segunda-feira, 8 de junho de 2009

Sonia Rosa - Palmas e Vaias (lançamento livro)


Palestra com Dr. Herbert Ekwe-Ekwe na UFRJ

"África: Estado, Genocídio e Literatura, que perspectivas futuras?", palestra do Dr. Herbert Ekwe-Ekwe

Dia 25 de junho, às 11h, Auditório G1- Fac. Letras-UFRJ (Ilha do Fundão)

Dr. Herbert Ekwe-Ekwe – Nigéria, especialista em Literatura Africana e Estudos sobre Genocídio e relações com o Estado africano moderno. Publicou vários textos sobre o genocídio em Biafra, Nigéria e sobre Chinua Achebe, bem como autores nigerianos contemporâneos. Seus últimos livros são: Literature in defense of History e Biafra Revisited

Duração – 45 min. fala + 45 min. tradução + 30min. debate

Fonte: e-mail gentilmente enviado pela Profa. Dra. Carmen Lucia Tindó Secco (UFRJ), em 05/06/2009

CURSO: HISTÓRIA, CULTURA E ARTE YORUBÁ (UNEB)

UNIVERSIDADE DO ESTADO DA BAHIA – UNEB
DEPARTAMENTO DE CIÊNCIAS HUMANAS – DCHI
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM ESTUDO DE LINGUAGENS
GEAALC – GRUPO DE ESTUDOS AFRICANOS E AFROBRASILEIROS EM LÍNGUAS E CULTURAS.

CURSO: HISTÓRIA, CULTURA E ARTE YORUBÁ

Em vista da marcante presença Yorubá no Brasil, dos tempos coloniais até hoje, este curso irá abordar fundamentos da história, cultura, religião e arte Yorubá. Será dada ênfase especial à Cosmologia, Arte e Iconografia dos Orixás, Simbolismo das Cores, Mediunidade e Máscaras.

As aulas expositivas e ilustrativas irão permitir aos participantes não apenas adquirir um conhecimento mais profundo das tradições culturais e artísticas do povo Yorubá, mas também desenvolver habilidades analíticas que facilitarão contextualizar sua reinterpretação no Brasil.

PROF. DR. BABATUNDE LAWAL
Nascido na Nigéria, Babatunde Lawal graduou-se em Artes Plásticas na Universidade de Nsukka, Nigéria. Possui Mestrado e Doutorado em História da Arte pelas Universidades de Indiana (EUA). Ensinou por vários anos na Universidade Obafemi Awolowo, em Ile-Ife (Nigéria), onde foi fundador e Chefe do Departamento de Belas Artes e Diretor da Faculdade de Artes.

Atualmente é Professor de História da Arte no Virginia Commonwealth University, em Richmond, Virginia (EUA). Também foi professor visitante das Universidades de Harvard (Massachusetts) e de Columbia (New York), Dartmouth College (New Hampshire), Michigan State University (East Lansing), Kalamazoo College (Michigan), Harare Polytechnic (Zimbábue), Universidade de São Paulo (Brasil) e Universidade Federal da Bahia (também no Brasil).

O Professor Lawal tem inúmeras publicações sobre diferentes aspectos da arte na África e sobre a Diáspora Africana. A sua pesquisa sobre a estética e os significados das artes e festivais tradicionais contribuiu significativamente para o seu reconhecimento internacional, servindo de inspiração a artistas negros contemporâneos.

LOCAL: AUDITÓRIO DO CPDER (Atrás do prédio do mestrado).
UNIVERSIDADE DO ESTADO DA BAHIA – UNEB
CAMPUS I
Rua Silveira Martins, 2555 – Cabula

PERÍODO: DE 06 A 10 DE JULHO DE 2009

HORÁRIO: 14 ÀS 18 H.

INSCRIÇÕES E INFORMAÇÕES:
BIBLIOTECA DA PÓS-GRADUAÇÃO
PROFA. HILDETE
TEL: (71) 3117.2448

VALORES:
ESTUDANTES R$ 25,00
OUTROS R$ 50,00

APOIO: DCHI – PPGEL – PROEX

Fonte: e-mail gentilmente enviado pela Profa. Hildete Santos Costa (UNEB), em 07/06/2009.

sexta-feira, 5 de junho de 2009

Arménio Vieira - poemas


Arménio Vieira nasceu na Praia, ilha de Santiago, em 29/01/1941. Foi integrante da geração dos anos 1960 da poesia cabo-verdiana. Geração marcada por uma poesia marcada pela revolta e combate ao governo colonial português, à época sob a ditadura salazarista.

