quarta-feira, 13 de maio de 2009

"Guerreando pra sorrir" - Zulu Araújo

13 de maio, Abolição da Escravatura e Dia Nacional de Denúncia contra o Racismo

"Guerreando pra sorrir"
A lição do meu avô, que casou com minha avó e pariu a minha mãe

Zulu Araújo
Presidente da Fundação Cultural Palmares

Abolição, palavra carregada de sentidos, dores, afetos e interpretações as mais diversas. Palavra que incendiou corações e mentes no século XIX e estimulou discussões apaixonadas sobre a vida, a liberdade e o futuro da humanidade. Símbolo que titulou movimentos libertários e tornou-se o principal combustível para a entrada do Brasil no século XX. Conteúdo concreto que povoou os sonhos de milhões de brasileiros ao longo de quase 400 anos. Mas, apesar de tudo isso, há uma forte inquietação quanto ao seu significado nos dias de hoje.

Vivemos momentos de perplexidade diante de tanta polêmica e reações indignadas por parte de setores da sociedade brasileira. Isso, por causa das políticas públicas, implementadas para a promoção da igualdade racial no Brasil, mais conhecidas como políticas de ações afirmativas. Por isso, vale perguntar: Para que conquistamos a Abolição? Que idéia ou sentido de liberdade gerada por este ato deve orientar nossas ações nos dias de hoje?

O poeta José Carlos Capinam, ícone do movimento tropicalista nos anos 1960, nos dá uma pista. Com versos poéticos e precisos, no poema/canção Abolição, ele nos ensina: "Acabar com a tristeza, com a pobreza e o apartheid, não fazer da humanidade, a metade da metade, parte branca, parte negra". Pois bem, é com esses versos na cabeça e um tanto de emoção, que gostaria de responder às indagações acima.

Abolição para que a sociedade brasileira conquiste a cidadania plena, o desenvolvimento econômico e social, para que todos seus filhos, independente da cor da pele, de sua origem social ou opção religiosa possam ser tratados com dignidade e igualdade, conforme a Constituição. Mas também para que, em seu nome e em nome de milhões de brasileiros e brasileiras, que empunharam essa bandeira com coragem e distinção, impeçamos que a desigualdade, o racismo e a discriminação, gerados por séculos, naturalizem-se em nosso cotidiano, como parte do nosso jeito mestiço de ser.

Abolição para sensibilizar e conscientizar os homens e mulheres que dirigem o país, em especial aqueles que nos representam na Justiça e no Parlamento, de que a promoção da igualdade racial não pode ser apenas o recheio mágico de discursos vazios sobre a beleza da mestiçagem, o encanto das mulatas etc. Ainda mais quando estudos e pesquisas apontam para a iniqüidade das relações raciais no Brasil, a exemplo do uso do critério da "boa aparência", que leva à exclusão milhões de brasileiros e dificulta a eles o acesso a determinados nichos do mercado de trabalho, como a publicidade, a moda e a televisão.

Abolição para impedir que o conservadorismo e o medo que latifundiários impingem ao campo, sempre que tratamos de regularização da terra, nos leve a ignorar a presença de milhões de remanescentes de quilombos, que, apesar de tanta dor e indiferença, continuam resistindo nos rincões do país, com a viva esperança de que a abolição os alcance de fato e assim possam ter acesso àquilo que lhes pertencem por justiça e direito.

Abolição para superarmos a abissal diferença entre a qualidade do ensino público e privado e a exclusão de um enorme contingente de jovens brasileiros do ensino superior. Afinal, o Brasil contemporâneo, aberto, criativo e plural não pode entregar à própria sorte parte da juventude brasileira a grupos de extermínio e a narcotraficantes. Reconhecer esse direito e possibilitar a reparação histórica por meio da ampliação do acesso desses jovens às universidades públicas é mais que um dever, é um compromisso com o futuro do país.

Portanto, a celebração desses 121 anos da abolição da escravatura no Brasil, só tem sentido se, de um lado, debelarmos a hipocrisia que grassa na sociedade quanto à questão racial (todos consideram que existe racismo no Brasil, mas ninguém se intitula enquanto agente de tal crime), e, de outro, dermos conteúdo real às aspirações de mais da metade da população brasileira. Ou seja, é preciso instaurar a abolição definitiva da discriminação, que ainda persiste no Brasil, por meio de ações concretas que levem à promoção da igualdade racial e social. E nada melhor que o poeta Capinam para nos inspirar: "Abolir essa careta, que esconde a Natureza e que me faz ser teu irmão. Abolindo a velha intriga e guerreando pra sorrir".

Fonte: Informe Especial do Portal Palmares, às 11h42 do dia 13/05/2009

Concretos, Neoconcretos e Alfredo Volpi – encontros e desencontros

Convergências e divergências entre Volpi e a geração concreta dos anos 1950 solidificam o projeto construtivo brasileiro
Por Ricardo Riso
Em comemoração aos cinquenta anos do Manifesto Neoconcreto publicado no Suplemento Dominical do Jornal do Brasil, escrito por Ferreira Gullar e com as assinaturas de Amílcar de Castro, Franz Weissmann, Lygia Clark, Lygia Pape, Reynaldo Jardim e Theon Spanudis, os artistas do núcleo inicial, o Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM) procurou, na medida do possível, recriar a mostra realizada em 1959, intitulada Neoconcretismo – 50 Anos, sob curadoria de Reynaldo Roels Jr. Enquanto o Instituto Moreira Salles (IMS) está com uma retrospectiva de Alfredo Volpi com obras em sua maioria produzidas nas décadas 1950/1960, quando o artista flertou, a sua maneira, com o construtivismo em voga na época.

