quarta-feira, 3 de junho de 2009

Bouquet de Estrelas para Arménio Vieira, por José Luiz Tavares

Esta belíssima homenagem ao escritor Arménio Vieira, galardoado com o Prêmio Camões, foi enviada pelo poeta José Luiz Tavares. Aqui, compartilho com vocês.
Parabéns, Arménio Vieira!!!
Ricardo Riso
BOUQUET DE ESTRELAS PARA ARMÉNIO VIEIRA,

DITO CONDE, REI À NOSSA MANEIRA

Mais do que justa é a atribuição do prémio Camões ao poeta Arménio Vieira, senhor duma obra sólida, ainda que escassa. Em meio às pressões identitárias e à vociferação tribunícia, que tempos e circunstâncias impuseram a outros menos radicais na assumpção da condição criadora, Arménio Vieira soube abrir-se à universalidade estética e pensante, sem no entanto deixar de reflectir nas suas obras as atribulações existenciais e as particularidades antropológicas do ser-se caboverdiano.

Embora se possa tomar este prémio como uma reparação devida, ainda que tardia, à literatura caboverdiana, ele é, indubitavelmente, o coroar da obra daquele que dentre nós encarnava por excelência a figura e condição de poeta, e não nobilita, por atacado, toda a produção literária do arquipélago.

Talvez a pátria suspirasse por outros mais conformes aos ditames e cânones da monocultura identitária, a esses que de tanto fincar os pés perderam de vista o horizonte longínquo, como postula um dos meus grandes mestres, o irlandês Seamus Heaney neste verso, minha divisa e meu lema: «vai para além da segurança do que te é conhecido».

A ele, condor de largo voo, inolvidável coveiro da literatura gastronómica, nobre oficiante das horas salerosas do Cachito e Café Sofia, impoluto cobridor das fêmeas tresmalhadas, a ele nunca lhe foi horizonte o arrazoado folclórico-etnológico, mas o irredutível humano condensado na totalidade dos signos, onde a articulação entre reflexão e sentimento, aliada à discreta inteligência metapoética, são a afirmação extrema do que ainda nos sustém e poderemos chamar - no desconforto de um tempo de imundície terror e morte - beleza.

Lisboa, 3 de Junho de 3 de Junho de 2009
José Luiz Tavares (jltavares.poeta@gmail.com)
Fonte: e-mail gentilmente enviado por José Luíz Tavares às 13h31, dia 03 de junho de 2009.

Arménio Vieira (Cabo Verde) ganha Prêmio Camões


Poeta cabo-verdiano Arménio Vieira é o vencedor do Prêmio Camões

Nascido na Cidade da Praia, Ilha de Santiago, a 24 de Janeiro de 1941, é o primeiro escritor de Cabo Verde a ser distinguido com este prémio, no valor de 100 mil euros, criado em 1988.

Lisboa - O poeta, escritor e jornalista cabo-verdiano Arménio Vieira foi distinguido com o prémio Camões, a mais importante distinção para escritores de língua portuguesa.

Nascido na Cidade da Praia, Ilha de Santiago, a 24 de Janeiro de 1941, é o primeiro escritor de Cabo Verde a ser distinguido com este prémio, no valor de 100 mil euros, criado em 1988 por Portugal e pelo Brasil.

O seu livro "O Eleito do Sol" é considerado obra maior. Publicou no Boletim de Cabo Verde, revista Vértice, de Coimbra, em Raízes, Ponto & Vírgula e Sopinha de Alfabeto. Foi redactor no jornal Voz di Povo.

O escritor e jornalista tem entre os seus livros 'O Eleito do Sol' (1990), 'No Inferno' (1999) e 'MITOgrafias' (2006).

Em declarações à rádio TSF, o escritor mostrou-se surpreendido e comovido por ter recebido o galardão, acrescentando que quando o informaram pensou que "fosse uma brincadeira".

"Os poetas normalmente não são muito conhecidos",disse. Arménio Vieira disse receber influências literárias da China aos Estados Unidos.

A angolana Ana Paulo Tavares, especialista em literatura africana, considerou justo este prémio para um autor que inovou nas letras de Cabo Verde, quer na poesia, quer na prosa.

"Acho justíssimo não só por todo o percurso de Arménio Veira que tem um grande papel na literatura moderna" de Cabo Verde, mas também pela "proposta totalmente inovadora" que apresenta, disse a poeta angolana à rádio TSF.

Para o escritor cabo-verdiano Germano Almeida, um dos maiores poetas do arquipélago, quase todas as pessoas de Cabo Verde consideram Arménio Vieira um dos grandes poetas da região. "A poesia dele é extremamente válida", afirmou, acrescentando que Cabo Verde já tinha direito a ter um Prémio Camões.

Os últimos vencedores do Prémio Camões, instituído pelos governos português e brasileiro em 1988, foram os escritores António Lobo Antunes e João Ubaldo Ribeiro.

Fonte: http://www.africa21digital.com/noticia.kmf?cod=8516912&canal=403

II Ciclo de Colóquios-Curso Internacionais em “Literaturas Africanas de Língua Portuguesa” – 2009

II Ciclo de Colóquios-Curso Internacionais em
“Literaturas Africanas de Língua Portuguesa” – 2009
Colóquio-Curso Internacional em Literaturas de Cabo Verde,
Guiné-Bissau e São Tomé e Príncipe
Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra

19 e 20 de Junho, Sala de Seminários CES


PROGRAMA

Dia 19 de Junho
10h00
Pires Laranjeira (Universidade de Coimbra)
“A emergência do negro e do feminino literários nas pequenas comunidades crioulas”

Odete Semedo (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisa)
“Revisitar os escritos guineenses: a (re)criação de vozes na poesia e nos cantos”

12h30 Almoço

14h30
Inocência Mata (Universidade de Lisboa)
“Um laboratório de viventes: Deslocamentos, veredas, antinomias e errâncias na literatura
são-tomense”

Sílvio Renato Jorge (Universidade Federal Fluminense)
“Palavra, memória e política na poesia de Conceição Lima”

Dia 20 de Junho
10h00
Simone Caputo Gomes (Universidade de São Paulo)
“Cabo Verde e as pérolas do Atlântico: literatura e património cultural”

Joana Passos (Universidade do Minho)
“Dói-me que a folha em branco/ não exija nada”: a escrita de Dina Salústio como literatura comprometida

Livia Apa (Universidade de Napoli l’Orientale)
“Dentro/Fora Cabo Verde: escritas das diásporas caboverdianas”

12h30 Almoço

14H30
Mesa de Escritores: Conversa com Dina Salústio, Joaquim Arena, Odete Semedo e Tomaz Medeiros.

ORGANIZAÇÃO:
Margarida Calafate Ribeiro (Centro de Estudos Sociais)
Silvio Renato Jorge (Universidade Federal Fluminense)

INSCRIÇÕES:
www.ces.uc.pt/coloquios_litafricanas2/

INFORMAÇÕES:
http://www.ces.uc.pt/coloquios_litafricanas2/

Fonte: e-mail gentilmente enviado pela Sra. Helia Santos às 06:56, 03/06/2009.

