terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Crítica ao ostracismo do negro na literatura, a Lei 10.639/2003, o afro-brasileiro e a África

Crítica ao ostracismo do negro na literatura, a Lei 10.639/2003, o afro-brasileiro e a África

Lamentável! Foi o meu sentimento após a leitura da matéria “Negro: imagem e semelhança de quem” de Sônia Marta Coelho Pereira, inserida no caderno especial “A trajetória dos personagens negros, da África ao Brasil” da revista Conhecimento Prático: Literatura, nº 34 – janeiro/2011, páginas 27 a 38. É triste constatar que uma das raras revistas dedicadas à Literatura no mercado editorial brasileiro exclui a participação dos escritores negros no corpus literário nacional, orientação claramente seguida pela autora do artigo supracitado e que me remete ao que Roland Barthes definiu como “fascimo da língua”, pois a língua está “a serviço de um poder”. No caso, o poder da discriminação racial aos negros que norteia o pensamento brasileiro.

A proposta do artigo é demonstrar a discriminação que sofreram – e ainda sofrem – os personagens negros da literatura brasileira e como esse processo tem sido revisto na contemporaneidade. As personagens esteriotipadas, apresentando-se nos textos literários em posições sulbaternas, coisificadas, animalizadas e ridicularizadas por causa do fenótipo foi uma constante em nossa literatura e reforçaram o preconceito racial que perdura em nossa sociedade.

A autora até inicia o artigo reconhecendo “que por séculos o negro foi literariamente representado sob a ótica do preconceito”, contudo, o grave erro de sua explanação é não mencionar em nenhum momento autores(as) negros(as), recordando que a crítica brasileira mantinha absoluto silêncio a respeito do preconceito do negro na literatura como bem assinala o escritor e ensaísta, Cuti, em O leitor e o texto afro-brasileiro:

foi preciso que os brasilianistas aqui viessem para desvendar o como se dava a tematização do negro brasileiro. Os intelectuais brancos do País sempre se mostraram avessos a esse empenho. Os primeiros livros que surgiram, questionando e fazendo levantamento de obras para o estudo da questão racial no âmbito literário, foram: A Poesia Afro-Brasileira, de Roger Bastide (1943); O Negro na Literatura Brasileira, de Raymond S. Sayers (1956-58) e O Negro na Ficção Brasileira, de Gregory Rabassa (1965).

Sendo assim, após escancarada a postura do cânone literário brasileiro pela crítica estrangeira, a crítica nacional continua ignorando o fato de que temos escritores negros, relegando-os ao completo ostracismo nos grandes – e são tão poucos – meios literários do país. Essa postura é acompanhada pela autora do artigo aqui referenciado, pois recorre ao incompreensível erro de somente apresentar os personagens negros apropriados e interpretados por quem não é negro e que não oferece a esse personagem o papel de protagonista de suas narrativas nem expõe as vivências comuns a nós, negros.

Seria de imensa valia que a autora fizesse um contraponto com a visão de um personagem negro sendo escrito por um autor negro, tornando, assim, o negro protagonista de sua história, revelando seus anseios, desejos, medos e principalmente expondo o seu ponto de vista frente ao racismo diário que todos nós sofremos neste país. É fundamental a leitura por esse viés como esclarece a Profa. Dra. Maria Nazareth Soares Fonseca em seu artigo Poesia afro-brasileira – vertentes e feições:

A proposta de transgressão, que se efetiva também em textos da chamada literatura afro-brasileira, não pretende iluminar os lugares já indicados pela própria sociedade. Procura ultrapassar mesmo algumas posturas que, embora mais críticas, ainda se ligam a visão do negro “tutelado”, pois, ao falar por ele, silenciam a sua voz e imobilizam reações concretas para desarticular os papéis estabelecidos pela sociedade. (Fonseca, 2000, p.95)

Durante a matéria aqui referenciada, a Profa. Coelho Pereira aponta a mudança de paradigma que se dá a partir de 1980, período em que os títulos “Os tambores de São Luís”, de Josué Montello, e “Viva o povo brasileiro”, de João Ubaldo Ribeiro, como livros que procuraram “resgatar a imagem do personagem negro”. Talvez por desconhecimento, o artigo da autora ganharia em riqueza se revelasse e discutisse os diversos títulos lançados por escritores negros, principalmente a partir do final dos anos 1970 com a publicação das antologias “Cadernos Negros”, do coletivo Quilombhoje, que lança, desde 1978, anualmente e de forma ininterrupta uma coletânea de poesia e no ano seguinte, contos, somente de autores negros. Grandes nomes foram ali publicados e consagrados, tais como Cuti, Oliveira Silveira, Éle Semog, Miriam Alves, Lia Vieira, Lande Onawale, Conceição Evaristo, entre outros.

