quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Coleção "Retratos do Brasil Negro" (lançamento)

Coleção "Retratos do Brasil Negro" (Livraria Argumento Leblon)
08/10/2009 às 19h
Nesta noite, vários autores e homenageados se reúnem na sessão de autógrafos que enaltece a raça negra no país. Entre os convidados, estará Nei Lopes, que assina sua biografia. Ed. Summus.

SETE VENTOS (Teatro)

Vamos falar do que nós somos feitas?
“SETE VENTOS” é um monólogo teatral escrito por uma mulher a partir de várias outras mulheres. É baseado em relatos de mulheres negras e utiliza como referência o mito africano de Iansã. Traz a atuação da atriz Débora Almeida, autora e encenadora da obra, com supervisão cênica da diretora Aduni Benton.
A história contada no espetáculo é a da personagem Bárbara, uma escritora negra, filha de Iansã, que, junto ao público conta e revive as histórias das mulheres que influenciaram a sua vida.
A proposta de “SETE VENTOS” é trazer à cena personagens femininas que se identifiquem com o universo da mulher brasileira, traçando um diálogo entre a contemporaneidade e a ancestralidade. Através das relações entre essas mulheres pretendemos mostrar a influência das histórias vividas pelos nossos antepassados sobre nós e a força que adquirimos quando conhecemos e valorizamos essas histórias.


Iansã, deusa dos raios e dos ventos, é a base inspiradora de cada uma dessas personagens. Ela é a síntese da mulher contemporânea em sua luta pela independência e pela feminilidade.
Para aproximar a platéia do universo da história, escolhemos uma estética que valoriza o encontro, aproximando a atriz contadora de histórias e a platéia. Fazendo com que o público sinta-se como se estivesse na sala de uma casa, conversando com uma amiga ou revivendo os momentos em que passamos no colo de nossas mães, tias e avós, enquanto ouvimos histórias e recebemos cafuné .
SETE VENTOS é um espetáculo feminino que propõe, através da realidade e da poesia um encontro entre homens e mulheres, independente de seu grupo étnico, cultural, social e econômico.
Sinopse
A peça é um monólogo teatral baseado em depoimentos de mulheres reais e no mito de Iansã, deusa negra dos ventos, mostra Bárbara, uma escritora, que narra a sua trajetória de vida até o dia em que encontra com Iansã. Refazendo esse trajeto, ela relembra e revive fatos e encontros com algumas mulheres que a influenciaram. A atriz reveza-se entre várias personagens e as mulheres apresentadas representam algumas qualidades de Iansã. Há também música e dança.

Débora Almeida
É atriz formada pela UNI-Rio. Participou de vários espetáculos entre os anos de 1994 e 2000. Em 2001 começa a dedicar-se à cultura negra, integrando a primeira formação da Cia dos Comuns, Cia de teatro dirigida por Hilton Cobra, que tem como objetivo divulgar a cultura afro-brasileira. Junto à Cia dos Comuns participou dos espetáculos “A Roda do Mundo”(2001/2002), “Candaces- A Reconstrução do Fogo”(2003/2004- Prêmio Shell de Música) e “Bakulo- Os Bem Lembrados”, dirigidos por Marcio Meireles e “Silêncio”(2008/2009), dirigido por Hilton Cobra. Na Cia dos Comuns, Débora atua como atriz, produtora, pesquisadora e colaboradora dramatúrgica. No cinema participou dos filmes “Jogo de Cena”(2008), de Eduardo Coutinho, “Freiheit- Crimes de Ódio”(2008), de Patrícia Freitas, “Bairro Feliz”(2000), de Leonardo Copello Pirovano e Ricardo Prego e “Alma Suburbana”(2008), de Luis Claudio Lima. Na televisão participou dos programas “Sob Nova Direção”(2005), “Turma do Didi”(2001) e das novelas Caras e Bocas(2009) e Malhação(2004). Débora também dedica-se à dança afro e contemporânea desde 2001.