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Bonfanti – o enigma da existência em obras viscerais do artista

Por Ricardo Riso
31 de maio de 2009

Uma grande retrospectiva no Paço Imperial (RJ) reúne mais de três centenas de trabalhos que cobrem quarenta anos da carreira plástica de Gianguido Bonfanti. Quando falamos do artista e professor da Escola de Artes Visuais do Parque Lage, mencionamos uma obra consistente, segura, fiel a um expressionismo voraz, poucas vezes realizado no Brasil, encontrada apenas em Iberê Camargo, o Ivan Serpa da Fase Negra ou Crepuscular e uma meia dúzia de dois ou três nomes da Geração 80 carioca ou da Casa 7 paulistana.

Como todo artista que se vale do expressionismo, o homem, com todos os seus desejos, angústias, dúvidas, perversões e anseios ocupa lugar de destaque em suas realizações plásticas, revelando um mundo de desarranjo, incerto, inquieto e devorador. É latente a presença da desilusão do homem contemporâneo, tornando sua obra atemporal e de difícil compreensão para seus pares, fato comum a artistas como Goya, Egon Schiele, Francis Bacon, Willem de Kooning, Lucien Freud, Leon Kossof, Frank Auerbach Geog Baselitz e principalmente o brasileiro Iberê Camargo. Artistas que mergulharam nas profundezas do âmago humano, desmascarando a incompreensão e a incomunicabilidade do tempo que lhes coube viver.

Esse homem em crise encontra-se em conflito no olhar do observador quando se depara com as soluções plásticas concebidas por Bonfanti. Sua gestualidade agressiva, solta, em pinceladas espaçadas e densas em total descompromisso com a forma da figuração humana e insubmissa ao contorno, exige que o espectador retire do corpo da pintura, da matéria pictórica, essa figuração e recrie-a, se necessário for, em sua mente. É nessa tensão latente, proporcionada por figuras ora fantasmagóricas, ora beiram a abstração, que a pintura de Bonfanti cresce, surpreende e se equipara aos maiores nomes da história da Arte, porque consegue extrair as sensações que desnudam as inquietações do homem, nos conduzindo à busca de nossa essência, a tentar descobrir o enigma da nossa existência.

Por isso, não há em Bonfanti preocupações com modismos, em seguir novas tendências ou experimentalismos opacos, ocos, inconsistentes, efêmeros, pois Bonfanti é fiel a si mesmo, é fiel à pintura. Sentimos verdade e entrega do artista diante de sua produção.

24.08.2005 - auto-retrato - óleo sobre tela - 40 x 35 cm*

Em um rápido resumo, vemos um Bonfanti expressando trabalhos sombrios, figuras híbridas, horríveis e surrealizantes, assustadoras como as criadas por Hieronymus Bosch ou H. R. Gigger. Retratam um período de predomínio das trevas da ditadura simbolizados plasticamente por meios em que o preto e o branco sobressaem, como o nanquim, a água-forte e a xilogravura. A cor, quando surge, revela-se como na série “Doenças Tropicais”: figuras deformadas, escatológicas, hediondas como foram aqueles anos marcados por mentes e corpos obliterados por um regime de exceção.

25.09.1979 – nanquim - 53 x 76 cm*

O início dos anos 1980 já revela uma fase de colorido intenso, exagerado, alegre, erótico e de forte figuração em diálogo com o kitsch e o fauvismo. Em alguns momentos o óleo bastante diluído lembra a aquarela, enquanto seus desenhos em pastel seco são livres e leves. Em contraste com o terror da década anterior, os anos 1980 são impregnados pela renovação dos ares trazidos pelos exilados políticos da ditadura que começam a retornar ao país em 1979, por causa da Lei da Anistia. Logo, havia uma esperança de dias melhores, uma certa euforia com o fim da ditadura, agonizante e inócua, sem razão para continuar e perpetuar seu poder opressor. O que culmina com o "retorno à pintura" e o clima festivo da mostra “Como vai você, Geração 80?” no Parque Lage e com os comícios gigantescos pelas “Diretas Já!” nas principais capitais do país, ambos em 1984.

01.10.1980 - pastel seco - 64 x 81 cm*

É no decorrer dos anos 1990 que a pintura de Bonfanti começa a adquirir linguagem própria. Sua pintura começa a ganhar em emoção e lirismo na mesma proporção em que a figura humana passa a ficar cada vez mais fragmentada, densa e tensa. Essa figuração começa a ganhar em impessoalidade devidos aos rostos despersonalizados. Com esse recurso, o artista expõe o homem coletivo, o homem comum. Há uma presença constante de um erotismo que beira a perversão, em cores escuras, em tons baixos de vermelho e azul, principalmente. Figuras próximas da abstração, brutalizadas, expressões que navegam da dor ao prazer.

Seus trabalhos recentes apresentam pinturas com pinceladas soltas, espaçadas e agressivas, que não preenchem a tela completamente, porém intensas nas áreas atingidas. Demonstram, inclusive, um paradoxo, pois se há um descompromisso com a forma, há um certo e sutil rigor em tratar a figuração humana ou o seu autorretrato. Estes são um capítulo à parte em sua obra, pois são exaustivamente trabalhados em releituras constantes, numa tensão permanente entre figura e fundo. Seus rostos diluem-se nas pinceladas, tornam-se impressões, onde ganham destaques os olhos do artista - a região de maior impacto cromático -, de massa pictórica e excessiva gestualidade.

16.01.1997 - óleo sobre tela - 150 x 190 cm*

Nas figuras atuais, elas estão isoladas, são solitárias, buscando uma interação que não se realiza no espaço pictórico. Bonfanti, com sua gestualidade demarca o espaço de incomunicabilidade, de figuras distantes, arrasadas, incompreendidas, melancólicas. Bonfanti mostra a miséria da nossa existência. Há um silêncio angustiante quase que tangível nessas obras. E não há como ficar impassível diante delas. As pinceladas são mais livres; o gestual fica mais solto, abstrato e ganha força, torna-se independente. Porém, o fundo carregado e pesado dos anos 1990 agora é tratado com certa leveza, há pequenas áreas com a presença do branco puro da tela. Bonfanti se reinventa, segue em frente, coerente com sua história, com suas influências.

20.07.2001 - óleo sobre tela - 140 x 150 cm*

Isso tudo que procuramos relatar neste texto, revela a força da trajetória de um artista que se sobrepõe à velocidade do mundo contemporâneo, pois como um sábio, Bonfanti sabe que todas as sensações que atingem o homem são as mesmas de sempre, por isso concentra-se na essência da espécie humana, de um homem em intermináveis conflitos que vive em um mundo desconfortável. É essa agonia tão bem traduzida em suas telas que traz inquietação para quem as contempla, pois é o desconforto de nossas vidas que está representado em suas pinturas. Com isso, sua obra ficará para todo o sempre, algo apenas atingido por um grupo seleto de artistas, tornando a visita a sua exposição obrigatória.

