quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Adilson Martins - Erinlé, o caçador e outros contos africanos (livro)


Adilson Martins – Erinlé, o caçador e outros contos africanos

Em sua terceira incursão pelo universo infantil com o livro Erinlé, o caçador e outros contos africanos (Rio de Janeiro: Pallas Editora, 2008), o escritor Adilson Martins comprova sua extrema habilidade narrativa ao recriar contos de matrizes africanas.

Possuidor de uma escrita envolvente, clara e suave, os oito agradáveis contos que compõem o livro fascinam pequenos leitores e adultos pelo encantamento das situações apresentadas. As histórias são profundas pelo que pretendem ensinar e pelo caráter universal, mostrando passagens que, apesar de africanas, encaixam-se em quaisquer culturas, pois falam de códigos de conduta, da perseverança na boa ação, no encantamento ao ajudar animais mágicos etc. Além disso, há um grande destaque à cultura Yorubá, apresentando seus orixás, como Xangô e Oxum, e demais fatores culturais dessa etnia.

Ao final de cada narrativa, o autor tece relevantes comentários relacionados a aspectos diversos como sociais, geográficos e históricos que aparecem nos textos, aprofundando a compreensão e aguçando a curiosidade dos leitores.

As ilustrações ficam a cargo da sempre competente Luciana Justiniani Hees. Elas são atraentes e ricas em detalhes do cotidiano, vestimentas, armas de caça e demais objetos, animais etc., tornando-se um delicado complemento à leitura. Destaque também para a cuidadosa diagramação e cores utilizadas.

O livro Erinlé, o caçador e outros contos africanos ajuda a disseminar as lendas africanas em nossa sociedade, que estão à margem das lendas europeias e excluídas do currículo escolar. Trata-se de um excelente material para introduzir a história, as crenças e os costumes africanos para o conhecimento das crianças, contribuindo, assim, para que elas tenham dimensão da diversidade da formação cultural brasileira, assim como é um ótimo livro para os professores que pretendem implementar as Leis 10.639/2003 e 11.645/2008 em sala de aula, em razão das curtas narrativas e da diversidade temática apresentada.

Leitura agradável e singela, seguindo os anteriores Lendas de Exú e O papagaio que não gostava de mentiras e outras fábulas africanas (ambos pela Pallas Editora), Adilson Martins, este incansável divulgador das culturas africanas e afro-brasileira, novamente ensina-nos com saber e sabor.


Erinlé, o caçador e outros contos africanos
De Adilson Martins
Ilustrações de Luciana Justiniani Hees
Rio de Janeiro: Pallas Editora, 2008.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Raul Lody – As Gueledés - a festa das máscaras


Raul Lody – As Gueledés - a festa das máscaras

Profundo pesquisador das religiões afro-brasileiras, tendo vários livros que abordam o tema, dentre tantos o Dicionário de arte sacra e técnicas afro-brasileiras, o antropólogo, museólogo, autor e ilustrador Raul Lody realiza sua segunda incursão na literatura infantil, antes havia publicado Seis pequenos contos africanos sobre a criação do mundo e do homem, agora volta-se para a cultura Yorubá e lança As Gueledés – a festa das máscaras, pela Pallas Editora.

A partir da importância das mulheres na sociedade Yorubá e do poder que possuem, dentre tantos, um dos principais é o de ser mãe, o autor narra diferentes aspectos que desvendam a participação feminina nas atividades cotidianas, nas artes e na magia. Neste, conta-se a história das Senhoras da Noite (as Yás, em Yorubá, ou seja, mães) e o incrível poder que possuíam, como transformarem-se em animais e realizarem reuniões secretas durante a noite, o que as faziam ser temidas e respeitadas pelos homens.

Diante disso, os homens procuravam uma forma de neutralizar o poder dessas mulheres e criaram máscaras fascinantes e roupas coloridíssimas, nascendo, assim, a festa diurna das Gueledés como forma de distrair, com muita música e dança a atenção das mulheres feiticeiras, deixando-as exaustas e entregues ao sono no período noturno. Dessa maneira, evitava-se que elas se reunissem à noite e aumentassem seus poderes.

No decorrer da narrativa, o pequeno leitor atenta-se às atividades dedicadas às mulheres Yorubás, como as de vendedoras e os alimentos e objetos que constavam em suas barracas. O autor relaciona-as às famosas baianas que vendem acarajé e como elas perpetuam as tradições africanas na atualidade, presentes, também, nas vestimentas e religião, assim como o fundamental papel na educação dos filhos e na narração das histórias dos antepassados.

