segunda-feira, 4 de julho de 2011

Oswaldo Faustino - A Legião Negra

A Selo Negro Edições e a Livraria Martins Fontes - Paulista promovem, em São Paulo, no dia 20 de julho, quarta-feira, das 19h às 21h30, a noite de autógrafos do livro A Legião Negra - A luta dos afro-brasileiros na Revolução Constitucionalista de 1932. Nesse romance histórico, o jornalista Oswaldo Faustino aborda uma faceta pouco conhecida da história nacional: a participação voluntária de um grande número de afro-brasileiros na Revol ução Constitucionalista de 1932, contra o regime de Getulio Vargas a quem, contraditoriamente, grande parte desses combatentes reverenciava como “pai dos pobres”. A livraria fica na Av. Paulista, 509 (próxima à estação Brigadeiro do metrô). A ideia para o livro surgiu quando o ator Milton Gonçalves contou a Faustino que gostaria de fazer um filme sobre a Legião Negra e pediu ao escritor que pesquisasse o assunto. Recorrendo a documentos e publicações de época, obras acadêmicas e entrevistas com familiares dos combatentes, Faustino entrou em contato com a história de personagens reais que, no romance, interagem com os concebidos pelo autor. A pesquisa permitiu-lhe também reconstruir o contexto social, cultural e econômico da São Paulo da década de 1930 – ora em situações conflituosas ora em aparente harmonia se interrelacionavam paulistas quatrocentões, negros, mestiços, imigrantes europeus e migrantes oriundos principalmente de estados do Nordeste. Cada qual com seus costumes e em espaços determinados, é verdade. Aos negros e pardos restavam apenas os cortiços, porões e subúrbios, as rodas de tiririca, o jogo ilegal e os biscates.


O livro começa apresentando ao leitor o centenário Tião Mão Grande, que nos dias de hoje relembra sua participação, como voluntário, na Revolução de 1932. Sua memória recupera episódios e personagens que mudaram sua vida e a dos paulistas para sempre: alguns reais, como Maria Soldado, empregada doméstica que decidiu engrossar as fileiras revolucionárias; o advogado Joaquim Guaraná Santana e o grande orador Vicente Ferreira; outros fictícios, mas inspirados em arquétipos históricos, como Teodomiro Patrocínio, protegido de uma rica família que de início renega a ascendência africana e a negritude, mas depois se torna um grande líder militar da Legião Negra; Luvercy, jovem negro alistado contra a vontade pelo próprio pai, também combatente de ideais patrióticos; John, um jamaicano foragido dos EUA, que também participava das lutas antirracistas e convivia com pensadores naquele país, como seu conterrâneo Marcus Garvey.

A cada capítulo, Faustino recria os valores de uma época pautada pelo patriotismo, mas também por um intenso preconceito racial. Um dos méritos do livro é mostrar que, apesar de alijados de direitos e com chances mínimas de ascensão social, milhares de negros aderiram a uma causa estranha à sua realidade – causa que, embora justa, traria ínfimas mudanças à sua situação de excluídos.

Para saber mais sobre o livro, acesse: http://www.gruposummus.com.br/detalhes_livro.php?produto_id=1273
 
Fonte: e-mail enviado por Selo Negro em 4 de julho de 2011

domingo, 3 de julho de 2011

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Colóquio Internacional - Percursos, Trilhos e Margens: Recepção e Crítica das Literaturas Africanas de Língua Portuguesa

Colóquio Internacional
Percursos, Trilhos e Margens: Recepção e Crítica das Literaturas Africanas de Língua Portuguesa
14 e 15 de Julho de 2011

Auditório do CIUL; CES-Lisboa (Fórum Picoas-Plaza)

Organização:
Margarida Calafate Ribeiro (CES) - Elena Brugioni (Universidade do Minho) - Jessica Falconi (CES)

Programa

14 de Julho_quinta-feira

09.30: Boas vindas
José Marcos Barrica [Embaixador de Angola em Portugal] - André Heráclio do Rêgo [CPLP] - Simonetta Luz Afonso [Câmara Municipal de Lisboa] - José Luandino Vieira - Margarida Calafate Ribeiro [CES] - Elena Brugioni [CEHUM] - Jessica Falconi [CES]

10.00: Comunicação de Abertura
Tempos e Espaços. Reflectindo em torno da recepção das Literaturas Africanas de língua portuguesa
Laura Cavalcante Padilha [UFF]

