terça-feira, 16 de novembro de 2010

Mário Lúcio Sousa - O Novíssimo Testamento (livro)


E se Jesus ressuscitasse mulher?

No tempo em que os Portugueses imperavam sobre o arquipélago de Cabo Verde, aconteceu num domingo de Páscoa, na minúscula freguesia do Lém, estar a morrer a mulher mais beata que a ilha de Santiago conhecera. Interpelando-a as netas sobre a sua última vontade, não quiz ela, como seria de esperar, chamar o padre, respondendo em vez disso que gostaria de ser fotografada. Porém, assim que o flash disparou, um mistério inexplicável varreu a ilha de lés a lés; e, quando, ao fim de muitas peripécias, a fotografia foi finalmente revelada, a surpresa foi tão impossível que não houve, no mundo inteiro, uma só alma que conseguisse manter a boca fechada. A ilha quase ia ao fundo com a confusão… Se o Antigo Testamento anuncia a vinda do Messias e o Novo Testamento narra a vida, a morte e a ressurreição de Jesus, este Novíssimo Testamento é uma autêntica revolução: pois dá testemunho da reencarnação de Jesus no corpo de uma mulher – ilhéu e africana – que parece ter vindo inaugurar a Terceira Idade do Mundo mas não está livre de enfrentar os preconceitos sociais, religiosos e políticos do seu tempo.

Mário Lúcio Sousa é autor de uma obra literária que vai da poesia (Sob os Signos da Luz) à ficção (Vidas Paralelas, premiado pelo Fundo Bibliográfico da Língua Portuguesa, em 2003), passando pelo teatro (Saloon, de 2004). O Novíssimo Testamento é o seu primeiro livro a ser editado em Portugal.


Título: O Novíssimo Testamento
Autor: Mário Lúcio Sousa
Editor: Dom Quixote
Colecção: Autores Língua Portuguesa
Ano de edição: 2010
 
Fonte: Na esquina do tempo, blog do Prof. Dr. Manuel Brito-Semedo

domingo, 7 de novembro de 2010

IV ENCONTRO INTERNACIONAL DE PROFESSORES DE LITERATURAS AFRICANAS

Prezados, estarei no IV ENCONTRO INTERNACIONAL DE PROFESSORES DE LITERATURAS AFRICANAS, de 8 a 11 de novembro, na UFOP/MG, apresentando a comunicação Memória, pan-africanismo e revisão crítica da história no poema “Australidades”, de José Luis Hopffer C. Almada, no dia 10 de novembro, a partir das 18h no IFAC - sala 1, ao lado dos colegas LETÍCIA NUNES GOMES (UFRG) – Ilha e Ilhéu: fusão do espaço-personagem, em A louca de Serrano, de Dina Salústio; KLEYTON R. W. PEREIRA (FAFIRE) – Identidade, gênero e diáspora – uma análise das personagens femininas nos contos de Lília Momplé, Maria Margarida Mascarenha e Orlanda Amarilis; RUBENS PEREIRA SANTOS (UNESP/Assis) – A novíssima poesia caboverdiana: a poética de José Luis Tavares.
Uma mesa que muito me atrai por apresentar a produção contemporânea de Cabo Verde, a partir das obras de J L Tavares, Dina Salústio (felizmente não será Mornas eram as noites) e José Luis Hopffer Almada.
Até lá!
Abraços,
Ricardo Riso

Exposição de Pintura e Desenho de Tchalê Figueira

NOTA DE IMPRENSA


Exposição de Pintura e Desenho de Tchalê Figueira

Tchalê Figueira está de regresso à Praia para uma exposição promovida conjuntamente pelo Palácio da Cultura Ildo Lobo e pelo IC-Centro Cultural Português que, pela primeira vez, reúne pintura e desenho daquele que é um dos mais internacionais artistas cabo-verdianos.

Partindo do propósito criativo que Tchalê definiu como orientador para a exposição - “Entre a realidade e o onírico, a minha liberdade de intervir e inventar” – foram seleccionados dois acervos de obras que traduzem essa tentativa “de perceber e intervir sobre o tempo e o espaço, seja o destas ilhas, seja do Mundo”, bem como essa mitologia pessoal que o artista constrói, urdindo “bichos estranhos, homens e mulheres, habitantes do meu subconsciente”.

Assim, o Palácio da Cultutra Ildo Lobo acolherá 10 telas de grande dimensão que constituem a mais recente produção de Tchalê Figueira, que já este ano expôs em Zurique (Suíça), na Bollag Galleries, em Pontedera (Itália) e Ponte Sôr (Portugal), no âmbito do Festival Sete Sóis Sete Luas e nas Canárias (Espanha) no quadro do projecto “Horizontes Insulares”, bem como numa exposição colectiva sobre José Saramago, em Azinhaga (Portugal), tendo elaborado uma obra tendo por base o livro “As Minhas Pequenas Memórias”, da autoria do escritor recentemente desaparecido.

No IC-CCP serão pela primeira vez exibidos os desenhos produzidos por Tchalê Figueira para a ilustração de 4 obras. Para “Marianinha”, conto infanto-juvenil escrito por Giselle Silva, Tchalê criou os 11 desenhos que acompanham e recriam a história. A longa amizade com Brito Semedo suscitou a sua participação em “Na Esquina do Tempo – Crónicas de Diazá”, para o qual produziu 10 ilustrações, o mesmo número de trabalhos criados para a colectânea “Tchuba na Desert”. Finalmente, para “Contos de Basileia”, livro da sua autoria no prelo, Tchalê produziu mais 5 ilustrações. No total, estarão assim exibidos 36 desenhos “reinvenção de outras reinvenções”, como refere o artista.