O Neoconcretismo era uma ruptura dos artistas cariocas perante a ortodoxia do concretismo paulistanos, ligado à rigidez geométrica, fria, impessoal, excluindo da obra artística quaisquer relações com o simbólico, lírico ou emocional, reduzindo-a aos seus elementos puramente plásticos, tanto em forma quanto em cores, que se fecham em si, falam por si. A proposta concreta visava aproximar a arte da produção industrial, em um momento que o Brasil vivenciava um ambiente de euforia com a industrialização do país, motivada pelo governo de Juscelino Kubtischek.

O neoconcretismo buscava retomar o caráter simbólico da arte, a subjetividade, acentuar o afrouxamento da geometria, eliminar a frieza da obra de arte ao permitir a manipulação de obras pelo espectador, tornando-o parte integrante do trabalho, transformando-os em objetos como a série “Bichos” de Lygia Clark, os “Bilaterais” e os “Relevos Espaciais” de Hélio Oiticica, e os poemas-objeto de Ferreira Gullar, deixam a marcar do retorno da “aura” da obra de arte, da retomada do “humanismo” contra a frieza técnica e a certeza científica concreta dos paulistanos. No Manifesto, Gullar procura ser claro ao demonstrar a "tomada de posição neoconcreta" que se faz "particularmente em face da arte concreta levada a uma perigosa exacerbação racionalista"(1). Um ótimo exemplo são as esculturas de ferro criadas por Amílcar de Castro que, a partir de um material duro e pesado, consegue lirismo e leveza com seus cortes e dobras.

Em recente declaração, Ferreira Gullar afirma que

– Quando comecei a escrever o texto, que foi uma proposta da Lygia Clark, para mostrar que o grupo do Rio estava criado, me dei conta de que havíamos chegado a outro ponto. Não éramos mais concretos, como continuávamos nos chamando – justifica, acrescentando a importância do gesto: – A arte neoconcreta é uma invenção brasileira, não foi importada de lugar algum. É um documento original, que representa uma nova visão. Nenhum outro documento chegou a ser isso, deu essa contribuição para a arte brasileira. Era um rompimento com a arte ótica, racionalista, que eliminava a subjetividade. O que havia de novo nisso é que ela se expandia para o corpo, para o manuseio, para a intervenção do espectador. Nesse ponto, era o contrário da arte abstrata. Queríamos a sensualidade, a sedução.(2)

A exposição montada com esmero e delicadeza cobre todo o segundo andar do MAM. O interessante é notar que o Manifesto apenas atesta a mudança natural que os artistas já vinham praticando em anos anteriores a sua realização, fato confirmando por Gullar em entrevista ao caderno Ideias/JB em comemoração ao cinquentenário da mostra. Destaque para as obras das Lygias Clark e Pape, Hélio Oiticica, Franz Weissman, Ascânio MMM e, principalmente, para a presença histórica dos originais publicados no Suplemento Dominical à época, dos catálogos das mostras coletivas e das poesias confeccionadas por Ferreira Gullar. Trata-se de uma exposição para se passar algumas horas e se deleitar com este fundamental movimento da arte brasileira.

Saindo da bela arquitetura do MAM e se dirigindo até a Gávea, encontramos no não menos belo Instituto Moreira Salles a exposição Volpi – dimensões da cor. As imagens selecionadas pela curadora Vanda Kablin retratam basicamente a produção de Alfredo Volpi nas décadas de 1950 e 1960, período que o artista se aproximou da estética produzida pelos concretistas e neoconcretistas. Vale lembrar que Volpi chegou a participar de coletivas com os concretistas paulistanos nos anos de 1956/57, inclusive.

Entretanto, o fascinante das pinturas apresentadas é a constatação daquilo que difere Volpi do rigor formal concretista, sem jamais fugir dos seus preceitos pictóricos. Enquanto os concretistas buscavam suporte nas novas tecnologias, na rigidez dos cálculos, no uso de réguas e compassos para a elaboração de suas formas geométricas, e na pincelada uniforme eliminando o gestual do artista, por conseguinte concebendo a obra de arte como produto e não como forma de expressão, Alfredo Volpi permanecia fiel ao seu processo artesanal de trabalho e ao seu passado de operário.

Para criar suas formas geométricas ele não utilizava réguas e compassos, “consegui-las era a mera obrigação de um artesão devidamente treinado”(3). Continuou pintando com sua tradicional têmpera a base de ovo que deixava visível a superfície da tela, sem jamais procurar atingir as cores chapadas e lisas dos concretistas apesar de reduzir os vestígios do pincel, como podemos conferir em algumas poucas pinturas expostas. A respeito da pincelada volpiana, Olívio Tavares de Araújo resume a relação do artista com o grupo concreto da seguinte maneira: “essa pintura vibra pelo entrechoque entre a racionalidade do projeto e os resquícios líricos da mão”(4).

Em seu projeto concreto, a cor atinge autonomia ao não estar vinculada à figuração mimética, passando “a ser tratada como valor absoluto, seja para organizar a superfície da tela, seja para dinamizar o ritmo da construção e da geometria, com infinitas possibilidades de ordenação do espaço” (5). Com isso, todo o seu repertório plástico, as bandeirinhas, as fachadas, os elementos náuticos agora estão submetidos à cor, tornam-se figuras geométricas autônomas inseridas na espacialidade da tela de acordo com a vontade do pintor. As fachadas, ou melhor, os retângulos ficam suspensos, sugerindo portas e janelas porém descompromissadas da realidade exterior. As bandeirinhas viram retângulos dos quais foram extraídos triângulos, sendo repetidos à exaustão com uma sutil variedade cromática, ou dispersas, suspensas no espaço, ou ainda, como se estivessem flanando como as velas dos elementos náuticos. Ou seja, sem abandonar seu repertório plástico, Volpi recria-o, tratando-o como um infinito manancial de signos geométricos subordinados a sua ilimitada paleta cromática.

