quarta-feira, 19 de maio de 2010

Ao município da Praia, pelo seu 19 de maio - 152 anos

CIDADE VI


“a arménio vieira, jorge carlos fonseca, osvaldo azevedo,
oswaldo osório, fernando monteiro, armindo silva,
daniel benoni, ludgero correia e fi linto elísio correia e silva,
observadores, amantes e críticos da cidade”

Nós temos uma cidade.
A nossa cidade nem sequer chega a ser nojenta.
A nossa cidade está de nojo.
A nossa cidade está de nojo pelos sobreviventes da cidade.

Estes deambulam circunspectos pelas ruelas de ponta-belém e pelo que sobreviveu das ruas de madragoa, de sá da bandeira, de andrade corvo, de serpa pinto, da república, de cândido dos reis, da horta, da moradia, oh!, pelas antigas ruas cinicamente sorrindo, transfi guradas e ainda aturdidas sob as vestes e os nomes heróicos das placas toponímicas recém-colocadas.

Prosseguem pela pracinha da escola grande, constatam que, entre os canteiros descuidados e as fl ores devassadas, a mesma continua estranhamente ostentando o nome original do poeta de os lusíadas e a estátua em bronze do doutor lereno, ilustrativa das suas benemerências de médico humanista.

Continuam até à pracinha do liceu, descansam por momentos aprazíveis nos bancos dos jardins fl oridos e, maquinalmente, recitam os versos de camões ainda inscritos nos azulejos azuis exaltantes da expansão portuguesa e que estoicamente sobreviveram aos tumultos estudantis que se seguiram ao golpe de estado do 25 de abril de 1974.

Postam-se depois nos muros avarandados da cidade e lançam olhares tristes sobre a imensidão dos subúrbios. Planam o olhar pelas silhuetas de ponta-de-água, da achada eugénio lima, da achada grande, do paiol, da fazenda, de lém-cachorro, do castelão, da vila nova, da achadinha, de pensamento, de safende e de outros bairros postados contra a longínqua imponência das montanhas do interior da ilha e o translúcido e majestoso vulto do pico de antónio.

Tranquilizam-se e ao seu espírito inquieto deambulando imaginariamente pelos jardins do parque 5 de julho, complexo recém-inaugurado com enjoativas pompa e circunstância acompanhadas dos discursos heróico-cavalgantes do costume. Admitem a contragosto que o parque se tornou lugar emblemático da cidade, seu pulmão verde e centro de diversões nocturnas e de diurnos e apaziguadores multi-usos. Embevecidos, fi xam-se nos perfi s das suas duas casa padja, felizes recriações modernas e vagamente monumentais das antigas casas rurais cobertas de palha para a realização de colóquios, concertos, mesas-redondas, seminários e conferências internacionais, tão destes ofuscantes tempos, embebidos de petulância e de promiscuidade entre os fi lhos de gente antiga, branca e fi na e filhos de pés descalços, enfatuados o quanto baste nas suas vestes e poses de doutores recém-licenciados em universidades comunistas dos países de leste.

Agitam-se, tomados de maus agoiros, com o pressentimento da breve decadência desse novo rosto da cidade e de outros novos rostos, como, por exemplo, o centro social primeiro de maio, o restaurante hong kong (obviamente de indecifráveis comerciantes chineses), todos marginando a avenida cidade de lisboa, de nome inegavelmente auspicioso mas construída, imagine-se, nas circundações dos bairros suburbanos da achadinha e da várzea e dos casebres do taiti.

Cidade de lisboa… quedam-se saudosos na silenciosa evocação das férias graciosas passadas ou imaginadas na capital do império e cogitam demoradamente na obstinação desses antigos combatentes do mato agora reciclados como sagazes salvadores da pátria por mor da sua astúcia na arrecadação das ajudas internacionais. Fogo fátuo, condenado à lenta extinção, profetizam pessimistas, por efeito do mero cansaço dos doadores internacionais, agora promovidos a parceiros estrangeiros do desenvolvimento, afi nal meros substitutos dos congeminadores metropolitanos dos antigos planos de fomento que tantas escolas, estradas e postos sanitários trouxeram à província ultramarina. Afinal, meros sósias sem a glória da pátria e a grandeza do império!

Desistem de imaginar o burburinho que irá por achada de santo antónio, tira-chapéu (ou frouxa-chapéu, para os mais renitentes) e outros subúrbios das proximidades do mar, agora envaidecidos pela presença próxima da antiga placidez das moscas e das alimárias e das hortas miraculadas do palmarejo, de símbolos do poder como o palácio da assembleia nacional popular, as embaixadas da união soviética, da china e de portugal, de vivendas e residências de ministros, juízes, directores-gerais, inspectores das fi nanças, auditores das alfândegas e outros altos funcionários do estado.

