segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Abraão Vicente lança "O Trampolim" na Cidade da Praia


O artista plástico, cronista e agora escritor Abraão Vicente lança a sua primeira aventura literária intitulada  “O Trampolim” na livraria Nhô Eugénio, Cidade da Praia, Ilha de Santiago/Cabo Verde, no dia 2 de Dezembro, a partir das 18h30. O autor informa que a apresentação terá a participação especial do músico e compositor Princezito que fará uma leitura dramatizado de um texto, para além de leituras encenadas de alguns diálogos do livro pelos actores Dulce Sequeira, José Pedro Bettencourt, Paulo Silva e Raquel Monteiro.


Sobre o Livro:

“O Trampolim” é um livro feito de estória que não chegam a ser contos, muito menos um romance. Estórias que são antes conversas de um miúdo de várias idades: 5,6,7 ou 8, se calhar até 9 anos. Conversas de um miúdo, que se chama Zé, com o seu amigo imaginário (ou se calhar seu alter ego) também de nome Zé. Por se repetir demasiadas vezes o nome Zé fica-se sem saber quem é a personagem real e quem é a fictícia. Falam da infância e de coisas sérias: Deus, amor, tecnologia, morte, emigração, racismo, dominação, arte. Coisas sérias faladas a brincar. Usam a linguagem da rua, o português mal falado, uma tradução quase literal do crioulo para o português. O livro está escrito em português mas também poderia ter sido em crioulo pela cadência, pelo ritmo e pelo imaginário. Um vocabulário muitas vezes inventado, recriado, enrolado, se calhar um livro para se ler em voz alta.

Como é que dois miúdos, ou se calhar apenas um, sabem tanto do mundo e dos seus mistérios? Não se sabe bem. Mas também não é se para entender. Linha da estória? Se houver uma, é a estória do miúdo que quer aprender a voar e pede ao amigo imaginário (ou será o contrário?) para lhe construir um trampolim. Enquanto esperam que o Trampolim seja construído os dois vão tecendo lembranças.

Este livro foi escrito em 2003 na Assomada. É lançado sob a chancela da editora Kankan Stúdio que, tal como as personagens deste livro, também ela é imaginária.
 
Fonte: e-mail de divulgação para a imprensa enviado pelo autor em 29 de novembro de 2010.

Mito Elias - MAJINA - 30 anos 100 Lennon



http://www.youtube.com/watch?v=w-w8hIPpkpk


MITO ELIAS

apresenta

MAJINA - 30 anos 100 Lennon
Celebração Vídeo-Poética à paz e à memória de John Lennon

Mito Elias - Vídeos, Poemas, Sonorizações e Vozes

Convidados :
Elmano Caleiro - Contrabaixo, Percurssão e Voz.
José Brazão - Percurssão e Voz.
José Cunha - MC - Poeta Residente

7 de Dezembro - 21.00 H

Livraria CE Buchholz
Rua Duque de Palmela, 4 - Lisboa

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Palestra na ONG Projeto Legal

Hoje, a partir das 16h30, ministrarei a palestra "Literaturas Africanas de Língua Portuguesa - ler para amar" na ONG Projeto Legal, à Av .Marechal Floreano, 199 - sala 502, Centro/Rio de Janeiro.

ÁFRICA E AFRICANIDADES - Ano III - nº 11 - nov/2010

ÁFRICA E AFRICANIDADES - www.africaeafricanidades.com.br

Ano III - nº 11 - novembro de 2010 - ISSN 1983-2354

Sumário

Problemáticas lusógrafas e o papel da língua portuguesa na emergência da identidade literária caboverdiana e na universalização da poesia caboverdiana contemporânea
José Luís Hopfffer C. Almada

The arts of resistance in the poetry of Linton Kwesi Johnson
Jair Luiz França Junior

A valorização da história e cultura afro-brasileira por Luiz Carlos da Vila
Maria Angélica Ventura Ferreira

Memórias na escrita de autoria feminina afrobrasileira
Assunção de Maria Sousa e Silva

Strategizing renewal of memories and morals in the african folktale
John Rex Amuzu Gadzekpo e Orquídea Ribeiro

Consciência coletiva, identidade negra e cidadania: uma perspectiva pós-colonial para as construções sociais no Brasil
Bruno Diniz Fernandes