Sendo assim, Volpi permanece contemporâneo às gerações dos concretos e neoconcretos dialogando com eles sem jamais ferir seus preceitos e seus temas preferidos, algo parecido ao tratamento dado por Morandi as suas naturezas mortas. Inferimos, pela variedade de formas, que sua inventividade é inesgotável e sua vontade de produzir, infatigável. As obras expostas no IMS mostram um artista de rara sensibilidade, lírico, complexo, moderno, atento ao projeto construtivista da arte contemporânea brasileira e coerente com seu passado plástico.

As exposições completam-se em seus pontos convergentes e divergentes. Trata-se de uma ótima oportunidade para conhecer ou relembrar o rico panorama da produção construtiva brasileira a partir dos anos 1950, e constatar a relevante presença dos nomes de Alfredo Volpi, Amílcar de Castro, Hélio Oiticica, Lygia Clark entre outros na afirmação e na independência de uma arte brasileira autêntica.


Neoconcretismo - 50 Anos
até 07 junho 2009
Museu de Arte Moderna – MAM
Av Infante Dom Henrique 85
Parque do Flamengo - Rio de Janeiro
20021-140
Horários (podem sofrer modificações) ter - sex 12h - 18h sab - dom e feriados 12h - 19h
A bilheteria fecha 30 min antes do término do horário de visitação
+55 (21) 2240 4944
http://www.mamrio.org.br/

Volpi: dimensões da cor
até 5 de julho de 2009
Instituto Moreira Salles - IMS/Rio de Janeiro
Rua Marquês de São Vicente, 476, Gávea
CEP: 21 22451-040 – Rio de Janeiro-RJ
Tel: 21 3284-7400 – Fax: 2239-5559.
De terça a sexta, das 13h às 20h.
Aos sábados, domingos e feriados, das 11h às 20h
http://ims.uol.com.br/


Notas:
1. GULLAR, Ferreira. Manifesto Neoconcreto. Disponível em < http://literal.terra.com.br/ferreira_gullar/porelemesmo/manifesto_neoconcreto.shtml?porelemesmo > Acessado em 12/05/2009.
2. Ferreira Gullar em entrevista publicada no Jornal do Brasil, Caderno Ideias – Especial Neoconcreto 50 anos.
3. ARAÚJO, Olívio Tavares de. Volpi – a música da cor. Catálogo da exposição no Museu de Arte Moderna de São Paulo entre 05/04/2006 e 02/07/2006, p. 16.
4. ARAÚJO, Olívio Tavares de. Volpi – a música da cor. Catálogo da exposição no Museu de Arte Moderna de São Paulo entre 05/04/2006 e 02/07/2006, p. 16.
5. KLABIN, Vanda. Volpi – dimensões da cor. Folder da exposição no Instituto Moreira Salles/RJ entre os dias 29/04/2009 e 05/07/2009.

SOSO - ARTE CONTEMPORÂNEA AFRICANA (site)

A seguir o endereço virtual da galeria SOSO - arte contemporânea africana, inaugurada em fevereiro deste ano na cidade de São Paulo/SP.
SOSO - arte contemporânea africana
Av. São João, 313 - 2º. andar
São Paulo - SP
CEP 01035-000
TEL 11-3222-3973

terça-feira, 12 de maio de 2009

Filinto Elísio - LI CORES & AD VINHOS (livro)


“LI CORES & AD VINHOS” é o novo livro de poemas de Filinto Elísio lançado em Lisboa
http://www.expressodasilhas.sapo.cv/noticias/detail/id/8981/
7-5-2009, 09:40:39 JR, Expresso das Ilhas

O poeta cabo-verdiano, Filinto Elísio Correia e Silva, lançou ontem (quarta-feira, 06), em Lisboa, o seu mais recente livro de poesias, intitulado "LI CORES & AD VINHOS", prevendo ainda a apresentação da obra em Paris (França) a 15 de Maio e, na Cidade da Praia 28 do mesmo mês.

Trata-se do sétimo livro de Filinto Elísio Correia e Silva sendo este "LI CORES & AD VINHOS o terceiro de poesia do autor e que representa "um relatório de vida existêncial do poeta".

Em declarações ao Expresso das Ilhas, em Lisboa, Filinto Elísio, disse que a poesia faz parte da sua trajectória assumindo ser mesmo a sua escrita "essencialmente poética".

"Eu sou essencialmente poeta e desvio-me por vezes pelas crónicas e por outras formas e suportes de escrita", indicou Filinto Elísio que considerou este seu novo trabalho como um livro que marca a sua nova jornada da poética, ou seja, de uma poesia mais madura.

De acordo com o autor, tudo o que esta patente na sua mais recente obra reflecte o seu crescimento e amadurecimento poético.

Lançar o Livro em Lisboa representa para Filinto Elísio uma homenagem a esta Cidade que considerou de Capital da Lusofonia que é também a Cidade de Fernando Pessoa e de Camões.

Para além de Paris e Praia, Filinto quer lançar a sua obra na Cidade do Mindelo, S. Paulo e Brasilia e Luanda Filinto Elísio considera ainda que a sua poesia representa "o seu ver a realidade das coisas, não só realidades cabo-verdianas mas, também, realidades sentidas pelo poeta".

"É uma visão poética das coisas, seja ela, em realidade cabo-verdiana ou não. Não sei se sou chamado poeta cabo-verdiano mas sou um cabo-verdiano que faz poesia", indicou afirmando que quer fazer poesia no sentido mais cósmico do tema".

O autor revelou que já faz alguma incursão pela língua cabo-verdiana, apesar de ainda não ter nada publicado a respeito.

Acrescenta a propósito que faz parte dos seus planos publicar um livro de poemas no crioulo de Cabo Verde e defendeu a oficialização do crioulo em coabitação com a língua portuguesa.

Questionado sobre a sua posição em relação ao Acordo Ortográfico para a Língua Portuguesa que deverá entrar em vigor, brevemente, nos respectivos países, Filinto Elísio considera que independentemente das susceptibilidades que vai desafiar, o Acordo, para ele, vai viabilizar uma escrita mais simplificada em termos de fluidez.