11.00: Literaturas Africanas de Língua Portuguesa: Paradigmas e Itinerários Críticos
Pires Laranjeira [UC], Inocência Mata [UL], Carmen Tindó Secco [UFRJ]
Moderação: Elena Brugioni

12.30 Almoço

14.30: Mesa Redonda Recepção e Crítica nos Media
José Carlos Vasconcelos (Jornal de Letras), João Céu e Silva (Diário de Notícias), Marta Lança, Luís Carlos Patraquim, João Melo (África 21)
Moderação: Odete Semedo

16.30: Mesa Redonda com Ana Paula Tavares, Luís Carlos Patraquim, Ana Mafalda Leite
Moderação: Jessica Falconi

18.00 Café

19.00: Lançamento do Livro Literaturas da Guiné-Bissau: contando os escritos da história (Afrontamento, 2011). Apresentação de Inocência Mata.


15 de Julho_sexta-feira

09.30: Crítica Literária e Paradigmas Pós-coloniais
Silvio Renato Jorge [UFF], Livia Apa [UNO], Elena Brugioni [CEHUM], Simone Pereira Schmidt [UFSC]
Moderação: Carmen Tindó Secco

11.30: Pelos Trilhos da Escrita: Narração e Crítica Literária
Odete Semedo [INEP], Jessica Falconi [CES], Moema Parente Augel [UB]
Moderação: Pires Laranjeira

13.00 Almoço

15.00: Mesa Redonda Políticas e Circuitos Editorais
Zeferino Coelho (Caminho), José Sousa Ribeiro (Afrontamento), Cecília Andrade (Dom Quixote), André Heráclio do Rêgo (CPLP)
Moderação: Margarida Calafate Ribeiro

16.45: Mesa Redonda com José Luandino Vieira, Joaquim Arena, João Melo, Odete Semedo
Moderação: Laura Cavalcante Padilha

18.15: café

19.00: Lançamento do Livro Literaturas Insulares: Leituras e Escritas de Cabo Verde e S. Tomé e Príncipe (Afrontamento, 2011). Apresentação de Laura Cavalcante Padilha.

Fonte: e-mail enviado pela Profª Drª Moema Parente Augel em 01 de julho de 2011.

quinta-feira, 30 de junho de 2011

Gabriel Mariano – Vida e Morte de João Cabafume


Gabriel Mariano – Vida e Morte de João Cabafume
Ricardo Riso
Resenha publicada no semanário cabo-verdiano A Nação, nº 200, de 30 de junho de 2011, p. 14.

Gabriel Mariano, pseudônimo de José Gabriel Lopes da Silva (18/05/1928 – 18/02/2002) é um nome destacado na história intelectual de Cabo Verde, ora por sua vertente de ensaísta emérito assim constatada nos artigos reunidos em “Cultura Caboverdeana”, ora em homenagens a figuras contestatárias e rebeldes como na poesia dedicada a Mestre Ambrósio e na narrativa a João Cabafume, para além de sua colaboração em publicações como “Claridade” e “Suplemento Cultural” (do jornal “Cabo Verde”, 1958), e participações em variadas antologias de autores africanos.

Por seu caráter de incisiva contestação social, a pequena narrativa de “Vida e Morte de João Cabafume”, que dá título à antologia de contos do autor, componente da coleção Palavra Africana da editora portuguesa Vega, 2001, nos apresenta uma história breve e de vida pungente do personagem-título, personagem-tipo do período colonial, na qual o narrador dialoga conosco chamando a atenção para os descaminhos da vida de João Cabafume (JC): “Moço, entende direito o que te vou contar. João Cabafume não foi um qualquer. Ele não era como um eu, ou como um tu que estendemos as mãos para outro pôr corda. Morreu no meio da baía numa noite de lua cheia. Não, moço, não foi destino. João Cabafume não teve destino. (...) Destino queria matá-lo de fome.”

Logo no primeiro parágrafo o narrador mostra a condição insurrecta do personagem, diferenciando-se de todos, não aceitando o sofrimento imposto que será apresentado ao longo da história. Deparamo-nos com a habilidade narrativa do autor, aumentando a tensão em frases breves e pontuando as injustiças aos menos favorecidos da sociedade, tanto na insensibilidade e na coisificação do ser humano sendo recolhido das ruas – “Pobre chateava as pessoas finas e incomodava os passageiros que desembarcavam. Por isso o senhor Administrador deu ordem para fechar no Albergue toda a criatura que não tinha trabalho. Pobre e cachorro vadio, nenhum podia passear na rua” –, quanto no desprezo da elite local subserviente ao colonizador ao menosprezar seus pares – “Vocês são uns mandriões (...) Porque é que não procuram o que fazer?/ – Dondê trabalho, senhor Administrador?”.

