sexta-feira, 12 de março de 2010

Glauco - 1957/2010



Glauco Villas Boas foi uma das figuras que admirava na adolescência. Acompanhava suas tiras nas saudosas revistas Chiclete com Banana e Circus, que depois espalharam-se nas edições especiais de Los 3 Amigos e Geraldão, esta sob comando do próprio Glauco.

A maneira atrevida e corajosa como os personagens criados por Glauco lidavam com sexo e drogas era hilariante, entre vários, os grandes destaques ficavam para Geraldão e as ciumeiras do casal Neuras. Seu traço era simples, ágil, neurótico e tosco complementava os temas transgressores, as vidas inusitadas e desregradas de seus personagens.

Recordar Glauco é repassar momentos da minha adolescência nos anos 1980. É lembrar de comprar todo mês as revistas, os sorrisos e gargalhadas que as histórias extraíam de mim. É lembrar de comentá-las e divulgá-las com os amigos. É rememorar os diversos momentos felizes associados a suas histórias.

Tenho uma passagem com Glauco. Não lembro em que ano foi, mas houve uma feira de HQ’s no Espaço Cultural dos Correios (ECC - Rio de Janeiro) e naquela ocasião tive a oportunidade de falar com Los 3 Amigos - Angeli, Glauco e Laerte - em momentos diferentes daquela tarde. Pedi para que cada um desenhasse o seu respectivo personagem, o que foi muito bem atendido por eles. Glauco foi o último e o seu personagem debochava o do Laerte, ficou hilário. Perdi o desenho com o passar dos anos, mas ficou a generosidade dos três.

O cartunista e Raoni, seu filho de 25 anos e também cartunista, foram brutalmente assassinados após tentativa de assalto à residência da família, nesta madrugada, em São Paulo. Os dois mortos são vítimas dessa sociedade louca, desesperada e violenta em que vivemos. Infelizmente é assim em nosso país: a violência aumenta e somos reféns do medo. Enquanto houver essa absurda desigualdade social nos aproximaremos do caos.

Deixo aqui a minha revolta com a maneira como o cartunista nos deixou. Deixo o meu respeito e pêsames aos seus familiares.

Para quem me proporcionou tantas alegrias, hoje me deixou entristecido. Choro.

Glauco, obrigado pelos momentos bons que você me fez passar.

Glauco e Raoni, fiquem em paz!

Ricardo Riso

1a. imagem retirada de http://www.uol.com.br/
2a. imagem - Desenho do cartunista Alessandro Guarita, retirado de

I Ciclo de Encontros da Revista África e Africanidades - 05 e 12/04/2010 - 2a. atividade

Prezados,
nossa revista realizará o seu I Ciclo de Encontros da Revista África e Africanidades, com palestras e minicursos abordando temáticas que se destacaram ao longo das nossas edições.
As atividades serão realizadas nos dias 05 e 12 de abril de 2010, no Largo de São Francisco de Paula, 34 - 5º andar - Centro - RJ, e as inscrições só poderão ser feitas no site da revista. Para efetuar sua inscrição, clique aqui.
Peço a todos ajuda na divulgação.
Abraços,
Ricardo Riso

I Ciclo de Encontros da Revista África e Africanidades - 05 e 12/04/2010

(clique na imagem para ampliá-la)

Prezados,

nossa revista realizará o seu I Ciclo de Encontros da Revista África e Africanidades, com palestras e minicursos abordando temáticas que se destacaram ao longo das nossas edições.
As atividades serão realizadas nos dias 05 e 12 de abril de 2010, no Largo de São Francisco de Paula, 34 - 5º andar - Centro - RJ, e as inscrições só poderão ser feitas no site da revista. Para efetuar sua inscrição, clique aqui.
Peço a todos ajuda na divulgação.
Abraços,
Ricardo Riso

quarta-feira, 10 de março de 2010

O problema de Adriano mascara o racismo ao jogador negro

O problema de Adriano mascara o racismo ao jogador negro

Por Ricardo Riso

Adriano, o ótimo atacante do Flamengo, volta a ser o centro das atenções do noticiário sensacionalista que domina o país. Infelizmente, o que ele melhor sabe fazer, que é jogar futebol, fica em segundo plano em razão das atitudes tomadas pelo conturbado jogador. Entretanto, o massacre midiático, o julgamento e as rápidas definições para o problema de Adriano revelam os diversos preconceitos ocultos em nossa sociedade. (...)
 