Baara, de Souleymane Cissé
Wanessa Tenório Bezerra

O ensino e a pesquisa sobre África no Brasil e a lei 10.639
Luena Nascimento Nunes Pereira

Cabelo bom. Cabelo ruim: a construção da identidade afrodescendente na sala de aula
Sayara de Brito Félix

Conceição Evaristo – Poemas da recordação e outros movimentos
Ricardo Riso

A construção da identidade negra em territórios de maioria afrodescendente
Tarcia Regina da Silva

Da cor do preconceito: o negro na teledramaturgia brasileira
Alex Santana França

População negra no Ceará e sua cultura
Marlene Pereira dos Santos e Henrique Cunha Junior

O outro pé da sereia: uma viagem no tempo-espaço
Aparecida Cristina da Silva

Afrocentricidade e educação: os princípios gerais para um currículo afrocentrado
Renato Nogueira dos Santos Junior

A reconfiguração da identidade nacional moçambicana representada nos romances de Mia Couto
Josilene Silva Campos

Água e azeite: políticas afirmativas e a democracia racial no Brasil
Natália Neris da Silva Santos

O outro e o eu: a cama, nas narrativas de Niketche e A cor púrpura
Waltecy Alves dos Santos

“Sonéá: exaltação da tradição oral guineense nos moldes da escrita”
Jusciele C Almeida de Oliveira

Esporte, integração social e a aplicação da lei 11.645/08 No 2º segmento do Ensino Fundamental da E.M. Professor Washington Manoel de Souza – Queimados – R.J
Denise Guerra dos Santos

Legislação portuguesa para o ultramar
Esmeralda Simões Martinez

Memória e espaço: sentimentos insulares pintados e cantados por Luísa Queirós e Conceição Lima
Eneile Santos Saraiva

Da invisibilidade do negro nos estudos sobre a cultura sertaneja
Salatiel Ribeiro Gomes

O uso da literatura de base africana e afrodescendente junto a crianças das escolas públicas de Fortaleza: construindo novos caminhos para repensar o ser negro
Geranilde Costa e Silva

Crédito pecuário a mulheres de moçambique: dinâmicas sociais de gênero
Maria Henrique Cândido e Marta Júlia Marques Lopes

Diálogos entre Brasil e Angola: a recriação literária da infância em obras autobiográficas
Karina Mayara Leite Vieira

África negra e a formação da africanidade
Tarcia Regina da Silva

Dança do chorado: facetas do corpo e cultura vilabelense
Belnidice Terezinha Figueiredo Fernandes

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Tchalé Figueira – O Azul e a Luz

Tchalé Figueira – O Azul e a Luz
Por Ricardo Riso
Consagrado como um dos principais nomes das artes plásticas de Cabo Verde, Tchalé Figueira desde o início dos anos 1990 apresenta a sua verve como escritor, passeando pela poesia, novelas e contos. De sua lavra são “Todos os naufrágios do mundo”, “Onde os sentimentos se encontram”, “Ptolomeu e a sua viagem de circum-navegação”, “Solitário”, “Contos de Basileia” (este ainda no prelo) e participações em antologias como “Tchuba na desert” para além de publicações em jornais e revistas das ilhas.

“O Azul e a Luz” foi o seu mais recente livro de poesia, publicado em 2002 pelo Instituto da Biblioteca Nacional, composto por trinta e um poemas, oito desenhos do próprio Figueira e prefácio de Isabel Lobo. Nesse livro deparamo-nos com um sujeito lírico angustiado, melancólico, amargurado com o meio e o tempo em que vive, que busca a força da palavra poética, por isso suplica “é urgente a luz...”.

Sim, a luz para o fim da insensibilidade entre os homens, o término das injustiças perpetuadoras do caos e da dor presentes na contemporaneidade, estimuladas por políticos inescrupulosos a determinar o trágico destino de milhões de vida: “Vivo num Planeta azul de fogo/ Onde a hiena e o chacal se beijam/ Esmagando corações e flores”. Sendo assim, “Com fervor, peço à criação/ Que um dia os generais do Mundo/ Acordem-se poetas e os banqueiros/ Da Wall Street Cristos na multiplicação/ Dos peixes”.

