quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Eugênio Tavares
 – Coração Crioulo, dia 26/11 - 22h, TV Brasil

Eugênio Tavares
 – Coração Crioulo
Filme mostra legado que o poeta deixou à cultura cabo-verdiana

Eugênio Tavares – Coração Crioulo, filme de Cabo Verde, dirigido por Júlio Silvão

Eugênio Tavares, o poeta que melhor soube expressar os sentimentos da alma cabo-verdiana, é a figura central do documentário Eugénio Tavares – Coração Crioulo, de Júlio Silvão, e que a TV Brasil exibe nesta sexta (26), às 22h.

O filme foi rodado na Ilha Brava, terra natal do poeta, escritor, músico e jornalista
, na Praia, e em Lisboa. É um elogio à maestria com que Eugênio Tavares explorou na música e na poesia a trilogia Ilha, Mar, Amor, três objetos inseparáveis do seu pensamento poético-literário.

Uma trilogia muito bem explorada. “Ninguém até hoje entrosou melhor do que Eugénio Tavares esses três objetos, e de um modo tão íntimo, quase vivo, servindo ao mesmo tempo de palco para venerar o amor, através da mulher cabo-verdiana, na sua musica “Ô mal de Amor ca bu matan, Ô mal de Amor ca bo dexam”, afirmou o diretor Julio Silvão.

E continuou: “Nunca a alma de um povo encontrou, tão perfeitamente, a sua expressão, numa única manifestação de arte. Através dos poemas e das músicas de Tavares e do cruzamento dessa trilogia com o pensamento dos diferentes escritores de gerações procedente, dos testemunhos dos velhos da ilha, dos músicos e declamadores, pode-se compreender a verdadeira dimensão desta trilogia e a sua manifestação na alma crioula, a maneira de ser, sentir e agir das gentes das ilhas, as histórias de amor, irreverência, emigração, saudades e liberdade”.

Ano: 2010 Gênero: Documentário. Duração: 52 min. País: Cabo Verde. Direção: Júlio Silvão. Co-produção: Júlio Silvão/Silvão Produção, Filmes/Comunidade dos Países de Língua Portuguesa–CPLP.

O DOCTV CPLP é uma iniciativa da Empresa Brasil de Comunicação/TV Brasil, da Secretaria do Audiovisual do Ministério da Cultura e da Fundação Padre Anchieta/TV Cultura. A série leva ao público nove documentários inéditos produzidos nos países da CPLP e em Macau, que serão veiculados simultaneamente na grade de programação das TVs que integram a Rede DOCTV CPLP. A iniciativa integra uma operação de fomento e teledifusão do audiovisual em TVs públicas nos nove países da Rede, que são: Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe, Timor Leste e Macau.

Horário: Sextas, às 22h

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

100 anos da Revolta da Chibata (RJ), viva João Cândido!

Hoje completa-se 100 anos da Revolta da Chibata, liderada pelo negro João Cândido Felisberto. Em 22 de novembro de 1910, dois mil marinheiros tomaram quatro navios de guerra após a violenta punição de 250 chibatadas sofridas por um marinheiro.
Veja o programa especial do canal Globo News que conta, infelizmente, com as tristes declarações do historiador naval legítimo representante do racismo à brasiliera.
Ricardo Riso

Mostra Brasilidade - CCJF/RJ

Programação CENTRO CULTURAL JUSTIÇA FEDERAL/RIO DE JANEIRO
Endereço: Av. Rio Branco, 241 – Centro
cep:20040-009 – Rio de Janeiro- RJ
Até 01 de dezembro.
Fonte: http://mostrabrasilidade.wordpress.com/centro-cultural-justica-federal/programacao/
CURADORIAS: PROGRAMADORA BRASIL, DOC TV CPLP, DOCTV BRASIL.
E CHAMADA PÚBLICA CPLP (filmes brasileiros e estrangeiros inscritos na chamada pública)
Modalidade: SESSÕES DE FILMES & DEBATES

Terça-feira, 23 de novembro

14h – O Judeu (Brasil)
16h – Eugênio Tavares, Coração Crioulo (Cabo Verde)
O Rio da Verdade (Guiné-Bissau)
18h – DEBATE com realizadores do DOC TV CPLP
20h – Tchiloli – Identidade de Um Povo (São Tomé e Príncipe)
21h – Timbila Marimba Chope (Moçambique)

Quarta-feira, 24 de novembro
14h – Língua – Vidas em português (Brasil)
16h – Timbila Marimba Chope (Moçambique)
Nos Trilhos Culturais da Angola Contemporânea (Angola)
18h – DEBATE com realizadores do DOC TV CPLP
Victor Lopes (Brasil)
20h – Tchiloli – Identidade de Um Povo (São Tomé e Príncipe)
21h – Timbila Marimba Chope ((Moçambique)