O restante está no meu blog sobre o Negro e o racismo no futebol, "A Bola Limpa". Acesse http://abolalimpa.blogspot.com/2010/03/o-problema-de-adriano-mascara-o-racismo.html
 
Abraços,
Ricardo Riso

segunda-feira, 8 de março de 2010

Paula Tavares - O cercado e desenho Ricardo Riso


Pano da Costa (da série Dizes-me coisas amargas como os frutos)
pastel s/papel. 29,7 x 21 cm. 2010.
Autor: Ricardo Riso

O cercado

De que cor era o meu cinto de missangas, mãe
feito pelas tuas mãos
e fios do teu cabelo
cortado na lua cheia
guardado do cacimbo
no cesto trançado das coisas da avó

Onde está a panela do provérbio, mãe
a das três pernas
e asa partida
que me deste antes das chuvas grandes
no dia do noivado

De que cor era a minha voz, mãe
quando anunciava a manhã junto à cascata
e descia devagarinho pelos dias

Onde está o tempo prometido p'ra viver, mãe
se tudo se guarda e recolhe no tempo da espera
p'ra lá do cercado

TAVARES, Paula. Dizes-me coisas amargas como os frutos. In: Poesia. Luanda: Maianga, 2004.

terça-feira, 2 de março de 2010

Sacolinha - Graduado em Marginalidade (livro)


Relançado pela Confraria do Vento (RJ) a ótima estreia de Sacolinha no gênero romance com Graduado em Marginalidade.
Sacolinha integra uma nova vertente literária em nosso país. Ao lado de nomes como Alessandro Buzzo, Férrez, Allan da Rosa entre outros que procuram revelar em seus textos uma faceta pouco divulgada das periferias brasileiras.
Ricardo Riso

Release do romance

A história do jovem Vander, e de Lúcio Tavares, policial que transformou a pacata Vila Clementina em Brás Cubas, distrito de Mogi das Cruzes, num depósito de droga. Trouxe também a guerra, o calibre e a morte. Transformou Vander de amor em ódio. Esse passou pelas maiores provocações que um ser humano pode agüentar. Foi obrigado a jogar o jogo da melhor defesa; o ataque.

No fim, o autor nos surpreende com um final imprevisível, mas tão verdadeiro que, mesmo sendo triste temos que aceitá-lo.

Neste livro você vai do cheiro das rosas ao cheiro de pólvora, um romance original e categórico no qual a maioria dos personagens tem razões suficientes para ser quem são.

Esta obra pulsa como as favelas brasileiras nos dias de domingo, onde circulam Vander, Casquinha, Sandrão, Vladi e Nego bá.

Toda a história foi inspirada na vida real, porém, inventada pela alta capacidade de fabulação do autor; um jovem escritor de 21 anos, morador da periferia de São Paulo.

Graduado em Marginalidade (Romance contemporâneo)
Ademiro Alves (Sacolinha)

POEMix - POEMAS DE NENHUM LUGAR, novo videoart de Mito

Há excelente produção de arte contemporânea em Cabo Verde, como podemos constatar no link a seguir de mais um novo e belo trabalho que une poesia, imagem e som do inquieto artista plástico cabo-verdiano Mito (Fernando Elias). Neste, o artista presta uma bela homenagem à poesia e a nomes maiores da poética das ilhas.

Ricardo Riso


POEMix - POEMAS DE NENHUM LUGAR

Poesia, imagem, corpo e ambientes sonoros
Mito Elias - Poesia, leitura, sons e vídeos

Binga de Castro - Paisagens sonoras (Música, corpo e sonorizações)
5 de Março - Sexta Feira - às 21 H - No Instituto da Língua Portuguesa
Rua Andrade Corvo - Plateau - Praia (casa cor de rosa, junto ao quartel Jaime Mota).