Conceição Evaristo talvez seja o caso mais surpreendente e inexplicável caso desse ostracismo, já com vários prêmios literários e traduções em diversas línguas de seus poemas, contos e romances. Seus poemas demonstram o cotidiano da mulher negra, a consciência de sua condição em nosso país como muito bem assinala Eduardo de Assis Duarte, eles

enfatizam a necessidade do eu poético de falar por si e pelos seus. Esse sujeito de enunciação, ao mesmo tempo individual e coletivo, caracteriza não apenas os escritos de Conceição Evaristo, mas da grande maioria dos autores afro-brasileiros, voltados para a construção de uma imagem do povo negro infensa dos estereótipos e empenhada em não deixar esquecer o passado de sofrimentos, mas, igualmente de resistência à opressão.

É essa escrevivência, termo cunhado pela própria autora, que sempre foi excluída do cânone literário nacional, escrevivência típica de um eu enunciador negro que aparece nos textos literários dos escritores(as) negros(as), por isso a importância que uma publicação como a Conhecimento Prático: Literatura possua a sensibilidade e ofereça o seu prestigiado espaço para esses(as) autores(as), até então ignorados do cenário nacional e dessa maneira contribuir, de forma positiva e inclusiva, para a inserção do negro em nossa sociedade.

A Lei 10.639/2003, o afro-brasileiro e a África

Um outro ponto da matéria da Profa. Coelho Pereira que gostaria de abordar é no que diz respeito à implementação da Lei 10.639/2003 nas escolas. Preocupa-me abordagens excludentes das manifestações culturais afro-brasileiras. A lei, uma conquista histórica e que contou com a participação efetiva de vários movimentos negros organizados ao longo de décadas de militância, afirma que “torna-se obrigatório o ensino sobre História e Cultura Afro-Brasileira”, assim como incluir “o estudo da História da África e dos Africanos, a luta dos negros no Brasil, a cultura negra brasileira e o negro na formação da sociedade nacional, resgatando a contribuição do povo negro nas áreas social, econômica e política pertinentes à História do Brasil”. Entretanto, venho percebendo a sutileza perversa do racismo à brasileira no contato com alguns professores, por conseguinte a má vontade das escolas em implementar a Lei. As justificativas são diversas, tais como a de que não há racismo no Brasil e isso seria uma forma de acirrar as diferenças étnicas – como se o(a) estudante negro(a) não fosse discriminado de maneira ostensiva e cotidiana no espaço escolar – e também o preconceito manifestado em relação às religiosidades afro-brasileiras.

Bom, se uma Lei é criada para dar visibilidade à cultura afro-brasileira, por que ainda assim os escritores(as) negros(as) são excluídos das escolas e de uma matéria em uma revista especializada em Literatura como a Conhecimento Prático? A Profa. Coelho Pereira afirma que “apesar de essa lei não ter saído do papel em muitas escolas brasileiras, ela é uma grande conquista”, por que “a literatura negra começa a ganhar espaço nas escolas”. Mas para qual literatura negra aponta a autora, quais são seus agentes se no artigo de sua autoria nenhum escritor negro é apresentado? Esse é ponto crucial: a invisibilidade dos(as) escritores(as) negros(as). Por causa dessa incompreensível ausência, escorando-me em seu artigo e tratando-se do segmento infanto-juvenil, friso que não tenho nada contra a obra de Rogério Andrade Barbosa, aliás, aprecio bastante, porém faço questão de citar alguns bons livros e seus autores – todos negros – publicados, a maioria recentemente, que seguem as diretrizes da lei 10.639/2003: “A cor da ternura” de Geny Guimarães, “Betina” de Nilma Lino Rodrigues, “Os ibejis e o carnaval” de Helena Theodoro, “Kofi e o menino de fogo” de Nei Lopes, “Omo-obá: histórias de princesas” de Kiussam Oliveira e “Os nove pentes da África” de Cidinha da Silva. Para não ficar exaustiva, encerro a lista apenas para demonstrar que temos escritores(as) negros(as) lançando ótimos títulos nesse segmento.