A abertura da exposição de pintura decorrerá no Palácio da Cultura Ildo Lobo, no dia 9 de Novembro, às 19.00h e estará aberta ao público até dia 28. No dia 11, às 18.30h, terá lugar no auditório do IC-CCP a abertura da exposição de desenho, que ficará até dia 23.

Praia, 02/11/10
 
Fonte: Arco da Velha  - http://www.tchale.blogspot.com/

sábado, 6 de novembro de 2010

Cuti – compromisso com a afirmação da consciência negra na poesia afro-brasileira


Cuti – compromisso com a afirmação da consciência negra na poesia afro-brasileira

por Ricardo Riso

sou a ave da noite / sou ávida noite / que bate asas de vento / e traz um canto agourento / ao sonho dos opressores / e traz um canto suave / a despertar outras aves / pro revoar da justiça
 (CUTI. Ave. p. 76)

A epígrafe assinala o compromisso de Cuti, pseudônimo de Luís Silva, na conscientização do negro brasileiro. Além de ser um dos criadores e mantenedores da importante publicação “Cadernos Negros”, Cuti tornou-se nome de referência destacando-se no panorama literário, social e intelectual brasileiro por sua expressiva produção literária, pela coerente defesa dos seus ideais e reivindicações em prol da população afro-descendente, massacrada por séculos de submissão e opressão.

Com uma produção multifacetada, Cuti passeia com desenvoltura, rigor e excelência pela poesia, prosa, teatro, ensaios etc. sempre tendo como preocupação primeira revelar as desigualdades impostas pelas relações étnico-raciais e em elevar a autoestima do afro-descendente brasileiro. Com isso, o reconhecimento e o respeito ao seu trabalho ultrapassa as barreiras “invisíveis” da sociedade brasileira impondo-se pela ótima qualidade de sua escritura, o que fica evidente na leitura dos 84 poemas selecionados pelo autor na antologia “Negroesia” (Belo Horizonte: Mazza Edições, 2007).

Abrangendo sua produção poética desde 1978, ano de sua estreia, Cuti acrescenta dez poemas inéditos na edição de “Negroesia”. Dividida em quatro partes: Cochicho, Aluvião, Chamego e Axé, anunciam as temáticas que perpassam os textos reunidos por um sujeito lírico criativo, inovador e dissonante na maneira como subverte o discurso da ordem estabelecida, reformulando pensamentos e atitudes, chamando atenção para as injustas condições sociais e sendo incisivo na crítica à consciência submissa do negro.

A preocupação em denunciar as mazelas da língua revela-se em diversos poemas, sendo enfrentadas pelo sujeito lírico que recorre a figuras de linguagem como anáforas, assonâncias e aliterações; ora é lúdico, ora é lírico; às vezes irônico e sarcástico; ora polissêmico, ora em surpreendentes neologismos. Em relação à forma, encontramos poemas curtos e longos, alguns em prosa demonstrando a versatilidade do autor.

A perversidade do racismo à brasileira é escancarada na constante autocensura do negro em várias situações humilhantes do cotidiano: “às vezes sou o policial que me suspeito / me peço documentos / e mesmo de posse deles / me prendo / e me dou porrada (...) / às vezes sou o meu próprio delito / o corpo de jurados / a punição que vem com o veredicto (...)” (p. 53). Tal consciência do negro, reveladora de sua baixa autoestima, torna-o incapaz de ser agente da história e conquistar sua dignidade, mostrando o quanto é pernicioso o discurso dominante. O curto poema “Medo Medular” expõe esse problema: “todo mundo tem medo / da vingança do preto / até o preto” (p. 48).

Por outro lado, o sujeito lírico está “atento / contra o jogo da humilhação e / do cansaço” (p. 39), em sua luta diária para afirmar sua identidade negra desprezada por séculos pela elite social branca. Não se entrega, resiste, faz da fruição poética o espaço para almejar os novos tempos conduzidos por um novo homem negro, “o negro pronto (...) com suor dilui espinhos / do horizonte cria músculos / e semeia o novo no crepúsculo” (p. 39-40). Como “está se fazendo sempre” (p. 39), o sujeito lírico, como “um peixe fora d’água”, insurge contra manifestações aparentemente inofensivas de desprezo a sua etnia, recorre à polissemia para demonstrar sua posição em “Para ouvir e entender ‘estrela’”: “se o papai-noel / não trouxer boneca preta / neste natal / meta-lhe o pé no saco!” (p. 42)

No seu papel de conscientização e de elevar a moral do negro, o sujeito lírico utiliza a metapoesia em diversas situações, reconfigurando as significações, abalando os sentidos, desestruturando as certezas e rebelando-se contra a linguagem opressiva busca metáforas impactantes para eliminar a autocensura, cria neologismo (poesídios) para libertar-se do encarceramento imposto, como em “Negroesia”:

“enxurrada de mágoas sobre os paralelepípedos / por onde passam carroções de palavras duras / com seus respectivos instrumentos de tortura // entre silêncios / augúrios de mar e rios / o poema acende seus pavios / e se desata / do vernáculo que mata // ao relento das estrofes / acolhe os risos afros / embriagados de esquecimento e suicídio / no horizonte do delírio // e do âmago do desencanto contesta as máscaras / lançando explosivas metáforas pelas brechas dos poesídios / contra o arsenal do genocídio.” (p. 29)