Há a revolta com a ordem estabelecida pela religião do colonizador pregando a renúncia e a resignação na voz da menina Bia, e a rispidez gradativa do diálogo com JC: “– Nhô padre falou que pobre quando morre vai para o céu./ – E rico?/ – Rico... não sei.../ – Rico não vai./ – Rico deve ir.../ – Rico nunca foi./ – Rico bom vai./ – Não tem rico bom, Bia...” Religião esta na qual um padre não acompanha enterro de pobre até o seu fim: “Quando Jacinto morreu seus companheiros mandaram fazer-lhe um caixão. Nhô Padre encomendou o corpo. Mas foi só até ao Cruzeiro porque dinheiro não dava para mais”. Jacinto que morreu por falta de assistência: “Mas hospital não tinha remédios”. Assim como fica latente a desumanidade aos empregados doentes, porque “Sr. Varanda perguntou ao Dr. Cunha ‘se não havia perigo de contágio’. Dr. Cunha disse que ainda não. E Jacinto ficou para fechar o mês”.

JC é insubmisso às agruras da vida, ao destino de seus pares de morrer fraco de fome de tanto trabalhar: “João Cabafume não dava conversa. Ele estava brigando com destino. Destino queria amarrá-lo na sua roda de pobreza. Como tinha amarrado Jacinto e os outros. Vida de trabalho só para comer...” Por isso a insistência do narrador a nos provocar com veemência ao longo do conto: “Entende direito o que estou contando”.

Ao demonstrar as dificuldades do cotidiano do homem durante o colonialismo em uma narrativa mordaz, que “Vida e Morte de João Cabafume” pode ser posto como um dos melhores momentos da prosa cabo-verdiana e de seu autor, Gabriel Mariano.

A NAÇÃO 200 – É com extrema felicidade que parabenizo todo o expediente do A Nação com a chegada desta edição. Aproveito para agradecer a oportunidade de colaborar neste digno espaço do jornalismo cabo-verdiano. Meus sinceros votos de sucesso!

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Jornal Afro-Lagos - Lançamento



Vamos prestigiar!!!

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Tânia Tomé lança Agarra-me o sol por trás no Rio de Janeiro

(clique na imagem para ampliá-la)

Em mais uma parceria com a Kitabu - Livraria Negra, a noite de autógrafos de AGARRA-ME O SOL POR TRÁS (e outros escritos & melodias) da jovem moçambicana Tânia Tomé, dia 12 de julho, às 19h, à rua Joaquim Silva, 17 - Lapa, Rio de Janeiro.

Peço ajuda para a divulgação.
Abraços,
Ricardo Riso

sábado, 18 de junho de 2011

Carlota de Barros – uma poesia de afeto


Carlota de Barros – uma poesia de afeto
Ricardo Riso
Resenha publicada no semanário cabo-verdiano A Nação, nº 198, p. 25, de 16 de junho de 2011.

Carlota de Barros Fermino Areal Alves nasceu na Ilha do Fogo em 24 de Janeiro de 1942. Durante a infância viveu nas Ilhas do Fogo, Brava, S.Nicolau e S.Vicente. Em 1949 mudou-se, com a família, para Moçambique onde permaneceu até 1957, ano em que partiu para Portugal. Neste país licenciou-se em Filologia Germânica, na Faculdade de Letras da Universidade Clássica de Lisboa. Mora em Portugal desde 1974, mas visita constantemente o seu país.

Carlota de Barros é colunista do Jornal Artiletra, tem textos publicados na Revista Pré-Textos e em outras revistas de Letras e Artes. Em 2000, lançou o seu primeiro livro de poesia, “A Ternura da Água”; em 2003 publicou “A Minha Alma Corre em Silêncio”. No ano de 2007, o Instituto da Biblioteca Nacional e do Livro editou o seu livro de poesia, “Sonho Sonhado”, que é reeditado em 2008, numa edição trilingue (Crioulo, Português e Inglês), a primeira edição trilingue publicada em Cabo Verde.