Ao final do livro, Raul Lody acrescenta diversas informações enriquecedoras acerca dos Yorubá para as crianças que ficam conhecendo as origens desse povo no continente africano, sua relação com a arte, aspectos sociais, a divisão do trabalho entre homem e mulher etc.

Por seu caráter instrutivo a respeito de uma importante manifestação afro-brasileira, As Gueledés – a festa das máscaras presta um fundamental papel ao tratar da permanência das tradições Yorubá e da valorização em nossa cultura, mostrando o quanto foi importante a participação dessa etnia africana na formação e diversidade do nosso país.



As Gueledés – a festa das máscaras
De e ilustrado por Raul Lody
Rio de Janeiro: Pallas Editora, 2010.

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Rosana Paulino - Memórias de Sombras (exposição/SP)


Exposição Memórias de Sombras, da artista plástica Rosana Paulino, também ilustradora do livro infantil A lenda da Pemba, de Marcia Regina da Silva.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Marcia Regina da Silva – A Lenda da Pemba (livro)


Marcia Regina da Silva – A Lenda da Pemba
Por Ricardo Riso
Márcia Regina da Silva reescreve uma das mais belas histórias tradicionais oriunda do continente africano e que também se encontra em nossa cultura afro-brasileira, trata-se d’A Lenda da Pemba, título do seu livro infanto-juvenil publicado pela editora paulistana Larousse do Brasil em 2009, compondo a coleção Larousse Junior.

O grande valor da narrativa é abordar a pemba, um pó sagrado utilizado nas religiões afro-brasileiras, e contar a história de um amor impossível entre Mipemba, uma linda jovem negra que morava em um reino da África, e um jovem admirador. Amor impossível em razão das tradições do povo de Mipemba, pois a jovem foi escolhida para ser oferecida aos ancestrais.

O desenrolar da história é recheado de misticismo, sendo comovente o seu final, cabendo aqui ressaltar a condução precisa da narrativa tecida por Márcia Regina da Silva. Ao término da breve história, o pequeno leitor saberá a multiplicidade de usos que o pó sagrado da pemba oferece e as suas virtudes, tais como espalhar o amor, a harmonia e a felicidade entre as pessoas. Características que eram marcantes em Mipemba.

O livro consta de felizes ilustrações de Rosana Paulino, que se inspirou nas máscaras africanas para caracterizar as faces de seus personagens, a cuidadosa representação das vestimentas e seus tecidos bordados com formas geométricas, além das cenas do cotidiano de uma aldeia e de variados símbolos africanos. Os desenhos de Paulino são sucintos, suas formas são simples e sem exageros e sua paleta de cores é reduzida, tornando-os eficientes e um ótimo e agradável acompanhamento à leitura.

A Lenda da Pemba é um eficaz entretenimento para o pequeno leitor e ainda possui a qualidade de descrever um componente essencial da nossa religiosidade afro-brasileira. Um livro que atende aos textos das leis 10.639/2003 e 11.645/2008, assim como enriquece e ajuda a diversificar a literatura infanto-juvenil de temática afro-brasileira. Trata-se de um excelente resultado alcançado pela parceria Marcia Regina da Silva e Rosana Paulino.


A Lenda da Pemba
De Márcia Regina da Silva
Ilustrações de Rosana Paulino
São Paulo: Larousse do Brasil, 2009

domingo, 19 de setembro de 2010

Oficina de Contos Africanos e Contação de Histórias - CCJF/RJ

Oficina de Contos Africanos e Contação de Histórias


Com quem? Silvia Carvalho e Alyxandra Gomes – Karingana Ua Karingana*
Onde? Centro Cultural da Justiça Federal – RJ
Horário? 18 às 21 horas
Quando? Dias 1, 8, 15, 22 de outubro e 05 de novembro.
Valor? 120,00
Contato? 21-87171780
E-mail: karinganauakaringana@yahoo.com.br
Blog: http://www.karinganauakaringana.blogspot.com/

Temas: - A literatura africana; - O conto africano; - O conto afro brasileiro; - O ofício do contador de histórias; - Pesquisa de repertório; - Exercícios de interpretação; - Leitura, literatura e lei 10.639/03; - Video sobre contadores; - Roda de contação no encerramento

* Alyxandra Gomes é Professora, doutoranda em Estudos Étnicos e Africanos no Centro de Estudos Afro Orientais em Salvador & Silvia Carvalho é Psicóloga, Especialista em Literatura Africana, ambas coordenam o Karingana Ua Karingana desde 2005.

