segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Curso de Especialização em Cultura Afro-brasileira e Indígena (FUNCEFET)

Cursos de Pós-Graduação/MBA
Curso de Especialização em Cultura Afro-brasileira e Indígena (FUNCEFET)


Objetivo:
O Curso de Pós-Graduação Lato Sensu em Cultura Afro Brasileira tem como objetivo aperfeiçoar, atualizar e especializar profissionais da área de Licenciaturas em Letras, Educação Artística, Pedagogia, História e Geografia para conteúdos a serem trabalhados e materiais didáticos produzidos, de acordo com os objetivos da Lei 11.645, a fim de propiciar aos professores estratégias e metodologias que os auxiliem a aplicá-la.

Programa:
I – IMAGINÁRIOS CULTURAIS E LITERATURA – 40h
1. Gênero, Etnia, Identidade e Diferença;
2. A revisão crítica do comparatismo, seu sentido e função na contemporaneidade;
3. Abordagem contrastiva de textos literários de língua portuguesa, de diferentes épocas, e contextos em diálogo;
4. Contribuição de recentes tendências teórico-críticas, especialmente as da desconstrução e as da “Nova História”;

II – ESTUDOS CULTURAIS E PÓS-COLONIAIS – 30h
1. Estudo da produção cultural e indagações sobre as relações de dependência, conflito e apropriação de padrões culturais entre comunidades étnicas, regionais, nacionais ou trans-nacionais;
2. Reflexão sobre os conceitos de nação, identidades e cultura;
3. Indagações sobre os cânones literários: construções alternativas e paradoxos do multiculturalismo e da globalização

III – O IMPERALISMO EUROPEU, PORTUGAL E A EXPLORAÇÃO DAS COSTAS AFRICANA E BRASILEIRA - 50h
1. Imperialismo e Orientalismo;
2. Abordagem comparada de estratégias expansionistas;
3. Reinos Africanos, Oralidade e Desterritorialização;
4. Nações indígenas e a utopia do paraíso ultrajado;
5. O exotismo;

IV – MATRIZ ÉTNICA E AFRO-DESCENDÊNCIA – 80h
1. O Continente Africano; A história da África edos africanos;
2. O contato entre o europeu e o africano e a chegada do negro ao Brasil; Escravidão no Brasil: formas e tipos diversos;
3. A luta dos negros no Brasil, uma história de resistências; Abolicionismo, a luta pela liberdade;
4. A cultura negra e a sua influência no Brasil e O negro na formação da sociedade nacional;

V – MATRIZ ÉTNICA INDÍGENA – 60h
1. A presença do homem no continente americano; O contato entre os europeus e os indígenas; Escambo escravidão nos primeiros anos de colonização;
2. Os índios do Brasil; A cultura indígena e a sua influência na formação da sociedade nacional e As contribuições dos povos indígenas ao Brasil e ao mundo.
3. Diversidade cultural, étnica, histórica, linguística e antropológica dos povos africanos e indígenas no Brasil;
4. Leis nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996, 10.639, de 9 de janeiro de 2003 e 11.645, em vigor desde março de 2008;

VI – METODOLOGIAS NO ENSINO – 40h
1. Ensino e desenvolvimento das competências leitora e escritora;
2. Didática no ensino superior;
3. Elaboração de materiais didáticos;
4. O professor reflexivo.

VII - GÊNEROS E OUTRAS APLICAÇÕES – 30h
1. Minorias faladas: índio, negro, mulher, gay;
2. Cultura e instituições psicanalíticas;
3. Continentalismo, crioulismo, negritude.

VIII – METODOLOGIA DA PESQUISA – 30h
1. Introdução à pesquisa, Métodos de estudo: fichamento, resenha, organização do trabalho científico;
2. Trabalhos científicos: roteiro de pesquisa, projeto de pesquisa.
3. TCC (trabalho de conclusão de curso)

Coordenação Acadêmica:
Profª Norma Lima
Doutora em Literatura Comparada - UFF
Professora dos Ensinos Médio e Superior

Fundamentação Legal e Certificação:
MEC - Res.nº 1 de 8 de Junho de 2007
Serão concedidos certificados de Pós-Graduação Lato Sensu Especialização ou MBA pela Universidade Católica de Petrópolis, dos cursos ministrados em convênio com o Instituto de Pesquisa Educação e Tecnologia e acordo de cooperação Técnica com a FUNCEFET, aos alunos que obtiverem aproveitamento mínimo requerido (nota 7), freqüência mínima de 75% (setenta e cinco por cento) em todas as disciplinas e tiverem seu trabalho final de curso aprovado.

