segunda-feira, 8 de junho de 2009

CURSO: HISTÓRIA, CULTURA E ARTE YORUBÁ (UNEB)

UNIVERSIDADE DO ESTADO DA BAHIA – UNEB
DEPARTAMENTO DE CIÊNCIAS HUMANAS – DCHI
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM ESTUDO DE LINGUAGENS
GEAALC – GRUPO DE ESTUDOS AFRICANOS E AFROBRASILEIROS EM LÍNGUAS E CULTURAS.

CURSO: HISTÓRIA, CULTURA E ARTE YORUBÁ

Em vista da marcante presença Yorubá no Brasil, dos tempos coloniais até hoje, este curso irá abordar fundamentos da história, cultura, religião e arte Yorubá. Será dada ênfase especial à Cosmologia, Arte e Iconografia dos Orixás, Simbolismo das Cores, Mediunidade e Máscaras.

As aulas expositivas e ilustrativas irão permitir aos participantes não apenas adquirir um conhecimento mais profundo das tradições culturais e artísticas do povo Yorubá, mas também desenvolver habilidades analíticas que facilitarão contextualizar sua reinterpretação no Brasil.

PROF. DR. BABATUNDE LAWAL
Nascido na Nigéria, Babatunde Lawal graduou-se em Artes Plásticas na Universidade de Nsukka, Nigéria. Possui Mestrado e Doutorado em História da Arte pelas Universidades de Indiana (EUA). Ensinou por vários anos na Universidade Obafemi Awolowo, em Ile-Ife (Nigéria), onde foi fundador e Chefe do Departamento de Belas Artes e Diretor da Faculdade de Artes.

Atualmente é Professor de História da Arte no Virginia Commonwealth University, em Richmond, Virginia (EUA). Também foi professor visitante das Universidades de Harvard (Massachusetts) e de Columbia (New York), Dartmouth College (New Hampshire), Michigan State University (East Lansing), Kalamazoo College (Michigan), Harare Polytechnic (Zimbábue), Universidade de São Paulo (Brasil) e Universidade Federal da Bahia (também no Brasil).

O Professor Lawal tem inúmeras publicações sobre diferentes aspectos da arte na África e sobre a Diáspora Africana. A sua pesquisa sobre a estética e os significados das artes e festivais tradicionais contribuiu significativamente para o seu reconhecimento internacional, servindo de inspiração a artistas negros contemporâneos.

LOCAL: AUDITÓRIO DO CPDER (Atrás do prédio do mestrado).
UNIVERSIDADE DO ESTADO DA BAHIA – UNEB
CAMPUS I
Rua Silveira Martins, 2555 – Cabula

PERÍODO: DE 06 A 10 DE JULHO DE 2009

HORÁRIO: 14 ÀS 18 H.

INSCRIÇÕES E INFORMAÇÕES:
BIBLIOTECA DA PÓS-GRADUAÇÃO
PROFA. HILDETE
TEL: (71) 3117.2448

VALORES:
ESTUDANTES R$ 25,00
OUTROS R$ 50,00

APOIO: DCHI – PPGEL – PROEX

Fonte: e-mail gentilmente enviado pela Profa. Hildete Santos Costa (UNEB), em 07/06/2009.

sexta-feira, 5 de junho de 2009

Arménio Vieira - poemas


Arménio Vieira nasceu na Praia, ilha de Santiago, em 29/01/1941. Foi integrante da geração dos anos 1960 da poesia cabo-verdiana. Geração marcada por uma poesia marcada pela revolta e combate ao governo colonial português, à época sob a ditadura salazarista.

Arménio Vieira escreveu quatro livros, dois de poemas e dois romances, respectivamente, “Poemas” e “Mitografias e “O eleito do sol” e “No inferno”, fora vários outros textos publicados de forma dispersa em revistas como "Fragmentos", "Boletim Imbondeiro" e "Vértice", sobretudo, em Cabo Verde.

O poeta foi recentemente galardoado com o Prêmio Camões. Pela primeira vez um autor de seu país atingiu tal reconhecimento, o que valerá para dar maior visibilidade à literatura de Cabo Verde.

Vieira foi um dos fundadores da revista Seló (1962), que seguia a proposta de publicar textos de cabo-verdianos para Cabo Verde fundamentada pela Claridade e por Certeza, marcos da literatura do arquipélago. Arménio participou com um poema no seu segundo e derradeiro número; não devemos estranhar a quantidade escassa de edições devido à forte perseguição que os opositores da ditadura sofriam, logo, qualquer manifestação com voltas à libertação das colônias era rapidamente sufocada.

A poesia de Vieira apresentava as preocupações com o estado em que se encontrava o país, relia temas pertinentes à geração claridosa como o mar, o que podemos conferir no trecho do poema publicado em Seló:

Mar!

Raiva – angústia
De revolta contida

Mar!

Do não-repartido
E do sonho afrontado

Mar!

Quem sentiu mar?
(SELÓ)

Pensar o futuro, imaginá-lo com novas possibilidades para o arquipélago, entretanto, sem a certeza utópica, mas sim com diversas possibilidades:

Talvez um dia
Onde é seco o vale
E as árvores dispersas
Haja rios e florestas.
E surjam cidades de aço
E os pilões se tornem moinhos.
Ilhas renascidas
Nuvens libertas...
À medida dos nossos desejos.

Sim
Talvez um dia...
Quem sabe!
(Apa;Barbeitos; Dáskalos. p. 165-166)

Contudo, a poesia de Arménio Vieira consagra-se não só por sua abordagem das preocupações inerentes ao cabo-verdiano, mas sobretudo pelo caráter universal das referências literárias, pela ousadia das experiências estéticas, pela criatividade metapoética e pela permanente ironia dos versos a desmascarar a mediocridade imposta pelos líderes das sociedades, que contaminam as vidas das pessoas desfavorecidas com a miséria hipócrita de suas existências. Vieira com seu olhar arguto sempre foi coerente e fiel a sua obra, conseguindo extrair de um mundo infestado por decepções e desconforto matéria para tecer uma poesia cuidadosa, sutil e bela. Parabéns ao Poeta que jamais se corrompeu!

Os poemas seguintes são uma pequena recolha feita por mim.

