sábado, 2 de outubro de 2010

I Encontro de Literatura e de Estudos Multiculturais - 14 e 16/10/2010

I Encontro de Literatura e de Estudos Multiculturais

O curso de Especialização em Literatura da Universidade de Taubaté,em parceria com o Departamento de Ciências Sociais e Letras, realizará, entre os dias 14 e 16 de outubro de 2010, o I Encontro de Literatura e de Estudos Multiculturais. O ELEM pretende se constituir em um espaço para discussão e reflexão sobre a literatura e outros saberes, por meio da realização de mesas-redondas e de palestras proferidas por pesquisadores e escritores renomados. De âmbito internacional, o evento contará este ano com a presença do escritor angolano Ondjaki, recentemente galardoado com o Prêmio Jabuti.

 
Fonte: e-mail gentilmente enviado pela Profa. Ms. Isabelita Crosariol

Ruy Duarte de Carvalho e apresentação do Buala - Bienal SP


Homenagem a Ruy Duarte de Carvalho e apresentação do Buala

Na ocasião , as jornalistas Marta Lança e Marta Mestre apresentarão o portal BUALA (http://www.buala.org/), sobre cultura africana contemporânea, e a professora Rita Chaves falará sobre o livro Desmedida, de Ruy Duarte de Carvalho. Haverá ainda projeção de fotografias da viagem que inspirou o livro (fotos da historiadora Daniela Moreau)
 
Convidam: o Buala, a Casa das Áfricas e a Ed. Língua Geral

Dia 4 de outubro, segunda-feira, das 17h às 19h.
 
Fonte: e-mail da Casa das Áfricas do dia 2 de outubro de 2010.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Ondjaki - Avódezanove e o segredo do soviético - Prêmio Jabuti 2010 (Juvenil)


Parabéns ao angolano Ondjaki pelo Prêmio Jabuti - categoria Juvenil para o seu Avódezanove e o segredo do soviético (Cia. das Letras).

Ricardo Riso

Jean-Michel Basquiat – The Radiant Child



Jean-Michel Basquiat – The Radiant Child
Por Ricardo Riso

O Festival do Rio Internacional de Cinema sempre reserva boas supresas, traduzidas em excelentes filmes e/ou documentários. Na edição deste ano, aguardei com imensa expectativa o documentário Jean-Michel Basquiat – The Radiant Child (2009), de Tamra Davis. Trata-se de uma entrevista realizada em 1986 pela diretora com o artista plástico norte-americano Jean-Michel Basquiat que ficou sem ser editada por mais de vinte anos.

Basquiat estava no auge da fama, o doc intercala a entrevista com imagens de diversos momentos de sua carreira e depoimentos do artista plástico e diretor de cinema Julian Schnabel (dirigiu o filme “Basquiat”), dos galeristas Larry Gagosian, Bruno Bischofberger e Tony Shafrazi, do grafiteiro e amigo Fab 5 Freddy, e amigos que conviveram com este artista que tomou de assalto o mundo das artes, tornando-se o primeiro negro a vencer no discriminatório circuito da arte contemporânea ocidental.

Basquiat vivenciou um momento de agitação e grandes mudanças em Nova Iorque na virada dos anos 1970/1980. A cidade passava por um período de muita violência e alto consumo de drogas, por outro lado, emergia na comunidade negra a cultura hip hop com seu grafite, a break dance e o rap; assim como uma nova geração bastante inquietante buscava seu espaço com vanguardas que diferiam da ordem vigente. Nessa época destacaram-se três grafiteiros: Kenny Scharff, Keith Haring e Jean-Michel Basquiat. Este começou a chamar atenção com os grafites intitulado com o nome Samo (same old shit - mesma velha merda, uma parceria com Al Diaz), viria a ser o mais bem sucedido artista de toda a sua geração.

Com menos de 20 anos, Basquiat já se apresentava como um artista pronto, seguro e determinado em relação à sua arte. Faltava apoio financeiro para este jovem artista que vivia nas ruas, ou em casa de amigos ou namoradas para sobreviver, fato comum entre vários emergentes do meio artístico da época. Quando isso aconteceu, sua carreira decolou com uma velocidade jamais vista na arte contemporânea. Sua primeira exposição solo teve todos os quadros vendidos e desde então sua ascensão foi fulminante, tornando-se uma celebridade pop que convivia com artistas como Madonna e Andy Warhol.