Mostrando-se atento ao seu tempo e compromissado em diminuir as injustiças até então perpetuadas a seus pares, o sujeito lírico revolta-se contra a hipocrisia da classe dominante que destina espaços específicos e limitados para suas reivindicações, e manifesta sua indignação em “A Trajehistória”:

“então dirigi meu verbo indignado aos palacetes onde anos a fio passei a desfiar meu rosário de denúncias com a fé inabalável de que as flores brotariam em maio e os frutos em novembro. distintas senhoras e senhores conversavam na varanda ouviam meus discursos aplaudiam e quando minhas palavras secavam ordenavam que me servissem bebidas finas. e diziam: – estamos estudando... estamos estudando... estamos estudando... as suas reivindicações... (p. 79)

Quando “a noite entrou toda nua e decidida com seus versos iansânicos” (p. 79), o sujeito lírico apreende que jamais terá suas reivindicações atendidas pelos caminhos liberados pelo poder. Resta o abandono à submissão, o sofrimento com as consequências de sua decisão; porém, retorna ao passado e recria com afeto o quilombo, o local que seus antepassados conseguiam manter a autonomia da identidade negra, ainda o espaço simbólico de libertação para os dias atuais e para unir os seus pares nas lutas vindouras:

por isso eu fugi e criei este quilombo no lado esquerdo do peito. Aqui flores e alimento nascem de janeiro a janeiro e outros fugitivos são recebidos com um canto guerreiro e podem adormecer com uma cantiga de ninar. (p. 80)

Apesar da poesia cutiana ser incisiva ao defender o negro, o afeto é frequente como forma de acalanto às dores sofridas por séculos de desprezo e humilhações, fragmentando e dilacerando o negro. Ler os poemas de Cuti é como receber um “abraço fraterno” (p. 67); com lirismo, os versos procuram recompor a história do negro:

eu vou ao mar pedir à maré-cheia / que despeje no meu coração tudo o que é meu / dessa longa e interminável viagem / de ser preso de um lado / retalhado do outro / e desacreditado depois // (...) eu vou ao mar lançar minha rede / tecida em caminhos de fuga / quilombola / pois minha falta de mim / minha falta de tribo / saímos de madrugada em busca de raízes afogadas / raízes suculentas no coração da história (p. 61-62)

Sensível ao problema da educação brasileira, pois “a corte sempre ordena / que se barre a nossa gente” (p. 57), que não se esforça em elaborar um plano educacional inclusivo, a fim de respeitar e considerar a diversidade étnico-racial do país, o sujeito lírico, “em secular esforço / de superar-se coisa e se fazer pessoa” (p. 73), apresenta a defesa coerente do regime de cotas e ações afirmativas: “cota é só a gota afrouxando botas / de um exército / para o exército da equidade // cota não reforça derrota / equilibra / entre ponto de partida / e ponto de chegada / a vitória coletiva / reinventada” (p. 74).

Ao percorrer as páginas de “Negroesia” deparamo-nos com poemas que são como “foice aparando o coice da prepotência” (p. 16) do discurso vigente, de um sujeito lírico que explora os extremos das potencialidades da língua para desmascarar as artimanhas do racismo e fazer da tessitura poética o local para “quebrar todo os elos dessa corrente de desesperos” (p. 50). Por ser “daqueles que cobram o leite derramado” (p. 46), a poesia de Cuti ensina-nos a abrir “a porta enferrujada do silêncio” (p. 70), a abandonarmos nossas angústias, medos e pesadelos. Cuti crê na força do verbo poético atuando na transformação de novas consciências, na afirmação da identidade negra, na valorização da sua história coletiva, na justiça social que um dia se fará.

Filinto Elísio – Outros sais na beira mar (resenha)

Filinto Elísio – Outros sais na beira mar e o caleidoscópio da memória em tempos que se cruzam promiscuamente
Por Ricardo Riso

Em “Outros sais na beira mar”, Filinto Elísio resolve aventurar-se pelo romance. Contudo, seguindo, de certa maneira, as metáforas inusitadas e as experimentações formais e estéticas de sua poesia, o autor subverte o gênero romance (ou antirromance ou um rol de apontamentos esparsos, como questiona ao leitor em dado momento) para construir uma narrativa híbrida, fragmentada por anotações de diários, crônicas de jornal, troca de e-mails, blogs, poemas etc., para além de diversos fatos verificáveis na sua biografia, aproximando-se de uma livre e descomprometida autobiografia, além da intertextualidade com a sua poesia, mais precisamente a do livro “Das frutas serenadas”.

Nesse caleidoscópio da memória em tempos que se cruzam promiscuamente, a alinearidade apresenta-se entre fatos pessoais (como as diversas mulheres que marcaram a vida do narrador) e a história recente de Cabo Verde, porém descompromissada com a verossimilhança, pois, ao citar o Agaton de Aristóteles (e por que não o João Vário de Exemplo Coevo?): “é verossímil que sucedam as coisas contra toda a verossimilhança”; assim como as constantes indagações do narrador ao leitor acerca da verdade dos fatos.

O espaço geográfico do romance (?) é Cabo Verde, a cidade da Praia, mas é também o da diáspora: Brasil, EUA, Itália, Guiné-Bissau etc. Entrecortada por esses lugares, a narrativa passa pela guerra colonial, pelos estranhos acontecimentos que marcaram a morte de Amílcar Cabral, a euforia com o país livre e o temor da contrarrevolução chegando ao extremo de uma baleia encalhada na praia ser alvejada por balas ao ser confundida com um submarino imperialista, os anos de partido único e multipartidarismo até a decadência da Praia e do país no início deste século.

