sexta-feira, 11 de junho de 2010

José Luiz Tavares - Paraíso Apagado por um Trovão (resenha)


José Luiz Tavares - Paraíso Apagado por um Trovão

por Ricardo Riso
Resenha publicada no semanário A Nação nº 145, página 16, de 10 de junho de 2010

O arrebatador Paraíso Apagado por um Trovão, 1º livro de poesia de José Luiz Tavares, alcança a sua 3ª edição sob a chancela da Universidade de Santiago, ampliado com onze novos poemas, uma entrevista à Maria João Cantinho resgatada da revista Storm-magazine e pela 1ª vez com tradução para a língua cabo-verdiana. Motivo maior para celebrar este relançamento, o que faz jus à atuação contínua do poeta na língua mãe, ora na criação de poemas, ora na tradução de textos lusógrafos.

Impressiona em Paraíso... a depuração da língua portuguesa em uma autêntica reinvenção da linguagem já descrita por José Luis Hopffer Almada, explorando os limites do verbo e do labor poético com imagens por vezes insólitas e surpreendentes na rememoração criativa da infância – “pátio paraíso onde é sempre/ estio” – do poeta na rural Chão Bom, Tarrafal de Santiago: “Descer – ao chão antigo,/ agreste, familiar; (...) Regressar – à vida rude, elementar,/ Desacontecidos sucessos/ são matéria deste livro, precário/ edifício, como tudo o que é erguido/ pelo cuspo da poesia”.

Para reconstruir o passado evoca a casa, lugar primordial: “Ali fora a casa. Lugar/ das domésticas deflagrações”. Memória esgarçada recriada por uma sensível tessitura: “Às vezes, é de tudo o que não falamos/ que me recordo. Então uma cicatriz de doçura/ assalta-me os inacontecidos gestos (...) mas já não tenho a certeza se pisei esses/ polvorentos caminhos”.

As figuras marcantes desses dias estão nos poemas agrupados em Retratos Cativos. As mães ganham especial destaque: “São elas, as mães./ (...) Assim, /perto de nós, fica o eco / dos seus rostos;/ (...) Sobre as colinas da manhã/ são o mais alto nome do amor”. Cativante a recordação do “cristo de negra pele”, “velho avô de suaves cãs”: “Nele, o perfil alcantilado honrando a ascendência”; assim como as tocantes despedidas do avô quando “eu era ainda da estirpe dos inocentes”: “Erguia então o padre a/ extrema-unção, mas são meus os braços/ estremecendo agora ao derramar dos santos/ óleos”; e da cerimônia da avó: “E fez-se luz sobre a estreita cova/ quando à terra baixaram o corpo de minh’avó (...)/ Pediu minh’avó, expressamente, que assim/ fosse. Duas, três voltas deram-se à igreja; cumprindo-se assim sua última vontade./ Mas por todo esse ano eu não pararia/ de ver a sua curvada figura vigiando/ o alvoroçado recolher dos galispos”.

“Pela sirga da memória” veem outras passagens, como na escola: “Aprendemos verbos e pronomes;/ ao tabefe e à reguada. Cantada a tabuada,/ de pé, em frente ao quadro, com que alívio/ a sineta nos chamava para o intervalo”; e no cotidiano rural: “Olhai o homem que levanta o cenho/ e move o vento do pensamento (...)/ Olhai-o agora caminhando pelos sulcos,/ derramando as sementes no mês exato/ em que as aves pressurosas/ indiciam o destino das colheitas”.

Galardoado com o Prémio Mario António da Fundação Calouste Gulbekian em 2004, a estreia poética de Tavares assevera o pleno domínio do seu ofício, certifica a maturação da linguagem entrecortada por um vocabulário rebuscado que remete à Renascença, tornando complexa e fascinante a sua poesia: “Desde os almudes onde esbraceja a treva/ aos sulcos em que o vitupério uma canção/ verrina, inclina-se essa mulher/ para o fogo que vai crescendo”.

Contudo, ainda assim hialina poesia, paradoxal pela maneira como esse sujeito lírico se expressa em deslumbrantes metáforas, corvídea escritura: “o que no desterro de si mesmo/ sonha o armistício primaveril/ mas a supérstite mão do criador/ transforma em eterno arauto da catástrofe”, posto que “é disso feito o poema;/ inda o não saibas, tudo o que nele entra/ tinge-se de penumbra e mistério”.

