quinta-feira, 14 de maio de 2009

Primeira entrevista de Luandino Vieira sobre o Tarrafal

Fonte: http://ultimahora.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1377921&idCanal=12

“Os anos de cadeia foram muito bons para mim”


01.05.2009 - 08h37 Alexandra Lucas Coelho

No Tarrafal, Luandino Vieira escreveu sobre o que tinha vivido antes. Agora vai escrever sobre o que aprendeu no Tarrafal. Será “uma história de Angola”. Trinta e cinco anos depois de fechar como campo de presos políticos — a 1 de Maio de 1974 —, o Tarrafal ainda pode ser uma terra arável na cabeça dos homens que lá não perderam a vida. Portugal foi isto, fez isto, há sobreviventes e muito está por contar. Luandino não costuma fazê-lo.

Aceitou esta entrevista — feita segunda-feira, ao longo de uma manhã, no Grémio Literário, em Lisboa — antes de ir apanhar o avião para Cabo Verde, onde hoje está, com antigos camaradas de presídio, no simpósio sobre o Tarrafal que decorreu desde terça.

Já de Cabo Verde, disse que terá ainda coisas a acrescentar sobre o Tarrafal, em sequência a esta entrevista.

Nascido português em Lagoa de Furadouro, Ourém, a 4 de Maio de 1935, José Vieira Mateus da Graça fez-se angolano “pela sua participação no movimento de libertação nacional” de Angola, diz sempre a badana dos seus livros.

Foi preso antes da guerra colonial, em 1959. Voltou a ser preso, e condenado a 14 anos de prisão, por “actividades subversivas contra a segurança externa do Estado”, em 1961. Com dois camaradas poetas, António Jacinto e António Cardoso, andou de cadeia em cadeia, em Angola. Em 1964 foram transferidos para o Tarrafal, de onde Luandino saiu em liberdade condicional em 1972.


É assim que vai estar [em relação ao microfone]?
A olhar para si, geralmente respondo a olhar para as pessoas. Geralmente. Podia ter ficado com o trauma de não olhar para as pessoas que é para poder mentir à vontade. Mas eu nos interrogatórios fazia ao contrário, para ser convicto.

Olhava.
Olhava.

Isso não é grande prenúncio para esta entrevista.
[ri-se]. Vamos lá. Temos que fazer o trabalho.

Como foi a viagem para o Tarrafal?
Foi a última viagem do Kwanza, um velho navio que andou no transporte de colonos nos anos 30. Viemos na enfermaria transformada em prisão. E deixavam-nos sair meia hora, uma hora por dia para tomar ar no convés. Foi assim durante os dias que demorou até São Vicente.

Quantos dias?
Dez, oito, não me recordo. Depois escrevi isto nas cartas para a minha mulher. Habituei-me a escrever no Tarrafal todos os dias, então as cartas eram muito grandes. Como a regalia era escrever de 15 em 15 dias, além de fazer uma letra muito pequenina e certa, como ainda hoje conservo, escrevia dos dois lados, e tentava pôr o máximo de informação, para poder recordar-me quando saísse. Adoptei um sistema de escrever uma coisa anódina que desperta na memória o facto por trás daquilo. Se for procurar uma carta de 1965 em que falo da beleza da luz a entrar pelas grades do refeitório, sei que foi o dia em que o Ilídio Machado foi mandado para a cela disciplinar porque o director perguntou-lhe: “Então, a sopa está boa, senhor Ilídio?” E ele disse: “Está quente, está quente.”

O que levava consigo para o Tarrafal?
A roupa e os livros que estávamos autorizados a ter em Luanda [nas prisões de onde vinham]. Eu estava a estudar italiano e quimbundo, trazia uma gramática de quimbundo, a do [José Luís] Quintão, e trazia um livro de texto e uma gramática de italiano.

Passou a viagem a escrever?
Não, penso que não escrevi. O hábito que ainda tenho é primeiro viver, e depois, quando me atribuo tempo de tranquilidade, tomo notas. Esta entrevista, eu logo à noite vou tomar notas.
Esse processo é que me permitiu guardar, porque me obrigava a gravar na cabeça. Claro que a grande maioria das coisas perdeu-se. E pode ser que eu já estivesse a ver como queria guardar. Então às vezes conto coisas que não são rigorosamente verdade, só no sentido de que há um facto verdadeiro por trás.

Primeiras impressões do Tarrafal?
Eu fiquei chocado. Era tudo muito seco, árido. Aquela montanha à volta, aquela planície, só com umas árvores muito esqueléticas, raquíticas, todas inclinadas para o mesmo lado, porque o vento as obriga.
O Tarrafal tinha o fosso e os arames farpados. Agora tem uma muralha, foi construída mais tarde. E havia umas guaritas nas esquinas, onde ficavam os guardas. As casernas eram o que existe ainda hoje, toda aquela estrutura foi a construída pelos presos portugueses nos anos 30. Ficou tudo, a central de energia eléctrica, tudo o quanto eram postes já enferrujados, comidos pelo tempo, as casas tinham um aspecto muito decrépito, a secretaria era uma casinha de madeira assente em pilares.
Vínhamos de uma terra em que a vegetação é exuberante. Chegar ali e ver aquilo tudo seco... E via-se logo o isolamento. O campo estava isolado da povoação de Chão Bom e do Tarrafal. Hoje está quase tudo ligado. Era deserto, isolado.

Ficaram na caserna com os outros angolanos?
Primeiro ficámos só os três, que é o que eles chamavam período de adaptação. Depois juntaram-nos à caserna dos angolanos.

Quantos estavam lá?
Oitenta e tal. Já tinham saído alguns. Porque nós cruzámo-nos com os primeiros que saíram em liberdade condicional. Encontrámo-nos na Polícia de Segurança Pública da Cidade da Praia, saímos do cais, fomos levados à Polícia, lembro-me muito bem, ficámos sentados, tinha uma parreirazinha, e passaram por nós o Beto Van Dunen, o Belarmino Van Dunen, e já não me recordo quem eram os outros dois. Penso que eram quatro, que nesse dia tinham vindo do Tarrafal para seguirem para Lisboa, para São Vicente, para o Sal, não sei, mas para virem para Luanda em liberdade condicional.

No Tarrafal estavam uns 80 angolanos. E os 100 guineenses, com quem não se cruzavam.
Não, porque se eles saíam de tarde [para o recreio], os angolanos saíam de manhã, e na semana seguinte era o contrário.

Mas chegou a haver casernas dos angolanos separadas. Porque houve uma fase em que houve uma caserna da UNITA, não foi?
Não, não. Houve duas casernas de angolanos separadas porque éramos muitos.

Justino Pinto de Andrade contou no colóquio sobre o Tarrafal [no Outono, em Lisboa, disponível no YouTube] que chegou a haver uma caserna só com os homens da UNITA. Mas talvez isso tenha sido já depois de o senhor ter sido libertado, entre 1972 e 1974.
Só se foi depois. Os angolanos da UNITA chegaram a constituir o maior número. Porque enquanto os presos de 1961 e 1964 começaram a ser libertados, começaram a chegar os da UNITA. Eu estava lá e convivi com eles. Estávamos todos juntos. Eu cheguei a estar na caserna em que a maioria era da UNITA. Os angolanos estavam numa caserna e os guineenses estavam noutra. Depois os guineenses foram libertados, enviados penso que para a Ilha das Galinhas e veio a terceira leva de angolanos, que já trouxe os universitários.

Em 1970.
O Justino, o Vicente [Pinto de Andrade], o Jaimito Cohen, o [Eduardo] Valentim, o Gilberto [Saraiva de Carvalho]... E alguns ainda do 4 de Fevereiro [o ataque dos nacionalistas angolanos às prisões de Luanda, que desencadeia a guerra colonial] e outros que foram não sei por que motivo tirados dos campos onde estavam em Angola — o Manuel Pedro Pacavira, o Paiva Domingues da Silva, etc. E quando vieram fomos redistribuídos pelas duas casernas.
Mas houve uma altura no campo, em 1969, 70, em que éramos nove, meia-dúzia.

Durante anos viveu nessa caserna com dezenas de homens. Como se organizavam?
O mais interessante desse tempo é que estavam uns da FNLA, outros da UNITA, outros do MPLA. Só no MPLA é que havia algumas actividades que incluíam um certo grau de organização.
A maioria dos presos era protestante. À hora do culto, havia leitura da Bíblia, cânticos, era nitidamente um momento em que cada um se encontrava com o que tinha levado todos ali. Os trechos escolhidos da falavam sempre do exílio, do regresso à terra prometida.

Havia pastores.
Havia. E membros de família, pais e filhos, sobrinhos e tios.

Operários, professores...
… analfabetos. E estávamos todos juntos.

Homens de 20 anos e de 70.
E isso dava origem a situações muito interessantes de viver no mesmo espaço. O pai ver o filho nu ou o filho ver o pai. A questão do banho, porque o sítio era aberto. Mas não havia nada escrito, nenhuma organização formal. Eram mais as lealdades familiares, profissionais que faziam o convívio e organizavam o espaço. Na caserna estávamos todos arrumados e quem quisesse trocava o local da cama. A gente falava um com o outro: “Porque eu ali não estou bem...” Tinha janelas de vidro, a gente fechava quando havia muito vento. Vento havia sempre, era preciso fechar por causa do pó. Mas água e casa-de banho, quando chegámos não havia. Havia só uns penicos altos que ficavam no interior da caserna, e todos os dias de manhã nós despejávamos. Porque isso era organização da própria caserna, as faxinas, varrer, limpar, despejar. Todos os dias duas, três pessoas faziam isso, era uma escala. Um tomava conta das escalas e outro fazia de ecónomo, porque todas as semanas podíamos mandar fazer compras à vila — os que tinham dinheiro, que vinha nas cartas da família. Fazíamos a lista, o dentífrico, o sabão, as coisas que eram permitidas.

EU PUNHA A ÁGUA DOS MAIS-VELHOS

Como se lida com isso, viver anos num sítio onde não pode fechar uma porta? Cria-se uma privacidade interior?
Penso que sim, mas no aspecto físico a habituação é rápida.
Eu não tinha nenhum tabu em estar com mais-velhos ou mais-novos, mas os que eram religiosos, sobretudo os protestantes, têm normas de conduta, pai e filho, mais-velho e mais-novo, e deve ter sido muito difícil. E digo isto porque uma coisa que fez com que eu aprendesse muito com os mais-velhos foi o facto de me chamarem para o chuveiro. Aquilo era uma lata, era preciso encher no chão com 20 litros de água e depois pendurar num gancho no telhado, para depois se abrir uma torneirinha. Mas quando já se estava a tomar banho, era preciso pôr mais água. E eu costumava sempre pôr a água para os mais-velhos Fernando Pascoal da Costa, Sebastião Gaspar Domingos, Adão Domingos Martins, tendo eles filhos e sobrinhos no campo, gente jovem. A mim, isso era-me permitido. Eu punha e ficava a conversar: “Ó senhor Pascoal, e isto, e isto, e tal.” Na brincadeira dizia: “Pois é, o branco é que tem de estar agora a pôr a água, ó senhor Pascoal!” E ele: “Anda lá, andá lá, põe lá água.” Aquelas brincadeiras que fazíamos uns com os outros.
Quando o intendente Vigário chegou [o segundo director do Tarrafal que Luandino apanhou], e começou a dizer que queria fazer obras, nós reivindicámos logo isso. Então fizeram um tanque dentro da caserna, uns lavatórios.

Quando é que o intendente Vigário chega?
Então, eu ainda estive com Helder Lima dos Santos [o primeiro director que Luandino apanhou] quase um ano, portanto ele chega em 64-65. Porque entre o Intendente Vigário e Eduardo Vieira Fontes [o último director] ainda veio um jovem, muito jovem, que tinha acabado de sair da escola colonial e era caçador submarino e solteiro, então passava o tempo na caça submarina. Como o mar ali é riquíssimo, ele vinha cheio de pargos e garoupas. Foi nesse período em que o campo teve muito poucos presos, e chegámos a comer uma coisa horrível que se chama trinca de arroz — que é a varredura, aquilo que sobra no cais depois de carregarem os navios, e era peneirado e vinha para os presos — com lagosta. Lagosta cozida assim para dentro de água, sem gosto. Diziam: “Ah, vocês estavam bem, até comiam lagosta...” Mas ele distribuía por todo o lado, na vila dava aos guardas. Sobrava?, pronto, põe na refeição dos presos.