Fonte: E-mail gentilmente enviado pela colega Silvia Carvalho em 16 de setembro de 2010.

sábado, 18 de setembro de 2010

Filinto Elísio - Outros sais na beira mar (lançamento livro em Fortaleza/CE)

OUTROS SAIS NA BEIRA MAR - O lançamento do livro de Filinto Elísio (Editora Letras Várias, 190 páginas) acontece hoje (18) a partir das 19h no Espaço Cultural Oboé (Avenida Dom Luís, 300 – Aldeota). Aberto ao público. A publicação terá preço especial para o lançamento R$20.

Fonte: e-mail gentilmente enviado pelo escritor Filinto Elísio a partir do endereço http://www.opovo.com.br/app/opovo/vida-e-arte/2010/09/18/internaimpressavidaearte,2043238/literatura-de-beira-do-mar.shtml

Helena Theodoro – Os Ibejis e o Carnaval


Helena Theodoro – Os Ibejis e o Carnaval
Por Ricardo Riso

Aprendizado, ludicidade e lirismo dão corpo à bela narrativa Os Ibejis e o Carnaval, da pesquisadora da cultura brasileira e professora doutora Helena Theodoro.

A pequena narrativa gira em torno dos ibejis, nome africano para gêmeos. São eles: Neinho e Lalá. Como todas as crianças, a curiosidade exacerbada conduz o diálogo à festa do carnaval e vários aspectos que envolvem a sua feitura, e é na tessitura textual de intensa habilidade narrativa que o leitor mirim se deparará com a escrita leve, concisa, esclarecedora e envolvente de Helena Theodoro.

Diversos aspectos do carnaval, por conseguinte, da cultura afro-brasileira, são apresentados pela autora. Os pequenos aprendem como é a celebração tradicional do nascimento das crianças entre os negros: com batucada, samba, cantos e apresentação dos bebês à lua, que quando está na fase cheia sinaliza sorte e felicidade aos recém-nascidos.

As crianças crescem, a agitação normal da pouca idade leva as discussões ao carnaval. “Carnaval é a festa do povo! É quando as escolas contam suas histórias e mostram o valor da nossa gente”, diz a menina Lalá; enquanto pela voz de Neinho o pequeno leitor passa a conhecer a diversidade da festa: “carnaval não é só escola de samba, tem os blocos afro da Bahia, blocos de embalo aqui do Rio de Janeiro e até os afoxés”.

Theodoro também mostra sua generosidade ao citar e homenagear figuras ícones do carnaval – como o mestre-sala Ronaldinho do Salgueiro e a porta-bandeira Selminha Sorriso, além de Mestre Dionísio –, menciona blocos como o tradicional Cordão do Bola Preta e a escritora Lygia Bonjunga Nunes.

A narrativa destaca o conhecimento oral transmitidos pelos mais velhos para contar passagens da nossa famosa festa popular e explica-se como a sabedoria oral é passada por meio de histórias, de geração em geração. Contudo, não só a oralidade se faz presente, a avó dos ibejis também lê histórias que dizem respeito a nossa cultura afro-brasileira.

Ao final do livro, encontra-se um importante glossário que descreve termos como os instrumentos de percussão, os ritmos, os diferentes blocos, a origem da festa e breve histórico das pessoas citadas, saciando, assim, na plenitude, a curiosidade dos pequenos e dos grandes leitores.

A graciosa história Os Ibejis e o Carnaval tem como acompanhamento as felizes e riquíssimas ilustrações de Luciana Justiniani Hees. O livro possui uma cuidadosa, criativa e ousada diagramação que dialoga harmoniosamente ilustrações e texto, contribuindo para que o livro pareça um perfeito desfile de uma escola de samba na Marquês de Sapucaí.

Para além de resgatar a cultura afro-brasileira presente na festa do carnaval, Os Ibejis e o Carnaval é uma fundamental ferramenta para os educadores que desejam trabalhar com as leis 10.639/2003 e 11.645/2008, para os pais que presentearão seus filhos com uma agradável e respeitosa abordagem do carnaval tradicional, e também servir como uma forma de resistência da nossa cultura negra, assim como eram as escolas de samba em tempos remotos.