Filinto Correia e Silva, poeta e cronista, nasceu na Cidade da Praia, Cabo Verde. Bibliotecario e Administrador de Empresas de formação tem já publicadas obras como "Do Lado de Cá da Rosa" (Poesia), "Prato do Dia" (Crónica), "O Inferno do Riso" (Poesia), "Cabo Verde, 30 anos de Cultura" (Antologia), "Das Hespérides" (Poesia, Prosa e Fotografia) e "Das Frutas Serenadas"(Poesia). Tem ainda por publicar "Sem Margens" (Crónicas) e "Praiademincidade" (Romance).

Pepetela - O Planalto e a Estepe (livro) e site do autor


Do encontro entre um estudante angolano e uma jovem mongol, nos anos 60, em Moscovo, nasce um amor proibido.

Baseada em factos verídicos, ficcionados pelo autor, esta história põe em evidência a vacuidade de discursos ideológicos e palavras de ordem, que se revelam sem relação com a prática. Política internacional, guerra, solidariedade e amor, numa rota que liga um ponto perdido de África a outro da Ásia, passando pela Europa e até por Cuba. Uma viagem no tempo e no espaço, o de uma geração cansada de guerra num mundo cada vez mais pequeno.

Maravilhoso e comovente, este é um romance sobre o triunfo do amor, contra todas as vontades e todas as fronteiras.

ISBN: 978-972-20-3784-6
Páginas: 192
Dimensões: 15,5x23,5 cm
Colecção: AUTORES DE LÍNGUA PORTUGUESA
Ano de Edição: 2009
Encadernação: Brochado
No site do Pepetela - http://www.pepetela.com.pt/pdf/planalto_estepe.pdf - o primeiro capítulo deste livro está disponível para download.

Site Pepetela: http://www.pepetela.com.pt/

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Aula Inaugural do Curso de Pós Graduação Afrocartografias

clique na imagem para vê-la ampliada.


Fonte: e-mail gentilmente enviado pela Profa. Dra. Sonia Santos no dia 10 de maio de 2009.

sexta-feira, 8 de maio de 2009

Roderick Nehone – Uma Bóia na Tormenta (RESENHA)


Por Ricardo Riso

Quase trinta e cinco anos após a conquista de sua independência, Angola vivenciou momentos ora felizes, ora conturbados. Imprecisos e tortuosos como deveriam ser os caminhos de uma nação periférica que procura se posicionar na aparente calmaria do modelo neoliberal vigente no mundo. Da euforia comunista dos primeiros anos do país à grave crise que se espalhou nas décadas de 1980/90, motivada pela guerra civil, ao fim do sangrento conflito no início deste século, com a entrada desenfreada do capital estrangeiro aproveitando-se da estabilidade política, Angola, mais precisamente sua capital Luanda, com suas peculiaridades e contradições, sempre foi um terreno fértil para os escritores. Que o digam, apenas para citar alguns prosadores, José Luandino Vieira, João Melo, o jovem Ondjaki e Roderick Nehone.

O mais recente lançamento de Roderick Nehone, “Uma bóia na tormenta” (Luanda: União dos Escritores Angolanos, 2007) apresenta doze histórias em suas 103 páginas, onde a cidade de Luanda é também protagonista. Todavia, antes de iniciarmos os comentários sobre os contos, cabe aqui um breve resumo do autor.

Roderick Nehone é o pseudônimo literário de Frederico Manuel dos Santos e Silva Cardoso. Nasceu em Luanda a 26 de março de 1965. Aos 24 anos concluiu a licenciatura em Direito na Universidade Central de Las Villas, Cuba. Foi docente na Universidade Agostinho Neto de 1991 a 2004. É membro da Ordem dos Advogados de Angola e vice-presidente da União dos Escritores Angolanos (UEA). Nehone vive em Luanda. É autor das seguintes obras: “Génese (poesia - Prémio António Jacinto de Literatura, 1996), “Estórias Dispersas da Vida de Um Reino (Contos-Prémio Sonangol de Literatura, 1996), “ O ano do Cão (Romance-Prémio Sonagol de Literatura, 1998), “Peugadas de Musa (Poesia, 2001) e “Tempos sem Véu (Romance, 2003).

Em entrevista disponível no site da UEA – http://www.uea-angola.org/ –, Roderick Nehone (RN) faz uma declaração que corresponde bem ao que será encontrado em seus contos: “É fundamentalmente o retrato de um cidadão interessado nos problemas da sociedade que o rodeia. É o retrato de um homem preocupado com os problemas da época que lhe corresponde viver.”

É a partir deste olhar atento à sociedade de sua cidade, às dificuldades econômicas, aos problemas sociais adicionados a uma percepção sutil e acusatória da atuação dos políticos angolanos que Nehone realiza o leitmotiv de suas narrativas. Valendo-se de um narrador onisciente e onipresente que procura privilegiar os valores éticos e passar a mensagem de uma vida digna distante da corrupção, ganância e insensatez predominante entre as classes abastadas de Angola, vorazes e sedentas com os altos investimentos feitos pelas empresas estrangeiras, o autor busca contrapor com sua literatura. Tarefa encarada por quem crê no poder transformador do Verbo.

