Um espaço dedicado à literatura negro-brasileira, às literaturas africanas de língua portuguesa e demais literaturas negro-diaspóricas
segunda-feira, 23 de novembro de 2009
Filinto Elísio - Tácteis outrora (poema inédito)
esses dedos no zipper
e a curiosa geografia
de tua boca
e nos teus olhos
a janela
são vidros moídos
que gemem
corroídos também
além das braguilhas
são os adros
e a procissão de nós
(não digas a ninguém
que os Alpes
são deuses nevados)
soletrados ainda
de verbos arfantes
serás tu
por entre pernas
tuas mãos tantas
sequer as vejo
tácteis outrora...
poema inédito enviado por Filinto Elísio em 18/11/2009.
6º Festival Nacional de Teatro de Duque de Caxias, palestra Ricardo Riso

Acima a programação do 6º Festival Nacional de Teatro de Duque de Caxias, no qual ministrarei a palestra Ler para encenar: introdução às literaturas de Angola, Cabo Verde e Moçambique, terça-feira, dia 24/11, às 14h.
Ricardo Riso
Adinkra:sabedoria em símbolos africanos (livro)

sexta-feira, 20 de novembro de 2009
Cuti - Torpedo (poema) p/o Dia da Consciência Negra
Para celebrar o Dia da Consciência Negra, um poema de Cuti para as consciências ainda aprisionadas.
Ricardo Riso
torpedo
irmão, quantos minutos por dia
a tua identidade negra toma sol
nesta prisão de segurança máxima?
e o racismo em lata
quantas vezes por dia é servida a ela
como hóstia?
irmão, tua identidade negra tem direito
na solitária
a alguma assistência médica?
ouvi rumores de que ela teve febre alta
na última semana
e espasmos
– uma quase overdose de brancura –
e fiquei preocupado.
irmão, diz à tua identidade negra
que eu lhe mando um celular
para comunicar seus gemidos
e seguem também
os melhores votos de pleno restabelecimento
e de muita paciência
para suportar tão prolongada pena
de reclusão.
diz ainda que continuamos lutando
contra os projetos de lei
que instauram a pena de morte racial
e que ela não tema
ser a primeira no corredor
da injeção letal.
irmão, sem querer te forçar a nada
quando puderes
permite à tua identidade negra
respirar, por entre as mínimas grades
dessa porta de aço
um pouco de ar fresco.
sei que a cela é monitorada
24 horas por dia.
contudo, diz a ela
que alguns exercícios devem ser feitos
para que não perca completamente
a ginga
depois de cada nova sessão de tortura.
irmão, espero que esta mensagem
alcance as tuas mãos.
o carcereiro que eu subornei para te levar o presente
me pareceu honesto
e com algumas sardas de solidariedade.
irmão, sei que é difícil sobreviver
neste silencioso inferno
por isso toma cuidado
com a técnica de se fingir de morto
porque muitos abusaram
e entraram em coma
fica esperto!
e não esquece o dia da rebelião
quando a ilusão deve ir pelos ares.
um grande abraço
deste teu irmão de presídio
assinado:
zumbi dos palmares
(CUTI. Negroesia - antologia poética. Belo Horizonte: Mazza Edições, 2007. p. 92-94)
quinta-feira, 19 de novembro de 2009
Jornal A Nação (Cabo Verde) No. 116 - Arménio Vieira resenhado por Ricardo Riso
As imagens a seguir são do jornal A NAÇÃO, de Cabo Verde, Nº116 DE 19 DE NOVEMBRO DE 2009. Nesta edição, na página 14, encontra-se minha resenha crítica: Arménio Vieira – o poeta que não se corrompe.
Para quem quiser conferir a versão em .pdf do jornal, basta deixar um recado em qualquer texto do blog ou enviar e-mail para risoatelie@gmail.com
Abraços,
Ricardo Riso
Escreveu quatro livros, dois de poemas, “Poemas” (trechos citados são deste livro) e “Mitografias, e dois romances, “O eleito do sol” e “No inferno”, além de textos publicados em revistas como "Fragmentos" e "Vértice", sobretudo, em Cabo Verde.
Vieira nasceu na Praia, ilha de Santiago, em 29/01/1941. Surgiu na geração dos anos 1960, tendo participado do histórico suplemento Seló (1962). Pelo seu envolvimento na luta de libertação amargou dois anos de clausura nas cadeias da PIDE. Talvez por isso a opção por um sujeito lírico transfigurado em “touro onírico”, irônico, irreverente, libertário, indignado com os desvios éticos de seus contemporâneos: “e lá no alto, rente ao tecto / fazer chichi na presunção / de tantas bestas juntas / santos beatos e jumentos” (p. 37).
O “poeta de vento sem tempo” se compara a um gato: “o espírito de um gato / é como o canto de um poeta / – não atende nem escuta / a ordem de ninguém” (p. 30). Compromissado com seus valores e com o fazer poético, versa: “ser poeta a sério / implica uma espécie de suicídio” (p. 106). Com isso, temos um ilimitado e criativo mundo: “é pela metaforização do discurso / que se salva o pensamento” (p. 9).
Sua poesia é de forte cariz existencial, metafísico e metapoético. Na década 1970, o cantalutismo predomina e o sujeito lírico indaga seus pares com questões de liberdade existencial, como em “Didáctica Inconseguida”: “ensino-te caminhos / que não passam pela porta de ninguém / e dizes que sou louco” (p. 59).
Rompimento estético assumido e a própria dificuldade do fazer poético é desnudada em “Canto final ou agonia de uma noite infecunda” em que “a flor desfeita / não embala o coração do poeta” (p. 69). Logo, imagens corrosivas ilustram a agonia de pertencer a um “tempo devassado por insectos cor de cinza / A voz suspensa e negada / cede a vez à letra amorfa / inscrita no silêncio / Com seu peso de chumbo e olvido / acaba o poema / e um ponto final selando tudo” (p. 70).
Uma característica marcante é o uso inventivo da metalinguagem, além do seu profundo conhecimento dos cânones literários ocidentais. O sujeito lírico apropria-se da literatura grega e dos mitos greco-latinos em imagens irônicas e inusitadas, como em “Fábula de Esopo”:
Um touro, ignorante de cabeça,
mas rijo de couro e carcaça,
quis ser elefante
Engoliu vento, inflou...
e já feito imenso balão
(de meter medo à selva e ao leão)
deu um estouro e tombou
(...)
(p. 33)
Apesar do existencialismo, encontra-se a denúncia das desigualdades de seu tempo: “o tempo que perdemos atrás dos mortos / sem nunca pensarmos nos mortos que somos” (p. 27). Revolta-se com a crueldade humana: “Na face / de certos homens / tanta vez / um retrato / a plena luz / de cão perfeito / e feroz / (até espanta / não ladrarem)” (p. 31), e beira o sarcasmo em “Caviar, champanhe & fantasia” ao citar a esplanada da Cidade da Praia que “seria um oásis magnífico e fresco (...) / teria um leite mais branco / e clientes catitas e empregadas bonitas / e baixaria para uma média razoável o número de pedintes / (...) e haveria por certo uma clínica ali perto / e remédios para tudo (até para os males sem cura)” (p. 46).
Vieira apresenta uma poesia atemporal, cabo-verdiana e universal, atenta e indignada aos problemas do cotidiano e das incoerências humanas, inquietante em suas indagações existenciais e experiências estéticas. Ela é irônica, sarcástica e corrosiva. Intensa criatividade nas ressignificações das mitologias greco-romanas, nas apropriações dos cânones literários ocidentais. Vieira é coerente e fiel a sua obra, conseguindo extrair de um mundo infestado por decepções e desconforto matéria para tecer uma poesia cuidadosa, sutil e bela. Arménio Vieira, um poeta que jamais se corrompeu!
quarta-feira, 18 de novembro de 2009
A HISTÓRIA DA ÁFRICA NA EDUCAÇÃO BÁSICA, de Rosa Margarida de Carvalho Rocha (livro)