Ricardo Riso


MAIS NADA

Alexandre Puchkine: o maior poeta da Rússia.
Georges Dantes: galões de oficial, mais nada.

Entre aquele e este o ciúme: fruto amargo
Com raízes no sexo. Faca fria e pontiaguda
Encostada ao coração.

Em 27-7-1837 Dantés mete uma bala
Na fechadura da História e entra.
Puchkine retira-se, com direito à estátua.

Victor Hugo, grande voz, garganta de leão,
Diria, como disse em “Notre Dame”: FATALIDADE!
Mentira. Por uma fêmea somente, mais nada.
(VIEIRA. p. 126)


RETRATO DE POETA*

Pobre Fernando sem Dom nem Formoso!
Rei somente em poesia
que o mundo – tu mesmo o disseste –
é para os que têm o dom da conquista

Pobre Fernando de mãos-postas!
De tal sorte fingidor e poeta
que até fingia que cria!

Pobre Fernando de óculos e chapéu
a sonhar com navios e aves do mar!
De que te valia ser marinheiro
num mundo descoberto e achado
ou ser pássaro e voar
no meio de falcões a rondar?

Pobre chapéu de poeta
ridículo como uma carta de amor!
Ainda se um raio de sol
(transido no tempo e na bruma)
ou uma gota de chuva
(oblíqua e pequena que fosse)
te viesse tornar necessário!

Pobre Fernando de mãos-postas!
Patética pose de poeta


* Este poema foi-me sugerido pelo desenho intitulado Fernando Pessoa Não-Ele-Mesmo, da autoria de c. pinheiro, inserto na revista Nova 1.
(VIEIRA. p. 49-50)


UM GATO LÁ NO ALTO

Quando e onde
não me lembro já.
Mas o certo é que a gente falava
da cauda longa dos cometas
e do calor intenso
que habita o núcleo das estrelas.

Meus olhos
estavam fitos no espaço
e de repente
vi um gato
pulando lesto e contente.
Eu juro que vi um gato
saltando de uma nuvem para outra
até ficar oculto
num floco todo branco
Confesso: tive ciúme.
“Deixe esse trapo
e salte cá para baixo”
– ia eu gritar ao gato
mas lembrei-me ainda a tempo
que a distância era muita
e que nenhum bichano entende
a conversa cá da gente.
Ainda que ele ouvisse:
o espírito de um gato
é como o canto de um poeta
– não atende nem escuta
a ordem de ninguém

Engraçado! Um gato lá no alto
entre os braços duma nuvem.
Talvez fosse
um bruxo disfarçado
ou a alma de um vate
vogando no espaço.
(VIEIRA. p. 29-30)


FÁBULA DE ESOPO

Um touro, ignorante de cabeça,
mas rijo de couro e carcaça,
quis ser elefante

Engoliu vento, inflou...
e já feito imenso balão
(de meter medo à selva e ao leão)
deu um estouro e tombou

Um elefante, por ali vagabundo,
esfregou os olhos, descrendo,
e foi acordar em cima dum ouriço-cacheiro

Uma rã pulou à loja, defronte,
e coaxou ao caixeiro:
– Faça favor de me vender um foguete!
(VIEIRA. p. 33)


DIDACTICA INCONSEGUIDA

Tu nunca viste um homem
Subitamente triste
Ao descobrir um tesouro ou paraíso
Ou alguém com dor no peito
E um gume encostado ao coração
Cuspindo riso pela boca
– Entretanto ensino-te os caminhos
que não passam pela porta de ninguém
e dizes que sou louco
(VIEIRA. p. 59)


SÍSIFO

Peguei numa pedra
e a seguir pus outra em cima
e assim procedi
continuamente
até erguer alta a minha torre

contratei violinos e cantores
e povoei-a
com música e canto

sentei-me e escutei...
mesmo assim não gostei

e então procurei
a donzela mais rara
e trouxe-a comigo e sentei-a nos meus joelhos
e vi como eram tristes os seus olhos

tinha uma boca
como nunca vi outra
mas os seus lábios eram frios
e não pude aquecê-los
– nem com taças de vinho
nem com versos de amor

Peguei num monte de violinos
e quebrei-os até a última corda

encostei-me a uma janela
e vi a moça dos olhos tristes
fugindo como gazela pela noite

pronunciei então a frase terrível
e fiz tombar a minha torre
os deuses rangeram como bronze
e acordaram do seu sono

depois fui condenado
a transportar até ao cimo mais alto
a pedra mais pesada
– talvez aquela em que peguei primeiro
e dei início a minha torre
(VIEIRA. p. 65-66)


CAVIAR, CHAMPANHE E FANTASIA

A esplanada da Praia em Santiago de Cabo Verde
no dia 29 de janeiro de 1971
é uma hipótese de bomba termonuclear
de que não se calculou a ogiva
é o projeto de um foguetão apontado para a lua
que nunca chegou a partir
(ficou só o esboço da rampa
que não foi concluída)

A esplanada da Praia – mesmo em dia de sol e suão –
seria um oásis magnífico e fresco
se a nossa fé (que remove montanhas)
fosse um milésimo do grão de mostarda

E haveria café
sem que se fosse plantar um cafeeiro
na cabeça do gerente que entra e que sai
e à noite regista os proventos do dia

A esplanada teria um leite mais branco
e clientes catitas e empregadas bonitas
e baixaria para uma média razoável o número de pedintes
e caçadores de beatas
e haveria por certo uma clínica ali perto
e remédios para tudo (até para os males sem cura)

A esplanada teria um helicóptero para os poetas dilectos
e o chafariz ao lado não teria sacado

E haveria cisnes brancos a boiar todo o tempo
e até um jardim suspenso
com tulipas de estufa e girassóis

A esplanada teria aviões de jacto à distância de um braço
ali – no coreto da praça –
que só tem músicos de banda e bombo
a cinquenta mil-réis por semana

A esplanada teria um odor a DDT perfumado
e talvez uma catedral feita por Oscar Niemeyer
(tão diferente da igrejinha do lado
com suas quatro paredes quadradas
e uma cruz tão fora da moda)

A esplanada da Praia seria uma maravilha do mundo
por cuja abóboda cristalina e bordada
as estrelas chegariam coloridas até nós

A esplanada, por fim, teria outro nome
– Morabeza, sem dúvida, é um termo inventado
para ali estar como luva ou sapo imbecil
(estou mesmo a vê-lo, sobre o balcão, a turvar o aquário)

Pelo que ficou dito
e pelo que não –
talvez fosse oportuno morrer aqui e agora
em vez de comemorar minhas três décadas de vida
a sonhar com champanhe e caviar
na esplanada da Praia em Santiago de Cabo Verde
no dia 29 de Janeiro de 1971.
(VIEIRA. p. 46-48)


PARÁBOLA

Por esse tempo um monstro, a Esfinge, devastava os arredores de Tebas, devorando os viandantes que não adivinhavam os seus enigmas (...)