O sujeito lírico é ciente da hipocrisia predominante e da bestialização da condição humana, por isso em “Epitáfio a um poeta”: “Sonhou toda a vida acalentando a morte/ Para melhor viver num mundo de mentiras”, conduzindo-o a rememorar nossa ancestralidade e perguntar-se(nos): “Qual foi o erro na evolução de LUCY/ Nestes milhões de anos?...”, da crueldade de um mundo tomado pelo desenvolvimento da tecnologia que não diminui as desigualdades, mas que proporciona o aumento do terror, ceifando vidas na “era cibernética/ Que faz máquinas que não amam/ E impiedosamente matam”.

Contrapondo-se a isso, o sujeito lírico transfigurado em australopiteco trará o novo homem, persistente em seu clamor, deflagrador da mudança para um novo tempo: “Eu sou um australopiteco da era cibernética/ E vivo num planeta triste em sangue// Também sou um australopiteco poeta da era cibernética/ E grito todos os dias a palavra LIBERDADE...”

A insensibilidade predomina entre os seres, ofusca a luz, a impossibilidade do amor apodera-se da poesia: “Beijei constelações de melancolia// Na cegueira de um reencontro triste,/ Desvaneci-me na ilha do meu sentir e/ Naufraguei no frio dos teus beijos,/ Terrivelmente ausentes de luz”. Apesar da melancolia apreendida pelo sujeito lírico diante das atrocidades que dilaceram as pessoas, a “utopia do poeta” determina a sua trajetória, o seu compromisso para com os homens, o seu sentimento solidário permanece intocável: “Irei pelas ruas do Mundo delirando/ Com o cheiro (a)mar das ilhas/ E farei com que meus cabelos/ De mil pássaros voando, sejam/ A anunciação da contiguidade”.

A redenção está no Amor, o lirismo socorre o sujeito lírico: “Hoje acordei com o sabor a pão da tua boca/ E fui ao mar pedir aos Deuses que nos trouxessem/ A purificação no amor.// Regressei a luz com lábios de sal/ E beijei-te num solene baptismo de amantes/ Temperando o alimento da vida”.

O sujeito lírico propõe o retorno à tenra idade, com os “olhos de uma criança/ Encontro a luz lírica do mundo”, para assim reconstruir os caminhos, reformular as escolhas por meio da “serenidade rítmica da luz”, luz que iluminará as consciências e conduzirá os homens a tempos de paz e de igualdade. Da luz para o azul, azul do céu, do infinito, do universo onírico, do sonho que jamais morrerá por um mundo melhor retratado na delicadeza dos desenhos e nos poemas deste incansável contestador, o poeta-pintor Tchalé Figueira.

Eugênio Tavares
 – Coração Crioulo, dia 26/11 - 22h, TV Brasil

Eugênio Tavares
 – Coração Crioulo
Filme mostra legado que o poeta deixou à cultura cabo-verdiana

Eugênio Tavares – Coração Crioulo, filme de Cabo Verde, dirigido por Júlio Silvão

Eugênio Tavares, o poeta que melhor soube expressar os sentimentos da alma cabo-verdiana, é a figura central do documentário Eugénio Tavares – Coração Crioulo, de Júlio Silvão, e que a TV Brasil exibe nesta sexta (26), às 22h.

O filme foi rodado na Ilha Brava, terra natal do poeta, escritor, músico e jornalista
, na Praia, e em Lisboa. É um elogio à maestria com que Eugênio Tavares explorou na música e na poesia a trilogia Ilha, Mar, Amor, três objetos inseparáveis do seu pensamento poético-literário.

Uma trilogia muito bem explorada. “Ninguém até hoje entrosou melhor do que Eugénio Tavares esses três objetos, e de um modo tão íntimo, quase vivo, servindo ao mesmo tempo de palco para venerar o amor, através da mulher cabo-verdiana, na sua musica “Ô mal de Amor ca bu matan, Ô mal de Amor ca bo dexam”, afirmou o diretor Julio Silvão.

E continuou: “Nunca a alma de um povo encontrou, tão perfeitamente, a sua expressão, numa única manifestação de arte. Através dos poemas e das músicas de Tavares e do cruzamento dessa trilogia com o pensamento dos diferentes escritores de gerações procedente, dos testemunhos dos velhos da ilha, dos músicos e declamadores, pode-se compreender a verdadeira dimensão desta trilogia e a sua manifestação na alma crioula, a maneira de ser, sentir e agir das gentes das ilhas, as histórias de amor, irreverência, emigração, saudades e liberdade”.