Não havia solidão dentro da caserna. Isso era um problema?
Quando abriam a caserna, nós vínhamos todos cá para fora. E naturalmente, sociologicamente, formam-se os grupos, por isto e por aquilo, ou porque estamos a conversar, ou porque já temos afinidades, ou temos assuntos a discutir. Os dos MPLA, o Ilídio, o Jacinto, eu, o Manuel dos Santos, etc, sempre conversávamos. Depois aquilo entra na rotina e ninguém está a discutir todos os dias o movimento de libertação. São as notícias da família, os que estão fora.
Criei o hábito de, todos os dias, quando estávamos com a caserna aberta, a minha vida ser no exterior. Fazia tudo quanto podia, tudo quanto fosse trabalho. Aprendi coisas de marcenaria com os meus colegas marceneiros, aprendi a fazer cestos, aprendi artesanato de palha com o Fabelo Malonguiça, que era da UPA-FNLA. E como andava muito à volta do campo, eu via os soldados portugueses a olhar para mim. Deviam pensar que eu era maluco, andar para trás e para diante, a falar sozinho. O falar sozinho era ir lendo mentalmente, em voz alta, o que já estava a escrever na cabeça. De maneira que, quando nos fechavam, eu tinha três tipos de actividade. Escrever três ou quatro linhas desse dia para a carta…

Como se fosse um diário.
Respondendo à carta da minha mulher, todos os dias um bocadinho. A luz apagava-se às nove horas, se de manhã podíamos estar ao ar livre, eu escrevia à tarde, se à tarde podíamos estar ao livre, eu escrevia de manhã. Isso era uma actividade. Depois, quando andava a escrever [livros], escrevia. E conseguimos autorização para dar aulas no interior da caserna: alfabetização, instrução primária, primeiro e segundo ciclo.

Como funcionava?
Quem tinha o terceiro ciclo ensinava os do segundo, nas matérias que soubesse. Por exemplo, o [poeta] António Jacinto era guarda-livros, como se dizia, e transmitia conhecimentos de contabilidade. E as pessoas estudavam também por si próprias. Alguns fizeram o primeiro ciclo, foi-lhes dada autorização, foram fazer exame à Cidade da Praia e obtiveram muito boas notas.

O que é que o Luandino fazia?
Eu dava instrução primária. Às vezes tinha problemas, porque tinha de riscar aquela palavra que não existia, mas depois copiava para o meu caderno de termos literários. Devo um termo ao que também foi meu mestre marceneiro, Bernardo Loureiro, que já faleceu, era da FNLA. Numa redacção sobre os meios de transporte, ele escreveu que podiam ser rodoviários, ferroviários e fluviários. Então copiei os fluviários para o meu caderno número 12. E no “Livro dos Rios” [o mais recente livro de Luandino], está lá fluviários.

Porquê número 12?
Porque fiz 24 cadernos. Os mais belos erros da língua portuguesa, copiados, ouvidos. Daqueles caderninhos escolares que tinham 20 páginas, de uma linha só. Só copiando o que ouvia, o que eles escreviam, o que fui encontrando de violações da norma.

Que é feito desses cadernos?
Uns tenho em casa. Outros com transcrições de músicas populares angolanas, em quimbundo e português urbano, desapareceram. Emprestei-os a alguém para uma exposição sobre o Liceu Vieira Dias [o “pai” da música popular angolana, que estava com Luandino no Tarrafal]. Em alguns desses cadernos havia o atrevimento do pentagrama, da notação musical. Nenhum de nós sabia música. Eu não sabia, e o Liceu era um músico de ouvido. Lembro-me que a certa altura pensámos mandar vir um manual de solfejo. Porque começámos essa tarefa, tentar escrever a música das canções populares cuja letra eu já tinha nos cadernos.

Os cadernos vinham de onde?
Punha nas compras. Vinha uma barra de sabão Clarim, um dentífrico Couto, dois cadernos escolares, ou um caderno de papel de cartas, envelopes, tudo isso era autorizado.

Escrevia na cama?
Não. Às vezes as compras [que os presos pediam] eram muitas, vinham barras de sabão Clarim, e o comerciante mandava um caixote de madeira. Então pedia-se para ficar com o caixote. Pouco a pouco cada um foi improvisando uma mesa. Eu herdei uma bela mesa que o Helder Neto tinha construído ao longo do tempo em que esteve no Tarrafal. Ele saiu antes de eu chegar. Não sei com quem eu negociei essa mesa. Disse: “Epá, esta mesa é que é uma mesa alta.” Eu tinha um banco e uma mesa.

Ao lado da cama?
Mesmo ao lado. A minha cama ficava entre uma coisa que funcionava como um guarda-fatos, que tinha um fio e uma cortina que corria, e alguns tinham lá o casaco que tinham trazido. Tinha a cama e a minha mesinha, o que roubava um bocado de espaço. E para isso tive de ficar responsável pela segurança do guarda-fato. Todas as noites armava duas ratoeiras com um bago de amendoim para apanhar os ratos. Eles instalavam-se e roíam. Uma cena caricata foi um que fez criação nos bolsos de um sobretudo, não sei se do Liceu Vieira Dias, se do Agostinho de Carvalho.

[Numa das prisões de Luanda onde tinham estado antes de serem deportados para Tarrafal, Luandino, Jacinto e Cardoso tinham de montar turnos de noite porque havia ratazanas a saírem dos esgotos]

Ratazanas não havia?
Não. Era o rato de campo. E eu ficava ali a apanhar os ratos. Era a minha função na caserna, além de cumprir com as escalas todas. Deram-nos autorização para comprar aquelas ratoeiras de mola que se armam com um bocadinho de queijo. Nós não tínhamos queijo, obviamente, mas tínhamos mancarra, ginguba – amendoim. Então, meio amendoim, aquilo muito bem posto, truc! Lá ficava o rato, o que me obrigava todas as noites a levantar, porque fazia barulho. Tirava o rato e ia pô-lo lá atrás, na casa-de banho, no sítio do lixo. E voltava a armar a ratoeira. Porque estando aquele a ocupar a ratoeira os outros podiam avançar.

Era o preço que pagava para poder escrever?
Não era um preço. Era a minha função. Houve tempo em que a caserna dava para ficarmos isolados uns dos outros, e tempo houve em que estávamos mesmo apertados. Uma questão de gestão do espaço, que era feita sempre pacificamente.

Tinha os cadernos onde anotava os erros e depois tinha uns cadernos para escrever os seus livros?
Não, escrevia nesses, de uma linha, que eu mandava vir a mais.

Além dos 24.
Os 24 eu guardei, os originais, depois dactilograva. Porque quando fui preso, em 1959, apreenderam-me a minha máquina de escrever, para conferirem os teclados e o batimento dos panfletos [nacionalistas que a PIDE tinha encontrado]. Em 1961, no segundo processo, depois de termos sido sentenciados, deram-me a máquina. E eu passei todos os anos da cadeia andando com a minha Hermes Baby na mão. Saí da cadeia com a minha Hermes Baby. E em 1980 roubaram-ma da União dos Escritores. Dava uma novela, aquela maquinazinha Hermes Baby que eu comprei quando ganhava apenas 800 escudos por mês. Foi das primeiras coisas que comprei, a máquina e quatro ou cinco livros de Jorge Amado, que quando estava no serviço militar, dei sangue para poder comprar.

Então quando foi para o Tarrafal levava os manuais, roupa, a máquina...
Aquilo que tinha comigo de uma prisão para outra. Mais tarde tiraram-me os livros de italiano e de quimbundo, não me deixaram continuar a estudar não sei porquê.

Mas a máquina deixaram.
A máquina ficou na secretaria, só uns anos depois é que consegui [recuperá-la]. A gente ia pedindo. Houve uma altura em que até nos permitiram um violão.

Escreveu desde o primeiro ano da cadeia?
No primeiro e segundo anos não tive grande apetência. Tive até muita dificuldade em voltar à escrita. “No Antigamente, na Vida” [um dos livros de histórias feitos no Tarrafal] foi escrito depois de eu ter sofrido um bom bocado, sobretudo no ano de 67-68, em que eu estive quase a desesperar. Não era exterior, os meus colegas não davam conta disso, cada um tinha os seus problemas, mas isso passou para as histórias. Por exemplo, a criação de uma figura feminina meio onírica numa das histórias, “Memória narrativa ao sol de Kinaxixi”. Hoje leio e percebo exactamente porque é que aquilo saiu.

E porquê?
Porque eu estava numa situação de total carência. Estive um ano e tal sem notícias da família, porque entretanto minha mulher em Luanda continuava ligada aos grupos da oposição. E sempre com exposições [dirigidas a todas as instâncias, sobre a prisão de Luandino], e às tantas começaram a cercear-me a correspondência.

Mas há um momento antes. Em 65, o seu livro “Luuanda” ganha o Grande Prémio de Novelística da Sociedade Portuguesa de Escritores. Como soube?
Por um telegrama: “Parabéns pelo prémio. Abraço, Ferreira.” Aquilo foi ao director, ele deixou entrar, mas não me disseram nada. Não percebi que raio de prémio era. “Mas eu não joguei na lotaria, alguém jogou na lotaria por mim? Prémio?” Porque não líamos jornais, não tínhamos rádio, nenhuma informação. Depois recebi um cartão de Lisboa, de umas amigas que me escreviam, e soube que tinha sido atribuído o Grande Prémio de Novelística. E depois, de Lisboa, várias pessoas mandaram postais de parabéns, e os recortes dos jornais afectos ao regime, que lançaram imediatamente uma campanha, que resultou naquela acção, de destruição da Sociedade Portuguesa de Escritores e de prisão do júri.

A direcção da cadeia não lhe disse nada?
Guardou tudo! Porque de início pensou: “Isto vai enchê-lo de ânimo, portanto não lhe vamos entregar nada.” Quando começaram aquelas notícias, debates na televisão, depoimentos na rádio, pessoas que supostamente tinham vindo do Norte de Angola e me tinham visto a fazer isto e aquilo, a serrar pessoas, a matar. A designação era de terrorista. O material nos jornais era de tal ordem que o director achou que eu ia ficar com a moral em baixo. Chamou-me e disse: “Olhe, eu andei a guardar isto, mas tome lá. O senhor ganhou o prémio, veja lá o bonito sarilho que arranjou.”

Como ficou o seu ânimo?
Para escrever? Teve um efeito muito positivo.
Naquele tempo eu andava muito no campo, no fim dos trabalhos, com o António Jacinto, e discutíamos a questão da utilização da linguagem popular na literatura. Nomeadamente como eu tinha feito no “Luuanda”. O Jacinto estava contra. E a reserva dele era: “Isso aí é um beco sem saída, e portanto não vale a pena. A linguagem popular ainda não está de tal maneira consolidada que possa ser de uso corrente, que tu possas escrever e toda a gente possa ler, portanto volta para trás.” Dava discussões e discussões, para além de discutirmos a Rodésia do Sul, e o Ian Smith, e o “apartheid”, que a gente discutia tudo, todos os dias fazíamos um mundo novo.
Essa discussão deu frutos. É visível na “Estória da Menina Santa” [Do livro “Velhas Histórias”, revisto no Tarrafal] um certo travão na linguagem popular, mesmo nos métodos de alteração da língua portuguesa. Mas o prémio voltou a levantar-me o problema.

Tinha dado bom resultado, afinal.
A certa altura percebi que só podia encontrar a resposta, se era para a frente ou era para trás, escrevendo.

Escreveu “Nós, os do Makulusu” [um romance sobre a guerra colonial] entre 16 e 23 de Abril de 1967. Um jacto.
Esse livro andava dentro de mim há muito tempo. Eu não encontrava era forma. Sabia que aquilo era uma coisa que me doía, e quando as coisas me doem eu tenho que escrever.

Escreveu-o numa semana.
Não podia fazer outra coisa, vivia obcecado. Vinha para fora, sentava-me debaixo de uma árvore e ia escrevendo, escrevendo. Nessa semana ficou tudo escrito e corrigido. Foi um sonho que eu tive.

Foi antes da fase má?
Já no início. O que se consubstanciou nessa fase foi a acumulação de tudo, devido a estar sem notícias. E depois os factos exteriores, a invasão da Checoslováquia…

Como souberam?
Montámos um pequeno sistema, quando íamos à Cidade da Praia, à consulta. A gente inventava doenças e mais doenças, e alguns estavam mesmo doentes, e íamos a consultas porque depois de 1965 a política em relação aos presos era de “recuperação” e o regime prisional abrandou. Também a vigilância da Cruz Vernelha, das instâncias internacionais obrigava a qualquer coisa que se parecesse com um sistema de saúde. E todas as semanas um alferes médico fazia o que tinha de fazer com os militares destacados no Tarrafal, mas também via os presos. A mentalidade de um alferes médico era diferente. Muitos conseguiam ir fazer uma radiografia à cidade, ou era a questão dos olhos, dos dentes. E como todas as semanas havia duas saídas para a Praia, passou a haver uma ida regular de presos às consultas.

E podiam comprar jornais?
Não, não. Nem sair do hospital! Ficávamos ali fechadinhos. Mas conseguiu montar-se um sistema em que, ao chegar, encontrávamos já os recortezinhos mais interessantes. E depois era questão de os fazer entrar e circular no campo.

Como é que os levavam para o campo?
Eu tinha um par de botas e, como o meu pai era sapateiro, aprendi um pouco da arte. As botas tinham sola de borracha, abri-a e consegui fazer um fundo falso. Os outros traziam de outra maneira, mas eu ia à casa de banho, descalçava-me, tirava a palmilha, punha ali os papelinhos.

Porque já tinha o seu contacto no hospital.
Que tinha sido estabelecido pelos colegas do primeiro grupo [de presos, que entretanto tinham sido libertados]: uma enfermeira e mais uns ajudantes.