Faço uma consideração próxima aos autores africanos. Há na matéria “Negro: imagem e semelhança de quem”, pequenas seções nas laterais das páginas. Em uma delas, com o sugestivo título “Curioso”, lê-se o seguinte: “Muitos ficam espantados quando se deparam pela primeira vez com uma fotografia de Mia Couto: embora seja um dos mais proeminentes escritores africanos dos nossos dias, ele é branco” (p. 34). Pois é, o cânone das literaturas africanas de língua portuguesa é praticamente formado por escritores brancos.

Entretanto, quando se olha atentamente para o mercado editorial brasileiro, constata-se que os livros publicados desse segmento são próximos daqueles publicados em Portugal, ou seja, segue-se a política racista dos portugueses em publicar escritores brancos, quando muito, mestiços. Mia Couto, apesar da exaustiva redundância de seus últimos romances, é um excelente escritor como no livro citado na matéria, “Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra”, em “Terra sonâmbula”, e nos contos de “Estórias Abensonhadas” e “Vozes anoitecidas”. Sem motivo aparente, as editoras brasileiras ignoram autores, dentre tantos outros, como os angolanos João Maimona e João Tala; os novíssimos moçambicanos Sangare Okapi e Andes Chivangue; e o cabo-verdiano José Luis Hopffer Almada. Apenas para citar excelentes nomes consagrados, respeitados e premiados da produção contemporânea nos seus países. Sendo assim, bastaria um olhar sensível às obras desses e de outros autores por parte de nossos editores para que em uma apresentação de escritores africanos em sala de aula, a cor da pele não causasse espanto aos alunos. Quem é professor e que já mostrou fotos de autores africanos compreende o que estou falando.

Para finalizar, a contundência de minhas observações é motivada por uma postura sincera, posso dizer indignada, diante de um artigo que se demonstra equivocado em seu conteúdo, e que, por isso, almeja o respeito que nossos escritores negros merecem no meio literário brasileiro. Não poderia ter uma posição de indiferença pelo que li, ainda assim continuarei torcendo para que uma revista respeitável como a Conhecimento Prático: Literatura atente-se para os agentes da literatura afro-brasileira e contribua para retirá-los da invisibilidade que lhes é imposta.

Sem mais,
Ricardo Riso
Pesquisador de Literaturas Africanas de Língua Portuguesa


i CUTI. O leitor e o texto afro-brasileiro. In: < http://www.cuti.com.br/ > Acessado em 24 de janeiro de 2011.

ii FONSECA, Maria Nazareth Soares. Poesia afro-brasileira – vertentes e feições. In: SOUZA, Florentina Souza, LIMA, Maria Nazaré (orgs.). Literatura afro-brasileira. Fundação Palmares e Centro de Estudos Afro-orientais (CEAO), 2006.

iii DUARTE, Eduardo de Assis. “O BILDONGSROMAN afro-brasileiro de Conceição Evaristo.” ALEXANDRE, Marco Antônio (Org.). Representações performáticas brasileiras: teorias, práticas e suas interfaces. Belo Horizonte: Mazza Edições, 2007.




sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

José Luis Hopffer Almada: o poeta-intelectual e o tempo em que vive


O poeta-intelectual e o tempo em que vive

por Ricardo Riso
Resenha publicada na seção Artes & Cultura do semanário cabo-verdiano A Nação, nº 176, de 13 a 19/01/2011, p. 29
O dilaceramento da sociedade mascarado pela ordem neoliberal vigente transforma o cotidiano em um simulacro cínico e hipócrita de bem-estar, anula o senso crítico e anestesia os sentidos das pessoas, tornando-as inertes frente às contradições da pós-modernidade. Caberia aos poetas, enquanto intelectuais e perscrutadores do seu tempo, manifestar o descontentamento diante da aparente inevitabilidade de mudança, de desolação pelo passado e de melancolia pelo futuro que se anuncia? A leitura de “Praianas – Revisitações do Tempo e da Cidade” (Praia: Spleen Edições, 2009), de José Luis Hopffer Almada, auxilia-nos a tecer breves considerações acerca do papel do poeta-intelectual e o tempo em que vive.