Local do Curso:
Rio de Janeiro - RJ
Rua Buenos Aires, nº 90 – 02º e 03º andar – Centro.

Carga Horária:
360 h/a

Duração do curso:
Aulas Quinzenais: 19 meses

Periodicidade e Horários:
Terça e quintas-feiras de 08:00h às 12:00h
Terça e quintas-feiras de 18:15h às 22:00h
Sábados de 08:30h às 17:30h

Melhores informações clicar aqui.

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

José Luís Hopffer C. Almada – “Uma criatura da saudade” (resenha)

José Luís Hopffer C. Almada – “Uma criatura da saudade”
Ricardo Riso
Resenha publicada no semanário A Nação, nº 206, p. 20, de 11/08/2011.

A obra de José Luis Hopffer Almada solidifica-se na poesia cabo-verdiana contemporânea em razão da complexidade com que trata temas consagrados no sistema literário do seu país, tais como a evasão e a emigração, assim como de um minucioso labor de lapidação da palavra demonstrado na incessante recriação de seus poemas, para além da louvável atuação na crítica literária, no ensaio e na promoção da cultura de Cabo Verde.

Escolhemos o poema “Na morte de Baltasar Lopes da Silva (que também é o poeta Osvaldo Alcântara)” (na versão publicada recentemente em “Cabo Verde: antologia de poesia contemporânea”, organizada por Ricardo Riso e que refunde a versão inicialmente publicada na revista “Fragmentos”), para abordarmos a identidade cabo-verdiana, expondo um sujeito deslocado e fragmentado que refaz seus poemas na diáspora, de cabo-verdiano das dez ilhas e da terra-longe, revisitando as origens de sua cultura e as replanejando na contemporaneidade. Segundo Stuart Hall, “o sujeito assume identidades diferentes em diferentes momentos, identidades que não são unificadas ao redor de um ‘eu’ coerente. Dentro de nós há identidades contraditórias, empurrando em diferentes direções, de tal modo que nossas identificações estão sendo continuamente deslocadas”. Nesse sentido, temas caros à literatura anunciam-se: “evadiram-se os meus companheiros para a Pasárgada, desterraram-se para as hespérides ou degredaram-se para a terra-longe?” Deslocamento apresentado na rica heteronímia, na transumância de seu heterônimo mais vinculado à mãe-terra, de Zé di Sant’Y’Águ para NZé di Sant’Y’Águ, este telúrico e lusógrafo que tanto pode estar nas ilhas quanto na diáspora, enquanto aquele ficou restrito aos poemas em língua materna.

Nesse poema atribuído nesta versão muitíssimo abreviada a NZé di Sant’Y’Águ os macrotemas da evasão e da emigração são trabalhados em uma ampla tessitura de saudade bipartida. Talvez por isso a homenagem ao claridoso Osvaldo Alcântara, o maior responsável pelo pasargadismo na literatura cabo-verdiana. Pasargadismo que foi evasionista e também gerou a sua recusa, o antievasionismo, questões revisitadas no poema: “Sinto saudades do norte desconhecido onde trilham os passos dos meus amigos ausentes. Sinto saudades do ignoto san francisco do norte. Sou saudosista. Sou evasionista.// Os meus companheiros, meus conterrâneos da mãi-terra, meus contemporâneos da pasárgada, sentem saudades do san francisco de cá, do nosso sul. São saudosistas. São anti-evasionistas”.