Dir-se-ia, pensam de si para si e nos subúrbios que se estendem defronte dos seus olhos indignados, um extenso mercado de candongueiros, um roque santeiro luandense ou um imenso acampamento de exércitos hititas prestes a invadir ménfis, tebas e outras cidades egípcias e a destruir a grandeza das suas pedras multisseculares e a magnificência das suas memórias milenares.

Atravessam a rua do hospital. Alguns dos sobreviventes da cidade encarceram-se no pavilhão dos alienados, dementes e possessos da quinta enfermaria do hospital central “agostinho neto” para sessões de consulta psiquiátrica e de meditação sobre o tempo e a cidade ou, melhor, sobre os tempos da cidade.

Conspícuos, os habitantes da cidade apresentam condolências ao quase-cadáver sorridente da cidade. As melhores condolências, asseguram, são as que se apresentam aos sobreviventes, as únicas vítimas de algum mérito e merecedoras de autêntica pena, escárnio que baste e muita condescendência. Afi nal, verdadeiros mortos-vivos, são eles irrefutável memória e assídua presença das ruínas do futuro! Ah! os sobreviventes da cidade!

Nem sequer acreditam na ressurreição do seu lugar de natalidade. Espavoridos e insólitos, sentados na plácida e obesa comodidade das tocatinas e das conversas de fi m de tarde nos bancos da praça grande, observam o crescer dos prédios, a abertura de novas avenidas, o calcetamento de novos arruamentos (e, fantasiam, a asfaltagem e, extrapolam, quiçá a pavimentação artística de vias exclusivamente destinadas aos peões), a alegre devoração e as doces guerras dos festivais de música, a consonântica (mas, admitem, melodiosa) desfaçatez de alguns dos recém-chegados …

Com um certo temor e muito a contra-gosto digerem o impúdico abraço entre o plateau e os subúrbios. Por isso, declinam os convites para as inaugurações de empreendimentos turísticos e de modernas vias rápidas que, cogitam, pretendem unifi car as achadas, achadinhas, várzeas, colinas, encostas e ribanceiras numa, profetizam sarcásticos, cidade-menina do atlântico.

Meditativos, os sobreviventes da cidade revisitam os lugares da infância e, pressurosos, lamentam o entranhado lixo da cidade, a proliferação do comércio ambulante e das quotidianas feiras debugigangas, a ruína de lojas tradicionais emblemáticas (como a casa serbam, a loja herculano, a casa feba, as galerias-praia), a caótica degradação dos bairros, o terramoto da miséria e do êxodo rural, a invasão dos bárbaros que, dizem, são os sampadjudos das as-ilhas, os badios de fora (das aldeias, dos cutelos e das vilas do interior da ilha), os cooperantes de carteiras recheadas e olhos claros omniscientes, os mandjacos (negros, animistas e muçulmanos da costa de áfrica), os comerciantes chineses que, escudados na monumentalidade do palácio da assembleia nacional popular na achada de santo antónio e no baixo preço dos produtos importados da sua ásia natal, vêm arruinado os comerciantes locais, não se coibindo sequer de se juntar aos rabidantes indígenas das ilhas e instar os mandjacos a irem para a sua terra, a regressarem às suas cubatas aldeãs e suburbanas…

Enfim, e para culminar, constatam consternados a negra veracidade do que os petulantes da cidade denominam a plena dakarização das ruas, das mentalidades, da cidade...

Em conversas segredadas asseveram que enquanto uns invadem os leitos das ribeiras e as encostas (como se pode verifi car in loco na chamada embaixada (ou encosta) dos sampadjudos, sobranceira ao subúrbio das vila nova), e constroem bairros de barracas e casebres sumamente degradados em safende, vila nova, et cetera, et cetera, outros ocupam a beira-mar e refastelam-se nas vivendas e outros rostos recentes e outros recantos antiquíssimos da capitalidade, remetendo os sobreviventes da cidade para a insignifi cância e a amnésia, para a triste irrelevância de moradores antigos e primeiros da capital, cidade cantada e vilipendiada como rochosa transfiguração da velha e antiga metáfora de cidade santa, urbe reiterada e secularmente mal-amada por alguns conhecidos forasteiros que nela e noutras reinam e todavia reivindicam.…

Sentados no cruzeiro, os sobreviventes da cidade observam o mar e a sua possível transfi guração em trilho para o além, em viagem ou suicídio desde que represente uma forma defi nitiva de fuga ao corpo putrefacto da cidade.

