quinta-feira, 13 de maio de 2010

Samuel da Costa, literatura negra contra o banzo pós-moderno

Quando completou 100 anos de abolição da escravidão no Brasil em 1988, os grandes meios de comunicação viram nesta data uma excelente oportunidade para fortalecer a mentira da democracia racial em nossa sociedade. Porém, não contavam com a sensibilidade dos movimentos negros que perceberam, de forma brilhante, que esta data seria ideal para denunciar o racismo sofrido por nós, negros, e as demais desigualdades impostas a mim, a você e a todos os nossos irmãos negros.

Portanto, aproveito este dia para apresentar um jovem escritor negro, sensível aos problemas que enfrentamos em nosso cotidiano, natural de Itajaí – Santa Catarina, chama-se Samuel da Costa (samueldeitajai@yahoo.com.br), autor de Horizonte Vermelho e Na cor e na flor.

A seguir estão alguns poemas e um conto gentilmente enviados pelo autor. Para conhecer um pouco mais da obra de Samuel da Costa, acesse os endereços a seguir:



Abraços,
Ricardo Riso


Não! Eu não quero mais ser negro

Cansei de ser negro
De ser parado pela polícia
Ser confundido com um bandido qualquer
De ter relações promíscuas com os políticos
Sendo sempre massa de manobra
Na mão de algum abnegado...
Não! Eu não quero mais ser negro
Ser minoria nas universidades
Ser tachado de preguiçoso...
Ser o primeiro de lista dos desempregados
Não quero ficar para trás
De tudo
De todos
Das oportunidades
De um futuro melhor
Não quero mais ser negro
Ser excluído de todas as formas
De todas a maneiras
Definitivamente estou casando de celebrar
Meus ritos escondidos
Dos olhos da sociedade
Não quero mais ser negro
E ter a responsabilidade de ser:
No melhor no futebol
Ser bom no pagode
Não...
Não quero mais ter um passado
negro
Que cheira a escravidão
Que cheira a dor
Quero renunciar ao meu futuro
De dor
Não quero mais ser negro
Chega de sofrer
O banzo pós-moderno


Negras memórias
A José Bento Rosa

A pele é negra
A minha pele
Tem que ser negra
O olfato negro...
Ao fato negro
O fator negro
É sempre negro
O poder negro
Do mercado negro
Quer manchar nossa história
Que compõe nossa estória
Que é sempre negra
Como meu passado é negro
Que tem o tom da minha pele
Cor negra por todos os lados
Cor de ébano!
Como minha memória...
Negras memórias!
De um pobre negro...
Do negro pobre
Que é sempre negro
Como meu passado negro
Que não é negro
Mas é negro!
Tão negro como minha pele...
...negra
Pois tenho origem no velho continente
O velho mundo
Que é negro
Assim como minha pele
Que é negra
Pois somos!
Os braços!
As pernas!
A nação proletária
Com as costas marcadas
Das chibatas
Negra...
Que movimentaram
Que movimentam
Que movimentarão
O futuro...
Desta Terra
De novo mundo...
Sou negro
Assim como minhas...
...memórias
Que alguns tentam
Em vão apagar
Minha consciência é negra
Meu passado é negro
Meu futuro há de ser negro


Com licença EU vou a luta
Para Tais Carolina Rita

Meu senhor vai bem!
A colheita foi boa!
Este ano...
Este século...
Para o meu senhor tudo vai bem!
Alguns negros fingiram!
Outras negras pariram,
Muitos outros...negros!
Meu senhor a colheita foi boa!
Este ano!
Este século...
Foi boa
Os Negros?
Os negros!
Alguns morreram...
Alguns Forros
Mas outros ficaram
Meu senhor
Meu amo...
Meu sinhô
A colheita foi boa!
Mas as correntes enferrujaram
Sinhô
E os negros e negras
Forros
Não estão mais aqui
Contudo preferiram
Ficar!
Livres!
Dispersos!
Por ai em qualquer lugar


 
Tumbeiro

Amarga e sonha!
Transporta tumbeiro
A negra dor
A negra carne
A carne negra
Lacera e lacera...
A negra vida
Transporta
Enrique-se
O mundo branco!
O branco luxo
A negra dor
Transporta
E lacera a negra carne
Transborda
De riqueza
O mundo branco!
Mundo reluzente
Racional
Transporta o negro
Ouro
A negra sina
O negro pranto