POEMix - é um pequeno exercício performático que abarca a poesia num conceito pluri-dimensional (palavra, vídeo, gestos e sons). O espectáculo consiste na reinterpretação de 12 poemas de vários autores Cabo Verdianos : (Alexandre Cunha, Arménio Vieira, Danny Spínola, Eurico Barros, Filinto Elísio, Jorge Carlos Fonseca, José Luíz Tavares, Mário Fonseca, Mito, Oswaldo Osório, Vadinho Velhinho e Zé di Sant'y'agu). O objectivo deste evento é procurar realçar a beleza das palavras, dos gestos, das imagens e dos sons que cada escrito sugere, para que a poesia não fique estática e empoeirada nas estantes.

Apoio : INSTITUTO INTERNACIONAL DA LÍNGUA PORTUGUESA
--
www.tanboru.org/mito
http://www.youtube.com/watch?v=OrqxJJF4TwE&feature=related
www.saatchi-gallery.co.uk/yourgallery/artist_profile/Mito+Elias/23947.html

Fonte: e-mail gentilmente enviado pelo artista plástico Mito em 02/03/2010.

domingo, 28 de fevereiro de 2010

Sangare Okapi – e a revisitação do corpo literário moçambicano em “Mesmos Barcos”

Por Ricardo Riso

Agradecimento especial para Yana Campos por me presentear este livro.
O amadurecimento de um sistema literário nacional configura-se na autorreferenciação. Ele se dá a partir do momento que seus escritores privilegiam o passado sedimentado pelo chão das letras de um determinado país até atingir a contemporaneidade. Convém salientar que esse processo não foi conquistado com simplicidade entre os países colonizados, que sofreram com a assimilação e todas as formas de repressão às manifestações autóctones.

Moçambique vivenciou a terrível noite colonial até a independência em 1975. Embora com toda a violência da ditadura salazarista e a indefectível mentira do império ultramarino, seus poetas procuraram desconstruir os cânones impostos pelo colonizador europeu enaltecendo, através do verbo poético, o chão moçambicano e a pluralidade étnica. Logo, são longevas as posturas literárias contrárias ao referencial português em nomes, somente para citar alguns, como os de Rui Knopfli, Noemia de Sousa, José Craveirinha, Virgílio de Lemos, Fernando Couto e, nos primórdios, no século XIX, Campos Oliveira.

A partir de um Índico hibridizado, confluente oriente/ocidente, denota-se a busca identitária. Recorremos à Ana Mafalda Leite, com a lucidez peculiar, a inferir sobre esta mistura: “Ser moçambicano (...) equivale a partilhar culturas e origens diversificadas, que confluem no Índico, e em terra moçambicana se entroncam, renascidos, bantuizados, travejados de uma memória, que a viagem e a história refundem, em iniciático baptismo, na nova nação” (LEITE, 2003, p. 155). A palavra poética em fruição erótica, metafórica e, às vezes, surrealizante, atuava como força motriz para apaziguar o dilaceramento acarretado pelos sonhos suprimidos e as injustiças cometidas no cotidiano.

Esses escritores valeram-se de um profundo lirismo e de poemas com exacerbado cariz existencial para confrontar o absurdo da perversidade colonial, fazendo da Ilha de Moçambique e do mar, precisamente sua porção índica, o lugar de reconfiguração dos sentidos e - por que não? - da História, elaborando uma mítica memória da qual a literatura se apropria, e que seria retomada pela geração surgida nos anos 1980. Para Ana Mafalda Leite,

“o processo de mitificação literário da Ilha de Moçambique, tem vindo a ser actualizado, e amplificado, nos últimos anos, com maior insistência na obra de vários autores, concretizando percursos alternativos a uma poética militante, e de cariz ideológico, conferindo uma outra amplitude aos imaginários poéticos, e actualizando uma ‘herança’ e tradição literárias, muito antigas.” (LEITE, 2003, p. 137)

Entretanto, na trajetória literária moçambicana houve um hiato dessa vertente, explicado pela urgência do momento histórico dos anos 1960/1970 imposto pela guerra colonial e do posterior “cantalutismo” para a nação independente, época que presenciou a participação ativa dos escritores com seus poemas unindo e convocando os moçambicanos para a luta, e, em seguida, cantar as loas que a revolução traria para o país em construção.