Ficha técnica
Texto, encenação e atuação: Débora Almeida
Supervisão Cênica: Aduni Benton
Coreografias: Gal Quaresma
Assistência Corporal: Denis Gonçalves
Trilha Sonora: Samantha Rennó e Raquel Coutinho
Iluminação: Jorge Raibott
Cenário: Derô Martim
Figurino: Jerry Fernando
Programação visual e fotografia: André Mantelli

Temporada
De 02 de outubro a 06 de novembro(excerto 23 de outubro)
Sextas-feiras às 21h
Local Teatro Gláucio Gil
Pça Cardeal Arcoverde, s/no, Copacabana, Rio de Janeiro, RJ
Duração 60 minutos
Classificação etária:16 anos
Valor do ingresso:R$10,00


Contato
Débora Almeida
Tels: 21- 9762-4313 / 21- 2256-9499
e-mail:
debora.almeidarj@yahoo.com.br
Rua Figueiredo de Magalhães, 236, apto. 201, Copacabana, Rio de Janeiro, RJ
CEP. 22031-012
http://seteventosespetaculo.blogspot.com
Fonte: e-mail enviado pela atriz Débora Almeida em 08/10/2009.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

João Melo - O homem que não tira o palito da boca (texto contracapa)

A seguir o texto da contracapa escrito pelo professor Pires Laranjeira para o quinto livro de contos de João Melo - O homem que não tira o palito da boca –, a ser publicado em Novembro, em Angola, Portugal e Moçambique.
O texto foi gentilmente enviado pelo escritor angolano João Melo em 07/10/2009.


SOMOS TODOS LOCALIZADORES

Um dos narradores deste novo livro do angolano João Melo diz que não é Maupassant, García Marquez ou Henry Miller, mas quase posso jurar que ele leu os três com prazer e proveito.
O autor usa uma linguagem magnificamente técnica, semiótica, de lógica formal e jurídica – obsessivamente perfeccionista, requintada, paranoicamente explicativa – para tratar de questiúnculas ou, pelo contrário, explicar formalmente, com uma lógica administrativa, a podridão familiar, política, económica, o quotidiano de miséria, prostituição, indecência, malfeitoria e sacanice (no Sambila e outros bairros) de pobres diabos e cidadãos abandonados pelos coevos.
Histórias de casais e traições (infidelidades) são uma das obsessões divertidas de Melo. E, depois, há o tema das raças, cores de pele, classes, mas também o do assassinato piedoso, entre tantos.
Mesmo brincando e gozando com tudo e com todos, pressente-se que disfarça o incómodo do sofrimento humano com esse riso, que, afinal, não passará de piedade compungida pelos semelhantes, mas não iguais – essa consciência da diferença social funda a auto-ironia que, afinal, é a mais funda (e disfarçada) estratégia da sua prosa cáustica, verdadeira soda agreste.
João Melo leva ao ponto de rebuçado o uso da teoria da literatura e da linguagem tecnocrata como subtexto para o humor: divertimo-nos tanto com as situações cómicas em que as personagens chafurdam quanto com os chistes semióticos dos narradores, que tratam o leitor (e a leitora) por tu.
Parece um ensaísta que perdeu o pé na ficção: dá, sempre negando que o faz, lições de moral e outras que tal, usa jargão escorreito, ficciona o ensaísmo e ensaia a escolástica. Não é para qualquer um, mas somente para um fauno das letras - como João Ubaldo Ribeiro ou Luiz Fernando Veríssimo -, que inventa a profissão de “localizador” de mulheres estrangeiras, em mais um dos seus inenarráveis tipos de caluandas.
Muita ironia – justa, amável - sobre Portugal (a “tugolândia”) ou o Brasil – esta, concupiscente e amabilíssima - e os EUA – verdadeiros bo(m)bos da festança, incluindo Bush. Sugiro, pois, que os leitores se tornem, digamos assim, “localizadores”.

Pires Laranjeira

João Melo: Crónica verdadeira da língua portuguesa

Poema gentilmente enviado pelo escritor e ensaísta angolano João Melo no dia 06/10/2009.

Crónica verdadeira da língua portuguesa

“A língua portuguesa é um troféu de guerra”
Luandino Vieira
A poetisa portuguesa
Sophia de Mello Breyner
gostava de saborear
uma a uma
todas as sílabas
do português do Brasil.

Estou a vê-la:
suave e discreta,
debruçada sobre a varanda do tempo,
o olhar estendendo-se com o mar
e a memória,
deliciando-se comovida
com o sol despudorado
ardendo
nas vogais abertas da língua,
violentando com doçura
os surdos limites
das consoantes
e ampliando-os
para lá da História.