Quinta-feira, 25 de novembro
14h – Li Ké Terra (Portugal)
O Restaurante (Macau)
16h – DEBATE com realizadores do DOC TV CPLP
18h – Exterior (Brasil)
Uma Lulik (Timor Leste)
20h – Morro do Céu (Brasil / RS)
21h – O Rei do Carimã (Brasil / SP)

Sexta-feira, 26 de novembro
14h – Estado de Seca (Brasil)
Mais que a terra (Brasil)
16h – Segunda Feira (Brasil)
A Grande Feira (Brasil)
18h – O Crime da Imagem (Brasil)
Cinema, Aspirina e Urubus (Brasil)
20h – Avenida Brasília Formosa (Brasil / PE)
21h – HU (Brasil / RJ)

Sábado, 27 de novembro
14h – Macunaíma (Brasil)
16h – Almoço Executivo (Brasil)
A Marvada Carne (Brasil)
18h – Um Dia na Rampa (Brasil)
Bahia de Todos os Santos (Brasil)
20h – Negros (Brasil / BA)
21h – Álbum de Família (Brasil / BA)

Domingo, 28 de Novembro
14h – Iracema, uma transa amazônica (Brasil)
16h – Especial Vídeo nas Aldeias (Brasil)
Cineastas Indígenas
Mokoi Tekoá Petei Jeguatá – Duas Aldeias, Uma Caminhada
18h – DEBATE com realizadores do Vídeo Nas Aldeias
20h – Carta Sonora (Brasil / SP)
21h – Jesus no Mundo Maravilha (Brasil)

Terça-feira, 30 de novembro
14h – Carmem Miranda
Carmen Miranda: Bananas is My business
16h – Os Anos JK – Uma Trajetória Política
18h – Divina Previdência
Cronicamente Inviável
20h – Periferia.com (Brasil / SP)
21h – Bagatela (Brasil / SP)

Quarta-feira, 01 de dezembro
14h – Segunda Feira
A Grande Feira
16h – Carolina
A Negação do Brasil
18h – Serras da Desordem
20h – DEBATE A Brasilidade no Cinema Brasileiro

sábado, 20 de novembro de 2010

Dia da Consciência Negra 2010 - Conceição Evaristo, Éle Semog, Cuti e Lande Onawale

Meu Rosário

Meu rosário é feito de contas negras e mágicas.
Nas contas de meu rosário eu canto Mamãe Oxum e falo
padres-nossos e ave-marias.
Do meu rosário eu ouço os longínquos batuques
do meu povo
e encontro na memória mal adormecida
as rezas dos meses de maio de minha infância.
As coroações da Senhora, em que as meninas negras,
apesar do desejo de coroar a Rainha,
tinham de se contentar em ficar ao pé do altar
lançando flores.
As contas do meu rosário fizeram calos
em minhas mãos,
pois são contas do trabalho na terra, nas fábricas,
nas casas, nas escolas, nas ruas, no mundo.
As contas do meu rosário são contas vivas.
(Alguém disse um dia que a vida é uma oração,
eu diria, porém, que há vidas-blasfemas).
Nas contas de meu rosário eu teço intumescidos
sonhos de esperanças.
Nas contas de meu rosário eu vejo rostos escondidos
por visíveis e invisíveis grades
e embalo a dor da luta perdida nas contas
de meu rosário.
Nas contas de meu rosário eu canto, eu grito, eu calo.
Do meu rosário eu sinto o borbulhar da fome
no estômago, no coração e nas cabeças vazias.
Quando debulho as contas do meu rosário,
eu falo de mim mesma um outro nome.
E sonho nas contas de meu rosário lugares, pessoas,
vidas que pouco a pouco descubro reais.
Vou e volto por entre as contas de meu rosário,
que são pedras marcando-me o corpo caminho.
E neste andar de contas-pedras,
o meu rosário se transmuta em tinta,
me guia o dedo,
me insinua a poesia.
E depois de macerar conta por conto do meu rosário,
me acho aqui eu mesma
e descubro que ainda me chamo Maria.
(EVARISTO, Conceição. Poemas da recordação e outros movimentos. Belo Horizonte: Nandyala, 2008. p. 16-17)

torpedo
irmão, quantos minutos por dia
a tua identidade negra toma sol
nesta prisão de segurança máxima?
e o racismo em lata
quantas vezes por dia é servida a ela
como hóstia?

irmão, tua identidade negra tem direito
na solitária
a alguma assistência médica?

ouvi rumores de que ela teve febre alta
na última semana
e espasmos
– uma quase overdose de brancura –
e fiquei preocupado.