A poesia de Carlota de Barros é marcada pela intensa lembrança de Cabo Verde, um olhar diaspórico formada por saudade e afeto que mesmo na terra-longe assume as ilhas como parte integrante de sua vivência. Conjunção apresentada desde o seu nascimento e retratada em “Mar e Fogo”, poema de “A Ternura das Águas”: “Nasci junto ao mar/ (...) me uni para sempre/ à água/ ao sol/ à areia// nasci entre o fogo/ e tempestades salgadas// cobri-me de salsugem/ mastiguei o sal/ das ondas sem fronteiras// e me uni/ para sempre/ ao mar e ao fogo.”

Por vezes o retorno às ilhas preenche-se de amargura, impõe-se ao olhar de quem retorna e se depara com a miséria que insiste em marcar presença. Valendo-se da temática consagrada por claridosos e novalagardistas em tempos idos, lembranças de um triste passado dilaceram o presente assim exposto na versificação livre e detonam o olhar melancólico do sujeito lírico no poema “Seca”, publicado em “Sonho Sonhado”: “Não gostaria de ter visto/ os altivos coqueiros de pé/ a morrer sem um gemido/ o esplendor das árvores/ a murchar em silêncio// Não gostaria de ter visto/ mas vi/”.

Entretanto, as reminiscências do sujeito lírico na terra-longe buscam o acalanto nas ilhas, a palavra poética transfigura-se em “eco silencioso da nostalgia”. Poesia de memória afetiva que encontra na liberdade do ar o mar do outrora: “A minha alma corre em silêncio/ pelas rochas do meu arquipélago anilado// é a saudade do mar”.

A ternura do seu olhar revela um lirismo otimista e farto para o país com a chegada da chuva no seu singelo “Recado para as Ilhas”: “chegou a chuva/ o verde/ e o rosa/ os azuis/ os pampilhos/ as harpas/ e os alaúdes// há serenatas/ suspensas/ nos sonhos/ de alguém/ sons de violino/ no ar violeta/ trazem de comer/ e beber/ para todos/ (...) porque as ilhas/ são verdes/ e a chuva/ chegou”.

A poesia de Carlota de Barros surpreende pela ternura que emana, o lirismo afetuoso e exacerbado a cantar as suas ilhas, tão suas que a permanência na terra-longe não reduz o seu sentimento, aliás, só aumenta a sua sensibilidade transfigurada em versos suaves, por vezes melancólicos, mas sempre apresentando um olhar solidário e de amor para o seu país, a sua terra cabo-verdiana. Uma poesia que merece um lugar de destaque dentro do felizmente diversificado panorama literário contemporâneo de Cabo Verde.

“Voltarei sempre/ às minhas rochas/ surgidas do mar// voltarei sempre/ às minhas ilhas/ mesmo que as chuvas de outubro/ se neguem// voltarei sempre/ ao meu lar/ mesmo que o milho verde/ não nasça// voltarei sempre/ ao silêncio branco dos mastros/ ao riso fresco das crianças/ ao abraço quente das gentes// voltarei sempre/ mesmo que julho/ não chova// voltarei sempre.”

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Akiz Neto - A Construção Figurativa do Gesto (resenha)

Akiz Neto - A Construção Figurativa do Gesto (resenha de livro do poeta angolano)
Ricardo Riso, 15 de junho de 2011.

A contemporaneidade destaca-se por exigir da Arte e de seus agentes agilidade constante, desprezando a reflexão responsável pelo intenso labor do artista em busca de uma palavra depurada, exigindo daquele intensa produção para atender ao mercado, pois “a importância da obra de arte é medida, hoje, pela publicidade e notoriedade (quanto maior a plateia, maior a obra de arte” (BAUMAN, p. 130), em claro detrimento de um melhor conseguimento estético seja ele poeta, artista plástico, músico etc. Essa precipitação evidencia-se entre os jovens poetas, ávidos por publicarem suas obras (muitas imaturas), mas ainda assim almejam conquistar espaço nos cadernos culturais (mesmo que breve), pressa que também afeta escritores renomados com os lançamentos anuais (aqui considerando as pressões dos editores que desejam sugar o máximo quando estão diante de um “produto” de ótima aceitação do público), assim como os consumidores inquietos e aptos para adquirir o que for dado a estampa do livro.

O esvaziamento da arte, tratada como um bem de consumo descartável, imposto pela miserável ordem estabelecida nos dias atuais pretende suprimir a essência da palavra poética, entretanto,

a poesia resiste à falsa ordem, que é, a rigor, barbárie e caos (...). Resiste ao contínuo harmonioso pelo descontínuo gritante; resiste ao descontínuo gritante pelo contínuo harmonioso. Resiste aferrando-se à memória viva do passado; e resiste imaginando uma nova ordem que se recorta no horizonte da utopia. Quer refazendo zonas sagradas que o sistema profana (o mito, o rito, o sonho, a infância, Eros); quer desfazendo o sentido do presente em nome de uma liberação futura, o ser da poesia contradiz o ser dos discursos correntes (BOSI, p. 146).