Mas saberia ela
quem rasgou esses limites,
com o seu sangue,
a sua resistência
e a sua música?

A libertação da língua portuguesa
foi gerada nos porões
dos navios negreiros
pelos homens sofridos que,
estranhamente,
nunca deixaram de cantar,
em todas as línguas que conheciam
ou criaram
durante a tenebrosa travessia
do mar sem fim.

Desde o nosso encontro inicial,
essa língua, arrogante e
insensatamente,
foi usada contra nós:
mas nós derrotámo-la
e fizemos dela
um instrumento
para a nossa própria liberdade.

Os antigos donos da língua
pensaram, durante séculos,
que nos apagariam da sua culpada consciência
com o seu idioma brutal,
duro,
fechado sobre si mesmo,
como se nele quisessem encerrar
para todo o sempre
os inacreditáveis mundos
que se abriam à sua frente.

Esses mundos, porém,
eram demasiado vastos
para caberem nessa língua envergonhada
e esquizofrénica.

Era preciso traçar-lhe
novos horizontes.

Primeiro, então, abrimos
de par em par
as camadas dessa língua
e iluminamo-la com a nossa dor;
depois demos-lhe vida,
com a nossa alegria
e os nossos ritmos.

Nós libertámos a língua portuguesa
das amarras da opressão.

Por isso, hoje,
podemos falar todos
uns com os outros,
nessa nova língua
aberta, ensolarada e sem pecado
que a poetisa portuguesa
Sophia de Mello Breyner
julgou ter descoberto
no Brasil,
mas que um poeta angolano
reivindica
como um troféu de luta,
identidade
e criação.

02.10.09

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Cuti lança CONTOS CRESPOS na Kitábu

clique na imagem para ampliá-la.

Cadernos África e Africanidades 4, 5, 6 e 7

A seguir, os novos Cadernos África e Africanidades. Para melhores informações, acesse: http://www.africaeafricanidades.com/livraria1.html



domingo, 4 de outubro de 2009

Cuba, uma odisseia africana (documentário)

Um documentário interessante a respeito dos países africanos no Festival do Rio de Cinema: CUBA, UMA ODISSÉIA AFRICANA. Trata-se da importante contribuição cubana durante as guerras coloniais e nos primeiros passos da construção dos países africanos independentes.

Nas Literaturas Africanas de Língua Portuguesa, o escritor Ondjaki recria com apego a presença dos cubanos nos sistemas educacional e de saúde angolanos, em seus três livros publicados no Brasil: Bom dia Camarada (Agir), Os da minha rua (Língua Geral) e Avódezanove e o segredo do soviético (Cia. das Letras).

O documentário ainda terá três exibições até o final do Festival, no dia 8/10. Dias, cinemas e horários encontram-se no final do texto.

Ricardo Riso

Cuba, uma odisséia africana

"O que é importante para a unidade é a ideologia não a geografia"
Out-door monumental com Agostinho Neto, (do MPLA - Movimento Popular de Libertação de Angola, primeiro presidente de Angola e morto em 1979) e Fidel Castro (líder da revolução cubana).

Sinopse: Durante a Guerra Fria, a África tornou-se um amplo campo de disputa entre interesses conflitantes. Os soviéticos queriam expandir sua influência para um novo território, os EUA planejavam se apropriar das riquezas do continente, e os antigos impérios europeus viam seu poder colonial se dissipar. Precisando defender a independência recém adquirida, as jovens nações africanas foram buscar apoio junto à Cuba de Fidel Castro. Através de depoimentos de envolvidos, o filme lança uma perspectiva histórica pouco explorada sobre os conflitos na África na segunda metade do século XX.

Amílcar Cabral, líder do PAIGC (Partido Africano para a Independência da Guiné e de Cabo Verde, morto em 1973), e Fidel Castro.

Biografia do diretor: Nascida no Libano, realizou um mestrado em Ciência Política na Universidade Americana no Cairo. Trabalhou como correspondente política no Oriente Médio para a Reuters, a US News e a World Report. Produziu e dirigiu diversos documentários, como House of Saud, Price of Aid, The tragedy of the Great Lakes, a série Israel and the Arabs, cujo livro derivado ela também co-escreveu.

