terça-feira, 2 de março de 2010

POEMix - POEMAS DE NENHUM LUGAR, novo videoart de Mito

Há excelente produção de arte contemporânea em Cabo Verde, como podemos constatar no link a seguir de mais um novo e belo trabalho que une poesia, imagem e som do inquieto artista plástico cabo-verdiano Mito (Fernando Elias). Neste, o artista presta uma bela homenagem à poesia e a nomes maiores da poética das ilhas.

Ricardo Riso


POEMix - POEMAS DE NENHUM LUGAR

Poesia, imagem, corpo e ambientes sonoros
Mito Elias - Poesia, leitura, sons e vídeos

Binga de Castro - Paisagens sonoras (Música, corpo e sonorizações)
5 de Março - Sexta Feira - às 21 H - No Instituto da Língua Portuguesa
Rua Andrade Corvo - Plateau - Praia (casa cor de rosa, junto ao quartel Jaime Mota).

POEMix - é um pequeno exercício performático que abarca a poesia num conceito pluri-dimensional (palavra, vídeo, gestos e sons). O espectáculo consiste na reinterpretação de 12 poemas de vários autores Cabo Verdianos : (Alexandre Cunha, Arménio Vieira, Danny Spínola, Eurico Barros, Filinto Elísio, Jorge Carlos Fonseca, José Luíz Tavares, Mário Fonseca, Mito, Oswaldo Osório, Vadinho Velhinho e Zé di Sant'y'agu). O objectivo deste evento é procurar realçar a beleza das palavras, dos gestos, das imagens e dos sons que cada escrito sugere, para que a poesia não fique estática e empoeirada nas estantes.

Apoio : INSTITUTO INTERNACIONAL DA LÍNGUA PORTUGUESA
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www.tanboru.org/mito
http://www.youtube.com/watch?v=OrqxJJF4TwE&feature=related
www.saatchi-gallery.co.uk/yourgallery/artist_profile/Mito+Elias/23947.html

Fonte: e-mail gentilmente enviado pelo artista plástico Mito em 02/03/2010.

domingo, 28 de fevereiro de 2010

Sangare Okapi – e a revisitação do corpo literário moçambicano em “Mesmos Barcos”

Por Ricardo Riso

Agradecimento especial para Yana Campos por me presentear este livro.
O amadurecimento de um sistema literário nacional configura-se na autorreferenciação. Ele se dá a partir do momento que seus escritores privilegiam o passado sedimentado pelo chão das letras de um determinado país até atingir a contemporaneidade. Convém salientar que esse processo não foi conquistado com simplicidade entre os países colonizados, que sofreram com a assimilação e todas as formas de repressão às manifestações autóctones.

Moçambique vivenciou a terrível noite colonial até a independência em 1975. Embora com toda a violência da ditadura salazarista e a indefectível mentira do império ultramarino, seus poetas procuraram desconstruir os cânones impostos pelo colonizador europeu enaltecendo, através do verbo poético, o chão moçambicano e a pluralidade étnica. Logo, são longevas as posturas literárias contrárias ao referencial português em nomes, somente para citar alguns, como os de Rui Knopfli, Noemia de Sousa, José Craveirinha, Virgílio de Lemos, Fernando Couto e, nos primórdios, no século XIX, Campos Oliveira.

A partir de um Índico hibridizado, confluente oriente/ocidente, denota-se a busca identitária. Recorremos à Ana Mafalda Leite, com a lucidez peculiar, a inferir sobre esta mistura: “Ser moçambicano (...) equivale a partilhar culturas e origens diversificadas, que confluem no Índico, e em terra moçambicana se entroncam, renascidos, bantuizados, travejados de uma memória, que a viagem e a história refundem, em iniciático baptismo, na nova nação” (LEITE, 2003, p. 155). A palavra poética em fruição erótica, metafórica e, às vezes, surrealizante, atuava como força motriz para apaziguar o dilaceramento acarretado pelos sonhos suprimidos e as injustiças cometidas no cotidiano.

Esses escritores valeram-se de um profundo lirismo e de poemas com exacerbado cariz existencial para confrontar o absurdo da perversidade colonial, fazendo da Ilha de Moçambique e do mar, precisamente sua porção índica, o lugar de reconfiguração dos sentidos e - por que não? - da História, elaborando uma mítica memória da qual a literatura se apropria, e que seria retomada pela geração surgida nos anos 1980. Para Ana Mafalda Leite,

“o processo de mitificação literário da Ilha de Moçambique, tem vindo a ser actualizado, e amplificado, nos últimos anos, com maior insistência na obra de vários autores, concretizando percursos alternativos a uma poética militante, e de cariz ideológico, conferindo uma outra amplitude aos imaginários poéticos, e actualizando uma ‘herança’ e tradição literárias, muito antigas.” (LEITE, 2003, p. 137)

Entretanto, na trajetória literária moçambicana houve um hiato dessa vertente, explicado pela urgência do momento histórico dos anos 1960/1970 imposto pela guerra colonial e do posterior “cantalutismo” para a nação independente, época que presenciou a participação ativa dos escritores com seus poemas unindo e convocando os moçambicanos para a luta, e, em seguida, cantar as loas que a revolução traria para o país em construção.

Essa temática engessada e a rara diversidade estética e formal vivenciariam o seu ocaso já no raiar dos anos 1980 com Luís Carlos Patraquim e Mia Couto, que recuperavam o lirismo em um profundo existencialismo nas obras “Monção” (1982) e “Raiz de Orvalho” (1983), respectivamente. Isso seria solidificado com a estreia de Eduardo White e o seu “Amar sobre o Índico” (1984), além da publicação da revista “Charrua” (1984) e do surgimento de nomes como Nelson Saúte e Armando Artur. Desde então, a navegação lírica pelos mares do Índico fez-se constante, e a geração da década de 1980 se tornou referência para os jovens escritores surgidos na década inicial do século XXI.

Assim, chegamos a Sangare Okapi e ao seu livro “Mesmos Barcos ou poemas de revisitação do corpo” (Maputo: Associação dos Escritores Moçambicanos, 2007), que assume esse legado e participa desse “palimpsesto literário” (expressão alcunhada por Ana Mafalda Leite) com o uso de dedicatórias, recriações de títulos, transcrições de versos etc. Tudo na mais pura tradição poética do seu país. Ainda consta na capa do livro uma bela pintura do celebrado Malangatana Valente, "Olhar Erótico".