“Em defesa dos intelectuais”, Jean-Paul Sartre afirma que “o intelectual é alguém que se mete no que não é da sua conta”, estimulando a sociedade burguesa a afastá-lo, pois suas observações são incômodas e provocativas, tornando-se conveniente desacreditá-lo e legá-lo ao ostracismo. Edward Said no capítulo “Exílio intelectual: expatriados e marginais”, do livro “Representações do Intelectual”, segue as ideias propostas por Sartre e mostra que os intelectuais são conduzidos a conviver à margem da sociedade, pois o exílio “é o desassossego, o movimento, a condição de estar sempre irrequieto e causar inquietação nos outros”, por que se afastando “das autoridades centralizadoras em direção às margens, onde se podem ver coisas que normalmente estão perdidas em mentes que nunca viajaram para além do convencional e do confortável”.

Sendo assim, consideramos que o nome literário Erasmo Cabral de Almada, a faceta corrosiva e voraz de Hopffer Almada, apresenta-se como aquele que importuna a ordem estabelecida e ciente de sua condição: “Eis-me/ entre os papéis/ e estes me dizem:/ é arriscado/ ser-se indagador”. Há o descrédito com o futuro na imagem da criança no lixo, contrapondo-se aos ideais cabralinos de que “as crianças são as flores da revolução/ a razão principal da nossa luta”, tratado de forma crepuscular diante da perpetuação da miséria: “Em aziaga aparência/ debruça-se uma criança/ sobre o contentor de lixo/ e no seu fundo/ surge-lhe/ como o impacto da revelação/ (...) o longo precipício do destino/ o irresistível declínio dos dias...”.

Os poemas atribuídos a Erasmo Cabral de Almada caracterizam-se por um atento olhar das metamorfoses sofridas no Cabo Verde independente. Por isso, temos o desencanto diante das incongruências da política – “com os meus antigos ideais/ perdidos” – expressado por “txibita” (arquétipo do ilhéu): “txibita deixou/ de respirar as palavras dos outros/ (...) por isso/ txibita (...)/ é apátrida/ na sua pátria c.v.”. A indignação do poeta-intelectual com o ocaso dos ideais revolucionários desintegrados com o passar dos anos, demonstra-se no desalento de quem foi partícipe daquele momento histórico: “Também eu/ polícias, vigiei/ vertical/ entre as implacáveis palavras de um ideal/ as verdes folhas de uma promessa/ as reconfortantes falácias de uma utopia/ temendo que/(...) depois somente restassem/ trucidadas sombras da história/ soçobradas recordações do destino”.

Um olhar cáustico e impiedoso sobre a sociedade cabo-verdiana é apresentado em “Cidade VI”, porém um olhar consternado frente às mudanças dilaceradoras da Praia. Novamente, os dirigentes políticos o alvo dileto dos “sobreviventes da cidade” que “cogitam demoradamente na obstinação desses antigos combatentes do mato agora reciclados como sagazes salvadores da pátria”.

Contra a hipocrisia do século XXI, inferimos que o discurso à margem proposto pelo poeta José Luis Hopffer Almada contribui para revelar verdades incômodas à ordem estabelecida em seu país, fazendo da poesia espaço de consciência crítica. Por mais dilacerada que esteja essa consciência, em seu exílio ela sobrevive “de novo/ com os meus ideais”, ainda que desacreditados do PAIGC, porém iluminados pela estrela negra desse intelectual “caçador de estrelas”.

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Tchalé Figueira - Água Cristalina (blog literário)

Tchalé Figueira, o artista plástica e escritor cabo-verdiano, inicia o ano de 2011 com um novo blog, este dedicado à literatura: o Água Cristalina. O antecessor, Arco da Velha, continua firme na divulgação das obras e do pensamento político do artista.