Sobre o desenho de um templo
traço o poema e digo

é néscia a palavra
é fífia o som
é vazia a garganta

Falsa é a voz que vibra o santuário
- a besta de Tebas ocupa já
o plano mais alto
no pedestal dos deuses

tudo encenado e em acto
(Oh, não falte quem engula
o oráculo e a hóstia!)

COM ÉDIPO AUSENTE
- TAL É A MISTIFICAÇÃO DA PALAVRA
(VIEIRA. p. 95)


POSFÁCIO

Para Manuel Ferreira

Num retomar constante e abandono
os poemas podem ser assim ou de outro modo
até ao infinito. Só que estes
(não importa o sangue ou seiva que a outros se foi pedir)
são bem as marcas que o estar-no-mundo e a dor
feriram numa certa pedra.
E fora outra a sorte ou talvez o lugar e o tempo
e seria diferente o livro
e a lembrança que de uma obra fica
depois de lida e entregue aos bichos.
(VIEIRA. p. 108)


SE...?

Se não houvesse
mar, nem vento,
nem flor, nem planta,
nem lar, nem gente?

E tudo o que é
deixasse de ser:
o dia e a noite,
o macho e a fêmea,
a dor e o gozo.

E as estrelas fossem
palavras sem nexo
e o tempo vazio
de vozes e gritos


Haveria Deus,
sem mais,
amando coisa nenhuma,
para si mesmo
sábio e santo.

Sonhador solitário,
sonhando que sonho?
Sem mundo, só Ele,
redondo como um zero.
(VIEIRA. p. 119)


FALA O PAPA JOÃO PAULO SEGUNDO

A voz é outra, porém a mesma,
como outrora Pedro
exortando à Fé.
Eco talvez do verbo crucificado
ou semente lançada pela mão de Saulo.

Entre a multidão que reza e canta,
Silvenius, o poeta, santo sem fé,
fica triste, estremece.
E sonha ter sido um anjo,
expulso do Céu, por ser julgar igual a Deus.
(Fragmentos. p. 26)


POEMA

Mar! Mar!
Mar! Mar!

Não o mar azul
De caravaelas ao largo
E marinheiros valentes

Não o mar de todos os ruídos
De ondas
Que estalam na praia

Não o mar salgado
Dos pássaros marinhos
De conchas
Areia
E algas do mar

Mar!

Raiva – angústia
De revolta contida

Mar!

Do não-repartido
E do sonho afrontado

Mar!

Quem sentiu mar?
(SELÓ, nº 2)


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

APA, Lívia; BARBEITOS, Arlindo; DÁSKALOS, Maria Alexandre (Orgs.). Poesia Africana de Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Lacerda Editores, 2003.

FRAGMENTOS – Revista de Letras, Arte e Cultura. Praia: Movimento Pró-Cultura. Ano IV, nos 7/8, Dezembro de 1991.

SANTILLI, Maria Aparecida. Literaturas de Língua Portuguesa: Marcos e Marcas – Cabo Verde: Ilhas do Atlântico em prosa e verso. São Paulo: Arte & Ciência, 2007.

SECCO, Carmen L. T. R. (Org.). Antologia do mar na poesia africana de língua portuguesa do século XX: Cabo Verde. Rio de Janeiro: UFRJ, Coordenação dos Cursos de Pós-Graduação em Letras Vernáculas e Setor de Literaturas Africanas de Língua Portuguesa, 1999. v.2.

SELÓ – Página dos Novíssimos (edição facsimilada). Praia: Instituto Caboverdiano do Livro e do Disco, 1990.

VIEIRA, Arménio. Poemas. Mindelo: Ilhéu, S/D.

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Bouquet de Estrelas para Arménio Vieira, por José Luiz Tavares

Esta belíssima homenagem ao escritor Arménio Vieira, galardoado com o Prêmio Camões, foi enviada pelo poeta José Luiz Tavares. Aqui, compartilho com vocês.
Parabéns, Arménio Vieira!!!
Ricardo Riso
BOUQUET DE ESTRELAS PARA ARMÉNIO VIEIRA,

DITO CONDE, REI À NOSSA MANEIRA

Mais do que justa é a atribuição do prémio Camões ao poeta Arménio Vieira, senhor duma obra sólida, ainda que escassa. Em meio às pressões identitárias e à vociferação tribunícia, que tempos e circunstâncias impuseram a outros menos radicais na assumpção da condição criadora, Arménio Vieira soube abrir-se à universalidade estética e pensante, sem no entanto deixar de reflectir nas suas obras as atribulações existenciais e as particularidades antropológicas do ser-se caboverdiano.

Embora se possa tomar este prémio como uma reparação devida, ainda que tardia, à literatura caboverdiana, ele é, indubitavelmente, o coroar da obra daquele que dentre nós encarnava por excelência a figura e condição de poeta, e não nobilita, por atacado, toda a produção literária do arquipélago.

Talvez a pátria suspirasse por outros mais conformes aos ditames e cânones da monocultura identitária, a esses que de tanto fincar os pés perderam de vista o horizonte longínquo, como postula um dos meus grandes mestres, o irlandês Seamus Heaney neste verso, minha divisa e meu lema: «vai para além da segurança do que te é conhecido».

A ele, condor de largo voo, inolvidável coveiro da literatura gastronómica, nobre oficiante das horas salerosas do Cachito e Café Sofia, impoluto cobridor das fêmeas tresmalhadas, a ele nunca lhe foi horizonte o arrazoado folclórico-etnológico, mas o irredutível humano condensado na totalidade dos signos, onde a articulação entre reflexão e sentimento, aliada à discreta inteligência metapoética, são a afirmação extrema do que ainda nos sustém e poderemos chamar - no desconforto de um tempo de imundície terror e morte - beleza.