Para a Mãe África (Eu me rebatizo)
(Em memória a Miguel M. da Costa)

Ao som dos tambores...
Para o povo que sofre...
Para arte profana...
Eu me rebatizo
Vou me rebatizar
Para ti Oh Mãe África
Dos ridículos da vida
Volto para ti
Para a Mãe África
Para o povo que sofre
Volto para ti...
Para música profana
Com todo o rigor
Eu me rebatizo
Para toda a música profana
Do batuque...
Dança a música profana
O batuque...
Para toda a música profana
Volto para ti
Oh mãe África...


Adeus carne

l
O corpo esguio e o andar rápido em meio aos corredores e, ela não parecia se importar com o fato dos detentos estarem perfilados e, de cara para a parede, enquanto ela passava. O fato já não intrigara mais Maria da Saudade, com seus olhos verdes sedutores e seus quarenta anos de idade, e já se foram um pouco mais de um ano que fizera sua primeira visita ao seu filho no cárcere. Ficou sabendo logo como as coisas ali se precediam. E ficou feliz e amargurada ao mesmo tempo. Hoje esta especialmente feliz, pois estava enfim chegando o dia da soltura de seu filho e, amargurada de ainda ao vê-lo ali preso. E hoje, ao visitá-lo, foi o encontrar amuado em seu cubículo. – Filho, o que foi?

– Hora o que foi? Quero sair deste inferno mãe!É ‘’que’’ quero acertar umas continhas fora daqui...

– Tu vais sair logo meu filho! As palavras saíram em tom acalentador da boca de Maria. Ver o filho em tal estado, não era uma coisa que ela estava preparada. Era sempre assim, todas as sextas-feiras, um recomeçar, uma agonia sem fim, uma vez por semana e todo o mês. A princípio, ela pensava que o filho morreria em dois tempos naquele lugar infernal, mas logo soube que o ‘’Comando Criminoso’’ havia suspendido, toda e qualquer, acerto de contas ali dentro. As ‘’broncas’’ deveriam ser resolvidas no lado de fora do presídio. Isto devido à superpopulação de presídio. – O advogado, disse que tu vai sair no mês ‘’qui’’ vem filho. O que Maria da Saudade não sabia, era que o ‘’Comando Criminoso’’ quem de fato mandava no presídio, fizera uma acareação, entre seu filho e o Josué de Guimarães Travasso, o ‘’Nego preto’’, que fora preso logo após o filho da Maria ‘’cair na rua’’. ‘’O Patrão’’ queira saber da ‘’bronca’’ entre os dois e, deixar bem claro que as diferenças entre os dois seriam acertados fora do presídio. ‘’O Patrão’’ ficou contente, por saber que quem dera o tiro que matou um ‘’casqueiro’’ qualquer fora o Nego preto e o filho de Maria da Saudade ficou quieto durante todo o inquérito e o processo que o arrolava como homicida. E agora que o Nego Preto estava na rua, uma coisa não saia da cabeça do filho de Maria da Saudade.

II
Ao subir na ‘’ziquinha’’, Josué de Guimarães Travasso, o Nego Preto só pensava no lucro que teria à noite. Repassar sua cota de drogas e ficar de boa com o traficante ‘’Trinta e oito’’, mas repente em sua mente um pressentimento lhe invade a mente. Um mau presságio, e a figura do ‘’prego’’ que estava ‘’pagando’’ cadeia no seu lugar, vêm em sua mente. Preto não sabia se ele já estava para ser solto ou não. Vender a arma para ele foi uma tacada de mestre, justo a arma que usara para matar aquele ‘’laranja’’, que lhe devia uma boa quantidade de craque. – Ligo ‘’pros’’ irmãos mais tarde, pra sabe do lance! –Diz Josué de si para si mesmo. E ao chegar bem em frente da escola aonde estudara aquele adágio lhe invade com toda a força. E ele não escuta o tiro, disparado em sua direção, que o derruba da bicicleta, mas senti o ombro esquerdo em brasas. Atônito e atordoado ‘’Nego preto’’ em sua confusão mental se vira e, vê a figura de uma mulher que se aproxima. Seu andar era firme e esguio, seus olhos verdes sem emoção alguma a lhe fitar bem de perto. Josué de Guimarães Travasso se lembra da fisionomia da mulher, só não sabe de onde. O Nego preto que sentia o ombro em brasas vê a arma apontada para sua têmpora e, um brilho laranja esbranquiçado e uma fumaça. Sua cabeça que é jogada para trás, e ele que sentia o ombro em brasas já não sentia mais nada.