A corrupção e a impunidade dominam a nação. Cabo Verde integra a rota internacional do tráfico de drogas. O narrador-cronista denuncia o caos e a desordem que passam a ser comuns. “Este é um país deveras geoestratégico”, a triste ironia escancara a inescrupulosa aliança Guiné-Bissau-Cabo Verde entre políticos e empresários, interesses que em nada lembram a união justa e nobre proposta por Amílcar Cabral que desencadearia na guerra colonial.

“Só se mete medo a quem tem medo, o que não parece ser o caso deste cronista”, vaticina o narrador em suas “crónicas implacáveis” diante das mazelas que dilaceram o país. Nada passa despercebido pela sua escrita feroz: as drogas inseridas na economia, o enriquecimento ilícito de políticos e “narcoadvogados”, violência urbana, pedofilia e turismo sexual, emigrantes clandestinos, a promíscua relação religião-política, o medo asfixiando a sociedade, deixando-a inerte. “Para que tal se inverta só com uma bomba termonuclear, como aquela da poesia de Arménio Vieira”. Acusações motivadas após uma tentativa de suborno feita por um ministro com o intuito de calá-lo.

Além de homenagear seus amores, “Outros sais na beira mar” celebra poetas que moldaram o apreço de Elísio pela Literatura: Fernando Pessoa, Arménio Vieira, Ovídio Martins, Eugénio Tavares, Charles Baudelaire etc. Ressalte-se a fundamental contribuição desse romance à literatura de Cabo Verde pela via da rememoração da história, aliando-se a nomes como de T. T. Tiofe, José Luiz Tavares e NZé dy Sant’Y’Agu; para além do testemunho da decadência da Praia e do país, aproximando-se das ácidas críticas de Erasmo Cabral D’Almada e do Arménio Vieira de “Caviar, Champagne & Fantasia”, por exemplo.

Corrosivo e irônico com a situação política, desmedido amor pelas mulheres, “Outros sais na beira mar” ratifica o demasiadamente praiense e cabo-verdiano Filinto Elísio entre os melhores de Cabo Verde: “O meu lugar é a cidade da Praia. Fétida cloaca, se me permites dizê-lo. Mas tão minha (...) Aqui, onde nasci, estão todos os ícones da minha fantasia existencial. Aqui, aprendi os relâmpagos da alma, o dom de conversar por metáforas.”


OUTROS SAIS NA BEIRA MAR
de Filinto Elísio
Lisboa: Letras Várias, 2009

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Parceria Kitabu - Livraria Negra e União dos Escritores Angolanos (UEA)


A Kitabu - Livraria Negra iniciou uma parceria com a União dos Escritores Angolanos (UEA). Agora a livraria terá em suas estantes livros da mais importante editora de Angola.



Para além de proporcionar aos seus clientes a possibilidade de enriquecer suas bibliotecas com títulos de consagrados nomes da literatura angolana contemporânea, ainda sem o devido reconhecimento em nosso meio literário, a parceria Kitabu - Livraria Negra e União dos Escritores Angolanos é um fundamental intercâmbio à aproximação Angola-Brasil, assim como é uma primorosa contribuição ao desenvolvimento do espírito de cooperação entre os dois países lusófonos.


Acesse o nosso blog ou venha conhecer os mais de trinta títulos de diversos autores da União dos Escritores Angolanos que já estão em nossas estantes. São livros de nomes como José Luis Mendonça, Carmo Neto, João Maimona, Isabel Ferreira, Manuel Rui, Conceição Cristóvão, João Tala e João Melo.
 
 
Satisfação intensa ao anunciar a parceria Kitabu - Livraria Negra e União dos Escritores Angolanos (UEA).
Motivo para celebrar a vinda do escritor João Tala ao Rio de Janeiro que proporcionou o meu encontro com Carmo Neto, secretário geral da UEA, e o primeiro passo para esta parceria.
Exaltar os mais de trinta livros que já se encontram nas estantes da Kitabu, oferecendo aos estudantes, pesquisadores e público em geral a oportunidade de conhecer nomes fundamentais da literatura angolana contemporânea.
É a realização de um sonho ter contribuído para esse intercâmbio literário.
Os planos são vários, que seja o início de uma efetiva aproximação das literaturas de Angola e Brasil.
Ricardo Riso

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Trajanno Nankhova Trajanno - Caminhos da Mente (resenha)


No compasso sistólico e diastólico do passo ou o infindável caminho da poesia de Trajanno Nankhova Trajanno
Por Ricardo Riso

Após o doloroso processo de lutas anticoloniais e a constituição dos estados independentes africanos durante o século XX, acompanha-se com imenso interesse a supressão das carências e as tentativas de desenvolvimento com os parcos recursos financeiros dessas nações em meio a políticas externas – muitas vezes com apoio interno – nem sempre favoráveis ao bem de seus povos. O caso de Angola não foi diferente, principalmente no pós-independência, em razão da longa guerra civil que desestabilizou o país até a reconstrução proporcionada pelo acordo de paz em 2002.

Nesse conturbado cenário angolano a literatura e seus agentes continuaram a desenvolver-se, configurando, já no primeiro decênio deste século, uma elogiável consolidação e amadurecimento de nomes revelados a partir dos anos 1980. Trata-se de uma geração de escritores nascida no período de 1955-1965 que ficou conhecida como a geração das incertezas, como assim define o crítico literário e também poeta Luis Kandjimbo, em virtude de “na obra de todos eles, os temas mencionados emergem de uma profunda experiência geracional avassaladora e catastrófica, em que pesa a revolução, a guerra, a intolerância política” (SECCO, 2003, p. 189).