Seu pungente neoexpressionismo foi o contraponto necessário para determinar o fim da supremacia do minimalismo e da arte conceitual que dominaram as décadas de 1960/1970 e consagraria o retorno triunfante da pintura. Suas imagens viscerais, em grande formato, com forte e intrigante presença textual impactaram a todo o meio da arte, que parecia não estar preparado para algo tão inovador e agressivo. Mesclando o seu conhecimento de história da arte, a sua origem de pais imigrantes – pai haitiano e mãe porto-riquenha –, a linguagem das ruas dos bairros negros, a pop art, o jazz e uma ambição desmedida para vencer, ele foi erguido ao máximo que uma pessoa pode chegar em pouquíssimo tempo. Isso tudo teve um preço e foi cobrado do artista.

Por sua origem das ruas, ser pobre e um homem negro, Basquiat sofria com a discriminação da crítica especializada e de importantes galerias e museus que não aderiram ao seu estilo. Algo que o irritava profundamente, e com razão, a ponto de responder com rispidez a um repórter quando perguntado se ele era obrigado a ficar trancado em um porão para pintar, o que imediatamente o fez reclamar se tal indagação seria feita dessa maneira caso ele fosse um branco ou, sendo um branco, o comentário da repórter seria de algo como “o artista estava em reclusão”.

Consciente da discriminação racial na sociedade americana, Basquiat fazia questão de posicionar-se como negro, por conseguinte, homenageou diversos ícones de nossa cor em sua obra, dentre vários, podemos citar o lutador de boxe Sugar Ray Robinson e músicos de jazz como Charlie Parker, para além de denunciar a violência policial aos jovens negros, exatamente como ocorrer aqui no Brasil, com a célebre tela que mostra o espancamento de Mike Stewart.

Basquiat sabia que era manipulado e tentava jogar com isso, mas a perversa engrenagem das celebridades era mais forte que ele e não teria forças para vencer o inimigo maior, as drogas. Após a avalanche de críticas negativas à má sucedida parceria com o amigo Andy Warhol, o artista mergulha na heroína, situação que pioraria com a morte do papa da pop art. Suas obras diminuíram em intensidade, apesar da genialidade ainda marcante, por sinal são agonizantes as referências à morte na sua última exposição: em uma tela há a repetição da frase “man dies” e em outra, o título e a figura assustadora em “Riding with the Death”. Todavia, a crítica resolveu retirar a máscara que sustentou no início da carreira do jovem artista “selvagem” e frisa a decadência. Com isso, Basquiat perdeu-se e entregou-se cada vez mais até vir a falecer em 12 de agosto de 1988, antes de completar 28 anos de idade.

Riquíssimo em imagens da época, abrangente ao explorar a personalidade de Basquiat e os efeitos nocivos da mídia, para além de dar a devida importância à discriminação racial ao qual o artista sofreu, o documentário Jean-Michel Basquiat – The Radiant Child presta uma justa homenagem à memória deste jovem extremamente talentoso, vítima de uma engrenagem voraz pela qual não foi preparado para viver e foi engolido por ela.

Jean-Michel Basquiat, o maior e mais completo artista de sua geração, ícone do século XX. Negro Orgulho.

Encerro com o poema de Langston Hughes que abre o documentário:

GENIUS CHILD



This is a song for the genius child.
Sing it softly, for the song is wild.
Sing it softly as ever you can -
Lest the song get out of hand.
...

Nobody loves a genius child.



Can you love an eagle,
Tame or wild?
Can you love an eagle,
Wild or tame?
Can you love a monster
Of frightening name?



Nobody loves a genius child.



Kill him - and let his soul run wild.