Che Guevara (símbolo da revolução cubana) e Samora Machel (FRELIMO - Frente de Libertação de Moçambique, primeiro presidente do país e morto em 1986)

Titulo Original: Cuba, une odyssée africaine
Titulo em Inglês: Cuba: an Africain Odyssey
Classificação:16
Direção: Jihan El Tahri
Montagem: Gilles Bovon
Música: Les frères Guisse
País: França / Reino Unido
Ano: 2007
Duração: 118min

Mostra: Homenagem a ARTE
Em Exibição
Terça - 06/10/2009 Estação Botafogo 3 15:15:00 hs EB368
Terça - 06/10/2009 Estação Botafogo 3 19:15:00 hs EB370
Quinta - 08/10/2009 Instituto Moreira Salles 20:00:00 hs

terça-feira, 29 de setembro de 2009

“Voar na asa da poesia” – o singelo compromisso poético de Manecas Cândido

por Ricardo Riso

“A poesia é a meta dos meus desejos” (p. 11) versa o eu lírico em um dos poemas do livro “O sentido das metáforas” (Maputo: Fundac, 2007), estreia literária do jovem poeta moçambicano Manecas Cândido. Desse verso podemos esperar um escritor compromissado com o fazer poético, pois, os poetas permanecem “intactos e submissos ao fulgor tão óbvio da palavra” (p. 9), revelando as sensações adormecidas pelas pessoas comuns porque somente os poetas com sua sensibilidade exacerbada escutam “a música das folhas que o vento transmite” (p. 33).

O lirismo percorre os quarenta poemas d’“O sentido das metáforas”. Manecas Cândido, nascido a 1 de Julho de 1979, em Quelimane, província da Zambézia (1), é representante da novíssima geração da poesia moçambicana, representada por nomes como Domi Chirongo e Sangare Okapi, seguidores de uma vertente lírica, com o predomínio de uma poesia existencialista e universal. Na trajetória literária de Moçambique, a presença da voz lírica fez-se desde os tempos do colonialismo em nomes como os de Virgílio de Lemos, Fernando Couto, Glória de Santana, Noémia de Sousa e, principalmente, Rui Knopfli. Com a guerra colonial e a posterior independência, os poetas, com razão, comprometiam-se com as causas sociais coletivas e cantavam a bravura do povo moçambicano e as glórias de um novo país. Contudo, o pleno domínio das temáticas “de combate” anestesiou os sentidos dos poetas extraindo da poesia o que há de melhor em si: a sua liberdade.

Esse panorama começa a mudar na década de 1980 com os pioneiros livros de Luís Carlos Patraquim, “Monção”, e de Mia Couto, “Raiz de Orvalho”, que resgatam o lirismo e uma poesia de cariz existencial no meio literário moçambicano. Tais características solidificam-se com a chegada de Eduardo White e o seu “Amar sobre o Índico” (1984) e os poetas lançados pela revista “Charrua” (1984), entre eles Juvenal Bucuane, Hélder Mutéia, Pedro Chissano, comprometida em desvencilhar-se dos temas guerrilheiros da poesia engajada. Para isso, seus poetas procuravam novos caminhos formais, apuro estético, uma linguagem plural, diversificada e/ou erótica, que privilegiava a força das metáforas e os anseios intimistas do homem. Rita Chaves aponta para o título da revista como fator determinante e anunciador desta mudança: “O nome Charrua aponta para essa vinculação com a terra a ser revolvida para que se aumente a sua fertilidade”.

Essa busca por outros caminhos poéticos é acompanhada por um triste período de atrocidades no país. Os anos 1980/1990 foram impregnados pela violência desmedida e irracional da guerra civil que assolou Moçambique, mergulhando-o numa aguda crise econômica e deixando a população perplexa diante de tantas atrocidades. Cândido cresceu convivendo com esse trágico cenário, ao qual o sujeito lírico recorda com amargura: “Logo que nasci / deram-me presentes / de pobreza e um País / de angústias” (p. 35). Na infância foi obrigado a conviver com as tristes notícias do “furor da guerra” que “silenciava as crianças”, “onde todos os dias as flores / gotejavam sangue / de tanta dor e morte” (p. 35). Entretanto, apesar de “já cansado / de sonhar com tristezas / que habitam o dia-a-dia” (p, 34), o sujeito lírico não se entrega, recorre à poesia, “desvelando segredos dos meus tempos / abalado de angústias, fome, terror” (p. 45) para retratar e denunciar o tempo que lhe coube viver, pois, “mesmo que me intimidem / a poesia resistirá rigorosamente / à languidez do meu corpo” (p. 13), tempo este infestado, agora, não mais pelo monstro do colonialismo ou pela guerra fratricida, mas pela corrupção desenfreada dos dirigentes do país e das pressões externas do neoliberalismo.

