sábado, 29 de maio de 2010

José Luiz Tavares - Paraíso Apagado por um Trovão (3a. edição)

Paraíso Apagado por um Trovão, do celebrado poeta José Luiz Tavares chega a sua terceira edição sob a chancela da Universidade de Santiago. O que torna especial a atual edição é o fato de ser bilíngue, com todos os poemas transcritos em língua cabo-verdiana, além de constar uma entrevista à Maria João Cantinho em 2004.

Com esta obra, José Luiz Tavares foi galardoado com os seguintes prêmios: Prémio revelação Cesário Verde, C.M.O. 1999; Prémio Mário António, Fundação Calouste Gulbenkian 2004: e foi Finalista Correntes d’Escritas / Casino da Póvoa 2005.

Marco paradigmático na poesia cabo-verdiana, Paraíso Apagado por um Trovão é, conforme assinalou José Luis Hopffer Almada em posfácio de outro livro do poeta - Lisbon Blues, "choca, desde logo, pelo seu apuro de linguagem, num português raro, e quiçá rebuscado, na sua erudição.


Característico dessa linguagem é o seu quase despojamento do coloquialismo identitário da poética e do concreto léxico da caboverdianidade, por vezes marcada pelo chamado português literário de invenção claridosa, frequentemente chão, mesmo se – como foi anteriormente dito - assaz elaborado na sua inventividade literária e irrecusavelmente autêntico na sua pertinência cultural.

De todo o modo é o apuro da linguagem, na sua raridade e erudição, que tornam patente e incontornável o efeito universalizante de ruptura quer com o telurismo atávico, de raiz claridosa e feição novalargadista e vanguardista".

Parabéns ao poeta José Luiz Tavares por este novo Paraíso Apagado por um Trovão e pela tradução deste para a língua materna, objeto maior da afirmação identitária do arquipélago, e que tanta perseguição sofreu em um triste passado não tão distante. Há-de celebrar a produção em língua materna assumida por nomes como Danny Spínola, Kaká Barbosa, Jorge Carlos Fonseca, Zé Dy Sant'Y'Agu (heterônimo de José Luis Hopffer Almada), seguidores na tradicão do uso do crioulo de nomes como Kaoberdiano Dambará, Pedro Cardoso e Eugénio Tavares.

Ricardo Riso



ONDE HABITA O TROVÃO
UNDI KI STRUBON MORA
2.

A casa é um esboço de memórias:
primeiro, o telhado onde os gatos tecem
ninhadas. A insónia trabalha os alicerces
como furiosos êmbolos percutindo os veios.
Os filhos chamam das janelas, estendem raízes
pelos pátios num sereno avultar de astúcias.

O vento enumera as casas que foram sendo
habitação dos mortos; em segredo;
como um rumor de pálpebras
descendo sobre a surdina dos amados nomes
sussurrados junto aos poços do crepúsculo.

Ruínas de antiga ordem, fitam-nos desde
a lonjura do olvido; mas os esteios lá permanecem;
se bem que esventrados por percucientes máquinas.
Tão fundo descem que é própria raiz dos sonhos
que escarvam.
p. 22


i i .


Kaza é un sbosu di mimórias:
prumeru, tedjadu undi ki gatus ta tise
ninhadas. Insónia ta trabadja alisersis
sima piston furiozu ta rapika na veius.
Fidjus ta txoma di janela, es ta stende raís
pa pátius, nun labantar serenu di astúsia.


Bentu ta konta un pur un kes kaza ki ba ta ser
morada di mortus; sukundidu;
sima un susuru di pálpibras
ta dixi riba di surdina di kes nomi amadu
limiadu baxu djuntu di posus di kanbar di sol.


Ruínas di ordi antigu, es ta djobe-nu
desdi distansia lonji di skesimentu; mas pilar
ta kontinua la; si ben ki ratxadu
pa kes mákina ki ta diskabaka-s. Es ta dixi ton fundu
k’é propi raís di sonhus k’es ta garbata.
p. 23

 
10.