Lisboa, 3 de Junho de 3 de Junho de 2009
José Luiz Tavares (jltavares.poeta@gmail.com)
Fonte: e-mail gentilmente enviado por José Luíz Tavares às 13h31, dia 03 de junho de 2009.

Arménio Vieira (Cabo Verde) ganha Prêmio Camões


Poeta cabo-verdiano Arménio Vieira é o vencedor do Prêmio Camões

Nascido na Cidade da Praia, Ilha de Santiago, a 24 de Janeiro de 1941, é o primeiro escritor de Cabo Verde a ser distinguido com este prémio, no valor de 100 mil euros, criado em 1988.

Lisboa - O poeta, escritor e jornalista cabo-verdiano Arménio Vieira foi distinguido com o prémio Camões, a mais importante distinção para escritores de língua portuguesa.

Nascido na Cidade da Praia, Ilha de Santiago, a 24 de Janeiro de 1941, é o primeiro escritor de Cabo Verde a ser distinguido com este prémio, no valor de 100 mil euros, criado em 1988 por Portugal e pelo Brasil.

O seu livro "O Eleito do Sol" é considerado obra maior. Publicou no Boletim de Cabo Verde, revista Vértice, de Coimbra, em Raízes, Ponto & Vírgula e Sopinha de Alfabeto. Foi redactor no jornal Voz di Povo.

O escritor e jornalista tem entre os seus livros 'O Eleito do Sol' (1990), 'No Inferno' (1999) e 'MITOgrafias' (2006).

Em declarações à rádio TSF, o escritor mostrou-se surpreendido e comovido por ter recebido o galardão, acrescentando que quando o informaram pensou que "fosse uma brincadeira".

"Os poetas normalmente não são muito conhecidos",disse. Arménio Vieira disse receber influências literárias da China aos Estados Unidos.

A angolana Ana Paulo Tavares, especialista em literatura africana, considerou justo este prémio para um autor que inovou nas letras de Cabo Verde, quer na poesia, quer na prosa.

"Acho justíssimo não só por todo o percurso de Arménio Veira que tem um grande papel na literatura moderna" de Cabo Verde, mas também pela "proposta totalmente inovadora" que apresenta, disse a poeta angolana à rádio TSF.

Para o escritor cabo-verdiano Germano Almeida, um dos maiores poetas do arquipélago, quase todas as pessoas de Cabo Verde consideram Arménio Vieira um dos grandes poetas da região. "A poesia dele é extremamente válida", afirmou, acrescentando que Cabo Verde já tinha direito a ter um Prémio Camões.

Os últimos vencedores do Prémio Camões, instituído pelos governos português e brasileiro em 1988, foram os escritores António Lobo Antunes e João Ubaldo Ribeiro.

Fonte: http://www.africa21digital.com/noticia.kmf?cod=8516912&canal=403

II Ciclo de Colóquios-Curso Internacionais em “Literaturas Africanas de Língua Portuguesa” – 2009

II Ciclo de Colóquios-Curso Internacionais em
“Literaturas Africanas de Língua Portuguesa” – 2009
Colóquio-Curso Internacional em Literaturas de Cabo Verde,
Guiné-Bissau e São Tomé e Príncipe
Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra

19 e 20 de Junho, Sala de Seminários CES


PROGRAMA

Dia 19 de Junho
10h00
Pires Laranjeira (Universidade de Coimbra)
“A emergência do negro e do feminino literários nas pequenas comunidades crioulas”

Odete Semedo (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisa)
“Revisitar os escritos guineenses: a (re)criação de vozes na poesia e nos cantos”

12h30 Almoço

14h30
Inocência Mata (Universidade de Lisboa)
“Um laboratório de viventes: Deslocamentos, veredas, antinomias e errâncias na literatura
são-tomense”

Sílvio Renato Jorge (Universidade Federal Fluminense)
“Palavra, memória e política na poesia de Conceição Lima”

Dia 20 de Junho
10h00
Simone Caputo Gomes (Universidade de São Paulo)
“Cabo Verde e as pérolas do Atlântico: literatura e património cultural”

Joana Passos (Universidade do Minho)
“Dói-me que a folha em branco/ não exija nada”: a escrita de Dina Salústio como literatura comprometida

Livia Apa (Universidade de Napoli l’Orientale)
“Dentro/Fora Cabo Verde: escritas das diásporas caboverdianas”

12h30 Almoço

14H30
Mesa de Escritores: Conversa com Dina Salústio, Joaquim Arena, Odete Semedo e Tomaz Medeiros.

ORGANIZAÇÃO:
Margarida Calafate Ribeiro (Centro de Estudos Sociais)
Silvio Renato Jorge (Universidade Federal Fluminense)

INSCRIÇÕES:
www.ces.uc.pt/coloquios_litafricanas2/

INFORMAÇÕES:
http://www.ces.uc.pt/coloquios_litafricanas2/

Fonte: e-mail gentilmente enviado pela Sra. Helia Santos às 06:56, 03/06/2009.

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Bonfanti – o enigma da existência em obras viscerais do artista

Por Ricardo Riso
31 de maio de 2009

Uma grande retrospectiva no Paço Imperial (RJ) reúne mais de três centenas de trabalhos que cobrem quarenta anos da carreira plástica de Gianguido Bonfanti. Quando falamos do artista e professor da Escola de Artes Visuais do Parque Lage, mencionamos uma obra consistente, segura, fiel a um expressionismo voraz, poucas vezes realizado no Brasil, encontrada apenas em Iberê Camargo, o Ivan Serpa da Fase Negra ou Crepuscular e uma meia dúzia de dois ou três nomes da Geração 80 carioca ou da Casa 7 paulistana.

Como todo artista que se vale do expressionismo, o homem, com todos os seus desejos, angústias, dúvidas, perversões e anseios ocupa lugar de destaque em suas realizações plásticas, revelando um mundo de desarranjo, incerto, inquieto e devorador. É latente a presença da desilusão do homem contemporâneo, tornando sua obra atemporal e de difícil compreensão para seus pares, fato comum a artistas como Goya, Egon Schiele, Francis Bacon, Willem de Kooning, Lucien Freud, Leon Kossof, Frank Auerbach Geog Baselitz e principalmente o brasileiro Iberê Camargo. Artistas que mergulharam nas profundezas do âmago humano, desmascarando a incompreensão e a incomunicabilidade do tempo que lhes coube viver.