Seguindo o pensamento de Alfredo Bosi, “a recusa irada do presente com vistas ao futuro, tem criado textos de inquietante força poética” (BOSI, p. 158), caso de “A Construção Figurativa do Gesto (Enciclopédia de Ciúmes) do angolano Akiz Neto. Lançado em 2007, sob a chancela da União dos Escritores Angolanos, com ilustração de capa a cargo de Van, completa esta edição de quarenta e oito poemas divididos em dois cadernos o prefácio da Profª Drª Carmen Lucia Tindó Secco (UFRJ/Brasil).

Akiz Neto nasceu em Luanda no dia 07 de agosto de 1959, seu primeiro livro data de 1988 com o título de “No crivo do meu sonho”, posteriormente vieram “Na Trajectória da Serpente” (1995), “Cócegas e Despertar” (1996), “Horoscópio da Fragmentação” (1997), “Borboletas da Paz – Antologia Poética” (1999) e “No Umbigo da Palavra” (2003).

Akiz Neto começa a publicar em uma época de tristes marcas na história angolana; a década de 1980 é marcada pela longa guerra civil que somente terminaria em 2002. O desencanto domina a temática dos poetas daqueles tempos, segundo Carmen Lucia Tindó Secco:

A poesia dos anos 80, e também a dos anos 90 têm, como traço constante, a temática da decepção e da angústia diante da situação de Angola, que ainda não resolveu completamente a questão da fome e da miséria. As dúvidas em relação ao futuro interceptam as possibilidades entreabertas pelos ideais libertários dos anos 60, e a poesia se interioriza, não se atendo explicitamente às questões sociais. (CHAVES, 2006, p. 94)

A melancolia desses anos passa por todos os anos 1990, com o desespero da longa guerra e caos social que se instala no país, entretanto, como assinala Carmen Lucia Tindó Secco, “observamos que a poesia dessa fase nunca deixou de se oferecer como força geradora de utopia, pois os poetas continuaram a crer no poder transformador da linguagem poética”. (Idem, ibidem, p. 101)

Aliando a transformação da linguagem poética à mudança do país com a estabilidade proporcionada pela paz que se escora a poesia de Akiz Neto no conjunto de poemas de “A Construção Figurativa do Gesto”. Nesse livro o poeta procura explorar novos valores sinestésicos em poemas que a versificação livre auxilia no intuito do poeta. A ampliação dos sentidos polissêmicos ganha contornos imprevisíveis em metáforas inusitadas, o corpo do poema é preenchido por um lirismo erótico e por uma intrigante viagem metapoética. Na ressemantização da palavra poética “as palavras reclamam por que nasceram assim” (NETO, 2007, p. 33), logo busca-se a cicatrização das feridas do recente passado de dor, demonstrando a preocupação e a sintonia do sujeito lírico ao tempo em que vive, sendo necessária a reflexão acerca da contextualização histórica e social da obra aqui analisada, para isso recorremos a Octavio Paz:

Como toda criação humana, o poema é um produto histórico, filho de um tempo e de um lugar; mas também é algo que transcende o histórico e se situa em um tempo anterior a toda história, no princípio do princípio. Antes da história, mas não fora dela. Antes, por ser realidade arquetípica, impossível de datar, começo absoluto, tempo total e auto-suficiente. Dentro da história – e ainda mais: história – porque só vive encarnado, reengendrando-se, repetindo-se no instante de comunhão poética. (...) o poema é histórico de duas maneiras: a primeira, como produto social; a segunda, como criação que transcende o histórico, mas que, para ser efetivamente, necessita encarnar-se de novo na história e repetir-se entre os homens. (PAZ, 1972, p. 53-54)

É na incessante reelaboração da linguagem proposta pelo sujeito lírico motivado pelo momento, que se espera definitivo, de reconstrução do país, que “incorpora fenda laboratorial à curva da palavra/ e as crianças da terra já lêem o figurativo do gesto” (NETO, 2007, p. 28). É a poesia procurando novos caminhos, a metáfora que tenta sensibilizar os jovens pequeninos para a “sensação colegial, a de sorriso gestual de fecundo de pátria” (idem, ibidem, p. 49) que o sujeito lírico, expurgando o passado, afirma: “anunciei ao exército, minha fortaleza/ prà demissão de sangue, ódio, vingança e mortes” (idem, ibidem, p. 13).