Imenso país imerso, a infância.
Cheira a mangas verdes mordidas sob
o sol de agosto. A bichos padecendo
num estio de febre.

Insoluta pátria de segredos
rescendendo pelos poros,
quando o norte se entenebrece
e as vozes do sul distante tecem
as incalculáveis rotas do regresso,

vejo-a a cada solidão adentrando
a raiz do coração; vejo-a incorruptível
por entre rápidos estandartes,
porque não de pedra
ou outra perecível matéria,

mas silente caule, raiz e húmus,
cicatriz perene — foi de um baio
que tive, jumento talvez, mas isso
que importa?, ó coração velho
que já só urros levas agora na carlinga.
p. 38

 
x.


País tamanhu murgudjadu
é mininesa. E ten txeru di mangi
mordedu na sol d’agostu.
Di bitxus ta padise nun veron di febri.


Pátria di segredus sima pedra
ta risende através di peli
ora ki norti ta sukura y kes vos
di sul la lonji ta kanta kaminhus
inkalkulável di rigresu,


n ta odja-l na kada solidon
ta kanba na rais di kurason; n ta odja-l perfetu
n ta odja-l na meiu di banderas presadu
sima kusa ki ka ta more,
ka pamodi é di pedra o dotu material
ki ta ditiora, mas pamodi
é tronku silensiozu, raís y strumu,


sikatris pa tudu senpri – foi di un kabalu
kor d’oru ki n tevi (si kadjar matxinhu,
mas kel li ka ten inpurtansia) ó kurason
bedju ki gosi so gritu
bu ta leba na kabina.
p. 39

Artiletra 19 anos - “MOVIMENTO A INTELIGÊNCIA ESTÁ NA MODA”

Artiletra 19 anos

PROGRAMA DO PRIMEIRO MÊS DO “MOVIMENTO A INTELIGÊNCIA ESTÁ NA MODA”

2 de Junho de 2010
Abertura do Primeiro Mês do Movimento “A Inteligência Está na Moda” e Lançamento do nº 104 do Artiletra, com um suplemento dedicado ao poeta Mário Fonseca
Hora: 16h00 - Local: Auditório da Universidade Jean Piaget

3 de Junho de 2010
Aula nacional sobre o tema “Protecção do Planeta Terra” com utilização da Banda Desenhada do nº 104 do jornal Artiletra em comemoração do Dia Mundial do Ambiente, com participação de 12152 alunos e 400 professores do EBI.

4 de Junho de 2010
Lançamento do Livro “Escritos Sobre Teatro” de Kwame Kondé, pseudónimo do Dr. Francisco Fragoso, com a parceria da Câmara Municipal da Praia.
Hora: 18h30 - Local: Salão Nobre da Câmara Municipal da Praia

5 de Junho de 2010
Conversa informal com o Dr. Francisco Fragoso sobre o tema “A influência da zona onde crescemos na formação da personalidade”.
Hora: 18h00 -  Local: Rua da Capela, Achada Santo António

6 de Junho de 2010
Lançamento Campanha Xeque Mate
Academia de Jogos de Xadrez, Damas, Uril, etc
Hora: 11h00 - Local: Esplanada do Hotel Rotterdam

Ao longo do mês de Junho
• Campanha de Promoção da Leitura
• Criação de Bibliotecas de Verão
• Oferta da Colectânea do Artiletra da última década e livros publicados pelas Edições Artiletra para bibliotecas e cantinhos de leitura das instituições de ensino em todos os Municípios de Cabo Verde
• Debate e recolha de sugestões sobre a criação do Museu contra a Mediocridade
• Encontros e Debates, com respectiva gravação, transcrição e transmissão de alguns momentos pelos vários órgãos de Comunicação Social, com participação de personalidades convidadas envolvendo toda a sociedade, sobre os seguintes temas:
• Educação e Inteligência • Arte e Inteligência • Escrita e Inteligência • Leitura e Inteligência • Matemática e Inteligência • Humor e Inteligência • Comércio e Inteligência • Política e Inteligência • Ambiente e Inteligência • Comunicação Social e Inteligência • Quotidiano e Inteligência • Família e Inteligência • Saúde e Inteligência • Revolução e Inteligência • Direito, Justiça e Inteligência • Religião e Inteligência • Novas Tecnologias e Inteligência • Urbanismo e Inteligência • Transportes e Inteligência • Turismo e Inteligência • Ciência e Inteligência • Moral e Inteligência • Cultura e Inteligência

30 de Junho de 2010
Encerramento do Primeiro Mês do Movimento “A Inteligência Está na Moda” e Lançamento do nº 105 do Artiletra, com um suplemento baseado nas transcrições dos debates realizados.