Paraíso Apagado por um Trovão enquadra-se entre o que há de melhor na poesia cabo-verdiana, quiçá, em língua portuguesa, proporcionada por este partícipe incontestável da reconfiguração da linguagem poética, José Luiz Tavares, “aquele que de novo refaz/ a obscura trama do mundo”.

quinta-feira, 3 de junho de 2010

Entre mar e céu: a fluidez libertadora da palavra líquida em Outros Silêncios de José Geraldo Neres


Por Ricardo Riso

Reconfigurar os sentidos anestesiados pelo desarranjo da caótica vivência urbana, ampliando as ressonâncias do verbo poético, libertador por excelência, em um inimaginável furor semântico a desbravar novos caminhos para a linguagem, pois como versa o sujeito lírico: “A vida já sabemos sem sentido” (p. 153) diante da efemeridade de uma época na qual temos os “heróis com prazo de validade” (p. 105).

Quando os sentidos da palavra parecem desgastados, dilacerados pelas incongruências da contemporaneidade, caberia aos poetas ressignificá-los? Em seu livro “Outros Silêncios” (Escrituras, 2009), José Geraldo Neres cumpre com louvor essa missão em uma depurada escrita, posto que “somos a tentativa de decifrar símbolos, símbolos além dos símbolos” (p. 153), e recorre a Octávio Paz: “O poeta não é o que nomeia as coisas, mas o que dissolve seus nomes” (p. 155).

O poeta busca a “linguagem da inconsequência, alegoria / que nunca chega ao fim” (p. 153), como as imagens insólitas e libertadoras dos simbolistas e surrealistas; a loucura poética a remeter Pessoa e outros nomes fundamentais como Charles Baudelaire, William Blake, Walt Whitmann, Murilo Mendes, Mário Quintana, Garcia-Lorca e a marginais como Cláudio Willer e Roberto Piva. O relacionamento com o onírico e com procedimentos consagrados pelos surrealistas, como o automatismo psíquico, encontram insólitas e surpreendentes imagens, “sombras se agitam / a uivar para as nuvens de martelos assustados” (p. 32), no qual o tempo apresenta um outro ritmo marcado pela “mão sonâmbula” (p. 111), “o ponteiro dos minutos custa a se mover”, refeito pelo sujeito lírico que afirma: “perdi a confiança nos relógios” (p. 133) e segue o seu próprio tempo, “o relógio sou eu & me transformo em procissão infinita” (p. 144).

Na escrita por vezes corrosiva do poeta, “palavras invertidas temperam a fome” (p. 136) e “ela me ensina que escrever é deixar cicatrizes” (p. 127), enquanto “um poema desce / torna-se mais pesado que um punhal” (p. 136) e “a poesia transborda no dorso do enigma” (p. 142), segredos de um tempo anterior à palavra primordial, espelho retorcido que se revela nesses outros silêncios: “os segredos quebram o espelho & retiram seus olhos líquidos / desnudam a chuva para sentir a sua pele / esse rio subterrâneo a devorar o tempo anterior a palavra” (p. 123).

Mister dizer que as motivadoras imagens consagram o apuro estético recheado de metáforas sinestésicas desses “Outros Silêncios” propostos por José Geraldo Neres que se escutam em nossos olhos. O intenso uso criativo de elementos da natureza como o ar, “as árvores cantam / levam meu corpo / suas raízes criaram asas” (p. 20), e principalmente a água, a navegar por outras margens, ou melhor, como versa o sujeito lírico, “espero um navio líquido” (p. 20), que “revela o segredo do abismo” dessa “água de fala adormecida / onde se encontra o eco da sua voz” (p. 23) de “um rio sem margens” (p. 20). Rio da utopia do Verbo transformador de um sujeito lírico que se afirma como “o corpo do menino / que desafia o sol / e entra no bosque escuro com as naves do verbo” (p. 50), revelador de novos sentidos “na linguagem da água” (p. 24).

“Outros Silêncios” de José Geraldo Neres apresenta-se como uma necessária oxigenação líquida para o panorama poético brasileiro.



poemas

UM ABISMO ATRÁS DOS OLHOS


I

silêncio
língua anterior ao tempo
língua na canção das águas
o vento abre os olhos
senta sobre o hálito do primeiro espelho
um dilúvio de pupilas
dá ao cego um cardume de cavalos sonâmbulos


II

a alma do horizonte
carne líquida em jogos de anjos obesos
na pesca onde as nuvens se fazem pedras
voz de dúvidas
sua língua atravessa de lado a lado uma chuva de asas
dois pássaros de olhos queimados

um riso debaixo da terra


III

um calafrio a cortar a seda dos lábios
as casas recolhem migalhas
e as costura em outro espelho
desaparecem dentro do calendário