Religiosidade Afro-Brasileira, pelo Prof. José Flavio Pessoa de Barros

O dia 13 de maio é uma ótima oportunidade para divulgarmos as religiosidades afro-brasileiras, vítimas do racismo e da intolerância da sociedade de um país que se autoproclama a maior democracia racial do mundo.

Portanto, é sempre bom ouvirmos um pesquisador do assunto, o professor José Flavio Pessoa de Barros (UERJ), que está postando uma série de vídeos no Youtube sobre a religiosidade afro-brasileira.

Clique nos links a seguir para ter acesso aos depoimentos do professor.

Ricardo Riso




 
Fonte: e-mail gentilmente enviado pelo colega Rafael Eiras em 13/05/2010.

Vasco Martins - Mare Oceanus (Sinfonia 9)

Prezados(as),

o músico e poeta cabo-verdiano Vasco Martins informa que concluiu a sua Sinfonia 9e chama-se, em difinitivo, «Mare Oceanus», e aqui compartilho os links enviados pelo consagrado artista:

podem ouvir a primeira versão gravada pela Moravian P.Orchestra, dirigida por Vit Micka:

a actual 'global score' em PDF:

uma versão no You Tube, com imagens:

Para quem quiser conhecer a poesia de Vasco Martins e ter acesso ao seu sítio e blog, basta clicar no marcador ao com o seu nome ao final deste texto.

Ricardo Riso

Fonte: e-mail enviado por Vasco Martins em 12/05/2010.

terça-feira, 11 de maio de 2010

Eduardo White - A fuga e a húmida do amor (excertos)

1

Possuem uma cabeça essas mãos com as quais repartes a farínica pele do pão que tomaste sobre a mesa. Têm os olhos porosos incrustados em sua crosta e a chuva cerca-as pela lembrança da lenha que o cozeu.

Das mãos, os dedos moldávios na massa, o risível conhecimento da insónia inquietando-a iluminada deformável.

Sinceramente: gosto do modo como o repartes, pouco a pouco, lentissimamente impregnada de inconfidencialidade, de terra, cinza e água. Matéria bastante para revelar-me, eu chamando-te.

Sabes-me a essa nudez do instante onde és ave a adornar a língua tilintante da beleza e onde o pão se confunde, aberto, repartido, contigo, nua habitável, como um país do qual se escreve.

No corpo um coração impresso, pulsante e matinal tal é a sua nitidez. Observo-o atento. para lá do que me é possível dizer.

As mãos, então, é que já te digo, espelhos autênticos, necessários ao tarot da música que reflectes como se a ela suasses. Poro a poro. Parte à parte incomensurável do seu corpo.
(p. 31)


6

Também, é bom beijar-te. Um beijo está sempre mais ao alcance da fala, do búzio sonoro do silêncio, da água aérea da saliva.

No entanto, quero que saibas que não me consterna o facto de aqui não estares. De nunca teres estado, pois nunca passaste, desde sempre, de uma visão.

O meu amor amura-te o suficiente para que sejas mais do que real. Aliás, como o é a minha loucura para os outros. Amar-te é como nascer, faço-o sozinho.

Embarcado no que acredito, no que recordo, no que avivo, no que crio e invento.

Em resumo: com o que te sonho.
(p. 38)


8

Acendo um feitiço dentro desta folha. A teoria da possibilidade de o seres. Os entes que evoco pelas conchas das palavras, os ungüentos da pontuação. Leio-os espalhados pela esteira. E uma tempestade nasce-me dentro. Em turbilhão.

Pedem-me os deuses outras falas. Outros estrebuchares do corpo. Outros revirares dos olhos. Tu impassível diante de tudo. Serena como uma lua a encandear a noite.

Não sei, nem dentro deste exorcismo, nem destas convulsões, não diviso os deuses pequenos para que te atendam. Que pacto terás feito tu com Deus para que estejas tão omnipresente, tão cândida e refrescante?