E foi assim que soube da invasão da Checoslováquia.
Nesse ano, as notícias que nos abalaram foram a invasão da Checoslováquia, a morte do Che Guevara e a morte do Hoji-Ya-Henda [nome de guerra de José Mendes de Carvalho], o jovem comandante que no Leste estava a comandar a guerrilha do MPLA. Todos nós tínhamos a noção de que ele iria ser possivelmente um grande dirigente.
Isso, somado aos anos de cadeia e à falta de notícias, eu estive a ponto de soçobrar. Pensei que nunca mais íamos sair dali.

Pensou fugir? Falava-se disso?
Não, não. Estávamos numa ilha, a ilha estava no meio do Atlântico, dentro da ilha estávamos no meio do campo, não tínhamos contactos. Fugir nunca me passou pela cabeça.

Nunca ninguém se matou no Tarrafal.
Não. Dos presos angolanos faleceram dois por doença, o [António Pedro] Benge e o velho Chipoia Magita.

Escreveu o “João Vêncio”, os amores daquela personagem...
Deve ter sido como prova em contrário.

... entre 27 de Junho e 1 de Julho de 68. Ou seja, já depois da invasão da Checoslováquia.
Estou convencido que isso depois é que me ajudou a superar.

Era uma espécie de fuga para dentro da cabeça.
Só pode ser visto assim, porque a situação à volta...

Mas lembra-se de quando lhe apareceu aquela personagem libertina?
João Vêncio? Eu conheci um meio libertino na Cadeia Comarcã de Luanda, em 62-63, quando estivemos lá, e depois ia ouvindo sobretudo do Mendes de Carvalho, dos enfermeiros, relatos de personagens que tinham esse lado meio pícaro, meio malandro, meio delinquente, e isso tudo foi-se juntando. A história talvez tenha sido ditada pela necessidade de meditar sobre a dificuldade da beleza no amor, qualquer coisa assim muito lírica ou muito poética, porque o personagem é muito contraditório. Se formos analisar friamente, é um malandro que não merece a mais pequena consideração, e por força do discurso torna-se simpático.

A dificuldade da beleza no amor, e não da felicidade no amor? Porque há uma coisa sua que diz: “Mas há amor feliz?”
Pois. Se calhar... Quantos anos é que eu tinha? Se calhar era também meditando sobre a juventude que estava a perder ali. “Se sair alguma vez, sou um velho que já não vai poder viver isto, portanto deixa-me viver desta maneira...” Sei lá, não faço auto-análise.

Isso corresponde a uma fase em que não sabia da sua mulher, não tinha notícias da família.
Depois, minha mulher, que já faleceu, foi encontrar algumas dessas cartas no processo dela, na Torre do Tombo.

Cartas que nunca lhe chegaram.
Nunca me chegaram.

A que é que se agarrou?
A uma certa tranquilidade pessoal. Acho que por muito mal que eu esteja há sempre coisas piores que sucedem aos outros. Se me dou conta de que estou mal, é sinal de que estou bem. Enquanto me fui dando conta disso... Agora, tinha medo de estar a perder uma coisa fundamental que é vivermos a nossa juventude.

A escrita salvou-o?
Salvar é muito forte, mas foi um mecanismo de defesa.

Era uma acção.
Era a maneira de estar a fazer qualquer coisa, responder a perguntas que me punha.

Uma rotina é fundamental?
Foi fundamental. Embora eu tentasse sempre incluir coisas que fossem fazendo diferença. Quando apareceu a biblioetca, ofereci-me para organizar. Quando estava organizada, ofereci-me para bibliotecário. Quando foi partida em capela e biblioteca, ofereci-me para ajudar o padre à missa, porque tinha feito isso em criança com minha mãe, na missão de São Paulo [em Luanda]. Quando foi possível criar galinhas, ofereci-me para tratar das galinhas, e fizemos uma horta. Depois, aprender a trabalhar a madeira, e fazer cestos. Estava eu a fazer uns passarinhos de madeira quando me vieram dizer que ia para Lisboa, em liberdade condicional.

A biblioteca surge quando?
No meio do campo havia uma casa de cimento que tinha sido de madeira, que era para escola, biblioteca e capela. Uma mesa, uns bancos corridos, uma parte separada onde ficaria o altar. E depois a Gulbenkian mandou uma biblioteca básica de língua portuguesa, em 65, 66. Eram vários caixotes com livros, que ficaram muito tempo a ser penteados pela censura do campo. Mas, a certa altura, ou deixavam entrar aquilo ou não deixavam entrar a biblioteca. Então, Namora, Redol, os livros da Agência Geral de Ultramar, a colecção dos arquivos de Angola onde estavam publicados os documentos históricos do museu… Muita coisa que deu logo pano para mangas. Toda a gente começou a ler.

Foi uma festa.
Uma festa. Montou-se um sistema de requisições, o preso vinha com o guarda, entregava o livro, trocava-o. E depois o padre passou a dizer missa ali.
O jantar era por volta das seis e meia, faziam a chamada, encerravam-nos, e das oito às nove é que era leitura, jogar as cartas, conversar, uma pessoa ia para a cama do outro, ficava a conversar, e os cultos. Às nove acabava a luz, tudo a dormir.
Os protestantes juntavam-se à volta do pastor, liam versículos, comentavam, cantavam , eu também às vezes cantava, porque os cânticos eram em quimbundo e era uma forma de eu melhorar o meu quimbundo, que me estava a ser de novo ensinado pelo Nobre Freire Pereira Dias, o Mendes de Carvalho, o Zé Diogo. A cada um eu perguntava, sobretudo aos mais velhos, o significado de certas palavras. O António Jacinto fez um dicionário de quimbundo, copiando do dicionário que está publicado, do Assis Júnior, cada uma das entradas numa ficha, e depois obtendo quatro informações diferentes de quatro mais-velhos.

Ou seja ampliou
Esse dicionário saiu com ele, está com a viúva. São quatro caixas de leite Nido com fichinhas arrumadas. A paciência dele... Todos os dias acabava o pequeno-almoço, sentava-se e fazia na minha máquina as fichas. E à tarde ele ia [ter com os mais-velhos]: “Senhor Pascoal, o termo ‘caueto’? E o senhor Pascoal dizia: “‘Caueto’ quer dizer...” E ele punha “FPC”, Fernando Pascoal da Costa, e a data de nascimento do velho Pascoal, sei lá, 1905, talvez. Sebastião Gaspar Domingos, Adão Domingos Martins, e o outro Pascoal de Carvalho Júnior, a quem chamávamos Tio Candondo. Os que eram de Malange ele punha, ou de Luanda. É uma obra preciosa que aquele homem fez. Eu escrevia, mas nisso é que ele passava o tempo.

Depois das 9 da noite não se passava nada? Não escrevia às escuras?
Não, não, não. Dormíamos mesmo. E acordávamos muito cedo.

O que leu no Tarrafal de marcante?
“O Delfim”, do José Cardoso Pires. “El Siglo de las Luces”, do Carpentier, que só entrou porque o padre deu autorização. Os Arquivos de Angola, com a transcrição dos documentos todos, “Carta do rei do Congo”, “Carta de Doação de Dom Sebastião a Paulo Dias de Novais”. Aqueles volumes sobre Portugal feitos pela Agência Geral, Alto Douro, Minho, com fotografias e as descrições todas, que eu não sabia nada de Portugal, nunca tinha visto.

Guimarães Rosa?
Só o “Grande Sertão Veredas”. Em certa altura eu ditava uns trechos pequeninos a partir do “Grande Sertão” e tinha um aluno da quarta classe que sabia de cor Guimarães Rosa. Dizia algumas daquelas frases. Eram tão bonitas que ele dizia.

Então usava-o para dar aulas?
Às vezes ditava frases como “Soletrei, anos e meio, meante a cartilha, memória e palmatória.” E perguntava: “O que é que isso quer dizer?” “Quer dizer que o professor lhe batia.”
Foi uma coisa muito interessante. Por exemplo, Aquilino, eles diziam: “Esse português só atrasa…” Por causa dos regionalismos.

Não gostavam?
Não percebiam, e eu não sabia explicar.

NUNCA ME ZANGUEI COM NINGUÉM

Alguma vez foi para a “holandinha”?
Não. A “holandinha” era a cela disciplinar.

Dentro de uma arrecadação?
Eu não tive conhecimento. O próprio termo eu encontrei recentemente. Penso que foi já depois de terem entrado os presos do PAIGC.

No seu tempo não se falava em “holandinha”?
Não. Havia a cozinha, o refeitório, as oficinas e havia uma última sala, e essa foi dividida em três, fizeram-se três celas para isolamento e chegaram a funcionar como celas disciplanres. Eu sei porque aí estiveram os presos cabo-verdianos e o António Cardoso, castigado, também esteve numa delas, ao lado deles, e eles o apoiaram com cigarros e outras coisas.

Nunca foi castigado?
Não.

Nunca viu castigos, espancamentos?
Não.

Nem soube?
Não, no período em que estive lá.

Quem eram os seus amigos?
Dava-me com toda a gente, convidavam-me para cantar quando eu dizia que queria cantar em quimbundo. Não me zanguei com ninguém, muito embora tivesse havido ocasiões em que as relações entre certos presos eram tensas. De respeito, mas não conviviam.

Por razões políticas?
Não, pelo efeito do isolamento. Do ponto de vista físico, o que mais atacou os presos foi uma doença hemorroidal, e do ponto de vista psíquico, a mania da perseguição. A situação em que estávamos, as depressões, às vezes as notícias nas cartas, e depois um dito, uma frase, um riso, eram interpretados como sendo uma indirecta. Mas não tive conflitos. Não saí do campo com relações cortadas com ninguém.
Falo com todos, infelizmente muitos já faleceram. Mas a pessoa com quem mais falava e discutia mesmo a sério era com o António Jacinto. Depois da saída do Ilídio Machado, o António Jacinto ficou sendo a pessoa mais proeminente daquela fase da fundação do movimento nacionalista, e da fundação das organizações políticas e culturais.
Mas eu já era amigo do Jacinto antes do Tarrafal. O grande amigo que fiz no campo foi o Agostinho Mendes de Carvalho. Vou a Luanda e tenho sempre que ir almoçar com ele. E a gente isola-se, fica a almoçar e conversar.

E quem são os outros tarrafalistas que estão em Portugal?
Aqui, está o Manuel dos Santos Júnior, o André Franco de Sousa. Vêm de vez em quando alguns, ficam por algum tempo em tratamento. Agora a residir... Nobre Ferreira Pereira Dias, também me dizem que está cá. Manuel Pedro Pacavira é o nosso embaixador em Roma.

Quais são as relações com os que vivem cá?
Não os vejo. O Manuel dos Santos Júnior, soube noutro dia que ainda estava por cá — pensava que estava em Luanda. Soube pela Diana Andringa, que me disse que ele não andava em muito boa situação, porque havia um problema qualquer de documentos que não obtinha da embaixada. Depois, quando eu liguei, já tinha os documentos.

A prisão forja amizades ou pelo contrário?
Pode forjar e destruir, como tudo. Não é uma incubadora de amizades.

Porque é que nunca escreveu as suas memórias do Tarrafal? Porque é não gosta de falar disto?
Também por aquilo que eu disse. Não sei se estou a dizer o que já seleccionei. Se estou a dizer a verdade. Por outro lado, porque tenho todo esse material disperso, e gostava de ver e, lendo, recordar.

Mas vai fazer um livro com isso?
Creio que não.

Se não são os senhores a escrever essa história, ela vai desaparecer.
Eu acredito que sim, mas não acredito na importância disso.

Não é um ensinamento, uma herança?
Se as pessoas aprendessem alguma coisa com as memórias, não havia guerras há muito tempo.

Acha que é inútil?
Também não, porque não somos os medievais que já fomos. Agora, não acredito que o poder da memória sirva para modificar o comportamento das pessoas no futuro. Não sou contra, mas está um dia de sol e eu não fico em casa, vou para o sol. Está de chuva, fico dentro de casa, mas não escrevo, leio, e se não posso ler ouço música. Isso é muito mais importante para as pessoas do que a leitura de memórias.

A sua correspondência do Tarrafal, que devem ser milhares...
Não faço ideia, mas são umas malas.

Está onde?
Em Luanda. Tudo quanto tenho de meu mesmo está em Luanda, em três casas.

Como é que funcionava a censura? O que é que eles censuravam?
A parte política já ninguém se atrevia a escrever. Censuravam tudo quanto fosse referência às condições em que estavam a viver. “A comida é má” — isso eles eram muito atentos. Cortavam.

Ou riscavam
Mas de um modo geral cortavam. A correspondência censurada estará nos processos dos presos. A certa altura deixaram que lêssemos “A Bola”, que tinha muito bons cronistas, era muito bem feita, e “O Arquipélago”, o jornal do governo. E lá veio uma notícia: “As grandes chuvadas são uma benção, só foi pena terem levado grande parte da terra arável para o mar.” Eu li aquilo, e nesse dia, para minha mulher, escrevi: “Tem chovido muito, vai ser um ano de muito milho e feijão, seguramente que iremos comer melhor, é pena que a chuva tenha levado grande parte da terra arável para o mar.” Depois perguntei: “O Correio foi? e o guarda Alcuíno, a quem chamávamos o pombo-correio: “Já levei. Mas a carta de “nho” Engrácio não levei.