Cidade despojada da praia negra e dos seus coqueiros e pic-nics, substituídos pelos dejectos da fábrica de cervejas e pelo cheiro nauseabundo dos tanques onde vão sendo experimentadas novas formas de energia renovável sem qualquer utilidade prática imediata ou visível.

Cidade despojada da memória do verde, dos pássaros cinzentos e do canto do bico de lacre no taiti e nas antigas florestas circundantes do bairro craveiro lopes e da fazenda, para sempre extintas.

Sentados no cruzeiro, sob os auspícios e a ferrugem dos canhões antiquíssimos e a proximidade das conversas dos moradores dos apartamentos pequeno-burgueses dos prédios do ténis, os sobreviventes da cidade são tomados de um imperecível desejo de evasão da cidade carregada de vento, pó, ruas esburacadas e sobrepovoada de insolentes animais, racionais e irracionais, domésticos e exóticos.

Sentados no cruzeiro, os sobreviventes da cidade cogitam, utópicos e visionários, e ante os seus olhos confi guram-se as imagens de uma longa avenida marginal estendendo-se, asfaltada, iluminada e movimentada, da gamboa, passando pelo porto, até à praia da mulher branca, com as devidas e modernas bifurcações para um mais moderno aeroporto internacional e os remodelados bairros de lém-ferreira, ponta-de-água e achada-grande-trás…

Pesarosos, os sobreviventes da cidade debruçam-se sobre as trucidadas flores da praça grande, das pracinhas da escola grande e do liceu adriano moreira (os sobreviventes da cidade recusam-se a pronunciar o novo nome do liceu, domingos ramos, guinéu e comparsa semi-analfabeto de, imagine-se, outros terroristas, ou de modo mais eufemístico, combatentes do mato, em boa hora neutralizados, como amílcar cabral, josina machel, eduardo mondlane, chico té, che guevara, justino lopes, jaime mota, ludgero lima e o ainda mais execrável kwame nkrumah…).

Crispados, os sobreviventes da cidade cogitam sobre a futura reposição da verdade dos lugares e dos seus nobres e pátrios nomes, como craveiro lopes, alexandre albuquerque, andrade corvo, serpa pinto, sem, obviamente, esquecer os heróis de mucaba…

Os sobreviventes da cidade rezam sobre as ruínas da cadeia civil e dos sobrados coloniais amarelecidos pelo tempo e pela decrepitude, os quintais de algumas casas térreas de persianas verdes, janelas envidraçadas e soalheiras meias-portas e outras casas típicas do planalto da cidade da praia, urbe outrora chamada de santa maria da esperança e da vitória.

Os sobreviventes da cidade indignam-se com a transfi guração do planalto (recapitulam: capital de facto das ilhas de cabo verde desde o abandono da cidade velha em 1776 e capital ofi cial da província ultramarina desde 29 de Abril de 1858) em reles e francófono plateau de uma cinematografi a, na qual a cidade se transmutou em mero figurante numa vilã miríade de subúrbios.

Os sobreviventes da cidade continuam deambulando pelas ruelas e constatam com alívio, orgulho e alguma vaidade que os moradores das casas mais modestas dos quarteirões mais pobres do planalto-capital recusam terminantemente a deportação para o longínquo bairro da terra-branca (branca de novos ricos indígenas e de cabelos loiros cooperantes, dizem sarcásticos) ou para qualquer achada, achadinha ou ribeira, todas fl ageladas pelo cinzento, pelo abandono, pelo caos, pelo despojamento de urbanidade, por todo o tipo de carências, pela ausência de qualquer memória urbanística e, sobretudo, pela irremissível circunstância de serem baxu-praia, abaixo da praia, sub-praia…

Os sobreviventes periféricos e suburbanos do planalto-capital preferem ser despejados. O cubículo ou a casa térrea de dois ou três quartos e muita promiscuidade não se salva, mas ao menos salvam-se a honra e a dignidade de indefectíveis praienses. Ocupa-se a praça e abre-se escritório de conversador na esplanada central da cidade, no restaurante avis ou no café cachito ou abanca-se como engraxador de sapatos na praça alexandre albuquerque (arremetem os auscultadores da cidade: mas a polícia nega-se a fazer reluzir as botas na praça “12 de Setembro”. Quando for o caso não há-de a polícia precisar de botas reluzentes. Abaixo o boato e a paranóia!)