Arménio Vieira escreveu quatro livros, dois de poemas e dois romances, respectivamente, “Poemas” e “Mitografias e “O eleito do sol” e “No inferno”, fora vários outros textos publicados de forma dispersa em revistas como "Fragmentos", "Boletim Imbondeiro" e "Vértice", sobretudo, em Cabo Verde.

O poeta foi recentemente galardoado com o Prêmio Camões. Pela primeira vez um autor de seu país atingiu tal reconhecimento, o que valerá para dar maior visibilidade à literatura de Cabo Verde.

Vieira foi um dos fundadores da revista Seló (1962), que seguia a proposta de publicar textos de cabo-verdianos para Cabo Verde fundamentada pela Claridade e por Certeza, marcos da literatura do arquipélago. Arménio participou com um poema no seu segundo e derradeiro número; não devemos estranhar a quantidade escassa de edições devido à forte perseguição que os opositores da ditadura sofriam, logo, qualquer manifestação com voltas à libertação das colônias era rapidamente sufocada.

A poesia de Vieira apresentava as preocupações com o estado em que se encontrava o país, relia temas pertinentes à geração claridosa como o mar, o que podemos conferir no trecho do poema publicado em Seló:

Mar!

Raiva – angústia
De revolta contida

Mar!

Do não-repartido
E do sonho afrontado

Mar!

Quem sentiu mar?
(SELÓ)

Pensar o futuro, imaginá-lo com novas possibilidades para o arquipélago, entretanto, sem a certeza utópica, mas sim com diversas possibilidades:

Talvez um dia
Onde é seco o vale
E as árvores dispersas
Haja rios e florestas.
E surjam cidades de aço
E os pilões se tornem moinhos.
Ilhas renascidas
Nuvens libertas...
À medida dos nossos desejos.

Sim
Talvez um dia...
Quem sabe!
(Apa;Barbeitos; Dáskalos. p. 165-166)

Contudo, a poesia de Arménio Vieira consagra-se não só por sua abordagem das preocupações inerentes ao cabo-verdiano, mas sobretudo pelo caráter universal das referências literárias, pela ousadia das experiências estéticas, pela criatividade metapoética e pela permanente ironia dos versos a desmascarar a mediocridade imposta pelos líderes das sociedades, que contaminam as vidas das pessoas desfavorecidas com a miséria hipócrita de suas existências. Vieira com seu olhar arguto sempre foi coerente e fiel a sua obra, conseguindo extrair de um mundo infestado por decepções e desconforto matéria para tecer uma poesia cuidadosa, sutil e bela. Parabéns ao Poeta que jamais se corrompeu!

Os poemas seguintes são uma pequena recolha feita por mim.

Ricardo Riso


MAIS NADA

Alexandre Puchkine: o maior poeta da Rússia.
Georges Dantes: galões de oficial, mais nada.

Entre aquele e este o ciúme: fruto amargo
Com raízes no sexo. Faca fria e pontiaguda
Encostada ao coração.

Em 27-7-1837 Dantés mete uma bala
Na fechadura da História e entra.
Puchkine retira-se, com direito à estátua.

Victor Hugo, grande voz, garganta de leão,
Diria, como disse em “Notre Dame”: FATALIDADE!
Mentira. Por uma fêmea somente, mais nada.
(VIEIRA. p. 126)


RETRATO DE POETA*

Pobre Fernando sem Dom nem Formoso!
Rei somente em poesia
que o mundo – tu mesmo o disseste –
é para os que têm o dom da conquista

Pobre Fernando de mãos-postas!
De tal sorte fingidor e poeta
que até fingia que cria!

Pobre Fernando de óculos e chapéu
a sonhar com navios e aves do mar!
De que te valia ser marinheiro
num mundo descoberto e achado
ou ser pássaro e voar
no meio de falcões a rondar?