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Oswaldo Osório – Clar(a)idade Assombrada (resenha)

Oswaldo Osório – Clar(a)idade Assombrada
Por Ricardo Riso
Resenha publicada no semanário cabo-verdiano A Nação, nº 161, de 30 de setembro de 2010, p. 11

Lançado em 1987 pelo Instituto Caboverdiano do Livro, “Clar(a)idade Assombrada” foi o terceiro livro de poesia de Oswaldo Osório, posterior a “Caboverdeamadamente construção meu amor” (1975) e “Os loucos poemas de amor e outras estações inacabadas” (1977). Merece-se frisar a estreia literária deste vate poético na histórica “Seló – página dos novíssimos” (1962), ao lado dos consagrados Arménio Vieira e Mário Fonseca.

O livro encontra-se dividido em quatro cadernos – cla(a)idade assombrada, percurso, quotidiano e a quinta estação – e reafirma as opções que motivaram a poética de Osório ao longo do tempo, logo presentes o lirismo amoroso – “força de amor que a razão não desfaz/ que houve então entre o meu ser e o ter-te?” (p. 38), as reflexões existenciais e do tempo – “agora o tempo que resta é o que rareia/ das horas consumidas na poesia” (p. 26), o compromisso inabalável ao defender os desfavorecidos – “eu/ que não deixo a minha humanindade/ num balaio furado (...) e o meu poder nisto consiste” (p. 27), entre outros; por outro lado, trata-se de uma verve poética que se distancia do telurismo fácil e de exaltações nacionalistas que adocicam olhos acomodados.

Com a certeza de quem possui uma biografia coerente e de partícipe histórico na criação de seu país independente, “em disparada na imperturbável rota/ de quem quer ser e cumprir/ o que era já tempo” (p. 15), e com a sinceridade exposta em “signo poético” desprezando a hipocrisia da ordem estabelecida, “mas os diplomas e honrarias/ manuscritas impressas a ouro ou em fino pergaminho/ neles limpará o cu”, para ainda assim ter a sapiência para “compreender o teu tempo como nenhum/ e por isso loucamente o amar” (p. 12). Posição que torna inquestionável a celebração e o otimismo recheados de comovente lirismo de “bom dia cabo verde”, o belíssimo poema para o seu país, “lugar de suor pão e alegria” (p. 17).

Para este poeta necessário, “não há lugar para o desânimo/ no peito-pulso caboverdeano” (p. 19). Abnegado, sua poesia encontra estímulo nas adversidades e o uso sucessivo do pronome possessivo em primeira pessoa pontua a certeza de sua posição: “jardineiro aguerrido é o meu nome e é assim mesmo/ cavo a terra submetendo-a ao meu suor total/ e o meu desejo dela se assenhoreia no verde que vai nascer” (p. 18).

No caderno “quotidiano” encontram-se trinta poemas numerados em forma de três tercetos com quatro versos cada, nos quais diversas temáticas são apresentadas e demonstram as constantes inquietações do poeta, tais como a veemência para manifestar-se contra o reducionismo do patrulhamento ideológico e ao fazer ácidas críticas às políticas para perpetuar a ignorância do povo: “escrever para o Povo não é falar-lhe de milho/ nem afoitar-se a uma escrita linear (...) coisas simples para o povo, porque o povo/ se umas coisas compreende outras não, então!/ Mas isso é o resultado do nível de instrução/ e do aparelho educacional e cultural” (p. 59). Assim como indagações várias de ordem ontológica: “se consumasse de ontem para hoje/ a eventualidade possível de eu não amanhecer/ como poderia dar-me conta disso/ à hora em que acordo e me levanto// faço a barba, tomo banho, beijo a Tosca? (p. 46), e a dificuldade de se fazer poesia, pois “as palavras estão gastas e envelheceram (...) Com as palavras gastas como nomear o amanhã?” (p. 72)

O derradeiro caderno é dedicado à utopia que sempre acompanhou a trajetória de Osório. Com a poesia no poder e o “trevo de esperança” (p. 79) por um amanhã fraterno e solidário, o poeta aspira por uma “manhã límpida de encher pulmões/ surpreender-te-ás com esse rio de muitos afluentes/ a nascer da minha para a tua boca” (p. 78).

“Clar(a)idade Assombrada” confirma os compromissos poéticos e sociais de Oswaldo Osório, este poeta necessário que domina a “arte de tear o sonho” (p. 68) e, generoso, oferece aos seus leitores “novos ideais novos sonhos novos amores” (p. 27).