Essa temática engessada e a rara diversidade estética e formal vivenciariam o seu ocaso já no raiar dos anos 1980 com Luís Carlos Patraquim e Mia Couto, que recuperavam o lirismo em um profundo existencialismo nas obras “Monção” (1982) e “Raiz de Orvalho” (1983), respectivamente. Isso seria solidificado com a estreia de Eduardo White e o seu “Amar sobre o Índico” (1984), além da publicação da revista “Charrua” (1984) e do surgimento de nomes como Nelson Saúte e Armando Artur. Desde então, a navegação lírica pelos mares do Índico fez-se constante, e a geração da década de 1980 se tornou referência para os jovens escritores surgidos na década inicial do século XXI.

Assim, chegamos a Sangare Okapi e ao seu livro “Mesmos Barcos ou poemas de revisitação do corpo” (Maputo: Associação dos Escritores Moçambicanos, 2007), que assume esse legado e participa desse “palimpsesto literário” (expressão alcunhada por Ana Mafalda Leite) com o uso de dedicatórias, recriações de títulos, transcrições de versos etc. Tudo na mais pura tradição poética do seu país. Ainda consta na capa do livro uma bela pintura do celebrado Malangatana Valente, "Olhar Erótico".

Sangare Okapi é bacharel em Ensino de Português, membro efetivo e da direção da AEMO – Associação de Escritores Moçambicanos. Publicou, em 2005, “Inventário de Angústias ou Apoetose do Nada”. Está representado na revista brasileira “Poesia Sempre” (2007). Co-produziu e encenou a peça “Pereto de Onti”, distinguida com mérito no Festival Regional de Teatro Amador Zona Sul, organizado pela Casa da Cultura do Alto-Maé (1996). Em 2007, participou, em representação de Moçambique, no XII Festival de Poesia de Havana, dedicado a África e Caraíbas. Prêmio Revelação de Poesia AEMO/ICA (2004) e Menção Honrosa do Prémio Revelação Rui de Noronha/FUNDAC (2002). (1)

Temos um livro conduzido pelas vagas metapoéticas de Okapi, que segue e procura reformular as “indicidades” surgidas na poesia de seus antecessores. No alargamento dos sentidos referentes à Ilha de Moçambique, lugar matricial, e no aprofundamento metafórico do Índico múltiplo cultural e erotizado.

O livro é dividido por três cadernos. O primeiro apresenta o maior número de poemas, alguma variedade formal, em tímido referencial concretista, grande quantidade de citações de autores moçambicanos, mas que ainda encontra espaço para homenagear o português de nascimento, cabo-verdiano por opção, Manuel Ferreira, em que o sujeito lírico apropria-se de temas caros à literatura do arquipélago como a angústia em relação ao mar,, “livrai-me desta solidão / do mar” (p. 23). Apresenta o dilema do ilhéu e intertextualiza o poema ao prestar uma justa homenagem ao clássico romance “Flagelados do Vento Leste” de Manuel Lopes, que são reconstruídos com delicadeza: “oh sem ser / flagelado de algum vento leste / vontade de partir / partir de vontade” (p. 23)

Dessas dedicatórias, há um poeta não que poderia deixar de constar quando se versa sobre o Índico e a Ilha de Moçambique. O nome de Rui Knopfli, nesse caso, impõe-se naturalmente. O seu livro “A Ilha de Próspero”, segundo Leite, é o que “se faz primeira, e mais consistente revisitação, do espaço ilhéu, em termos literários e artísticos, enquanto percurso de indagação de uma memória histórica e cultural” (LEITE, p. 139). O final do poema “Mossuril” de Okapi remetem-nos à “Ilha Dourada” de Knopfli, que seguem abaixo, respectivamente:
fechada
toda de agrura

alguma
amargura
em si trancada

todo o amor
e mar

é sal e lágrima
no poema. (OKAPI, p. 24)