Utilizando-se de certo didatismo para expor situações adversas, porém encaradas com perseverança e elevada autoestima pela personagem Lalito em “O salto”, o narrador conta a história de um jovem deslocado pela guerra que chega a Luanda, mora sob a marquise de um prédio e faz bicos como guardador de carro e outros pequenos serviços manuais. Contudo, jamais perdeu a esperança de um dia retomar os estudos, pois sabe da importância da formação educacional para alcançar seus sonhos:

Não sei se pelos meus sonhos, ou por uma coisa de espírito forte, eu creio que aquilo que me proponho vou alcançar. Penso forte na coisa, penso sempre, penso com energia e ajo no sentido de realizar o que penso. Demora às vezes, mas já aconteceram comigo muitas coisas que pensei. É preciso acreditar que podemos e, depois, lutar para alcançar. (p. 23)

O conto “O angolano também pode” explora a desconfiança daqueles que não creem que um angolano pode obter sucesso sem ajuda estrangeira ou tendo uma postura subserviente perante este. Trata-se da história de dois homens que cresceram juntos, mas a vida foi ora afastando-os, ora aproximando-os. Até que atingem a idade adulta no pós-guerra civil angolano e se reencontram. Um se tornou professor universitário com salário humilde e aspira uma carreira política de sucesso, enquanto o outro se transformou em um importante empresário que construiu seu império atuando em diversas áreas. Entretanto, jamais se submeteu ao capital estrangeiro, comandando seus negócios e trabalhando apenas com angolanos, o que gera incredulidade no antigo companheiro, que pensa, como a maioria dos angolanos, ser impossível um patrício obter sucesso por conta própria:

Está fácil de mais fazer dinheiro nesta terra. Os brancos têm razão. Mas, eles vêm com bancos atrás e com tecnologia (...) Com faro para detectarem as oportunidades de negócio aqui no mercado e, naturalmente, é só chegar e facturar. Agora, um patrício? (...) afinal de contas, deve ser apenas um movimentador nativo do cumbu (dinheiro) do estrangeiro, pras compras e vendas locais. O dinheiro de bolso para pagar os empregados nativos, comprar combustível, dar umas gorjetas aos fiscais, e liquidar mais uns etecéteras para que os seus próprios conterras não lhe perturbem o negócio. Um estafeta bem vestido, afinal de contas. Um mwangolê (angolano) atrevido fantasiado de empresário. (p. 37-38)

Dando continuidade às críticas ao modo de pensar do angolano, em “Nós temos que estar lá” a personagem Jangolê, o bem-sucedido empresário do conto anterior, cobra uma mudança de postura de seu primo quando este obtém ascensão social. Jangolê encontra-o e fica feliz ao saber que está muito bem conduzido em sua carreira. Entretanto, não frequenta os lugares que sua atual condição financeira permite. O empresário convence-o que tais ambientes devem ser ocupados pelos angolanos também – uma questão de afirmação social (p. 44) –, como mostra a passagem abaixo em um restaurante:

Há muitos que podem cá vir, mas não vêm. Não desenvolveram o hábito de progredir. Preferem a quantidade de vida à qualidade de vida. E, isso, tem as suas conseqüências, também políticas. (...) Olha, agora, ao nosso redor. Estamos aqui em minoria. E podíamos fazer maioria aqui. Porque os mwangolês que têm alguma coisa, seriam bastantes para fazerem maioria em todos os restaurantes e esplanadas deste país. (...) O que importa é estar. (...) Nós temos que estar aqui, para tornamos, de facto, nosso país este, que por direito é nosso. (p. 47)

A preocupação com os valores éticos e com o comportamento do angolano por parte do narrador, justifica-se por causa dos péssimos exemplos da classe política do país que se mostra prepotente, arrogante, inconsequente e irresponsável quando se trata dos interesses da nação, colocados em segundo plano diante de escusos interesses pessoais. O uso da força, o abuso de poder e a certeza da impunidade são evidenciados no conto “Aqui é só vusar”, ao apresentar a postura dos dirigentes angolanos a partir de uma caravana conduzida de forma irresponsável por uma estrada. Valendo-se da posição oficial, seus motoristas cometem as maiores barbaridades no trânsito, causando indignação e revolta em um simples cidadão:

O sacana do condutor, sem batedor, nem nada à frente do carro dele, acelerava, driblava, como se a estrada fosse um corredor da casa dele. Mas, o carro feio não vinha só. Era o primeiro de uma caravana de seis, com matrículas anormais, não interessa agora, detalhar mesmo qual era o defeito igual de todas elas, todos trungungueiros (brutamontes), a quererem mandar na estrada, como se esta Luanda e o país inteiro fosse deles. (...) Afinal de contas, este país é de todos nós. Só a força das armas procurou tornar uns mais angolanos do que os outros. Só a coação, a impunidade, pode fazer com que uns se sintam obrigados a ver com impotência os seus direitos serem vilipendiados. (p. 27-29)

“O enterro de Burrocrata” é o mais contundente, áspero e feroz conto contra a burocracia que emperra o país. Trata-se dos estranhos acontecimentos no enterro da personagem-título, funcionário público odiado por todos em razão da sua total falta de escrúpulos e solidariedade com o próximo, que se aproveita da sua posição privilegiada para criar todo e qualquer tipo de entrave nas vidas das pessoas e das empresas que querem regularizar suas pendências com os órgãos públicos. O livro de condolências é preenchido por várias pessoas, tornando-se o espaço para as descrições das atrocidades cometidas pela personagem ao longo de sua vida e dos constantes abusos realizados por ela.

Para qualquer coisinha de nada, pedia o Registo Criminal. (...) Se não fosse o Registo Criminal, era o Atestado de Saúde. Como se isso não bastasse, o requerimento tinha de ser em papel de vinte e cinco linhas, selado e sem rasuras. A fotocópia do Bilhete de Identidade não podia faltar. Noutros casos, exigia o Atestado Médico, mesmo sabendo que este podia ser facilmente falsificado por um falso médico no Roque Santeiro. E, enquanto andávamos de um lado para o outro, a tratar de toda a papelada, a oportunidade do negócio passava, às vezes, sem deixar mais rasto. (p. 65)

Durante o enterro, cai uma chuva torrencial simbolizando o novo tempo de um Estado em prol do desenvolvimento do país e em harmonia com os interesses de seus cidadãos: “Era uma chuva alegre, colorida, que parecia estar contente com o fim de Burrocrata. (...) Que depois da morte de Burrocrata, a vida deles fluiu melhor (...) Houve mais negócios, mais trabalho e mais dinheiro nas mãos, até do mais anônimo cidadão.” (p. 67-68)

Os problemas gerados pelo superpovoamento e pelo cotidiano caótico da cidade de Luanda são retratados por Nehone no conto “Catrapus!”. A partir da iniciativa da personagem Zazalí, um canguleiro (carregador) que trabalha no mercado Roque Santeiro (famoso mercado popular de Luanda, seu nome foi inspirado na novela homônima brasileira), e sua visão comercial ao investir em cangulos (carrinhos-de-mão) para transportar as compras dos clientes. Zazalí obtém rápida ascensão social aumentando o número de seus carros e funcionários, até se tornar o Rei dos Cangulos, valendo-se da força física e da influência que passou a exercer dentro do mercado: “como tal, era respeitado, idolatrado por uns e odiado por outros” (p. 10).