Os habitantes da cidade estão de nojo. Pelos sobreviventes da cidade ou por si próprios.
Milhafres e vampiros debicando o cadáver da cidade. Persistentemente. Diligentemente.

Os habitantes da cidade estão de luto. Pela cidade e por si próprios.
Cadáveres futuros sobre o corpo arruinado da cidade.
Irremediavelmente.

Dizia eu, nós temos uma cidade.
A nossa cidade e os seus habitantes nem sequer chegam a ser nojentos.
A nossa cidade e os seus habitantes estão aparentemente de nojo.
Estão de nojo pela cidade e pelos sobreviventes da cidade.
Magnanimamente.

(poema atribuído ao heterónimo Erasmo Cabral de Almada)

(ALMADA, José Luis Hopffer. Praianas. Praia: Spleen Edições, 2009. p. 115-121)

sexta-feira, 14 de maio de 2010

ANTI (minha) EVASÃO - Ana Paula Lisboa

Ana Paula Lisboa é poetisa, colega do curso de Letras e autora do blog Quando eu resolvo escrever - .
Abaixo, sua releitura do poema Anti-evasão, de Ovídio Martins

ANTI (minha) EVASÃO - Ana Paula Lisboa

Eu também não vou.
Pedirei contigo,
Suplicarei junto
E chorarei muito mais que tudo.

“Não vou para Pasárgada!”

Me jogarei ao chão também,
Mas como criança birrenta
Vou bater os pés bem forte.

Tenho uma faca em punho
E a Palavra escrita no pulso.

Vou ficar aqui!
“Não vou para Pasárgada!”

Eu posso passar ferias,
Talvez uma breve temporada.
Mas meu lugar é aqui.

Não é por opção,
é por escolha.
Eu escolhi ficar!
Aqui é o quartel da resistência.

Berrarei.
Gritarei.
Matar será a menor das coisas que farei.

Eu estou cansada sim...mas
Os que estão comigo não me
Deixam abandonar a luta armada.

Já perdi uma perna nessa guerra.
Ganhei um tiro no coração.
Fui torturada, marcada a fogo
E a ferro como gado.
Mas eles erraram ao me deixarem
Os braços intactos e não me mataram a
Imensa fome de escrever.

“Não vou para Pasárgada!”
 
(Versos inspirados no poema “Anti- Evasão” de Ovídio Martins)

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Ovídio Martins – desesperadamente Caboverdeano (A Nação nº 141)


Por Ricardo Riso

Publicado no semanário A Nação, nº 141, de 13 a 19/05/2010, p. 38.

Sob o inferno colonial português e as suas abomináveis táticas de repressão, tortura e medo, submetendo o povo caboverdeano à miséria e à ignorância, e dando sequência à afirmação identitária – “de fincar os pés na terra”, como diria Manuel Lopes – iniciada pelos escritores da revista Claridade, surge a geração da Nova Largada com o propósito de dar continuidade ao projeto claridoso, porém acentuando a postura contrária à política vigente à época como podemos inferir nas temáticas da revista Certeza (1944), e a posterior e necessária radicalização na virada dos anos 1950/60 em publicações como Suplemento Cultural, Boletim dos Alunos do Liceu Gil Eanes e Seló – Página dos Novíssimos.

Motivados pela crítica ferrenha ao colonialismo, fazendo da poesia a arte da intervenção social e usando a força da palavra contestatária para estimular a revolta e o inconformismo, os poetas da Nova Largada, dentre outros, Arnaldo França, Orlanda Amarilis, Tomás Martins, Gabriel Mariano, Onésimo Silveira, e posteriores seguidores dessa linha urgem os nomes de Arménio Vieira, Oswaldo Osório e Mário Fonseca, todos projetores da gestação de um país independente. Insubmissos, partícipes da “noite grávida de punhais”, junta-se a eles o mindelense Ovídio Martins.

Ainda, para complementar esse processo de configuração de um sentimento nacional e de aspiração por uma nação livre, dando o seu contributo e a importância histórica devida, há a criação do PAIGC (Partido Africano para a Independência de Guiné e Cabo Verde) sob a visionária e correta liderança de Amílcar Cabral. Também é necessário frisar a relevância de ensaios perscrutados no campo cultural de Gabriel Mariano, com destaque para “Do funco ao sobrado ou o mundo que o mulato criou”, que estimulam a origem mestiça e o vínculo com o continente africano.