Como é que lhe chamavam?
Como o meu nome é José Vieira Mateus da Graça, no campo chamavam-me “Ó Graça”, os guardas. Mas para os cabo-verdianos Graça é uma palavra muito dura. Então, “nho Graça” dá “nho Engrácio”. Depois vieram-me chamar. Fui ao director: “A sua carta, tenho que cortar isto.” “Senhor director, isso é o que está no ‘Arquipélago’.” “Mas quando o Arquipélago escreve isso é por um motivo positivo, e quando o senhor escreve isso é como crítica. E riscou.”

Esse director era qual?
Penso que era o Eduardo Vieira Fontes, mas não posso garantir.

Como eram as suas relações com os directores?
Nenhum me tratou com falta de respeito humano.

Não tem razão de queixa?
Não, de nenhum.

Que memória guarda de Eduardo Vieira Fontes, o último?
Penso que ainda está vivo. Só se pode analisar a acção dele pensando que era da escola colonial e que tinha uma formação católica arreigada, a ponto de ter feito cursos de cristandade. Então ele chegou, com a missão que aquele campo tinha, quebrar psicologicamente, e estava perfeitamente convencido da bondade da missão, de que era para nosso bem. Mas convicto! Quase todos os dias entrava na cozinha, vistoriava tudo. Claro que não alterava o menu, o campo seguia a sua rotina, arroz com atum.

Era o que comiam?
Estivemos nove meses a comer atum todos os dias. Almoço e jantar. Quando não era com arroz, era com mandioca. Atum fresco, pescava-se ali. Pão ao pequeno-almoço e café com leite. Fruta, éramos nós que comprávamos. A sopa era aguada. Ele via e tentava melhorar sempre, dizia ele, as condições, quer no posto médico quer na alimentação.
Com esse perfil, era muito rigoroso no cumprimento do regulamento. Mas era um indivíduo muito inteligente. Tinha um tipo de comportamento com os políticos e outro com os cabo-verdianos no campo de baixo.

Presos de delito comum.
E mesmo com os presos políticos, tinha um comportamento diferente com os presos de Angola e com os de Cabo Verde. Quando às vezes falo com os meus colegas de Cabo Verde, eles dizem: “Ele connosco não era assim.”

Como?
Bonzinho, simpático, acolhedor, humano, respeitador. Chegava e dizia: “Meus senhores, estejam à vontade.”

Com os angolanos.
Com os angolanos.

Com todos ou diferenciava?
Não, não, isso nunca o vi fazer. E estávamos ali brancos, negros, mestiços, camponeses, analfabetos, gente letrada.
Mas por exemplo, conseguiu levar de visita o escritor cabo-verdiano Manuel Lopes, e o alcance para os presos de Cabo verde foi passar-lhes uns sermões, mas a nós, não, foi lá vangloriar-se: “Meus senhores, eu hoje trago-vos aqui um grande escritor de Cabo Verde!” Trazer ali um grande escritor de Cabo Verde, ele autoridade do Estado Novo, era exemplo. E estávamos, dos angolanos, Pacavira, Mendes de Carvalho, o Cardoso, Jacinto, Luandino...
Foi fazendo perguntas, nós íamos respondendo.

A PIDE refere explicitamente que Manuel Lopes é autorizado a visitar Luandino Vieira e Carlos Lineu.
Pois, o Lineu é de Cabo Verde.

Exacto. Então o Manuel Lopes não entra na caserna dos angolanos para falar consigo?
Não, ficamos a conversar todos, os escritores sobretudo. E toda a gente à volta.

O Vieira Fontes esteve sempre presente?
Entrou e saiu com ele.

Porque é que Vieira Fontes autoriza essa visita?
O Manuel Lopes deu um sermão aos presos cabo-verdianos.

A dizer o quê?
“Vocês são malucos”, se calhar. “Metidos nisto”, um sermão no género de os recuperar.

Então era uma operação do Vieira Fontes?
Acho que sim. Não sei se foi o Vieira Fontes que se lembrou e o convidou, ou se foi alguém que propôs essa operação. Mas no caso de Angola não fez sermão. Conversámos de literatura.

A PIDE não gosta dessa visita e isso aparece nos relatórios. O Vieira Fontes, que está vivo, nos EUA e foi entrevistado por José Pedro Castanheira, diz no último “Expresso” que a PIDE “não metia o bedelho” no que se passava no Tarrafal. Ele próprio tem processo na PIDE e há estes relatórios em relação a ele. Ficou com ideia de que ele teria más relações com a PIDE?
Não. Não fiquei.

Ele não se referia à PIDE?
Não, não.

Ele diz que autorizou outras visitas como o antropólogo Jorge Dias e o historiador António Carreira. É verdade?
Eu já não estava. Ele autorizou? A minha mulher visitou-me no campo e andou seis anos para obter autorização de Lisboa.

A sua mulher visitou-o apenas uma vez?
Uma vez.

Em que ano?
1970.

Isso era bastante raro.
Muitíssimo. Implicava seis anos de luta por uma visita e o argumento é que eu tinha deixado o meu filho com três meses e ele tinha nove anos. E portanto havia a questão da figura do pai.

Então a sua mulher vem com o seu filho Xexe...
Ficou não sei quantas semanas na vila do Tarrafal., em casa de Dona Eulália, “nha” Beba.

Quem é?
No Tarrafal quando se fala de “nha” Beba... Vai fazer 100 anos para o ano. Vamos fazer uma festa com foguete, banda de música e tudo. “Nha” Beba é a mãe de Lilica Boal, que foi da escola-piloto do PAIGC na Guiné, e toda a luta de libertação da Guiné.
Minha mulher ficou em casa dela e tínhamos duas visitas por semana nas duas semanas ou três que esteve lá.

Podiam ficar sozinhos?
Não, não. Visita com o chefe dos guardas a assistir à conversa e tudo.

O chefe dos guardas que se chamava...
Nesse tempo era o senhor Bonança, um algarvio muito simpático, que entrava com o radinho de pilhas ao domingo à tarde pela caserna: “Boa tarde, então o que é que estão a fazer?” A jogar damas, por exemplo. E ele fingia que se esquecia do radinho ali. Posso jogar? Sentava-se a jogar damas e às tantas dava o noticiário, Emissora Nacional, Lisboa. Eu acho que ele não era esquecido. Às vezes fazia desses pequenos mimos aos presos.

O Vieira Fontes estava a tentar a sua libertação. Isso também está nos relatórios da PIDE.
Porque na visita que a minha mulher fez ao Tarrafal, esteve em casa do Vieira Fontes, falou com a mulher dele, expôs as suas razões.

Ao recusar um pedido dele para a sua libertação, a PIDE diz que “há algum tempo” que o director mostra interesse em Luandino e fala na “amizade que dispensa ao recluso”. Há indicações de que houve um esforço pelo menos desde 1970 para a sua libertação.
Isso eu não sabia.

Os irmãos Justino e Vicente Pinto de Andrade enviam uma mensagem a Vieira Fontes pelo “Expresso” dizendo que não guardam ressentimento. Se lhe enviasse uma mensagem seria nesse sentido?
Não guardo nenhum ressentimento ao Eduardo Vieira Fontes. Compreendo perfeitamente o homem e compreendo-o na função que estava ali exercer. E eu estava no meu lugar.

Mas é possível falar numa amizade?
Não, não, não. Escrevi-lhe três ou quatro postais. Por altura do Natal ou por agradecimento pelo modo como tinha tratado a minha família durante a visita. Penso que em todos esses postais está aquilo que devo a qualquer pessoas. Não é amizade, é o respeito e a gratidão pelas coisas que fazia — e que podia deixar de fazer.

O Vieira Fontes tem correspondência sua, e desenhos, e o “Expresso” publica um postal de Natal que lhe enviou com um desenho de astronautas. Natal de 71, portanto ainda estava no Tarrafal.
[Luandino vê o jornal]

Mas este desenho não é meu. É um postal que envio já depois da visita da minha mulher. Penso que a esposa do Dadinho [Vieira Fontes ] é Dona Regina, e depois daquela visita seguramente que minha mulher ficou em comunicação sempre com ela, a insistir nos esforços para libertar o marido.

Ele publica correspondência sua no livro que escreveu. Leu esse livro?
O Vicente [Pinto de Andrade] mostrou-mo: “Olha, estão aqui os cartões.”

O Luandino era um mito desde o “Luuanda”. Sentia que no Tarrafal beneficiava por pertencer a uma elite intelectual, pela sua própria aura?
Não. Sentia que beneficiava do facto de ser escritor, mas isso era partilhado com mais dois ou três. E beneficiava por algo que não era em mim deliberado, o modo como trato toda a gente. É evidente que tomo em conta a função que estão a exercer, mas aquele mínimo de respeito humano eu nunca ultrapasso. Em termos humanos, eu tratava o Vieira Fontes como tratava “nho” Pina, o cozinheiro, “nho Alcuíno”, o pombo-correio, como tratava qualquer pessoa.
De tal modo que lá no Tarrafal as pessoas lembram-se de mim, acho que são minhas amigas. Fiz amizade com uma senhora que começou por me vender as bananas à porta.

Havia gente que ia vender à porta?
No princípio. Abriam o portão e nós comprávamos as bananas, e isso. Depois permitiram-nos receber leite. Essa mulher forneceu-me meio litro de leite durante oito anos porque tinha uma boa vaca, dava um litro e meio. Uma vez em que eu disse que havia vacas que davam 20 litros, ela chamou-me mentiroso: “Não pode ser, eu tenho uma das melhores vacas do Tarrafal e dá um litro e meio.” Foi muito importante na minha vida, essa senhora. Ela arriscou tudo, e no fundo é por causa dela que hoje sou escritor, porque os manuscritos das histórias que escrevi no Tarrafal, foi através dela que os pus cá fora. Quando saí, revistaram-me tudo e eu não tinha nada. E quando cheguei cá fora, ela tinha tudo guardadinho em casa dela.

Como lhe podia passar os manuscritos?
Porque construí a relação com ela ao longo de oito anos. E tive que ir conquistando a confiança dos guardas e dos chefes e dos directores, ao ponto de me permitirem, em vez de receber, oferecer meia quarta de milho a ela no Natal.

Os manuscritos iam com o milho?
Como eu não tinha milho, tinha de comprar milho no comerciante. Na lista das compras, pedia duas quartas de milho, ou três, com balaio [cesto]. Vinha, era vistoriado, entregavam-me. Então no fundo do balaio, o papelão canelado com as folhas, tudo colado. Como já tinha conquistado a confiança do chefe dos guardas, no dia de Natal ia ao gabinete: “Senhor Bonança, está aqui o balaio, faça favor o senhor de vistoriar, porque é chato fazer isso na frente de “nha” Ana, que vem com os meninos para receber a prenda.” E ele: “Não tá nada aqui?” “Faça favor de ver.” Viu e já ficou lá o balaio.

Com os manuscritos no papelão.
A partir daí era um balaio totalmente inocente. Depois quando [a senhora chegou], eu disse: “Quero entregar pessoalmente.” [Voz do guarda:]“Vai lá.” [Voz de Luandino:]“‘Nha’ Ana, bom Natal, para os meninos.” [Voz de “nha” Ana]: “Ah o senhor não precisava…” Levou, chegou a casa, tirou o milho, os papelões, e viu os papéis todos. Guardou.

Mas já sabia?
Não, mas é alfabetizada, viu, guardou. Dias depois, quando veio trazer o leite, eu disse: “Guarde-me os papéis.”

Quantas vezes fez esse truque?
Várias vezes. Pus tudo cá fora.

A CRUZ VERMELHA NÃO FALOU COMIGO

Consultou o seu processo na PIDE?
Não, não tenho curiosidade.

Num relatório, o Vieira Fontes diz que a Cruz Vermelha só teve palavras de elogio nas duas visitas que fez ao campo. Isto significa que os presos não tinham queixas ou que não foram sinceros?
Sei que a Cruz Vernelha visitou o campo, mas comigo não falaram. Se falaram com alguém, não sei quem foi. Vi a Cruz Vermelha, sim, visitou a capela, o refeitório, a casa onde se lavava a roupa, viu todas as estruturas do campo. Uma das vezes, penso que eu estava na biblioteca, viu a biblioteca, eles disseram: “Este é o bibliotecário.”

Mas não o entrevistou?
Não, não.

E não entrevistou outros camaradas seus?
Que me lembre, não.

[Depois desta entrevista, Luandino telefonou do Tarrafal para acrescentar isto, de que entretanto se lembrara: “Não nos deixaram falar com a Cruz Vermelha sem a presença do director, porque não falávamos inglês. Alguém disse: ‘Mas o Graça [último apelido de Luandino] fala inglês…’ O director não aceitou e eles foram-se embora. Da segunda vez, não me recordo.”]

Não houve conversas com a direcção depois dessas visitas?
Eu não tive. É uma coisa que a minha memória não esqueceria.

Em 1972 sai em liberdade condicional.
Foi de surpresa.