Zazalí passa a ter centenas de cangulos e os que não eram seus somente circulavam no Roque se seus donos pagassem uma taxa a ele. Com o tempo, investiu na fabricação de cangulos para carregar passageiros e determinou que todos os clientes deveriam ser carregados pelo mercado. Essa situação levou-o a pensar no trânsito caótico da cidade e seus “engarrafamentos intermináveis”, que faziam com que as pessoas levassem horas para chegar aos seus destinos:

“a pontualidade já era. A assiduidade era mandada para as urtigas. (...) Ninguém tinha moral para exigir pontualidade a ninguém, nem mesmo os chefes, porque estes também se atrasavam. (...) Como ninguém se sentia culpado pelo que estava a acontecer, ninguém justificava nada a ninguém. Como todos se sentiam prejudicados, não aparecia nenhum culpado. Era a total paralisia, enquanto a cidade definhava, porque deixaram de produzir. Porque todos estavam atrasados, tudo ficara atrasado. Toda a vida das pessoas era, agora, refém do engarrafamento (p.12-13)”.

Diante desse quadro, “era, então, aí que, de repente, surgia nas ruas um caricato show de retrocesso” (p. 12), o narrador começa a descrever como os cangulos de Zazalí expandiram-se do Roque Santeiro para as ruas de Luanda:

Circulavam entre os carros, subiam para os passeios, desciam novamente para a estrada, deixavam os passageiros nos lugares acertados e prosseguiam com a nova carga. De tão estreitos que eram, e movidos à tração humana, não necessitavam de espaços largos para passarem, nem de gasolina para se moverem. (...) A lentidão do transporte de cangulo era tal que, na verdade, a velocidade era mesmo a do passo humano. A única diferença era a de que o cangulado chegava menos cansado que o canguleiro. Mas, tudo a passo de homem. (p. 14)

Com isso, o Rei Zazalí toma uma decisão insólita ao perceber que os luandenses não precisam mais de relógios: “Deu-se conta de que com aquele passo, pelo menos durante o sufoco dos engarrafamentos, o tempo deixara de ter sentido nas fábricas, gabinetes, escritórios, enfim, na vida das pessoas. (p. 14)” E passa a comprá-los a preços baratíssimos com a intenção de revendê-los quando a situação voltasse ao normal.

A desordem de Luanda leva o narrador a fazer uma alusão aos tempos em que Angola era colonizada por Portugal, quando o branco era carregado pelos negros, o narrador reflete o retrocesso vivenciado em seu sonho e termina, de forma abrupta, o conto:

Sem transporte moderno que andasse, sem sentido de tempo, amordaçada pelas dificuldades daí decorrentes e submissa à omnipresença de toscos monocicles de madeira à tracção humana nas suas ruas entupidas, a cidade deu-nos o fatídico sinal de que, em pouco tempo, sucumbiria. Não querendo ser cúmplice, preferi abandonar o trágico sonho e pôr fim, aqui e agora, a este conto. (p. 15)

As preocupações do autor com o inchaço populacional da capital angolana não finalizam. O insólito retorna e prevalece em “Luanda a duas velocidades”. Neste conto a cidade é dividida em dois turnos rigorosos por seu prefeito, que visa com essa medida reduzir os problemas de uma cidade superpovoada. Os percalços submetidos à população são narrados com ironia, obrigando famílias e os serviços públicos e privados a se dividirem em dois turnos. Trata-se de uma metáfora angustiante do caos urbano da cidade de Luanda.

As pessoas, as empresas e as instituições fizeram as suas opções e, em função disso construíram todas as suas demais relações.
Famílias inteiras optavam “por viver” de dia ou à noite e, segundo a sua escolha, estabeleciam a sua convivência, cresciam e multiplicavam-se com os demais que “vivessem” no mesmo período.
Em poucas palavras, a cidade “vivia” intensamente as vinte e quatro horas, mudando apenas de actores. Na mesma cidade havia dois grupos de cidadãos que viviam a mesma época, mas em momentos diferentes. (p.82)

O período comunista da república angolana é relembrado no conto “Um Ifa no cafriqui”. O texto relata um kota (mais velho) que consegue adquirir um caminhão, o IFA do título, popularmente conhecidos como: IFA – Independência Fodeu Angola ou IFA – Indústria Funerária de Angola (p. 49). Esse carro, que não era confiável – “o IFA era alto e capotava muito” (p. 49) – tanto pela sua mecânica quanto por seus motoristas, era importado da então Alemanha Oriental (RDA). O IFA virou objeto de desejo da sociedade da época que pretendia ter alguma forma de ganhar dinheiro extra, longe do controle do Estado. Em razão disso, o caminhão era alvo de seguidas tentativas de assalto deixando desassossegado seu dono:

Entretanto, poucos eram os IFAs para todos que queriam tê-los. Virar empresário angolano, em época de predominância da propriedade social ou estatal sobre os meios de produção, era um privilégio arriscado, mas intimamente invejado e desejado. Ter um IFA já bastava para se denominar empresário. Porque ter um camião num mercado onde o omnipresente concorrente era o Estado, bem podia dar o estatuto de pequeno empresário. (p. 49)

O didatismo retorna em “O kota Meu está em parampas”. Em intenso diálogo, um personagem demonstra ao seu chefe o por quê da maioria da população permanecer longe das boas oportunidades, restritas a um pequeno grupo que detém o controle e o acesso à informação, legando ao resto da população uma vida sofrida e sem maiores perspectivas.