Contudo, o sujeito lírico é persistente, não se entrega, procura o “inadiável sonho / de canto de esperança” (p. 11), crer no poder dos poetas para “buscar o que de melhor temos” (p. 11) e faz do espaço ilimitado proporcionado pelo universo onírico o local de permanência da utopia, da esperança, contrapondo-o às adversidades do cotidiano: “O sonho integra a vida / na qual lutamos determinados / sem que nada nos refute / os anseios e a esperança” (p. 31). Metapoeticamente, confia na poesia para auxiliar o retorno dos sonhos moçambicanos, pois, somente o poema possui a qualidade de recuperar “a lembrança que a memória / não é capaz de trazer” (p. 25), memória esgarçada e dilacerada por tantos anos de sofrimento.

O apego a sua terra moçambicana, “aqui vivo fiel / à minha terra” (p. 32), remete aos poemas de Eduardo White e Luís Carlos Patraquim, e em tempos distantes, aos de Rui Knopfli, que elegeram o norte do país, mais precisamente a ilha de Moçambique como lugar matricial. O sujeito lírico de Cândido reafirma a tradição lírica moçambicana: “O teu corpo é País das maravilhas, / belo e próspero, / é terra dos meus sonhos” e também perpassa pelo norte ao citar as peculiares esculturas da etnia Maconde: “O teu corpo, amor, o teu corpo / esculpido do pau-preto / espanta o silêncio dos meus olhos” (p. 46).

Do compromisso social ao uso constante da metapoética, o sujeito lírico de Manecas Cândido propõe uma viagem alada em “palavras luzentes” (p. 13), porque sabe que a função da poesia é percorrer “com palavras mais puras” (p. 38) novos firmamentos, criar novas cores para combater o discurso da ordem estabelecida, tirar da inércia os sentidos anestesiados por tantas angústias e sofrimentos. Por isso, a fé e o compromisso com o seu trabalho e com o seu povo em “escrever um poema / que te lembre sempre a minha voz / de profunda esperança” (p. 39).

Manecas Cândido com “O sentido das metáforas”, ganhou o Prémio Rui de Noronha Revelação 2005 – FUNDAC. Ao exaltar a poesia e a própria palavra, o poeta trilha um caminho ousado, sinuoso, que exige intenso rigor com a tessitura poética. Caminho corajoso que, aguardamos, seja prolífico, conforme afirmou o poeta Armando Artur ao prefaciar a obra: “para quem está disposto a expor-se a todos os riscos que a escrita oferece, quando o propósito é procurar ser um verdadeiro e incansável marceneiro da poesia, à maneira Knophliana”.

O meu destino é voar na asa da poesia.
E do meu voo, levar a mensagem
Com as cores de esperança
Que a terra clama.

E nas alturas, pintar o céu
Exaltando o sentido das metáforas,
A razão do meu destino.
(p. 43)

NOTA:
(1) Manecas Cândido nasceu a 1 de Julho de 1979, em Quelimane, província da Zambézia. É Bacharel em Biologia pela Universidade Pedagógica. É membro efectivo da AEMO e do Núcleo dos Escritores da Zambézia. Poeta, publicou O Sentido das Metáforas (2007). Colaborou, na Rádio Moçambique, na rubrica “Sugestão de Leitura” (2004). Tem poemas publicados nos jornais “Diário de Moçambique”, “Savana” e “notícias”, nalguns casos assinados sob o pseodónimo Lu-Mundime. É Prémio Revelação Rui de Noronha – FUNDAC (2005).
Fonte: sítio da AEMO - ASSOCIAÇÃO DOS ESCRITORES MOÇAMBICANOS, acessado em 29/09/2009, http://www.aemo.org.mz/aemo/quemsomos.htm
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

CHAVES, Rita. Eduardo White: o sal da rebeldia sob ventos do Oriente na poesia moçambicana. In: SEPÚLVEDA, M. C. e SALGADO, M.T. África & Brasil: letras em laços. Rio de Janeiro: Atlântica, 2000. p. 137. APUD: SECCO, Carmen L. T. R. Paisagens, memórias e sonhos na poesia moçambicana contemporânea. In: A magia das letras africanas – ensaios escolhidos sobre as literaturas de Angola, Moçambique e alguns outros diálogos. Rio de Janeiro: ABE Graph Editora, 2003. pp. 280-305.