Esse homem em crise encontra-se em conflito no olhar do observador quando se depara com as soluções plásticas concebidas por Bonfanti. Sua gestualidade agressiva, solta, em pinceladas espaçadas e densas em total descompromisso com a forma da figuração humana e insubmissa ao contorno, exige que o espectador retire do corpo da pintura, da matéria pictórica, essa figuração e recrie-a, se necessário for, em sua mente. É nessa tensão latente, proporcionada por figuras ora fantasmagóricas, ora beiram a abstração, que a pintura de Bonfanti cresce, surpreende e se equipara aos maiores nomes da história da Arte, porque consegue extrair as sensações que desnudam as inquietações do homem, nos conduzindo à busca de nossa essência, a tentar descobrir o enigma da nossa existência.

Por isso, não há em Bonfanti preocupações com modismos, em seguir novas tendências ou experimentalismos opacos, ocos, inconsistentes, efêmeros, pois Bonfanti é fiel a si mesmo, é fiel à pintura. Sentimos verdade e entrega do artista diante de sua produção.

24.08.2005 - auto-retrato - óleo sobre tela - 40 x 35 cm*

Em um rápido resumo, vemos um Bonfanti expressando trabalhos sombrios, figuras híbridas, horríveis e surrealizantes, assustadoras como as criadas por Hieronymus Bosch ou H. R. Gigger. Retratam um período de predomínio das trevas da ditadura simbolizados plasticamente por meios em que o preto e o branco sobressaem, como o nanquim, a água-forte e a xilogravura. A cor, quando surge, revela-se como na série “Doenças Tropicais”: figuras deformadas, escatológicas, hediondas como foram aqueles anos marcados por mentes e corpos obliterados por um regime de exceção.

25.09.1979 – nanquim - 53 x 76 cm*

O início dos anos 1980 já revela uma fase de colorido intenso, exagerado, alegre, erótico e de forte figuração em diálogo com o kitsch e o fauvismo. Em alguns momentos o óleo bastante diluído lembra a aquarela, enquanto seus desenhos em pastel seco são livres e leves. Em contraste com o terror da década anterior, os anos 1980 são impregnados pela renovação dos ares trazidos pelos exilados políticos da ditadura que começam a retornar ao país em 1979, por causa da Lei da Anistia. Logo, havia uma esperança de dias melhores, uma certa euforia com o fim da ditadura, agonizante e inócua, sem razão para continuar e perpetuar seu poder opressor. O que culmina com o "retorno à pintura" e o clima festivo da mostra “Como vai você, Geração 80?” no Parque Lage e com os comícios gigantescos pelas “Diretas Já!” nas principais capitais do país, ambos em 1984.

01.10.1980 - pastel seco - 64 x 81 cm*

É no decorrer dos anos 1990 que a pintura de Bonfanti começa a adquirir linguagem própria. Sua pintura começa a ganhar em emoção e lirismo na mesma proporção em que a figura humana passa a ficar cada vez mais fragmentada, densa e tensa. Essa figuração começa a ganhar em impessoalidade devidos aos rostos despersonalizados. Com esse recurso, o artista expõe o homem coletivo, o homem comum. Há uma presença constante de um erotismo que beira a perversão, em cores escuras, em tons baixos de vermelho e azul, principalmente. Figuras próximas da abstração, brutalizadas, expressões que navegam da dor ao prazer.

Seus trabalhos recentes apresentam pinturas com pinceladas soltas, espaçadas e agressivas, que não preenchem a tela completamente, porém intensas nas áreas atingidas. Demonstram, inclusive, um paradoxo, pois se há um descompromisso com a forma, há um certo e sutil rigor em tratar a figuração humana ou o seu autorretrato. Estes são um capítulo à parte em sua obra, pois são exaustivamente trabalhados em releituras constantes, numa tensão permanente entre figura e fundo. Seus rostos diluem-se nas pinceladas, tornam-se impressões, onde ganham destaques os olhos do artista - a região de maior impacto cromático -, de massa pictórica e excessiva gestualidade.

16.01.1997 - óleo sobre tela - 150 x 190 cm*

Nas figuras atuais, elas estão isoladas, são solitárias, buscando uma interação que não se realiza no espaço pictórico. Bonfanti, com sua gestualidade demarca o espaço de incomunicabilidade, de figuras distantes, arrasadas, incompreendidas, melancólicas. Bonfanti mostra a miséria da nossa existência. Há um silêncio angustiante quase que tangível nessas obras. E não há como ficar impassível diante delas. As pinceladas são mais livres; o gestual fica mais solto, abstrato e ganha força, torna-se independente. Porém, o fundo carregado e pesado dos anos 1990 agora é tratado com certa leveza, há pequenas áreas com a presença do branco puro da tela. Bonfanti se reinventa, segue em frente, coerente com sua história, com suas influências.

20.07.2001 - óleo sobre tela - 140 x 150 cm*

Isso tudo que procuramos relatar neste texto, revela a força da trajetória de um artista que se sobrepõe à velocidade do mundo contemporâneo, pois como um sábio, Bonfanti sabe que todas as sensações que atingem o homem são as mesmas de sempre, por isso concentra-se na essência da espécie humana, de um homem em intermináveis conflitos que vive em um mundo desconfortável. É essa agonia tão bem traduzida em suas telas que traz inquietação para quem as contempla, pois é o desconforto de nossas vidas que está representado em suas pinturas. Com isso, sua obra ficará para todo o sempre, algo apenas atingido por um grupo seleto de artistas, tornando a visita a sua exposição obrigatória.

11.05.2007 - óleo sobre tela - 140 x 160 cm*


Gianguido Bonfanti fascina por trilhar e mostrar os obscuros caminhos de nossas contradições. Viver é difícil, entretanto, percorrer a sua trajetória pictórica, sentir a entrega incansável ao seu ofício reafirma a vontade de se estar vivo, mesmo que seja apenas para acompanhar a sua luta incessante com a pintura e a vida. É a consagração de um artista que busca decifrar o enigma da existência humana.