Pobre chapéu de poeta
ridículo como uma carta de amor!
Ainda se um raio de sol
(transido no tempo e na bruma)
ou uma gota de chuva
(oblíqua e pequena que fosse)
te viesse tornar necessário!

Pobre Fernando de mãos-postas!
Patética pose de poeta


* Este poema foi-me sugerido pelo desenho intitulado Fernando Pessoa Não-Ele-Mesmo, da autoria de c. pinheiro, inserto na revista Nova 1.
(VIEIRA. p. 49-50)


UM GATO LÁ NO ALTO

Quando e onde
não me lembro já.
Mas o certo é que a gente falava
da cauda longa dos cometas
e do calor intenso
que habita o núcleo das estrelas.

Meus olhos
estavam fitos no espaço
e de repente
vi um gato
pulando lesto e contente.
Eu juro que vi um gato
saltando de uma nuvem para outra
até ficar oculto
num floco todo branco
Confesso: tive ciúme.
“Deixe esse trapo
e salte cá para baixo”
– ia eu gritar ao gato
mas lembrei-me ainda a tempo
que a distância era muita
e que nenhum bichano entende
a conversa cá da gente.
Ainda que ele ouvisse:
o espírito de um gato
é como o canto de um poeta
– não atende nem escuta
a ordem de ninguém

Engraçado! Um gato lá no alto
entre os braços duma nuvem.
Talvez fosse
um bruxo disfarçado
ou a alma de um vate
vogando no espaço.
(VIEIRA. p. 29-30)


FÁBULA DE ESOPO

Um touro, ignorante de cabeça,
mas rijo de couro e carcaça,
quis ser elefante

Engoliu vento, inflou...
e já feito imenso balão
(de meter medo à selva e ao leão)
deu um estouro e tombou

Um elefante, por ali vagabundo,
esfregou os olhos, descrendo,
e foi acordar em cima dum ouriço-cacheiro

Uma rã pulou à loja, defronte,
e coaxou ao caixeiro:
– Faça favor de me vender um foguete!
(VIEIRA. p. 33)


DIDACTICA INCONSEGUIDA

Tu nunca viste um homem
Subitamente triste
Ao descobrir um tesouro ou paraíso
Ou alguém com dor no peito
E um gume encostado ao coração
Cuspindo riso pela boca
– Entretanto ensino-te os caminhos
que não passam pela porta de ninguém
e dizes que sou louco
(VIEIRA. p. 59)


SÍSIFO

Peguei numa pedra
e a seguir pus outra em cima
e assim procedi
continuamente
até erguer alta a minha torre

contratei violinos e cantores
e povoei-a
com música e canto

sentei-me e escutei...
mesmo assim não gostei

e então procurei
a donzela mais rara
e trouxe-a comigo e sentei-a nos meus joelhos
e vi como eram tristes os seus olhos

tinha uma boca
como nunca vi outra
mas os seus lábios eram frios
e não pude aquecê-los
– nem com taças de vinho
nem com versos de amor

Peguei num monte de violinos
e quebrei-os até a última corda

encostei-me a uma janela
e vi a moça dos olhos tristes
fugindo como gazela pela noite

pronunciei então a frase terrível
e fiz tombar a minha torre
os deuses rangeram como bronze
e acordaram do seu sono

depois fui condenado
a transportar até ao cimo mais alto
a pedra mais pesada
– talvez aquela em que peguei primeiro
e dei início a minha torre
(VIEIRA. p. 65-66)


CAVIAR, CHAMPANHE E FANTASIA

A esplanada da Praia em Santiago de Cabo Verde
no dia 29 de janeiro de 1971
é uma hipótese de bomba termonuclear
de que não se calculou a ogiva
é o projeto de um foguetão apontado para a lua
que nunca chegou a partir
(ficou só o esboço da rampa
que não foi concluída)

A esplanada da Praia – mesmo em dia de sol e suão –
seria um oásis magnífico e fresco
se a nossa fé (que remove montanhas)
fosse um milésimo do grão de mostarda

E haveria café
sem que se fosse plantar um cafeeiro
na cabeça do gerente que entra e que sai
e à noite regista os proventos do dia