Abraços,
Ricardo Riso

TCHALÉ FIGUEIRA ‘DO ARCO DA VELHA’ (exposição Lisboa/Portugal)

TCHALÉ FIGUEIRA‘DO ARCO DA VELHA’
26 Fevereiro > 09 Abril 2011
Qua > Sáb 14 h > 19 h

PINTURA INSTALAÇÃO POESIA DO ARCO DA VELHA

O imaginário é, sim, o que existe. O real, se me permitem, é algo puramente inconsequente, algo que não se traduz, algo impossível de concretizar. Conhecemos as geografias e os corpos em nosso redor através da imaginação que cultivamos. Quando a imaginação e o desejo são escassos, os amores e vontades dos outros tornam-se loucuras.

Invariavelmente, nós aqui, neste lugar, somos construídos segundo relações flexíveis entre a miséria e o desejo. O desejo consome e exige a urgência da materialização do faz-de-conta. No Carnaval, tal como no plano multi-dimensional da imaginação, a Rainha e o Rei colocados no cimo do andor desenhado pelo artista, que esta terra quer sempre ter como anónimo, são escravos dos nossos desejos de chegar mais além, de cada vez ser mais outro e o Outro. Esconde-se o feio que engloba gente. Gente que, apesar de ser parte de nós é, inexplicavelmente, considerada diferente.

A irreverência é naturalmente constitutiva da arte que faz perguntas, a arte que exibe o diferente enquanto nosso, a arte que se quer posicionar dentro do campo do político e por isso é Pecadora. O questionar obviamente não desmembra o autocratismo, mas revela desejos de mudança. No caso particular do pintor, revela principalmente a vontade de mudança para estados de sensibilidade e empatia no âmbito de um contexto abrangente em que o Homem, Deus e a Verdade foram declarados mortos no mundo real e que somente vivem no campo do exercício dos poderes. Apenas nos restam as vontades individuais de imaginar os desejos dos outros como nossos.

Desde a Rua da Praia, no Mindelo, num atelier com as portas abertas para o mar, Tchalé Figueira, sempre independente e certo das suas vontades e procuras, compreende o compromisso de ser “agente criativo”, aqui neste lugar insular. O articular de perguntas e desejos em prol de si próprio mas também em prol dos que o sistema define como o “Outro menor”, os que o sistema teimosamente “circum-navega” porque, em hora de eleições, um grogue ou uma T-shirt servem como suficiente sedução.

Tchalé explora a relação entre o acto e a crítica social. Tristan Tzara, Max Weber ou Jean Dubuffet sublinharam algumas directrizes que permitem compreender a posição do pintor: consciente, sensível e critico e, no entanto, determinado na perseguição do exercício da pergunta. Na obra de Tchalé Figueira, o político, a prostituta, o mendigo, o paupérrimo, o medo, a vergonha, a vaidade, a superficialidade, a tensão ou o desejo estão presentes, vivos e pulsantes. As telas gritam-nos perguntas acerca do nosso próprio papel.
Irineu Rocha

Tchalé Figueira nasceu em 1953 na ilha de S. Vicente, Cabo Verde. Pintor, músico e poeta, Tchalé é hoje em dia, indiscutivelmente, um dos ícones principais da Arte Contemporânea em Cabo Verde e seguramente o artista plástico caboverdiano com maior visibilidade internacional. ‘Do Arco da Velha’, é a sua primeira exposição individual na INFLUX CONTEMPORARY ART.

Irineu Rocha nasceu em Santo Antão, Cabo Verde. É licenciado em Belas Artes pela Willem de Kooning Academy, Roterdão e Mestrando em Belas Artes pela Central St. Martins School of Art and Design, Londres. Entre 2002 e 2009 exerceu varias funções em projectos de educação e de arte contemporânea no sector dos museus e galerias publicas em Londres, com especialização progressiva na área de gestão de projectos. Entre 2006 e 2008 foi assistente de curadoria para o New Visions of The Sea, programa internacional de arte contemporânea do National Maritime Museum de Londres. Desde 2009 é director do M_EIA, a primeira instituição de ensino superior dedicada às Artes Visuais e Design em Cabo Verde.