11.05.2007 - óleo sobre tela - 140 x 160 cm*


Gianguido Bonfanti fascina por trilhar e mostrar os obscuros caminhos de nossas contradições. Viver é difícil, entretanto, percorrer a sua trajetória pictórica, sentir a entrega incansável ao seu ofício reafirma a vontade de se estar vivo, mesmo que seja apenas para acompanhar a sua luta incessante com a pintura e a vida. É a consagração de um artista que busca decifrar o enigma da existência humana.


Gianguido Bonfanti – 1969/2009
Paço Imperial. Praça Quinze, 48, Centro, 2533-4407. Terça a domingo, 12h às 18h. Grátis. Até 5 de julho.



*Todas as imagens foram retiradas do site de Bonfanti: http://www.gianguidobonfanti.com

Revista África e Africanidades 6 - chamada para artigos

Prezados,

No período de 15 de maio a 15 de julho a equipe editorial da Revista África e Africanidades receberá e avaliará artigos e resenhas acadêmicos para publicação em sua 6ª edição (agosto/2009).

Para melhores informações e normas para publicação acesse www.africaeafricanidades.com

Abraços,
Ricardo Riso

segunda-feira, 25 de maio de 2009

sexta-feira, 22 de maio de 2009

José Luiz Tavares - entrevista

A entrevista abaixo foi publicada no semanário cabo-verdiano A Nação em 21/05/2009, e gentilmente enviada pelo escritor cabo-verdiano José Luiz Tavares. JLT foi selecionado entre os cinquenta finalistas do Prêmio Portugal Telecom 2009. Melhores informações em http://liberal.sapo.cv/noticia.asp?idEdicao=64&id=23443&idSeccao=518&Action=noticia
Abraços,
Ricardo Riso

Entrevista a José Luiz Tavares — Poeta

1. Considera-se um “enfant terrible”?
R: Não, não me considero. Terrível era Ivan e, que eu saiba, não sou russo. No entanto não deixo de reconhecer que possuo uma personalidade poética áspera, detonadora de atritos, no sentido em que a física o entende.
Enfant, serei sempre, pois é preciso conservar uma certa inocência, que não ingenuidade, e aquele módico de pureza que é o melhor antídoto contra a peçonha e as safadezas do mundo.
Claro que eu passo por ser um indivíduo desbocado, arrogante, destemperado, porque os senhores feudais da literatura caboverdiana e da lusofonia, os compadres do elogio mútuo e das palmadinhas no lombo não estavam habituados a que alguém lhes olhasse nos olhos e dissesse ao que vinha, independentemente de lhe assistir razão ou não. Ainda tenho presente o célebre discurso da Gulbenkian na cerimónia da entrega do prémio Mário António, em que metade da assistência ficou a olhar para mim entre o atónito e o assustado. Até amigos meus disseram-me que tiveram receio de aplaudir.

2. Como estudioso, como poeta existe de facto de uma escrita contemporânea cabo-verdiana?
R: Não sou estudioso no sentido em que as pessoas entendem habitualmente essa figura. Eu estudei, li, apetrechei-me teórica e tecnicamente para exercer a minha arte com a mais funda consciência dos seus pressupostos, não para produzir obras teóricas fora do âmbito da criação artística. O grande pensador de origem judaica George Steiner, chamava a essa capacidade teórica incapaz de criação inteligência parasitária ou secundária.
Tudo aquilo que faço e sei tem que convergir na obra. Para elucidar este aspecto, conto-te este episódio: em Setembro de 2004 pedi ao João Vário que apresentasse os meus livros paraíso apagado por um trovão e agreste matéria mundo na feira do livro do Mindelo. Vário, que possuía um notável conhecimento das coisas da arte, e que chamava agreste matéria mundo de livro de ensaios (eu prefiro poesia do pensamento ou lírica reflexiva) disse-me que não o faria, pelo simples facto de que os meus livros não tinham genealogia na literatura caboverdiana e que não eram livros que podiam ser apresentados assim do pé para a mão. Prometeu escrever sobre eles um artigo para a revista anais, mas infelizmente o seu estado de saúde não lho permitiu.
Quanto à contemporaneidade ou não da escrita caboverdiana, só entendo a questão num âmbito comparativo, isto é, se aquilo que se faz cá é co-mensurável com aquilo que se faz lá fora. Penso que nalguns aspectos sim, embora a literatura caboverdiana tenha padecido sempre de um problema de desfasamento, o seu grande problema genético. Repare, por exemplo, naquilo que é considerado o nosso modernismo: esteticamente é profundamente reaccionário em relação às grandes correntes, se pensarmos nas vanguardas que nesse tempo vicejavam e feneciam por esse mundo de deus.

3. Na tua condição de intelectual, de poeta, de homem incomoda-te ser rotulado “escritor cabo-verdiano” com todos os pressupostos que daí advêm? Que escritor, que género de literatura quem lê a sua obra vai encontrar?
R: Eu não sou intelectual nem tenho essa ambição, o que não me impede de atirar umas pedradas de quando em vez, mas sempre a partir da minha condição de escritor e de homem livre que não ambiciona mais nada senão traçar os contornos dos mundos a haver e esboçar o rosto do povo do futuro. Ambição sísifica, provavelmente, mas eu não nunca me conformei com os rasos eventos do dia ou com os pequenos mundos além da esquina.
Escritor e caboverdiano sou, como já respondi em certa ocasião, uma coisa está subsumida na outra, ainda que múltipla e fragmentária seja a condição de todo o criador autêntico. Agora o que é preciso é perceber se determinados livros se encaixam na sua tradição nacional, ou se se enquadram em âmbitos mais vastos e mais desterritorializados. Ou se é a condição étnica, jurídica ou linguística que determinam a sua pertença a esta ou aquela tradição de escrita.
Eu próprio que vivo agudamente, mas sem drama, essa ambivalência, em termos de obra produzida, não tenho nenhuma dúvida em relação à minha pertença enquanto indivíduo ao âmbito da literatura caboverdiana, recusando, com prejuízo para a minha privada, adquirir, até esta data, a nacionalidade do país onde vivo. Isto não quer dizer que o não possa fazer amanhã, mas nunca por calculismo, como alguns que conheço, que, sendo de direito caboverdiano e português, nunca tinham assumido essa dupla condição, vindo a fazê-lo porque enquanto portugueses nunca as suas obras obteriam qualquer projecção.

4. Tempos atrás afirmou que em Cabo Verde “infelizmente, demasiados maus livros têm sido premiados, o que não deixa de ser um sintoma preocupante”. Sinal que a nossa literatura actualmente é má?
R: Abraão, não me puxes pela língua, que sou suficientemente insensato para dizer umas verdades. A afirmação atrás citada foi proferida por mim num contexto determinado que foi a atribuição do prémio Jorge Barbosa pela Associação dos escritores Caboverdianos ao meu livro «Agreste Matéria Mundo», que tinha concorrido ao prémio sonangol e foi preterido em favor de um outro livro. Como sabe, houve alguma polémica à volta do assunto na rádio e nos jornais, mas nada disso é relevante. O que importa é o valor intrínseco da obra, e se ela nos acrescenta ou não, não apenas como povo, mas também enquanto agregado civilizacional, e penso que quanto a este último aspecto ninguém esclarecido e de boa-fé alimentará quaisquer dúvidas.
Se a nossa literatura é má? Eu não quero fazer um julgamento holístico, por atacado. Há alguns, poucos, livros bons, e do resto não cuido pois não me interessa.