Sangare Okapi é bacharel em Ensino de Português, membro efetivo e da direção da AEMO – Associação de Escritores Moçambicanos. Publicou, em 2005, “Inventário de Angústias ou Apoetose do Nada”. Está representado na revista brasileira “Poesia Sempre” (2007). Co-produziu e encenou a peça “Pereto de Onti”, distinguida com mérito no Festival Regional de Teatro Amador Zona Sul, organizado pela Casa da Cultura do Alto-Maé (1996). Em 2007, participou, em representação de Moçambique, no XII Festival de Poesia de Havana, dedicado a África e Caraíbas. Prêmio Revelação de Poesia AEMO/ICA (2004) e Menção Honrosa do Prémio Revelação Rui de Noronha/FUNDAC (2002). (1)

Temos um livro conduzido pelas vagas metapoéticas de Okapi, que segue e procura reformular as “indicidades” surgidas na poesia de seus antecessores. No alargamento dos sentidos referentes à Ilha de Moçambique, lugar matricial, e no aprofundamento metafórico do Índico múltiplo cultural e erotizado.

O livro é dividido por três cadernos. O primeiro apresenta o maior número de poemas, alguma variedade formal, em tímido referencial concretista, grande quantidade de citações de autores moçambicanos, mas que ainda encontra espaço para homenagear o português de nascimento, cabo-verdiano por opção, Manuel Ferreira, em que o sujeito lírico apropria-se de temas caros à literatura do arquipélago como a angústia em relação ao mar,, “livrai-me desta solidão / do mar” (p. 23). Apresenta o dilema do ilhéu e intertextualiza o poema ao prestar uma justa homenagem ao clássico romance “Flagelados do Vento Leste” de Manuel Lopes, que são reconstruídos com delicadeza: “oh sem ser / flagelado de algum vento leste / vontade de partir / partir de vontade” (p. 23)

Dessas dedicatórias, há um poeta não que poderia deixar de constar quando se versa sobre o Índico e a Ilha de Moçambique. O nome de Rui Knopfli, nesse caso, impõe-se naturalmente. O seu livro “A Ilha de Próspero”, segundo Leite, é o que “se faz primeira, e mais consistente revisitação, do espaço ilhéu, em termos literários e artísticos, enquanto percurso de indagação de uma memória histórica e cultural” (LEITE, p. 139). O final do poema “Mossuril” de Okapi remetem-nos à “Ilha Dourada” de Knopfli, que seguem abaixo, respectivamente:
fechada
toda de agrura

alguma
amargura
em si trancada

todo o amor
e mar

é sal e lágrima
no poema. (OKAPI, p. 24)


A fortaleza mergulha no mar
os cansados flancos
e sonha com impossíveis
naves moiras.
Tudo mais são ruas prisioneiras
e casas velhas a mirar o tédio.
As gentes calam na voz
uma vontade antiga de lágrimas
e um riquexó de sono
desce a Travessa da Amizade
Em pleno dia claro
vejo-te adormecer na distância,
Ilha de Moçambique,
e faço-te estes versos
de sal e esquecimento. (SECCO, p. 91)

Um profundo lirismo existencial revela-se no poema “Língua: ilha ou corpo?”, dedicado àquele que contribuiu da melhor maneira a relação com o mar, Virgílio de Lemos. Neste, a metapoética a favor da ressignificação dos sentimentos em imagens que se diluem entre a geografia física e do corpo em eruptiva criação poética:

A língua
é o pão que fermento
os dias todos.

Com ela (re)invento,
meço outros ângulos
do sentimento.
(...)

Eis o que sou: ilha
ou corpo cercado
de gente
por todos os lados. (p. 20)

A nova geração da literatura moçambicana também é representada no poema “Insular”, valorizador da presença feminina As escritoras Maria João Hunguana e Sandra Salete são reverenciadas em um poema carregado de erotismo, não só do corpo mas do próprio verbo poético transitante entre o corpo, o mar em direção ao oriente e a poesia: “(...) Mar azul / branco é o papel / sem a margem / do teu busto // Lanço as redes, que são as letras // no arremesso / do papel a cabeceira / começo. // Transporto outro poema / para o oriente do corpo.” (p. 18)

Embora as dedicatórias sucedam-se e outros poetas são celebrados nos poemas de Okapi, tais como Heliodoro Baptista, Guita Jr., Gulamo Khan, Eugénio Lisboa etc., o maior tributo se dá no poema “Patraquimmiana”, no qual Sangare homenageia dois nomes consagrados da poesia moçambicana: Luís Carlos Patraquim, que é citado no título, enquanto o corpo do poema direciona-se ao poeta maior do país, o Velho Cravo José Craveirinha:
Para J. C.
Não sei com que estranha miragem. Confesso.
Meu lírico cartomante das noitadas pela Mafalala!
Sim, agora que o medo já não puxa lustro na cidade. Velho Zé,
Livre e limpo da morte, regressas pelos carris da memória,
mãos aninhadas nos bolsos rotos. A mesma cartola preta,
Amarrada ao vento e um pássaro que já não cabe no verso
Preso no lembo da língua, desmentem o teu estatuto
De cidadão do futuro e regressas, velho Zé!
Nenhuma epopeia trazida dos escombros se levanta do rosto,
Nenhuma elegia brota do coração, nenhuma!
E regressas, velho Zé, poeta em todas as latitudes!... (p. 39)

Seguindo o palimpsesto literário moçambicano, este poema de Okapi inspira-se no “Drummondiana” de Patraquim, publicado no livro “Vinte e tal Novas Formulações e uma Elegia Carnívora”. Patraquim presta tributo ao poeta referencial Carlos Drummond de Andrade e o dedica a um conterrâneo, Gulamo Khan. Já Okapi no seu projeto de revisitar a literatura de Moçambique em seu livro, não recorre a referenciais brasileiros como fez o seu inspirador, pois o jovem poeta é de um tempo em que a literatura de seu país já sedimentou seu caminho e criou suas próprias referências metapoéticas, assim sendo, os escritores estrangeiros deixaram de ser uma necessidade primeira, o que não queremos dizer que seja uma forma de menosprezar toda uma tradição literária universal, mas, sim, o amadurecimento literário de um jovem país.