Ano: 2010 Gênero: Documentário. Duração: 52 min. País: Cabo Verde. Direção: Júlio Silvão. Co-produção: Júlio Silvão/Silvão Produção, Filmes/Comunidade dos Países de Língua Portuguesa–CPLP.

O DOCTV CPLP é uma iniciativa da Empresa Brasil de Comunicação/TV Brasil, da Secretaria do Audiovisual do Ministério da Cultura e da Fundação Padre Anchieta/TV Cultura. A série leva ao público nove documentários inéditos produzidos nos países da CPLP e em Macau, que serão veiculados simultaneamente na grade de programação das TVs que integram a Rede DOCTV CPLP. A iniciativa integra uma operação de fomento e teledifusão do audiovisual em TVs públicas nos nove países da Rede, que são: Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe, Timor Leste e Macau.

Horário: Sextas, às 22h

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

100 anos da Revolta da Chibata (RJ), viva João Cândido!

Hoje completa-se 100 anos da Revolta da Chibata, liderada pelo negro João Cândido Felisberto. Em 22 de novembro de 1910, dois mil marinheiros tomaram quatro navios de guerra após a violenta punição de 250 chibatadas sofridas por um marinheiro.
Veja o programa especial do canal Globo News que conta, infelizmente, com as tristes declarações do historiador naval legítimo representante do racismo à brasiliera.
Ricardo Riso

Mostra Brasilidade - CCJF/RJ

Programação CENTRO CULTURAL JUSTIÇA FEDERAL/RIO DE JANEIRO
Endereço: Av. Rio Branco, 241 – Centro
cep:20040-009 – Rio de Janeiro- RJ
Até 01 de dezembro.
Fonte: http://mostrabrasilidade.wordpress.com/centro-cultural-justica-federal/programacao/
CURADORIAS: PROGRAMADORA BRASIL, DOC TV CPLP, DOCTV BRASIL.
E CHAMADA PÚBLICA CPLP (filmes brasileiros e estrangeiros inscritos na chamada pública)
Modalidade: SESSÕES DE FILMES & DEBATES

Terça-feira, 23 de novembro

14h – O Judeu (Brasil)
16h – Eugênio Tavares, Coração Crioulo (Cabo Verde)
O Rio da Verdade (Guiné-Bissau)
18h – DEBATE com realizadores do DOC TV CPLP
20h – Tchiloli – Identidade de Um Povo (São Tomé e Príncipe)
21h – Timbila Marimba Chope (Moçambique)

Quarta-feira, 24 de novembro
14h – Língua – Vidas em português (Brasil)
16h – Timbila Marimba Chope (Moçambique)
Nos Trilhos Culturais da Angola Contemporânea (Angola)
18h – DEBATE com realizadores do DOC TV CPLP
Victor Lopes (Brasil)
20h – Tchiloli – Identidade de Um Povo (São Tomé e Príncipe)
21h – Timbila Marimba Chope ((Moçambique)

Quinta-feira, 25 de novembro
14h – Li Ké Terra (Portugal)
O Restaurante (Macau)
16h – DEBATE com realizadores do DOC TV CPLP
18h – Exterior (Brasil)
Uma Lulik (Timor Leste)
20h – Morro do Céu (Brasil / RS)
21h – O Rei do Carimã (Brasil / SP)

Sexta-feira, 26 de novembro
14h – Estado de Seca (Brasil)
Mais que a terra (Brasil)
16h – Segunda Feira (Brasil)
A Grande Feira (Brasil)
18h – O Crime da Imagem (Brasil)
Cinema, Aspirina e Urubus (Brasil)
20h – Avenida Brasília Formosa (Brasil / PE)
21h – HU (Brasil / RJ)

Sábado, 27 de novembro
14h – Macunaíma (Brasil)
16h – Almoço Executivo (Brasil)
A Marvada Carne (Brasil)
18h – Um Dia na Rampa (Brasil)
Bahia de Todos os Santos (Brasil)
20h – Negros (Brasil / BA)
21h – Álbum de Família (Brasil / BA)