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Keith Haring - Select Works, Caixa Cultural - Rio de Janeiro

Por Ricardo Riso

O Rio de Janeiro sorri com a nova retrospectiva do artista plástico norte-americano Keith Haring, intitulada Select Works, na Caixa Cultural/RJ até o dia 28 de novembro.

Keith Haring, ícone da arte contemporânea norte-americana dos anos 1980 ao lado de Jean-Michel Basquiat e Kenny Scharf, oxigenou a arte com seu intenso grafismo, impressionante ritmo, cores vibrantes, humor, permanente erotismo de forte viés homossexual, críticas à política, à religião e à guerra, para além de um profundo sentimento de união, coletividade e respeito ao próximo que o tornaram um autêntico art'vista. Seu engajamento social e participação em diversas causas humanitárias, levaram-no a criar murais públicos em cidades como Tóquio e no muro de Berlim, além do famoso "Crack is Wack" (Crack é uma droga) em Nova York, assim como e principalmente na luta contra a aids da qual foi vitimado em 1990.

Desde a sua chegada a Nova York no final dos anos 1970, Haring aliou-se aos artistas que faziam da cidade o suporte para suas criações. Suas obras eram de fácil reconhecimento, acessíveis inclusive às crianças. Seu traço simples e preciso espalhou-se pelas ruas e principalmente pelos tapumes do metrô da cidade, marcando o imaginário visual como se fossem hieroglifos urbanos. Sua arte era assumidamente pop, pronta para o consumo, conduzindo-o a abrir uma loja, a Pop Shop, com os mais variados produtos licenciados com a sua marca. Essa característica naturalmente o aproximou de Andy Warhol, o papa da pop art.

A expo apresenta séries marcantes como Apocalypse (trabalhos concebidos por ele, Andy Warhol e o poeta beatnick William S. Burroughs), Pop Shop, The blueprints drawnings, fotos das estadias em Ilhéus/BA, uma criativa carta a uma amiga na qual insere ilustrações no decorrer do texto mostrando amplo domínio da linguagem não-verbal, anotações várias e vídeos. A crítica negativa aponta à ausência de legendas dos vídeos. Belo, por sinal triste exemplo da nossa elite colonizada e subserviente que pensa que a língua inglesa é a nossa segunda língua. Ainda assim, uma exposição imperdível. Tão-somente.

Para conhecer as obras do artista, acesse http://www.haring.com/. O sítio da mostra é http://www.keithharing.com.br/.

Caixa Cultural Rio de Janeiro
Av. Almirante Barroso, 25

domingo, 26 de setembro de 2010

Éle Semog - Tudo que está solto (livro)

Lançamento do novo livro de Éle Semog, “Tudo que está solto” (editora Letra Capital), no Centro Afrocarioca de Cinema, à rua Joaquim Silva, 40 – Lapa – Rio de Janeiro. Dia 27 de setembro de 2010, a partir das 18h30.


A respeito do conteúdo do livro, Nelson Olokofá Inocencio frisa que “o movimento negro adverte: muito cuidado ao abrir este livro, pois ele contém substâncias altamente inflamáveis, compostas de consciência e indignação que podem causar danos irreparáveis àquelas mentes retrógadas. Caso ocorra alguma reação alérgica não suspenda o uso, todo tratamento exige uma boa dose de esforço da pessoa enferma. Persistindo os sintomas procure o autor e seus comparsas. A eles pertence a fórmula que produz tanta inquietação."



COISAS DESSA GENTE QUE SOU

Pertenço a uma História que existe
na memória dos tempos,
suturada no útero desse povo,
ao modo de ferro e fogo,
que o próprio tempo pariu.
E pelo tempo que há de vir
se expandirá sem fronteira
tal qual a gênese de um orixá.
Não me curvo ao silêncio
dessa versão perversa e lúcida,
que torna invisível tudo que estou,
como se o que penso pudesse ser
desconstruído, pela expressão estúpida
desses alcoviteiros cheios de estórias,
que roubam detalhes, fingem fatos,
e inumanos desfiguram vidas e verdades.
Busco no tempo um tempo
maior que ele mesmo,
que se abra em inevitável caos,
e deixe fluir toda a insurreição do silêncio
como uma eufórica sangria na memória.
Pertenço a uma História
feita pelo meu povo
e penso como o meu povo,
que pertence e perturba
a estória dos donos e seus danos,
e que por isso está muito além
de seu próprio construir-se.
Sou um negro como tantos outros
negros e negras que esbanjam respeito
mas que também atiçam o seu medo.
E é melhor assim.