A proposição de uma construção poética própria escora-se no momento de integração do país após anos de sonhos dilacerados, a poesia navega na “magia intérprete do som/ (...) se embriagando/ do insepulto e cristalino sentido gestual da palavra” (idem, ibidem, p. 58) e “as abelhas dançam na porta indivisível da pátria” (idem, ibidem, p. 46) fecundando uma nova era para Angola. Ainda assim, a batalha não é fácil diante de um neoliberalismo voraz que cria abismos sociais e mantém grande parte da população na miséria. Compreendemos as várias referências à pátria nos poemas de Akiz Neto como a urgente necessidade do poeta enquanto intelectual em preservar o sentimento nacional e reafirmar a esperança (ainda sagrada), valendo-se da palavra poética como objeto para atingir as mentes de seus pares. A respeito desse comprometimento do intelectual com sua comunidade, Edward Said afirma que:

Em tempos difíceis, o intelectual é muitas vezes considerado pelos membros de sua nacionalidade alguém que representa, fala e testemunha em nome do sofrimento daquela nacionalidade. (...) A essa tarefa extremamente importante de representar o sofrimento coletivo de seu próprio povo, de testemunhar suas lutas, de reafirmar sua perseverança e de reforçar sua memória, deve-se acrescentar uma coisa, que só um intelectual, a meu ver, tem a obrigação de cumprir. Afinal, muitos romancistas, pintores e poetas, como Manzoni, Picasso ou Neruda, encarnam a experiência histórica de seu povo em obras de arte, que, por sua vez, foram reconhecidas como obras-primas. Nesse sentido, penso que a tarefa do intelectual é universalizar de forma explícita os conflitos e as crises, dar maior alcance humano à dor de um determinado povo ou nação, associar essa experiência ao sofrimento de outros. (SAID, p. 52-53)

Para além do sentimento nacional, o sujeito lírico crê na força renovadora do verbo poético, prestando, em sua trincheira de paz fortalecida pela palavra, o contributo para a reconstrução não apenas do país, mas do continente africano: “ininterrupta poesia na confidência hu1000de/ como mãos de áfrica às assembléias/ logarítmicas das palavras construindo gestos” (idem, ibidem, p. 59) de solidariedade e lirismo amoroso, pois “nos teus olhos hu1000des encontro a África/ estendida nos rituais da união” (idem, ibidem, p. 55).

A poesia retorna ao passado de lutas e ganha corpo ao resgatar os ideais pan-africanistas, pertinentes no atual jogo político-econômico dominado por interesses escusos e supranacionais que deterioram as jovens nações e suas economias fragilizadas. Por isso a urgência de união das nações fragilizadas para que não se comentam os erros do passado, conforme assinala por Joseph Ki-Zerbo:

Na África, cada vez que se tentou fazer uma reforma micronacional de um sistema, houve um fracasso. Todas as tentativas micronacionais de libertação da África (...) fracassaram, em grande parte, porque foram solitárias e não solidárias. Penso que se deveria colocar como postulado a fórmula seguinte: a libertação da África será pan-africana, ou não será. (KI-ZERBO: 2006, p. 35-36)

Pan-africanismo que sempre foi combatido pelos países colonizadores e pelas elites vassalas africanas submetidas ao colonialismo, procurando manter a cruel ordem imposta. De acordo com Ki-Zerbo:

A colonização foi muito mais curta do que o tráfico negreiro, mas foi mais determinante. O colonialismo substituiu inteiramente o sistema africano. Fomos alienados, isto é, substituídos por outros, inclusive do nosso passado. Os colonizadores prepararam um assalto à nossa história. O ‘pacto colonial’ queria que os países africanos produzissem apenas produtos em bruto, matérias-primas a enviar para o Norte, para a indústria europeia. A própria África foi aprisionada, dividida, esquartejada, sendo-lhe imposto esse papel: fornecer matérias-primas. Esse pacto colonial dura até hoje. (KI-ZERBO, 2009, p. 25)

O historiador cubano Carlos Moore aprofunda um pouco mais a questão:

(...) a chamada descolonização do continente africano não foi o evento de emancipação total que geralmente costumamos entender. A independência política da África aconteceu num contexto de permanência da fragmentação imposta na Conferência de Berlim, agravada pelas novas fragmentações fomentadas pelas intrigas das metrópoles coloniais; foram estas as que criaram a maioria dos partidos “nacionalistas” e financiaram seus líderes. Desse modo, foram poucos os países africanos a chegar à independência com uma direção política independente e verdadeiramente pan-africanista. (MOORE, 2009, p. 41-42)