A fortaleza mergulha no mar
os cansados flancos
e sonha com impossíveis
naves moiras.
Tudo mais são ruas prisioneiras
e casas velhas a mirar o tédio.
As gentes calam na voz
uma vontade antiga de lágrimas
e um riquexó de sono
desce a Travessa da Amizade
Em pleno dia claro
vejo-te adormecer na distância,
Ilha de Moçambique,
e faço-te estes versos
de sal e esquecimento. (SECCO, p. 91)

Um profundo lirismo existencial revela-se no poema “Língua: ilha ou corpo?”, dedicado àquele que contribuiu da melhor maneira a relação com o mar, Virgílio de Lemos. Neste, a metapoética a favor da ressignificação dos sentimentos em imagens que se diluem entre a geografia física e do corpo em eruptiva criação poética:

A língua
é o pão que fermento
os dias todos.

Com ela (re)invento,
meço outros ângulos
do sentimento.
(...)

Eis o que sou: ilha
ou corpo cercado
de gente
por todos os lados. (p. 20)

A nova geração da literatura moçambicana também é representada no poema “Insular”, valorizador da presença feminina As escritoras Maria João Hunguana e Sandra Salete são reverenciadas em um poema carregado de erotismo, não só do corpo mas do próprio verbo poético transitante entre o corpo, o mar em direção ao oriente e a poesia: “(...) Mar azul / branco é o papel / sem a margem / do teu busto // Lanço as redes, que são as letras // no arremesso / do papel a cabeceira / começo. // Transporto outro poema / para o oriente do corpo.” (p. 18)

Embora as dedicatórias sucedam-se e outros poetas são celebrados nos poemas de Okapi, tais como Heliodoro Baptista, Guita Jr., Gulamo Khan, Eugénio Lisboa etc., o maior tributo se dá no poema “Patraquimmiana”, no qual Sangare homenageia dois nomes consagrados da poesia moçambicana: Luís Carlos Patraquim, que é citado no título, enquanto o corpo do poema direciona-se ao poeta maior do país, o Velho Cravo José Craveirinha:
Para J. C.
Não sei com que estranha miragem. Confesso.
Meu lírico cartomante das noitadas pela Mafalala!
Sim, agora que o medo já não puxa lustro na cidade. Velho Zé,
Livre e limpo da morte, regressas pelos carris da memória,
mãos aninhadas nos bolsos rotos. A mesma cartola preta,
Amarrada ao vento e um pássaro que já não cabe no verso
Preso no lembo da língua, desmentem o teu estatuto
De cidadão do futuro e regressas, velho Zé!
Nenhuma epopeia trazida dos escombros se levanta do rosto,
Nenhuma elegia brota do coração, nenhuma!
E regressas, velho Zé, poeta em todas as latitudes!... (p. 39)

Seguindo o palimpsesto literário moçambicano, este poema de Okapi inspira-se no “Drummondiana” de Patraquim, publicado no livro “Vinte e tal Novas Formulações e uma Elegia Carnívora”. Patraquim presta tributo ao poeta referencial Carlos Drummond de Andrade e o dedica a um conterrâneo, Gulamo Khan. Já Okapi no seu projeto de revisitar a literatura de Moçambique em seu livro, não recorre a referenciais brasileiros como fez o seu inspirador, pois o jovem poeta é de um tempo em que a literatura de seu país já sedimentou seu caminho e criou suas próprias referências metapoéticas, assim sendo, os escritores estrangeiros deixaram de ser uma necessidade primeira, o que não queremos dizer que seja uma forma de menosprezar toda uma tradição literária universal, mas, sim, o amadurecimento literário de um jovem país.