De surpesa?
Mesmo tendo conhecimento de que havia diligências continuadas da minha mulher — e provavelmente muita pressão, e pressão exterior, e começámos a saber de mudanças com Marcelo Caetano e tal —, depois daqueles anos esperava concluir o cumprimento da pena. Esperança tinha, mas não ilusões.
De modo que quando me avisaram fui apanhado a trabalhar na carpintaria. Recordo muito bem que foi de manhã: “Arranje as suas coisas que vai sair.” Vieram os guardas e o chefe e toda a gente. E eu “Sair porquê?” E disse: “Só saio à tarde. Vou acabar o que estou a fazer, depois vou arrumar as minhas coisas, depois vou almoçar o último almoço com os meus companheiros.”

Saiu sozinho?
Fiquei no Tarrafal à espera da minha mulher e do meu filho, na casa de dona Beba. Ainda ficámos lá um mês.
E depois viemos para Lisboa. Múltiplas peripécias. Mesmo com liberdade condicional era residência fixa.

Ao fim de oito anos de Tarrafal, como é que se aterra em Lisboa, uma cidade desconhecida para si?
Mas eu vivo assim, cá no meu mundo, e é uma espécie de mundo ambulante que vai comigo para onde vou. Comecei a trabalhar nas Edições 70, o meu velho amigo Sá da Costa deu-me logo emprego.
Gostei muito desses dois anos que passei em Lisboa. Deu-me tempo para começar a articular as ideias, a minha pessoa. E havia a célula clandestina do MPLA, que era o Comité 4 de Fevereiro.

O Tarrafal modificou-o?
Não.

Não deixou que o modificasse?
Em mim, obrigou a sedimentar aquilo que eu já era, de maneira muito forte. Podia ter dado para o contrário. Eu podia ter ficado uma pessoa egoísta, amarga, com urgência em viver tudo ou ter tudo ou usufruir tudo. Mas como já entrei sem nada, apesar de ser um privilegiado na sociedade onde vivia, se não entrei formado entrei com os materiais todos da formação. O que o campo fez foi endurecer isso.
Considero que os meus anos de cadeia foram muito bons para mim. Estou a dizer do ponto de vista estritamente individual.

Porque o fortaleceram?
Às vezes, de uma maneira quase leviana, costumo dizer que quem entra bom sai melhor, quem entra mau sai pior. O que é uma injustiça fantástica, mas em mim não consigo ler de outro modo. É por isso que me custa falar do Tarrafal. Não guardo ressentimentos a nada nem a ninguém e procuro perceber o que é que daquele tempo foi bom.

A sua vida seguinte, de que não vamos falar nesta entrevista, é a militância na construção de um Estado, de Angola. A forma como isso aconteceu foi muito determinada pelo que viveu no Tarrafal?
Foi.

De que forma?
Ainda hoje acredito que é possível aquilo com que sonhávamos. Aprendi no Tarrafal que nem que dure 50 anos, 60 anos, a situação actual é apenas um desviozinho no curso da história. Claro que gostava de ver tudo isso em vida minha…

Então, paciência e determinação.
Paciência, determinação e um bocado de modéstia em relação à capacidade de modificar as coisas. O voluntarismo em si já é…

Uma arrogância?
É, em relação à paciência que se tem de ter. Mas é necessário. É preciso sacudir a árvore. Se as maçãs estão verdes elas não caem. Mas é preciso sacudir antes que elas apodreçam e caiam no chão.

Isso também é aprendizagem do Tarrafal?
É. Era preciso ter muita paciência. Eu eduquei um pardal, que é um pássaro livre por natureza. Fiz amizade e, ao fim de quase dois anos, vinha e pousava-me no ombro. O cozinheiro dizia que eu era bruxo. E foi uma operação de paciência. Eu sentava-me sempre no mesmo sítio, a fazer a mesma coisa, a comer a mesma coisa, bagos de mancarra [amendoim], que era o meu suplemento diário para o ferro. Comia, comecei a atirar, e claro que as aves vêm, até que o mesmo pássaro começou a vir. Então, é reduzir a distância da comida, ganhar a confiança até ele vir comer ali. Depois a passagem mais difícil — não sei o que tem a mão humana que não há bicho nenhum que não tenha medo dela —, até comer na minha mão. E depois, naturalmente, eu podia fazer assim [faz um gesto], que ele vinha comer.

Isso é uma aprendizagem também para organizar militantes.
Nunca pensei nisso dessa maneira [ri-se]. Mas a paciência dá para tudo.

Agora vai escrever?
Depois deste colóquio do Tarrafal, vou entrar em fase de escrita, não vou terminar a “Trilogia dos Rios” [de que já saiu um volume e sairá em breve outro], e vou fazer um romance.

Que vai ser...?
Sobre tudo quanto aprendi no campo. O que escrevi no campo era sobre a curta coisa que tinha aprendido na curta vida que tinha. E agora é sobre o que os meus companheiros me ensinaram no campo de concentração do Tarrafal.

Ou seja?
É sobre a história de Angola.

De trás para a frente?
Não sei. Gostava de a contar de trás para a frente. Só sei que a partir de Julho vou de novo tentar.

Mestre Didi - exposição no Museu Afro-Brasil

quarta-feira, 13 de maio de 2009, 10:07 Online
Fonte:
http://www.estadao.com.br/noticias/arteelazer,a-arte-do-sagrado-por-um-sacerdote-contemporaneo,370146,0.htm

A arte do sagrado por um sacerdote contemporâneo
Aos 92 anos, Mestre Didi abre exposição individual com meia centena de esculturas no Museu Afro Brasil

Antonio Gonçalves Filho - O Estado de S. Paulo

SÃO PAULO - Ao lado de uma antiga escultura dos anos 1960, que não via há anos, o escultor baiano Deoscoredes Maximiliano dos Santos dá os últimos retoques na exposição individual Mestre Didi: O Escultor do Sagrado, que o Museu Afro Brasil abre hoje, à 19 h. Os dois personagens, Deoscoredes e Didi, são o mesmo diante da obra que hoje, pelo léxico contemporâneo, seria chamada de "instalação". Não é. Trata-se de uma representação religiosa do ciclo existencial em que uma figura carrega o mundo nas costas e uma montanha vira o território dos mortos, base em que estão assentados todos os ancestrais, guardados pelo orixá Onilé, a Terra-Mãe, princípio e representação coletiva dos Egungun, cultuados por Mestre Didi. Assim como Onilé escondeu-se sob a terra quando Olorun, o dono do céu, reuniu os orixás para dividir o poder sobre a criação, Mestre Didi pronuncia apenas o nome da divindade para logo em seguida dispensar o repórter e encaminhá-lo à mulher, Juana Elbein, ou Juanita, como chama carinhosamente a antropóloga argentina com quem é casado há 43 anos, sua porta-voz.

Mestre Didi é um artista religioso, sacerdote do culto aos ancestrais Egungun. Por ser interlocutor entre vivos e mortos, Mestre Didi não está autorizado a falar fora do recinto religioso. Então, limita-se a declinar os nomes das divindades para logo em seguida esconder-se, afastar-se discretamente, seguindo o exemplo de Onilé. Tudo para que suas palavras não sejam deturpadas. Afinal, os orixás a quem presta culto, de Obaluaiê a Ossain, passando por Exu, poderiam ficar zangados se alguma palavra errada saísse de sua boca.

No entanto, para gostar da mostra, não é preciso conhecer os cultos ancestrais afro-brasileiros ou o significado da meia centena de esculturas reunidas pelo curador da exposição e fundador do Museu Afro Brasil, o também escultor Emanoel Araújo. Embora não tenha a autonomia formal de uma escultura de Picasso, que se inspirou na arte africana mas não era religioso, a obra de Mestre Didi pode - mas não deve - ser apreciada como um mero exercício de composição estética. Juanita lembra que foi exatamente a "instalação" que ocupa o centro da exposição - a escultura de Onilé - a responsável pelo encontro com o futuro marido, em 1965. Pesquisadora de uma universidade americana, ela estava com os olhos cheios da arte pop de Warhol quando, estudiosa dos cultos aos mortos, viu e ficou impressionada com o primeiro xaxará (espécie de bastonete, emblema de obaluaiê) esculpido por Didi. Foi uma revelação que não exigiu conhecimento prévio dos códigos simbólicos em que os pássaros são representações de Ossain, o rei das matas, e as serpentes tomam o lugar de Oxumaré, entidade que participou da criação do mundo, enrolando-se na Terra e dando forma ao mundo.

Na exposição estão reunidas obras que prestam reverência aos ancestrais e respeitam as relações míticas sem desprezar o olhar dos vivos - e é conveniente lembrar que, para os primeiros habitantes do planeta, não havia distinção entre o mundo natural e sobrenatural. "Acho que Didi é contemporâneo, no sentido de realizar uma arte subjetiva por um viés afro-brasileiro", define Juanita, lembrando que ele não tem discípulos, como tiveram líderes da vanguarda artística histórica. Seria preciso, talvez, que esses se libertassem das ideologias que deformaram a civilização africana e se curvassem aos ensinamentos ancestrais para construir algo além de uma imitação da arte de mestre Didi, presente em museus internacionais e homenageado na 23ª Bienal Internacional de São Paulo com uma sala especial.

O legado dessa africanidade, reprimida pelo desprezo pós-colonial, começou a ser valorizado, segundo a mulher de mestre Didi, por iniciativas como a do Museu Afro-Brasil, erguido por Emanoel Araújo. "O Brasil não se conhece e, assim, o museu cumpre o papel de mostrar outros aspectos de uma cultura incapaz de incorporar a diversidade brasileira", diz, diante de uma obra em homenagem a Ossain.


Mestre Didi. Museu Afro Brasil. Avenida Pedro Álvares Cabral, s/n.º, portão 3, Parque do Ibirapuera, 5579- 0593. 10 h/18 h (fecha 2.ª). Grátis. Até 10/7. Abertura hoje, 19 h, para convidados

ARTISTA DESPERTA DISCUSSÃO SOBRE LEGADO AFRICANO

VISIONÁRIO: Iniciado no culto dos orixás, Mestre Didi foi incumbido de reverenciar os ancestrais, preservando o panteão nagô. Fez mais que isso. Apontou um novo caminho para a arte contemporânea brasileira, seguido até agora por poucos artistas - entre eles Rubem Valentim (1922-1991) - e, se não fala sobre sua atividade, é mais por "pudor ontológico", para usar uma expressão do filósofo Muniz Sodré, do que por não ter o que dizer.

Seria bom ouvir dele as histórias que sua mulher Juanita conta sobre o uso de materiais como búzios, palha da costa, contas, cabaças e as nervuras de palmas de palmeiras em obras totêmicas, como a réplica da escultura Cetro da Ancestralidade, instalada logo à entrada da mostra. A obra original foi erguida em 2001 no bairro do Rio Vermelho, em Salvador, e feita em bronze para resistir ao tempo.

De qualquer modo, quando o catálogo geral de Mestre Didi estiver pronto, o mundo da arte saberá a razão de ele ter dedicado esculturas em cimento e barro a exus e ter confeccionado representações de outras entidades em outros materiais. Juanita revela que seis livros sobre Mestre Didi estão prontos para ser publicados, dependendo apenas do apoio da nova lei de incentivo que o Ministério da Cultura deve brevemente anunciar. O inventário do acervo de Mestre Didi já levantou o histórico de mais de 400 esculturas, segundo a antropóloga. O artista é também autor de vários livros, entre eles um dicionário português-ioruba.

quarta-feira, 13 de maio de 2009

África e Africanidades 5 - edição comemorativa de 1 ano

Prezados,

África e Africanidades comemora o seu primeiro aniversário e para esta quinta edição foi feita uma seleção com alguns dos melhores textos publicados nos quatro números iniciais, que estão separados por áreas temáticas, a saber: Literaturas, Culturas, Educação, Histórias e Sociedades.

A quinta edição está linda, design muito bem elaborado, com muitas imagens e cores, além dos textos de ótima qualidade.

A seguir, o sumário da nova edição e não deixem de acessar – www.africaeafricanidades.com - e divulgar o nosso trabalho, por favor.