Depreendemos que os ideais pan-africanistas jamais foram aceitos pelas elites africanas ou pelos países coloniais que não mediram esforços para exterminar essas “nocivas” lideranças, contrárias à ordem estabelecida. Carlos Moore assinala que entre 1957, data da independência de Gana, e 1987, ano do assassinato do último dirigente pan-africanista, Thomas Sankara:

trinta e cinco dirigentes africanos (...) foram assassinados (...) Esses líderes, insubstituíveis em sua maioria, foram ultimados em sua maioria pelas potências ocidentais ou através de seus lacaios. Ou seja, nas primeiras três décadas de descolonização, o continente africano perdeu seus mais importantes e talentosos líderes; estes foram substituídos por dirigentes politicamente inexpressivos a serviço das grandes potências imperiais do planeta. (MOORE, 2009, p. 48)

Embora as dificuldades de emancipação insistam com a sua lógica desigual, o sujeito lírico de Neto anseia pela libertação, por novos rumos que conduzam à autonomia, e para atingir seu objetivo recorre a símbolos ancestrais e históricos como a kyanda, a Rainha Njinga Mbandi e o tambor para cantar sua independência. Destacaremos o tambor, símbolo de resistência: “Profunda travessia instrumental do gesto/ enquadra a mão profunda da imagem/ sobre o chilreio misterioso do tambor/ Livre África” (NETO, 2007, p. 31). “Busquemos o tambor breve de África” (idem, ibidem, p. 18), pois “a força interior do tambor é um pólo de liberdade” (idem, ibidem, p. 18), afirma o sujeito lírico com “mãos constróem relâmpagos textuais” (idem, ibidem, p. 36) a exorcizar o passado de dor, por isso a analogia do continente africano à “grafia sentimental da mulher” (idem, ibidem, p. 25), erotizando aquele com a palavra poética que “mapeia os gestos sensíveis do corpo de África” (idem, ibidem, p. 24).

Inspirado por metáforas inusitadas na busca por uma sintaxe com ritmo próprio, “as palavras dançam vestem-se de ritmos/ banham-se da energia de meus gestos” (idem, ibidem, p. 60). Em sua construção poética, o sujeito lírico subverte a língua portuguesa inserindo nos poemas palavras e versos em língua nacional: “onde a katwandolo sacrificado boi afaga/ cócecas cilhadas pelo makau/ e a criança inspira o ar/ kynguilas e zumgueiras ventres de cágado” (idem, ibidem, p. 33) ou “águas cicatrizam as areias do limite/ ky.anda.ndo são águas, densas margens/ as do fundo do mar onde poisam gatas de memória// sunga ò kinama kya mbondo ny kwivwe/ Nzambi-a-mukutu wami” (idem, ibidem, p. 55).

As experiências com a hibridização do texto valorizam as tradições, impondo-as no perverso jogo da globalização e seus ideais de uniformização de padrões culturais em detrimento das culturas locais, com isso resgata seres mitológicos como a kianda, reconfigurando-a semanticamente, ou seja, é com esse texto africanizado que Akiz Neto procura desenvolver a sua escritura. Segundo Laura Cavalcante Padilha, “o enfrentamento de culturas e das duas línguas – às vezes até mais – se dá na territorialidade do texto. Percebe-se, então, que o colonizado se apropria da linguagem do outro, ao mesmo tempo em que mostra também ter sido por ela possuído” (PADILHA, 1995, p. 164-165). Manuel Rui no célebre artigo “Eu e o outro invasor” complementa o caráter de reformulação da língua portuguesa pelo escritor angolano: “No texto oral já disse não toco e não o deixo minar pela escrita arma que eu conquistei ao outro. Não posso matar o meu texto com a arma do outro. Vou é minar a arma do outro com todos os elementos possíveis do meu texto. Invento outro texto”. Edward Said complementa que: “o intelectual é obrigado a usar uma língua nacional não apenas por razões óbvias de conveniência e familiaridade, mas também porque ele espera imprimir-lhe um som particular, uma entonação especial e, finalmente, uma perspectiva que é própria dele” (SAID, 2005, p. 39).