Mas é no conjunto de poemas reunidos na segunda parte do livro, intitulada “Mesmos barcos”, que se explicita a referência a Patraquim e aos poemas integrantes de “Barcos elementares” do livro supracitado. Também podemos, de certa maneira pelo forte intimismo presente em Okapi, estender a referência a Eduardo White. Priorizando poemas em prosa, o sujeito lírico de Sangare Okapi utiliza metáforas dissonantes e imagens insólitas que confundem os sentidos do leitor para descrever a linha tênue erotizante entre mulher, corpo e poesia:

Por isso, reinvento-te no meu poema como em Gizé, o antílope na argila. E não me canso. Repito, apenas: esquece o tempo. O tempo. A razão. Apaga a cicatriz na epiderme e um escorpião com os dentes esmaga. Leva na boca, ensanguentada, uma alga verde, verde o sonho da criança que não sonhou para viver. Como um barco, sem porto, eriça a sensível vela do corpo e, frágil, o coração nos sirva de bússola:
os remos dispensa,
temos as mãos
para a navegação. (p. 43)

A navegação se faz pela magia ilimitada da palavra poética. As imagens viscerais, “escorpião com os dentes esmaga”, são entrecruzadas por uma escrita pausada a buscar o amor e a trilhar a mesma “ponte antiga” entre os seus antecessores literários: “Se entre mim e ti há uma ponte antiga que nos deflaga o desejo, a irreprimível geografia do afecto” (p. 44). O existencialismo é acompanhado, assim como na poesia de Patraquim e Eduardo White, pelo olhar sensível de Okapi que se revela atento às incertezas do seu país: “há um pequeno país / no meu país: / chama-se angústia” (p. 44).

A erotização desenfreada dos sentidos revela-se no corpo do poema e no corpo feminino vinculado à Ilha e ao índico hibridizado, em “urni e sarris”:

Hoje, quase que instintiva e furtivamente, revisito-te. Exposta silhueta de mulher, na textura índica, esperando o tempo. Em Mossuril, preso o marisco na rede. Posso, agora, sem receio algum, vociferar no poema: amo-te! Amo-te as curvas, não sei que perigo ou mistério, a serena música das dunas no peito, romaria em alguma boca explodindo, ou então, a alga na bexiga se multiplicando. Olha a água, agora à nossa volta! A vertigem!?! Em ti, barco sem destino, nu me acoito inteiro e,
se remar-te é engano,
provável é agora
rimarmo-nos. (p. 45)

Assim, valendo-se da retomada lírica dos poetas moçambicanos a recuperar a Ilha de Moçambique como lugar matricial e de entrocamento de culturas diversas, tendo em Luís Carlos Patraquim e Eduardo White alguns dos maiores expoentes dessa vertente, destacamos excertos desses escritores os quais são, em nosso entendimento, inspiradores para a escrita de Sangare Okapi e, com isso, ter seu nome incluído no palimpsesto literário moçambicano aqui proposto:

Ilha, corpo, mulher. Ilha, encantamento. Primeiro tema para cantar. Primeira aproximação para ver-te, na carne cansada da fortaleza ida, na rugosidade hirta do casario decrépito, a pensar memórias, escravos, coral e açafrão. Minha ilha/vulva de fogo e pedra no Índico esquecida. Circum-navego-te, dos crespos cabelos da rocha ao ventre arfante e esculturo-te de azul e sol. Tu, solto colmo o oriente, para sempre de ti exilada.
Foste uma vez a sumptuosidade mercantil, cortesão impossível roçagando-se nas paredes altas dos palácios. Sobre a flor árabe e excisão esboçada com nomes de longe. São Paulo. Fadário quinhentista de “armas e varões assinalados”. São Paulo e rastilho do evangelho nas bombardas dos galeões. São Paulo rosa, ébano, sangue, tinir de cristais, gibões e espadas, arfar de vozes nas alcovas efémeras. Nas ranhuras deste empedrado com torre a escandir lamentos dormirão os fantasmas? Almas minhas de panos e missangas gentis, quem vos partiu o parto em tijolo ficado e envelhecido?
Ilha, capulana estampada de soldados e morte. Ilha elegíaca nos monumentos. Porta-aviões de agoirentos corvos na encruzilhada das monções. De oriente a oriente flagelaste o interior da terra. De Callicut a Lisboa a lança que o vento lascivo trilhou em nocturnos, espamódicos duelos e a dúvida retraduzindo-se agora entre campanário e minarete. Muezzin alcandorado, inconquistável.
Porque ao princípio era o mar e a ilha. Sinbas e Ulisses. Xerazzade e Penélope. Nomes sobre nomes. Língua de línguas em Macua matriciadas. (PATRAQUIM. p. 41-42)

Sou ao Norte a minha Ilha, os sinais e as sedas que ali se trocaram e nessa beleza busco-te e para mim algum percurso, alguma linguagem submarina e pulsional, busco-te por entre as negras enroladas em suas capulanas arrepiadas, altas, magras, frágeis e belas como as missangas e vejo-te pelos seus absurdos olhos azuis. Que viagens eu viajo, meu amor, para tocar-te esses búzios, esses peixes vulneráveis que são as tuas mãos e também como me sonho de turbantes e filigranas e uma navalha que arredondada já não mata, e minhas oferendas de Java ouros e frutos incensos e volúpia.
Quero chegar à tua praia diáfano como um deus, com a música rude e nua do corno de uma palave, um séquito ajawa, um curandeiro macua, uma mulher que dance uma Índia tão distante, e um monge birmanês, clandestino no tempo, que sobre nós se sente e pense. Amo-te sem recusas e o meu amor é esta fortaleza, esta Ilha encantada, estas memórias sobre as paredes e ninguém sabe deste pangaio que a Norte e na Ilha traz um amante inconfortado. Em tudo habita ainda a tua imagem, o m’shiro purificado da tua beleza e das tuas sedes, a rosa dos ventos, o sextante dos tempos, em tudo acordas de repente como se ardesse naus, garças, águas, ouros, pratas, vagas, escravos ausentes, tudo o que esta Ilha que sou ao Norte nos pode lembrar. Deito-me, assim, sobre o Sol com a praia funda em meu pensamento. (WHITE, p. 24-27)

O derradeiro poema de “Mesmos Barcos ou poemas de revisitação do corpo” presta uma justa homenagem ao poeta primeiro de Moçambique, pioneiro no versejar da Ilha, o oitocentista Campos Oliveira. Neste poema, “O Barco Encalhado”, único na última parte, o sujeito lírico demonstra as culturas sobrepostas que aportaram no decorrer dos séculos na Ilha de Moçambique, idealizando uma nova cultura hibridizada. Além disso, há a crítica ferrenha à triste pilhagem realizada pelos portugueses:

(...) Resgatasse o Índico o que do oriente com o tempo soube sufragar.
Os barcos todos com as velas hirtas e as gentes.
Suas as pérolas mais os rubis. O aljôfar. Luzindo no ar.
Minha fracturada chávena árabe persa na cal
ou resplandecente a missanga cravada no ventre d’água,
qual sinal dos que de além mar chegaram
e partiram com baús fartos...
Fobia dos que ficamos. Mas herdeiros. (p. 49)

Ao retomar de forma criativa a metapoética inspiração índica e da Ilha de Moçambique em seu livro, Sangare Okapi mostra o quanto ainda é ilimitado versar a partir desses referenciais, e insere-se com louvor na tradição literária do seu país, mostrando o vigor da novíssima geração. Inferimos que a vocação palimpséstica de “Mesmos Barcos ou poemas de revisitação do corpo” manifesta a maturidade da literatura moçambicana ao revisitar o seu corpo ainda jovem, com um vasto caminho a ser sedimentado pelos poetas. E Sangare Okapi fará parte dessa trajetória e dessa história. É um nome que veio para ficar.

NOTA:
(1) Informações extraídas do sítio da AEMO - Associação dos Escritores Moçambicano - http://www.aemo.org.mz/aemo/quemsomos.htm - Acessado em 26/02/2010.

REFERÊNCIAIS BIBLIOGRÁFICAS:
LEITE, Ana Mafalda. A reescrita de Caliban sobre a Ilha de Próspero: notas em torno da actualização de um mito de origem cultural. In: Literaturas Africanas e Formulações Pós-Coloniais. Lisboa: Colibri, 203. p. 135-144.

LEITE, Ana Mafalda. Poéticas do Imaginário Elemental na Poesia Moçambicana: entre mar... e céu. In: Literaturas Africanas e Formulações Pós-Coloniais. Lisboa: Colibri, 203. p. 153-160.

OKAPI, Sangare. Mesmos Barcos ou poemas de revisitação do corpo. Maputo: Associação dos Escritores Moçambicanos, 2007.

PATRAQUIM, Luís Carlos. Os barcos elementares. In: Vinte e tal Novas Formulações e uma Elegia Carnívora. Lisboa: ALAC, 1991. p. 41-42.

SECCO, Carmen Lucia Tindó. Antologia do mar na poesia africana de língua portuguesa do século XX – volume II: Moçambique, São Tomé e Príncipe, Guiné-Bissau. Rio de Janeiro: UFRJ, 1999.

WHITE, Eduardo. Os materiais do amor seguido de O desafio da tristeza. Lisboa: Caminho, 1997. p. 24-27.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Tchalê Figueira - Ilha Jazz, exposição de pintura


i.gallery – Livraria Nhô Eugénio

Achada Santo António, Cidade da Praia – Cabo Verde
De 4 a 31 de março de 2010

Tchalê Figueira é uma criança gigante que pinta “bitchins” e “gongons”. Alguém que colore um livro de histórias sem figuras nem contornos. Labirintos que só perceberemos quando chegamos à idade do entendimento. Tchalê é a criança “terrible” que dialoga com cada personagem da Rua de Praia, que conhece cada criatura do seu Mindelo, que fantasia com todo o feminino do universo. Menino traquinas capaz de pronunciar todas as palavras, de eliminar a ideia do proibido, trazer toda a intimidade da porno-grafia quotidiana e normaliza-la. Mestre de monstros velhíssimos, perversíssimos. Indomáveis. Ele próprio assim.

Em tempos pintou com todas as cores, baralhando os sentidos de quem quer ler. Desestabilizando o concreto e a normalidade de quem apenas aspira a uma arte sem rebelião. Tchalê é o contrário da norma, na linha narrativa da sua geração de artistas em Cabo Verde. Construiu uma grafia e um vocabulário único. Deu ao cabo-verdiano um novo rosto, um corpo em constante mutação. Somos todos “bitchins” e “gongons”, somos todos coloridos e secretos, temos todos a nossa nudez. Em algum momento. A todo o momento. De corpo e de alma. E cheiramos a corpo e a suor. Às vezes fantasiamo-nos e brincamos a todos os carnavais fora de época. Quando amamos, vivemos ou simplesmente andamos pelo universo fora. Num exercício de extrema condensação, de concisa minúcia tem experimentado composições sobre o negro, breves matizes de cor num cosmos sintetizado pelo traço, pela essência da composição como regra da arte, de consciência e da vida.

Para esta exposição Tchalê regressa às cores, em desafio às “Flores do mal” de Baudelaire. Pretexto, por outro lado, para compreender que o imaginário de Tchalê Figueira não cabe apenas na Rua da Praia, na “Morada”, no Mindelo, no arco, na ilha, nas ilhas, no Atlântico. Tchalê é herdeiro de uma tradição universal que vai não só dos pais espirituais da beat generation, por isso de Jack Kerouac, Henry Miller, Norman Mailer, William S. Burroughs, Kenneth Rexroth e da beatnik poetry (Allen Ginsberg, Gregory Corso, Lawrence Ferlinghetti, Gary Snyder), mas também de Charles Bukowski, Fiódor Dostoiévski, Juan Rulfo, Carlos Fuentes, Júlio Cortazar, Borges, Pessoa, Rainer Maria Rilke, Arménio Vieira e toda a poesia surrealista francesa.

A aparente simplicidade das obras de Tchalê Figueira é a mais apurada denúncia da complexa panóplia de linguagens e influências que compõem o percurso deste que é provavelmente o mais consagrado artista plástico cabo-verdiano da actualidade.

Texto de Abraão Vicente

Eme Nguimba - blog do escritor angolano Nguimba Ngola

Eme Nguimba - http://nguimbangola.blogspot.com/ - é o nome do blog do escritor angolano Nguimba Ngola (pseudônimo de Isalino Nguimba da Cruz Augusto), que fez sua estreia literária com "Mátria", editado pela Arteviva, Edições e Eventos Culturais.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

João Tala – A vitória é uma ilusão de filósofos e de loucos (resenha)


Por Ricardo Riso

Possuidor de uma poesia marcada pelas imagens insólitas, virulentas e surpreendentes, de um labor estético-poético acurado e inovador na desarticulação da sintaxe e na ampliação semântica no decorrer dos versos impactantes, prenhe ressignificador dos sentidos em sinestésicas metáforas surrealizantes de poemas que recusam os superficiais e acomodados caminhos da fácil compreensão. Uma poesia que desestrutura, por isso causa admiração, torna sua leitura prazerosa e reveladora dos rumos seguidos pelo sujeito poético. Assim é a poesia para quem procura lapidar a palavra poética com esmero. Assim é a poesia de João Tala.