Nesse período amplia-se a heterogeneidade da poesia angolana, novas estéticas são apresentadas, experiências formais tornam-se constantes e reformulações temáticas passam a ser frequentes, aprofundando o caminho iniciado por nomes como Arlindo Barbeitos, David Mestre e Ruy Duarte de Carvalho na década de 1970 e deixando para o registro da História o período de engajamento político explícito da literatura angolana. Para Carmen Lucia Tindó Secco, a nova geração apresenta um

“novo lirismo, reagindo a esse desencanto dominante no contexto social do país, abandona a utopia do nós coletivo e o engajamento revolucionário da poesia de combate. Funda uma poesis que dá vazão ao amor e às emoções individuais, assumindo um viés existencial e uma dicção universalista. Sob o signo de Eros, os poetas buscam exorcizar a morte e a dor. Operando uma revolução no âmago da linguagem, levam às últimas conseqüências a metaconsciência poética já praticada, desde os anos 70, por alguns dos poetas de Angola. (...) Ao suspender a prática cantalutista, lança na consciência dos leitores imagens do mundo mais humanas do que as tecidas pelas ideologias, desencadeando o desejo por uma vida mais autêntica e livre, pela qual vale a pena lutar” (SECCO, 2003, p. 189).

Depara-se hoje com uma produção comprometida com a depuração da linguagem poética, demonstrando um nível estético maduro e louvável, diversificado e pungente, configurando seus agentes em verdadeiros artífices da poesia em língua portuguesa. São os casos de José Luis Mendonça, João Maimona, João Tala e Trajanno Nankhova Trajanno. Este, talvez um caso singular na trajetória literária angolana devido às especificidades de sua poeisis, constatação atingida após a leitura do surpreendente Caminhos da Mente (Luanda: União dos Escritores Angolanos, 2005).

Jordão Augusto Trajanno nasceu em Luanda a 12 de Dezembro de 1958 e utiliza o nome literário Trajanno Nankhova Trajanno. Sua obra divide-se em poesia e textos para o teatro. Caminhos da Mente é o seu quinto livro de poemas.

Caminhos da Mente reúne um conjunto de poemas de extrema complexidade, intenso estranhamento e plena fascinação proporcionada ao leitor. Dividido rigorosamente em dez partes que são intituladas “Incidências” pelo poeta, cada uma com sete poemas acrescidos de dez “pré-poemas”, assim denominados por Ana de Sá em prefácio do livro. Cada “Incidência” apresenta títulos sugestivos e intrigantes a chamar atenção do leitor, pois “uma nova visão de mundo está em curso”, assim afirma o sujeito lírico como se quisesse alertar o leitor. Dessa maneira, são apresentados títulos que desestabilizam as retinas, tais como “Asterismo Sinfónico do Silêncio”, “Luz Algébrica da Alva”, “Solenidade Telúrica da Flor” e “Composto Sistólico e Diastólico do Passo”. Nomes que mexem com os sentidos, demonstram o intenso labor do poeta em busca da lapidação da palavra e o pleno compromisso com o seu ofício, a tessitura da poesia:

em pintura desnuda e feminina a pastar
de ternura em ternura
a cidade pousa nua de verso em verso

a mão presente no hálito cósmico da renovação do reino
atitude mental das chamas e dos lábios em chamas
nos escaninhos dos oceanos continuo a compor
com traço e suor do rosto a aura dos espelhos” (p. 94).

Nessas “incidências”, as temáticas passam por uma espiritualidade peculiar, analogias a artes como a pintura e a música, o ar – elemento da natureza – encontra-se em diversos momentos em signos cósmicos, das aves e do voo, assim como a constante presença do universo onírico, a realização do sonho como forma de anunciar um novo momento para Angola, o país do sujeito lírico, após o acordo de paz: “nos eternos caminhos da mente/ minha pátria é um esboço bucólico aberto ao cosmos” (p. 46). Agora, o sujeito lírico se quer livre para sonhar, recriar a união de seus pares, reconfigurar os sentidos, para isso a poesia será a matriz e o motriz para desenlaçar o verbo e trazer uma “nova aurora semântica” (p. 28), ampliando e reformulando os sentidos das palavras.

Para o novo tempo da pátria anunciado pelo sujeito lírico, necessária a metaforização do discurso “nas palavras marginais que é preciso refazer”, por isso metáforas díspares e dissonantes e o uso do imperativo exigem sentidos aguçados:

no côncavo do sino uma melodia e é preciso escutar
no luar da adolescência
uma virgem utopia inquieta que é preciso seduzir
na sombra de todo cálice um encanto estranho encanto
e é preciso decantar
uma estátua de silêncio audível na ausência das vozes
que é preciso perceber (p. 26)

O sujeito lírico na maior parte dos poemas apresenta-se na primeira pessoa do singular, percebe-se também a utilização do verso livre, das rimas internas e da ausência de pontuação, contribuindo para a desestabilização da fácil compreensão diante de inusitadas imagens que aliam música, sonho e aves; imagens possíveis pelo vasto universo do verbo poético, elaborador de instrumentos para a sinfonia do silêncio:

persegue-me esdrúxula partitura de um sonho
dédalo que se encanta e desencanta
a imagem de um bolo de aniversário infantil me afoita
hei-de pedir ao anunciante das chuvas
uma guitarra-eólia de nove cordas entregue às aves

tenho que governar o caminho de meus sons após as aves (...)