Abraços,
Ricardo Riso


Revista África e Africanidades - Edição comemorativa de 1 ano
Ano II - nº5 maio de 2009 ISSN 1983-2354

SUMÁRIO


ARTIGOS
A perseverante arte de sonhar: Angola e Brasil um diálogo utópico entre letras
Patrícia Camargo – Universidade Federal Fluminense – UFF / Brasil

A tradição oral em Niketche: Movimentos e ritmos vitais na dança do amor
André Sampaio – Universidade Federal Fluminense – UFF / Brasil

Diversidade e Proteção Social na gestão pública municipal: população quilombola e afro-brasileira na cidade de Porto Alegre/ RS
Simone Ritta dos Santos – Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul – PUC RS / Brasil

Eles pintam o sete: relendo discursos
Alexandre de Oliveira Fernandes - Universidade Estadual de Santa Cruz – UESC / Brasil
Ricardo Oliveira de Freitas

Malê Debalê: Lugar de negro. Lugar de aprende
Carlos Eduardo Carvalho de Santana - Bloco Afro Malê Debalê / Brasil

Negros e negras no ensino superior: singularidade para a permanência
Ana Luiza dos Santos Julio - Centro Metodista de Educação do Sul do Brasil – IPA e Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul – PUC RS
Marlene Neves Strey - Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul – PUC RS / Brasil

O Determinismo Biológico do século XIX, e o Genético do Século XX
Ubiratã Ferreira Freitas – Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul – PUC RS / Brasil

Uma etnografia dos significados da Louvação a Baobá: Sentidos da África no Brasil
Francisco Carlos de Lucena – Instituto Superior de Educação de Salgueiro – ISES e Universidade de Passo Fundo – UPF / Brasil


COLUNAS
Cinema
Panteras Negras e Malcolm X, filmes de resistência em forma de organização
Roberto Oliveira / Brasil

Conto
Tiros ao alto
Domi Chirongo – Instituto de Comunicação Social da África Austral MISA / Moçambique

Corpo: Som e Movimento
Redescobrindo Brinquedos Cantados na Africanidade Brasileira
Denise Guerra – Secretaria Municipal de Educação de Queimados e Secretaria Municipal de Educação de Japeri / Brasil

Crítica Literária
A emigração em Cabo Verde: olhar contemporâneo das obras do artista plástico Abraão Vicente renova tema caro à literatura do arquipélago
Ricardo Riso – Universidade Estácio de Sá– UES / Brasil

Direitos Humanos
A Mulher Negra Brasileira
Walkyria Chagas da Silva Santos – Fundação Faculdade de Direito da Bahia – UFBA. / Brasil

Finanças
O controle financeiro não é pequenez
Marcelo Fernando Theodoro / Brasil

Versos do outro lado do Atlântico
Versos do escritor Domi Chirongo– Instituto de Comunicação Social da África Austral – MISA / Moçambique

ESPECIAL
Mãe Stella de Oxossi e sua caminhada com os orixás
Juliana Faria – Centro de Referência e Estudos da Tradição e Cultura Afro-Brasileira do Ilê-Axé Pilão Odara CRETCAB-IAPO / Brasil


ÁFRICA E AFRICANIDADES NA SALA DE AULA
Atitude Filosófica
O mestre-sala dos mares: a revolta da chibata e a consciência histórica dos alunos
Maria Antônia Marçal – Secretaria Estadual de Educação do Paraná – SEPR / Brasil

Uma outra História
“[...] os negros não tem vez no Brasil, porque eles são muito pobres e não tem a capacidade de fazer o que os brancos fazem [...]”
Luis Carlos Ferreira dos Santos – Universidade Federal da Bahia – UFBA / Brasil

"Guerreando pra sorrir" - Zulu Araújo

13 de maio, Abolição da Escravatura e Dia Nacional de Denúncia contra o Racismo

"Guerreando pra sorrir"
A lição do meu avô, que casou com minha avó e pariu a minha mãe

Zulu Araújo
Presidente da Fundação Cultural Palmares

Abolição, palavra carregada de sentidos, dores, afetos e interpretações as mais diversas. Palavra que incendiou corações e mentes no século XIX e estimulou discussões apaixonadas sobre a vida, a liberdade e o futuro da humanidade. Símbolo que titulou movimentos libertários e tornou-se o principal combustível para a entrada do Brasil no século XX. Conteúdo concreto que povoou os sonhos de milhões de brasileiros ao longo de quase 400 anos. Mas, apesar de tudo isso, há uma forte inquietação quanto ao seu significado nos dias de hoje.

Vivemos momentos de perplexidade diante de tanta polêmica e reações indignadas por parte de setores da sociedade brasileira. Isso, por causa das políticas públicas, implementadas para a promoção da igualdade racial no Brasil, mais conhecidas como políticas de ações afirmativas. Por isso, vale perguntar: Para que conquistamos a Abolição? Que idéia ou sentido de liberdade gerada por este ato deve orientar nossas ações nos dias de hoje?

O poeta José Carlos Capinam, ícone do movimento tropicalista nos anos 1960, nos dá uma pista. Com versos poéticos e precisos, no poema/canção Abolição, ele nos ensina: "Acabar com a tristeza, com a pobreza e o apartheid, não fazer da humanidade, a metade da metade, parte branca, parte negra". Pois bem, é com esses versos na cabeça e um tanto de emoção, que gostaria de responder às indagações acima.

Abolição para que a sociedade brasileira conquiste a cidadania plena, o desenvolvimento econômico e social, para que todos seus filhos, independente da cor da pele, de sua origem social ou opção religiosa possam ser tratados com dignidade e igualdade, conforme a Constituição. Mas também para que, em seu nome e em nome de milhões de brasileiros e brasileiras, que empunharam essa bandeira com coragem e distinção, impeçamos que a desigualdade, o racismo e a discriminação, gerados por séculos, naturalizem-se em nosso cotidiano, como parte do nosso jeito mestiço de ser.

Abolição para sensibilizar e conscientizar os homens e mulheres que dirigem o país, em especial aqueles que nos representam na Justiça e no Parlamento, de que a promoção da igualdade racial não pode ser apenas o recheio mágico de discursos vazios sobre a beleza da mestiçagem, o encanto das mulatas etc. Ainda mais quando estudos e pesquisas apontam para a iniqüidade das relações raciais no Brasil, a exemplo do uso do critério da "boa aparência", que leva à exclusão milhões de brasileiros e dificulta a eles o acesso a determinados nichos do mercado de trabalho, como a publicidade, a moda e a televisão.

Abolição para impedir que o conservadorismo e o medo que latifundiários impingem ao campo, sempre que tratamos de regularização da terra, nos leve a ignorar a presença de milhões de remanescentes de quilombos, que, apesar de tanta dor e indiferença, continuam resistindo nos rincões do país, com a viva esperança de que a abolição os alcance de fato e assim possam ter acesso àquilo que lhes pertencem por justiça e direito.

Abolição para superarmos a abissal diferença entre a qualidade do ensino público e privado e a exclusão de um enorme contingente de jovens brasileiros do ensino superior. Afinal, o Brasil contemporâneo, aberto, criativo e plural não pode entregar à própria sorte parte da juventude brasileira a grupos de extermínio e a narcotraficantes. Reconhecer esse direito e possibilitar a reparação histórica por meio da ampliação do acesso desses jovens às universidades públicas é mais que um dever, é um compromisso com o futuro do país.

Portanto, a celebração desses 121 anos da abolição da escravatura no Brasil, só tem sentido se, de um lado, debelarmos a hipocrisia que grassa na sociedade quanto à questão racial (todos consideram que existe racismo no Brasil, mas ninguém se intitula enquanto agente de tal crime), e, de outro, dermos conteúdo real às aspirações de mais da metade da população brasileira. Ou seja, é preciso instaurar a abolição definitiva da discriminação, que ainda persiste no Brasil, por meio de ações concretas que levem à promoção da igualdade racial e social. E nada melhor que o poeta Capinam para nos inspirar: "Abolir essa careta, que esconde a Natureza e que me faz ser teu irmão. Abolindo a velha intriga e guerreando pra sorrir".

Fonte: Informe Especial do Portal Palmares, às 11h42 do dia 13/05/2009

Concretos, Neoconcretos e Alfredo Volpi – encontros e desencontros

Convergências e divergências entre Volpi e a geração concreta dos anos 1950 solidificam o projeto construtivo brasileiro
Por Ricardo Riso
Em comemoração aos cinquenta anos do Manifesto Neoconcreto publicado no Suplemento Dominical do Jornal do Brasil, escrito por Ferreira Gullar e com as assinaturas de Amílcar de Castro, Franz Weissmann, Lygia Clark, Lygia Pape, Reynaldo Jardim e Theon Spanudis, os artistas do núcleo inicial, o Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM) procurou, na medida do possível, recriar a mostra realizada em 1959, intitulada Neoconcretismo – 50 Anos, sob curadoria de Reynaldo Roels Jr. Enquanto o Instituto Moreira Salles (IMS) está com uma retrospectiva de Alfredo Volpi com obras em sua maioria produzidas nas décadas 1950/1960, quando o artista flertou, a sua maneira, com o construtivismo em voga na época.

O Neoconcretismo era uma ruptura dos artistas cariocas perante a ortodoxia do concretismo paulistanos, ligado à rigidez geométrica, fria, impessoal, excluindo da obra artística quaisquer relações com o simbólico, lírico ou emocional, reduzindo-a aos seus elementos puramente plásticos, tanto em forma quanto em cores, que se fecham em si, falam por si. A proposta concreta visava aproximar a arte da produção industrial, em um momento que o Brasil vivenciava um ambiente de euforia com a industrialização do país, motivada pelo governo de Juscelino Kubtischek.

O neoconcretismo buscava retomar o caráter simbólico da arte, a subjetividade, acentuar o afrouxamento da geometria, eliminar a frieza da obra de arte ao permitir a manipulação de obras pelo espectador, tornando-o parte integrante do trabalho, transformando-os em objetos como a série “Bichos” de Lygia Clark, os “Bilaterais” e os “Relevos Espaciais” de Hélio Oiticica, e os poemas-objeto de Ferreira Gullar, deixam a marcar do retorno da “aura” da obra de arte, da retomada do “humanismo” contra a frieza técnica e a certeza científica concreta dos paulistanos. No Manifesto, Gullar procura ser claro ao demonstrar a "tomada de posição neoconcreta" que se faz "particularmente em face da arte concreta levada a uma perigosa exacerbação racionalista"(1). Um ótimo exemplo são as esculturas de ferro criadas por Amílcar de Castro que, a partir de um material duro e pesado, consegue lirismo e leveza com seus cortes e dobras.

Em recente declaração, Ferreira Gullar afirma que

– Quando comecei a escrever o texto, que foi uma proposta da Lygia Clark, para mostrar que o grupo do Rio estava criado, me dei conta de que havíamos chegado a outro ponto. Não éramos mais concretos, como continuávamos nos chamando – justifica, acrescentando a importância do gesto: – A arte neoconcreta é uma invenção brasileira, não foi importada de lugar algum. É um documento original, que representa uma nova visão. Nenhum outro documento chegou a ser isso, deu essa contribuição para a arte brasileira. Era um rompimento com a arte ótica, racionalista, que eliminava a subjetividade. O que havia de novo nisso é que ela se expandia para o corpo, para o manuseio, para a intervenção do espectador. Nesse ponto, era o contrário da arte abstrata. Queríamos a sensualidade, a sedução.(2)

A exposição montada com esmero e delicadeza cobre todo o segundo andar do MAM. O interessante é notar que o Manifesto apenas atesta a mudança natural que os artistas já vinham praticando em anos anteriores a sua realização, fato confirmando por Gullar em entrevista ao caderno Ideias/JB em comemoração ao cinquentenário da mostra. Destaque para as obras das Lygias Clark e Pape, Hélio Oiticica, Franz Weissman, Ascânio MMM e, principalmente, para a presença histórica dos originais publicados no Suplemento Dominical à época, dos catálogos das mostras coletivas e das poesias confeccionadas por Ferreira Gullar. Trata-se de uma exposição para se passar algumas horas e se deleitar com este fundamental movimento da arte brasileira.

Saindo da bela arquitetura do MAM e se dirigindo até a Gávea, encontramos no não menos belo Instituto Moreira Salles a exposição Volpi – dimensões da cor. As imagens selecionadas pela curadora Vanda Kablin retratam basicamente a produção de Alfredo Volpi nas décadas de 1950 e 1960, período que o artista se aproximou da estética produzida pelos concretistas e neoconcretistas. Vale lembrar que Volpi chegou a participar de coletivas com os concretistas paulistanos nos anos de 1956/57, inclusive.

Entretanto, o fascinante das pinturas apresentadas é a constatação daquilo que difere Volpi do rigor formal concretista, sem jamais fugir dos seus preceitos pictóricos. Enquanto os concretistas buscavam suporte nas novas tecnologias, na rigidez dos cálculos, no uso de réguas e compassos para a elaboração de suas formas geométricas, e na pincelada uniforme eliminando o gestual do artista, por conseguinte concebendo a obra de arte como produto e não como forma de expressão, Alfredo Volpi permanecia fiel ao seu processo artesanal de trabalho e ao seu passado de operário.

Para criar suas formas geométricas ele não utilizava réguas e compassos, “consegui-las era a mera obrigação de um artesão devidamente treinado”(3). Continuou pintando com sua tradicional têmpera a base de ovo que deixava visível a superfície da tela, sem jamais procurar atingir as cores chapadas e lisas dos concretistas apesar de reduzir os vestígios do pincel, como podemos conferir em algumas poucas pinturas expostas. A respeito da pincelada volpiana, Olívio Tavares de Araújo resume a relação do artista com o grupo concreto da seguinte maneira: “essa pintura vibra pelo entrechoque entre a racionalidade do projeto e os resquícios líricos da mão”(4).