Participe !

Edições artiletra - Cx. P. 359
São Vicente
Tel. 231.5551 - Fax 232.5551
Praia
Tel.262.6060/626061 - Fax.262.6061

Fonte: e-mail enviado pelo Artiletra em 28 de maio de 2010.

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Vasco Martins - “run shan”


Vasco Martins - “run shan”
Por Ricardo Riso
Resenha publicada no jornal A Nação nº 143, de 27 de maio de 2010, p. 16

Exímio compositor e pianista de formação erudita, 11 álbuns gravados, 9 sinfonias, além de inúmeras peças dedicadas à música tradicional de Cabo Verde, Vasco Oliveira Martins nasceu a 12/07/1956 em Queluz, Portugal. Filho de pai cabo-verdiano e mãe portuguesa, fixou residência na ilha de São Vicente aos 9 anos de idade. Estudou em Portugal e França, retornou ao arquipélago em 1985, permanecendo até os dias atuais.

Na poesia, Vasco Martins recebeu menção honrosa nos Jogos Florais de 12 de setembro de 1976, participou da antologia “Mirabilis – de veias ao sol” e publicou os livros “Universo da ilha” (1986), “Navegam os olhares com o voo do pássaro” (1989) e “run shan” (2008), e artigos em diversas publicações. Na internet, sua poesia está no seu blog Deserto do Sul.

Com poemas atribuídos ao heterônimo Vasc d’Monteverde, run shan é um delicado livro de poesia dedicado ao Monte Verde, ponto máximo (774 m) da ilha de São Vicente. Escorando-se no profundo conhecimento das filosofias orientais, Vasc d’Monteverde recorre ao antigo poeta chinês Li Bai e aos taoístas para celebrar o Monte a partir do conceito de run shan: “significa ‘penetrar a montanha’, no sentido meditativo, contemplativo: usufruir do privilégio de estar longe da polícia geral da vida” (p. 5).

Do Monte Verde, o sujeito lírico revela o seu descontentamento com o mundo que o cerca e o inequívoco desejo de reformular sensações para acalentar o espírito. A montanha é o local de reflexão para os males da contemporaneidade: “Purificado pelas brumas do Monte Verde/ Alma de poeta caminhante contemplativo/ Encontro paz longe longe d’azafáma do mundo” (p. 18).

Das questões existenciais e metafísicas à exacerbada reverência telúrica ao Monte, o sujeito lírico apropria-se dos paradoxos do Tao Te King:

(Agora entre eu e o Monte Verde
Só as nuvens que passam,
Os momentos de plenitude
São quando deixamos de ser nós
(Para sermos nós) (p. 7)

Elementos da natureza como o ar e a aspiração por liberdade aparecem em tenras imagens de uma poesia comprometida com o etéreo. As metáforas do voo surgem envoltas a uma profunda interiorização do ser:

Deste único arvoredo vejo uma
Ilha suspensa: vou com ela
Pelo universo adentro talvez
Nalgum porto o meu espírito há-de acostar (p. 15)

A água é outro elemento invocado para criticar o caos da vida contemporânea e trazer uma nova Era:

De uma secreta fonte há-de brotar
Límpida água
Fluindo depois como uma ribeira
Purificando o coração dos homens
Pacificando o coração dos homens
Restabelecendo a Era da ternura e compaixão (p. 25)