irmão, diz à tua identidade negra
que eu lhe mando um celular
para comunicar seus gemidos
e seguem também
os melhores votos de pleno restabelecimento
e de muita paciência
para suportar tão prolongada pena
de reclusão.
diz ainda que continuamos lutando
contra os projetos de lei
que instauram a pena de morte racial
e que ela não tema
ser a primeira no corredor
da injeção letal.

irmão, sem querer te forçar a nada
quando puderes
permite à tua identidade negra
respirar, por entre as mínimas grades
dessa porta de aço
um pouco de ar fresco.

sei que a cela é monitorada
24 horas por dia.
contudo, diz a ela
que alguns exercícios devem ser feitos
para que não perca completamente
a ginga
depois de cada nova sessão de tortura.

irmão, espero que esta mensagem
alcance as tuas mãos.
o carcereiro que eu subornei para te levar o presente
me pareceu honesto
e com algumas sardas de solidariedade.
irmão, sei que é difícil sobreviver
neste silencioso inferno
por isso toma cuidado
com a técnica de se fingir de morto
porque muitos abusaram
e entraram em coma
fica esperto!

e não esquece o dia da rebelião
quando a ilusão deve ir pelos ares.

um grande abraço
deste teu irmão de presídio

assinado:
zumbi dos palmares
(CUTI. Negroesia - antologia poética. Belo Horizonte: Mazza Edições, 2007. p. 92-94)


BLACK POWER
eles ficam se perguntando
como posso me fazer bonito
com tudo aquilo que acham feio
como posso regritar meu grito
depois de tanta opressão
eles não sabem como chego até você irmão

o que pensam que sabem de nós
é só o que pode ser escrito
o que pode ser falado
mas a nossa força é indescritível brother

emerge dos séculos
de luta por liberdade
para ser cúmplices olhares
ou apertos de mão
(ONAWALE, Lande. O Vento. Salvador: Ed. do Autor, 2003. p. 51)

A CHAVE DA COR BRASILEIRA
Todos os dias, a vida inteira
uma razão interior, harmoniosa,
que herdei de gente da minha gente,
e veio por séculos a fio da meada,
me conduz e anuncia,
sem ser oráculo ou magia,
que sou vida porque sou negro,
que sou pleno porque sou negro,
que sou feliz porque sou negro.
Em toda a minha volta,
na versão dos outros,
na exclusão, no sofrimento,
no preconceito esplêndido
nada de mim pode Ser
além do branco, o possível.
E todos os dias me espreitando,
esperando chegar alguma dor,
ou ruptura no fio da meada,
uma outra razão turva e pesada,
insinuosa e despudorada
oferece uma das chaves
que abre o mundo dos brancos...
É para eu entrar, mas sozinho
e lá poderei ser pitoresco e faceiro,
desde que deixe os meus no caminho
e tranque para sempre o negro
que também sou, fora de mim.
(SEMOG, Éle. Tudo que está solto. Rio de Janeiro: Letra Capital, 2010. p. 110-111)

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Éle Semog afirmando outras versões da história, uma poesia de tensão e de intenção

Éle Semog afirmando outras versões da história, uma poesia de tensão e de intenção
Por Ricardo Riso

que sou vida porque sou negro,
que sou pleno porque sou negro,
que sou feliz porque sou negro
(Éle Semog. A chave da cor brasileira. p. 111)

Após um longo tempo, Éle Semog, pseudônimo de Luiz Carlos Amaral Gomes, lança em 2010 um novo livro de poesia, Tudo que está solto, pela editora carioca Letra Capital. O livro conta com prefácio de Nelson Olokofá Inocencio e texto de aba de capa de Salgado Maranhão.

Tudo que está solto é formado por um conjunto de cento e dez poemas, subdivididos em seis partes temáticas de emblemáticos títulos, só para citar algumas: Um cotidiano de ironias e fatalidades, Contrários contrastes do tempo e Afirmando outras versões da história. Generoso, o poeta introduz cada parte com um excerto de nomes consagrados da literatura afrobrasileira e angolana, tais como Cuti, Miriam Alves, Arlindo Barbeitos e Lia Vieira.

Gratificante constatar a maturidade da poesia semoguiana no decorrer das páginas deste livro. A poesia permanece corrosiva, aliás, aprimora-se nesse quesito, mostrando o caráter de “negro insurreto” intransigente ao racismo que se perpetua em nossa sociedade. O sujeito lírico demonstra voracidade perante a hipocrisia: “Basta de brancos e negros assimilados/ como penduricalhos da tolerância e integração./ A riqueza da nação não mente/ e não deixa mentir:/ branco é branco, negro é negro/ e isso não tem nada de irmão” (p. 68). Não foge do olhar ácido do sujeito lírico a perversidade da nossa democracia racial, que impõe o embranquecimento do negro, a negação de suas raízes, para ser aceito nas camadas altas da nossa sociedade, é o tema do poema “A chave da cor brasileira”: “uma outra razão turva e pesada,/ insinuosa e despudorada/ oferece uma das chaves/ que abre o mundo dos brancos.../ É para eu entrar, mas sozinho/ e lá poderei ser pitoresco e faceiro,/ desde que deixe os meus no caminho/ e tranque para sempre o negro/ que também sou, fora de mim” (p. 111).