“Vocês sabem que a dança do mestre-sala e da porta-bandeira é a dança da reza?”, questiona a avó às crianças. Esta e o porquê do uso da bandeira pela porta-bandeira são respondidas nesse encantador Os Ibejis e o Carnaval, a excelente incursão de Helena Theodoro na literatura infantil.


Os Ibejis e o Carnaval
de Helena Theodoro
ilustrações de Luciana Justiniani Hees
Rio de Janeiro: Pallas, 2009.

Nei Lopes – Kofi e o menino de fogo


Nei Lopes – Kofi e o menino de fogo
Por Ricardo Riso
Produtor de uma multifacetada obra intelectual e artística, passando pelas composições de samba e pelas variadas investigações acerca das matrizes africanas e afro-brasileira em nossa cultura, o que o torna referência tanto na esfera acadêmica quanto na música popular, este suburbano, sambista, professor, teórico e incansável escritor Nei Lopes, lançou, pela Pallas Editora, em 2008, um novo livro direcionado ao público infantil: Kofi e o menino de fogo.

Com a excelência que lhe é peculiar, Nei Lopes inspira-se na história de um grande pensador africano, o milanês Amadou Hampâte Ba (1899-1991), autor do clássico Amkoullel, o menino fula. A narrativa se passa em Gana no ano de 1950 e o narrador relaciona a época com o contexto histórico do continente africano, ainda dominado pela violenta colonização europeia que escancarava a usurpação na maneira como denominava os países ocupados, tais como Costa do Ouro (o nome de Gana antes da independência), Costa do Marfim e Costa dos Escravos (o atual Benim), e com o Brasil, no caso, a inauguração do estádio de futebol, Maracanã.

A importância dos nomes e como são escolhidos para dá-los às crianças em boa parte da África são revelados pelo narrador: “Na África, de um modo geral, quando uma criança nasce, ela não recebe qualquer nome. Recebe um nome de acordo com o dia da semana, com a ordem do seu nascimento dentro da família ou relacionado a um fato importante que aconteça naquele dia. Por isso Kofi se chama assim. Porque nasceu em uma sexta-feira”. Além de destacar o aprendizado oral no cotidiano da aldeia e o respeito das crianças aos mais velhos.

Entretanto, a essência do livro está na maneira como é descrita a percepção do outro. Isso se dá a partir do momento que a aldeia recebe uma expedição com visitantes brancos. O menino Kofi jamais havia saído de sua aldeia, mas sabia da existência de pessoas diferentes de seus pares. O autor é extremamente habilidoso ao descrever a percepção imaginária desse outro desconhecido a partir dos relatos que foram passados ao jovem africano, que ficam exemplificados na relação com o fogo, pois quando as tais pessoas brancas ficavam irritadas, seus rostos ficavam vermelhos “como as chamas de uma fogueira e que se alguém encostasse nelas morreria de dor... Porque a pele dessas pessoas queimava, como o ferro em brasa da forja do forjeiro”.

Nesse primeiro contato notamos o olhar assombrado de Kofi quando avista um menino branco, que o acompanha em igual medo. A aproximação dos dois meninos e a coragem em reconhecer o outro, conduzindo ao rompimento dos estereótipos transmitidos pelos adultos são tratados com incrível objetividade pelo narrador que mostra a importância do encontro com o outro, de conhecê-lo, de senti-lo e a consequente percepção de que somos todos as pessoas são iguais, “mesmo que sejam, na aparência, muito diferente de nós”. Essa é a generosa mensagem que a narrativa procura transmitir aos pequeninos – e também aos adultos.

As ilustrações são de Hélène Moreau e merecem destaque absoluto as caracterizações de como seria uma pessoa branca na imaginação do pequeno Kofi. Após a narrativa, o livro encerra-se com um esclarecedor resumo acerca de Gana, destacando geografia, história, economia, dados populacionais, fauna, flora, alimentação e aspectos culturais do país.

Kofi e o menino de fogo é uma leitura extremamente didática, estimulante e agradável, para além de prestar uma excelente contribuição ao propor a equiparação das relações étnico-raciais em nossa sociedade, ainda marcadas pelo triste estigma da segregação, principalmente no que se refere a nós, negros.

Aplausos calorosos ao mestre Nei Lopes!