Este jovem escritor nasceu em Malanje, Angola, em 19 de Dezembro de 1959, iniciou suas atividades literárias na década de 80, quando morava em Huambo e fazia o serviço militar. Nessa época, fundou a Brigada Jovem de Literatura Alda Lara e entrou na Faculdade de Medicina. Como médico, trabalhou na Lunda Norte e em Luanda.

Representante da geração dos anos 1990, Tala logo obteve admiração no meio literário angolano com o seu primeiro livro, “A forma dos desejos” (1997), merecedor do Prémio Primeiro Livro da União dos Escritores Angolanos daquele ano. O arrebatamento de sua obra inicial fez com que José Luis Mendonça declarasse: “"A forma dos desejos", veio impor novas exigências à mesa de leitura em relação aos novos autores. Uma das exigências será o critério de qualidade estético-literário. Para o referido poeta, esse livro, possui todos os ingredientes que compõem a obra verdadeiramente literária: a ousadia da mensagem, a imagética surrealista e vanguardista que procura superar o já criado, ou pelo menos, ser diferente trazendo algo de novo, a elaboração conceptual dentro dum diversificado figurino”. (1)

Tamanha empolgação que poderia ter sido contaminada pela precipitação, foi consolidada no livro seguinte, “O gosto da semente”, recebedor da menção honrosa do prêmio literário Sagrada Esperança/2000. O poeta João Maimona considera João Tala "como uma das mais importantes revelações da década de 90. Uma voz que nos deixa, um aviso de que a poesia angolana é uma paisagem com diversidade e infinidade de caminho. Faz parte da comunidade de jovens autores que, no limiar da década de 80, procuravam, com rigor, pesquisa e talento, seleccionar, agrupar e combinar palavras que pudessem servir a arte através da literatura. Uma das mais importantes revelações da década de 90. Uma voz que nos deixa, um aviso de que a poesia angolana é uma paisagem com diversidade e infinidade de caminho". (2)

A partir daí, referendado pelas elogiosas críticas, cada lançamento de Tala passou a ser aguardado com intensa expectativa. Assim o foi com “A forma dos desejos II” (2003), “Lugar Assim” (2004 – já recenseado neste blog) (3) e com “A vitória é uma ilusão de filósofos e de loucos” (2005), que será o objeto deste texto. Além das muito bem sucedidas incursões na prosa, tendo publicado dois livros de contos: “Os dias e os tumultos” (2005) e “Surreambulando” (2007). Todos os livros sob a chancela da União dos Escritores Angolanos, exceto “O gasto da semente”, editado pela INIC.

A partir do livro “O som e a fúria” de William Faulkner, João Tala utilizou um excerto como epígrafe de onde extraiu o título do seu livro: “A vitória é uma ilusão de filósofos e de loucos”. A desesperança do título remete-nos ao triste período crepuscular dominante durante a guerra civil angolana, encerrada em 2002, e posterior à longa noite colonial terminada com a conquista da independência em 1975. Portanto, as feridas profundas da guerra findada recentemente ainda não estão cicatrizadas, os estilhaços deixados na sociedade e na memória do sujeito poético procuram ser reconstituídos pelo Verbo, a força maior para suportar e tentar reconfigurar os sentidos do ser e, por conseguinte, do coletivo e do país.

Este poemário está dividido em três cadernos, o primeiro caderno “Caminhos, Abismos e Trincheiras” apresenta imagens corrosivas de um sujeito poético dilacerado pelas cruéis lembranças do passado recente de Angola:

Está aqui a nossa vitória
está o medo que nos protege. (...)

Estávamos escondidos quando os tambores
anunciaram a folha desprendida da morte.
Saímos do próprio imaginário em busca da terra.
Logo à chegada replantámos os suspiros
e cada dia seria menos uma pátria entrincheirada
cada dia é um homem vivo.
Há-de ter o húmus a humidade carnal
do grito em nossos ventres. (TALA, p. 11)

Apesar de viver tempos de paz, a proximidade temporal expõe as feridas ainda abertas na memória individual e coletiva. O exercício poético passa a auxiliar a reconstrução do sujeito e do próprio país ao não deixar que as absurdas marcas do passado se percam no esquecimento. É a poesia na sua vocação natural de vanguarda, rebatendo a história oficial com a força do Verbo:

O meu caminho é mesmo este que a tropa
incendiou;
é um esquecimento afastado dos ouvidos
como encontrei o passado negado pela vida.
o meu caminho é a história amendrontada
os passos que explicam explosões (...)

o meu caminho vai e vem, lá chegarei
mesmo de muletas
cantando o esquecimento desconstruindo
a história
como um cobarde vivo no meio de tanta
raiva. (TALA, p. 16)

A necessária preocupação em denunciar as mazelas impostas e as ilusões transmitidas ao povo angolano são tratadas com rispidez pelo sujeito poético, que busca combater o desencanto, a desorientação e a memória fragmentada de seus pares:

Em fuga o povo reúne os seus passos e caminha
para os lugares perpétuos.
Mas o caminho são as perguntas: é para que vamos. (...)
Os nossos passos encontraram um edifício erguido
nos comícios. Um lugar de mentiras.
Os nossos corpos palpitavam ainda os números do
salário: pagavam-nos para sofrer.
E os mais breves algarismos da memória
quem ainda os acha, quem? (...) (TALA, p. 13)

A desordem dos sentidos do sujeito poético inspira o uso extremo da sinestesia – “o paladar abandonado / em mãos vazias cheias de luzes / com a vida encolhida num / suspiro” (TALA, p. 23) – para retratar o caos dos tempos idos de tumultos, que permanecerão intocados na memória coletiva, infelizmente.