Em seu projeto concreto, a cor atinge autonomia ao não estar vinculada à figuração mimética, passando “a ser tratada como valor absoluto, seja para organizar a superfície da tela, seja para dinamizar o ritmo da construção e da geometria, com infinitas possibilidades de ordenação do espaço” (5). Com isso, todo o seu repertório plástico, as bandeirinhas, as fachadas, os elementos náuticos agora estão submetidos à cor, tornam-se figuras geométricas autônomas inseridas na espacialidade da tela de acordo com a vontade do pintor. As fachadas, ou melhor, os retângulos ficam suspensos, sugerindo portas e janelas porém descompromissadas da realidade exterior. As bandeirinhas viram retângulos dos quais foram extraídos triângulos, sendo repetidos à exaustão com uma sutil variedade cromática, ou dispersas, suspensas no espaço, ou ainda, como se estivessem flanando como as velas dos elementos náuticos. Ou seja, sem abandonar seu repertório plástico, Volpi recria-o, tratando-o como um infinito manancial de signos geométricos subordinados a sua ilimitada paleta cromática.

Sendo assim, Volpi permanece contemporâneo às gerações dos concretos e neoconcretos dialogando com eles sem jamais ferir seus preceitos e seus temas preferidos, algo parecido ao tratamento dado por Morandi as suas naturezas mortas. Inferimos, pela variedade de formas, que sua inventividade é inesgotável e sua vontade de produzir, infatigável. As obras expostas no IMS mostram um artista de rara sensibilidade, lírico, complexo, moderno, atento ao projeto construtivista da arte contemporânea brasileira e coerente com seu passado plástico.

As exposições completam-se em seus pontos convergentes e divergentes. Trata-se de uma ótima oportunidade para conhecer ou relembrar o rico panorama da produção construtiva brasileira a partir dos anos 1950, e constatar a relevante presença dos nomes de Alfredo Volpi, Amílcar de Castro, Hélio Oiticica, Lygia Clark entre outros na afirmação e na independência de uma arte brasileira autêntica.


Neoconcretismo - 50 Anos
até 07 junho 2009
Museu de Arte Moderna – MAM
Av Infante Dom Henrique 85
Parque do Flamengo - Rio de Janeiro
20021-140
Horários (podem sofrer modificações) ter - sex 12h - 18h sab - dom e feriados 12h - 19h
A bilheteria fecha 30 min antes do término do horário de visitação
+55 (21) 2240 4944
http://www.mamrio.org.br/

Volpi: dimensões da cor
até 5 de julho de 2009
Instituto Moreira Salles - IMS/Rio de Janeiro
Rua Marquês de São Vicente, 476, Gávea
CEP: 21 22451-040 – Rio de Janeiro-RJ
Tel: 21 3284-7400 – Fax: 2239-5559.
De terça a sexta, das 13h às 20h.
Aos sábados, domingos e feriados, das 11h às 20h
http://ims.uol.com.br/


Notas:
1. GULLAR, Ferreira. Manifesto Neoconcreto. Disponível em < http://literal.terra.com.br/ferreira_gullar/porelemesmo/manifesto_neoconcreto.shtml?porelemesmo > Acessado em 12/05/2009.
2. Ferreira Gullar em entrevista publicada no Jornal do Brasil, Caderno Ideias – Especial Neoconcreto 50 anos.
3. ARAÚJO, Olívio Tavares de. Volpi – a música da cor. Catálogo da exposição no Museu de Arte Moderna de São Paulo entre 05/04/2006 e 02/07/2006, p. 16.
4. ARAÚJO, Olívio Tavares de. Volpi – a música da cor. Catálogo da exposição no Museu de Arte Moderna de São Paulo entre 05/04/2006 e 02/07/2006, p. 16.
5. KLABIN, Vanda. Volpi – dimensões da cor. Folder da exposição no Instituto Moreira Salles/RJ entre os dias 29/04/2009 e 05/07/2009.

SOSO - ARTE CONTEMPORÂNEA AFRICANA (site)

A seguir o endereço virtual da galeria SOSO - arte contemporânea africana, inaugurada em fevereiro deste ano na cidade de São Paulo/SP.
SOSO - arte contemporânea africana
Av. São João, 313 - 2º. andar
São Paulo - SP
CEP 01035-000
TEL 11-3222-3973

terça-feira, 12 de maio de 2009

Filinto Elísio - LI CORES & AD VINHOS (livro)


“LI CORES & AD VINHOS” é o novo livro de poemas de Filinto Elísio lançado em Lisboa
http://www.expressodasilhas.sapo.cv/noticias/detail/id/8981/
7-5-2009, 09:40:39 JR, Expresso das Ilhas

O poeta cabo-verdiano, Filinto Elísio Correia e Silva, lançou ontem (quarta-feira, 06), em Lisboa, o seu mais recente livro de poesias, intitulado "LI CORES & AD VINHOS", prevendo ainda a apresentação da obra em Paris (França) a 15 de Maio e, na Cidade da Praia 28 do mesmo mês.

Trata-se do sétimo livro de Filinto Elísio Correia e Silva sendo este "LI CORES & AD VINHOS o terceiro de poesia do autor e que representa "um relatório de vida existêncial do poeta".

Em declarações ao Expresso das Ilhas, em Lisboa, Filinto Elísio, disse que a poesia faz parte da sua trajectória assumindo ser mesmo a sua escrita "essencialmente poética".

"Eu sou essencialmente poeta e desvio-me por vezes pelas crónicas e por outras formas e suportes de escrita", indicou Filinto Elísio que considerou este seu novo trabalho como um livro que marca a sua nova jornada da poética, ou seja, de uma poesia mais madura.

De acordo com o autor, tudo o que esta patente na sua mais recente obra reflecte o seu crescimento e amadurecimento poético.

Lançar o Livro em Lisboa representa para Filinto Elísio uma homenagem a esta Cidade que considerou de Capital da Lusofonia que é também a Cidade de Fernando Pessoa e de Camões.

Para além de Paris e Praia, Filinto quer lançar a sua obra na Cidade do Mindelo, S. Paulo e Brasilia e Luanda Filinto Elísio considera ainda que a sua poesia representa "o seu ver a realidade das coisas, não só realidades cabo-verdianas mas, também, realidades sentidas pelo poeta".

"É uma visão poética das coisas, seja ela, em realidade cabo-verdiana ou não. Não sei se sou chamado poeta cabo-verdiano mas sou um cabo-verdiano que faz poesia", indicou afirmando que quer fazer poesia no sentido mais cósmico do tema".

O autor revelou que já faz alguma incursão pela língua cabo-verdiana, apesar de ainda não ter nada publicado a respeito.

Acrescenta a propósito que faz parte dos seus planos publicar um livro de poemas no crioulo de Cabo Verde e defendeu a oficialização do crioulo em coabitação com a língua portuguesa.

Questionado sobre a sua posição em relação ao Acordo Ortográfico para a Língua Portuguesa que deverá entrar em vigor, brevemente, nos respectivos países, Filinto Elísio considera que independentemente das susceptibilidades que vai desafiar, o Acordo, para ele, vai viabilizar uma escrita mais simplificada em termos de fluidez.

Filinto Correia e Silva, poeta e cronista, nasceu na Cidade da Praia, Cabo Verde. Bibliotecario e Administrador de Empresas de formação tem já publicadas obras como "Do Lado de Cá da Rosa" (Poesia), "Prato do Dia" (Crónica), "O Inferno do Riso" (Poesia), "Cabo Verde, 30 anos de Cultura" (Antologia), "Das Hespérides" (Poesia, Prosa e Fotografia) e "Das Frutas Serenadas"(Poesia). Tem ainda por publicar "Sem Margens" (Crónicas) e "Praiademincidade" (Romance).

Pepetela - O Planalto e a Estepe (livro) e site do autor


Do encontro entre um estudante angolano e uma jovem mongol, nos anos 60, em Moscovo, nasce um amor proibido.

Baseada em factos verídicos, ficcionados pelo autor, esta história põe em evidência a vacuidade de discursos ideológicos e palavras de ordem, que se revelam sem relação com a prática. Política internacional, guerra, solidariedade e amor, numa rota que liga um ponto perdido de África a outro da Ásia, passando pela Europa e até por Cuba. Uma viagem no tempo e no espaço, o de uma geração cansada de guerra num mundo cada vez mais pequeno.

Maravilhoso e comovente, este é um romance sobre o triunfo do amor, contra todas as vontades e todas as fronteiras.

ISBN: 978-972-20-3784-6
Páginas: 192
Dimensões: 15,5x23,5 cm
Colecção: AUTORES DE LÍNGUA PORTUGUESA
Ano de Edição: 2009
Encadernação: Brochado
No site do Pepetela - http://www.pepetela.com.pt/pdf/planalto_estepe.pdf - o primeiro capítulo deste livro está disponível para download.

Site Pepetela: http://www.pepetela.com.pt/

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Aula Inaugural do Curso de Pós Graduação Afrocartografias

clique na imagem para vê-la ampliada.


Fonte: e-mail gentilmente enviado pela Profa. Dra. Sonia Santos no dia 10 de maio de 2009.

sexta-feira, 8 de maio de 2009

Roderick Nehone – Uma Bóia na Tormenta (RESENHA)


Por Ricardo Riso

Quase trinta e cinco anos após a conquista de sua independência, Angola vivenciou momentos ora felizes, ora conturbados. Imprecisos e tortuosos como deveriam ser os caminhos de uma nação periférica que procura se posicionar na aparente calmaria do modelo neoliberal vigente no mundo. Da euforia comunista dos primeiros anos do país à grave crise que se espalhou nas décadas de 1980/90, motivada pela guerra civil, ao fim do sangrento conflito no início deste século, com a entrada desenfreada do capital estrangeiro aproveitando-se da estabilidade política, Angola, mais precisamente sua capital Luanda, com suas peculiaridades e contradições, sempre foi um terreno fértil para os escritores. Que o digam, apenas para citar alguns prosadores, José Luandino Vieira, João Melo, o jovem Ondjaki e Roderick Nehone.

O mais recente lançamento de Roderick Nehone, “Uma bóia na tormenta” (Luanda: União dos Escritores Angolanos, 2007) apresenta doze histórias em suas 103 páginas, onde a cidade de Luanda é também protagonista. Todavia, antes de iniciarmos os comentários sobre os contos, cabe aqui um breve resumo do autor.

Roderick Nehone é o pseudônimo literário de Frederico Manuel dos Santos e Silva Cardoso. Nasceu em Luanda a 26 de março de 1965. Aos 24 anos concluiu a licenciatura em Direito na Universidade Central de Las Villas, Cuba. Foi docente na Universidade Agostinho Neto de 1991 a 2004. É membro da Ordem dos Advogados de Angola e vice-presidente da União dos Escritores Angolanos (UEA). Nehone vive em Luanda. É autor das seguintes obras: “Génese (poesia - Prémio António Jacinto de Literatura, 1996), “Estórias Dispersas da Vida de Um Reino (Contos-Prémio Sonangol de Literatura, 1996), “ O ano do Cão (Romance-Prémio Sonagol de Literatura, 1998), “Peugadas de Musa (Poesia, 2001) e “Tempos sem Véu (Romance, 2003).

Em entrevista disponível no site da UEA – http://www.uea-angola.org/ –, Roderick Nehone (RN) faz uma declaração que corresponde bem ao que será encontrado em seus contos: “É fundamentalmente o retrato de um cidadão interessado nos problemas da sociedade que o rodeia. É o retrato de um homem preocupado com os problemas da época que lhe corresponde viver.”

É a partir deste olhar atento à sociedade de sua cidade, às dificuldades econômicas, aos problemas sociais adicionados a uma percepção sutil e acusatória da atuação dos políticos angolanos que Nehone realiza o leitmotiv de suas narrativas. Valendo-se de um narrador onisciente e onipresente que procura privilegiar os valores éticos e passar a mensagem de uma vida digna distante da corrupção, ganância e insensatez predominante entre as classes abastadas de Angola, vorazes e sedentas com os altos investimentos feitos pelas empresas estrangeiras, o autor busca contrapor com sua literatura. Tarefa encarada por quem crê no poder transformador do Verbo.