5. Em Cabo Verde ninguém comenta ou fala da obra de outros escritores, por medo ou pequenez do meio. Desafiaria o JLT a dar-me os nomes mais pujantes, donos da melhor literatura feita por cabo-verdiano nos últimos anos?
R: Eu não quero falar de nomes, grupos, capelas, confrarias, tugúrios, movimentos e quejandos. Como lhe disse, prefiro falar de livros, mas em todo o caso posso fazer um breve excurso. Depois da morte do João Vário, mestre insuperável, o Arménio Vieira é o nosso maior escritor vivo. Há dois anos publicou um livro magnífico, Mitografias. É pena que não produza mais. O Vadinho é um poeta com grandes capacidades, ainda que por vezes demasiado enredado em alguns labirintos metafísicos. O Filinto atingiu um momento alto com «Das frutas serenadas». O Mário Lúcio é o nosso prosador mais imaginativo. Ah, falta o JLT, mas desse não posso falar.

6. Parece que por estas bandas os prémios fazem os nomes. Que valor dá aos prémios?
R: Os prémios podem fazer os nomes, mas não fazem as obras. Já vi algumas invencionices em Cabo Verde, donzelas e mancebos transportados ao colo por serem membros ou simpatizantes da confraria A ou B, ou porque é preciso atender a determinadas mitologias geográficas ou culturais, mas passado o efeito da bolha e da zoeira mediática, retornam ao lugar que lhes cabe.
No meu caso acho que todos os prémios que ganhei, ganhei com mérito, mas também posso estar enganado. Até já fiquei a saber que deixei de ganhar determinado prémio porque o júri não me considerou suficientemente modesto.
Para mim os prémios têm duas vertentes a considerar: dão visibilidade a uma obra e podem funcionar como um estímulo à produção de novas obras. Nunca é uma finalidade em si. É por esta razão que prefiro os prémios atribuídos a obras existentes do que bolsas de criação, que são atribuídas a uma intenção que pode transformar-se em obra de mérito ou não.

7. Dos prémios que já recebeu, qual ou quais os mais simbólicos para si?
R: Acho que todos os prémios que recebi foram importantes, desde as minhas redacções da escola primária que eram escritas no quadro para a classe copiar, até ao mais importante prémio literário que um autor caboverdiano alguma vez ganhou, o prémio Mário António da fundação Calouste Gulbenkian. O prémio Cesário Verde ocupa um lugar especial, pois foi o primeiro prémio literário significativo que ganhei. As distinções no antigo suplemento literário DN-jovem do Diário de Notícias faziam bem ao ego, pois eu tinha essa fixação tola de tentar provar que era tão bom ou melhor que o melhor dos portugueses que lá escrevia. O ter sido um dos dez finalistas das correntes d’escritas no meio de grandes monstros da poesia de língua portuguesa e espanhola, foi um momento assinalável. O Prémio Jorge Barbosa tem um significado particular, dado que foi a primeira vez que fui premiado no meu país. O prémio literatura para todos abriu-me um pouco mais as portas do Brasil. A indicação para o prémio Portugal Telecom, ao lado do Mia Couto e do Pepetela, é algo que não acontece todos os dias.

8. É voz quase unânime que daqui a poucos anos és um sério candidato ao prémio Camões. O que pensas dessa possibilidade? É algo que está no teu horizonte?
R: Não sou responsável por aquilo que os outros acham ou deixam de achar. É a opinião deles, nada mais do que isso. O que posso dizer é que quem me conhece sabe da minha determinação em construir uma obra consistente, até com sacrifício dalguns aspectos da minha própria vida. Mas cada um escolhe o seu destino, e eu escolhi este. Se esse prémio for o reconhecimento da consistência e da singularidade de um percurso, será bem-vindo, mas não estou preocupado com isso. Só a obra interessa, e é nela que empenho todas as minhas forças e capacidades.

9. Outra afirmação sua “Passa pela cabeça de alguém que hoje quando se fala da literatura cabo-verdiana se esqueça do nome de José Luís Tavares?” Como situaria a sua obra dentro da historiografia da literatura cabo-verdiana?
R: Essa afirmação foi proferida na sequência da atribuição do prémio Jorge Barbosa e reportando à atribuição de medalhas culturais, que eu já avisei para ninguém pensar em ma atribuir, pois teria de recusar dada a inexistência de critério na sua atribuição. Até uma vez fui sondado, na altura em que ganhei o prémio Mário António, para saberem se eu aceitaria o passaporte diplomático, na presença de uma terceira pessoa que o pode confirmar, mas recusei, pois na altura não estava claro para mim se não se tentaria condicionar a minha actuação por via dessa aceitação. Tenho sofrido alguns dissabores nas viagens que efectuo um pouco por todo o lado, mas face às circunstâncias da altura entendo que fiz bem em recusar. Comigo tem que ser tudo muito transparente.
Agora respondendo à questão: eu não me situo na literatura caboverdiana. Deixo esse trabalho a esses outros que vivem de botar faladura em relação à obra alheia. Em todo o caso, posso dizer: acho que sou um ET ali numa terra de ninguém. Se se quiser, entre mim e os outros, há um século de diferença. Por ora sou o único escritor caboverdiano do século xxi. Esta afirmação não é do domínio axiológico, isto é valorativo, mas sim cronológico, embora possa ser lida também na primeira acepção.

10. JLT é um poeta do português ou português das ilhas? Por outras palavras: a tua obra é comparável aos melhores autores portugueses de origem ,mas o facto de ser cabo-verdiano pode diminui-la aos olhos dos críticos?
R: Eu gosto de dizer que sou poeta do português. Isto de ser um escritor que vem das periferias da língua e escreve no coração da antiga metrópole colonial, tem vantagens e desvantagens. A vantagem é às vezes as coisas surgirem donde não se esperava, e de espanto em espanto, se a obra for consistente, atingires patamares que provavelmente o teu país não te proporcionaria. Terá sido isso que aconteceu com «Paraíso apagado por um trovão. Apesar de estar a falar em causa própria, em vinte anos de vida em Portugal nunca vi uma recepção tão clamorosa a um primeiro livro de poesia, sobretudo tratando-se de alguém que é estrangeiro em relação à língua e completamente estranho ao meio literário. Nem no caso do meu amigo Gonçalo M. Tavares, esse escritor portentoso, dos mais notáveis que apareceram em Portugal nos últimos decénios.
O reverso é uma certa suspeita que se instala em relação a ti, quer da parte dos teus correligionários do tipo «este agora está armado em escritor português» ou «é o novo protegido dos brancos», quer dos críticos ou escritores que se julgam donos da língua, mas como já não podem exercer sobre ti nenhum tipo de tutela ou porque a tua obra alcançou uma visibilidade que a deles não obteve, entram na fase do bloqueio. A propósito destes dois pontos de vista gostaria de citar um excerto de uma crítica do António Cabrita, um dos críticos que melhor tem lido os meus livros, a propósito de Agreste Matéria Mundo: « estamos diante de um caso literário a que só a miopia de uma certa crítica obcecada com os graus de parentesco não dá o devido relevo. Com José Luiz Tavares apetece lembrar o que Brodsky escreveu sobre Derek Walcott: esta cobardia mental e espiritual patente nos intentos para converter este homem num escritor regional pode explicar-se também pela pouca vontade da crítica profissional em admitir que o grande poeta da língua inglesa é negro». Pronto, foi o meu momento de egolatria.