Nessa condição sofrida impõe-se o sentimento de saudade sob “à sombra da acácia”. O sujeito lírico projeta uma experiência cosmopolita e parte para a 11ª ilha: “Não dura muito escapar-me-ei para o norte (...). Integrar-me-ei no exôdo dos rostos. Negu. A transumância dos corpos. (...) E só então serei terra-longista”. Assim, confirma sua raiz afro-crioula e sente as agruras de emigrante: “Gueto. Trabalho e gueto. Crioulo e gueto. Cachupa e gueto. Lágrima e gueto. Navalha e gueto. Getu de rosto descoberto. Da descoberta da face escura”, e relembra a trágica experiência dos povos africanos durante a colonização da ilha de Santiago: “Dos filhos da diáspora nasceu a ilha. O tráfico dos corpos. A deportação da alma. (...) Com a audácia dos navegadores. Com a calculista frieza dos negreiros. (...) O atlântico odor de sangue. O choro em ancestral exílio. Da porta sem retorno de gore à pia baptismal da cidade velha”. Dessa maneira, a “reconstrução do meu olhar na vasta diáspora” apresenta um sujeito conotado ao seu tempo, e segundo Edward Said, capaz de “representar o sofrimento coletivo do seu próprio povo, de testemunhar suas lutas, de reafirmar sua perseverança e de reforçar sua memória”, pois a “tarefa do intelectual é universalizar de forma explícita os conflitos e as crises, dar maior alcance humano à dor de um determinado povo ou nação”.

E é assim, para um povo que navega pelas sete partidas do mundo, que José Luis Hopffer Almada reconfigura esse sentimento dilacerante comum ao cabo-verdiano nas ilhas ou na diáspora, a saudade, e presta seu contributo de escritor-intelectual exposto, segundo Said, “ao risco da ousadia, à representação da mudança, ao movimento sem interrupção”.

Pedro Matos – Midju di Fogu (resenha)


Pedro Matos – Midju di Fogu

Ricardo Riso
Resenha publicada no semanário A Nação, nº 204, p. 21, de 28/07/2011.

Pedro Andrade Matos nasceu em 15 de novembro de 1987 na Ilha do Fogo. Fez os estudos secundários na ilha-mãe e graduou-se em Relações Internacionais (Puc-Minas/Brasil). Hoje é mestrando em Ciência Política na UFMG (Brasil).

Sua estreia literária aconteceu em 2010 com o livro de poesia “Midju di Fogu – Azágua e outras memórias de Cabo Verde”, sob a chancela da brasileira Nandyala – Livraria e Editora, reunindo cinquenta e um poemas voltados para o público infanto-juvenil nas suas trintas e seis páginas. O livro ainda contém um importante glossário com a definição das diversas palavras em língua materna cabo-verdiana, para além de notas de contracapa da Profª Drª Simone Caputo Gomes (USP) e deste que aqui escreve.

Inspirada na condição diaspórica do autor, os poemas de “Midju di Fogu” trazem a saudade das tradições do arquipélago, a rememoração de sua terra e de sua gente sofrida no seu cotidiano simples de resistência desmesurada para vencer as agruras da vida: “Txuba d’azágua é molhada e traz/ A sabura quebrando a sodadi,/ Dando sperança a Eulália e Raimundo/ Povo di coragi, povo de padjigal”.

Tradições que a pena do poeta tenta manter acesas, “pois lá em baixo a nossa cultura/ grita...” para “que valorizem a cultura nacional”. Tradições que revelam sob a “luss di podogó” as carências da população pobre, mostradas na medição cruel da fome: “Rasora servia para nivelar os cereais/ Na cooperativa do Sr. Morais,/ Onde as pessoas idosas iam receber as kinzena/ Em forma de alimentos básicos.// Nem todo mundo gostava da rasora,/ Principalmente quando era para partir os alimentos/ Nos tempos da crise...” Crise econômica da Ilha do Fogo representada na purguera: “Do óleo zarpava o barco, combustível/ Do óleo debulhava o milho, comestível./ Do óleo trabalhava o homem, possível./ Do óleo sustentava o homem, impossível.” Representação que difere da relatada em “Ilhéu da Contenda”, romance de Teixeira de Sousa que retrata os tempos áureos desse comércio: “Ouvia contar ao pai que outrora exportavam purgueira para Marselha por bom preço. Depois que a indústria nacional se assenhoreara dessa oleaginosa, o preço desceu escandalosamente. Antigamente a purgueira era o mealheiro do pobre e a burra do negociante. O povinho vestia-se com a purgueira que colhia. O comerciante pagava em tecidos a purgueira que comprava. Vinham grandes lugres e patachos carregar purgueira. E era negócio que não falhava, quer chovesse, quer não (SOUSA, s.d., p. 26-27).