Estou possesso. Prostrado e angustiado pelo chão. Pelos vasilhames da exaustão.

Rendido ao mal do qual me havia proposto salvar-te.

Não estás, agora. Agora que, cambaleante, vou regressando da tontura. Tal como surges, partes.
(p. 40)

(WHITE, Eduardo. A fuga e a húmida escrita do amor. Maputo: Texto Editores, 2008)

quinta-feira, 6 de maio de 2010

África - a bola da vez, Revista Nova Escola nº 232


Para acessar o site clique aqui.

quarta-feira, 5 de maio de 2010

NA ESQUINA DO TEMPO - blog de Manuel Brito-Semedo (Cabo Verde)

Um ótimo blog para quem quiser conhecer aspectos culturais, literários e da identidade cabo-verdiana, além de um belo trabalho de preservação da memória intelectual do país, basta passar NA ESQUINA DO TEMPO, de autoria do Prof. Dr. Manuel Brito-Semedo.

Nascido na ilha de São Vicente, licenciado em Ensino da Língua Portuguesa pelo Inst. Superior Pedagógico de Maputo (Moçambique), Doutorado em Antropologia pela Univ. Nova de Lisboa, desde 1998. É membro fundador da Associação de Escritores Cabo-verdianos e membro da Associação Moçambicana de Língua Portuguesa (AMOLP). É pesquisador e professor da Universidade Jean Piaget de Cabo Verde.

Já publicou, dentre outras: Caboverdianamente ensaiando I e II; A morna balada - o legado de Renato Cardoso; A construção da identidade nacional - análise da Imprensa entre 1877 e 1975.

Segue, a parte inicial do texto "Escritores Cabo-verdianos são Trilingues":

"Segundo o conceituado romancista Teixeira de Sousa (Fogo, 1919-2006), os escritores cabo-verdianos são trilingues. Desta forma: “temos o crioulo, temos o português claridoso [...] e [temos] o português domingueiro, correcto e vernáculo, que usamos no ensaio, nos relatórios, nos ofícios, nos discursos, na correspondência, etc., etc.” [1].

De facto, é possível, através da análise das produções literárias detectar os momentos marcantes no discurso linguístico cabo-verdianos, porque os mesmos se sobrepõem aos períodos e sub-períodos ou fases da literatura, a saber: o Período do Cabo-verdianismo (1842-1936), o Período da Cabo-verdianidade (1936-1974/75) e o Período do Universalismo (1974/75-...)." mais

Abraços,
Ricardo Riso

terça-feira, 4 de maio de 2010

Palestras Ricardo Riso - maio/2010

Prezados,

convido-os para as palestras que participarei neste mês de maio/2010. São gratuitas.

Aguardo vocês.
Abraços,
Ricardo Riso

Palestra para turma de calouros do curso de Letras com ex-alunos apresentando as conquistas profissionais na área
Dia 11 de maio – às 19h
Auditório 3 – 22o. andar
Universidade Estácio de Sá – campus Centro I
Av. Presidente Vargas, 642 - Centro

Semana de Letras 2010 - Identidades
Multietnicidade nas literaturas de língua portuguesa: Brasil e Cabo Verde
Profa. Dra. Norma Lima e Ricardo Riso
Dia 12 de maio – às 19h
Universidade Estácio de Sá – campus Millôr Fernandes
Rua Dias Da Cruz, 255 - Shopping do Méier

segunda-feira, 3 de maio de 2010

SARAU AFRO MIX

SARAU AFRO MIX

Dia 10 de maio de 2010 - segunda-feira
das 18h às 20h - entrada franca
Galeria Olido
Av. S. João, 473 - térreo - centro - São Paulo

Mojuba,

O que é literatura para você?

Estamos convidando você para participar conosco do Sarau Afro Mix - Lima Barreto e Carolina de Jesus, na Galeria Olido.

Este sarau será realizado em maio, que tem no dia 13 para a maioria a lembrança da abolição (esta, ainda, inacabada), mas esse dia tem outros significados (consulte o calendário afro para essa e outras datas).