11. Falando da língua portuguesa é a favor do acordo ortográfico?
R: Completamente a favor, por motivos particulares. Aliás, Lisbon Blues está escrito segundo as novas normas da grafia do Português. Para além das vantagens geo-linguísticas para o português, ele vem escavacar os não-argumentos desses que se opõem ao alfabeto caboverdiano. É o mesmo princípio, ainda que mitigado, que preside ao espírito dessa reforma.

12. E o crioulo? Oficializa-se ou não...que opinião sobre esse arrastamento do processo de oficialização da língua materna cabo-verdiana?
R: A oficialização da língua era para já ter sido ontem. A língua é o primeiro pilar da identidade de um povo, e se há quem não perceba isso, então estamos mesmo mal do ponto de vista da nossa consciência enquanto povo, nação e agregado civilizacional...

13. Há uns tempos li num blog que tinha dito que provavelmente nunca será em crioulo o poeta que é em português? Porque?
R: Isso é óbvio, Abraão. Eu tenho trinta e cinco anos de labuta com o português escrito. Há toda uma literatura produzida ou traduzida para o português, uma língua com praticamente nove séculos de existência e cujo percurso de consolidação escrita é paralelo à sua expansão oral. Como poderei eu da noite para o dia inventar as imagens, metáforas, boleios, acrobacias que tenho à minha disposição em português e que fazem parte de todo um arsenal que tenho há muito interiorizado? Não é um problema da natureza da língua caboverdiana ou das suas possibilidades expressivas. É preciso tempo para que a língua atinja o seu esplendor literário, para que se construa um idioma poético que ainda se encontra demasiado indexado à matriz oral e popular.

14. Fale-me um pouco do seu projecto Lisbon Blues seguido de Desarmonia?
R: Lisbon Blues e desarmonia são dois livros autónomos escritos em tempos muito diferentes, mas que por motivo de oportunidade editorial foram juntados num único volume.
Lisbon Blues é um projecto antigo. De todos os meus livros publicados é o mais antigo em termos de projecto, se bem que da primeira versão, que data de há uns quinze anos, tenha sobrado muito pouco. É a primeira vez que escrevo um livro a partir na minha condição étnica. Sem ser demasiado óbvio (aliás, nada na minha poesia é óbvio), ele é um livro profundamente político no sentido original da palavra polis.
Quanto a desarmonia (tecnicamente o livro mais exigente que já escrevi) nasceu da necessidade (e da dificuldade) de traduzir os sonetos de Camões, e não os Lusíadas como uma colunista suína e ignara andou a propagar por aí. A certa altura desta empresa dei-me conta que só dominando a técnica do soneto enquanto poeta poderia defrontar o grande Camões. O livro que ora dou à estampa é o resultado dessa aprendizagem minuciosa, e que de um ponto de vista formal foi o livro mais fácil e mais difícil de escrever. O resultado, sem qualquer auto-complacência, não desmerece o esforço dispendido.

15. Como vê a situação política social de cabo Verde a partir da diáspora?
R: Eu tenho uma gratidão e uma admiração profunda pelas gentes do meu país, políticos incluídos, sem olhar a partidos ou ideologias. Penso que todos eles, mesmo quando há desacertos, têm tentado fazer o melhor para Cabo Verde.
Claro que me inquietam alguns fumos (e até fogo) de corrupção, a questão da segurança, sobretudo na capital, a delapidação paisagística através da construção desenfreada e de um turismo intensivo de baixa qualidade, a propriedade e o uso dos solos e, concomitantemente, a especulação fundiária na qual anda metida meio Cabo Verde, se se vier a confirmar as denúncias vindas a público. Em qualquer caso os motivos de regozijo são bem maiores que os de crítica.

16. Volta um dia para leccionar e viver em Cabo Verde?
R: Nós falamos disso há dois anos. Aliás, aproveito a ocasião para lhe agradecer, pois parece que o Abraão é o único que dá pela minha presença quando venho a Cabo Verde. Você e o José Maria Varela da inforpress.
Se está lembrado, há dois anos disse-lhe que a minha vinda tinha apenas a ver com condições psicológicas: basta-me sentir capaz de produzir cá como onde estou. As coisa mantêm-se no mesmo ponto, se bem que hoje tenha uma razão particular para vir viver para Cabo Verde.

Lisbon Blues, de José Luiz Tavares - resenha por António Cabrita

A resenha abaixo foi gentilmente enviada pelo escritor cabo-verdiano José Luiz Tavares acerca do recente livro de poesia, "Lisbon Blues seguido de Desarmonia". Lançado no Brasil pela Editora Escrituras, o livro integra a coleção Ponte Velha.
Abraços,
Ricardo Riso


TRATADO DE URBANISMO
Algumas notas sobre «Lisbon Blues seguido de Desarmonia» de José Luiz Tavares
Por António Cabrita*
1
Escreveu Eugénio Montale, poeta que amo: «a arte é a forma de vida de quem na verdade não vive: uma compensação ou um sucedâneo. Por outro lado não justifica nenhuma deliberada turris eburnea: um poeta não tem que renunciar à vida. É a vida que se encarrega de escapar-se-lhe». E não concordo nada, porque a essa falsa dualidade (vida ou arte) se antecipa a condição do âmbito.

Pense-se num piano. Como móvel não passa de um objecto. Mas o piano dá a possibilidade de criar uma obra e o intérprete dá ao piano a possibilidade de que essa obra seja – é um enriquecimento mútuo. É uma experiência com uma dupla direcção, e o piano deixa de ser um objecto para ser um âmbito. O Picasso teve a mesma experiência quando encontrou por acaso um selim de bicicleta ao lado de um guiador tresmalhado e “viu” que aquele cruzamento inesperado desenhava a cabeça de um touro. Com isso fez uma nova escultura, mas a transformação foi mútua, esse encontro modificou o seu olhar.

No plano da criação, um âmbito é o que cria um nó de relações que nos transforma. Evidentemente que a poesia é um tabuleiro ideal para o jogo da reversibilidades que o âmbito propicia, razão pela qual, como dizia o poeta brasileira Mário Quintana — lá está o paradoxo, um poeta que não amo — a poesia não é uma fuga da realidade mas «uma fuga para a realidade».