IV

na voz do rio
se planta um deserto
o desafio da face criadora
pó dentro do homem
herdeiro na pele das lágrimas
uma criança tece uma estátua de chamas
salta do ventre
na dor de ser uma ilha

um riso do abismo com seus espelhos


V

o tempo atravessa a casa
e o mistério de nascer num rio com lábios abertos
nos pés da noite
o esqueleto da música na voz da morte
pele dentro da pele
no sofrimento da nudez
exilada fora do corpo
desenha a areia dentro do vento

e dois icebergs flutuam nos olhos do cego
(p. 27-31)


EPISÓDIO

Metal impuro
medalhão da sorte sem poderes ocultos
moeda cunhada nos tempos do sofrimento
Estas foram as primeiras hipóteses
para descrever o objeto que estava cravado
entre os dedos daquele incógnito ser na angustiada
mesa de necropsia

Ele fora encontrado no cume da montanha
- ironicamente denominada
Paraíso-
Ainda não atingira a idade do lobo

Concluídos os primeiros exames
tentava eu montar o quebra-cabeça do devorador de minha tranqüilidade

Não saí da primeira peça

Nenhum indício de sua morte
os órgãos internos estavam perfeitos
o que era incomum para alguém de sua idade
Uma luz artificial refletiu-se em meu rosto
& o Senhor das Dúvidas percorreu-me o corpo
A moeda abandonou seu hospedeiro
furtando-me a concentração nas análises

A ampulheta é invertida

As runas traçam diferente destino

O vento noturno conduz a uma estranha sensação
estou na montanha Paraíso
Solitário
Vestígios de sanidade
Abruptamente o cenário é invadido por outra criatura
mas ela não sente minha presença
Senta-se em posição de lótus
parece admirada com o horizonte
Num movimento angelical
ela retira um objeto circular de suas entranhas
Olha-o
& seu semblante transforma-se
Grita
& atira furiosamente o objeto montanha abaixo
Vira-se para mim
olhar vago
um quê de decepção

Chove

A chuva cobre seu corpo num lamento
Uma gota rubra remete-me à cena inicial
[Metal impuro - Forja mestra de almas
invento impondo sua cadência
arquitetando o cotidiano
monarca das ilusões

Sou servo banhando-me em espelhos de lágrimas]

Permitiram-me o sol
mas há dias não sinto sua luz
(p. 51-53)


A QUARTA LÍNGUA DA LUA

passa pelo corpo
& a primavera
soluça espectros de pétalas
sua semente
- o manso golpe do machado -
rasga o peito
saem
dois girassóis
com a idade do silêncio
um com os pés de criança-órfã
o outro com as mãos de trigo
a língua
perfura o pensamento
congela os olhos do tempo
beijos a devorar a música do orvalho

um grito pesca uma estrela

- sela o abismo -
(p. 69)


DORSO DO ENIGMA

a poesia transborda no dorso do enigma
estou longe de mim no fundo dos olhos do centauro
o mundo me habita e uma aquarela espera o seu galope
dentro da infância busco atravessar a ponte

sua voz me guia
trago em mim outras feras e um peixe a escrever flores
procuro um milagre e resta apenas este poema
centauro de língua escarlate a galopar o espelho

estou aqui na poeira dos seus passos
de mãos dadas com seu filho a cravar palavras a afogar dias
não importa o labirinto brinco de deus e beijo suas raízes
no balanço da rede resta o silêncio e o cheiro do sol na carne
carne da moça na encruzilhada a construir a
arca da salvação
longe de mim a olhar a sombra dos vaqueiros

estou aqui tragédia a morder poeira
trago em mim um epitáfio e uma romaria
não sei ser quase sou pedra barro lama sêmen
semente de relógio em um deserto de cicatrizes
minha cruz a marcar o silêncio
não me ofereça o paraíso preciso de uma sombra
o poema se aproxima a caminhar além das preces
(p. 142-143)


OUTROS SILÊNCIOS

I

o sol
balança a rede
sem medo de despertar
o punho da serpente

o vento treme n’água

- a morte caminha nos seus olhos –
mergulha & ressuscita tempestades
acordo no meio de seus tentáculos

(eles ainda arrastam estrelas)
sinto arder os espelhos
desenho o silêncio
com as cores
das suas entranhas


II

retirar do corpo a sombra
não existe mais o corpo
a sombra é gravada no tempo
labirinto transformado em dragão de ópio
no rebento da tempestade
o grito dos ossos afogados no peito da noite
seus olhos
leopardos mergulhados na morte

sombras amontoadas
& nos lábios
cobertores de palavras


III

no aquário
corpos desenham um arco-íris
nadam na saliva dos anjos

crianças brincam
amarradas nos calcanhares dos deuses de terno
enforcadas em borboletas de pele humana
(p. 91-93)

terça-feira, 1 de junho de 2010

I SIMPÓSIO INTERNACIONAL ÁFRICA & BRASIL: DIÁLOGOS POSSÍVEIS

I SIMPÓSIO INTERNACIONAL ÁFRICA & BRASIL: DIÁLOGOS POSSÍVEIS


Inscrições: 31/05 a 8/06/2010.
Local de Realização: Auditório do IH
Data de Realização: 08/06/2010 - 09/06/2010