Chocou-se? Que bom! Como afirma Inocencio no prefácio: “muito cuidado ao abrir este livro, pois ele contém substâncias altamente inflamáveis, compostas de consciência e indignação que podem causar danos irreparáveis àquelas mentes retrógadas” (p.11-12). O sujeito lírico semoguiano posiciona-se aberta mente a favor de nós, negros, com veemência revisita o nosso passado e procura reformular a nossa história, dando-nos o lugar de agente ao qual nos foi usurpado pela história oficial e o consequente ato de elevar a nossa autoestima: “(...) Não me curvo ao silêncio/ dessa versão perversa e lúcida, que torna invisível tudo que estou,/ como se o que penso pudesse ser/ desconstruído, pela expressão estúpida/ desses alcoviteiros cheios de estórias,/ que roubam detalhes, fingem fatos,/ e inumanos desfiguram vidas e verdades./ (...) Pertenço a uma História/ feita pelo meu povo/ e penso como meu povo,/ (...) Sou um negro como tantos outros/ negros e negras que esbanjam respeito/ mas que também atiçam o seu medo./ E é melhor assim.” (p. 77-78)

Dentro desse processo de reconstrução da história brasileira, os poemas reunidos em “Afirmando outras versões da história” são simbólicos, de extrema criatividade e rigor na pesquisa ao passado, vide a maneira poética como se dá a explicação da origem do nome Rio de Janeiro para a cidade. Sob o título “Ralando faz tempo no BR”, temos uma sequência de poemas que buscam reconstruir a trajetória da nossa colonização, sendo emocionantes os longos poemas que reescrevem a história da Bahia (Bahia dos vice-reis), Pernambuco (Terra pernambucana) e Rio de Janeiro (Carioca do Rio), sobrelevado pelo caráter didático configurando-se um ótimo material para professores trabalharem em sala de aula as nossas questões etnicorraciais. Cáustico, o sujeito lírico escancara as nossas feridas jamais cicatrizadas: “Com sincera fé católica e voraz volúpia/ por quase quatro séculos Portugal,/ seu rei, suas elites/ construíram a história mais triste/ que a humanidade tem para contar/ (...) de lucrar com a carne do negro/ como se não houvesse amanhã./ Comprar e vender aquela gente negra/ que ao embarcar o clero batizava por dinheiro,/ e em nome dos céus dava o inferno inteiro” (p. 80-81). O sujeito lírico ainda atenta-se aos perigosos revisionismos da elite branca contemporânea que pretende minimizar o cruel processo escravocrata: “Restam poucos documentos sobre isto,/ ninguém sabe, ninguém viu,/ como se aquelas multidões nos portos,/ nos porões, nos pelourinhos,/ fossem no tempo e na história uma miragem,/ e o algoz um erro acidental, um descaminho” (p. 81).

Resgatar a nossa história negra implica a coragem em desconstruir os cânones literários impostos pelo poder, tarefa que o sujeito lírico assume, cumprindo o fundamental papel destinado ao escritor negro comprometido com seus pares: “Vide o que vi e li/ do padre Antonio Vieira,/ quando fazia sermão/ quase perdia a estribeira,/ puxando o saco do papa e do rei,/ falando um montão de besteira./ Dentre outras sandices/ foi esse padre que disse,/ que a Senhora do Rosário/ abençoava a escravidão” (p. 85).

Sempre provocativo, os poemas lembram-nos as imutáveis violências as quais somos submetidos, “desde o tempo que o Direito/ tirou o direito da gente” (p. 105). O direito ao negro, a nossa condição humana até os dias atuais não é plenamente aceita. No passado, até o leite materno das mães negras era negado aos nossos antepassados: “É saber que os bebês negros,/ desde cedo, muito cedo,/ eram filhos, mas viravam bichos/ e perdiam do aconchego do seio/ o direito do alimento perfeito” (p. 73). Para nós, há o direito sim de sermos exterminados por uma polícia racista, programada e orientada para dizimar nossa juventude negra, principalmente a que vive em áreas carentes, por sinal e estranha coincidência, de maioria negra. Novamente o sujeito lírico versa a sua ferocidade, denuncia o triste óbvio do nosso cotidiano democraticorracial e, em feliz neologismo, apresenta os negrotérios: “No meu país tão democrático,/ tão religioso e tão caridoso/ toda criança negra/ é um anjo vestido de morte./ De zero aos dezessete anos/ são precoces condenados/ para entrar no céu./ Para confirmar não precisa/ perder tempo perguntando a Deus/ é só olhar nos jornais/ ou ir ver a cor das mães/ nas portas dos negrotérios” (p. 52).