Na procura pela harmonia “Visto uma camisa amarela/ Para condizer com a luz do fim do dia” (p. 23). O poema “Sob um pé de charuteira” mostra a gradação da meditação, da tranquilidade do shanti à passagem a um novo estágio de consciência, o samsara. Sinérgico, a confluência com o Indivisível: “Sinto:/ A montanha parece querer entrar em mim// Agora:/ Azul Abril/ Asa de borboleta nocturna” (p. 21)

Ao usar o heterônimo Vasc d’Monteverde, Vasco Martins contribui de forma excepcional para o lirismo e o universalismo da poesia cabo-verdiana. As ressignificações inspiradas na filosofia oriental demonstram prismas diferenciados que ajudam a pensar alternativas à histeria do mundo ocidental. Um canto lírico mergulhado no cosmo da natureza, de uma poesia liberta das amarras terrenas, conduzida pela ilimitada imaginação do Verbo.

Acompanhamos os versos do poeta, “Felizes brindámos/ À vida com bom vinho/ Momento eterno fugaz” (p. 26). Monte Verde: signo de pureza e alegria, onde os movimentos cósmicos se transformam para renovar o ser humano, renovar o mundo. Monte Verde, reduto do belo; run shan, páginas de encantamento a desvendar o mistério da criação.

Monte Verde!

Já dormi em cima da tua terra limpa-macia!
Celebro-te!
Perto de ti não mais tenho dúvidas!

Que muitas gerações ainda celebrem a tua beleza.
Que te protejam dos homens e das cabras.
Continuarás então a limpar a alma
Dos que sentem o apelo das brumas e do silêncio. (p. 30)

terça-feira, 25 de maio de 2010

Francisco José Tenreiro - Fragmento Blues, Dia da África 3

FRAGMENTO DE BLUES

(A Langston Hughes)

Vem até mim
nesta noite de vendaval na Europa
pela voz solitária de um trompete
toda a melancolia das noites de Geórgia;
oh! mamie oh! mamie
embala o teu menino
oh! mamie oh! mamie
olha o mundo roubando o teu menino.

Vem até mim
ao cair da tristeza no meu coração
a tua voz de negrinha doce
quebrando-se ao som grave dum piano
tocando em Harlem:
– Oh! King Joe
King Joe
Joe Louis bateau Buddy Baer
E Harlem abriu-se num sorriso branco
Nestas noites de vendaval na Europa
Count Basie toca para mim
e ritmos negros da América
encharcam meu coração;
– ah! ritmos negros da América
encharcam meu coração!

E se ainda fico triste
Langston Hughes e Countee Cullen
Vêm até mim
Cantando o poema do novo dia
– ai! os negros não morrem
nem nunca morrerão!

...logo com eles quero cantar
logo com eles quero lutar
– ai! os negros não morrem nem
nem nunca morrerão!

http://www.antoniomiranda.com.br/poesia_africana/s_tome_princepe/francisco_jose_tenreiro.html

Agostinho Neto, Adeus à hora da largada - Dia da África 2

Adeus à hora da largada, Agostinho Neto

Minha Mãe
(todas as mães negras
cujos filhos partiram)
tu me ensinaste a esperar
como esperaste nas horas difíceis

Mas a vida
matou em mim essa mística esperança

Eu já não espero
sou aquele por quem se espera

Sou eu minha Mãe
a esperança somos nós
os teus filhos
partidos para uma fé que alimenta a vida

Hoje
somos as crianças nuas das sanzalas do mato
os garotos sem escola a jogar a bola de trapos
nos areais ao meio-dia
somos nós mesmos
os contratados a queimar vidas nos cafezais
os homens negros ignorantes
que devem respeitar o homem branco
e temer o rico

somos os teus filhos
dos bairros de pretos
além aonde não chega a luz elétrica
os homens bêbedos a cair
abandonados ao ritmo dum batuque de morte
teus filhos
com fome
com sede
com vergonha de te chamarmos Mãe
com medo de atravessar as ruas
com medo dos homens
nós mesmos

Amanhã
entoaremos hinos à liberdade
quando comemorarmos
a data da abolição desta escravatura

Nós vamos em busca de luz
os teus filhos Mãe
(todas as mães negras
cujos filhos partiram)
Vão em busca de vida.