Por isso pergunta José Luiz Tavares, ecoando Rilke: «Porém, se eu gritar pelo real,/ que vivo louvado deus me trará mais do que/ o embolorado eco que na memória ecoa?» (119) Na memória das palavras, acrescente-se, nesse redil da língua, continua Tavares, «onde se cresce/ e se morre com os pulmões ungidos pelo trovão». (119) O trovão é cego, a luz que o antecipou não, mas a irradiação do relâmpago só se torna palpável (veja-se a ironia) se a palavra lhe for trânsito na sua fuga para a realidade, onde finalmente se converte em experiência, em jogo partilhado, em âmbito. De onde ressalta que a poesia é mais um meio de conhecimento que de representação e, em segundo lugar, que não há nesta hipótese a vida de um lado e a literatura de outro. É o que trama José Luiz Tavares, e penso ser o incremento dos grandes poetas.

2
Não há escapatória ao que nos tornou únicos e irrepetíveis e conformou um destino. José Luiz Tavares: pobre, negro, cabo-verdiano, com os pais na diáspora. Cedo se vê dividido por uma dupla diáspora. O da periferia da língua materna, o crioulo, e a diáspora na língua: o português. Quer-se caldo mais vulcânico? José Luiz negou o que separa, fez do que consterna uma afirmação: «Mas faz da tua vida uma arte da recusa:/ da pátria, em que célere te amortalham, /tu que só nos versos os sinais que salvam/ vislumbraste»(154), e arrancou-se pelo transe da poesia à sua condição periférica. Quando desembarca para estudar em Lisboa, com o lume programático que é o seu, já sonha devolver à lusíada língua algum brilho, uma «intacta geometria» tonificada pela aragem e um vinco de sangue, de modo a emboscar os sortilégios. Claro que em tudo isto se padece; se calhar, como diz Le Clezio, um dia descobriremos que nunca houve literatura, que ao invés houve sempre medicina. Medicina porque o autor escreve para se salvar. Catarse.

Mas vou contar um segredo: a catarse de nada vale, o que importa é o que fazemos com ela. Como a deslocamos, transfiguramos, a dotamos de sortilégio. Só esta translação, a que muda a dor em dom, importa: «E vendo assim lisboa (so beautiful)/ assalta-me a lembrança de um outro azul/— sob suas fímbrias plantei/ renques de acácias e tabuletas alusivas; /sob seus desdoirados ramos/ desamores lamentei/que não sou amigo do rei,/ nem cheganças com deuses hei./Mas se é de sua lei/ que, embora triste, seja altivo amigo/ da grei, tal sina não maldigo;/ talvez mesmo comigo diga:/grato estou a estes claros dias/ em que das lágrimas fiz maravilhas.» (LEMBRANÇA DE MANUEL BANDEIRA…). Acrescente-se a isso o Ofício, o abnegado gesto de calcetar diariamente a palavra, fazendo com que vida e a escrita convirjam, não por vaidade ou orgulho, mas porque assim se respira, e temos “o desgoverno” deste autor cabo-verdiano, omnívoro homem do mundo e da cultura que, quanto mais se expande no magno e transcontinental perímetro da literatura, mais se aproxima da sua origem.

3
Eis a cartografia e os seus endereços, nesta Lisboa contida em José Luiz Tavares.

O verdadeiro resgate deste livro é a sua consciência crioula, mestiça, o entrelaçado dos seus veios no ladrilhado dos seus versos. Ao jeito de uma bebinca. Expliquemo-nos. Temos a camada da Lisboa empírica, a da locomoção e vivência do poeta: as noites, engates, itinerários, passeios, eléctricos, turistagens, desejos, expectativas e rasgões deceptivos no plano existencial, o recorte da vida; depois temos, noutra camada, isso confrontado com a memória da Lisboa dos poetas que o poeta lê – Cesário, Vitorino Nemésio, Armando Silva Carvalho, o inevitável Pessoa, etc.- : a tradução literária -; ao que se sobrepõe nova camada com a memória transpessoal dos lugares: do rio, omnipresente, aos monumentos, às ínfimas e bolorentas tascas, ou aos cafés, miradouros, jardins e praças, e à sua importância topológica no cruzamento de comunidades díspares.

Isto leva a que, ao arrepio da maior parte da poesia hoje dominante — que usa e abusa de um só tempo verbal, coincidente com o do poema, e se concentra num episódico quadro temporal — José Luíz Tavares (como antes dele, Jorge de Sena e João Miguel Fernandes Jorge) faça da História (literária, social, da linguagem) um harmónio e convoque a «longa duração» na tessitura dos seus poemas, sem medo de para isso por vezes recorrer à dissonante elipse como processo: «Deste-me telegráficas razões/ para o desamor./ O noturno arco-íris/ outra vez presa do teu riso — por muito menos abandonei filhos/ e mulher, e automóvel/ à saída do emprego./ Rossio à noite tem ciosos habitantes,/ pretos das africas de sorriso na algibeira,/ eu diria que gente (embora a saldo/ para qualquer leve inconveniente)/ que naves já não negreiras desembarcam/ por sob um céu que públicos contendores/ disputaram o matiz -/ eu diria que fúcsia, por vezes sépia,/ como nesse fundo de caravaggio/ em que pretos de ginga e volteio/ aguardam o vago Sebastião/apreçando a jorna em indecifrável algaravia.» (Noturno do Rossio).

Depois, o seu caudal discursivo é ainda mestiço (uma intertextualidade em devir perpétuo e em mútua influência) pela associação automática, a simultaneidade de tempos históricos, as sequências de imagens intensamente visuais ou as citações literárias implícitas; sendo em si mesma a linguagem um feixe ou uma multiplicidade de registos e modos de uso que disputam pertinências e convenções e articulam o erudito e o calão, ou, lubricamente, curto-circuitam o dizer em voga com um delicioso paté de anacronias verbais (- «sabotagem linguística» pela qual o autor lembra a fatuidade épocal de todo o dizer). Dantes, dizia-se que estes poemas se comportavam como palimpsestos, agora será mais exacto pegar num vocábulo que o autor usa várias vezes: são fractais, variantes na serialização que a literatura é, figuras auto-reflexivas e costuradas num discurso que sabe colocar todas as máscaras e dilui-las ou fundi-las com uma facilidade, uma técnica ou um fôlego invejáveis.

4
A meio caminho de vida do poeta houve o “acontecimento do soneto”. É o que dá notícia o segundo dos livros aqui compilado «Desarmonia —Sonetos Esconsos».

O soneto está para a poesia como o piano para a música: 72 teclas e uma pauta infinita de variações. No caso, 14 versos e uma girândola de fogo preso. O soneto é, intrinsecamente, um oximoro, pois propicia a maior das liberdades induzida pela maior das disciplinas. Que o diga o indiano Vikram Seth, que fez um romance de 300 páginas em sonetos, «The Golden Gate». Quando se tem a ilusão de dominar o soneto — o qual deixa sempre um rabo de fora — o poeta fica obcecado, como a língua que encontra um molar rachado que sonda, interminavelmente. E constitui um dos maiores riscos no domínio da poesia, no sentido em que a disciplina a que obriga pode secar o poeta, acantoná-lo na técnica. Ledo Ivo, um dos bons poetas brasileiros da geração de cinquenta, e que debutou com longas elegias, inflectiu no soneto ao terceiro livro e ao décimo lamentaria ter-se confinado ao seu espaldar rítmico.