Domingo, 28 de Novembro
14h – Iracema, uma transa amazônica (Brasil)
16h – Especial Vídeo nas Aldeias (Brasil)
Cineastas Indígenas
Mokoi Tekoá Petei Jeguatá – Duas Aldeias, Uma Caminhada
18h – DEBATE com realizadores do Vídeo Nas Aldeias
20h – Carta Sonora (Brasil / SP)
21h – Jesus no Mundo Maravilha (Brasil)

Terça-feira, 30 de novembro
14h – Carmem Miranda
Carmen Miranda: Bananas is My business
16h – Os Anos JK – Uma Trajetória Política
18h – Divina Previdência
Cronicamente Inviável
20h – Periferia.com (Brasil / SP)
21h – Bagatela (Brasil / SP)

Quarta-feira, 01 de dezembro
14h – Segunda Feira
A Grande Feira
16h – Carolina
A Negação do Brasil
18h – Serras da Desordem
20h – DEBATE A Brasilidade no Cinema Brasileiro

sábado, 20 de novembro de 2010

Dia da Consciência Negra 2010 - Conceição Evaristo, Éle Semog, Cuti e Lande Onawale

Meu Rosário

Meu rosário é feito de contas negras e mágicas.
Nas contas de meu rosário eu canto Mamãe Oxum e falo
padres-nossos e ave-marias.
Do meu rosário eu ouço os longínquos batuques
do meu povo
e encontro na memória mal adormecida
as rezas dos meses de maio de minha infância.
As coroações da Senhora, em que as meninas negras,
apesar do desejo de coroar a Rainha,
tinham de se contentar em ficar ao pé do altar
lançando flores.
As contas do meu rosário fizeram calos
em minhas mãos,
pois são contas do trabalho na terra, nas fábricas,
nas casas, nas escolas, nas ruas, no mundo.
As contas do meu rosário são contas vivas.
(Alguém disse um dia que a vida é uma oração,
eu diria, porém, que há vidas-blasfemas).
Nas contas de meu rosário eu teço intumescidos
sonhos de esperanças.
Nas contas de meu rosário eu vejo rostos escondidos
por visíveis e invisíveis grades
e embalo a dor da luta perdida nas contas
de meu rosário.
Nas contas de meu rosário eu canto, eu grito, eu calo.
Do meu rosário eu sinto o borbulhar da fome
no estômago, no coração e nas cabeças vazias.
Quando debulho as contas do meu rosário,
eu falo de mim mesma um outro nome.
E sonho nas contas de meu rosário lugares, pessoas,
vidas que pouco a pouco descubro reais.
Vou e volto por entre as contas de meu rosário,
que são pedras marcando-me o corpo caminho.
E neste andar de contas-pedras,
o meu rosário se transmuta em tinta,
me guia o dedo,
me insinua a poesia.
E depois de macerar conta por conto do meu rosário,
me acho aqui eu mesma
e descubro que ainda me chamo Maria.
(EVARISTO, Conceição. Poemas da recordação e outros movimentos. Belo Horizonte: Nandyala, 2008. p. 16-17)

torpedo
irmão, quantos minutos por dia
a tua identidade negra toma sol
nesta prisão de segurança máxima?
e o racismo em lata
quantas vezes por dia é servida a ela
como hóstia?

irmão, tua identidade negra tem direito
na solitária
a alguma assistência médica?

ouvi rumores de que ela teve febre alta
na última semana
e espasmos
– uma quase overdose de brancura –
e fiquei preocupado.

irmão, diz à tua identidade negra
que eu lhe mando um celular
para comunicar seus gemidos
e seguem também
os melhores votos de pleno restabelecimento
e de muita paciência
para suportar tão prolongada pena
de reclusão.
diz ainda que continuamos lutando
contra os projetos de lei
que instauram a pena de morte racial
e que ela não tema
ser a primeira no corredor
da injeção letal.

irmão, sem querer te forçar a nada
quando puderes
permite à tua identidade negra
respirar, por entre as mínimas grades
dessa porta de aço
um pouco de ar fresco.

sei que a cela é monitorada
24 horas por dia.
contudo, diz a ela
que alguns exercícios devem ser feitos
para que não perca completamente
a ginga
depois de cada nova sessão de tortura.