(NETO, Agostinho. Sagrada Esperança.)

José Craveirinha - África, DIA DA ÁFRICA 1

África, por José Craveirinha


Em meus lábios grossos fermenta
a farinha do sarcasmo que coloniza minha Mãe África
e meus ouvidos não levam ao coração seco
misturado com o sal dos pensamentos
a sintaxe anglo-latina de novas palavras.

Amam-me com a única verdade dos seus evangelhos
a mística das suas missangas e da sua pólvora
a lógica das suas rajadas de metralhadora
e enchem-me de sons que não sinto
das canções das suas terras
que não conheço.

E dão-me
a única permitida grandeza dos seus heróis
a glória dos seus monumentos de pedra
a sedução dos seus pornográficos Rolls Royce
e a dádiva quotidiana das suas casas de passe.
Ajoelham-me aos pés dos seus deuses de cabelos lisos
e na minha boca diluem o abstracto
sabor da carne de hóstias em milionésimas
circunferências hipóteses católicas de pão.

E em vez dos meus amuletos de garras de leopardo
vendem-me a sua desinfectante benção
a vergonha de uma certidão de filho de pai incógnito
uma educativa sessão de «strip-tease» e meio litro
de vinho tinto com graduação de álcool de branco
exacta só para negro
um gramofone de magaíça
um filme de heróis de carabina ao vencer traiçoeiros
selvagens armados de penas e flechas
e o ósculo das balas e aos gases lacrimogéneos
civiliza o meu casto impudor africano.

Efígies de Cristo suspendem ao meu pescoço
rodelas de latão em vez dos meus autênticos
mutovanas da chuva e da fecundidade das virgens
do ciúme e da colheita de amendoim novo.
E aprendo que os homens que inventaram
A confortável cadeira eléctrica
a técnica de Buchenwald e as bombas V2
acenderam fogos de artifício nas pupilas
de ex-meninos vivos de Varsóvia
criaram Al Capone, Hollywood, Harlem
a seita Ku-Klux Klan, Cato Mannor e Sharpeville
e emprenharam o pássaro que fez o choco
sobre o ninho morno de Hiroshima e Nagasaki
conheciam o segredo das parábolas de Charlie Chaplin
lêem Platão, Marx, Gandhi, Einstein e Jean-Paul Sartre
e sabem que Garcia Lorca não morreu mas foi assassinado
são os filhos dos santos que descobriram a Inquisição
perverteram de labaredas a crucificada nudez
da sua Joana D’Arc e agora vêm
arar os meus campos com charruas «made in Germany»
mas já não ouvem a subtil voz das árvores
nos ouvidos surdos do espasmo das turbinas
não lêem nos meus livros de nuvens
o sinal das cheias e das secas
e nos seus olhos ofuscados pelos clarões metalúrgicos
extingiu-se a eloquente epidérmica beleza de todas
as cores das flores do universo
e já não entendem o gorjeio romântico das aves de casta
instintos de asas em bando nas pistas do éter
infalíveis e simultâneos bicos trespassando sôfregos
a infinta côdea impalpável de um céu que não existe.
E no colo macio das ondas não adivinham os vermelhos
sulcos das quilhas negreiras e não sentem
como eu sinto o prenúncio mágico sob os transatlânticos
da cólera das catanas de ossos nos batuques do mar.
E no coração deles a grandeza do sentimento
é do tamanho cow-boy do nimbo dos átomos
desfolhados no duplo rodeo aéreo do Japão.

Mas nos verdes caminhos oníricos do nosso desespero
Perdoo-lhes a sua bela civilização à custa do sangue
ouro, marfim, amens
e bíceps do meu povo.

E ao som másculo dos tantãs tribais o eros
do meu grito fecunda o húmus dos navios negreiros...

E ergo no equinócio da minha Terra
o moçambicano rubi do mais belo canto xi-ronga
e na insólita brancura dos rins da plena Madrugada
a necessária carícia dos meus dedos selvagens
é a táctica harmonia de azagaias no cio das raças
belas como altivos falos de ouro
erectos no ventre nervoso da noite africana.