08/06/10 - Manhã
8h
Abertura
9h
Mesa-redonda I
Leila Leite Hernandez (USP) - A África no Brasil e o Brasil na África
Selma Pantoja (UnB) - Título a confirmar

08/06/10 – Tarde
14h
Mesa-redonda II
Carmem Lúcia Tindó Ribeiro Secco (UFRJ) - De sonhos e afetos: percursos da poesia moçambicana
Rita de Cassi Pereira dos Santos (UnB) - Carlos de Assumpção: revisão crítica do passado no presente

16h
Mesa-redonda III
Augusto Rodrigues da Silva (UnB) - Literatura e cultura Kalunga: peregrinação, poesia e performance quilombola
Luciana Eleonora de Freitas Calado Deplagne (UnB) - Oralitura e sátira no bestiário dos ''Novos contos de Amadou Koumba'

09/06/10 – Manhã
8h
Mesa-redonda IV
Rita de Cássia Natal Chaves (USP) - Ruy Duarte de Carvalho: escritas de viagens
Alexandre Simões Pilati, Ana Laura dos Reis Corrêa, Deane Maria Fonseca de Castro e Costa (UnB) - "Dinheiro também dói": Machado contista e as astúcias mercantis da escravidão.

10h
Mesa-redonda V
Marilúcia Mendes Ramos (UFG) - O papel do escritor na contística angolana: tradição e política
Regina Dalcastagnè (UnB) - Negros possíveis na narrativa brasileira contemporânea

09/06/10 – Tarde
14h
Conferência - Ana Mafalda Leite (Universidade de Lisboa)


Organização de:
Edvaldo Bergamo
Professor Doutor (Literaturas de Língua Portuguesa)
Universidade de Brasília - UnB
Instituto de Letras - IL
Departamento de Teoria Literária e Literaturas - TEL

Fonte: e-mail enviado pelo escritor Filinto Elísio em 31 de maio de 2010

Dia das Crianças em Cabo Verde e livros infanto-juvenis

Hoje, 1o. de junho, é Dia da Criança em Cabo Verde, e o blog Na Esquina do Tempo, do Prof. Dr. Manuel Brito-Semedo, presta uma bela e justa homenagem às crianças que aqui reproduzo parcialmente. Para ver o restante da postagem, clique aqui. Sempre generoso, o cuidadoso Professor elaborou uma pequena lista com livros infanto-juvenis de autores cabo-verdianos com destaque para o recente Marianinha, logo abaixo.
Feliz Dia das Crianças para todos os pequenos cabo-verdianos!
Ricardo Riso

O Club de Na Esquina do Tempo deixa o voto de um Feliz Dia da Criança, uma sugestão de leitura, Marianinha,

A obra Marianinha foi galardoada com o Prémio Literatura Infanto-Juvenil, 2008, um concurso promovido pelo Instituto Camões Centro Cultural Português na Praia, também responsável pela edição da obra.

Este é o primeiro trabalho publicado de Giselle Neves da Silva, natural de S. Vicente, que actualmente estuda Farmácia na Universidade Federal de Ouro Preto no Brasil.

O livro é ilustrado pelo artista plástico Tchalê Figueira.

Autora: Giselle Neves
Ilustrador: Tchalê Figueira
Editor: Instituto Camões – CPP Praia
Ano de edição: 2010

e uma lista, ainda que incompleta, de livros infanto-juvenis de produção nacional:

AMARÍLIS, Orlanda (1996), A Tartaruguinha. Praia: Centro Cultural Português
BETTENCOURT, Fátima (1997), A Cruz do Rufino. Praia: Centro Cultural Português
BRITO, Ineida Kénia (2003), Princesa Laginha. Mindelo: Biblioteca Municipal do Mindelo
COSTA, Mizé, Histórias que eu Contei (1996). Praia: Instituto Caboverdiano do Livro e do Disco
CURADO, Hermínia (2000), Histórias de Encantar. Praia: Instituto da Biblioteca Nacional e do Livro
CURADO, Hermínia (2003), A Magia das Palavras. Praia: Instituto da Biblioteca Nacional e do Livro
LOPES FILHO, João (1998), Vamos Conhecer Cabo Verde. Lisboa: Embaixada de Cabo Verde
LOPES, Leão (?). A História de Blimundo. Praia: Centro Cultural Português
LOPES, Leão (1998), Unine. Praia: Centro Cultural Português
LOPES, Leão (2009), Capitão Farel – A Fabulosa História de Tom Farwell, o Pirata de Monte Joana. Mindelo: Ponto & Vírgula, Edições
MAGALHÃES, Natacha (2009), Mãe, Me Conta uma História? Praia, Instituto da Biblioteca Nacional e do Livro
PEREIRA, Marilene (2000), Bentinho Traquinas. Praia, Instituto da Biblioteca Nacional e do Livro
PEREIRA, Marilene (2002), 1, 2, 3. Praia: Instituto da Biblioteca Nacional e do Livro
PEREIRA, Marilene (2007), Aventuras na Cidade Velha. Praia: UNESCO
PEREIRA, Marilene e SALÚSTIO, Dina (2002). Que os Olhos não Vêem. Praia: Centro Cultural Português
QUEIRÓS, Luísa (1998), Saaraci: O Último Gafanhoto do Deserto. Praia: Centro Cultural Português
RAMOS, Ivone (2009), Mam Bia Tita Conta Estória na Criol. Praia: Centro Cultural Português
RODRIGUES, Antónia Luís (2003). Minguim, o Pirata. Mindelo: Biblioteca Municipal do Mindelo
SALÚSTIO, Dina (1998), A Estrelinha Tlim-tlim. Praia: Centro Cultural Português
SANCHES, Zaida (2009), Colecção Stêra: A Greve dos Animais. Editora Isabel Gráfica Lda
SANCHES, Zaida (2009), Colecção Stêra: A Sopa da Beleza. Editora Isabel Gráfica Lda
SANCHES, Zaida (2009), Colecção Stêra: O Reino das Rochas. Praia: Editora Isabel Gráfica Lda
SANCHES, Zaida (2009), Colecção Stêra: A Princesa do Mês de Agosto. Praia: Editora Isabel Gráfica Lda
SOUSA, Graça Matos (2001), O Monstrinho da Lagoa Rosa. Praia: Centro Cultural Português
SOUSA, Graça Matos (2002), O Caracol Julião. Praia: Centro Cultural Português

domingo, 30 de maio de 2010

No futebol, questão racial não importa para as relações afetivas (????)

No futebol, questão racial não importa para as relações afetivas (????)
Por Ricardo Riso

A matéria a seguir foi publicada na edição on line do jornal Folha de São Paulo. Seu título, No futebol, questão racial não importa para as relações afetivas, tenta encobrir, sem sucesso, o racismo que há na relação das chamadas Maria-Chuteiras com os deslumbrados jogadores negros de futebol.

Aqui temos algumas questões que merecem vir à tona. A primeira refere-se ao negro que consegue ascender socialmente neste país e para completar a sua ascensão ele "necessita" ter uma mulher branca como companheira. Uma outra questão é que o homem negro só é aceito pela mulher branca se apresentar uma condição social elevada e, principalmente, uma conta bancária polpuda. Sim, há exceções, porém, raras. Vale recordar que são uniões que sofrem com os estereótipos, tais como: "ela gosta da coisa preta", ou o "negro de alma branca" que a família da mulher branca é obrigada a aceitar. Outro ponto a ser levantado é de como o estereótipo do negro como objeto sexual permanece em nossa sociedade, a verdadeira máquina de sexo. Se com o homem negro é assim, não preciso mencionar o que a mulher negra passa. (...)

Para ler o restante, acesse o blog A Bola Limpa

sábado, 29 de maio de 2010

José Luiz Tavares - Paraíso Apagado por um Trovão (3a. edição)

Paraíso Apagado por um Trovão, do celebrado poeta José Luiz Tavares chega a sua terceira edição sob a chancela da Universidade de Santiago. O que torna especial a atual edição é o fato de ser bilíngue, com todos os poemas transcritos em língua cabo-verdiana, além de constar uma entrevista à Maria João Cantinho em 2004.

Com esta obra, José Luiz Tavares foi galardoado com os seguintes prêmios: Prémio revelação Cesário Verde, C.M.O. 1999; Prémio Mário António, Fundação Calouste Gulbenkian 2004: e foi Finalista Correntes d’Escritas / Casino da Póvoa 2005.

Marco paradigmático na poesia cabo-verdiana, Paraíso Apagado por um Trovão é, conforme assinalou José Luis Hopffer Almada em posfácio de outro livro do poeta - Lisbon Blues, "choca, desde logo, pelo seu apuro de linguagem, num português raro, e quiçá rebuscado, na sua erudição.