Mas não se pode fugir ao desafio, e José Luiz Tavares, no seu jeito de um arqueólogo da língua, não podia decliná-lo. Não é o espaço para fazer uma análise apurada de alguns poemas no limite da “saturação literária”, queria antes chamar a atenção para os dois ciclos finais, Matéria Ígnea e À Beira das Cinzas, que por si só, justificam claramente o encómio deste livro.

Diga-se que José Luiz Tavares trabalha na corda bamba de “um realismo” que tende à «rugosa realidade» de Rimbaud e transita na tensão entre a memória da literatura e a vida ao relento: «a vida/ é o que desborda deste molde de decalque» («O Flato de Orfeu», 11º soneto).

O poeta sempre oscilou entre a elegia e a (auto-)derrisão, e é brilhante nas duas vertentes – a haver alguns deslizes nos seus poemas, decorrem de eventualmente não ter doseado bem o trabalho da sístole e da diástole e não haver conseguido a síntese das suas duas pulsões. Esta tensão é bem patente neste livro; veja-se: esta dicção: «sonho-te, meu brando país do sul, pequena/ nesga de azul, ou apenas votivo perfil de lava,/ sobre cujo gume o trânsito do tempo infindo/ é rutila transparência que a memória encena» («Partes da Bruma», 4), claramente nos antípodas desta: «piéria voz decadente e glabra/ que esta rupestre moldura guarda/ tudo é rouca música em que te vens/ pobre poesia que nem o pagode já entreténs» («O Flato de Orfeu», 7). Contudo, felizes os países que têm poetas que são vários num (e não nasceu do acaso a admiração de Tavares por Nemésio, que não precisou da histeria do heterónimo para se manifestar em arquipélago) e na maioria dos poemas esta tensão é resolvida de uma forma orgânica e fecunda — como acontece em O’Neil, um lírico a contrapêlo, e em Fernando Assis Pacheco, que Tavares também evoca.

Nos dois ciclos que citei e prefiro vejo um verso viril que pelo vinco de uma prosódia segura deixam de lado o Cesário, tão evocado no primeiro livro, para avançarem mais atrás na tradição e dialogarem com Bocage. E não é pela matéria licenciosa dalguns sonetos (o que cria sempre dissabores sociais aos poetas), mas antes pela auto-análise e algum ritmo: «nem do amor digas era uma vez: puro/ ladrão de mãos de veludo, seu assomo/ é helicoidal destino do poeta impuro/ patinado por sete gerações de fumo». Mas o poeta vai mais longe na genealogia e nos dois sonetos finais do livro – absolutamente brilhantes – farejo Sá de Miranda.

Pode um poeta ecoar todas estas vozes e ser ainda como aquelas equipas de futebol que jogam mais do que a soma dos seus elementos? É o que acontece aos grandes poetas, que tudo incorporam e devolvem com uma energia que lhes é própria e singular.

E por isso só me resta aconselhar a leitura imediata deste livro de José Luiz Tavares, que reúne seguramente, entre outras peças de valia, uma dúzia de poemas que são do melhor que a literatura em língua portuguesa tem produzido. Comece o leitor por exemplo pelo poema em que o poeta dialoga com a estátua de pessoa, no Chiado. E se o poeta escreve: «Pátria futura já sombra escalavrada», acredite que é por modéstia, pois quem se apresenta assim como um vero urbanista da língua tem nas paisagens do futuro um lugar assegurado.

*António Cabrita, escritor, crítico e jornalista português
Fonte: e-mail enviado pelo poeta José Luiz Tavares no dia 19 de maio de 2009.

Henri Matisse - Jazz (exposição)

O circo de cores de Matisse

Em 1942, já tendo experimentado o recorte de papel como parte dos estudos preparatórios para sua obra La danse, Henri Matisse aceitou o desafio lançado pelo editor e crítico de arte grego Tériade para a realização de um livro de arte só com papéis colados. A história desta edição durou cinco anos. Tanto o formato quanto o título só foram definidos após 1944 e a decisão de também criar e publicar um texto veio em 1946. Em 1947 foram impressos os 250 exemplares assinados por Matisse com as imagens au pochoir - uma variação da serigrafia - realizadas por Edmond Vairel e os manuscritos gravados e impressos por Draeger Frères. O exemplar 196, exposto aqui, pertence à coleção Castro Maya. Recortando papéis previamente coloridos a guache, o artista desenvolveu um processo de desenho direto na cor com a tesoura que resultou em 20 pranchas de imagens variando da abstração a figuras de grande vivacidade, mescladas a um texto manuscrito impresso em fac-simile no qual ele trata de observações sobre assuntos diversos anotadas ao longo da vida. O próprio autor esclarece que a composição aborda assuntos ligados ao circo, contos populares e viagens, com ritmo identificável aos sons de uma orquestra de jazz. Matisse chegou a cogitar denominar a obra de “O Circo” e nela reconhecemos alguns de seus personagens típicos como o palhaço, o engolidor de espadas, o atirador de facas. Porém o livro acabou recebendo o título Jazz que o referenciava à cultura norte-americana, emergente e menos compromissada com a tradição e, por isso, naquela época fortemente associada aos valores do moderno. As imagens do Jazz personificam a própria linguagem da modernidade: vibrante e reprodutível, baseada no ritmo e na improvisação. O repertório de cores vibrantes e curvas vertiginosas a serviço da emoção e do movimento - essência do moderno - fazem dele um dos ícones da arte do século XX.

Anna Paola Baptista

Até 30 de agosto.

http://www.museuscastromaya.com.br/exposicoes.htm

Museu da Chácara do Céu
Rua Murtinho Nobre, 93 - Santa Teresa
20241-050 - Rio de Janeiro - RJ
(55) 21 2224-8981
(55) 21 2224-8524
(55) 21 2507-1932
chacara@museuscastromaya.com.br
Horários
Diariamente, exceto às terças-feiras, das 12h às 17h. R$ 2. Entrada franca às quartas.

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Manifestação Pró-Hélio Oiticica e Cosmococa

Diante do vergonhoso fechamento do Centro de Arte Hélio Oiticica, a manifestação que ocorrerá no sábado será fundamental para mostrar a indignação e o descaso das autoridades com o principal artista brasileiro do século XX. Estarei lá com o meu parangolé!

Aproveitei para resgatar um texto que fiz sobre a fantástica exposição Cosmococa, no CAHO, em 2005.

Abraços,
Ricardo Riso

ATENÇÃO
23 MAIO - SÁBADO - 15h
espalha pra geral

PARANGOLÉ DE MUITOS
Leia [abaixo] a proposição de Hélio Oiticica


O IMAGINARIO PERIFÉRICO, a EBAUFRJ, a ECOUFRJ, a UNIVERSIDADE NÔMADE e o PROJETO HÉLIO OITICICA, convocam todos os artistas interessados a participar da manifestação PRÓ Hélio Oiticica a fazerem seus parangolés conforme instrução abaixo e se juntarem a esse corpo coletivo pedindo a permanência da obra de HO no Centro de Arte que leva seu nome.