Passando das experiências no campo semântico às estético-formais, encontramos alguns ruídos que nos parecem dispensáveis no conjunto de poemas propostos, mais precisamente no segundo caderno, “Magia Intérprete do Som”, em “? O verso ou o reverso da rima” e “O Livro”. Neste, o poeta radicaliza a reformulação da linguagem e deparamo-nos com a suspensão do discurso:

11.9.21.17.14 11.9.4.14 5 20.12.1 11.20.23
9.12.5.17.18.1
13.1 3.14.13.18.19.17.20.3.1.14
6.9.7.20.17.1.19.9.21.1 4.1 1.11.12.1 (NETO, 2007, p. 52)

Decodificando os numerais deste poema, temos: “Livro lido é uma luz/ imersa/ na construção/ figurativa da alma”. Não seria melhor assim? Enquanto naquele, torna-se desnecessária a leitura da direita para a esquerda, seja leitura árabe ou não, assim como as manchas gráficas em negrito que mexem de maneira indesejável com atenção do leitor. São experiências que se aliam a outros poucos poemas com metáforas que se perdem no vazio, assim como a insistência no uso de numerais impregnando as palavras (“100pre”, “instr1mental”, “3passa”, para quê? A respeito disso, algures afirmamos e reafirmamos para ver ou rever o “poema alfanumérico” de Conceição Cristóvão, integrante do livro “solsalseiosexo”. Nesse poema ao menos a ludicidade se impõe.) que precisam de melhor conseguimento estético e talvez por isso a pertinente observação no prefácio da Drª Carmen Lucia Tindó Secco ao afirmar que “há ainda muito que laborar” (idem, ibidem, p. 10).

Entretanto, tais conflitos poéticos são menores diante da “construção sigmática da escrita” (p. 49) proposta com valiosa ousadia por Akiz Neto, um poeta que possui a coragem para laborar um inflamado gestual em busca de uma semântica própria, de uma sintaxe criativa, de reconfigurar os sentidos perdidos da palavra. Isso é algo que devemos admirar e encontramos em parte dos poemas de “A Construção Figurativa do Gesto”.


BIBLIOGRAFIA:
BAUMAN, Zigmuth. O mal-estar da pós-modernidade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998.

BOSI, Alfredo. O ser e o tempo da poesia. São Paulo: Cultrix/EDUSP, 1977.

CRISTÓVÃO, Conceição. solsalseiosexo – in(pre)cisões. Luanda: União dos Escritores Angolanos, 2006.

JUDT, Tony. O mal ronda a Terra – um tratado sobre as insatisfações do presente. Rio de Janeiro: Objetiva, 2011.

KI-ZERBO, Joseph. Para quando África? – Entrevista com René Holenstein. Rio de Janeiro: Pallas, 2006.

MONTEIRO, Manuel Rui. Eu e o outro – o invasor ou em poucas três linhas uma maneira de pensar o texto. In: MEDINA, Cremilda de Araújo. Sonha mamana África. São Paulo: Epopéia, 1987. p. 308-310.

MOORE, Carlos. Da África mítica à África real: para uma cooperação realista entre a África e a diáspora. In: A África que incomoda – sobre a problematização do legado africano no quotidiano brasileiro. Belo Horizonte: Nandyala, 2009. p. 11-65.

PADILHA, Laura Cavalcante. Entre voz e letra: o lugar da ancestralidade na ficção angolana do século XX. Niterói: EDUFF, 1995.

PAZ, Octavio. A Consagração do Instante. In: Signos em Rotação. São Paulo: Perspectiva, Coleção Debates, 1972.

SAID, Edward. Representações do intelectual – as Conferências de Reith de 1993. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.

SECCO, Carmen Lucia Tindó. Sendas de sonho e beleza (algumas reflexões sobre a poesia angolana hoje). In: CHAVES, Rita e MACEDO, Tania (Orgs.). Marcas da diferença: as literaturas africanas de língua portuguesa. São Paulo: Alameda, 2006.




















quinta-feira, 9 de junho de 2011

II Xirê das Letras - 21 a 24/09/2011 - Xique-Xique (Bahia)


II XIRÊ DAS LETRAS 
Congresso Internacional de Línguas, Literaturas e Culturas Africanas e Afro-Americanas
21 a 24 de setembro de 2011
Universidade do Estado da Bahia
Xique-Xique - Bahia - Brasil

No Congresso, participo da Subcomissão de Comunicações e ministrarei o minicurso "Novas Tendências da Literatura Cabo-Verdiana".
Até lá!
Ricardo Riso

Tchalê Figueira - Contos da Basileia, lançamento Mindelo