Kofi e o menino de fogo
de Nei Lopes
Ilustrações de Hélène Moreau
Rio de Janeiro: Pallas, 2008.

João Vário – Exemplos - Exemplo Coevo, por Ricardo Riso


João Vário – Exemplos - Exemplo Coevo
Por Ricardo Riso
Texto publicado no semanário cabo-verdiano A Nação, nº 159, 16/09/2010, p. 16.

Lançado em 1998 pela Spleen Edições, Exemplos - Exemplo Coevo, de João Vário, é o 9º volume de uma série de 12 exemplos que, segundo o autor em nota introdutória, “narram, ou melhor, tentam narrar o homem na sua exemplar singularidade”.

João Vário é o pseudónimo de maior complexidade de João Manuel Varela, também criador de T. T. Tiofe e G. T. Didial. As profundas indagações de cariz ontológico-metafísico, permeadas por citações de cânones da poesia universal em longos poemas narrativos, para além do intertexto com a Bíblia e da música barroca europeia, valeram à obra de Vário a ostracização literária (assim definida por José Luis Hopffer Almada) por parte da crítica especializada em virtude dos exemplos surgirem no cantalutismo dos anos 1960.

Entretanto, sob a pena de T. T. Tiofe, as críticas são rebatidas na “Segunda Epístola ao meu irmão António” (TIOFE. O Primeiro e o Segundo Livro de Notcha. Mindelo: Edições Pequena Tiragem, 2001. p. 167): “Sirvo-me da cultura ocidental como duma arma miraculosa, como diria Cesaire, para elaborar a partir de coisas nossas, de raízes específicas, uma poesia de interpretação ontológica ou uma poesia cabo-verdiana de vigor novo (...)”

Esclarece ainda o autor na “Oitava Epístola ao meu irmão António” (TIOFE, 2001, p. 302): “Essa poesia ontológica surpreendeu muitos compatriotas ou não foi, simplesmente, aceite (...), espante que um país, como o nosso, com (...) uma história de múltiplas carências várias, tal como o próprio continente, não tenha visto de imediato (...) que tudo isso levaria a seu tempo a uma criação literária de índole ontológica, que poderia dar a impressão de nada ter a ver com o arquipélago, mas que, no entanto, estaria a ele ligado por essa reflexão assim suscitada. (...)” (TIOFE, 2001, p. 302-303).

Em Exemplo Coevo, dividido em 3 cantos, as indagações ontológicas são feitas a partir dos acontecimentos do ano de 1937, ano de nascimento do autor, e de como influenciaram a sua vida: “E as coisas aguardam a chegada da besta apocalíptica”. Um tempo perverso e indaga: “Não há século maior nem mais vil que este vigésimo. (...) Pois que se assiste a grandes criações/ - soluções para a vida e para a morte -,/ era para a morte ou para a vida/ que o homem se erguia/ sobre seus dois escassos pés?”.

Apesar de asseverar que “trata-se dum ano/ de grandes tribulações e de grandes penas”, o pessimismo domina o poeta diante dos fatos relatados, das obras de arte apresentadas e das conquistas das ciências ao longo do poema, além das constatações que ferem a verosimilhança: “Porque também é verosímel/ que vítimas sejam dos molares do homem/ que no meio da sua alma todas as coisas/ desta vida mastigam, patético óbolo/ a um deus desconhecido, vivido na inverosimilhança”, visto que “havíamos passados vários anos a ler os presságios/ e sabíamos que a perversão e o ódio, a humilhação e o desprezo,/ a delação e o homicídio se instalariam/ por muito tempo à cabeceira das vicissitudes dos dias”. É nesse “naufrágio das alternativas” no qual o poeta “aos seus contemporâneos lembre/ a perenidade do mal e a quase impotência/ da generosidade neste mundo”.

Somente o Belo para atenuar a conturbada época: “a beleza é a única unidade revelada”, “nesse ano de grandes infortúnios e de grandes obras (...) o mundo nunca desnudou tanto/ suas maniqueias raízes como em tal tempo”, pelo qual o poeta, desolado, afirma: “a verdade começou a ser uma infeliz inauguração, um incerto medicamento”. Resta ao poeta optar pela solidão “afinal que tudo mostra à bem-aventurança” em um mundo agônico. O mal vence, a agonia perdura na contemporaneidade, e vaticina: “com os homens esteve o poeta/ em fraqueza, em temor e em grande tremor”.