- hei-de caminhar! tornar-me verdadeira mente
parecido a mim
pelos espaços vazios sorrir somente da prédica proferida
pelas aves (p. 25)

No ilimitado “horizonte verbal” amplificado pela mão-asa do sujeito lírico que propõe o retorno à infância em “Voz Alvacenta do Gesto” (Segunda Incidência), o aprendizado para um novo mundo reformulado na poesia: “permito-me chegar bem à beira da infância/ e concebo um exército a sorrir/ aprendo com o mar e o rio a distinguir a voz/ da foz em encontro com o verso/ a irrigar o horto e o paraíso a um passo da morte e do siso” (p. 31).

A “transcendência humana dos sons (...) em instante onírico” (p. 33) transfigurará a nova pátria, pois “amanhã o movimento da alva será outro”, confirmará a mudança e os angolanos unidos em um só ideal: “algures alguém pensa em mim neste instante/ os passos rejeitam a solidão” (p. 33). Percebemos a projeção no futuro, de uma nova era, de um tom épico. Ana de Sá discorre muito bem acerca do caráter épico dos poemas: “Os verbos conjugados preferencialmente no futuro conferem um valor projectivo à narração de uma Pátria e dos seus integrantes, fundada num passado e, em especial, num desejo de futuro em paz” (p. 16).

O sujeito lírico anseia um novo cotidiano, contudo, as décadas de dor e sofrimento fratricida deixam marcas indeléveis na memória. Apesar da esperança e da constituição de “formas atrevidas formas irregulares” para cicatrizar as feridas do outrora, o leitor depara-se com a insegurança na repetição da condicional “talvez”, assim como a apreensão de que os erros do passado sejam retomados e a incerteza com o porvir são materializados na poesia: “o dia evoca formas atrevidas formas irregulares/ ao amanhecer talvez ao amanhecer bocas estilizadas cantem/ ao abrigo do sorriso/ talvez ao amanhecer sintetizemos a alva/ na mão a esperança/ sobre a dança é uma canoa ximbicada pelo tempo/ - talvez ao amanhecer” (p. 35).

Entretanto, a utopia encontra seu espaço na poesia, “a brisa reinventa estações (...)/ os rios continuam num caminho igual e renovado/ as asas novamente acreditam na força humana do mel” (p. 36) e “agora que floresce o sol na palma da mão de todas as mãos/ (...) trago comigo para este novo abrigo células de um lúcido/ paraíso” (p. 44), ideias conjuntas para uma pátria preparando-se para reconstrução, “as minhas e as suas todas as nossas palavras numa única/ marcha de cruz” (p. 45). Ou seja, a voz individual do sujeito lírico conotada à voz coletiva dos angolanos, “vozes anônimas falam na minha voz” (p. 37), ou pelo menos aspira, “vozes anônimas ‘talvez não tanto’ falam na minha voz” (p. 37).

A incerteza com o futuro gera inquietação. O sujeito lírico recorrerá às aves e ao desejo de voar. Como voar não pertence à condição física humana, cabe o mergulho ao âmago do ser para tentar realizar o impossível embarcando em “outra nave”, a nave da palavra poética, por fim e ao cabo, libertadora, e assim superar sua angústia na gradação do poema “Luz Algébrica da Alva – 2ª indução”:

confrange-me não poder deslindar a prece das aves
enquanto voam cada rosa é uma fonte de brisa
em cada brisa há um candelabro há um amplexo
um baile de vozes um cálice volúvel
um olhar esdrúxulo
uma atitude de exílio
na certeza libida da incerteza libida (...)
sem destino outra viagem outra paisagem em outra nave
sigo ansioso o destino das aves” (p. 73).

Sob o signo da emoção e com a preocupação ininterrupta de renovar a linguagem, a poesia de Trajanno Nankhova Trajanno demonstra um cariz de extremo intimismo, realizando a utopia na tessitura poética, transformando “palavras amargas/ em devaneios que se adocicam/ na estranha relação entre a chuva e o chão” (p. 91). O desassossego do sujeito lírico percorre os diversos caminhos da metapoética que levam ao interior do ser:

sobre útil linha longitudinal segue a imaginação
da palma da mão
reconheço a luz reconheço o olor recomeço o passo
no altar da moda modelar
outra moda procuro talhar esta mágica sem par (...)
que abraça a poesia vê-se a cidade a caminhar na gramática
sensual dos sons a irrigar o cravo lilás do ventre
onde a saudade amou a solidão por plácida compreensão à flor

sinto-me distante da primeira meta
sinto-me no lugar bendito onde me reconheço
abre-se inesperada paisagem da mente
percebo estar a usar o mesmo caminho que me leva a mim (p. 96).

A diferenciada poesia deste sujeito lírico configura-se em uma intensa viagem intimista que busca associar a sua inquietação com a do país, ambos a procura do melhor caminho para o novo tempo de paz: “todos os meus caminhos seguem o desvelo diurno do caminho/ todos os meus caminhos têm fim/ em cada sombra perfume e luz em cada asa tétrica/ todos os meus caminhos sonham tornarem-se um caminho” (p. 68).

Com a colaboração de imagens insólitas, o sujeito lírico percorre o universo onírico, esparge o simbolismo voraz de sua poesia em metáforas impactantes para reencontrar o caminho do país na harmonia entre os homens: “o instante onírico de pátria é um caminho minúsculo/ por percorrer na insónia/ é uma mansidão de ideias a navegar na flor humana da voz/ a primeira água matinal destes olhos/ é fluvial rio materno de um País/ reencontrado no compasso sistólico e diástólico do passo” (p. 118).