Entretanto, são nas carinhosas descrições dos pratos típicos, símbolos do arquipélago, que o poeta sacia a sua sodadi. Estão lá a katxupa – “depois de amassado o milho, colocava para secar ao sol”; “Batanga era feita com sal, água e farinha”; “do milho branco do campo do Sr. Dai/ Extraía a farinha, junto ao feijão./ Servida ao molho de garopa, comia-se a djagacida”; a “scaldada era simples de fazer com farinha, água e sal”. Afetuosas também as lembranças dos utensílios domésticos do homem do campo, tanto para o trabalho quanto para o conforto: balai de tente, garrafon, bidja, kankaran, tagarra, solidor, manduco e o kanhotu, que ajuda o camponês a esquecer “das amarguras do passado e do presente”. As bebidas são recordadas como “o manecon de uva para os senhores de bom codjon” e o grogu: “Rogue a Deus o mokeru por ter como beber o grogu”, assim como os ritmos musicais da tabanca, morna, batuque, talaia-baxu e funaná.

O drama da seca que “seca a minha alma”, da emigração forçada, do mar que “partilha a alegria daqueles que vão e voltam,/ transbordando nos calhaus as mágoas/ dos que foram e não voltaram” e tantas outras experiências do cabo-verdiano recriadas na poesia de Pedro Matos desvelam a saudade de um poeta que, longe de seus pares, mostra o seu apego à sua terra, por vezes madrasta, mas para sempre materna, e fazem da leitura de “Midju di Fogu”, por sinal, o milho como metáfora de perseverança, um singelo aprendizado da indescritível capacidade de resistência desse povo.

sábado, 30 de julho de 2011

Cabo Verde: antologia de poesia contemporânea, Ricardo Riso (Org)


Prezado(a),

Informo que Cabo Verde: antologia de poesia contemporânea, organizada por Ricardo Riso, já se encontra disponível para acesso e download no sítio da revista acadêmica África e Africanidades (ISSN 1983-2354), edição nº 13, ano IV. Em 146 páginas, reúne 76 poemas de 13 poetas: António de Névada, Carlota de Barros, Danny Spínola, Dina Salústio, Filinto Elísio, José Luis Hopffer C. Almada, Margaridas Fontes, Maria Helena Sato, Mario Lucio Sousa, Oswaldo Osório, Paula Vasconcelos, Vasco Martins e Vera Duarte. A antologia conta com ilustrações dos artistas plásticos Abraão Vicente e Mito Elias.

“A presente antologia pretende contribuir para a melhor divulgação da poesia contemporânea de Cabo Verde, ainda de tímida exposição no Brasil. (...) deseja dar a conhecer, ainda que de forma breve, alguns desses poetas, artífices da linguagem, e assim estimular um olhar mais atento do público brasileiro para a recente produção poética cabo-verdiana.”

Na edição 14 (agosto/2011), será publicada Moçambique Hoje: antologia da novíssima poesia moçambicana, também organizada por Ricardo Riso, com a participação de Alex Dau, Andes Chivangue, Armando Artur, Chagas Levene, Domi Chirongo, Manecas Cândido, Mbate Pedro, Rinkel, Rogério Manjate, Sangare Okapi, Tânia Tomé. Ilustrações de João Paulo Quehá.

Peço ajuda para divulgação.

Grande abraço,
Ricardo Riso

terça-feira, 19 de julho de 2011

Literatura Infantil de Cabo Verde à venda na Kitabu

Agora à venda na Kitabu Livraria Negra a Colecção Stera, de Zaida Sanches, formada por quatro livrinhos infantis.
É mais uma parceria realizada com os cabo-verdianos e contribuindo para disseminação da literatura das ilhas no Brasil. A Colecção Stera, de Zaida Sanches, une-se ao livro de poesia Esteira Cheia ou o Abismo das Coisas, de António de Névada, e aos livros da Artiletra Edições (Valentinous Velhinho, Mario Lucio Sousa, entre outros).
Ricardo Riso


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sexta-feira, 15 de julho de 2011

Maria Helena Sato - Areias e Ramas (resenha)


Maria Helena Sato – Areias e Ramas
Por Ricardo Riso
Resenha publicada no semanário cabo-verdiano A Nação, nº 202, de 14/07/2011, p. 27

Há alguns anos que a cabo-verdiana Maria Helena de Morais Sato vive em São Paulo – Brasil, formada em Letras e pós-graduada em Literatura, Comunicação Social, Comunicação Internacional e Recursos Humanos, e possui MBA em Administração. É tradutora juramentada (espanhol, francês e inglês). Sato já tem uma obra extensa, com nove livros de poesia publicados, destacamos, dentre outros: “Bonsais e Haicais” (2000), “Presente do Mar” (2003) e “Caminho Orvalhado” (2004), e em prosa/poesia “O poeta além-vale” (antologia de António Januário Leite), em parceria com Luís Romano (2005).