Um bom motivo para celebrar o dia 13, e quem gosta de ler, seja novo ou velho, negro ou branco, concordará conosco, é que é dia de nascimento do escritor Lima Barreto. No sarau, falaremos um pouco sobre esse escritor pré-modernista, que nasceu "sem dinheiro, mulato e livre" (conforme escreve e se descreve) e também sobre a escritora Carolina de Jesus, cuja obra "Quarto de Despejo" completa 50 anos em 2010 e é referência para muitos jovens, especialmente os moradores de periferia.

Então fica assim: Intervenção sobre Lima e Carolina; poesia com participação de Esmeralda Ribeiro, Helton Fesan, Márcio Barbosa, Sacolinha, Sergio Ballouk e Thyko de Souza (e quem mais chegar chegando); e intervenção musical com a cantora Lia Jones.

Teremos a roda de poemas, que é aberta a quem quiser levar suas poesias (sejam tradicionais ou em forma de rap). Basta entrar na roda e lê-las, declamá-las (desse jeito: cantamos um ponto, paramos, lê-se um poema, ponto, e a coisa segue...).

É uma ótima oportunidade que a literatura proporciona para renovarmos nossa energia.

"Canta pra assentar o axé, iô"
Axé!
Quilombhoje

Dina Salústio - Filhas do Vento (livro)


O novo romance de Dina Salústio, Filhas do Vento. A seguir, o texto de contracapa do livro.

DINA SALÚSTIO – Bernadina de Oliveria Salústio – nasceu em Cabo Verde, Ilha de Santo Antão, em 1941. publicações: Mornas eram as noites, contos, 1994; A Louca de Serrano, romance, 1998; Estrelinha Tlim Tlim, infanto-juvenil, 2000; Violência contra as Mulheres, estudo, 2001; O que os olhos não vêem, infanto-juvenil, co-autora com Marilene Pereira, 2002; Cabo Verde, 30 anos de edições – 1975/2005, catálogo enciclopédico, 2005.

Está presente em algumas antologias cabo-verdianas e estrangeiras. A sua escrita foi já matéria de vários estudos, destacando-se duas teses de mestrado e duas de doutoramento, além de alguns trabalhos científicos ligados quer à sua prosa quer à sua poesia. Sócia-fundadora da Associação dos Escritores Cabo-verdianos. 1º Prémio em literatura infanto-juvenil (1994), Cabo Verde e 3º Prémio em literatura infanto-juvenil dos PALOP, Países Africanos de Língua Portuguesa (2000). Galardoada pelo Governo de Cabo Verde com a Ordem do Mérito Cultural (2005).

“Filhas do Vento” narra a relação de uma menina com a avó, um fantasma que vive dentro de um livro. Atormentada por um crime que cometeu pede à neta que a livre de uma maldição que carrega, para que a sua família e a sua terra não se percam no meio de um eclipse do tempo. Um tempo sem dia nem filhos ou noite: sem riso, ódio, vento ou mulher; sem carnaval nem homem; sem emoção e amigos ou o mar de uma baía clara. Para a salvar, a neta terá que abandonar a própria história para cumprir o destino que a avó negara, milhares de gerações atrás. Quando Susane soube do pedido teve um ataque, possivelmente de fúria, quem sabe de riso, talvez de choro. Não, na verdade – conforme a velha ama falou – “deu-lhe uma coisa e caiu para o chão”.

 
SALÚSTIO, Dina. Filhas do Vento. Praia: Instituto da Biblioteca Nacional e do Livro (IBNL), 2009.

domingo, 2 de maio de 2010

III Espelho Atlântico - Mostra de Cinema da África e da Diáspora


III ESPELHO ATLÂNTICO
MOSTRA DE CINEMA DA ÁFRICA E DA DIÁSPORA

A III Espelho Atlântico - Mostra de Cinema da África e da Diáspora, com direção geral da cineasta Lilian Solá Santiago, traz pela terceira vez ao Rio de Janeiro sua primorosa seleção de filmes africanos e da diáspora negra.

De 11 a 16 de maio, com exibições simultâneas nas salas 1 e 2 da Caixa Cultural, a mostra proporcionará uma abordagem atual e significativa da produção cinematográfica africana contemporânea e da realizada fora do continente, mas que dialoga diretamente com a herança cultural do continente africano.