(Éle Semog)

sábado, 25 de setembro de 2010

Júlio Emílio Braz – Sikulume e outros contos africanos


Júlio Emílio Braz – Sikulume e outros contos africanos
Por Ricardo Riso

Desprezados e suprimidos do imaginário nacional por causa de uma sociedade que não assume a porção afro-descendente em sua formação e tenta renegar qualquer manifestação da cultura negra, as lendas e contos africanos até hoje são ignorados por nossas escolas. As justificativas vão desde a falta de conhecimento dessa literatura a absurdos ataques referentes à bruxaria, magia negra etc., que tais narrativas podem conter, o que escancara o preconceito no país da democracia racial.

Diante de um quadro desigual, torna-se fundamental destacar a relevância de um livro como Sikulume e outros contos africanos, adaptado por Júlio Emílio Braz e ilustrado por Luciana Justiniani. O livro é composto por sete contos que resgatam uma África ancestral, na qual habitantes de pequenas aldeias convivem com animais falantes, monstros imensos e assustadores que engolem aldeias inteiras, canibais agressivos e de apetite insaciável, para além de explicar o surgimento de astros como o sol e a lua, e questões de ordem ontológica como a origem da morte.

Os contos demonstram ao pequeno leitor a importância de se respeitar as tradições, as orientações dos mais velhos e os castigos quando elas são descumpridas; são destacadas qualidades como a lealdade, a coragem para se enfrentar os perigos e defender os seus pares; as consequências da má conduta e de um comportamento orgulhoso, assim como o uso da mentira, dentre várias outras situações que ajudam a instruir os pequeninos. Também são inseridas cenas do cotidiano de pequenas aldeias, suas relações sociais, a importância dos líderes e a sapiência em conduzir seus povos.

Embora as ilustrações de Luciana Justiniani sejam formadas por traços sem excessos, figuras cruas e objetivas, elas alcançam ótimos resultados, pois mostram passagens essenciais das narrativas, demonstram com clareza o horror dos monstros e destacam cenas do cotidiano.

As felizes adaptações de Júlio Emílio Braz para o livro Sikulume e outros contos africanos renovam o compromisso da Pallas Editora de divulgar as matrizes africanas em nossa cultura. Portanto, trata-se de mais um título que atende aos textos das leis 10.639/2003 e 11.645/2008.


Sikulume e outros contos africanos
De Júlio Emílio Braz
Ilustrações de Luciana Justiniani
Rio de Janeiro: Pallas Editora, 2008

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Adilson Martins - Erinlé, o caçador e outros contos africanos (livro)


Adilson Martins – Erinlé, o caçador e outros contos africanos

Em sua terceira incursão pelo universo infantil com o livro Erinlé, o caçador e outros contos africanos (Rio de Janeiro: Pallas Editora, 2008), o escritor Adilson Martins comprova sua extrema habilidade narrativa ao recriar contos de matrizes africanas.

Possuidor de uma escrita envolvente, clara e suave, os oito agradáveis contos que compõem o livro fascinam pequenos leitores e adultos pelo encantamento das situações apresentadas. As histórias são profundas pelo que pretendem ensinar e pelo caráter universal, mostrando passagens que, apesar de africanas, encaixam-se em quaisquer culturas, pois falam de códigos de conduta, da perseverança na boa ação, no encantamento ao ajudar animais mágicos etc. Além disso, há um grande destaque à cultura Yorubá, apresentando seus orixás, como Xangô e Oxum, e demais fatores culturais dessa etnia.

Ao final de cada narrativa, o autor tece relevantes comentários relacionados a aspectos diversos como sociais, geográficos e históricos que aparecem nos textos, aprofundando a compreensão e aguçando a curiosidade dos leitores.