Gianguido Bonfanti – 1969/2009
Paço Imperial. Praça Quinze, 48, Centro, 2533-4407. Terça a domingo, 12h às 18h. Grátis. Até 5 de julho.



*Todas as imagens foram retiradas do site de Bonfanti: http://www.gianguidobonfanti.com

Revista África e Africanidades 6 - chamada para artigos

Prezados,

No período de 15 de maio a 15 de julho a equipe editorial da Revista África e Africanidades receberá e avaliará artigos e resenhas acadêmicos para publicação em sua 6ª edição (agosto/2009).

Para melhores informações e normas para publicação acesse www.africaeafricanidades.com

Abraços,
Ricardo Riso

segunda-feira, 25 de maio de 2009

sexta-feira, 22 de maio de 2009

José Luiz Tavares - entrevista

A entrevista abaixo foi publicada no semanário cabo-verdiano A Nação em 21/05/2009, e gentilmente enviada pelo escritor cabo-verdiano José Luiz Tavares. JLT foi selecionado entre os cinquenta finalistas do Prêmio Portugal Telecom 2009. Melhores informações em http://liberal.sapo.cv/noticia.asp?idEdicao=64&id=23443&idSeccao=518&Action=noticia
Abraços,
Ricardo Riso

Entrevista a José Luiz Tavares — Poeta

1. Considera-se um “enfant terrible”?
R: Não, não me considero. Terrível era Ivan e, que eu saiba, não sou russo. No entanto não deixo de reconhecer que possuo uma personalidade poética áspera, detonadora de atritos, no sentido em que a física o entende.
Enfant, serei sempre, pois é preciso conservar uma certa inocência, que não ingenuidade, e aquele módico de pureza que é o melhor antídoto contra a peçonha e as safadezas do mundo.
Claro que eu passo por ser um indivíduo desbocado, arrogante, destemperado, porque os senhores feudais da literatura caboverdiana e da lusofonia, os compadres do elogio mútuo e das palmadinhas no lombo não estavam habituados a que alguém lhes olhasse nos olhos e dissesse ao que vinha, independentemente de lhe assistir razão ou não. Ainda tenho presente o célebre discurso da Gulbenkian na cerimónia da entrega do prémio Mário António, em que metade da assistência ficou a olhar para mim entre o atónito e o assustado. Até amigos meus disseram-me que tiveram receio de aplaudir.

2. Como estudioso, como poeta existe de facto de uma escrita contemporânea cabo-verdiana?
R: Não sou estudioso no sentido em que as pessoas entendem habitualmente essa figura. Eu estudei, li, apetrechei-me teórica e tecnicamente para exercer a minha arte com a mais funda consciência dos seus pressupostos, não para produzir obras teóricas fora do âmbito da criação artística. O grande pensador de origem judaica George Steiner, chamava a essa capacidade teórica incapaz de criação inteligência parasitária ou secundária.
Tudo aquilo que faço e sei tem que convergir na obra. Para elucidar este aspecto, conto-te este episódio: em Setembro de 2004 pedi ao João Vário que apresentasse os meus livros paraíso apagado por um trovão e agreste matéria mundo na feira do livro do Mindelo. Vário, que possuía um notável conhecimento das coisas da arte, e que chamava agreste matéria mundo de livro de ensaios (eu prefiro poesia do pensamento ou lírica reflexiva) disse-me que não o faria, pelo simples facto de que os meus livros não tinham genealogia na literatura caboverdiana e que não eram livros que podiam ser apresentados assim do pé para a mão. Prometeu escrever sobre eles um artigo para a revista anais, mas infelizmente o seu estado de saúde não lho permitiu.
Quanto à contemporaneidade ou não da escrita caboverdiana, só entendo a questão num âmbito comparativo, isto é, se aquilo que se faz cá é co-mensurável com aquilo que se faz lá fora. Penso que nalguns aspectos sim, embora a literatura caboverdiana tenha padecido sempre de um problema de desfasamento, o seu grande problema genético. Repare, por exemplo, naquilo que é considerado o nosso modernismo: esteticamente é profundamente reaccionário em relação às grandes correntes, se pensarmos nas vanguardas que nesse tempo vicejavam e feneciam por esse mundo de deus.

3. Na tua condição de intelectual, de poeta, de homem incomoda-te ser rotulado “escritor cabo-verdiano” com todos os pressupostos que daí advêm? Que escritor, que género de literatura quem lê a sua obra vai encontrar?
R: Eu não sou intelectual nem tenho essa ambição, o que não me impede de atirar umas pedradas de quando em vez, mas sempre a partir da minha condição de escritor e de homem livre que não ambiciona mais nada senão traçar os contornos dos mundos a haver e esboçar o rosto do povo do futuro. Ambição sísifica, provavelmente, mas eu não nunca me conformei com os rasos eventos do dia ou com os pequenos mundos além da esquina.
Escritor e caboverdiano sou, como já respondi em certa ocasião, uma coisa está subsumida na outra, ainda que múltipla e fragmentária seja a condição de todo o criador autêntico. Agora o que é preciso é perceber se determinados livros se encaixam na sua tradição nacional, ou se se enquadram em âmbitos mais vastos e mais desterritorializados. Ou se é a condição étnica, jurídica ou linguística que determinam a sua pertença a esta ou aquela tradição de escrita.
Eu próprio que vivo agudamente, mas sem drama, essa ambivalência, em termos de obra produzida, não tenho nenhuma dúvida em relação à minha pertença enquanto indivíduo ao âmbito da literatura caboverdiana, recusando, com prejuízo para a minha privada, adquirir, até esta data, a nacionalidade do país onde vivo. Isto não quer dizer que o não possa fazer amanhã, mas nunca por calculismo, como alguns que conheço, que, sendo de direito caboverdiano e português, nunca tinham assumido essa dupla condição, vindo a fazê-lo porque enquanto portugueses nunca as suas obras obteriam qualquer projecção.