A esplanada teria um leite mais branco
e clientes catitas e empregadas bonitas
e baixaria para uma média razoável o número de pedintes
e caçadores de beatas
e haveria por certo uma clínica ali perto
e remédios para tudo (até para os males sem cura)

A esplanada teria um helicóptero para os poetas dilectos
e o chafariz ao lado não teria sacado

E haveria cisnes brancos a boiar todo o tempo
e até um jardim suspenso
com tulipas de estufa e girassóis

A esplanada teria aviões de jacto à distância de um braço
ali – no coreto da praça –
que só tem músicos de banda e bombo
a cinquenta mil-réis por semana

A esplanada teria um odor a DDT perfumado
e talvez uma catedral feita por Oscar Niemeyer
(tão diferente da igrejinha do lado
com suas quatro paredes quadradas
e uma cruz tão fora da moda)

A esplanada da Praia seria uma maravilha do mundo
por cuja abóboda cristalina e bordada
as estrelas chegariam coloridas até nós

A esplanada, por fim, teria outro nome
– Morabeza, sem dúvida, é um termo inventado
para ali estar como luva ou sapo imbecil
(estou mesmo a vê-lo, sobre o balcão, a turvar o aquário)

Pelo que ficou dito
e pelo que não –
talvez fosse oportuno morrer aqui e agora
em vez de comemorar minhas três décadas de vida
a sonhar com champanhe e caviar
na esplanada da Praia em Santiago de Cabo Verde
no dia 29 de Janeiro de 1971.
(VIEIRA. p. 46-48)


PARÁBOLA

Por esse tempo um monstro, a Esfinge, devastava os arredores de Tebas, devorando os viandantes que não adivinhavam os seus enigmas (...)

Sobre o desenho de um templo
traço o poema e digo

é néscia a palavra
é fífia o som
é vazia a garganta

Falsa é a voz que vibra o santuário
- a besta de Tebas ocupa já
o plano mais alto
no pedestal dos deuses

tudo encenado e em acto
(Oh, não falte quem engula
o oráculo e a hóstia!)

COM ÉDIPO AUSENTE
- TAL É A MISTIFICAÇÃO DA PALAVRA
(VIEIRA. p. 95)


POSFÁCIO

Para Manuel Ferreira

Num retomar constante e abandono
os poemas podem ser assim ou de outro modo
até ao infinito. Só que estes
(não importa o sangue ou seiva que a outros se foi pedir)
são bem as marcas que o estar-no-mundo e a dor
feriram numa certa pedra.
E fora outra a sorte ou talvez o lugar e o tempo
e seria diferente o livro
e a lembrança que de uma obra fica
depois de lida e entregue aos bichos.
(VIEIRA. p. 108)


SE...?

Se não houvesse
mar, nem vento,
nem flor, nem planta,
nem lar, nem gente?

E tudo o que é
deixasse de ser:
o dia e a noite,
o macho e a fêmea,
a dor e o gozo.

E as estrelas fossem
palavras sem nexo
e o tempo vazio
de vozes e gritos


Haveria Deus,
sem mais,
amando coisa nenhuma,
para si mesmo
sábio e santo.

Sonhador solitário,
sonhando que sonho?
Sem mundo, só Ele,
redondo como um zero.
(VIEIRA. p. 119)


FALA O PAPA JOÃO PAULO SEGUNDO

A voz é outra, porém a mesma,
como outrora Pedro
exortando à Fé.
Eco talvez do verbo crucificado
ou semente lançada pela mão de Saulo.

Entre a multidão que reza e canta,
Silvenius, o poeta, santo sem fé,
fica triste, estremece.
E sonha ter sido um anjo,
expulso do Céu, por ser julgar igual a Deus.
(Fragmentos. p. 26)


POEMA

Mar! Mar!
Mar! Mar!

Não o mar azul
De caravaelas ao largo
E marinheiros valentes

Não o mar de todos os ruídos
De ondas
Que estalam na praia

Não o mar salgado
Dos pássaros marinhos
De conchas
Areia
E algas do mar

Mar!

Raiva – angústia
De revolta contida

Mar!

Do não-repartido
E do sonho afrontado

Mar!