(CRAVEIRINHA, José. Xigubo. Lisboa: Edições 70,. p.15-17)

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Arménio Vieira - Não há estátua que preste na minha cidade (POEMA)

“Para Léo Ferre, em saudação a todos os anarcos-surrealistas”

Quando um homem pega numa fruta e a leva à boca
Há sempre um polícia que diz “alto aí!, pois essa é do patrão”
O malefício de algumas víboras é mesmo isso:
Fuzilam-te com o olho direito.


Mas a desgraça não pára aqui:
Sempre que um homem tenta dizer uma certa palavra
Morre enquanto pronuncia a letra A
(uma bomba explode no meio do alfabeto).


E porque não havia de ser assim
Se o mínimo que de uma barata se ouve dizer num parlamento
É que ela vai ser a cantora eleita?


Por isso continuo a jurar que de todos os músicos
Prefiro aquele que se senta ao piano e diz que é surdo.


E quando me dão a escolher entre um cavalo e uma bicicleta
Fecho os olhos e escolho um caracol.
E depois, como não sei que fazer desse animal,
Fico parvo a olhar para ele.


Pois é: um caracol (assim como um soneto)
Será sempre uma máquina estupidamente lenta
No meio d’automóveis que dão tantos à hora.


O olhar de Deus contempla a minha cidade.
Porém, não há estátua que preste na minha cidade

(VIEIRA, Arménio. Poemas. São Vicente: Ilhéu, s/d. p. 111)

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Prémio Camões: Distinção de Arménio Vieira é justiça “à expressão literária de Cabo Verde”

Prémio Camões: Distinção de Arménio Vieira é justiça “à expressão literária de Cabo Verde”
20 Maio 2010


Arménio Vieira, que recebeu das mãos dos Chefes de Estado do Brasil e Portugal o “diploma” galardão “Prémio Camões” na sala dourada do Museu dos Coches, assumiu a distinção “com olhos no futuro, porque as mágoas pertencem ao passado”. Evocou outros poetas da mesma língua: Jorge Barbosa, João Cabral Melo Neto, Carlos Drummond de Andrade... Os dois chefes de Estado consideraram que, além de um marco na língua comum – foi a primeira vez que Cabo Verde ganhou, ao fim de 20 anos - é também marco na justiça da expressão literária de Cabo Verde. Além de Aníbal Cavaco Silva e Luís Inácio Lula da Silva, estavam vários governantes do Brasil e Portugal. De Cabo Verde estava o embaixador Arnaldo Andrade.

A sala estava cheia. Um dos presentes era o ensaísta português Eduardo Lourenço, também já premiado, os poetas cabo-verdianos José Luís Hopffer Almada e José Luís Tavares (estava pouca gente da comunidade cabo-verdiana, os convites tinham sido limitados).

Cavaco e Lula homenageiam Arménio

Cavaco Silva lembrou que o Prémio Camões é individual e reconhece o talento e o trabalho de um autor que tenha contribuído para o enriquecimento do património literário e cultural da língua portuguesa. “É portanto, acima de tudo, a obra de Arménio Vieira que hoje homenageamos”, salientou, felicitando com isso o povo cabo-verdiano pelos 35 anos da sua independência e 550 anos do seu descobrimento.

Lula da Silva disse, por seu turno, que o prémio “é uma referência internacional” e por isso “não é um marco apenas para a língua portuguesa”. “Além da sua poesia, Arménio Vieira expressa sentimentos e comunica valores que toca a universalidade cabo-verdiana “ e por isso “o Prémio faz justiça à expressão literária de Cabo Verde”.

Referiu que Arménio Vieira “é poeta, escritor e jornalista e é tão versátil quanto a palavra é seu instrumento de trabalho”. E mais, “ele é um artesão da liberdade e outros valores comuns, especialmente de paz e justiça. Ele anda de mãos dadas com profunda sensibilidade contra as injustiças dos outros, mas nem por isso a sua prosa e poesia são marcadas pela lamentação, mas sim, marcadas pela esperança”.