Característico dessa linguagem é o seu quase despojamento do coloquialismo identitário da poética e do concreto léxico da caboverdianidade, por vezes marcada pelo chamado português literário de invenção claridosa, frequentemente chão, mesmo se – como foi anteriormente dito - assaz elaborado na sua inventividade literária e irrecusavelmente autêntico na sua pertinência cultural.

De todo o modo é o apuro da linguagem, na sua raridade e erudição, que tornam patente e incontornável o efeito universalizante de ruptura quer com o telurismo atávico, de raiz claridosa e feição novalargadista e vanguardista".

Parabéns ao poeta José Luiz Tavares por este novo Paraíso Apagado por um Trovão e pela tradução deste para a língua materna, objeto maior da afirmação identitária do arquipélago, e que tanta perseguição sofreu em um triste passado não tão distante. Há-de celebrar a produção em língua materna assumida por nomes como Danny Spínola, Kaká Barbosa, Jorge Carlos Fonseca, Zé Dy Sant'Y'Agu (heterônimo de José Luis Hopffer Almada), seguidores na tradicão do uso do crioulo de nomes como Kaoberdiano Dambará, Pedro Cardoso e Eugénio Tavares.

Ricardo Riso



ONDE HABITA O TROVÃO
UNDI KI STRUBON MORA
2.

A casa é um esboço de memórias:
primeiro, o telhado onde os gatos tecem
ninhadas. A insónia trabalha os alicerces
como furiosos êmbolos percutindo os veios.
Os filhos chamam das janelas, estendem raízes
pelos pátios num sereno avultar de astúcias.

O vento enumera as casas que foram sendo
habitação dos mortos; em segredo;
como um rumor de pálpebras
descendo sobre a surdina dos amados nomes
sussurrados junto aos poços do crepúsculo.

Ruínas de antiga ordem, fitam-nos desde
a lonjura do olvido; mas os esteios lá permanecem;
se bem que esventrados por percucientes máquinas.
Tão fundo descem que é própria raiz dos sonhos
que escarvam.
p. 22


i i .


Kaza é un sbosu di mimórias:
prumeru, tedjadu undi ki gatus ta tise
ninhadas. Insónia ta trabadja alisersis
sima piston furiozu ta rapika na veius.
Fidjus ta txoma di janela, es ta stende raís
pa pátius, nun labantar serenu di astúsia.


Bentu ta konta un pur un kes kaza ki ba ta ser
morada di mortus; sukundidu;
sima un susuru di pálpibras
ta dixi riba di surdina di kes nomi amadu
limiadu baxu djuntu di posus di kanbar di sol.


Ruínas di ordi antigu, es ta djobe-nu
desdi distansia lonji di skesimentu; mas pilar
ta kontinua la; si ben ki ratxadu
pa kes mákina ki ta diskabaka-s. Es ta dixi ton fundu
k’é propi raís di sonhus k’es ta garbata.
p. 23

 
10.

Imenso país imerso, a infância.
Cheira a mangas verdes mordidas sob
o sol de agosto. A bichos padecendo
num estio de febre.

Insoluta pátria de segredos
rescendendo pelos poros,
quando o norte se entenebrece
e as vozes do sul distante tecem
as incalculáveis rotas do regresso,

vejo-a a cada solidão adentrando
a raiz do coração; vejo-a incorruptível
por entre rápidos estandartes,
porque não de pedra
ou outra perecível matéria,

mas silente caule, raiz e húmus,
cicatriz perene — foi de um baio
que tive, jumento talvez, mas isso
que importa?, ó coração velho
que já só urros levas agora na carlinga.
p. 38

 
x.


País tamanhu murgudjadu
é mininesa. E ten txeru di mangi
mordedu na sol d’agostu.
Di bitxus ta padise nun veron di febri.


Pátria di segredus sima pedra
ta risende através di peli
ora ki norti ta sukura y kes vos
di sul la lonji ta kanta kaminhus
inkalkulável di rigresu,


n ta odja-l na kada solidon
ta kanba na rais di kurason; n ta odja-l perfetu
n ta odja-l na meiu di banderas presadu
sima kusa ki ka ta more,
ka pamodi é di pedra o dotu material
ki ta ditiora, mas pamodi
é tronku silensiozu, raís y strumu,


sikatris pa tudu senpri – foi di un kabalu
kor d’oru ki n tevi (si kadjar matxinhu,
mas kel li ka ten inpurtansia) ó kurason
bedju ki gosi so gritu
bu ta leba na kabina.
p. 39

Artiletra 19 anos - “MOVIMENTO A INTELIGÊNCIA ESTÁ NA MODA”