Um dos mais combativos poetas de sua geração, Ovídio Martins (17/08/1928 – 29/04/1999) foi um defensor implacável da libertação colonial, comprometido em denunciar as injustiças que afligiam seus pares. Exaltado defensor do antievasionismo, atualizou a Pasárgada de Manuel Bandeira que inspirou Osvaldo Alcântara para a urgência político-social de seu tempo, “Gritarei / Berrarei / Matarei / Não vou para Pasárgada”, para, em nome da união de seu povo, “estendermos as mãos / desesperadamente estendermos as mãos / por sobre o mar”.

O mar para este poeta dos olhos que “rolam lágrimas cor de sangue” teve a sua relação reconfigurada, sendo revisada a condição insular do ilhéu, porque naquele momento passou a ser um aliado contra o colonialismo e incorporado à construção identitária caboverdeana, pois “o mar transmitiu-nos a sua perseverança” e agora “as ondas não são muros / são laços de sagarços / que servirão de leito / à grande madrugada”.

Detentor de um olhar atento ao sofrimento dos seus pares, a figura arquetípica do contratado possui espaço considerável nos poemas de Ovídio Martins que expõe a dor daqueles que estão distantes, submetidos aos trabalhos forçados nas roças e nas prisões das ilhas de São Tomé. Solidária, a voz do sujeito lírico convoca os irmãos caboverdeanos para prestar atenção às mazelas dos distantes companheiros: “Silêncio Cabo-Verdianos! / choram irmãos nossos / nas roças de São Tomé”; e, ainda assim, passar mensagem de esperança: “Bendito sejas / serviçal cabo-verdiano / Não deixes que tuas pálpebras /amorteçam na dor / É preciso enrijá-las / para o dia do regresso / Que voltarás / não numa manhã de nevoeiro / de morbidez alquebrada / mas num dia de sol quente”.

Infere-se que a poesia para Ovídio Martins foi um espaço de reivindicação, de coerência com seus ideais, de luta libertária contra a opressão de seu tempo constatadas em seus livros “Caminhada” (1962), “Tchutchinha” (1962) e “Gritarei, berrarei, matarei: - Não vou para Pasárgada!” (1973). De “Ilha a ilha. Dor a dor. Amor a amor”, o poeta contribuiu para a concretização da utopia, para o surgimento de Cabo Verde independente.

Samuel da Costa, literatura negra contra o banzo pós-moderno

Quando completou 100 anos de abolição da escravidão no Brasil em 1988, os grandes meios de comunicação viram nesta data uma excelente oportunidade para fortalecer a mentira da democracia racial em nossa sociedade. Porém, não contavam com a sensibilidade dos movimentos negros que perceberam, de forma brilhante, que esta data seria ideal para denunciar o racismo sofrido por nós, negros, e as demais desigualdades impostas a mim, a você e a todos os nossos irmãos negros.

Portanto, aproveito este dia para apresentar um jovem escritor negro, sensível aos problemas que enfrentamos em nosso cotidiano, natural de Itajaí – Santa Catarina, chama-se Samuel da Costa (samueldeitajai@yahoo.com.br), autor de Horizonte Vermelho e Na cor e na flor.

A seguir estão alguns poemas e um conto gentilmente enviados pelo autor. Para conhecer um pouco mais da obra de Samuel da Costa, acesse os endereços a seguir:



Abraços,
Ricardo Riso


Não! Eu não quero mais ser negro

Cansei de ser negro
De ser parado pela polícia
Ser confundido com um bandido qualquer
De ter relações promíscuas com os políticos
Sendo sempre massa de manobra
Na mão de algum abnegado...
Não! Eu não quero mais ser negro
Ser minoria nas universidades
Ser tachado de preguiçoso...
Ser o primeiro de lista dos desempregados
Não quero ficar para trás
De tudo
De todos
Das oportunidades
De um futuro melhor
Não quero mais ser negro
Ser excluído de todas as formas
De todas a maneiras
Definitivamente estou casando de celebrar
Meus ritos escondidos
Dos olhos da sociedade
Não quero mais ser negro
E ter a responsabilidade de ser:
No melhor no futebol
Ser bom no pagode
Não...
Não quero mais ter um passado
negro
Que cheira a escravidão
Que cheira a dor
Quero renunciar ao meu futuro
De dor
Não quero mais ser negro
Chega de sofrer
O banzo pós-moderno