As ilustrações ficam a cargo da sempre competente Luciana Justiniani Hees. Elas são atraentes e ricas em detalhes do cotidiano, vestimentas, armas de caça e demais objetos, animais etc., tornando-se um delicado complemento à leitura. Destaque também para a cuidadosa diagramação e cores utilizadas.

O livro Erinlé, o caçador e outros contos africanos ajuda a disseminar as lendas africanas em nossa sociedade, que estão à margem das lendas europeias e excluídas do currículo escolar. Trata-se de um excelente material para introduzir a história, as crenças e os costumes africanos para o conhecimento das crianças, contribuindo, assim, para que elas tenham dimensão da diversidade da formação cultural brasileira, assim como é um ótimo livro para os professores que pretendem implementar as Leis 10.639/2003 e 11.645/2008 em sala de aula, em razão das curtas narrativas e da diversidade temática apresentada.

Leitura agradável e singela, seguindo os anteriores Lendas de Exú e O papagaio que não gostava de mentiras e outras fábulas africanas (ambos pela Pallas Editora), Adilson Martins, este incansável divulgador das culturas africanas e afro-brasileira, novamente ensina-nos com saber e sabor.


Erinlé, o caçador e outros contos africanos
De Adilson Martins
Ilustrações de Luciana Justiniani Hees
Rio de Janeiro: Pallas Editora, 2008.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Raul Lody – As Gueledés - a festa das máscaras


Raul Lody – As Gueledés - a festa das máscaras

Profundo pesquisador das religiões afro-brasileiras, tendo vários livros que abordam o tema, dentre tantos o Dicionário de arte sacra e técnicas afro-brasileiras, o antropólogo, museólogo, autor e ilustrador Raul Lody realiza sua segunda incursão na literatura infantil, antes havia publicado Seis pequenos contos africanos sobre a criação do mundo e do homem, agora volta-se para a cultura Yorubá e lança As Gueledés – a festa das máscaras, pela Pallas Editora.

A partir da importância das mulheres na sociedade Yorubá e do poder que possuem, dentre tantos, um dos principais é o de ser mãe, o autor narra diferentes aspectos que desvendam a participação feminina nas atividades cotidianas, nas artes e na magia. Neste, conta-se a história das Senhoras da Noite (as Yás, em Yorubá, ou seja, mães) e o incrível poder que possuíam, como transformarem-se em animais e realizarem reuniões secretas durante a noite, o que as faziam ser temidas e respeitadas pelos homens.

Diante disso, os homens procuravam uma forma de neutralizar o poder dessas mulheres e criaram máscaras fascinantes e roupas coloridíssimas, nascendo, assim, a festa diurna das Gueledés como forma de distrair, com muita música e dança a atenção das mulheres feiticeiras, deixando-as exaustas e entregues ao sono no período noturno. Dessa maneira, evitava-se que elas se reunissem à noite e aumentassem seus poderes.

No decorrer da narrativa, o pequeno leitor atenta-se às atividades dedicadas às mulheres Yorubás, como as de vendedoras e os alimentos e objetos que constavam em suas barracas. O autor relaciona-as às famosas baianas que vendem acarajé e como elas perpetuam as tradições africanas na atualidade, presentes, também, nas vestimentas e religião, assim como o fundamental papel na educação dos filhos e na narração das histórias dos antepassados.

Ao final do livro, Raul Lody acrescenta diversas informações enriquecedoras acerca dos Yorubá para as crianças que ficam conhecendo as origens desse povo no continente africano, sua relação com a arte, aspectos sociais, a divisão do trabalho entre homem e mulher etc.

Por seu caráter instrutivo a respeito de uma importante manifestação afro-brasileira, As Gueledés – a festa das máscaras presta um fundamental papel ao tratar da permanência das tradições Yorubá e da valorização em nossa cultura, mostrando o quanto foi importante a participação dessa etnia africana na formação e diversidade do nosso país.



As Gueledés – a festa das máscaras
De e ilustrado por Raul Lody
Rio de Janeiro: Pallas Editora, 2010.