontro na pintura uma espécie de sublimação das minhas angústias e inquietações e porquê tenho uma enorme paixão por essa atividade.

VIRGINIA PAIVA
Por vontade de descobrir. Por hábito, que foi virando compulsão. Por prazer. Por obrigação. É a minha maneira de me transubstanciar.
Toda criança - que disponha desses meios e de algum incentivo - já moldou suas massinhas, já segurou deliciosamente canhestra um lápis-cera, já cravou no papel suas casinhas, sóis, flores, famílias, coelhos e pássaros; se posso confiar em minha já combalida memória, lembro da descoberta que foi converter o papel em cartola de mágico e assim poder me exibir para o mundo, conversar com ele.
Hoje posso até inventar que com a pintura, com as histórias que conto através dela, com a prazerosa lambança com as cores, com a descoberta de outros colegas de ofício bem maiores que eu - estaria fugindo da náusea sartreana e afirmando minha frágil humanidade num mundo absurdo. Mas prefiro dizer que não cresci: tudo o que eu quero é não deixar de ser criança.

João Magalhães*, curador da exposição (arte3), é artista plástico e, desde 1993, é professor de pintura da Escola de Artes Visuais do Parque Lage (EAV-P.Lage).

créditos obrigatórios
curadoria: João Magalhães
produção (artistas): Belvedere
fotografia (artistas e obras): Jaime Acioli
design grafico (convite e folder): Inventum

assessoria de imprensa
Angela Falcão - tel: 21 25123636/6187 escritório - e.mail: angelafalcao@uol.com.br

maiores informações ou solicitação de imagens (alta / tif; 300dpi / jpeg ou 96dpi / jpeg)
GALERIA ANNA MARIA NIEMEYER - Leonor Azevedo - tel: 21 22399144 (das 14 às 21h segunda a sexta-feira) - cel: 21 969919023 ou e.mail:galamn@centroin.com.br

sexta-feira, 20 de março de 2009

ÁFRICA NEGRA - DO IMPERIALISMO À CRISE ATUAL (curso)

CURSO
História, Ciências e Atualidade
ÁFRICA NEGRA - DO IMPERIALISMO À CRISE ATUAL

Por Francisco Carlos Teixeira da Silva

O curso percorre a história da África para entender a realidade do continente hoje. Nessa trajetória, entram em cena o debate sobre as condições de partilha colonial e a ocupação européia da África nos séculos XIX e XX, a análise dos diferentes processos coloniais – o britânico, o francês e o português –, a luta pela descolonização nos anos 1960 e a emergência do Estado-Nação. Quais são as marcas das relações com o Brasil? Qual o futuro da África?

Início: 01 ABR
Duração: 4 encontros
Dias/horários: Quartas-Feiras, às 20h (01/04, 08/04, 15/04, 29/04)
Valor: R$ 140,00 na inscrição + 1 parcela de R$ 200,00

Aulas:
01 ABR 1. A ÁFRICA PRÉ-COLONIAL
A organização social africana. Características básicas.

08 ABR 2. AS POTÊNCIAS ESTRANGEIRAS. A PENETRAÇÃO ÁRABE-ISLÂMICA E EUROPÉIA. O PROBLEMA DA ESCRAVIDÃO AFRICANA

15 ABR 3. A DOMINAÇÃO SOCIAL
Os casos da Nigéria, Senegal e Moçambique.

29 ABR 4. A LUTA CONTRA A METRÓPOLE. DESCOLONIZAÇÃO E NEOCOLONIALISMO

Ministrado por:
Francisco Carlos Teixeira da Silva. Historiador, professor titular de História Contemporânea da UFRJ e coordenador do Laboratório de Estudos do Tempo Presente.

Tel.: (21) 2227-2237
Horário de funcionamento: 11h às 20h
E-mail: inforio@casadosaber.com.br

Fonte: http://www.casadosaber.com.br/curso.php?cid=1411