Quem sentiu mar?
(SELÓ, nº 2)


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

APA, Lívia; BARBEITOS, Arlindo; DÁSKALOS, Maria Alexandre (Orgs.). Poesia Africana de Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Lacerda Editores, 2003.

FRAGMENTOS – Revista de Letras, Arte e Cultura. Praia: Movimento Pró-Cultura. Ano IV, nos 7/8, Dezembro de 1991.

SANTILLI, Maria Aparecida. Literaturas de Língua Portuguesa: Marcos e Marcas – Cabo Verde: Ilhas do Atlântico em prosa e verso. São Paulo: Arte & Ciência, 2007.

SECCO, Carmen L. T. R. (Org.). Antologia do mar na poesia africana de língua portuguesa do século XX: Cabo Verde. Rio de Janeiro: UFRJ, Coordenação dos Cursos de Pós-Graduação em Letras Vernáculas e Setor de Literaturas Africanas de Língua Portuguesa, 1999. v.2.

SELÓ – Página dos Novíssimos (edição facsimilada). Praia: Instituto Caboverdiano do Livro e do Disco, 1990.

VIEIRA, Arménio. Poemas. Mindelo: Ilhéu, S/D.

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Moçambique e Brasil: um olhar sobre o outro?

O evento começará às 16h, dia 07/06/2009.

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Bouquet de Estrelas para Arménio Vieira, por José Luiz Tavares

Esta belíssima homenagem ao escritor Arménio Vieira, galardoado com o Prêmio Camões, foi enviada pelo poeta José Luiz Tavares. Aqui, compartilho com vocês.
Parabéns, Arménio Vieira!!!
Ricardo Riso
BOUQUET DE ESTRELAS PARA ARMÉNIO VIEIRA,

DITO CONDE, REI À NOSSA MANEIRA

Mais do que justa é a atribuição do prémio Camões ao poeta Arménio Vieira, senhor duma obra sólida, ainda que escassa. Em meio às pressões identitárias e à vociferação tribunícia, que tempos e circunstâncias impuseram a outros menos radicais na assumpção da condição criadora, Arménio Vieira soube abrir-se à universalidade estética e pensante, sem no entanto deixar de reflectir nas suas obras as atribulações existenciais e as particularidades antropológicas do ser-se caboverdiano.

Embora se possa tomar este prémio como uma reparação devida, ainda que tardia, à literatura caboverdiana, ele é, indubitavelmente, o coroar da obra daquele que dentre nós encarnava por excelência a figura e condição de poeta, e não nobilita, por atacado, toda a produção literária do arquipélago.

Talvez a pátria suspirasse por outros mais conformes aos ditames e cânones da monocultura identitária, a esses que de tanto fincar os pés perderam de vista o horizonte longínquo, como postula um dos meus grandes mestres, o irlandês Seamus Heaney neste verso, minha divisa e meu lema: «vai para além da segurança do que te é conhecido».

A ele, condor de largo voo, inolvidável coveiro da literatura gastronómica, nobre oficiante das horas salerosas do Cachito e Café Sofia, impoluto cobridor das fêmeas tresmalhadas, a ele nunca lhe foi horizonte o arrazoado folclórico-etnológico, mas o irredutível humano condensado na totalidade dos signos, onde a articulação entre reflexão e sentimento, aliada à discreta inteligência metapoética, são a afirmação extrema do que ainda nos sustém e poderemos chamar - no desconforto de um tempo de imundície terror e morte - beleza.

Lisboa, 3 de Junho de 3 de Junho de 2009
José Luiz Tavares (jltavares.poeta@gmail.com)
Fonte: e-mail gentilmente enviado por José Luíz Tavares às 13h31, dia 03 de junho de 2009.

Arménio Vieira (Cabo Verde) ganha Prêmio Camões


Poeta cabo-verdiano Arménio Vieira é o vencedor do Prêmio Camões

Nascido na Cidade da Praia, Ilha de Santiago, a 24 de Janeiro de 1941, é o primeiro escritor de Cabo Verde a ser distinguido com este prémio, no valor de 100 mil euros, criado em 1988.