irmão, espero que esta mensagem
alcance as tuas mãos.
o carcereiro que eu subornei para te levar o presente
me pareceu honesto
e com algumas sardas de solidariedade.
irmão, sei que é difícil sobreviver
neste silencioso inferno
por isso toma cuidado
com a técnica de se fingir de morto
porque muitos abusaram
e entraram em coma
fica esperto!

e não esquece o dia da rebelião
quando a ilusão deve ir pelos ares.

um grande abraço
deste teu irmão de presídio

assinado:
zumbi dos palmares
(CUTI. Negroesia - antologia poética. Belo Horizonte: Mazza Edições, 2007. p. 92-94)


BLACK POWER
eles ficam se perguntando
como posso me fazer bonito
com tudo aquilo que acham feio
como posso regritar meu grito
depois de tanta opressão
eles não sabem como chego até você irmão

o que pensam que sabem de nós
é só o que pode ser escrito
o que pode ser falado
mas a nossa força é indescritível brother

emerge dos séculos
de luta por liberdade
para ser cúmplices olhares
ou apertos de mão
(ONAWALE, Lande. O Vento. Salvador: Ed. do Autor, 2003. p. 51)

A CHAVE DA COR BRASILEIRA
Todos os dias, a vida inteira
uma razão interior, harmoniosa,
que herdei de gente da minha gente,
e veio por séculos a fio da meada,
me conduz e anuncia,
sem ser oráculo ou magia,
que sou vida porque sou negro,
que sou pleno porque sou negro,
que sou feliz porque sou negro.
Em toda a minha volta,
na versão dos outros,
na exclusão, no sofrimento,
no preconceito esplêndido
nada de mim pode Ser
além do branco, o possível.
E todos os dias me espreitando,
esperando chegar alguma dor,
ou ruptura no fio da meada,
uma outra razão turva e pesada,
insinuosa e despudorada
oferece uma das chaves
que abre o mundo dos brancos...
É para eu entrar, mas sozinho
e lá poderei ser pitoresco e faceiro,
desde que deixe os meus no caminho
e tranque para sempre o negro
que também sou, fora de mim.
(SEMOG, Éle. Tudo que está solto. Rio de Janeiro: Letra Capital, 2010. p. 110-111)

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Éle Semog afirmando outras versões da história, uma poesia de tensão e de intenção

Éle Semog afirmando outras versões da história, uma poesia de tensão e de intenção
Por Ricardo Riso

que sou vida porque sou negro,
que sou pleno porque sou negro,
que sou feliz porque sou negro
(Éle Semog. A chave da cor brasileira. p. 111)

Após um longo tempo, Éle Semog, pseudônimo de Luiz Carlos Amaral Gomes, lança em 2010 um novo livro de poesia, Tudo que está solto, pela editora carioca Letra Capital. O livro conta com prefácio de Nelson Olokofá Inocencio e texto de aba de capa de Salgado Maranhão.

Tudo que está solto é formado por um conjunto de cento e dez poemas, subdivididos em seis partes temáticas de emblemáticos títulos, só para citar algumas: Um cotidiano de ironias e fatalidades, Contrários contrastes do tempo e Afirmando outras versões da história. Generoso, o poeta introduz cada parte com um excerto de nomes consagrados da literatura afrobrasileira e angolana, tais como Cuti, Miriam Alves, Arlindo Barbeitos e Lia Vieira.

Gratificante constatar a maturidade da poesia semoguiana no decorrer das páginas deste livro. A poesia permanece corrosiva, aliás, aprimora-se nesse quesito, mostrando o caráter de “negro insurreto” intransigente ao racismo que se perpetua em nossa sociedade. O sujeito lírico demonstra voracidade perante a hipocrisia: “Basta de brancos e negros assimilados/ como penduricalhos da tolerância e integração./ A riqueza da nação não mente/ e não deixa mentir:/ branco é branco, negro é negro/ e isso não tem nada de irmão” (p. 68). Não foge do olhar ácido do sujeito lírico a perversidade da nossa democracia racial, que impõe o embranquecimento do negro, a negação de suas raízes, para ser aceito nas camadas altas da nossa sociedade, é o tema do poema “A chave da cor brasileira”: “uma outra razão turva e pesada,/ insinuosa e despudorada/ oferece uma das chaves/ que abre o mundo dos brancos.../ É para eu entrar, mas sozinho/ e lá poderei ser pitoresco e faceiro,/ desde que deixe os meus no caminho/ e tranque para sempre o negro/ que também sou, fora de mim” (p. 111).