Artiletra 19 anos

PROGRAMA DO PRIMEIRO MÊS DO “MOVIMENTO A INTELIGÊNCIA ESTÁ NA MODA”

2 de Junho de 2010
Abertura do Primeiro Mês do Movimento “A Inteligência Está na Moda” e Lançamento do nº 104 do Artiletra, com um suplemento dedicado ao poeta Mário Fonseca
Hora: 16h00 - Local: Auditório da Universidade Jean Piaget

3 de Junho de 2010
Aula nacional sobre o tema “Protecção do Planeta Terra” com utilização da Banda Desenhada do nº 104 do jornal Artiletra em comemoração do Dia Mundial do Ambiente, com participação de 12152 alunos e 400 professores do EBI.

4 de Junho de 2010
Lançamento do Livro “Escritos Sobre Teatro” de Kwame Kondé, pseudónimo do Dr. Francisco Fragoso, com a parceria da Câmara Municipal da Praia.
Hora: 18h30 - Local: Salão Nobre da Câmara Municipal da Praia

5 de Junho de 2010
Conversa informal com o Dr. Francisco Fragoso sobre o tema “A influência da zona onde crescemos na formação da personalidade”.
Hora: 18h00 -  Local: Rua da Capela, Achada Santo António

6 de Junho de 2010
Lançamento Campanha Xeque Mate
Academia de Jogos de Xadrez, Damas, Uril, etc
Hora: 11h00 - Local: Esplanada do Hotel Rotterdam

Ao longo do mês de Junho
• Campanha de Promoção da Leitura
• Criação de Bibliotecas de Verão
• Oferta da Colectânea do Artiletra da última década e livros publicados pelas Edições Artiletra para bibliotecas e cantinhos de leitura das instituições de ensino em todos os Municípios de Cabo Verde
• Debate e recolha de sugestões sobre a criação do Museu contra a Mediocridade
• Encontros e Debates, com respectiva gravação, transcrição e transmissão de alguns momentos pelos vários órgãos de Comunicação Social, com participação de personalidades convidadas envolvendo toda a sociedade, sobre os seguintes temas:
• Educação e Inteligência • Arte e Inteligência • Escrita e Inteligência • Leitura e Inteligência • Matemática e Inteligência • Humor e Inteligência • Comércio e Inteligência • Política e Inteligência • Ambiente e Inteligência • Comunicação Social e Inteligência • Quotidiano e Inteligência • Família e Inteligência • Saúde e Inteligência • Revolução e Inteligência • Direito, Justiça e Inteligência • Religião e Inteligência • Novas Tecnologias e Inteligência • Urbanismo e Inteligência • Transportes e Inteligência • Turismo e Inteligência • Ciência e Inteligência • Moral e Inteligência • Cultura e Inteligência

30 de Junho de 2010
Encerramento do Primeiro Mês do Movimento “A Inteligência Está na Moda” e Lançamento do nº 105 do Artiletra, com um suplemento baseado nas transcrições dos debates realizados.

Participe !

Edições artiletra - Cx. P. 359
São Vicente
Tel. 231.5551 - Fax 232.5551
Praia
Tel.262.6060/626061 - Fax.262.6061

Fonte: e-mail enviado pelo Artiletra em 28 de maio de 2010.

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Vasco Martins - “run shan”


Vasco Martins - “run shan”
Por Ricardo Riso
Resenha publicada no jornal A Nação nº 143, de 27 de maio de 2010, p. 16

Exímio compositor e pianista de formação erudita, 11 álbuns gravados, 9 sinfonias, além de inúmeras peças dedicadas à música tradicional de Cabo Verde, Vasco Oliveira Martins nasceu a 12/07/1956 em Queluz, Portugal. Filho de pai cabo-verdiano e mãe portuguesa, fixou residência na ilha de São Vicente aos 9 anos de idade. Estudou em Portugal e França, retornou ao arquipélago em 1985, permanecendo até os dias atuais.

Na poesia, Vasco Martins recebeu menção honrosa nos Jogos Florais de 12 de setembro de 1976, participou da antologia “Mirabilis – de veias ao sol” e publicou os livros “Universo da ilha” (1986), “Navegam os olhares com o voo do pássaro” (1989) e “run shan” (2008), e artigos em diversas publicações. Na internet, sua poesia está no seu blog Deserto do Sul.