Lisboa - O poeta, escritor e jornalista cabo-verdiano Arménio Vieira foi distinguido com o prémio Camões, a mais importante distinção para escritores de língua portuguesa.

Nascido na Cidade da Praia, Ilha de Santiago, a 24 de Janeiro de 1941, é o primeiro escritor de Cabo Verde a ser distinguido com este prémio, no valor de 100 mil euros, criado em 1988 por Portugal e pelo Brasil.

O seu livro "O Eleito do Sol" é considerado obra maior. Publicou no Boletim de Cabo Verde, revista Vértice, de Coimbra, em Raízes, Ponto & Vírgula e Sopinha de Alfabeto. Foi redactor no jornal Voz di Povo.

O escritor e jornalista tem entre os seus livros 'O Eleito do Sol' (1990), 'No Inferno' (1999) e 'MITOgrafias' (2006).

Em declarações à rádio TSF, o escritor mostrou-se surpreendido e comovido por ter recebido o galardão, acrescentando que quando o informaram pensou que "fosse uma brincadeira".

"Os poetas normalmente não são muito conhecidos",disse. Arménio Vieira disse receber influências literárias da China aos Estados Unidos.

A angolana Ana Paulo Tavares, especialista em literatura africana, considerou justo este prémio para um autor que inovou nas letras de Cabo Verde, quer na poesia, quer na prosa.

"Acho justíssimo não só por todo o percurso de Arménio Veira que tem um grande papel na literatura moderna" de Cabo Verde, mas também pela "proposta totalmente inovadora" que apresenta, disse a poeta angolana à rádio TSF.

Para o escritor cabo-verdiano Germano Almeida, um dos maiores poetas do arquipélago, quase todas as pessoas de Cabo Verde consideram Arménio Vieira um dos grandes poetas da região. "A poesia dele é extremamente válida", afirmou, acrescentando que Cabo Verde já tinha direito a ter um Prémio Camões.

Os últimos vencedores do Prémio Camões, instituído pelos governos português e brasileiro em 1988, foram os escritores António Lobo Antunes e João Ubaldo Ribeiro.

Fonte: http://www.africa21digital.com/noticia.kmf?cod=8516912&canal=403

II Ciclo de Colóquios-Curso Internacionais em “Literaturas Africanas de Língua Portuguesa” – 2009

II Ciclo de Colóquios-Curso Internacionais em
“Literaturas Africanas de Língua Portuguesa” – 2009
Colóquio-Curso Internacional em Literaturas de Cabo Verde,
Guiné-Bissau e São Tomé e Príncipe
Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra

19 e 20 de Junho, Sala de Seminários CES


PROGRAMA

Dia 19 de Junho
10h00
Pires Laranjeira (Universidade de Coimbra)
“A emergência do negro e do feminino literários nas pequenas comunidades crioulas”

Odete Semedo (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisa)
“Revisitar os escritos guineenses: a (re)criação de vozes na poesia e nos cantos”

12h30 Almoço

14h30
Inocência Mata (Universidade de Lisboa)
“Um laboratório de viventes: Deslocamentos, veredas, antinomias e errâncias na literatura
são-tomense”

Sílvio Renato Jorge (Universidade Federal Fluminense)
“Palavra, memória e política na poesia de Conceição Lima”

Dia 20 de Junho
10h00
Simone Caputo Gomes (Universidade de São Paulo)
“Cabo Verde e as pérolas do Atlântico: literatura e património cultural”

Joana Passos (Universidade do Minho)
“Dói-me que a folha em branco/ não exija nada”: a escrita de Dina Salústio como literatura comprometida

Livia Apa (Universidade de Napoli l’Orientale)
“Dentro/Fora Cabo Verde: escritas das diásporas caboverdianas”

12h30 Almoço

14H30
Mesa de Escritores: Conversa com Dina Salústio, Joaquim Arena, Odete Semedo e Tomaz Medeiros.

ORGANIZAÇÃO:
Margarida Calafate Ribeiro (Centro de Estudos Sociais)
Silvio Renato Jorge (Universidade Federal Fluminense)

INSCRIÇÕES:
www.ces.uc.pt/coloquios_litafricanas2/

INFORMAÇÕES:
http://www.ces.uc.pt/coloquios_litafricanas2/

Fonte: e-mail gentilmente enviado pela Sra. Helia Santos às 06:56, 03/06/2009.