4. Tempos atrás afirmou que em Cabo Verde “infelizmente, demasiados maus livros têm sido premiados, o que não deixa de ser um sintoma preocupante”. Sinal que a nossa literatura actualmente é má?
R: Abraão, não me puxes pela língua, que sou suficientemente insensato para dizer umas verdades. A afirmação atrás citada foi proferida por mim num contexto determinado que foi a atribuição do prémio Jorge Barbosa pela Associação dos escritores Caboverdianos ao meu livro «Agreste Matéria Mundo», que tinha concorrido ao prémio sonangol e foi preterido em favor de um outro livro. Como sabe, houve alguma polémica à volta do assunto na rádio e nos jornais, mas nada disso é relevante. O que importa é o valor intrínseco da obra, e se ela nos acrescenta ou não, não apenas como povo, mas também enquanto agregado civilizacional, e penso que quanto a este último aspecto ninguém esclarecido e de boa-fé alimentará quaisquer dúvidas.
Se a nossa literatura é má? Eu não quero fazer um julgamento holístico, por atacado. Há alguns, poucos, livros bons, e do resto não cuido pois não me interessa.

5. Em Cabo Verde ninguém comenta ou fala da obra de outros escritores, por medo ou pequenez do meio. Desafiaria o JLT a dar-me os nomes mais pujantes, donos da melhor literatura feita por cabo-verdiano nos últimos anos?
R: Eu não quero falar de nomes, grupos, capelas, confrarias, tugúrios, movimentos e quejandos. Como lhe disse, prefiro falar de livros, mas em todo o caso posso fazer um breve excurso. Depois da morte do João Vário, mestre insuperável, o Arménio Vieira é o nosso maior escritor vivo. Há dois anos publicou um livro magnífico, Mitografias. É pena que não produza mais. O Vadinho é um poeta com grandes capacidades, ainda que por vezes demasiado enredado em alguns labirintos metafísicos. O Filinto atingiu um momento alto com «Das frutas serenadas». O Mário Lúcio é o nosso prosador mais imaginativo. Ah, falta o JLT, mas desse não posso falar.

6. Parece que por estas bandas os prémios fazem os nomes. Que valor dá aos prémios?
R: Os prémios podem fazer os nomes, mas não fazem as obras. Já vi algumas invencionices em Cabo Verde, donzelas e mancebos transportados ao colo por serem membros ou simpatizantes da confraria A ou B, ou porque é preciso atender a determinadas mitologias geográficas ou culturais, mas passado o efeito da bolha e da zoeira mediática, retornam ao lugar que lhes cabe.
No meu caso acho que todos os prémios que ganhei, ganhei com mérito, mas também posso estar enganado. Até já fiquei a saber que deixei de ganhar determinado prémio porque o júri não me considerou suficientemente modesto.
Para mim os prémios têm duas vertentes a considerar: dão visibilidade a uma obra e podem funcionar como um estímulo à produção de novas obras. Nunca é uma finalidade em si. É por esta razão que prefiro os prémios atribuídos a obras existentes do que bolsas de criação, que são atribuídas a uma intenção que pode transformar-se em obra de mérito ou não.

7. Dos prémios que já recebeu, qual ou quais os mais simbólicos para si?
R: Acho que todos os prémios que recebi foram importantes, desde as minhas redacções da escola primária que eram escritas no quadro para a classe copiar, até ao mais importante prémio literário que um autor caboverdiano alguma vez ganhou, o prémio Mário António da fundação Calouste Gulbenkian. O prémio Cesário Verde ocupa um lugar especial, pois foi o primeiro prémio literário significativo que ganhei. As distinções no antigo suplemento literário DN-jovem do Diário de Notícias faziam bem ao ego, pois eu tinha essa fixação tola de tentar provar que era tão bom ou melhor que o melhor dos portugueses que lá escrevia. O ter sido um dos dez finalistas das correntes d’escritas no meio de grandes monstros da poesia de língua portuguesa e espanhola, foi um momento assinalável. O Prémio Jorge Barbosa tem um significado particular, dado que foi a primeira vez que fui premiado no meu país. O prémio literatura para todos abriu-me um pouco mais as portas do Brasil. A indicação para o prémio Portugal Telecom, ao lado do Mia Couto e do Pepetela, é algo que não acontece todos os dias.

8. É voz quase unânime que daqui a poucos anos és um sério candidato ao prémio Camões. O que pensas dessa possibilidade? É algo que está no teu horizonte?
R: Não sou responsável por aquilo que os outros acham ou deixam de achar. É a opinião deles, nada mais do que isso. O que posso dizer é que quem me conhece sabe da minha determinação em construir uma obra consistente, até com sacrifício dalguns aspectos da minha própria vida. Mas cada um escolhe o seu destino, e eu escolhi este. Se esse prémio for o reconhecimento da consistência e da singularidade de um percurso, será bem-vindo, mas não estou preocupado com isso. Só a obra interessa, e é nela que empenho todas as minhas forças e capacidades.

9. Outra afirmação sua “Passa pela cabeça de alguém que hoje quando se fala da literatura cabo-verdiana se esqueça do nome de José Luís Tavares?” Como situaria a sua obra dentro da historiografia da literatura cabo-verdiana?
R: Essa afirmação foi proferida na sequência da atribuição do prémio Jorge Barbosa e reportando à atribuição de medalhas culturais, que eu já avisei para ninguém pensar em ma atribuir, pois teria de recusar dada a inexistência de critério na sua atribuição. Até uma vez fui sondado, na altura em que ganhei o prémio Mário António, para saberem se eu aceitaria o passaporte diplomático, na presença de uma terceira pessoa que o pode confirmar, mas recusei, pois na altura não estava claro para mim se não se tentaria condicionar a minha actuação por via dessa aceitação. Tenho sofrido alguns dissabores nas viagens que efectuo um pouco por todo o lado, mas face às circunstâncias da altura entendo que fiz bem em recusar. Comigo tem que ser tudo muito transparente.
Agora respondendo à questão: eu não me situo na literatura caboverdiana. Deixo esse trabalho a esses outros que vivem de botar faladura em relação à obra alheia. Em todo o caso, posso dizer: acho que sou um ET ali numa terra de ninguém. Se se quiser, entre mim e os outros, há um século de diferença. Por ora sou o único escritor caboverdiano do século xxi. Esta afirmação não é do domínio axiológico, isto é valorativo, mas sim cronológico, embora possa ser lida também na primeira acepção.