No início da cerimónia foi declamado um poema de Arménio Vieira, “Lisboa 1971” , a mesma Lisboa que o saudou 40 anos depois. No fim vieram os cumprimentos. O laureado ouviu um recital em sua honra pela soprano Sandra Medeiros e José Brandão ao piano. Seguiu-se um porto de honra.

Arnaldo Andrade enaltece Arménio Vieira

O embaixador de Cabo Verde em Portugal, Arnaldo Andrade, exprimiu ao asemanaonline o seu regozijo por ver premiada a literatura cabo-verdiana através de Arménio Vieira, sobretudo porque “não tem uma máquina de editores nem de marketing”. Por isso a sua certeza de que a escolha ficou a dever-se ao “puro valor” do autor de “Eleito do sol”.

Andrade não deixou, porém, de registar que, apesar de ser “bom para Arménio Vieira, bom para a literatura, bom para Cabo Verde, porque é estimulante”, a justiça às letras cabo-verdianas devia ter sido feita antes, “com João Vário em vida, um poeta de grande qualidade”.

Arménio Vieira, elegante no seu fato cinzento e gravata azul, conviveu depois com os seus amigos. Ao semanaonline disse estar contente, mas “envergonhado”, dada a sua conhecida timidez. Diz que agora precisa descansar um pouco e que logo surgirá outra obra da sua lavra.
 
 
 
COMENTÁRIO DO BLOG
Seria ótimo que o Pres. Lula abandonasse a demagogia e o seu governo apresentasse uma proposta efetiva de intercâmbio cultural com os países africanos, e não apenas leis voltadas à Educação Básica que não são aplicadas nas escolas, como as leis 10.639/03 e 11.645/08. Adoraria que esse ato sensibilizasse nosso presidente e fosse o pontapé inicial de uma sólida aproximação Brasil-Cabo Verde.
Entretanto, conhecendo nosso presidente, nada irá além daquela foto. Uma pena. Só que o escritor Arménio Vieira não tem nada a ver com isso e merece todos os prêmios possíveis à sua obra, e um grande mérito à literatura de Cabo Verde.
Ricardo Riso

IPEAFRO SANKOFA 2010

IPEAFRO SANKOFA 2010

Auditório do Arquivo Nacional, RJ
Praça da República (Campo de Santana)
Próximo à Central do Brasil

A Oficina “Matriz Africana e Ação Educativa”, um espaço de reflexão e ação para educadores e para estudantes de pedagogia, licenciatura e formação de professores (ensino médio) acerca da matriz africana no cotidiano escolar, em duas sessões de duas horas e meia, dias 9 e 10 de junho às 10h. Certificado. Vagas limitadas. Para se inscrever, envie um email para ipeafro@gmail.com com o assunto INSCRIÇÃO OFICINA.

O Fórum Educação Afirmativa Sankofa é um espaço para discussão e debate sobre políticas afirmativas de diversidade e inclusão no ensino brasileiro em todos os níveis, contemplando a população afrodescendente e sua história e cultura, em quatro sessões nas tardes dos dias 7, 8, 9 e 10 de junho. Cerificado. Para se inscrever, envie um email para ipeafro@gmail.com com o assunto INSCRIÇÃO FÓRUM.

O novo Site Ipeafro apresenta o conteúdo digitalizado do Acervo Abdias Nascimento / Ipeafro por meio do projeto “Acessando a História e a Cultura Afro-Brasileiras”.

O Kit Ipeafro para Educadores é um conjunto de textos e materiais para apoiar a ação educativa acerca da história e da cultura de matriz africana.

PROGRAMAÇÃO
Segunda-feira, dia 7 de junho.
14h - Sessão de Abertura.
15h - Apresentação do Site Ipeafro e do Kit Ipeafro para Educadores.
16h - Exibição do vídeo “Acervo Abdias Nascimento - Acessando a História e a Cultura Afro-Brasileiras”.
17h - Coquetel.