Negras memórias
A José Bento Rosa

A pele é negra
A minha pele
Tem que ser negra
O olfato negro...
Ao fato negro
O fator negro
É sempre negro
O poder negro
Do mercado negro
Quer manchar nossa história
Que compõe nossa estória
Que é sempre negra
Como meu passado é negro
Que tem o tom da minha pele
Cor negra por todos os lados
Cor de ébano!
Como minha memória...
Negras memórias!
De um pobre negro...
Do negro pobre
Que é sempre negro
Como meu passado negro
Que não é negro
Mas é negro!
Tão negro como minha pele...
...negra
Pois tenho origem no velho continente
O velho mundo
Que é negro
Assim como minha pele
Que é negra
Pois somos!
Os braços!
As pernas!
A nação proletária
Com as costas marcadas
Das chibatas
Negra...
Que movimentaram
Que movimentam
Que movimentarão
O futuro...
Desta Terra
De novo mundo...
Sou negro
Assim como minhas...
...memórias
Que alguns tentam
Em vão apagar
Minha consciência é negra
Meu passado é negro
Meu futuro há de ser negro


Com licença EU vou a luta
Para Tais Carolina Rita

Meu senhor vai bem!
A colheita foi boa!
Este ano...
Este século...
Para o meu senhor tudo vai bem!
Alguns negros fingiram!
Outras negras pariram,
Muitos outros...negros!
Meu senhor a colheita foi boa!
Este ano!
Este século...
Foi boa
Os Negros?
Os negros!
Alguns morreram...
Alguns Forros
Mas outros ficaram
Meu senhor
Meu amo...
Meu sinhô
A colheita foi boa!
Mas as correntes enferrujaram
Sinhô
E os negros e negras
Forros
Não estão mais aqui
Contudo preferiram
Ficar!
Livres!
Dispersos!
Por ai em qualquer lugar


 
Tumbeiro

Amarga e sonha!
Transporta tumbeiro
A negra dor
A negra carne
A carne negra
Lacera e lacera...
A negra vida
Transporta
Enrique-se
O mundo branco!
O branco luxo
A negra dor
Transporta
E lacera a negra carne
Transborda
De riqueza
O mundo branco!
Mundo reluzente
Racional
Transporta o negro
Ouro
A negra sina
O negro pranto


Para a Mãe África (Eu me rebatizo)
(Em memória a Miguel M. da Costa)

Ao som dos tambores...
Para o povo que sofre...
Para arte profana...
Eu me rebatizo
Vou me rebatizar
Para ti Oh Mãe África
Dos ridículos da vida
Volto para ti
Para a Mãe África
Para o povo que sofre
Volto para ti...
Para música profana
Com todo o rigor
Eu me rebatizo
Para toda a música profana
Do batuque...
Dança a música profana
O batuque...
Para toda a música profana
Volto para ti
Oh mãe África...


Adeus carne

l
O corpo esguio e o andar rápido em meio aos corredores e, ela não parecia se importar com o fato dos detentos estarem perfilados e, de cara para a parede, enquanto ela passava. O fato já não intrigara mais Maria da Saudade, com seus olhos verdes sedutores e seus quarenta anos de idade, e já se foram um pouco mais de um ano que fizera sua primeira visita ao seu filho no cárcere. Ficou sabendo logo como as coisas ali se precediam. E ficou feliz e amargurada ao mesmo tempo. Hoje esta especialmente feliz, pois estava enfim chegando o dia da soltura de seu filho e, amargurada de ainda ao vê-lo ali preso. E hoje, ao visitá-lo, foi o encontrar amuado em seu cubículo. – Filho, o que foi?

– Hora o que foi? Quero sair deste inferno mãe!É ‘’que’’ quero acertar umas continhas fora daqui...

– Tu vais sair logo meu filho! As palavras saíram em tom acalentador da boca de Maria. Ver o filho em tal estado, não era uma coisa que ela estava preparada. Era sempre assim, todas as sextas-feiras, um recomeçar, uma agonia sem fim, uma vez por semana e todo o mês. A princípio, ela pensava que o filho morreria em dois tempos naquele lugar infernal, mas logo soube que o ‘’Comando Criminoso’’ havia suspendido, toda e qualquer, acerto de contas ali dentro. As ‘’broncas’’ deveriam ser resolvidas no lado de fora do presídio. Isto devido à superpopulação de presídio. – O advogado, disse que tu vai sair no mês ‘’qui’’ vem filho. O que Maria da Saudade não sabia, era que o ‘’Comando Criminoso’’ quem de fato mandava no presídio, fizera uma acareação, entre seu filho e o Josué de Guimarães Travasso, o ‘’Nego preto’’, que fora preso logo após o filho da Maria ‘’cair na rua’’. ‘’O Patrão’’ queira saber da ‘’bronca’’ entre os dois e, deixar bem claro que as diferenças entre os dois seriam acertados fora do presídio. ‘’O Patrão’’ ficou contente, por saber que quem dera o tiro que matou um ‘’casqueiro’’ qualquer fora o Nego preto e o filho de Maria da Saudade ficou quieto durante todo o inquérito e o processo que o arrolava como homicida. E agora que o Nego Preto estava na rua, uma coisa não saia da cabeça do filho de Maria da Saudade.