Mas é no conjunto de poemas reunidos na segunda parte do livro, intitulada “Mesmos barcos”, que se explicita a referência a Patraquim e aos poemas integrantes de “Barcos elementares” do livro supracitado. Também podemos, de certa maneira pelo forte intimismo presente em Okapi, estender a referência a Eduardo White. Priorizando poemas em prosa, o sujeito lírico de Sangare Okapi utiliza metáforas dissonantes e imagens insólitas que confundem os sentidos do leitor para descrever a linha tênue erotizante entre mulher, corpo e poesia:

Por isso, reinvento-te no meu poema como em Gizé, o antílope na argila. E não me canso. Repito, apenas: esquece o tempo. O tempo. A razão. Apaga a cicatriz na epiderme e um escorpião com os dentes esmaga. Leva na boca, ensanguentada, uma alga verde, verde o sonho da criança que não sonhou para viver. Como um barco, sem porto, eriça a sensível vela do corpo e, frágil, o coração nos sirva de bússola:
os remos dispensa,
temos as mãos
para a navegação. (p. 43)

A navegação se faz pela magia ilimitada da palavra poética. As imagens viscerais, “escorpião com os dentes esmaga”, são entrecruzadas por uma escrita pausada a buscar o amor e a trilhar a mesma “ponte antiga” entre os seus antecessores literários: “Se entre mim e ti há uma ponte antiga que nos deflaga o desejo, a irreprimível geografia do afecto” (p. 44). O existencialismo é acompanhado, assim como na poesia de Patraquim e Eduardo White, pelo olhar sensível de Okapi que se revela atento às incertezas do seu país: “há um pequeno país / no meu país: / chama-se angústia” (p. 44).

A erotização desenfreada dos sentidos revela-se no corpo do poema e no corpo feminino vinculado à Ilha e ao índico hibridizado, em “urni e sarris”:

Hoje, quase que instintiva e furtivamente, revisito-te. Exposta silhueta de mulher, na textura índica, esperando o tempo. Em Mossuril, preso o marisco na rede. Posso, agora, sem receio algum, vociferar no poema: amo-te! Amo-te as curvas, não sei que perigo ou mistério, a serena música das dunas no peito, romaria em alguma boca explodindo, ou então, a alga na bexiga se multiplicando. Olha a água, agora à nossa volta! A vertigem!?! Em ti, barco sem destino, nu me acoito inteiro e,
se remar-te é engano,
provável é agora
rimarmo-nos. (p. 45)

Assim, valendo-se da retomada lírica dos poetas moçambicanos a recuperar a Ilha de Moçambique como lugar matricial e de entrocamento de culturas diversas, tendo em Luís Carlos Patraquim e Eduardo White alguns dos maiores expoentes dessa vertente, destacamos excertos desses escritores os quais são, em nosso entendimento, inspiradores para a escrita de Sangare Okapi e, com isso, ter seu nome incluído no palimpsesto literário moçambicano aqui proposto:

Ilha, corpo, mulher. Ilha, encantamento. Primeiro tema para cantar. Primeira aproximação para ver-te, na carne cansada da fortaleza ida, na rugosidade hirta do casario decrépito, a pensar memórias, escravos, coral e açafrão. Minha ilha/vulva de fogo e pedra no Índico esquecida. Circum-navego-te, dos crespos cabelos da rocha ao ventre arfante e esculturo-te de azul e sol. Tu, solto colmo o oriente, para sempre de ti exilada.
Foste uma vez a sumptuosidade mercantil, cortesão impossível roçagando-se nas paredes altas dos palácios. Sobre a flor árabe e excisão esboçada com nomes de longe. São Paulo. Fadário quinhentista de “armas e varões assinalados”. São Paulo e rastilho do evangelho nas bombardas dos galeões. São Paulo rosa, ébano, sangue, tinir de cristais, gibões e espadas, arfar de vozes nas alcovas efémeras. Nas ranhuras deste empedrado com torre a escandir lamentos dormirão os fantasmas? Almas minhas de panos e missangas gentis, quem vos partiu o parto em tijolo ficado e envelhecido?
Ilha, capulana estampada de soldados e morte. Ilha elegíaca nos monumentos. Porta-aviões de agoirentos corvos na encruzilhada das monções. De oriente a oriente flagelaste o interior da terra. De Callicut a Lisboa a lança que o vento lascivo trilhou em nocturnos, espamódicos duelos e a dúvida retraduzindo-se agora entre campanário e minarete. Muezzin alcandorado, inconquistável.
Porque ao princípio era o mar e a ilha. Sinbas e Ulisses. Xerazzade e Penélope. Nomes sobre nomes. Língua de línguas em Macua matriciadas. (PATRAQUIM. p. 41-42)