Essa tensão típica do caos urbano da contemporaneidade, “que sufocam a minha lógica tribal” (p. 70), mostra a insensibilidade social do poder perante os seus pares, impondo deveres mas jamais oferecendo direitos: “Estou cercado por deveres,/ obrigações, tensões urbanas/ (...) Às vezes me respingam/ manchas de sangue, noutras/ multas, e impostos, e juros,/ e crianças mortas./ Muitas crianças mortas/ na lama dessa democracia./ Enchentes, roubos, gente cão,/ e filhos aspirados por essa/ ideologia global” (p. 70).

Apesar de todo o comprometimento de Éle Semog com a justiça social, a denúncia do racismo e a valorização do negro, é importante frisar a versatilidade formal e estética deste poeta que utiliza com desenvoltura o recurso aos versos livres; de intensa ironia – “Não escrevo/ como se fossse um/ necrófilo./ Sinto isto em cada letra./ Mesmo quando/ os poemas se espalham/ feito coisas mortas” (p. 17). o lirismo amoroso e negro: “Essa beleza inteira negra,/ delicadas tranças e carapinha,/ coloridas curvas ímpares/ que eu sei pegar com os olhos/ faz-me pensar que mulheres/ lindas assim, iguais a você, são mais raras” (p. 107); poemas longos e curtos que lembram os da poesia marginal dos anos 1970 e a urgência do ‘aqui e agora’: “...Falo de sensações/ passageiras./ Aquelas eternas naquele momento.” (p. 23) ; a própria tessitura poética, a dificuldade de fazê-la e da sua importância frente à perda de sensibilidade dos homens versada por um amargurado sujeito lírico: “a poesia me irrita (...)/ A poesia me consome inteiro/ como um beijo aflito/ que quer ser visto/ na boca de quem ama/ Sou poeta e também sou assim,/ deformado, que se resume poema,/ que se expressa pela natureza/ dos limites do porvir./ (...) A poesia me elucida/ - isto tem sido tão raro -/ quando o amor que vejo entre as pessoas,/ é um defeito, um acaso./ Deixo-me imolar pelo silêncio/ até que uma lágrima perigosa/ vasa ao limbo do pranto,/ como se o meu espírito lamentasse/ pelos mortos construídos/ com radicais banalidades,/ que todas as poesias evitam evitar” (p. 52-54); e o recurso criativo da metapoética com seus próprios poemas, “O drama afro de Bigu e Juliana” e “Anotações sobre o ato de escrever”, versando a respeito da força do verbo poético, da libertação da palavra que conduz o poeta em um embate no qual a palavra sempre sai vencedora: “o poema é o que eu quero,/ não o que a inspiração tem vontade/ (...) Não gosto quando/ o texto me ilude,/ engole e me abafa.../ não gosto mesmo/ quando o texto é mais/ vaidoso que eu./ E foi isto que aconteceu/ nesse poema afro/ do drama de Bigu e Juliana” (p. 109-110).

Para concluir, é necessário celebrar este Tudo que está solto, a palavra depurada e madura, a versatilidade formal e temática deste militante negro de Nova Iguaçu (RJ), participante de diversas antologias como “Cadernos Negros” e “Ebulição da escrivatura”, com textos publicados na Alemanha, Estados Unidos e Itália, para além dos seus, dentre outros, “Curetragem – poemas doloridos” e a biografia de Abdias Nascimento, “O griot e as muralhas”. Corrosivo sim, agressivo também, sobretudo, verdadeiro e sincero nas suas intenções. Éle Semog brinda-nos com um livro obrigatório, de excelente qualidade poética, de confirmação do seu nome entre os maiores da literatura negra brasileira, por conseguinte, entre os melhores da literatura brasileira. Um brado poético contra o racismo em nossa sociedade, uma feliz leitura para nós negros. É o que tenho a dizer a respeito de Tudo que está solto e agradecer ao seu autor.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Éle Semog lança Tudo que está solto na Funemac/Macaé, dia 18/11, 18h (participação Ricardo Riso)

O escritor afrobrasileiro Éle Semog lançará TUDO QUE ESTÁ SOLTO (Rio de Janeiro: Letra Capital, 2010), seu recente livro de poesia na FUNEMAC/Macaé no dia 18 de novembro, a partir das 18h. Além do escritor, a mesa será composta pela Profa. Dra. Sonia Santos e por mim.

Abraços,
Ricardo Riso

Alguns poemas do livro de Éle Semog.