Terça-feira, dia 8 de junho.
14h30 - Políticas Afirmativas: Interfaces entre Acesso e Conteúdo.
“Ações Afirmativas nas Universidades Públicas: a Lei 10.639/03 como política de ação afirmativa”. Elielma Ayres Machado (UERJ).
“Quais Áfricas Ensinar? Críticas e possibilidades a partir da Lei 10.639/03". Wilson Mattos (UNEB e CNE).
"Afrocentricidade e Educação: os princípios gerais para um currículo afrocentrado". Renato Nogueira (UFRRJ).
“Perspectiva do universitário”. Leomir Dornellas (FEOP).
Moderador - Carlos Alberto Medeiros, Coordenador Especial de Promoção da Igualdade Racial do Município do Rio de Janeiro.

Quarta-feira, dia 9 de junho.
10h - Oficina “Matriz Africana e Ação Educativa” - Sessão I.
Espaço de reflexão e ação para educadores e para estudantes de pedagogia, licenciatura e formação de professores (ensino médio), acerca da matriz africana no cotidiano escolar.
Coordenadoras - Professoras Azoilda Loretto da Trindade (SME/RJ, FFP/UERJ) e Carla Lopes (Arquivo Nacional, CE Professor Sousa da Silveira).
14h - Faces e Enlaces das Matrizes Africanas.
“África e Diáspora no Ensino Brasileiro”. Alain Pascal Kaly (UFRRJ e Unicamp).
“Matriz africana no Brasil, Ativismo e educação”. Renato Emerson (FFP/UERJ).
Moderador - Ibrahima Gaye, Consul Honorário do Senegal e diretor do Centro Cultural Casa África em Belo Horizonte.
16h - Guerreiras de natureza:
Gênero, cosmogonia e natureza no ensino de nossas crianças.
Mãe Beata de Yemanjá - Mãe de santo e chefe da comunidade terreiro de candomblé Ilê Omiojuaro, localizado no município de Belford Roxo, Estado do Rio de Janeiro.
“Ecologia e Sustentabilidade da Cultura do Candomblé”. Aderbal Moreira, coordenador do Ponto de Cultura Omo Aro Companhia Cultural.
“Guerreiras do Samba”. Helena Theodoro (CEDINE / RJ e ETA/FAETEC).
“Educadoras de Natureza: Mulher negra e religiosidade afro-brasileira”. Maria de Lourdes Siqueira (E.H.S.S., Paris, UFBA, Ilê Aiyê).
Moderador - Éle Semog, poeta e pedagogo; atua na área de educação com especial ênfase no processo de implantação da Lei 10.639/03.
18h - Filme Gisèle
Omindarewa, 71′, 2009, de Clarice Peixoto. Documentário sobre a vida de uma mãe de santo francesa e o cotidiano do seu terreiro em Santa Cruz da Serra, RJ.

Quinta-feira, 10 de junho.
10h - Oficina “Matriz Africana e Ação Educativa” - Sessão II.
14h - Diálogo: Matriz Africana, Escola e Academia.
Apresentação dos resultados da oficina pelas coordenadoras Azoílda Trindade e Carla Lopes. Comentários e debate com Mônica Lima, doutora em história, com tese sobre história da África, e professora do Colégio de Aplicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro.
17h - Encerramento do Fórum
O encerramento será a cerimônia de entrega do Prêmio Ipeafro Sankofa à Dona Aparecida Silva Prudente, mãe dos Drs. Wilson Prudente, Procurador do Ministério Público do Trabalho, mestre em ciências jurídicas e sociais pela UFF, e Celso Prudente, antropólogo, cineasta, doutor em cultura pela Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo, curador da Mostra Internacional do Cinema Negro, ambos ativistas do movimento negro e autores de diversas publicações.
Participação de Dulce Vasconcellos, Professora Conselheira do Comdedine / Rio, homenageada no Fórum Ipeafro 2007, e Madiagne Diallo, cidadão senegalês e professor de engenharia industrial da PUC-Rio.

Realização: Ipeafro.
Patrocínio: Petrobras e Seppir.
Apoio: Fundação Kellogg e Arquivo Nacional ____________________________________________________________­

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