Em 2006 lançou “Areias e Ramas” pela Edições Subiaco da cidade mineira de Juiz de Fora. Em suas 130 páginas espalham-se 94 poemas mais apresentação da poetisa, e o texto de contracapa ficou a cargo do também cabo-verdiano e radicado no Brasil, Luís Romano, autor de “Famintos”, que sobre o livro afirma: “pela raridade temática e alcance espontâneo, resultou eclética poesia, viva até alcançar tecedura de singular contexto lírico, sem sacrifício da harmonia em si”.

Acompanhando os apontamentos de Romano, percebemos em Maria Helena Sato uma poiesis madura, de amplo domínio da versificação livre, da brevidade dos versos, das formas curtas como o haicai e as quadras, assim como do soneto clássico e da poesia em prosa. Diversidade a serviço da recriação de temáticas consagradas na literatura cabo-verdiana, por uma pena diaspórica que a partir da distância, da sua insularidade, recorre à memória das ilhas para transformá-la em poesia: “Dez lágrimas,/ únicas,/ transbordam./ As demais/ cabem nos mapas”.

Poesia que apresenta a cartografia de Sato, cartografia de memória, por vezes dorida, como em “Seca”: “Silêncio virou,/ descanso – ou descaso?/ Sem você, sorriso, escasso...”; por vezes afetiva, de memória familiar: “De repente a lua/ plena/ não estava mais/ e Joãozinho/ gritou:/ ‘A bola?/ Quem a chutou?’/ Mas logo/ a escura nuvem/ passou!/ Após cada nuvem,/ sempre procuro/ você”.

Cartografia que também é literária, ainda afetiva, na relação com o claridoso Jorge Barbosa no poema dedicado a ele: “Atencioso olhar que me cumprimentava, ele passava por mim e eu sabia o nome daquele homem grande de estatura. Desconhecia, porém, a dimensão maior que carregava. Assim eram nossos encontros, enquanto eu brincava na rua, jogando ringue ou andando de bicicleta – e Jorge Barbosa passava”. Cartografia que recria a partir dos referenciais para sua poesia, como no “Passeio de Anílbal Lopes da Silva com Drummond e Bandeira”: “Longa estrada,/ vida boa,/ Porto Novo/ a Santa Bárbara.../ Muito pó/ muito pó/ muito pó.../ Oh Belarmino/ essa buzina/ olha o caminho/ é uma pedra?/ (...) Estrada/ longa,/ é muito sol,/ é muito sal,/ é muito pó,/ pego atalho,/ um dia só,/ tenho entrada/ garantida,/ vou ver o rei,/ pego atalho/ já estou perto/ de Pasárgada,/ até amanhã/ até amanhã/ até amanhã...” Cartografia a relacionar suas preferências estético-formais a Cabo Verde, como em Haicai: “Certamente, o poeta Bashô encontraria no arquipélago de Cabo Verde motivos para inspiração. Afinal, tudo quanto ele escreveu brotou de outro arquipélago, o Japão.

Cartografia do espaço da memória afetiva em “Mágico no Éden-Park”: “Cartola, gaiola,/ pombo, coelho, gaivota.../ E alguém ainda dirá/ que ninguém vive/ de ilusão!” Cartografia a celebrar o espaço das ilhas, como em “São Vicente”: “A terra quase/ infinita/ luta,/ porque vê,/ pequena ilha/ luta/ porque crê./ Areias/ são ponte/ de espera”.