Chocou-se? Que bom! Como afirma Inocencio no prefácio: “muito cuidado ao abrir este livro, pois ele contém substâncias altamente inflamáveis, compostas de consciência e indignação que podem causar danos irreparáveis àquelas mentes retrógadas” (p.11-12). O sujeito lírico semoguiano posiciona-se aberta mente a favor de nós, negros, com veemência revisita o nosso passado e procura reformular a nossa história, dando-nos o lugar de agente ao qual nos foi usurpado pela história oficial e o consequente ato de elevar a nossa autoestima: “(...) Não me curvo ao silêncio/ dessa versão perversa e lúcida, que torna invisível tudo que estou,/ como se o que penso pudesse ser/ desconstruído, pela expressão estúpida/ desses alcoviteiros cheios de estórias,/ que roubam detalhes, fingem fatos,/ e inumanos desfiguram vidas e verdades./ (...) Pertenço a uma História/ feita pelo meu povo/ e penso como meu povo,/ (...) Sou um negro como tantos outros/ negros e negras que esbanjam respeito/ mas que também atiçam o seu medo./ E é melhor assim.” (p. 77-78)

Dentro desse processo de reconstrução da história brasileira, os poemas reunidos em “Afirmando outras versões da história” são simbólicos, de extrema criatividade e rigor na pesquisa ao passado, vide a maneira poética como se dá a explicação da origem do nome Rio de Janeiro para a cidade. Sob o título “Ralando faz tempo no BR”, temos uma sequência de poemas que buscam reconstruir a trajetória da nossa colonização, sendo emocionantes os longos poemas que reescrevem a história da Bahia (Bahia dos vice-reis), Pernambuco (Terra pernambucana) e Rio de Janeiro (Carioca do Rio), sobrelevado pelo caráter didático configurando-se um ótimo material para professores trabalharem em sala de aula as nossas questões etnicorraciais. Cáustico, o sujeito lírico escancara as nossas feridas jamais cicatrizadas: “Com sincera fé católica e voraz volúpia/ por quase quatro séculos Portugal,/ seu rei, suas elites/ construíram a história mais triste/ que a humanidade tem para contar/ (...) de lucrar com a carne do negro/ como se não houvesse amanhã./ Comprar e vender aquela gente negra/ que ao embarcar o clero batizava por dinheiro,/ e em nome dos céus dava o inferno inteiro” (p. 80-81). O sujeito lírico ainda atenta-se aos perigosos revisionismos da elite branca contemporânea que pretende minimizar o cruel processo escravocrata: “Restam poucos documentos sobre isto,/ ninguém sabe, ninguém viu,/ como se aquelas multidões nos portos,/ nos porões, nos pelourinhos,/ fossem no tempo e na história uma miragem,/ e o algoz um erro acidental, um descaminho” (p. 81).

Resgatar a nossa história negra implica a coragem em desconstruir os cânones literários impostos pelo poder, tarefa que o sujeito lírico assume, cumprindo o fundamental papel destinado ao escritor negro comprometido com seus pares: “Vide o que vi e li/ do padre Antonio Vieira,/ quando fazia sermão/ quase perdia a estribeira,/ puxando o saco do papa e do rei,/ falando um montão de besteira./ Dentre outras sandices/ foi esse padre que disse,/ que a Senhora do Rosário/ abençoava a escravidão” (p. 85).

Sempre provocativo, os poemas lembram-nos as imutáveis violências as quais somos submetidos, “desde o tempo que o Direito/ tirou o direito da gente” (p. 105). O direito ao negro, a nossa condição humana até os dias atuais não é plenamente aceita. No passado, até o leite materno das mães negras era negado aos nossos antepassados: “É saber que os bebês negros,/ desde cedo, muito cedo,/ eram filhos, mas viravam bichos/ e perdiam do aconchego do seio/ o direito do alimento perfeito” (p. 73). Para nós, há o direito sim de sermos exterminados por uma polícia racista, programada e orientada para dizimar nossa juventude negra, principalmente a que vive em áreas carentes, por sinal e estranha coincidência, de maioria negra. Novamente o sujeito lírico versa a sua ferocidade, denuncia o triste óbvio do nosso cotidiano democraticorracial e, em feliz neologismo, apresenta os negrotérios: “No meu país tão democrático,/ tão religioso e tão caridoso/ toda criança negra/ é um anjo vestido de morte./ De zero aos dezessete anos/ são precoces condenados/ para entrar no céu./ Para confirmar não precisa/ perder tempo perguntando a Deus/ é só olhar nos jornais/ ou ir ver a cor das mães/ nas portas dos negrotérios” (p. 52).