Sou ao Norte a minha Ilha, os sinais e as sedas que ali se trocaram e nessa beleza busco-te e para mim algum percurso, alguma linguagem submarina e pulsional, busco-te por entre as negras enroladas em suas capulanas arrepiadas, altas, magras, frágeis e belas como as missangas e vejo-te pelos seus absurdos olhos azuis. Que viagens eu viajo, meu amor, para tocar-te esses búzios, esses peixes vulneráveis que são as tuas mãos e também como me sonho de turbantes e filigranas e uma navalha que arredondada já não mata, e minhas oferendas de Java ouros e frutos incensos e volúpia.
Quero chegar à tua praia diáfano como um deus, com a música rude e nua do corno de uma palave, um séquito ajawa, um curandeiro macua, uma mulher que dance uma Índia tão distante, e um monge birmanês, clandestino no tempo, que sobre nós se sente e pense. Amo-te sem recusas e o meu amor é esta fortaleza, esta Ilha encantada, estas memórias sobre as paredes e ninguém sabe deste pangaio que a Norte e na Ilha traz um amante inconfortado. Em tudo habita ainda a tua imagem, o m’shiro purificado da tua beleza e das tuas sedes, a rosa dos ventos, o sextante dos tempos, em tudo acordas de repente como se ardesse naus, garças, águas, ouros, pratas, vagas, escravos ausentes, tudo o que esta Ilha que sou ao Norte nos pode lembrar. Deito-me, assim, sobre o Sol com a praia funda em meu pensamento. (WHITE, p. 24-27)

O derradeiro poema de “Mesmos Barcos ou poemas de revisitação do corpo” presta uma justa homenagem ao poeta primeiro de Moçambique, pioneiro no versejar da Ilha, o oitocentista Campos Oliveira. Neste poema, “O Barco Encalhado”, único na última parte, o sujeito lírico demonstra as culturas sobrepostas que aportaram no decorrer dos séculos na Ilha de Moçambique, idealizando uma nova cultura hibridizada. Além disso, há a crítica ferrenha à triste pilhagem realizada pelos portugueses:

(...) Resgatasse o Índico o que do oriente com o tempo soube sufragar.
Os barcos todos com as velas hirtas e as gentes.
Suas as pérolas mais os rubis. O aljôfar. Luzindo no ar.
Minha fracturada chávena árabe persa na cal
ou resplandecente a missanga cravada no ventre d’água,
qual sinal dos que de além mar chegaram
e partiram com baús fartos...
Fobia dos que ficamos. Mas herdeiros. (p. 49)

Ao retomar de forma criativa a metapoética inspiração índica e da Ilha de Moçambique em seu livro, Sangare Okapi mostra o quanto ainda é ilimitado versar a partir desses referenciais, e insere-se com louvor na tradição literária do seu país, mostrando o vigor da novíssima geração. Inferimos que a vocação palimpséstica de “Mesmos Barcos ou poemas de revisitação do corpo” manifesta a maturidade da literatura moçambicana ao revisitar o seu corpo ainda jovem, com um vasto caminho a ser sedimentado pelos poetas. E Sangare Okapi fará parte dessa trajetória e dessa história. É um nome que veio para ficar.

NOTA:
(1) Informações extraídas do sítio da AEMO - Associação dos Escritores Moçambicano - http://www.aemo.org.mz/aemo/quemsomos.htm - Acessado em 26/02/2010.

REFERÊNCIAIS BIBLIOGRÁFICAS:
LEITE, Ana Mafalda. A reescrita de Caliban sobre a Ilha de Próspero: notas em torno da actualização de um mito de origem cultural. In: Literaturas Africanas e Formulações Pós-Coloniais. Lisboa: Colibri, 203. p. 135-144.

LEITE, Ana Mafalda. Poéticas do Imaginário Elemental na Poesia Moçambicana: entre mar... e céu. In: Literaturas Africanas e Formulações Pós-Coloniais. Lisboa: Colibri, 203. p. 153-160.