Falar de diáspora é reconhecer que a África vive. Não só nos territórios africanos de hoje, com sua enorme diversidade de povos e culturas, mas principalmente no Novo Mundo e na Europa. Em todos esses lugares, o que é branco, europeu, ocidental e colonizador sempre foram os elementos considerados positivos, o que reflete na cinematografia. A mostra “Espelho Atlântico” destaca o que comumente é posicionado em termos de subordinação e marginalização: o pensamento, os sentimentos e os traços negros – de africanos, escravizados e colonizados.

A III Espelho Atlântico - Mostra de Cinema da África e da Diáspora é uma rara oportunidade de assistir a importantes títulos, alguns inéditos por aqui, capazes de provocar uma profunda reflexão sobre os pontos de identificação e convergência entre as identidades brasileira, africana e ocidental.

PROGRAMAÇÃO E SINOPSES

Dia 11/05 – terça-feira

O espírito de luta (documentário)
Gana / Estados Unidos / Reino Unido – 2007
Direção: George Amponsah
Documentário, HD, 80’, Cor
Premiado com o AfroPop Award (2008) e no Festival de Documentário Real Life, exibido no New York African Film Festival e no Africa In The Picture Film Festival.
Três boxeadores, dois homens e uma mulher de uma pequena comunidade de Gana, buscam seu caminho para conquistar os maiores prêmios desse esporte, em Nova Iorque e Londres. A realidade da África moderna, os sonhos e ambições de seus jovens lutando por recompensa, respeito e a conquista de seu espaço.
Roteiro: George Amponsah; Produção: Michael Tait; Produção Executiva: Leslie Amponsah, Christi Collier, Jacqui Timberlake; Fotografia: George Amponsah; Montagem: James Devlin; Trilha sonora: Eric Windrich
Produtora: Guardian Films; Produtor Associado: Dionne Walker

Dia 12/05 – quarta-feira



Quero um vestido de noiva
Zimbabwe – 2008
Direção: Tsitsi Dangarembga
Ficção, Beta SP, 26’, Cor
Kundisai está de casamento marcado e deseja comprar um belo vestido de noiva. Tanto ela quanto seu noivo não têm dinheiro para transformar esse sonho tão simples em realidade. Para conseguir o vestido, Kundisai faz escolhas que podem não ter o resultado esperado.
Roteiro: Tsitsi Dangarembga; Produção: Olaf Koschke; Fotografia: Linette Frewin; Montagem: Olaf Koschke; Trilha sonora: Sister Flame; Produtora: Nyerai Films com apoio de UNFPA Zimbabwe

Yandé Codou, uma griot de Senghor
Senegal – 2008
Direção: Agèle Diabang Brener
Documentário, Betacam, 52’, Cor
Prêmio de público de melhor documentário no Festival de Filmes de Dakar (2008).
A cantora Yandé Codou Sène, 80 anos de idade, é uma das últimas mestras da poesia polifônica “sérère”. O filme é um olhar íntimo sobre uma diva que atravessou a história do Senegal perto de um dos seus maiores mitos, o presidente e poeta Léopold Sédar Senghor.
Roteiro e Produção: Angèle Diabang Brener; Diretor de Produção: Fabacary Assymby Coly (Loguiss); Assistente de Produção: Coudy Aly Dia; Fotografia: Florian Bouchet & Fabacary Assymby Coly; Montagem: Yannick Leroy; Edição: Damien Defays; Som: Mouhamet Thior; Mixagem de som: Damien Defays; Trilha sonora: Yandé Codou Sène, Wasis Diop, Youssou Ndour; Produtora: Karoninka; Co-Produção: Africalia Belgium

Dia 13/05 – quinta-feira

Darluz
Brasil – 2009
Direção: Leandro Goddinho
Ficção, MiniDV, 15’, Cor e P&B
“Dei José, dei Antonio, dei Maria. Dei, daria e dou. Não posso criar.”
Premiado no 17º Festival de Vídeo de Teresina – PI e no 16º Festival de Cinema e Vídeo de Cuiabá. Selecionado para o 10º International Film Festival Hannover.
Elenco: Mawusi Tulani, Antonio Vanfill, Carolina Bianchi, Ricardo Monastero, Ester Laccava, Tayrone Porto, Valdir Grillo, Lucélia Sérgio.
Roteiro: João Fábio Cabral e Leandro Goddinho; Direção de Produção: Juliana Kiçula e Renata Esperança; Produção: Leandro Goddinho; Fotografia: Fred Ouro Preto; Direção de Arte: Antonio Vanfill; Montagem: Leandro Goddinho; Design de som: Leandro Goddinho