Por fim, constatamos após a leitura de Caminhos da Mente que a arrebatadora e singular poesia de Trajanno Nankhova Trajanno ainda é prenhe para novas imagens, reformulações estético-formais, renovações semânticas, sobretudo pela excelência alcançada a poesia de Trajanno apresenta novos paradigmas à literatura angolana, mostrando o quanto ainda é fecundo o caminho das letras e o quanto pode ser infinito o caminho da paz.

em algum instante lá mais adiante hei-de embalar
meu presente no auxílio dos sons na formação da palavra
na angústia da mão que estrutura o incontido
no sonho
o sino devolve o signo e a sina axiluanda à volta da lua
insistente mente de mel quase como herdeiro
de herói
uma mão acena outra mão
um olhar afaga outro olhar um hino mora no olhar
catálogo exposto de pauta aberta em oferenda à kianda
pranto e fruta fruta e encanto pela autópsia do pranto
aos pés do oceano no calor das cores
na argamassa da promessa e na sublimidade da colheita

em algum instante lá mais adiante verei o sol. (p. 88)


BIBLIOGRAFIA:

KANDJIMBO, Luís. Breve Panorâmica das Recentes Tendências da Poesia Angolana. In: Austral, Revista de Bordo da TAAG, nº 22, 1997, p. 27. Apud: SECCO, Carmen Lucia Tindó R. A haste e a ostra: uma poética da catástrofe e do sonho. In: A magia das letras africanas: ensaios escolhidos sobre as Literaturas de Angola e Moçambique e alguns outros diálogos. Rio de Janeiro: ABE Graph, 2003. p. 188-197.

SECCO, Carmen Lucia Tindó R. A haste e a ostra: uma poética da catástrofe e do sonho. In: A magia das letras africanas: ensaios escolhidos sobre as Literaturas de Angola e Moçambique e alguns outros diálogos. Rio de Janeiro: ABE Graph, 2003. p. 188-197.

TRAJANNO, Trajanno Nankhova. Caminhos da Mente. Luanda: União dos Escritores Angolanos, 2005.

sábado, 30 de outubro de 2010

Arménio Vieira – O poema, a viagem, o sonho (resenha de Ricardo Riso)


Arménio Vieira – O poema, a viagem, o sonho
Por Ricardo Riso

Publicado no semanário cabo-verdiano A Nação, nº 165, p. 13, de 28 de outubro de 2010

Logo após ser justamente galardoado com o Prémio Camões em 2009, tornando-se o 1o. escritor cabo-verdiano a recebê-lo, o praiense Arménio Vieira brinda seus admiradores com “O poema, a viagem, o sonho” (Editorial Caminho), novo livro de poesia.

Neste, o vate das ilhas opta pela tessitura em prosa poética e atinge ótimos resultados acerca de intrigantes indagações existenciais e metafísicas, apropriação e referências várias à literatura e à filosofia ocidental (“Li-os todos”, avisa-nos o poeta, lembrando “No Inferno”), para além da metapoética transgressora, mostrando o pleno domínio da poesia. Assim como a consagrada ironia do poeta e a sua postura independente que aconselha: “Apaga as escrituras. (...) Em ti há um marinheiro demandando uma ilha onde ninguém ainda esteve. Também em ti encontrarás o mapa, a bússola e o navio. Há coisas a que não deves atribuir nomes. A tua ilha não tem nome.”

É a viagem interior proposta ao sujeito que se quer independente, com o “Poema, que é também, mistério”, transportado pelo sonho. O sonho, condição do ilhéu, da evasão do “Poema de quem ficou” de Manuel Lopes, de que “teve saudades estranhas, de terras estranhas”, motivo de releituras como a de NZé dy Sant’Y’Águ em “Na morte de Baltazar Lopes da Silva, que também é o poeta Osvaldo Alcântara, “nunca divisados na retina dos que partiram/ nunca vistos e encontrados no chão inóspito/ e diaspórico da terra-longe”; é também revisitado por Vieira citando Homero: “O viajante que jamais viaja é quem deveras viaja, pois que, viajando nunca, ele sabe dos múltiplos dons com que o Destino distingue o sonhador. Sendo assim (por arbítrio alheio, é certo), o navegante, que jamais teve navios e nunca os desejou, mesmo assim, ele é o detentor das rotas que levam aos portos por nomear. Diga-se então que o azul de tantos céus, que Ulisses viu, como ninguém houvera visto, mais não é que os sonhos de quem, em terra, os sonhou no mar.”

Subverter a tessitura da poesia é uma especialidade de Vieira. “Escandir o verso é ofício a que se furta o poeta”, afirma o vate, “porém ele se escusa de escandir o verso, pois sabe que é vão meter a faca no que não pode ser cortado”. Parecendo justificar a opção pela prosa poética, o poeta vale-se da ironia para criticar os rimadores de versos fáceis e, em seguida, celebrar António Vieira e Fernando Pessoa: “De repente um pobre homem, sem apoio de mágica ou de alquimia, que também é magia, converte-se num aparelho de fazer poemas. Ele então que os faça, pois assim quis a sina. Se for soneto, (...) que eles saiam mais ou menos bem rimados. Atenção: quem rima choro com cachorro, jamais apanha a chave de ouro, e no fim é o cão que fica a rir-se. (...) Já que o santo era padre e como a poesia é o tema, encerre-se o texto com Vieira, também padre e António, tanto mais que os sermões, a mor das vezes chatos, em Vieira eram poemas. Entendeu-o Pessoa e, a dobrar, também eu. Por me chamar Vieira?”

A poesia ousada deste vate maior das ilhas apresenta belas homenagens à literatura ocidental ao unir poetas de diferentes épocas: Homero/Rimbaud, Safo/Baudelaire; para além das citações a Borges, Camus, aos gregos em “Grécia, mater mundi” etc.