Os rumores edificaram o medo
cantamos a urgência dos lugares.
Encheram-nos as pupilas de palavras
amendrontadas;
Edificaram-nos também os passos
com as botas sobre a Aldeia.
Agora um país tem as têmporas a arder
de nossos medos
mas é apenas a memória dos tumultos. (TALA, p. 27)

A insensibilidade da guerra e o desprezo à vida humana fazem do caos a ordem estabelecida, o estado de topor do sujeito poético assemelha-se ao do país: “um homem sem nada / um país em chamas nos meus / nervos” (TALA, p. 23). A insensatez prevalece, justifica-se o impossível e ceifa-se vidas de maneira indiscriminada, o que é repudiado pelo sujeito poético: “porque o terror tem de ‘libertar’ os homens, dizem, / vejam lá o que é isto!” (TALA, p. 27). Em uma época que “a palavra humana era um gemido”, o desgaste com a vida e com o caminho tortuoso do país revela-se:

estou indignado com a guerra das palavras;
estou alucinado com os versos do pouco;
estou de febre cerebralmente distante.
disseram que as palavras são antigas promessas
e não é correcto ouvir o que a morte diz de novo;
eu canto a fadiga canto pequenas coisas
porque estou distante e as coisas estão mudas. (TALA, p. 19)

No caderno seguinte, “Neste lugar nocturno dormem as mulheres”, explora-se o erotismo e o fazer poético entremeados pela amargura do tempo vivenciado, “porque tudo envelheceu. / Envelheceram as mãos injustiçadas e / a forma das paixões” (TALA, p. 40).

Valendo-se de várias referências bíblicas, o sujeito poético busca recompor o que ficou pelos caminhos em “O paraíso nós o perdemos em busca do corpo”:

Dos teus medos desliza a serpente nativa (...)
e o seu rasto cega-nos.

Neste pasto cheguei depois de ti
e já o mundo perdido, amava. (...)

Os frutos insaciáveis repartidos em nós
e o hino húmido de palavras que nos excitam
são palavras desafortunadas,
comemo-las e fenecemos.

O paraíso era apenas uma ideia
que ainda nos deixa de bocas aguadas.
Por agora busque-me, contigo moverei
a serpente nativa. (TALA, p. 41)

A desorganização de anos de esfacelamento e caos transfere-se para os versos que cantam o corpo em orgiástico delírio da palavra:

quem desarruma o meu ritmo em teu corpo?
quem dessa revolução obstétrica
retira os sentimentos da palavra estética
e da palavra terapêutica reutiliza a
frase encorpada d(o) amor evoluído? quem? (TALA, p. 51)

O derradeiro caderno deste inquietante livro mostra o comprometimento do sujeito poético com o continente africano e demonstra seu desconforto com os séculos de expropriação das riquezas feito pelos europeus: “mas da negação da negação / o velho cede ao novo o espaço gasto / de palavras européias / com que um homem desenraizado / nomeia a morte da África” (TALA, p. 57).

A travessia por vezes corrosiva dos viscerais poemas de “A vitória é uma ilusão de filósofos e loucos” irrompe imagens violentas aos olhos do leitor, que revelam um poeta maduro em sua tessitura textual. A subversão criativa da linguagem procura recompor os escombros, apontar uma trilha para reconstrução individual e coletiva, busca através da palavra poética exorcizar os traumas psicológicos e recomeçar um novo caminho para a tão atribulada história do país. Este livro de João Tala confirma a diversidade estética da poesia contemporânea angolana, sendo um marco na produção literária do pós-guerra, quiçá, na história literária angolana.

recolho da época devastada agora uma aura
cheguei dos rumores para o paraíso húmido
o meu catecismo é a bruma onde a língua
explode de paixões
cheguei, homem da festa, carrego orvalhos
onde findaram as explosões. (TALA, p. 20)
 
 
TALA, João. A vitória é uma ilusão de filósofos e de loucos. Luanda: União dos Escritores Angolanos, 2005.
 
NOTAS
1 - extraído do sítio da União dos Escritores Angolanos < http://www.ueangola.com/index.php/bio-quem/item/69-joão-tala.html > Acessado em 22/02/2010.
2 - extraído do sítio da União dos Escritores Angolanos < http://www.ueangola.com/index.php/bio-quem/item/69-joão-tala.html > Acessado em 22/02/2010.

Onésimo Silveira – poesia como testemunha do seu tempo (Jornal A NAÇÃO 130 - 25/02/2010)



Onésimo Silveira – poesia como testemunha do seu tempo*
Por Ricardo Riso

Registro de um tempo histórico de tristes recordações, detentor de um rigoroso comprometimento social e na defesa incontestável do cidadão caboverdeano, assim é o livro “Poemas do tempo de Trevas – Saga / Hora Grande” de Onésimo Silveira. Sob a chancela do IBNL (Praia, 2008), a publicação reúne poemas inéditos e dispersos escritos até o ano de 1958 em Saga, e re-edita Hora Grande, de 1962.

Nascido em 1935 na Ilha de São Vicente, Silveira participou de “Claridade” – apesar de ser um crítico ferrenho da geração claridosa –, do Boletim dos Alunos do Liceu Gil Eanes e consta em diversas antologias como “Modernos poetas caboverdeanos” (1961). Como ensaísta lançou “Conscientização na literatura de Cabo Verde” (1968), entre outras obras. Sofreu exílio político, fixando-se na Suécia, onde formou-se em Ciências Sociais.

Seguidor da linha contestatária da revista “Certeza”, Silveira fez da sua poesia veículo de protesto contra a asfixia colonial. O realismo visceralizante de seus versos retrata cenas do cotidiano tortuoso ao qual o ilhéu era submetido, como na movimentação proporcionada com a aproximação de um barco ao porto, mas que ao não atracar gera intensa frustração ao “homem que desde manhã grande / Pensava na fome dos filhos / E da mulher que deixou a esperar” (p. 42). Entretanto, quando um barco chega a um porto as oportunidades de trabalho são escassas porque se respeita a ordem da “infinda lista negra” (p. 40) de homens “para o desembarque das mercadorias” (p. 40).

Recordamos as reflexões de Albert Memmi a respeito do comportamento do colonizador durante a leitura de “Portões da Companhia”: “Portão indiferente das companhias / Que não quer ver, não quer falar, não quer sentir / Para não sossobrar também ao peso da angústia!” (p. 43). Inferimos a desumanidade e o desprezo ao ilhéu simbolizados no “portão”, marca da crueldade do poder à época.

Enquanto no poema “O Regresso” a revolta anuncia-se com a emigração forçada às roças de São Tomé e o retorno do caboverdeano à ilha após um período de agruras: “E trazem a certeza mordaz da desgraça irremediável / Esses escorraçados do destino que foram matar a fome / E regressam com a insaciável sede e fome de justiça” (p. 80)

Depreendemos a nova relação com o mar, não mais castrador e evasionista, fortalecida com a crescente mobilização contra o colonialismo e sendo explicitada em “Um Poema Diferente”: “O povo das ilhas quer um poema diferente / Para o povo das ilhas: / Um poema sem braços à espera de trabalho / Nem bocas à espera do pão; / Um poema sem barcos lastrados de gente / A caminho do Sul” (p. 128).