II
Ao subir na ‘’ziquinha’’, Josué de Guimarães Travasso, o Nego Preto só pensava no lucro que teria à noite. Repassar sua cota de drogas e ficar de boa com o traficante ‘’Trinta e oito’’, mas repente em sua mente um pressentimento lhe invade a mente. Um mau presságio, e a figura do ‘’prego’’ que estava ‘’pagando’’ cadeia no seu lugar, vêm em sua mente. Preto não sabia se ele já estava para ser solto ou não. Vender a arma para ele foi uma tacada de mestre, justo a arma que usara para matar aquele ‘’laranja’’, que lhe devia uma boa quantidade de craque. – Ligo ‘’pros’’ irmãos mais tarde, pra sabe do lance! –Diz Josué de si para si mesmo. E ao chegar bem em frente da escola aonde estudara aquele adágio lhe invade com toda a força. E ele não escuta o tiro, disparado em sua direção, que o derruba da bicicleta, mas senti o ombro esquerdo em brasas. Atônito e atordoado ‘’Nego preto’’ em sua confusão mental se vira e, vê a figura de uma mulher que se aproxima. Seu andar era firme e esguio, seus olhos verdes sem emoção alguma a lhe fitar bem de perto. Josué de Guimarães Travasso se lembra da fisionomia da mulher, só não sabe de onde. O Nego preto que sentia o ombro em brasas vê a arma apontada para sua têmpora e, um brilho laranja esbranquiçado e uma fumaça. Sua cabeça que é jogada para trás, e ele que sentia o ombro em brasas já não sentia mais nada.

Religiosidade Afro-Brasileira, pelo Prof. José Flavio Pessoa de Barros

O dia 13 de maio é uma ótima oportunidade para divulgarmos as religiosidades afro-brasileiras, vítimas do racismo e da intolerância da sociedade de um país que se autoproclama a maior democracia racial do mundo.

Portanto, é sempre bom ouvirmos um pesquisador do assunto, o professor José Flavio Pessoa de Barros (UERJ), que está postando uma série de vídeos no Youtube sobre a religiosidade afro-brasileira.

Clique nos links a seguir para ter acesso aos depoimentos do professor.

Ricardo Riso




 
Fonte: e-mail gentilmente enviado pelo colega Rafael Eiras em 13/05/2010.

Vasco Martins - Mare Oceanus (Sinfonia 9)

Prezados(as),

o músico e poeta cabo-verdiano Vasco Martins informa que concluiu a sua Sinfonia 9e chama-se, em difinitivo, «Mare Oceanus», e aqui compartilho os links enviados pelo consagrado artista:

podem ouvir a primeira versão gravada pela Moravian P.Orchestra, dirigida por Vit Micka:

a actual 'global score' em PDF:

uma versão no You Tube, com imagens:

Para quem quiser conhecer a poesia de Vasco Martins e ter acesso ao seu sítio e blog, basta clicar no marcador ao com o seu nome ao final deste texto.

Ricardo Riso

Fonte: e-mail enviado por Vasco Martins em 12/05/2010.

terça-feira, 11 de maio de 2010

Eduardo White - A fuga e a húmida do amor (excertos)

1

Possuem uma cabeça essas mãos com as quais repartes a farínica pele do pão que tomaste sobre a mesa. Têm os olhos porosos incrustados em sua crosta e a chuva cerca-as pela lembrança da lenha que o cozeu.

Das mãos, os dedos moldávios na massa, o risível conhecimento da insónia inquietando-a iluminada deformável.

Sinceramente: gosto do modo como o repartes, pouco a pouco, lentissimamente impregnada de inconfidencialidade, de terra, cinza e água. Matéria bastante para revelar-me, eu chamando-te.

Sabes-me a essa nudez do instante onde és ave a adornar a língua tilintante da beleza e onde o pão se confunde, aberto, repartido, contigo, nua habitável, como um país do qual se escreve.

No corpo um coração impresso, pulsante e matinal tal é a sua nitidez. Observo-o atento. para lá do que me é possível dizer.