Labiríntica poesia, fascinante leitura. A sonhadora viagem proporcionada pelos poemas deste Vieira, dito Arménio, reafirma-o entre os melhores da lusografia contemporânea.

“Eu, que de Homero recebi o poema no instante em que o poema nasce, e vi o Inferno pela mão de Dante, tal-qual Leopardi mais tarde o viu, e, após me afundar no rio onde Hamlet e Lear beberam o vinho que enlouquece, comecei a ter visões que Rimbaud, De Quincey e Poe registaram em negros textos; eu, que no eterno transportei a bandeira que era peso nas mãos de Elliot, e renovei a charrua com que Pound lavrava os versos, e de Whitman furtei-me ao licor, que em Álvaro, digo Campos, porque dorido e menos doce, sabia melhor; então que falta em mim para de Camões herdar a estrela, que Pessoa deixou fugir?”

domingo, 24 de outubro de 2010

João Tala lança "Forno Feminino" no Rio de Janeiro - 26/10/2010


POEMAS DE JOÃO TALA



TROMPAS UTERINAS / BRAÇOS DO MUNDO

ouço o recomeço acostumada seara
de grãos rompidos

ainda. as grandes mãos do mundo
fixam sementes, algarismos

palavras cervicais
húmus sobre terra húmida,

é esse o caminho que atinge ovários
pela boca da labareda.
(TALA, João. Forno Feminino. Luanda: Kilombelombe, 2009. p. 27)



Poema ébrio não é mais tua raiva
apago tua escrita dorida de raivas.
Bombeiro da inquietação
leitor das cartas imóveis
o engenho da tua caligrafia
eu, teu empenho a cumprir-te
quanto te conversas e precisas extinguir
o ruído da palavra que nem gritas.
(TALA, João. Forno Feminino. Luanda: Kilombelombe, 2009. p. 72)


Boa-noite. Venho de lume à
brisa de terra.
Trouxe o frasco de hormônio
achei-o na farmácia do tempo.

Boa-noite pedacinho. Outro desejo e
dois sorvos. Avivarei mulher em ti
com fogo novo. Noitinha, senhora
súbita alegria de doer onde salgava
o útero. Mais um sorvo e saltam tuas rosas
outro sorvo pode extinguir a angústia
reunida nos teus ovários.
(TALA, João. Forno Feminino. Luanda: Kilombelombe, 2009. p. 44)


palavras bonitas como a palavra mágica.
nascente uma palavra moça, recorrente.

palavra menstrual, rosada.
a rigor o mês assiste o vocabulário
da permuta,

a palavra volúpia teu sexo repleto de pássaros
notas mágicas de teus olhos cheios de plan(e)tas
muitas palavras por dizer ou rasgar
quando comes os frutos ensopados;

quando do fruto tens palavra sentir: formas e dores;
e caber na forma palavra nutrir.
(TALA, João. Forno Feminino. Luanda: Kilombelombe, 2009. p. 55)


São estas diferenças que partilho:
eclesiástica palavra tu és uma igreja

nutrida uma palavra
espiga outra palavra

levantas-me escolástica o nervo
com a tua dor;
aurora com o teu lume,

álgebra inquieta não somarias
o tempo que não partilho.
(TALA, João. Forno Feminino. Luanda: Kilombelombe, 2009. p. 41)


Os rumores edificaram o medo
cantamos a urgência dos lugares.
Encheram-nos as pupilas de palavras
amendrontadas;
Edificaram-nos também os passos
com as botas sobre a Aldeia.
Agora um país tem as têmporas a arder
de nossos medos
mas é apenas a memória dos tumultos.
(TALA, João. A vitória é uma ilusão de filósofos e loucos. Luanda: União dos Escritores Angolanos, 2005. p. 27)


recolho da época devastada agora uma aura
cheguei dos rumores para o paraíso húmido
o meu catecismo é a bruma onde a língua
explode de paixões
cheguei, homem da festa, carrego orvalhos
onde findaram as explosões.
(TALA, João. A vitória é uma ilusão de filósofos e loucos. Luanda: União dos Escritores Angolanos, 2005. p. 20)


A VIDA É UM VÍCIO ALÍRICO
Um lápis traçará caminhos e parábolas fecundas;
um lápis vigia-se pelos escombros;
as letras do pensamento são do olvido pessoas
[paradas e fatigadas.
têm secretas mensagens com as mãos na
notícia. pega um lápis ensina a sofrer.
toca a escrever poemas.
com as mãos na notícia.
não pode haver outra noite impedida
de nos encher a boca.
(onde é que a intimidade tacteava o chão?)
toca a escrever poemas, minha gente,
há que encher o bairro.
com as mãos na notícia.
Senão a vida será um vício alírico.
(TALA, João. Lugar Assim. Luanda: União dos Escritores Angolanos, 2004. p. 24)


As mesmas palavras largadas ao chão cheias de
[caminhos.
As mesmas palavras esquecidas largadas nos
[caminhos.
Palavras boçais repletas de tempestades.
Palavras insatisfeitas repetidas nos comícios
febris palavras convulsivas palavras complicadas
palavras vazias destemperadas incertezas;
o tédio das palavras muitas palavras!
Todas essas palavras como nos ofuscaram
ninguém mais se lembra. Esquecemo-las nos
[comícios.
Nunca mais lhe daremos o valor da palavra
[humana
com nossas vidas lidas nos comícios. Nunca mais.
(TALA, João. Lugar Assim. Luanda: União dos Escritores Angolanos, 2004. p. 29)

sábado, 23 de outubro de 2010