A partir da virulência da sua poesia engajada a contrapor a violência colonial, o sujeito lírico de Onésimo da Silveira desnuda as atrocidades sofridas pelo ilhéu, que busca sua dignidade enquanto é tomado pela fome e pela ausência de trabalho. Seus poemas mostram como a batalha do cotidiano era encarada com “um instinto de sobrevivência quase carniceiro” (p. 55) àqueles que ficavam nas ilhas, ou aos que embarcavam na inevitável emigração: “Apontou-me, entre outras razões, / Que embarcaria para São Tomé / Só porque não havia o que fazer // E eu / Não podendo dizer-lhe mais nada / Respondi que já sabia.” (p. 75). Contudo, o sujeito lírico também desmascara a ilusão do que poderia ser a emigração: “A certeza de coisa alguma / Desterrou o pobre imigrante / Na solidão de si próprio / (...) A lamentar... a lamentar... a lamentar... / Vive o velho imigrante / Aprisionado na sua própria solidão” (p. 52).

Atravessar as páginas de “Poemas do tempo de Trevas – Saga / Hora Grande” é se deparar com retratos de uma época que a poesia de Onésimo da Silveira jamais se omitiu em revelar.

* Artigo publicado no jornal A Nação (Cabo Verde), página 9, de 25/02/2010

José Luís Tavares: O Poeta de Todos os Prémios - vídeo com entrevista

Prezados,
Vídeo com entrevista do poeta cabo-verdiano José Luíz Tavares publicada no sítio Sapo.cv. Para assistir ao vídeo, clique em http://noticias.sapo.cv/info/artigo/1048453.html

Abraços,
Ricardo Riso

José Luís Tavares: O Poeta de Todos os Prémios
24 de Fevereiro de 2010, 18:02

Será José Luís Tavares actualmente o melhor poeta cabo-verdiano? Pelo menos é o mais premiado, aliás o jovem tarrafalense, minino di Txon Bon, aos 42 anos é o mais galardoado dos escritores cabo-verdianos.

Tudo começou, em 1999, com o Prémio Revelação Cesário Verde, da Câmara Municipal de Oeiras, a que se seguiria o prémio Mário António, da Fundação Gulbenkian, em 2004, o prémio Jorge Barbosa, da Associação dos Escritores cabo-verdianos, em 2006, para de ter sido finalista do prémio Correntes d’ Escritas/Casino da Póvoa, em 2005, e semi-finalista do prémio Portugal Telecom de Literatura, no Brasil.

Mas ainda há mais. Em 2008 e 2009 José Luís Tavares aumentou o seu curriculo ao vencer por duas vezes consecutivas o prémio “Literatura para Todos”, do Ministério da Educação do Brasil, no valor de 10 mil reais cada um, com os livros “À Bolina em Redor do Natal” e “Lisbon Blues”. Em Cabo Verde, seria ainda distinguido, em 2009, com o prémio Pedro Cardoso, com o livro “Tempu di Dilubri (escrito em crioulo).

O seu mais novo livro “Cidade do Mais Antigo Nome” acaba de sair na editora portuguesa Assírio & Alvim, acompanhado por um conjunto de fotografias do fotógrafo português Duarte Belo. O livro tem a Cidade Velha como tema principal, recentemente eleita Património da Humanidade. Não é muito usual livros de poesia com fotografias à mistura. Mas, como o próprio autor explica: “Trata-se de um livro concebido nessa perspectiva, muito visual”.

Outro dos aspectos mais sonantes das suas obras são os títulos, bastante sugestivos, como, por exemplo, “Paraíso Apagado Por um Trovão”. “Eu guardo um caderno onde todos os dias escrevo e anoto títulos e ideias poéticas sugestivas para possíveis livros”.

Mas, desengane-se quem espere encontrar Cabo Verde como ponto de partida dos seus poemas. “O mais importante é escrever, as temáticas vão mudando ao longo da vida de um escritor”. Quanto à própria escrita, são muitos os leitores para quem esta não é nada fácil, talvez pensando ir encontrar na obra de José Luís Tavares alguma ressonância próxima da maioria dos autores cabo-verdianos.

No entanto, segundo o próprio, os seus livros “vendem-se bem”. “Em dois, três anos, uma edição de mil exemplares está esgotada”. Nada mau, quando se está a falar de poesia.

Se os seus livros se vendem bem, a crítica literária lusófona recebeu o novo nome das letras cabo-verdianas de braços abertos, mostrando-se entusiasmada com a sua obra e dedicando-lhe teses de mestrado e doutoramento.


Fonte: e-mail gentilmente enviado pelo poeta José Luiz Tavares em 25/02/2010.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Lande Onawale e a necessária quilombola utopia literária

Eles ficam se perguntando
Como posso me fazer bonito
Com tudo aquilo que acham feio
(Onawale, Lande. Black Power. p. 51)

Por Ricardo Riso
Nascido a 14/04/1965 na cidade de Salvador, Bahia, professor de História formado pela UFBA, Lande Onawale reuniu pela primeira vez poemas dispersos em seu livro “O Vento” (2003). Funcionário público, ativista do movimento negro, iniciado no candomblé, Reinaldo Santana Sampaio (seu nome de batismo) participou de várias edições dos “Cadernos Negros”, além de poemas e textos em prosa em diversas publicações, dentre as quais destaca-se “Terra de Palavras” organizada por Fernanda Felisberto.

A epígrafe com os versos iniciais do poema “Black Power” demonstra o engajamento à causa negra inserido na sua produção literária. Subverter o discurso estabelecido, romper os estereótipos impostos, elevar a autoestima e reconstruir de forma positiva a imagem de nós, negros, são alguns dos aspectos abordados por Onawale nos poemas de “O Vento”.

Ao atravessar as páginas do livro somos tomados por um vendaval de imagens acerca do cotidiano opressor que nos aflige. As imagens propostas pelo sujeito lírico fazem-nos recordar o quanto ainda são válidas para as relações étnico-raciais brasileiras as premissas do Movimento da Consciência Negra sul-africano, liderado por Steve Biko. Para aquele movimento o fundamental era mudar a mentalidade do negro, pois seria impossível mudar a sociedade enquanto o negro não mudasse a sua forma de pensar, submetendo-se às armadilhas de inferioridade declamadas pelo discurso dominante.