VOLTANDO DE GRAMACHO PELA LINHA VERMELHA
A cidade cresceu ao meu redor
e agora me devora pra fora,
como acontece com um botão
na casa de uma camisa...
Mas sou um negro insurreto,
que não se dobra aos infernos
que me oferecem.
Estou cercado por deveres,
obrigações, tensões urbanas
e municipalistas,
que sufocam a minha lógica tribal.
Mesmo vivendo isto,
com essas coisas tão naturais
não consigo ser cidadão.
Às vezes me respingam
manchas de sangue, noutras,
multas, e impostos, e juros,
e crianças mortas
na lama dessa democracia.
Enchentes, roubos, gente caô,
e filhos aspirados por essa
ideologia global.
Ainda assim, dia desses,
peguei um por do sol com uma lua tão linda,
ali pelos lados da ponte Rio Niterói,
que até Deus se assombrou
com a emoção que expressei,
só com esse restinho de gente
guardado dentro de mim,
que não sabia que estar viva.
Eu sou um desses homens
que cuida da casa, das crianças e da mulher.
Já sei me libertar, só não preciso saber
para que ser livre.
(p. 70-71)


A CHAVE DA COR BRASILEIRA
Todos os dias, a vida inteira
uma razão interior, harmoniosa,
que herdei de gente da minha gente,
e veio por séculos a fio da meada,
me conduz e anuncia,
sem ser oráculo ou magia,
que sou vida porque sou negro,
que sou pleno porque sou negro,
que sou feliz porque sou negro.
Em toda a minha volta,
na versão dos outros,
na exclusão, no sofrimento,
no preconceito esplêndido
nada de mim pode Ser
além do branco, o possível.
E todos os dias me espreitando,
esperando chegar alguma dor,
ou ruptura no fio da meada,
uma outra razão turva e pesada,
insinuosa e despudorada
oferece uma das chaves
que abre o mundo dos brancos...
É para eu entrar, mas sozinho
e lá poderei ser pitoresco e faceiro,
desde que deixe os meus no caminho
e tranque para sempre o negro
que também sou, fora de mim.
(p. 110-111)

Conceição Evaristo – Poemas da recordação e outros movimentos (resenha)


Conceição Evaristo – Poemas da recordação e outros movimentos
Por Ricardo Riso


Hoje não é nenhum absurdo nem exagero afirma que Conceição Evaristo é a principal voz feminina da nossa literatura afro-brasileira. Por isso, devemos celebrar o lançamento de “Poemas de recordação e outros movimentos”, pela editora Nandyala, em 2008, antologia poética que reúne poemas do passado e inéditos dessa mineira de Belo Horizonte, nascida em 29 de novembro de 1946.

Desde os anos 1970 radicada no Rio de Janeiro, formada em Letras, Mestre em Literatura Brasileira pela PUC/RJ e Doutora em Literatura Comparada pela UFF/RJ, Evaristo teve sua estreia literária em 1990, na série Cadernos Negros, publicação anual editada pelo Grupo Quilombhoje com o intuito de lançar escritores afro-brasileiros, projeto iniciado em 1978. A partir daí, a poeta começou a ter seus textos, que navegam entre a poesia, o conto e o romance, em diversas antologias nacionais e estrangeiras. Individualmente, publicou os seguintes romances: “Ponciá Vicêncio” (2003 e já na segunda edição) e “Becos da Memória” (2006).

A obra de Conceição Evaristo conduz-nos a um profundo mergulho na memória que navega entre as recordações individual e coletiva, “a memória bravia lança o leme:/ Recordar é preciso”. Logo somos banhados pelas “águas-lembranças” de Evaristo que se posiciona como mulher negra e da comunidade negra em geral para transformar em poesia as suas “escrevivências”. Estas são motivadas pelas lembranças familiares, formadoras do binômio vida-poesia, destacando-se a convivência com a mãe, “mulher de pôr reparo nas coisas,/ e de assuntar a vida”, e que “me ensinou,/ insisto, foi ela,/ a fazer da palavra/ artifício/ arte e ofício/ do meu canto/ da minha fala”, o aprendizado oral pelos provérbios, “quando se anda descalço/ cada dedo olha a estrada”, e também do contato frutífero com a Tia Lia que “temperando os meus dias/ misturava o real e os sonhos/ inventando alquimias./ (...) Houve um tempo/ em que a velha/ me buscava/ e eu menina/ com os olhos/ que ela me emprestava,/ via por inteiro/ o coração da vida”.