As mãos, então, é que já te digo, espelhos autênticos, necessários ao tarot da música que reflectes como se a ela suasses. Poro a poro. Parte à parte incomensurável do seu corpo.
(p. 31)


6

Também, é bom beijar-te. Um beijo está sempre mais ao alcance da fala, do búzio sonoro do silêncio, da água aérea da saliva.

No entanto, quero que saibas que não me consterna o facto de aqui não estares. De nunca teres estado, pois nunca passaste, desde sempre, de uma visão.

O meu amor amura-te o suficiente para que sejas mais do que real. Aliás, como o é a minha loucura para os outros. Amar-te é como nascer, faço-o sozinho.

Embarcado no que acredito, no que recordo, no que avivo, no que crio e invento.

Em resumo: com o que te sonho.
(p. 38)


8

Acendo um feitiço dentro desta folha. A teoria da possibilidade de o seres. Os entes que evoco pelas conchas das palavras, os ungüentos da pontuação. Leio-os espalhados pela esteira. E uma tempestade nasce-me dentro. Em turbilhão.

Pedem-me os deuses outras falas. Outros estrebuchares do corpo. Outros revirares dos olhos. Tu impassível diante de tudo. Serena como uma lua a encandear a noite.

Não sei, nem dentro deste exorcismo, nem destas convulsões, não diviso os deuses pequenos para que te atendam. Que pacto terás feito tu com Deus para que estejas tão omnipresente, tão cândida e refrescante?

Estou possesso. Prostrado e angustiado pelo chão. Pelos vasilhames da exaustão.

Rendido ao mal do qual me havia proposto salvar-te.

Não estás, agora. Agora que, cambaleante, vou regressando da tontura. Tal como surges, partes.
(p. 40)

(WHITE, Eduardo. A fuga e a húmida escrita do amor. Maputo: Texto Editores, 2008)

quarta-feira, 5 de maio de 2010

NA ESQUINA DO TEMPO - blog de Manuel Brito-Semedo (Cabo Verde)

Um ótimo blog para quem quiser conhecer aspectos culturais, literários e da identidade cabo-verdiana, além de um belo trabalho de preservação da memória intelectual do país, basta passar NA ESQUINA DO TEMPO, de autoria do Prof. Dr. Manuel Brito-Semedo.

Nascido na ilha de São Vicente, licenciado em Ensino da Língua Portuguesa pelo Inst. Superior Pedagógico de Maputo (Moçambique), Doutorado em Antropologia pela Univ. Nova de Lisboa, desde 1998. É membro fundador da Associação de Escritores Cabo-verdianos e membro da Associação Moçambicana de Língua Portuguesa (AMOLP). É pesquisador e professor da Universidade Jean Piaget de Cabo Verde.

Já publicou, dentre outras: Caboverdianamente ensaiando I e II; A morna balada - o legado de Renato Cardoso; A construção da identidade nacional - análise da Imprensa entre 1877 e 1975.

Segue, a parte inicial do texto "Escritores Cabo-verdianos são Trilingues":

"Segundo o conceituado romancista Teixeira de Sousa (Fogo, 1919-2006), os escritores cabo-verdianos são trilingues. Desta forma: “temos o crioulo, temos o português claridoso [...] e [temos] o português domingueiro, correcto e vernáculo, que usamos no ensaio, nos relatórios, nos ofícios, nos discursos, na correspondência, etc., etc.” [1].

De facto, é possível, através da análise das produções literárias detectar os momentos marcantes no discurso linguístico cabo-verdianos, porque os mesmos se sobrepõem aos períodos e sub-períodos ou fases da literatura, a saber: o Período do Cabo-verdianismo (1842-1936), o Período da Cabo-verdianidade (1936-1974/75) e o Período do Universalismo (1974/75-...)." mais

Abraços,
Ricardo Riso

terça-feira, 4 de maio de 2010

Palestras Ricardo Riso - maio/2010

Prezados,

convido-os para as palestras que participarei neste mês de maio/2010. São gratuitas.

Aguardo vocês.
Abraços,
Ricardo Riso

Palestra para turma de calouros do curso de Letras com ex-alunos apresentando as conquistas profissionais na área
Dia 11 de maio – às 19h
Auditório 3 – 22o. andar
Universidade Estácio de Sá – campus Centro I
Av. Presidente Vargas, 642 - Centro

Semana de Letras 2010 - Identidades
Multietnicidade nas literaturas de língua portuguesa: Brasil e Cabo Verde
Profa. Dra. Norma Lima e Ricardo Riso
Dia 12 de maio – às 19h
Universidade Estácio de Sá – campus Millôr Fernandes
Rua Dias Da Cruz, 255 - Shopping do Méier