Sendo assim, infere-se a excelência da obra de João Vário que “há já alguns anos que muitos patrícios começaram a aceitar esse tipo de poesia, como a praticá-la. Em suma, mudou-se o paradigma” (TIOFE, 2001, p. 302). Para o melhor da poesia cabo-verdiana, diga-se.

Tchalê Figueira - Ptolomeu e a sua viagem de circum-navegação, por Ricardo Riso


Tchalê Figueira - Ptolomeu e a sua viagem de circum-navegação
Por Ricardo Riso
Texto publicado no semanário cabo-verdiano A Nação, nº 157, 02/09/2010, p. 18.

Consagrado como artista plástico por uma obra que ilustra os desfavorecidos de seu país, poe outro lado, Tchalê Figueira também possui uma forte vertente literária, tendo publicado livros em prosa e poesia, como “Solitário”, “O Azul e o Mar”, “Onde os sentimentos se encontram”, “Todos os naufrágios do mundo”, para além de publicações em antologias, jornais e revistas como Artiletra.

Ao arriscar-se pela literatura, Tchalê não foge à abordagem das personagens que o consagraram na pintura, ao apresentar a figura do marinheiro que navegou pelos sete mares do mundo, o velho Ptolomeu Rodrigues, protagonista da novela “Ptolomeu e a sua viagem de circum-navegação” (Mindelo: Mar da Palavra, 2005).

Baseando-se na oralidade, com uma escrita descompromissada com as normas da língua culta, o autor utiliza um atento narrador que escuta as peripécias repletas de contratempos do velho marinheiro bêbado, que conta com prazer e algumas boas doses de irritação quando interrompido suas artimanhas pelos diversos bares e prostíbulos das zonas portuárias dos quatro cantos do mundo.

As aventuras de Ptolomeu confundem-se com a história do autor, pois assim como a personagem principal, Tchalê Figueira também fugiu do arquipélago cabo-verdiano durante o final da ditadura salazarista para não ser convocado pelo serviço militar e lutar contra seu povo. Com isso, ainda na adolescência, tornou-se marinheiro e navegou pelo globo.

Cerceado pelos mares, o ilhéu cabo-verdiano possui uma inevitável relação de proximidade com as águas, sendo seu desafio e determinante em seu destino, o que o leva geralmente à emigração por causa das dificuldades trazidas pela seca, fome, miséria e falta de trabalho. E foi exatamente o que aconteceu com Ptolomeu: foi-se embora como clandestino em uma embarcação durante a longa noite do período colonial em busca de outro rumo para a vida, pois sofria com a repressão de ordem familiar, social e política. Logo, encarar o mar significava a liberdade em vários sentidos.

As aventuras e desventuras de Ptolomeu mapeiam, de certa maneira, alguns dos lugares da diáspora cabo-verdiana. Muitos desses emigrantes viram marinheiros ou fixam residência, ou passam pelas cidades as quais o velho Ptolomeu cruzou, tais como Roterdã, Vladvostok e Salvador.

Ptolomeu narra suas histórias a uma plateia imaginária e ao narrador, que se surpreende com os momentos de erudição do velho marujo, suas passagens e encontros inusitados como quando foi salvo em Moscou das cruéis prisões russas pelos camaradas Amílcar Cabral e Pedro Pires (do PAIGC - Partido Africano da Independência de Guiné e Cabo Verde), que lá se encontravam para obter apoio do país comunista para a luta pela independência.

Seu desejo insaciável pelas mulheres é, por conseguinte, o motivo de seus infortúnios em reviravoltas que envolvem chantagens políticas, trapaceiros, policiais corruptos, cafetões, mulheres iradas com sua infidelidade e "cachorros" que cruzam o seu caminho.

Apesar dos percalços vividos pelo velho, as frenéticas viagens de Ptolomeu são saborosas, curiosas, rápidas e irônicas o que torna o pequeno livro uma agradável leitura.

Tchalê Figueira apresenta com a novela Ptolomeu e a sua viagem de circum-navegação como seria a vida de um cabo-verdiano que decidiu encarar os mares e as diversas culturas do mundo, entretanto, a situação diaspórica, motivada pela saudade das ilhas, acaba conduzindo o ilhéu ao seu lugar de origem, ao lugar que ama no mundo, onde termina a sua circum-navegação, Cabo Verde.