O cruel desenvolvimento das adversidades pelas quais passam as mulheres negras através dos tempos, configurando a dor e as experiências de injustiças sociais, são demonstrados no poema “Vozes-Mulheres”, no qual o sujeito lírico retoma as dores sofridas pela bisavó no passado de violenta escravidão, como ecos na memória de “lamentos/ de uma infância perdida”. Relembra a submissão sofrida pela avó ainda escrava diante da “obediência/ aos brancos-donos de tudo”, recorda os ecos das dores de sua mãe “no fundo das cozinhas alheias/ debaixo de trouxas/ roupagens sujas dos brancos”. Até chegar no tempo presente, na sua voz que ainda “ecoa versos perplexos/ com rimas de sangue/ e/ fome”, para atingir a consciência madura de sua filha, voz que “recorre todas as nossas vozes” e que se quer livre: “Na voz de minha filha/ se fará ouvir a ressonância/ o eco da vida-liberdade”.

A condição feminina aparece com frequência em seus poemas. Em “Do fogo que em mim arde” a coisificação da mulher é combatida: “Sim, eu trago o fogo,/ o outro/ não aquele que te apraz”; conduzindo à metapoesia e à afirmação de um sujeito feminino pleno: “Sim, eu trago o fogo,/ o outro/ aquele que me faz,/ e que molda a dura pena/ de minha escrita./ É este o fogo/ o meu,/ o que me arde/ e cunha a minha face/ na letra-desenho/ do auto-retrato meu”. Portanto, verifica-se a rigidez de um sujeito lírico que possui a força de dar a vida, por fim, dar movimento ao mundo e que diz: “Eu fêmea-matriz/ Eu força-motriz/ Eu-mulher”.

Ao posicionar-se como negra e ao fazer literatura com cariz afro-brasileiro, torna-se inevitável apresentar temas que não integram o cânone e são excluídos por ele, tal como a denúncia do racismo presente em nossa sociedade que a ordem estabelecida insiste em negar e persiste com a mentira de que vivemos em uma democracia racial. Os poemas de Evaristo invocam este e outros assuntos referentes ao nosso cotidiano de cidadão negro e o poema “Meu Rosário” é um excelente exemplo por tratar da religiosidade híbrida brasileira – “Nas contas de meu rosário eu canto Mamãe Oxum e falo/ padres-nossos, ave-marias” –, a discriminação permanente que o negro é submetido em uma cerimônia cristã – “As coroações da Senhora, em que as meninas negras,/ apesar do desejo de coroar a Rainha,/ tinham de se contentar em ficar ao pé do altar/ lançando flores” –, escancara o subemprego dos nossos pares – “As contas do meu rosário fizeram calos/ nas minhas mãos/ pois são contas do trabalho na terra, nas fábricas,/ nas casas, nas escolas, nas ruas, no mundo”. Entretanto, permanecem os “sonhos de esperanças” e a transformação do verbo em poesia – “E neste andar de contas-pedras,/ o meu rosário se transmuta em tinta,/ me guia o dedo,/ me insinua a poesia”.

Intertextualizando com Carlos Drummond de Andrade, para nós negros há sempre incontáveis “pedras no meio do caminho”. Para suportar e superar “a áspera intempérie/ dos dias”, necessita-se assumir “a ousada esperança/ de quem marcha cordilheiras/ triturando todas as pedras/ da primeira à derradeira”, “moldando fortalezas-esperanças” para sobreviver diante de tantas desigualdades e perseguições ao nosso povo, principalmente aos jovens, vítimas constantes da violência policial e demonstrada com sutileza pelo sujeito lírico: “E pedimos/ que as balas perdidas/ percam o rumo/ e não façam do corpo nosso,/ os nossos filhos,/ o alvo”. Fatos recorrentes que revoltam, o incômodo por séculos de opressão não segura mais a língua metamorfoseando a conjungação dos verbos: “E não há mais/ quem morda a nossa língua/ o nosso verbo solto/ conjugou antes/ o tempo de todas as dores”. Sendo assim, o sujeito lírico atua como agente de mudança da História e propõe o seu grito de liberdade: “E o silêncio escapou/ ferindo a ordenança/ e hoje o anverso/ da mudez é a nudez/ do nosso gritante verso/ que se quer livre”.

Devemos frisar que o poeta afro-brasileiro é um partícipe ativo – e por sinal, incômodo – da presença negra na literatura brasileira, assim como possui plena consciência da necessidade de uma revisão crítica da História oficial que minimiza o passado de séculos de escravidão e a exclusão social que se perpetua para a maioria de nossos pares na contemporaneidade. Só resta ao sujeito lírico cumprir seu papel e assumir essa condição, ou seja, denunciar “o que os livros escondem,/ as palavras ditas libertam. E não há quem ponha/ um ponto final na história”.

Com isso, os poemas de Conceição Evaristo possuem o predomínio temático das diversas e urgentes questões afro-brasileiras e também da mulher, todavia, sua poesia navega com desenvoltura pela metapoética, demonstrando reverência ao verbo poético, transbordando lirismo e emocionando as retinas: “Quando eu morder/ a palavra,/ por favor/ não me apressem,/ quero mascar,/ rasgar entre os dentes,/ a pele, os ossos, o tutano/ do verbo,/ para assim versejar/ o âmago das coisas”.