INFLUX CONTEMPORARY ART
Rua Fernando Vaz, 20 B1750-108 Lisboa
+ 351 91 850 1234

Abraão Vicente - Bú ê (exposição - Lisboa/Portugal)


Bú ê


Nota de imprensa
Assunto: Exposição de pintura de Abraão Vicente

A Galeria Bozart vem por este meio divulgar a abertura da exposição de artes plásticas do artista Abraão Vicente. “Bú ê”, como título é ao mesmo tempo uma alusão ao neologismo que significa “muito” e à uma tradução literal do crioulo para o Português do Tu és. É um questionamento.

A vernissage de abertura é no dia 18 de Dezembro às 18h da tarde na Galeria Bozart, em Lisboa. (Ver o convite em anexo)

A exposição inclui três painéis distintos (ver anexo) à base de técnica mista, pintura, desenhos e colagem:

1- “Living room with everybody looking at the same thing and thinking the same thing at the same time”




 2- “Hard things in a very simple way”


3- “Some people never go crazy or else movement of pieces eating one another”
Os painéis reflectem temas e considerações recorrentes no trabalho de Abraão Vicente, como sendo, um forte questionamento identitário, a cidade e o tempo, a constância e a repetição. A cidade que por sua vez não é constante mas um corpo em mutação. O tempo por consequência múltiplo e repetitivo. Nos signos, nos símbolos, nos suportes, nas histórias/estórias, na cidade como tela, suporte e como matéria-prima (ver série “Some people never go crazy or else movement of pieces eating one another”)No painel “Hard things in a very simple way” é evidente uma revisitação à própria história de arte, com a presença de figuras centrais de algumas das mais conhecidas fotografias de Man Ray. Por sua vez essas imagens só e apenas ganham sentido na composição do quadro quando lidas à luz das palavras de Samuel Beckett.

Em “Living room with everybody looking at the same thing and thinking the same thing at the same time”, ao par de um estudo de formas e composição pela apropriação de uma escultura em barro das mulheres de “Trás di monte”, também há uma referência muito evidente à fotografia de Helena Almeida através das manchas negras que acabam por ser “sombras” dos mais conhecidos ensaios da fotógrafa portuguesa.

Também evidente é a presença da literatura através dos próprios títulos das séries, que são tributos a nomes como Charles Bukowski, Jack Kerouac e ao artista Marcel Duchamp.

A exposição estará patente de 18 Dezembro 2010 até 19 de Fevereiro de 2011.

Receba as nossas melhores saudações.

GALERIA BOZART
Rua da escola Politécnica, 4 R/C, 1200-457, Lisboa – Portugal
Opening hours:
Tue-Fri 2 pm – 6 pm
Sat 10 am – 2 pm
 
Fonte: e-mail gentilmente enviado por Abraão Vicente em 14/12/2010.

Mito Elias e Ana Rita Pires - DE PAREIDOLIA - PAREDIS & NUMBRASOM


DE PAREIDOLIA - PAREDIS & NUMBRASOM

MITO ELIAS & ANA RITA PIRES

21 Janeiro / 19 Fevereiro 2011
Casa das Artes e da Cultura do Tejo - Vila Velha de Rodão

Mais 1 caminhada DE PAREIDOLIA desta vez exalando o subtítulo - PAREDIS & NUMBRASOM. Na verdade a aldeia da Serrasqueira no Concelho de Vila Velha de Rodão despertou em nós essa intensa aventura visual e sonora que foi ganhando outras formas e novos conteúdos na cidade da Praia, onde celebramos há 1 ano, a 1ª parte desta odisseia. Contamos rumar outras rotas pós PAREDIS & NUMBRASOM, pois PAREIDOLIA irá prosseguir sua veia itinerante buscando sempre outras maturações.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Rui Knopfli - Antologia Poética (livro - Ed. UFMG)


Rui Knopfli - Antologia Poética
Eugénio Lisboa - Organizador
Área: Letras
Poesia
Coleção: Poetas de Moçambique
2010. 206 p. ISBN: 978-85-7041-715-2

Antologia poética de Rui Knopfli (1932-1997), poeta moçambicano que produziu uma encorpada e original obra literária durante o período de formação de seu país. Os poemas selecionados estabelecem diálogo com as principais tradições clássicas e modernas da poesia. Posfácio com texto crítico e nota biobliográfica de Roberto Said.