Utilizando-se de certo didatismo para expor situações adversas, porém encaradas com perseverança e elevada autoestima pela personagem Lalito em “O salto”, o narrador conta a história de um jovem deslocado pela guerra que chega a Luanda, mora sob a marquise de um prédio e faz bicos como guardador de carro e outros pequenos serviços manuais. Contudo, jamais perdeu a esperança de um dia retomar os estudos, pois sabe da importância da formação educacional para alcançar seus sonhos:

Não sei se pelos meus sonhos, ou por uma coisa de espírito forte, eu creio que aquilo que me proponho vou alcançar. Penso forte na coisa, penso sempre, penso com energia e ajo no sentido de realizar o que penso. Demora às vezes, mas já aconteceram comigo muitas coisas que pensei. É preciso acreditar que podemos e, depois, lutar para alcançar. (p. 23)

O conto “O angolano também pode” explora a desconfiança daqueles que não creem que um angolano pode obter sucesso sem ajuda estrangeira ou tendo uma postura subserviente perante este. Trata-se da história de dois homens que cresceram juntos, mas a vida foi ora afastando-os, ora aproximando-os. Até que atingem a idade adulta no pós-guerra civil angolano e se reencontram. Um se tornou professor universitário com salário humilde e aspira uma carreira política de sucesso, enquanto o outro se transformou em um importante empresário que construiu seu império atuando em diversas áreas. Entretanto, jamais se submeteu ao capital estrangeiro, comandando seus negócios e trabalhando apenas com angolanos, o que gera incredulidade no antigo companheiro, que pensa, como a maioria dos angolanos, ser impossível um patrício obter sucesso por conta própria:

Está fácil de mais fazer dinheiro nesta terra. Os brancos têm razão. Mas, eles vêm com bancos atrás e com tecnologia (...) Com faro para detectarem as oportunidades de negócio aqui no mercado e, naturalmente, é só chegar e facturar. Agora, um patrício? (...) afinal de contas, deve ser apenas um movimentador nativo do cumbu (dinheiro) do estrangeiro, pras compras e vendas locais. O dinheiro de bolso para pagar os empregados nativos, comprar combustível, dar umas gorjetas aos fiscais, e liquidar mais uns etecéteras para que os seus próprios conterras não lhe perturbem o negócio. Um estafeta bem vestido, afinal de contas. Um mwangolê (angolano) atrevido fantasiado de empresário. (p. 37-38)

Dando continuidade às críticas ao modo de pensar do angolano, em “Nós temos que estar lá” a personagem Jangolê, o bem-sucedido empresário do conto anterior, cobra uma mudança de postura de seu primo quando este obtém ascensão social. Jangolê encontra-o e fica feliz ao saber que está muito bem conduzido em sua carreira. Entretanto, não frequenta os lugares que sua atual condição financeira permite. O empresário convence-o que tais ambientes devem ser ocupados pelos angolanos também – uma questão de afirmação social (p. 44) –, como mostra a passagem abaixo em um restaurante:

Há muitos que podem cá vir, mas não vêm. Não desenvolveram o hábito de progredir. Preferem a quantidade de vida à qualidade de vida. E, isso, tem as suas conseqüências, também políticas. (...) Olha, agora, ao nosso redor. Estamos aqui em minoria. E podíamos fazer maioria aqui. Porque os mwangolês que têm alguma coisa, seriam bastantes para fazerem maioria em todos os restaurantes e esplanadas deste país. (...) O que importa é estar. (...) Nós temos que estar aqui, para tornamos, de facto, nosso país este, que por direito é nosso. (p. 47)

A preocupação com os valores éticos e com o comportamento do angolano por parte do narrador, justifica-se por causa dos péssimos exemplos da classe política do país que se mostra prepotente, arrogante, inconsequente e irresponsável quando se trata dos interesses da nação, colocados em segundo plano diante de escusos interesses pessoais. O uso da força, o abuso de poder e a certeza da impunidade são evidenciados no conto “Aqui é só vusar”, ao apresentar a postura dos dirigentes angolanos a partir de uma caravana conduzida de forma irresponsável por uma estrada. Valendo-se da posição oficial, seus motoristas cometem as maiores barbaridades no trânsito, causando indignação e revolta em um simples cidadão:

O sacana do condutor, sem batedor, nem nada à frente do carro dele, acelerava, driblava, como se a estrada fosse um corredor da casa dele. Mas, o carro feio não vinha só. Era o primeiro de uma caravana de seis, com matrículas anormais, não interessa agora, detalhar mesmo qual era o defeito igual de todas elas, todos trungungueiros (brutamontes), a quererem mandar na estrada, como se esta Luanda e o país inteiro fosse deles. (...) Afinal de contas, este país é de todos nós. Só a força das armas procurou tornar uns mais angolanos do que os outros. Só a coação, a impunidade, pode fazer com que uns se sintam obrigados a ver com impotência os seus direitos serem vilipendiados. (p. 27-29)

“O enterro de Burrocrata” é o mais contundente, áspero e feroz conto contra a burocracia que emperra o país. Trata-se dos estranhos acontecimentos no enterro da personagem-título, funcionário público odiado por todos em razão da sua total falta de escrúpulos e solidariedade com o próximo, que se aproveita da sua posição privilegiada para criar todo e qualquer tipo de entrave nas vidas das pessoas e das empresas que querem regularizar suas pendências com os órgãos públicos. O livro de condolências é preenchido por várias pessoas, tornando-se o espaço para as descrições das atrocidades cometidas pela personagem ao longo de sua vida e dos constantes abusos realizados por ela.

Para qualquer coisinha de nada, pedia o Registo Criminal. (...) Se não fosse o Registo Criminal, era o Atestado de Saúde. Como se isso não bastasse, o requerimento tinha de ser em papel de vinte e cinco linhas, selado e sem rasuras. A fotocópia do Bilhete de Identidade não podia faltar. Noutros casos, exigia o Atestado Médico, mesmo sabendo que este podia ser facilmente falsificado por um falso médico no Roque Santeiro. E, enquanto andávamos de um lado para o outro, a tratar de toda a papelada, a oportunidade do negócio passava, às vezes, sem deixar mais rasto. (p. 65)

Durante o enterro, cai uma chuva torrencial simbolizando o novo tempo de um Estado em prol do desenvolvimento do país e em harmonia com os interesses de seus cidadãos: “Era uma chuva alegre, colorida, que parecia estar contente com o fim de Burrocrata. (...) Que depois da morte de Burrocrata, a vida deles fluiu melhor (...) Houve mais negócios, mais trabalho e mais dinheiro nas mãos, até do mais anônimo cidadão.” (p. 67-68)

Os problemas gerados pelo superpovoamento e pelo cotidiano caótico da cidade de Luanda são retratados por Nehone no conto “Catrapus!”. A partir da iniciativa da personagem Zazalí, um canguleiro (carregador) que trabalha no mercado Roque Santeiro (famoso mercado popular de Luanda, seu nome foi inspirado na novela homônima brasileira), e sua visão comercial ao investir em cangulos (carrinhos-de-mão) para transportar as compras dos clientes. Zazalí obtém rápida ascensão social aumentando o número de seus carros e funcionários, até se tornar o Rei dos Cangulos, valendo-se da força física e da influência que passou a exercer dentro do mercado: “como tal, era respeitado, idolatrado por uns e odiado por outros” (p. 10).

Zazalí passa a ter centenas de cangulos e os que não eram seus somente circulavam no Roque se seus donos pagassem uma taxa a ele. Com o tempo, investiu na fabricação de cangulos para carregar passageiros e determinou que todos os clientes deveriam ser carregados pelo mercado. Essa situação levou-o a pensar no trânsito caótico da cidade e seus “engarrafamentos intermináveis”, que faziam com que as pessoas levassem horas para chegar aos seus destinos:

“a pontualidade já era. A assiduidade era mandada para as urtigas. (...) Ninguém tinha moral para exigir pontualidade a ninguém, nem mesmo os chefes, porque estes também se atrasavam. (...) Como ninguém se sentia culpado pelo que estava a acontecer, ninguém justificava nada a ninguém. Como todos se sentiam prejudicados, não aparecia nenhum culpado. Era a total paralisia, enquanto a cidade definhava, porque deixaram de produzir. Porque todos estavam atrasados, tudo ficara atrasado. Toda a vida das pessoas era, agora, refém do engarrafamento (p.12-13)”.

Diante desse quadro, “era, então, aí que, de repente, surgia nas ruas um caricato show de retrocesso” (p. 12), o narrador começa a descrever como os cangulos de Zazalí expandiram-se do Roque Santeiro para as ruas de Luanda:

Circulavam entre os carros, subiam para os passeios, desciam novamente para a estrada, deixavam os passageiros nos lugares acertados e prosseguiam com a nova carga. De tão estreitos que eram, e movidos à tração humana, não necessitavam de espaços largos para passarem, nem de gasolina para se moverem. (...) A lentidão do transporte de cangulo era tal que, na verdade, a velocidade era mesmo a do passo humano. A única diferença era a de que o cangulado chegava menos cansado que o canguleiro. Mas, tudo a passo de homem. (p. 14)

Com isso, o Rei Zazalí toma uma decisão insólita ao perceber que os luandenses não precisam mais de relógios: “Deu-se conta de que com aquele passo, pelo menos durante o sufoco dos engarrafamentos, o tempo deixara de ter sentido nas fábricas, gabinetes, escritórios, enfim, na vida das pessoas. (p. 14)” E passa a comprá-los a preços baratíssimos com a intenção de revendê-los quando a situação voltasse ao normal.

A desordem de Luanda leva o narrador a fazer uma alusão aos tempos em que Angola era colonizada por Portugal, quando o branco era carregado pelos negros, o narrador reflete o retrocesso vivenciado em seu sonho e termina, de forma abrupta, o conto:

Sem transporte moderno que andasse, sem sentido de tempo, amordaçada pelas dificuldades daí decorrentes e submissa à omnipresença de toscos monocicles de madeira à tracção humana nas suas ruas entupidas, a cidade deu-nos o fatídico sinal de que, em pouco tempo, sucumbiria. Não querendo ser cúmplice, preferi abandonar o trágico sonho e pôr fim, aqui e agora, a este conto. (p. 15)

As preocupações do autor com o inchaço populacional da capital angolana não finalizam. O insólito retorna e prevalece em “Luanda a duas velocidades”. Neste conto a cidade é dividida em dois turnos rigorosos por seu prefeito, que visa com essa medida reduzir os problemas de uma cidade superpovoada. Os percalços submetidos à população são narrados com ironia, obrigando famílias e os serviços públicos e privados a se dividirem em dois turnos. Trata-se de uma metáfora angustiante do caos urbano da cidade de Luanda.

As pessoas, as empresas e as instituições fizeram as suas opções e, em função disso construíram todas as suas demais relações.
Famílias inteiras optavam “por viver” de dia ou à noite e, segundo a sua escolha, estabeleciam a sua convivência, cresciam e multiplicavam-se com os demais que “vivessem” no mesmo período.
Em poucas palavras, a cidade “vivia” intensamente as vinte e quatro horas, mudando apenas de actores. Na mesma cidade havia dois grupos de cidadãos que viviam a mesma época, mas em momentos diferentes. (p.82)

O período comunista da república angolana é relembrado no conto “Um Ifa no cafriqui”. O texto relata um kota (mais velho) que consegue adquirir um caminhão, o IFA do título, popularmente conhecidos como: IFA – Independência Fodeu Angola ou IFA – Indústria Funerária de Angola (p. 49). Esse carro, que não era confiável – “o IFA era alto e capotava muito” (p. 49) – tanto pela sua mecânica quanto por seus motoristas, era importado da então Alemanha Oriental (RDA). O IFA virou objeto de desejo da sociedade da época que pretendia ter alguma forma de ganhar dinheiro extra, longe do controle do Estado. Em razão disso, o caminhão era alvo de seguidas tentativas de assalto deixando desassossegado seu dono:

Entretanto, poucos eram os IFAs para todos que queriam tê-los. Virar empresário angolano, em época de predominância da propriedade social ou estatal sobre os meios de produção, era um privilégio arriscado, mas intimamente invejado e desejado. Ter um IFA já bastava para se denominar empresário. Porque ter um camião num mercado onde o omnipresente concorrente era o Estado, bem podia dar o estatuto de pequeno empresário. (p. 49)

O didatismo retorna em “O kota Meu está em parampas”. Em intenso diálogo, um personagem demonstra ao seu chefe o por quê da maioria da população permanecer longe das boas oportunidades, restritas a um pequeno grupo que detém o controle e o acesso à informação, legando ao resto da população uma vida sofrida e sem maiores perspectivas.

Aqui nem todos sabem de tudo. A informação não circula para todos. Por isso é que, às vezes, as coisas boas acontecem num lugar, onde estão os que sabem que vão acontecer, e todos os que não sabem continuam distraídos com o que já existe, com o que já não dá mais sumo. O kota deve masê ter o canal de informação do que vai acontecer. Por isso é que se posiciona. Porque ninguém muda de posição à toa. (...) Agora, para subir é preciso saber para onde. É preciso saber como! E tudo começa com a circulação de informação! (p. 72)

O conto que encerra o livro, “Era uma vez um peixe que não sabia nadar”, trata-se de uma bela metáfora do período colonial e do pouco mais de trinta anos de Angola independente, narrando alguns momentos da história conturbada do país. O narrador apresenta todas as lutas enfrentadas pelo peixe para defender seu pedaço de mar, o que fez desenvolver e privilegiar determinadas habilidades de guerra em detrimento do seu bem-estar e da sua existência. Somente com a paz e a soberania da sua parte do oceano asseguradas, que o peixe se deu conta do que falta para sua vida:

Só nessa altura, o nosso peixe pôde dar conta de que havia, ao longo da vida, aprendido muito, havia aprendido quase tudo, mas o pouco que lhe faltava para poder dizer que sabia tudo era o passinho mais importante da sua vida. O nosso peixe havia dado conto de que afinal não sabia nadar.
Tudo quanto fez, daí em diante, foi aprender a nadar, para melhor desfrutar das bênçãos que Deus havia colocado no seu pedaço de mar, do mundo vasto dos oceanos e da época em que tinha o privilégio de viver.
E assim foi. Pode crer! (p. 99)

Roderick Nehone denuncia os males da sociedade e da política angolanas, fazendo da sua literatura o espaço para desmascarar as atrocidades cometidas contra o país, sem deixar de valorizar a autoestima do cidadão angolano, apresentado-o novas maneiras de conduta perante os caminhos tortuosos que a História revela. Os contos de Nehone são boias salvadoras em meio às tormentas que insistem em permanecer em Angola. E que não farão a nação submergir.