OKAPI, Sangare. Mesmos Barcos ou poemas de revisitação do corpo. Maputo: Associação dos Escritores Moçambicanos, 2007.

PATRAQUIM, Luís Carlos. Os barcos elementares. In: Vinte e tal Novas Formulações e uma Elegia Carnívora. Lisboa: ALAC, 1991. p. 41-42.

SECCO, Carmen Lucia Tindó. Antologia do mar na poesia africana de língua portuguesa do século XX – volume II: Moçambique, São Tomé e Príncipe, Guiné-Bissau. Rio de Janeiro: UFRJ, 1999.

WHITE, Eduardo. Os materiais do amor seguido de O desafio da tristeza. Lisboa: Caminho, 1997. p. 24-27.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Tchalê Figueira - Ilha Jazz, exposição de pintura


i.gallery – Livraria Nhô Eugénio

Achada Santo António, Cidade da Praia – Cabo Verde
De 4 a 31 de março de 2010

Tchalê Figueira é uma criança gigante que pinta “bitchins” e “gongons”. Alguém que colore um livro de histórias sem figuras nem contornos. Labirintos que só perceberemos quando chegamos à idade do entendimento. Tchalê é a criança “terrible” que dialoga com cada personagem da Rua de Praia, que conhece cada criatura do seu Mindelo, que fantasia com todo o feminino do universo. Menino traquinas capaz de pronunciar todas as palavras, de eliminar a ideia do proibido, trazer toda a intimidade da porno-grafia quotidiana e normaliza-la. Mestre de monstros velhíssimos, perversíssimos. Indomáveis. Ele próprio assim.

Em tempos pintou com todas as cores, baralhando os sentidos de quem quer ler. Desestabilizando o concreto e a normalidade de quem apenas aspira a uma arte sem rebelião. Tchalê é o contrário da norma, na linha narrativa da sua geração de artistas em Cabo Verde. Construiu uma grafia e um vocabulário único. Deu ao cabo-verdiano um novo rosto, um corpo em constante mutação. Somos todos “bitchins” e “gongons”, somos todos coloridos e secretos, temos todos a nossa nudez. Em algum momento. A todo o momento. De corpo e de alma. E cheiramos a corpo e a suor. Às vezes fantasiamo-nos e brincamos a todos os carnavais fora de época. Quando amamos, vivemos ou simplesmente andamos pelo universo fora. Num exercício de extrema condensação, de concisa minúcia tem experimentado composições sobre o negro, breves matizes de cor num cosmos sintetizado pelo traço, pela essência da composição como regra da arte, de consciência e da vida.

Para esta exposição Tchalê regressa às cores, em desafio às “Flores do mal” de Baudelaire. Pretexto, por outro lado, para compreender que o imaginário de Tchalê Figueira não cabe apenas na Rua da Praia, na “Morada”, no Mindelo, no arco, na ilha, nas ilhas, no Atlântico. Tchalê é herdeiro de uma tradição universal que vai não só dos pais espirituais da beat generation, por isso de Jack Kerouac, Henry Miller, Norman Mailer, William S. Burroughs, Kenneth Rexroth e da beatnik poetry (Allen Ginsberg, Gregory Corso, Lawrence Ferlinghetti, Gary Snyder), mas também de Charles Bukowski, Fiódor Dostoiévski, Juan Rulfo, Carlos Fuentes, Júlio Cortazar, Borges, Pessoa, Rainer Maria Rilke, Arménio Vieira e toda a poesia surrealista francesa.

A aparente simplicidade das obras de Tchalê Figueira é a mais apurada denúncia da complexa panóplia de linguagens e influências que compõem o percurso deste que é provavelmente o mais consagrado artista plástico cabo-verdiano da actualidade.

Texto de Abraão Vicente

Eme Nguimba - blog do escritor angolano Nguimba Ngola

Eme Nguimba - http://nguimbangola.blogspot.com/ - é o nome do blog do escritor angolano Nguimba Ngola (pseudônimo de Isalino Nguimba da Cruz Augusto), que fez sua estreia literária com "Mátria", editado pela Arteviva, Edições e Eventos Culturais.