Aqui nem todos sabem de tudo. A informação não circula para todos. Por isso é que, às vezes, as coisas boas acontecem num lugar, onde estão os que sabem que vão acontecer, e todos os que não sabem continuam distraídos com o que já existe, com o que já não dá mais sumo. O kota deve masê ter o canal de informação do que vai acontecer. Por isso é que se posiciona. Porque ninguém muda de posição à toa. (...) Agora, para subir é preciso saber para onde. É preciso saber como! E tudo começa com a circulação de informação! (p. 72)

O conto que encerra o livro, “Era uma vez um peixe que não sabia nadar”, trata-se de uma bela metáfora do período colonial e do pouco mais de trinta anos de Angola independente, narrando alguns momentos da história conturbada do país. O narrador apresenta todas as lutas enfrentadas pelo peixe para defender seu pedaço de mar, o que fez desenvolver e privilegiar determinadas habilidades de guerra em detrimento do seu bem-estar e da sua existência. Somente com a paz e a soberania da sua parte do oceano asseguradas, que o peixe se deu conta do que falta para sua vida:

Só nessa altura, o nosso peixe pôde dar conta de que havia, ao longo da vida, aprendido muito, havia aprendido quase tudo, mas o pouco que lhe faltava para poder dizer que sabia tudo era o passinho mais importante da sua vida. O nosso peixe havia dado conto de que afinal não sabia nadar.
Tudo quanto fez, daí em diante, foi aprender a nadar, para melhor desfrutar das bênçãos que Deus havia colocado no seu pedaço de mar, do mundo vasto dos oceanos e da época em que tinha o privilégio de viver.
E assim foi. Pode crer! (p. 99)

Roderick Nehone denuncia os males da sociedade e da política angolanas, fazendo da sua literatura o espaço para desmascarar as atrocidades cometidas contra o país, sem deixar de valorizar a autoestima do cidadão angolano, apresentado-o novas maneiras de conduta perante os caminhos tortuosos que a História revela. Os contos de Nehone são boias salvadoras em meio às tormentas que insistem em permanecer em Angola. E que não farão a nação submergir.

A História da Princesa de Alafiá em Petrópolis

Performance de contação " A princesa Alafiá", na Inauguração do Busto de Zumbi na Praça da Liberdade, em Petrópolis
Prezad@s,
convido a tod@s para a apresentação da performance de contação
"A História da princesa de Alafiá", sábado próximo, na Praça da Liberdade em Petrópolis, dentro do evento de inaugaração do busto de Zumbi, escultura de Denis Cross, com a presença do prefeito Paulo Mustrangi e o Ministro da igualdade social, Edson Santos.
Em 09 mai 2009, a partir das 10:00 na Praça da Liberdade em Petrópolis

Um grande abraço a tod@s
Sinara Rúbia
pelo Grupo Cultural Vozes da África
fonte: e-mail de Sinara Rúbia às 00:25 de 05/05/2009

terça-feira, 5 de maio de 2009

Retrato do Descolonizado Árabe-Muçulmano e de Alguns Outros, por Inocência Mata

Retrato do Descolonizado Árabe-Muçulmano e de Alguns Outros - Um retrato catártico, de Albert Memmi.

Um livro escrito sem complexos nem temores, quase como uma necessidade de libertação, de purificação da consciência.

Por Inocência Mata

Ao publicar, em 1957, Retrato do Colonizado Precedido pelo Retrato do Colonizador (com um prefácio de Jean-Paul Sartre que a edição em português substituiu pelo de Roland Corbisier), Albert Memmi (1920 ou 1921?) entrou para a galeria da geração de intelectuais africanos cuja obra incidia sobre relações de dominação e dependência entre os homens, tendo como paradigma a relação colonial (lembre-se de Orfeu Negro, 1948, de Jean-Paul Sartre; Discurso sobre o Colonialismo, 1950, de Aimé Césaire; Pele Negra, Máscaras Brancas, 1952, de Frantz Fanon – para apenas citar três exemplos).

Este Retrato do Descolonizado Árabe-Muçulmano e de Alguns Outros é, tal como o outro retrato, o do Colonizado, uma reflexão desapaixonada sobre a psicologia do dominado, neste caso, o descolonizado-imigrante, com base nas suas observações e vivências – ele que tem uma dupla experiência de minoritário: tunisino de origem judaica e imigrante em França desde 1943, onde leccionou na Universidade de Paris.

Partindo de uma situação particular, porventura que o autor melhor conhece – o descolonizado muçulmano – Albert Memmi fala de qualquer colonizado, analisando as diversas causas do fracasso dos países descolonizados (expressão que o autor, no contexto, prefere à de «países independentes»), vinculando-o à gestão feita pelos governantes e à psicologia do descolonizado.

Com uma crueza e uma perspicácia provocatória, e recusando retratar o descolonizado como uma simples vítima do colonialismo, do neocolonialismo e do Ocidente – a que certamente o autor não iliba –, Memmi fala das mistificações da História, tão convenientes para os governantes desses países, atolados em corrupção, álibis para a constituição de «Estados do não-direito», compondo o que o autor designa como «dolorismo» (p. 36), que propicia a inércia e desvios de espírito.