Com poemas atribuídos ao heterônimo Vasc d’Monteverde, run shan é um delicado livro de poesia dedicado ao Monte Verde, ponto máximo (774 m) da ilha de São Vicente. Escorando-se no profundo conhecimento das filosofias orientais, Vasc d’Monteverde recorre ao antigo poeta chinês Li Bai e aos taoístas para celebrar o Monte a partir do conceito de run shan: “significa ‘penetrar a montanha’, no sentido meditativo, contemplativo: usufruir do privilégio de estar longe da polícia geral da vida” (p. 5).

Do Monte Verde, o sujeito lírico revela o seu descontentamento com o mundo que o cerca e o inequívoco desejo de reformular sensações para acalentar o espírito. A montanha é o local de reflexão para os males da contemporaneidade: “Purificado pelas brumas do Monte Verde/ Alma de poeta caminhante contemplativo/ Encontro paz longe longe d’azafáma do mundo” (p. 18).

Das questões existenciais e metafísicas à exacerbada reverência telúrica ao Monte, o sujeito lírico apropria-se dos paradoxos do Tao Te King:

(Agora entre eu e o Monte Verde
Só as nuvens que passam,
Os momentos de plenitude
São quando deixamos de ser nós
(Para sermos nós) (p. 7)

Elementos da natureza como o ar e a aspiração por liberdade aparecem em tenras imagens de uma poesia comprometida com o etéreo. As metáforas do voo surgem envoltas a uma profunda interiorização do ser:

Deste único arvoredo vejo uma
Ilha suspensa: vou com ela
Pelo universo adentro talvez
Nalgum porto o meu espírito há-de acostar (p. 15)

A água é outro elemento invocado para criticar o caos da vida contemporânea e trazer uma nova Era:

De uma secreta fonte há-de brotar
Límpida água
Fluindo depois como uma ribeira
Purificando o coração dos homens
Pacificando o coração dos homens
Restabelecendo a Era da ternura e compaixão (p. 25)

Na procura pela harmonia “Visto uma camisa amarela/ Para condizer com a luz do fim do dia” (p. 23). O poema “Sob um pé de charuteira” mostra a gradação da meditação, da tranquilidade do shanti à passagem a um novo estágio de consciência, o samsara. Sinérgico, a confluência com o Indivisível: “Sinto:/ A montanha parece querer entrar em mim// Agora:/ Azul Abril/ Asa de borboleta nocturna” (p. 21)

Ao usar o heterônimo Vasc d’Monteverde, Vasco Martins contribui de forma excepcional para o lirismo e o universalismo da poesia cabo-verdiana. As ressignificações inspiradas na filosofia oriental demonstram prismas diferenciados que ajudam a pensar alternativas à histeria do mundo ocidental. Um canto lírico mergulhado no cosmo da natureza, de uma poesia liberta das amarras terrenas, conduzida pela ilimitada imaginação do Verbo.

Acompanhamos os versos do poeta, “Felizes brindámos/ À vida com bom vinho/ Momento eterno fugaz” (p. 26). Monte Verde: signo de pureza e alegria, onde os movimentos cósmicos se transformam para renovar o ser humano, renovar o mundo. Monte Verde, reduto do belo; run shan, páginas de encantamento a desvendar o mistério da criação.

Monte Verde!

Já dormi em cima da tua terra limpa-macia!
Celebro-te!
Perto de ti não mais tenho dúvidas!

Que muitas gerações ainda celebrem a tua beleza.
Que te protejam dos homens e das cabras.
Continuarás então a limpar a alma
Dos que sentem o apelo das brumas e do silêncio. (p. 30)

terça-feira, 25 de maio de 2010

Francisco José Tenreiro - Fragmento Blues, Dia da África 3

FRAGMENTO DE BLUES

(A Langston Hughes)

Vem até mim
nesta noite de vendaval na Europa
pela voz solitária de um trompete
toda a melancolia das noites de Geórgia;
oh! mamie oh! mamie
embala o teu menino
oh! mamie oh! mamie
olha o mundo roubando o teu menino.

Vem até mim
ao cair da tristeza no meu coração
a tua voz de negrinha doce
quebrando-se ao som grave dum piano
tocando em Harlem:
– Oh! King Joe
King Joe
Joe Louis bateau Buddy Baer
E Harlem abriu-se num sorriso branco
Nestas noites de vendaval na Europa
Count Basie toca para mim
e ritmos negros da América
encharcam meu coração;
– ah! ritmos negros da América
encharcam meu coração!

E se ainda fico triste
Langston Hughes e Countee Cullen
Vêm até mim
Cantando o poema do novo dia
– ai! os negros não morrem
nem nunca morrerão!

...logo com eles quero cantar
logo com eles quero lutar
– ai! os negros não morrem nem
nem nunca morrerão!

http://www.antoniomiranda.com.br/poesia_africana/s_tome_princepe/francisco_jose_tenreiro.html