Essa tensão típica do caos urbano da contemporaneidade, “que sufocam a minha lógica tribal” (p. 70), mostra a insensibilidade social do poder perante os seus pares, impondo deveres mas jamais oferecendo direitos: “Estou cercado por deveres,/ obrigações, tensões urbanas/ (...) Às vezes me respingam/ manchas de sangue, noutras/ multas, e impostos, e juros,/ e crianças mortas./ Muitas crianças mortas/ na lama dessa democracia./ Enchentes, roubos, gente cão,/ e filhos aspirados por essa/ ideologia global” (p. 70).

Apesar de todo o comprometimento de Éle Semog com a justiça social, a denúncia do racismo e a valorização do negro, é importante frisar a versatilidade formal e estética deste poeta que utiliza com desenvoltura o recurso aos versos livres; de intensa ironia – “Não escrevo/ como se fossse um/ necrófilo./ Sinto isto em cada letra./ Mesmo quando/ os poemas se espalham/ feito coisas mortas” (p. 17). o lirismo amoroso e negro: “Essa beleza inteira negra,/ delicadas tranças e carapinha,/ coloridas curvas ímpares/ que eu sei pegar com os olhos/ faz-me pensar que mulheres/ lindas assim, iguais a você, são mais raras” (p. 107); poemas longos e curtos que lembram os da poesia marginal dos anos 1970 e a urgência do ‘aqui e agora’: “...Falo de sensações/ passageiras./ Aquelas eternas naquele momento.” (p. 23) ; a própria tessitura poética, a dificuldade de fazê-la e da sua importância frente à perda de sensibilidade dos homens versada por um amargurado sujeito lírico: “a poesia me irrita (...)/ A poesia me consome inteiro/ como um beijo aflito/ que quer ser visto/ na boca de quem ama/ Sou poeta e também sou assim,/ deformado, que se resume poema,/ que se expressa pela natureza/ dos limites do porvir./ (...) A poesia me elucida/ - isto tem sido tão raro -/ quando o amor que vejo entre as pessoas,/ é um defeito, um acaso./ Deixo-me imolar pelo silêncio/ até que uma lágrima perigosa/ vasa ao limbo do pranto,/ como se o meu espírito lamentasse/ pelos mortos construídos/ com radicais banalidades,/ que todas as poesias evitam evitar” (p. 52-54); e o recurso criativo da metapoética com seus próprios poemas, “O drama afro de Bigu e Juliana” e “Anotações sobre o ato de escrever”, versando a respeito da força do verbo poético, da libertação da palavra que conduz o poeta em um embate no qual a palavra sempre sai vencedora: “o poema é o que eu quero,/ não o que a inspiração tem vontade/ (...) Não gosto quando/ o texto me ilude,/ engole e me abafa.../ não gosto mesmo/ quando o texto é mais/ vaidoso que eu./ E foi isto que aconteceu/ nesse poema afro/ do drama de Bigu e Juliana” (p. 109-110).

Para concluir, é necessário celebrar este Tudo que está solto, a palavra depurada e madura, a versatilidade formal e temática deste militante negro de Nova Iguaçu (RJ), participante de diversas antologias como “Cadernos Negros” e “Ebulição da escrivatura”, com textos publicados na Alemanha, Estados Unidos e Itália, para além dos seus, dentre outros, “Curetragem – poemas doloridos” e a biografia de Abdias Nascimento, “O griot e as muralhas”. Corrosivo sim, agressivo também, sobretudo, verdadeiro e sincero nas suas intenções. Éle Semog brinda-nos com um livro obrigatório, de excelente qualidade poética, de confirmação do seu nome entre os maiores da literatura negra brasileira, por conseguinte, entre os melhores da literatura brasileira. Um brado poético contra o racismo em nossa sociedade, uma feliz leitura para nós negros. É o que tenho a dizer a respeito de Tudo que está solto e agradecer ao seu autor.