10. JLT é um poeta do português ou português das ilhas? Por outras palavras: a tua obra é comparável aos melhores autores portugueses de origem ,mas o facto de ser cabo-verdiano pode diminui-la aos olhos dos críticos?
R: Eu gosto de dizer que sou poeta do português. Isto de ser um escritor que vem das periferias da língua e escreve no coração da antiga metrópole colonial, tem vantagens e desvantagens. A vantagem é às vezes as coisas surgirem donde não se esperava, e de espanto em espanto, se a obra for consistente, atingires patamares que provavelmente o teu país não te proporcionaria. Terá sido isso que aconteceu com «Paraíso apagado por um trovão. Apesar de estar a falar em causa própria, em vinte anos de vida em Portugal nunca vi uma recepção tão clamorosa a um primeiro livro de poesia, sobretudo tratando-se de alguém que é estrangeiro em relação à língua e completamente estranho ao meio literário. Nem no caso do meu amigo Gonçalo M. Tavares, esse escritor portentoso, dos mais notáveis que apareceram em Portugal nos últimos decénios.
O reverso é uma certa suspeita que se instala em relação a ti, quer da parte dos teus correligionários do tipo «este agora está armado em escritor português» ou «é o novo protegido dos brancos», quer dos críticos ou escritores que se julgam donos da língua, mas como já não podem exercer sobre ti nenhum tipo de tutela ou porque a tua obra alcançou uma visibilidade que a deles não obteve, entram na fase do bloqueio. A propósito destes dois pontos de vista gostaria de citar um excerto de uma crítica do António Cabrita, um dos críticos que melhor tem lido os meus livros, a propósito de Agreste Matéria Mundo: « estamos diante de um caso literário a que só a miopia de uma certa crítica obcecada com os graus de parentesco não dá o devido relevo. Com José Luiz Tavares apetece lembrar o que Brodsky escreveu sobre Derek Walcott: esta cobardia mental e espiritual patente nos intentos para converter este homem num escritor regional pode explicar-se também pela pouca vontade da crítica profissional em admitir que o grande poeta da língua inglesa é negro». Pronto, foi o meu momento de egolatria.

11. Falando da língua portuguesa é a favor do acordo ortográfico?
R: Completamente a favor, por motivos particulares. Aliás, Lisbon Blues está escrito segundo as novas normas da grafia do Português. Para além das vantagens geo-linguísticas para o português, ele vem escavacar os não-argumentos desses que se opõem ao alfabeto caboverdiano. É o mesmo princípio, ainda que mitigado, que preside ao espírito dessa reforma.

12. E o crioulo? Oficializa-se ou não...que opinião sobre esse arrastamento do processo de oficialização da língua materna cabo-verdiana?
R: A oficialização da língua era para já ter sido ontem. A língua é o primeiro pilar da identidade de um povo, e se há quem não perceba isso, então estamos mesmo mal do ponto de vista da nossa consciência enquanto povo, nação e agregado civilizacional...

13. Há uns tempos li num blog que tinha dito que provavelmente nunca será em crioulo o poeta que é em português? Porque?
R: Isso é óbvio, Abraão. Eu tenho trinta e cinco anos de labuta com o português escrito. Há toda uma literatura produzida ou traduzida para o português, uma língua com praticamente nove séculos de existência e cujo percurso de consolidação escrita é paralelo à sua expansão oral. Como poderei eu da noite para o dia inventar as imagens, metáforas, boleios, acrobacias que tenho à minha disposição em português e que fazem parte de todo um arsenal que tenho há muito interiorizado? Não é um problema da natureza da língua caboverdiana ou das suas possibilidades expressivas. É preciso tempo para que a língua atinja o seu esplendor literário, para que se construa um idioma poético que ainda se encontra demasiado indexado à matriz oral e popular.

14. Fale-me um pouco do seu projecto Lisbon Blues seguido de Desarmonia?
R: Lisbon Blues e desarmonia são dois livros autónomos escritos em tempos muito diferentes, mas que por motivo de oportunidade editorial foram juntados num único volume.
Lisbon Blues é um projecto antigo. De todos os meus livros publicados é o mais antigo em termos de projecto, se bem que da primeira versão, que data de há uns quinze anos, tenha sobrado muito pouco. É a primeira vez que escrevo um livro a partir na minha condição étnica. Sem ser demasiado óbvio (aliás, nada na minha poesia é óbvio), ele é um livro profundamente político no sentido original da palavra polis.
Quanto a desarmonia (tecnicamente o livro mais exigente que já escrevi) nasceu da necessidade (e da dificuldade) de traduzir os sonetos de Camões, e não os Lusíadas como uma colunista suína e ignara andou a propagar por aí. A certa altura desta empresa dei-me conta que só dominando a técnica do soneto enquanto poeta poderia defrontar o grande Camões. O livro que ora dou à estampa é o resultado dessa aprendizagem minuciosa, e que de um ponto de vista formal foi o livro mais fácil e mais difícil de escrever. O resultado, sem qualquer auto-complacência, não desmerece o esforço dispendido.

15. Como vê a situação política social de cabo Verde a partir da diáspora?
R: Eu tenho uma gratidão e uma admiração profunda pelas gentes do meu país, políticos incluídos, sem olhar a partidos ou ideologias. Penso que todos eles, mesmo quando há desacertos, têm tentado fazer o melhor para Cabo Verde.
Claro que me inquietam alguns fumos (e até fogo) de corrupção, a questão da segurança, sobretudo na capital, a delapidação paisagística através da construção desenfreada e de um turismo intensivo de baixa qualidade, a propriedade e o uso dos solos e, concomitantemente, a especulação fundiária na qual anda metida meio Cabo Verde, se se vier a confirmar as denúncias vindas a público. Em qualquer caso os motivos de regozijo são bem maiores que os de crítica.

16. Volta um dia para leccionar e viver em Cabo Verde?
R: Nós falamos disso há dois anos. Aliás, aproveito a ocasião para lhe agradecer, pois parece que o Abraão é o único que dá pela minha presença quando venho a Cabo Verde. Você e o José Maria Varela da inforpress.
Se está lembrado, há dois anos disse-lhe que a minha vinda tinha apenas a ver com condições psicológicas: basta-me sentir capaz de produzir cá como onde estou. As coisa mantêm-se no mesmo ponto, se bem que hoje tenha uma razão particular para vir viver para Cabo Verde.