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Bonfanti – o enigma da existência em obras viscerais do artista

Por Ricardo Riso
31 de maio de 2009

Uma grande retrospectiva no Paço Imperial (RJ) reúne mais de três centenas de trabalhos que cobrem quarenta anos da carreira plástica de Gianguido Bonfanti. Quando falamos do artista e professor da Escola de Artes Visuais do Parque Lage, mencionamos uma obra consistente, segura, fiel a um expressionismo voraz, poucas vezes realizado no Brasil, encontrada apenas em Iberê Camargo, o Ivan Serpa da Fase Negra ou Crepuscular e uma meia dúzia de dois ou três nomes da Geração 80 carioca ou da Casa 7 paulistana.

Como todo artista que se vale do expressionismo, o homem, com todos os seus desejos, angústias, dúvidas, perversões e anseios ocupa lugar de destaque em suas realizações plásticas, revelando um mundo de desarranjo, incerto, inquieto e devorador. É latente a presença da desilusão do homem contemporâneo, tornando sua obra atemporal e de difícil compreensão para seus pares, fato comum a artistas como Goya, Egon Schiele, Francis Bacon, Willem de Kooning, Lucien Freud, Leon Kossof, Frank Auerbach Geog Baselitz e principalmente o brasileiro Iberê Camargo. Artistas que mergulharam nas profundezas do âmago humano, desmascarando a incompreensão e a incomunicabilidade do tempo que lhes coube viver.

Esse homem em crise encontra-se em conflito no olhar do observador quando se depara com as soluções plásticas concebidas por Bonfanti. Sua gestualidade agressiva, solta, em pinceladas espaçadas e densas em total descompromisso com a forma da figuração humana e insubmissa ao contorno, exige que o espectador retire do corpo da pintura, da matéria pictórica, essa figuração e recrie-a, se necessário for, em sua mente. É nessa tensão latente, proporcionada por figuras ora fantasmagóricas, ora beiram a abstração, que a pintura de Bonfanti cresce, surpreende e se equipara aos maiores nomes da história da Arte, porque consegue extrair as sensações que desnudam as inquietações do homem, nos conduzindo à busca de nossa essência, a tentar descobrir o enigma da nossa existência.

Por isso, não há em Bonfanti preocupações com modismos, em seguir novas tendências ou experimentalismos opacos, ocos, inconsistentes, efêmeros, pois Bonfanti é fiel a si mesmo, é fiel à pintura. Sentimos verdade e entrega do artista diante de sua produção.

24.08.2005 - auto-retrato - óleo sobre tela - 40 x 35 cm*

Em um rápido resumo, vemos um Bonfanti expressando trabalhos sombrios, figuras híbridas, horríveis e surrealizantes, assustadoras como as criadas por Hieronymus Bosch ou H. R. Gigger. Retratam um período de predomínio das trevas da ditadura simbolizados plasticamente por meios em que o preto e o branco sobressaem, como o nanquim, a água-forte e a xilogravura. A cor, quando surge, revela-se como na série “Doenças Tropicais”: figuras deformadas, escatológicas, hediondas como foram aqueles anos marcados por mentes e corpos obliterados por um regime de exceção.

25.09.1979 – nanquim - 53 x 76 cm*

O início dos anos 1980 já revela uma fase de colorido intenso, exagerado, alegre, erótico e de forte figuração em diálogo com o kitsch e o fauvismo. Em alguns momentos o óleo bastante diluído lembra a aquarela, enquanto seus desenhos em pastel seco são livres e leves. Em contraste com o terror da década anterior, os anos 1980 são impregnados pela renovação dos ares trazidos pelos exilados políticos da ditadura que começam a retornar ao país em 1979, por causa da Lei da Anistia. Logo, havia uma esperança de dias melhores, uma certa euforia com o fim da ditadura, agonizante e inócua, sem razão para continuar e perpetuar seu poder opressor. O que culmina com o "retorno à pintura" e o clima festivo da mostra “Como vai você, Geração 80?” no Parque Lage e com os comícios gigantescos pelas “Diretas Já!” nas principais capitais do país, ambos em 1984.