E é assim “crivando buscas/ cavando sonhos/ aquilombando esperanças/ na escuridão da noite” e cosendo “a rede/ de nossa milenar resistência” que a poesia de Conceição Evaristo insiste na defesa inquestionável dos negros, persiste com as denúncias às condições discriminatórias sofridas por nós e amadurece em sua estrutura estético-formal. “Poemas da recordação e outros movimentos” mostram um verbo depurado de uma autêntica artífice da linguagem, marcando a sua posição destacada na construção de uma literatura afro-brasileira autônoma, para além de configurar a inclusão do nome de Conceição Evaristo entre o que vem sendo produzido de melhor qualidade na literatura brasileira contemporânea.

Macaé Odara - dia 19/11, 13h, Centro Macaé de Cultura


Fonte: e-mail gentilmente enviado pela Profa. Dra. Sonia Santos, coordenadora da CORAFRO.

Literacia e a Semana da Consciência Negra

Prezados(as),
No Literacia compareço com duas resenhas de livros de escritores afrobrasileiros, Cuti e a antologia poética Negroesia, e Conceição Evaristo com o seu Poemas de Recordação e outros movimentos. A seguir, o informe da revista.
Abraços,
Ricardo Riso

Caros Amigos de Literacia,
O Dia da Consciência Negra é uma forma de lembrar o sofrimento dos negros ao longo da história, desde a
época da colonização do Brasil, tentando garantir seus direitos sociais.

O Dia da Consciência Negra também é marcado pela luta contra o preconceito racial, além de temas como mercado de trabalho, discriminação política, etnias,e homenagens aos negros que se destacaram na construção de nossa História.

Nesta Semana da Consciência Negra, publicamos artigos, ensaios, resenhas e teses, que julgamos merecem leitura atenta e reflexiva , tais como:

I.*Zumbi dos Palmares, o maior ícone da resistência negra ao escravismo no Brasil [Registros Históricos]

II.*A importância do Negro -Teodoro Sampaio-[Engenheiro , Geógrafo e Historiador Brasileiro]

III.*Diferentes na cor, iguais em OPORTUNIDADES?-por Sonia Regina Lourenço

IV.*Carolina Maria de Jesus-Favelada,Escritora, publicou seu primeiro livro Quarto de Despejo em 1960. [Obra que foi traduzida para 13 idiomas]

V.*Conceição Evaristo – Poemas da recordação e outros movimentos- por Ricardo Riso

VI.*Cuti – compromisso com a afirmação da consciência negra na poesia afro-brasileira- por Ricardo Riso

VII.*Negrice- por Lilian Maial

Ler em: http://literaciaracismoecrime.blogspot.com/

anadeabrãomerij
[Literacia]

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Mário Lúcio Sousa - O Novíssimo Testamento (livro)


E se Jesus ressuscitasse mulher?

No tempo em que os Portugueses imperavam sobre o arquipélago de Cabo Verde, aconteceu num domingo de Páscoa, na minúscula freguesia do Lém, estar a morrer a mulher mais beata que a ilha de Santiago conhecera. Interpelando-a as netas sobre a sua última vontade, não quiz ela, como seria de esperar, chamar o padre, respondendo em vez disso que gostaria de ser fotografada. Porém, assim que o flash disparou, um mistério inexplicável varreu a ilha de lés a lés; e, quando, ao fim de muitas peripécias, a fotografia foi finalmente revelada, a surpresa foi tão impossível que não houve, no mundo inteiro, uma só alma que conseguisse manter a boca fechada. A ilha quase ia ao fundo com a confusão… Se o Antigo Testamento anuncia a vinda do Messias e o Novo Testamento narra a vida, a morte e a ressurreição de Jesus, este Novíssimo Testamento é uma autêntica revolução: pois dá testemunho da reencarnação de Jesus no corpo de uma mulher – ilhéu e africana – que parece ter vindo inaugurar a Terceira Idade do Mundo mas não está livre de enfrentar os preconceitos sociais, religiosos e políticos do seu tempo.

Mário Lúcio Sousa é autor de uma obra literária que vai da poesia (Sob os Signos da Luz) à ficção (Vidas Paralelas, premiado pelo Fundo Bibliográfico da Língua Portuguesa, em 2003), passando pelo teatro (Saloon, de 2004). O Novíssimo Testamento é o seu primeiro livro a ser editado em Portugal.


Título: O Novíssimo Testamento
Autor: Mário Lúcio Sousa
Editor: Dom Quixote
Colecção: Autores Língua Portuguesa
Ano de edição: 2010
 
Fonte: Na esquina do tempo, blog do Prof. Dr. Manuel Brito-Semedo