Para comprar e adaptar as propostas pedagógicas às suas aulas.
Mestre Didi - A influência da religião afro-brasileira na obra escultórica do... (livro)
Frantz Fanon - Pele Negra, Máscaras Brancas (livro)

Livro de Frantz FanonTradução de Renato da Silveira
Editora: EDUFBA
João Melo na Balada Literária (São Paulo)
19h00 – SESC Pinheiros
Rua Paes Leme, 195 - Pinheiros – Tel. 3095-9400
Um bate-papo com dois dos principais autores em língua portuguesa
MARCELO MOUTINHO [escritor carioca, organizador da antologia Dicionário Amoroso da Língua Portuguesa] conversa com JOÃO MELO [poeta, contista e jornalista angolano, vencedor do Grande Prêmio de Cultura e Artes de Angola 2009) e com JOSÉ LUÍS PEIXOTO [foto - nascido em Lisboa, escreveu, entre outros, o romance Cemitério de Pianos, com o qual é finalista do Prêmio Portugal Telecom 2009]
Fonte: http://baladaliteraria.zip.net/index.html
Literaturas Africanas de Língua Portuguesa na UNESA
Por causa dos incontáveis estereótipos e preconceitos que nossa sociedade possui acerca do continente africano, é normal que várias questões e dúvidas inquietantes incomodem os estudantes quando se deparam com os textos dos autores africanos. Por isso é justa a reivindicação dos alunos e os debates, necessários.
Aqui deixo o meu apoio nesta luta.
Ricardo Riso