Aproveite a pobreza
Holanda – 2008
Direção: Renzo Martens
Documentário, BetaCam, 90’, Cor
Selecionado para a abertura de Amsterdam International Documentary Festival.
Durante dois anos, o diretor viajou pelo Congo, desvendando a indústria da luta contra a pobreza no país pós-guerra civil. Sua conclusão: a pobreza veio para ficar, e "combatê-la" é uma indústria que em nada beneficia os pobres.
Roteiro: Renzo Martens; Produção: Peter Krüger, Renzo Martens; Fotografia: Renzo Martens; Montagem: Jan De Coster; Edição de Som: Raf Enckels; Mixagem de som: Federik van de Moortel; Produtora: Renzo Martens Menselijke Activiteiten; Co-Produtora: Inti Films

Dia 14/05 – sexta-feira



Quase todo dia
Brasil / Estados Unidos – 2009
Direção: Gandja Monteiro
Ficção, 35mm, 18’, Cor
Selecionado para o Los Angeles Latino International Film (2009), Festival do Rio de Janeiro (2009) e Tribeca Film Festival (2009).
Em um dia de inverno, Priscilla e sua filha percorrem uma longa jornada enfrentando engarrafamentos, situações inesperadas e o descaso das pessoas de quem Priscilla mais precisa neste importante momento de sua vida.
Elenco: Priscila Marinho, Agatha Marinho, João Lima, Fernanda Félix, Hélio Braga
Roteiro: Gandja Monteiro; Produção Executiva: Gandja Monteiro, Kevin Sutavee; Produção: Carol Albuquerque; Fotografia: Julia Equi; Montagem: Gandja Monteiro, Bruno Toré; Som: Bruno Fernandes; Mixagem de som: Richard Levengood; Direção de arte: Carolina Britto; Produtora: 6&B Films; Co-produção: Laura Grant; Produtora Associada: Juliana Monteiro, Ana Sette, Bruno Toré

35 doses de rum
França/Alemanha – 2008
Direção: Claire Denis
Ficção, 35mm, 100’, Cor
Selecionado para o Toronto Film Festival (2008) e Festival de Veneza (2008). Premiado em Gijón International Film Festival (2008) e nomeado em Chlotrudis Awards (2010).
O viúvo Lionel vive com sua filha, Josephine no subúrbio de Paris. Enquanto ele atrai a atenção de uma mulher de meia-idade, um taxista do bairro flerta com Josephine. Lionel percebe que a filha está ficando independente e que talvez seja hora deles confrontarem seus passados.
Elenco: Alex Descas , Mati Diop , Nicole Dogué , Grégoire Colin , Jean-Christophe Folly, Julieth Mars, Djedjé Apali, participação especial: Ingrid Caven
Roteiro: Jean-Pol Fargeau e Claire Denis; Direção de Produção: Benoit Pilot; Produção: Bruno Pesery; Fotografia: Agnès Godard; Montagem: Guy Lecorne; Música: Tindersticks; Direção de arte: Arnaud de Moléron; Som: Martin Boissau, Christophe Winding e Dominique Hennequin; Produtora: Soudaine Compagnie; Co-produção: Christophe Friedel e Claudia Steffen

Dia 15/05 - sábado

Black Berlim
Selecionado para o Lateinamerika-Institut (LAI) da Universidade Livre de Berlim (FU Berlin).
Brasil /Alemanha – 2009
Direção: Sabrina Fidalgo
Ficção, DV, 13’, Cor e P&B
Nelson é um jovem baiano estudante de engenharia em uma renomada universidade em Berlim. Leva uma vida hedonista, distante de suas verdadeiras raízes. Tudo muda quando ele passa a encontrar Maria, uma imigrante ilegal do Senegal. As lembranças o remetem a um passado que ele preferia esquecer.
Elenco: Bobby Gomes, Sabrina Fidalgo, Robson „Caracú“ Ramos, Marília Coelho, Walter Chavarry, Luíza Baratz, João Vítor Nascimento,Tonia Reeh, André Schröder, Carolina Ciminelli, Juan Velloso Melo, Clara Buentes e Lucas Cruz
Narração: João Correa; Roteiro: Sabrina Fidalgo; Produção Executiva: Sabrina Fidalgo e Monique Cruz; Fotografia: Ras Adauto; Montagem: Chico Serra e Fernando Oliveira; Trilha sonora: Liz Christine; Direção de arte: Marcelo Moraes; Som: Toninho Muricy; Mixagem de som: Bruno Espírito Santo; Produtora: Kfofo Productions; Co-produção: Eduardo Raccah; Co-produção: Casa Cinco Produções, Associação Cultural & Teatral Ubirajara Fidalgo