Em dezasseis segmentos que compõem a primeira parte, dedicada, ironicamente, a «O novo cidadão», Albert Memmi discorre sobre as ficções e realidade do mundo descolonizado, em que a pobreza, a corrupção e a violência geraram «a grande desilusão» do «novo cidadão». Memmi descreve e define a ausência de perspectivas do descolonizado face à tripla espera que o «novo» tempo, da independência, anunciara: a espera económica, a política e a cultural. A apresentação do cenário é implacável:

Sob a influência das religiões, favorável a uma procriação sem entraves, e de uma política irresponsável, que com frequência estimula deliberadamente a natalidade, a demografia desenfreada resultante gerou uma juventude excessivamente numerosa, turbulenta e por vezes delinquente, sobretudo devido ao subdesemprego, e que não vê nenhuma outra saída além da emigração. (p. 102)

Da letargia cultural, fortalecida pela omissão e pela catalepsia dos intelectuais, «tomados pela mesma paralisia de pensamento e ação» (p. 49), se aproveita a religião, representada pelos «homens de turbante» (p. 67-71), sendo que o limite dessa marcha um Estado teocrático que da coerção passa à violência, constituindo-se essa realidade numa das mais dramáticas decepções do descolonizado (p. 71), que se torna um «candidato à partida».

A segunda parte deste livro, com dezoito segmentos, sobre «O imigrante», abre-se com «Um exílio duplamente abençoado…», seguido de «… E o duplo fracasso» que fazem a síntese da reflexão sobre a emigração sobretudo de jovens, encorajada e até activamente facilitada pelos governantes que, assim, ganham tranquilidade pois aqueles, face à impotência dos poderes para resolver os seus problemas, são os primeiros a se sentirem tentados à revolta. Memmi denuncia a emigração como moeda de troca dos governantes africanos: face a hordas de populações desesperadas e face ao Ocidente.

Como imigrante, o descolonizado começa um novo calvário, o da «integração», que Memmi define como sendo de «dupla hesitação»: a dos imigrantes em integrarem-se e do país de acolhimento em integrá-lo (p. 190). E se dessa «dupla hesitação» que resulta Memmi conclui que «decididamente, a imigração é a punição do pecado colonial» (p. 112), o autor descreve, em «O gueto, refúgio e impasse» (p. 113-117), com amarga ironia e perspicaz observação da psicologia do imigrante, a ilusão da pátria em que vive o imigrante magrebino (qualquer imigrante nestas condições, aliás), explicando os «segredos» do fracasso da integração, celebrado convenientemente por integristas (religiosos, islâmicos, identitários, autenticistas):

Compreende-se que os integristas sejam partidários do gueto; é lá que a personalidade coletiva tem mais chances de sobreviver; é lá que eles podem alimentar uma agitação permanente, propícia aos seus desígnios. (p. 115)

É no âmbito do integrismo – «acompanhado de fanatismo» (p. 139) – que Memmi insere a discussão sobre o uso do véu, em «O véu ou a mestiçagem» – discussão tão presente em França, que o autor, angustiado, transporta para uma cena mais ampla, o mundo árabe-muçulmano: angústia não apenas porque representa um terrível retrocesso no processo de emancipação da mulher («É como se as mulheres da Idade Média reclamassem o uso do cinto de castidade», p. 118), mas porque «o véu é um gueto portátil, revelador da perturbação identitária que afeta os imigrantes muçulmanos, (…) um recurso, defensivo e ofensivo, a uma outra tradição», enfim, «máquina de sobrevivência da comunidade muçulmana, imersa em universo cristão ou, o que é pior, arreligioso» (p. 119).

Do integrismo, dentro e fora, deriva o autor para a análise do conflito israelo-palestiniano, um «conflito cómodo» porque justifica muitas autarcias. E o autor é muito corajoso na exposição de uma ideia: a sobrevalorização deste conflito (comparado aos outros, é, em termos de mortes). Porquê, então, essa sobrevalorização? (i) Porque não é apenas israelo-palestiniano: é árabe-judeu, isto é, «a quase totalidade dos países árabe-muçulmanos e a maioria dos judeus no mundo» (p. 42); (ii) a fundação do Estado de Israel, de responsabilidade europeia, não é, porém, colonial, o que dificulta as razões dos árabes.

A preocupação de Albert Memmi em estudar o homem, na sua natureza, em confronto com a diferença, tem sido uma constante deste octogenário. Porém, deste livro fica um travão amargo, uma certa desilusão em relação ao género humano:

Toda a sociedade certamente é violenta. Talvez, de maneira mais fundamental, não tenhamos sabido até aqui dominar a violência que está em nós; só soubemos opor-lhe uma outra violência, em vez de considerar todo o tipo de violência fora da lei. (p.77)
Será o peso dos anos ou apenas a consciência da necessidade de um livro que estava por fazer, como lhe disse um dia um jornalista (Posfácio. p. 187)?

Este é um livro escrito sem complexos nem temores, quase como uma necessidade de libertação, de purificação da consciência. Uma catarse. Que pelo menos intelectuais e governantes africanos deveriam ler.

Retrato do Descolonizado Árabe-Muçulmano e de Alguns Outros
Albert Memmi
Tradução de Marcelo Jacques de Moraes
Civilização Brasileira
Rio de Janeiro, 2007

* Artigo publicado na edição de Abril da revista África 21

fonte:
http://www.africa21digital.com/noticia.kmf?cod=8411112&canal=403

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Elisa Larkin Nascimento
É escritora, mestre em Direito e em Ciências Sociais pela Universidade do Estado de Nova York e doutora em Psicologia pela Universidade de São Paulo (USP). Co-fundadora e atual presidente do Instituto de Pesquisas e Estudos Afro-Brasileiros (Ipeafro), coordenou o curso de extensão universitária Sankofa no período de 1984 até 1995. Curadora da exposição “Abdias Nascimento 90 Anos – Memória Viva”, coordena a organização do acervo que se encontra sob a guarda do Ipeafro. Autora de O sortilégio da cor: raça e gênero no Brasil (Selo Negro, 2003), Pan-africanismo na América do Sul e organizadora da coleção Sankofa - Matrizes africanas da cultura brasileira (Selo Negro, 2008).

Fonte: http://www.gruposummus.com.br/search.php?editora=all&termo=Elisa+Larkin+Nascimento&tipo=autor