Fonte: Editora UFMG

José Craveirinha - Antologia Poética (livro - Ed. UFMG)


José Craveirinha - Antologia Poética
Ana Mafalda Leite - Organizadora
Área: Letras
Poesia
Coleção: Poetas de Moçambique
2010. 198 p. ISBN: 978-85-7041-849-4

Um dos nomes cruciais da literatura moçambicana, José Craveirinha apresenta um obra concisa, que cobre cinco livros publicados em vida e duas coletâneas póstumas, além de dezenas de poemas espalhados em periódicos e antologia. Este livro reúne os principais poemas do autor com nota biobliográfica de Emílio Maciel.

Fonte: Editora UFMG

Vozes de Moçambique - um paralelo com o Brasil (Documentário)

Estreia do documentário Vozes de Moçambique - um paralelo com o Brasil (17'), direção de Yana Campos, dia 14 de janeiro, às 19h, no Cineclube Atlântico Negro, à rua Sorocaba, 190 - Botafogo - Rio de Janeiro. Em seguida será exibido o documentário moçambicano Timbila mabimba chope (52'), do cineasta Aldino Languana.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Malangatana Valente: 06/06/1936 - 05/01/2011

O meu apreço pelas literaturas africanas de língua portuguesa sempre acompanha a admiração pelos artistas plásticos desses países. É assim com os amigos cabo-verdianos Tchalé Figueira, Mito Elias e Abraão Vicente; com os angolanos Yonamine e Kiluanje Kia Henda, Antonio Ole, Van e Jorge Gumbe; de Moçambique, com Naguib Abdula e com Malangantana Ngwenia Valente. Sendo que este agora pinta seus all-over pollockianos de rostos retorcidos à exaustão em outras margens. Malangatana faleceu nesta madrugada, na cidade de Matosinhos, Portugal.

Portanto, aqui presto minha homenagem àquele que tanto me emocionou e emociona cada vez que folheio os livros que tenho sobre sua obra, do encantamento causado a cada apresentação que faço de sua arte, a este, como disse Mia Couto, “‘ingênuo’ invocador do caos, sábio perturbador das nossas certezas”, encerro, dizendo apenas meu muito obrigado e que descanse em paz.

A seguir o primeiro texto que fiz sobre a obra de Malangantana Valente, para ler a versão completa clique aqui.
Ricardo Riso

Estar-se no sítio como moçambicano, como africano, e fazer com que as pessoas conheçam mais um pouco Moçambique:
Malangatana Ngwenya Valente


Para o meu primeiro texto sobre Moçambique não poderia ter deixado de escolher o pintor da Matalana, Malagantana Ngwenya Valente. Nascido em 1936 numa região de etnia ronga, sendo que o apelido Ngwenya, significa jacaré, venha da África do Sul, de seu pai, que era de etnia zulu, Malangatana talvez seja hoje o maior pintor da história moçambicana.


A obra deste artista apresenta-nos e obriga-nos a mergulhar entre seres mitológicos assustadores e homens, ora híbridos, perdidos, comprimidos no espaço asfixiante da superfície pintada a revelar-nos a irracionalidade do colonialismo, a desumanidade das guerras colonial e da desestabilização em cores contrastantes e impactantes. Renascem figuras metamórficas, monstros que permeiam o imaginário do moçambicano, violentado com tantos anos de guerra. Mia Couto assinala:


“Estes rostos repetidos até a exaustão do espaço, estas figuras retorcidas por infinita amargura são imagens deste mundo criado por nós e, afinal, contra nós. Monstros que julgávamos há muito extintos dentro de nós são ressuscitados no pincel de Malangatana.


Ressurge um temor que nos atemoriza porque é o nosso velho medo desadormecido. Ficamos assim à mercê destas visões, somos assaltados pela fragilidade da nossa representação visual do universo. (...)


No seu traço está nua e tangível a geografia do tempo africano. No jogo das cores está, sedutor e cruel, o feitiço, (...)


Estes bichos e homens, atirados para um espaço tornado exíguo pelo acumular de elementos gráficos, procuram em nós uma saída. A tensão criada na tela não permite que fiquem confinados a ela, obriga-nos a procurar uma ordem exterior ao quadro. Aqui reside afinal o gênio apurado deste ‘ingênuo’ invocador do caos, sábio perturbador das nossas certezas.”