01.10.1980 - pastel seco - 64 x 81 cm*

É no decorrer dos anos 1990 que a pintura de Bonfanti começa a adquirir linguagem própria. Sua pintura começa a ganhar em emoção e lirismo na mesma proporção em que a figura humana passa a ficar cada vez mais fragmentada, densa e tensa. Essa figuração começa a ganhar em impessoalidade devidos aos rostos despersonalizados. Com esse recurso, o artista expõe o homem coletivo, o homem comum. Há uma presença constante de um erotismo que beira a perversão, em cores escuras, em tons baixos de vermelho e azul, principalmente. Figuras próximas da abstração, brutalizadas, expressões que navegam da dor ao prazer.

Seus trabalhos recentes apresentam pinturas com pinceladas soltas, espaçadas e agressivas, que não preenchem a tela completamente, porém intensas nas áreas atingidas. Demonstram, inclusive, um paradoxo, pois se há um descompromisso com a forma, há um certo e sutil rigor em tratar a figuração humana ou o seu autorretrato. Estes são um capítulo à parte em sua obra, pois são exaustivamente trabalhados em releituras constantes, numa tensão permanente entre figura e fundo. Seus rostos diluem-se nas pinceladas, tornam-se impressões, onde ganham destaques os olhos do artista - a região de maior impacto cromático -, de massa pictórica e excessiva gestualidade.

16.01.1997 - óleo sobre tela - 150 x 190 cm*

Nas figuras atuais, elas estão isoladas, são solitárias, buscando uma interação que não se realiza no espaço pictórico. Bonfanti, com sua gestualidade demarca o espaço de incomunicabilidade, de figuras distantes, arrasadas, incompreendidas, melancólicas. Bonfanti mostra a miséria da nossa existência. Há um silêncio angustiante quase que tangível nessas obras. E não há como ficar impassível diante delas. As pinceladas são mais livres; o gestual fica mais solto, abstrato e ganha força, torna-se independente. Porém, o fundo carregado e pesado dos anos 1990 agora é tratado com certa leveza, há pequenas áreas com a presença do branco puro da tela. Bonfanti se reinventa, segue em frente, coerente com sua história, com suas influências.

20.07.2001 - óleo sobre tela - 140 x 150 cm*

Isso tudo que procuramos relatar neste texto, revela a força da trajetória de um artista que se sobrepõe à velocidade do mundo contemporâneo, pois como um sábio, Bonfanti sabe que todas as sensações que atingem o homem são as mesmas de sempre, por isso concentra-se na essência da espécie humana, de um homem em intermináveis conflitos que vive em um mundo desconfortável. É essa agonia tão bem traduzida em suas telas que traz inquietação para quem as contempla, pois é o desconforto de nossas vidas que está representado em suas pinturas. Com isso, sua obra ficará para todo o sempre, algo apenas atingido por um grupo seleto de artistas, tornando a visita a sua exposição obrigatória.

11.05.2007 - óleo sobre tela - 140 x 160 cm*


Gianguido Bonfanti fascina por trilhar e mostrar os obscuros caminhos de nossas contradições. Viver é difícil, entretanto, percorrer a sua trajetória pictórica, sentir a entrega incansável ao seu ofício reafirma a vontade de se estar vivo, mesmo que seja apenas para acompanhar a sua luta incessante com a pintura e a vida. É a consagração de um artista que busca decifrar o enigma da existência humana.


Gianguido Bonfanti – 1969/2009
Paço Imperial. Praça Quinze, 48, Centro, 2533-4407. Terça a domingo, 12h às 18h. Grátis. Até 5 de julho.



*Todas as imagens foram retiradas do site de Bonfanti: http://www.gianguidobonfanti.com

Revista África e Africanidades 6 - chamada para artigos

Prezados,

No período de 15 de maio a 15 de julho a equipe editorial da Revista África e Africanidades receberá e avaliará artigos e resenhas acadêmicos para publicação em sua 6ª edição (agosto/2009).

Para melhores informações e normas para publicação acesse www.africaeafricanidades.com

Abraços,
Ricardo Riso