23Maio - 15H - SÁBADO
Rua Luís de Camões 68 – Centro – Rio de Janeiro [Em frente ao Centro de Arte Hélio Oiticica]

Video-performances do Imaginário Periférico na obra Rodislândia no Centro H.O.

>Treme terra de Aderbal Axogum
>Nimbo Oxalá de Ronald Duarte
>Chapéu Panorâmico de Romano
>Musa Paradisíaca de BobN

Venha e faça você mesmo seu Parangolé.
Leia [abaixo] a proposição de Hélio Oiticica e entre nessa onda.

PARANGOLÉLIO
hélio oiticica
1968

INSTRUÇÕES para feitura-performance de CAPAS FEITAS NO CORPO

1- cada extensão de pano deve medir 3 metros de comprimento.

2- o pano não deve ser cortado durante a feitura da capa, de modo a manter a estrutura extensão-extensão como base viva da capa.

3- alfinetes de fralda devem ser usados para a construção da capa, que será depois cosida.

4- a estrutura da capa construída no corpo deve ser improvisada pelo participador; se a ajuda de outros participadores vier a calhar, ótimo; a estrutura deve ser construída em grupo em cada corpo participante, e feita de modo a ser retirada sem destruir, como uma roupa.

5- um grupo pode construir uma capa para várias pessoas, numa espécie de manifestaçãqo coletiva ao ar livre.

6- o uso de dança e/ou performances criadas por outros indivíduos é essencial à ambientação dessa performance: assim como o uso do humor, do play desinteressado, etc. de modo a evitar uma atmosfera de seriedade soturna e sem graça.

“estivesse eu no rio e já estaria produzindo meu parangolé revisitado. mais que a obra, o espírito de experimentação, de invenção de hélio, deve baixar no centro de arte hélio oiticica, na praça tiradentes, no mangue e no rio de janeiro.
xô o bundalelê que se acoitou nessa cidade. xô!!!!”
Chacal

Fonte: http://chacalog.zip.net/


Hélio Cosmococa Oiticica
(Ricardo Riso)

Eis que o Centro de Artes Hélio Oiticica encerra seu incompreensível período de trevas a que permaneceu durante o corrente ano, e retoma a sua programação em grande estilo com o mais significativo artista brasileiro do séc. XX: Hélio Oiticica. Mais uma vez o CAHO cumpre a sua função em divulgar o acervo de Oiticica, logo, a obrigatoriedade da visita à exposição faz-se pelo ineditismo de algumas obras da badalada série COSMOCOCA.

COSMOCOCA é composta por cinco instalações espalhadas por todo o prédio. Em parceria com o cineasta Neville D'Almeida são apresentadas peças elaboradas detalhadamente, como podemos conferir diante da presença dos manuscristos originais de Oiticica. São trabalhos que datam do distante ano de 1973, sendo que uma instalação foi montada pela primeira vez, Notations, em que há a possibilidade do visitante se banhar e interagir com a obra, no melhor estilo dos famosos penetráveis de HO.

A proposta de HO e Neville D'Almeida era fazer o que chamaram de “Quasi-Cinema”. Um filme não linear, sem início, meio e fim, projetado por slides, construídos a partir de incontáveis fotografias tiradas aleatoriamente em ângulos inusitados do tema/montagem escolhidos sem a preocupação se as imagens ficariam boas ou não. Para a composição das imagens, foram utilizados objetos de uso diário como estiletes, discos, fotografias, jornais, capas de livros etc. o que gerou imagens de grande apelo visual. O espaço escolhido era o loft de HO em Nova Iorque. A idéia, segundo Neville, era reler o cinema, quadro a quadro, sem preocupação de continuidade ou seqüência lógica, o que leva a questionar a relação temporal do espectador com o cinema e a sua postura rígida diante deste.

As instalações de Cosmococa foram definidas por HO quando apresentadas como Program in Progress. O conceito surge a partir do momento em que o visitante está em contato com uma instalação, observa as imagens espalhadas ao redor da sala intercalando-se aleatoriamente, o que causa um confronto com o ambiente exposto até o visitante se posicionar e interagir com a obra. O in progress motiva o estranhamento inicial, a nova relação espacial com o espaço expositório chama ao aconchego, ao ato relaxante, ou vagabundo como dizia o seu amigo Waly Salomão, que as instalações proporcionam.

Cosmococa. Coca... cocaína, por quê? HO manipula a cocaína como pigmento, o que chamou de rastro-coca. A coca é utilizada como máscara/maquiagem sobre as fotografias. A coca como plagiadora da maquiagem sobre o motivo fotografado. Rastro-coca: fragmentar a imagem acabada através da manipulação da cocaína, adicionar máscara-plágio à imagem, sem preocupar-se em transformar o feio em belo, ou que remetesse a qualquer máscara ritualística. O fato da coca não agir como tinta, o que violentaria a imagem, proporciona múltiplas manipulações da substância sobre as fotografias. A maquilagem, assim, é efêmera, como é efêmera a sensação de quem usa a coca, mas é essa relação com o efêmero que incita e excita a criatividade do artista num ato lúdico, até o momento que este esgota as possibilidades criadoras e decide cafungar o rastro-coca e encerra as experimentações sobre determinada imagem.

Jimi Hendrix com redes esticadas para deitarmos; Yoko Ono, Heidegger, Charles Manson e o chão é todo acolchoado com almofadas em formas geométricas a fortalecer o lado lúdico da exposição; o cineasta Buñuel no New York Times, Mothers of Invention (Frank Zappa), uma pessoa com parangolé, mais colchões e lixas para as unhas ao som de Jackson do Pandeiro e Luiz Gonzaga; uma piscina e Notations de John Cage; Marilyn Monroe e Norman Mailer em Maileryn nos convidam a vermos as instalações com todos os sentidos.
A série COSMOCOCA representa o que foi de mais transgressor na vasta e diversificada obra que nos deixou HO. Esta série representa o seu ápice criativo, pois nessas instalações estão escancaradas as principais propostas desenvolvidas por ele relacionadas à ambientação e à sensorialidade que tanto buscou aliada ao cinema, fotografia e performance. O caráter híbrido que sempre foi a sua proposta desde os bólides e penetráveis, atinge a plenitude em COSMOCOCA, as referências aos ícones da cultura pop, à filosofia e ao cinema europeu desencadeiam, implícita ou explicitamente, leituras que apropriam, parodiam, mas que transgridem invariavelmente qualquer limite. COSMOCOCA demonstra os vastos caminhos que a arte contemporânea nos apresenta e confirma HO como uma das mais radiante estrelas da pós-modernidade.

Riso
26/10/2005

CENTRO DE ARTE HÉLIO OITICICA
R. Luís de Camões, 68, Centro, tel. 2242-1213 e 2242-1012. Ter. a sex., 11h/19h; sáb., dom. e feriados, 11h/17h