Em Quadro - A História de 4 Negros nas Telas
Selecionado para a abertura da Mostra Especial Fora de Competição do 37º Festival de Cinema de Gramado e para o Festival do Rio (2009).
Brasil – 2009
Direção: Luiz Antonio Pilar
Documentário, Color Digital, 93’, Cor
O documentário retrata vida e obra de Ruth de Souza, Zezé Motta, Lea Garcia e Milton Gonçalves. Os cineastas Roberto Farias, Cacá Diegues, Antonio Carlos da Fontoura e Joel Zito Araújo relatam experiências em obras como O Assalto ao Trem Pagador, Xica da Silva, A Rainha Diaba e Filhas do Vento.
Roteiro: Luiz Antonio Pilar; Produção Executiva: Luiz Antonio Pilar; Assistente de direção e produção: Flavia Trindade; Fotografia: Daniel Leite e Werner Lachtermacher; Montagem: Duda Villa Verde e Flavia Trindade; Trilha sonora: Julius Britto; Produtora: Black e Preto Produções Artísticas, LAPILAR Produções Artísticas

Dia 16/05 - Domingo
Doido Lelé
Brasil – 2009
Direção: Ceci Alves
Ficção, 35mm, 15’, Cor
Premiado no 4º Festival do Paraná de Cinema Brasileiro Latino, exibido na mostra Corrida Audiovisuelle, em Toulouse como convidado da École Supérieure d’Audiovisuel (ESAV), França.
Caetano sonha em ser cantor de rádio na década de 1950 e foge todas as noites de casa para tentar, sem sucesso, a sorte num programa de calouros. Até que, uma noite, ele aposta tudo numa louca e definitiva performance.
Elenco: Vinícius Nascimento, Jussara Mathias, Maurício Pedrosa, Nonato Freire
Produção: Vanessa Salles; Roteiro: Ceci Alves; Produção Executiva: Fátima Fróes; Fotografia: Pedro Semanovschi; Montagem: Dedeco Macedo; Direção de arte: Hamilton Lima; Trilha Sonora: Gerônimo Santana; Som: Napoleão Cunha

Bem-vindo à Nollywood
Selecionado para o Full Frame Documentary Film Festival (2007), Avignon Film Festival (2007) e Melbourne International Film Festival (2007).
Estados Unidos – 2007
Direção: Jamie Meltzer
Ficção, 35mm, 56’, Cor
Em Lagos, capital da Nigéria, o diretor segue três dos mais conceituados realizadores de Nollywood, cada um com seu diferente estilo e personalidade, enquanto produzem seus filmes sobre amor, guerra, traição e o sobrenatural.
Roteiro: Jamie Meltzer; Produção: Michael Cayce Lindner, Henry S. Rosenthal; Fotografia: Bruce Dickson, Akinola Davies, Jamie Meltzer; Montagem: Daniel J. Friedman; Música: Ben Krauss e Dave Nelson; Co-produção: National Black Programming Consortium e Infinity Films Nigeria; Produtores Associados: Chris Eriobu, Akinola Davies, Bruce Dickson

III Espelho Atlântico – Mostra de Cinema da África e da Diáspora
Local: CAIXA Cultural RJ – Cinemas 1 e 2
Endereço: Av. Almirante Barroso, 25, Centro (ao lado da estação Carioca do metrô)
Tel: 21 2544 4080 / 21 2544 4080
Temporada: de 11 a 16 de maio de 2010
Sessões: a partir das 19h
Preço: R$ 4,00 (inteira); R$ 2,00 (meia-entrada) e R$ 10,00 (passaporte para 08 sessões).
Acesso para portadores de necessidades especiais.
Classificação indicativa:14 anos