A ressignificação de valor e a consciência de afirmar-se negro em “Black Power” poderá causar espanto e surpresa àqueles que não visualizam a possibilidade de beleza de uma pessoa negra, exatamente por não seguir os modelos predominantes nos meios de comunicação (na literatura brasileira, inclusive), que são motivadores da nossa invisibilidade, reforçados por uma intensa propaganda e pelo racismo oriundo do tempo escravocrata.

Por ter a real dimensão da inferioridade sofrida desde que nossos antepassados negros foram forçados a vir para o continente americano, o sujeito lírico sente-se fortalecido para recorrer a eles, que jamais aceitaram a violência do senhor branco e do regime escravista. Apesar de apagados pela história oficial, jamais adormeceu em nós o combate à situação desigual imposta, e esse passado é rememorado no poema: “a nossa força é indescritível brother // emerge dos séculos / de luta por liberdade” (p. 51).

A valorização das raízes afro-descendentes manifesta-se no belo poema “Capoeira Angola”, que “faz do banzo só saudade” (p. 54). Apreendemos a criatividade de Lande no uso do banzo, a doença que vitimava os escravos forçados a fazer a travessia do Atlântico, ao reconfigurar os sentidos para “traçar / as rotas impossíveis da sobrevivência” (p. 53) e assim estimular seus irmãos de cor a “encarar a roda-vida todo dia” (p. 54).

A recordação constante dos aspectos culturais trazidos por nossos antepassados e a esfuziante celebração do que aqui ficou como forma de resistência, “... e não houve atlântico que apagasse tais pegadas...” (p. 59), são cantados pelo sujeito lírico a convocar e a incentivar o leitor para que juntos “ecoemos quilombolas utopias” (p. 47). Ao mencionar o sonho de liberdade dos quilombos, os versos de Onawale buscam mudanças, novos caminhos para diminuir as desigualdades étnico-raciais persistentes em nosso país, por isso o sujeito lírico faz da sua voz a nossa voz e afirma que “é hora de outras partilhas”. Pela equidade social, esperançoso, visualiza um novo futuro de harmonia que pretende ser assumido pela pluralidade racial brasileira para finalmente atingir a tão decantada e ainda não realizada democracia racial: “é tempo de outros papéis / e – por que não? – de anéis...” (p. 52).

Entretanto, nem sempre o sujeito lírico pode atuar de maneira conciliatória, às vezes precisa ser incisivo diante das ardilosas facetas do racismo à brasileira e é necessário desestabilizar a calmaria vigente: “há em mim veias que anseiam / os incontáveis caminhos da existência / há em mim uma memória / que vem lamber ou devastar / as praias rasas do presente” (p. 60). Por isso é fundamental expor os problemas que nos atingem. Por isso é essencial que a voz do sujeito lírico se torne a voz reveladora nas mentes submissas dos nossos pares, que aceitam o discurso dominante e não enxergam a perversidade de nossas relações sociais. Ou seja, o sujeito lírico propõe uma voz para mostrar novos caminhos, para fazer da persistência a força por um discurso justo contra as atrocidades cometidas por séculos de opressão: “que de tanto nadar contra a corrente / acabou por fazer a correnteza” (p. 63).

No poema “Canarinhas da Vila” encontramos a denúncia do repugnante e corriqueiro tema da violência policial sobre nós, negros. Desde o fim da abolição da escravatura que somos perseguidos e somos objetos constantes de desconfiança dos órgãos de segurança. Nossa juventude é sumariamente assassinada pela polícia, principalmente nas áreas periféricas das grandes cidades. O verdadeiro “genocídio da negra gente” (p. 45) não é tratado como uma manifestação clara de racismo, pois, de acordo com o senso comum, o elevado índice de mortos entre nós se dá por uma mera coincidência de ser a maioria populacional em zonas carentes, pelo elevado índice de desempregados e por possuirmos baixa escolaridade. Por tudo isso é quase natural o assassinato ininterrupto de nossa gente, e ficamos indefesos perante uma justiça que não nos protege, fato comprovado pelo questionamento desesperado, porém consciente, do sujeito lírico: “o que pode a letra morta / da lei, da constituição / contra este costume brasileiro / de matar negros como moscas?” (p. 44).

Apesar de toda a militância em prol do negro, os poemas de Lande Onawale ganham nosso interesse ao abordar o afeto à mulher negra. Sabemos que a questão do afeto para nossos irmãos de cor é extremamente complicada diante de tanto dilaceramento do corpo por séculos de escravidão. Opressão maior sofrida pelas mulheres, forçadas a conviverem com os repetidos estupros dos senhores brancos. Algo que é sempre bom recordarmos: a miscigenação no Brasil foi iniciada sob o signo da violência do colonizador branco. Em razão disso, é com prazer que se faz a leitura de um poema singelo e recheado de musicalidade como “Preta Preta”: “preta / minha preta / preta mesmo / preta, preta // preta / dentro preta / preta fora / toda preta // preta / ontem preta / hoje preta / sempre preta // ah! preta / preta, preta / preta, preta / preta, preta” (p. 25).

Como nós negros não incorporamos o padrão idealizado de beleza nacional, aqui excluindo as “mulatas” e toda a carga pejorativa inserida, por conseguinte, manifestações de afeto entre casais negros são associadas a algo sujo, provocador e/ou devasso. Daí a pertinência e a provocação inerente ao epigrama, que tenta recompor os estilhaços da autoestima fragmentada de nossa gente: “reaja à violência racial / beije sua preta em praça pública” (p. 43).

Assim é a palavra poética de Lande Onawale, palavra que denuncia a maldade das relações étnico-raciais, que procura se desvencilhar das amarras da linguagem dominante apresentando novos paradigmas, invertendo falas, questionando a hipocrisia. Palavra fortalecida pelas lutas dos nossos antepassados, palavra elaborada com esmero a acompanhar a grande diversidade formal e estética do seu fazer poético.

Em seus poemas encontramos mensagens que procuram tocar as mentes reprimidas de seus pares, desnudando os males do preconceito racial em nossa sociedade. “O Vento” de Lande Onawale mostra que sua poesia vai além das páginas do livro, toca nos corações e apresenta novos horizontes para quem os lê. É literatura necessária, é literatura negra que nos orgulha e enobrece nossas almas.

“disperso-me por aí / feito brisa / depois / me rejunto e chego como ventania / varro a casa / derrubo coisas / safadamente / devasso a monotonia (...)” (p. 75)

24 de fevereiro de 2010

Línguas Africanas no Brasil - curso na UNEB

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Fonte: e-mail gentilmente enviado pela Profa. Hildete Santos Costa em 19/02/2010.