SECCO, Carmen L. T. R. Paisagens, memórias e sonhos na poesia moçambicana contemporânea. In: A magia das letras africanas – ensaios escolhidos sobre as literaturas de Angola, Moçambique e alguns outros diálogos. Rio de Janeiro: ABE Graph Editora, 2003. pp. 280-305.

sábado, 26 de setembro de 2009

Mário Fonseca - 12/11/1939 - 25/09/2009

Faleceu, ontem, dia 25/09, na cidade da Praia, o poeta e ensaísta cabo-verdiano Mário Fonseca. Para melhores informações, acesse http://asemana.sapo.cv/spip.php?article45774&ak=1

Foi um dos maiores defensores da independência de Cabo Verde e da autonomia do continente africano, o que foi registrado em vários de seus poemas. Coerente, sonhador, batalhador, para ele o seu “espírito estava ocupado quase que exclusivamente a nível profundo a duas coisas: política e literatura”.

Que sua alma descanse em paz e à família minha sentidas condolências.

Ricardo Riso

PARA UM CANTO VERDADEIRAMENTE HUMANO

Antepassados imortais
imortal Maiakovsky
imortal Rimbaud
imortal Camões
imortal Keats
imortal Eluard
imortal Lorca
imortal Whitmann
e vós outros
inumeradas gargantas
de onde brotam
flamejantes dardos
da consciência humana
em assembleia
plenária
aberta
a todos os gritos
a todos os ventos
nós
herdeiros
pequenos
actuais
em assembleia
plenária
aberta
a todos os sonhos
de todos os homens
é preciso
urgente
necessário

que a poesia
sol verdadeiro do nosso sistema solar
passe ao combate

é preciso urgente necessário

que a poesia
tambor rítmico do mundo
passe ao ataque
contra as bandeiras
por demais desfraldadas
da fealdade
da estupidez
da estreiteza de longos dentes

com todas as armas
com todos os gumes
da rima
do ritmo
da melodia

com todas as granadas
da mente
do coração
dos nervos

é preciso
urgente
necessário

que a poesia
farol dardejante
no litoral minado
da fraternidade
passe ao ataque
ao ataque
ao ataque

paciente
ardente
contra
as contra-guerrilhas da exclusão
de ontem
de hoje
de fora
de dentro
do homem

é preciso urgente legítimo

que a poesia
passe ao ataque
brandindo as armas que com sangue forjastes
que com suor brandimos
na rude peleja
brandindo machados de percussão minuciosa
que decepem pela raiz
as fronteiras
por demais guardadas
da fealdade
da estupidez
da estreiteza
por onde se filtram
as quintas-colunas da separação
de ontem
de hoje
de fora
de dentro
do homem

que é preciso urgente legítimo
esmagar esmagar
para sempre esmagar
com todas as armas
com todos os gumes
da rima
do ritmo
da melodia
com todas as granadas
da mente
do coração
dos nervos

para que
de pólo a pólo
da terra ao sol
o animal humano
enfim liberto
das etiquetas
passaportes
diques
da separação
da exclusão
entoe enfim
no ar enfim lavado
o primeiro canto verdadeiramente humano

(FONSECA, Mário. Se a luz é para todos. Praia: Publicom, 1988. p. 85-88)

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

João Melo e Manuel Rui na UFF/RJ

Confirmado o encontro com os escritores Manuel Rui e João Melo na UFF, na próxima terça-feira, dia 22 de setembro, às 14h, sala 218-C, no Campus Gragoatá da UFF, bloco C.

Fonte: E-mail gentilmente enviado pela Profa. Dra. Carmen Lucia Tindó Secco, em 20/09/2009.