“Areias e Ramas” surpreende pela lírica leve e afetuosa que Maria Helena Sato trata a sua poesia, de intensa celebração da memória das ilhas nos mais diferentes aspectos expostos de sua vivência, recriação estimulada por quem “sabe que os limites que impõe/ o olhar são limites fingidos, facilmente transgredidos”. Características que a diferenciam, por fim e ao cabo, e a posicionam ao lado de vozes femininas contemporâneas de Cabo Verde, tais como Vera Duarte, Dina Salústio e Carlota de Barros.

terça-feira, 12 de julho de 2011

Rinkel – poesia feminista moçambicana assaz corrosiva


Rinkel – poesia feminista moçambicana assaz corrosiva
Ricardo Riso
A independência de Moçambique em 1975 gerou inúmeras expectativas, dentre tantas, medidas que estimulassem a emancipação da mulher e o fim de posturas discriminatórias por parte dos homens. Entretanto, mudanças de comportamento em sociedades machistas não acontecem da noite para o dia, nesse sentido, podemos citar o exemplo do panorama literário moçambicano onde encontramos uma crassa hegemonia masculina após trinta e seis anos de independência.

Em razão disso, não devemos estranhar e sim olhar com atenção uma assumida poesia de intervenção social e em defesa intransigente da mulher como a da jovem poetisa Rinkel*, pseudônimo de Márcia dos Santos, em seu segundo livro, “Revelações”, sob a chancela da Associação dos Escritores Moçambicanos (AEMO), publicado no ano de 2006. Antes, a jovem havia lançado “Almas Gêmeas” também pela AEMO em 1998.

A poesia de Rinkel procura revelar as diversas maneiras de opressão que as mulheres são submetidas, da dificuldade de serem respeitadas e o encontro a um destino pré-determinado, sem sonhos: “Na procura da minha liberdade/ Encontrei a injustiça e o cativeiro// (...) Procurei novamente a minha liberdade/ Encontrei a realidade da vida a que estamos cativos/ Sem hipóteses de fuga” (p. 12).

O sujeito lírico busca desvelar as castrações submetidas às mulheres, possui a sensibilidade de apresentar os problemas coletivos, tornando a sua voz reveladora de sentidos encobertos por uma sociedade patriarcal: “Só os olhos do coração sabem/ O que vai dentro da alma de cada uma de nós,/ Mulheres (p. 18). O que a leva a escancarar as vidas de mulheres destruídas, de famílias dilaceradas por ‘companheiros’ irresponsáveis, descompromissados e ausentes, capazes de abandonar suas mulheres grávidas entregues à própria sorte como no sugestivo título do poema “Lei da Família Moçambicana”: “Barrigas grávidas/ De pais ausentes, infiéis, polígamos// Amantes/ Sem planos/ Sem promessas/ Sem esperanças/ Sem futuro// Apenas amantes” (p. 23). Assim como a crueldade feita com adolescentes vítimas de estupros, tendo seus sonhos esmagados por um homem cínico, certo da impunidade que o protege: “Seu corpo frágil não resistiu à brutalidade/ Sua inocência foi humilhada.// O vizinho questionado/ Afirma não saber de nada./ Não viu nada!/ Não fez nada!// Um novo amanhecer/ Maninha nunca mais foi cartar água/ Maninha tornou-se pó...” (p. 14).

Contra todas essas atrocidades que se perpetuam no cotidiano moçambicano, o sujeito lírico de Rinkel é rebelde e insubmisso diante dos preconceitos patriarcais predominantes na sociedade. Revolta-se e de forma avassaladora chama a atenção das mulheres para o destino cruel que as espera caso se mantenham inertes, e as convoca para a libertação de uma consciência feminina:

(...) Encara a realidade mulher!/ (...) Serás escrava do trabalho da tua própria casa,/ Não terminarás os estudos/ Serás amante de um barrigudo/ Teus filhos serão drogados// Não queres nada disso?/ Se não lutares para conquistares teus objetivos/ Vais acabar assim/ Por isso, minha irmã/ Mulher! Mãe!/ Vamos à luta!// Sem homens no comando,/ Sem ninguém dizendo que não conseguirás/ Apenas luta!/ Tu és capaz! A vitória é tua! (pp. 24-25)

O discurso é corrosivo, pois são gerações de mulheres humilhadas por seus companheiros, por isso a palavra contestatária firme e direta a tocar nos corações e mentes obliteradas. Apesar de ser uma voz inferiorizada que precisa lutar para se fazer ouvir, a persistência mantém-se, a perseverança continua acesa para iluminar um futuro sem as desigualdades da contemporaneidade: “Eu queria./ Queria muito./ Tanto mais que acreditei que iria conseguir!/ Enfim.../ Nem tudo se consegue.../ Mas continuo acreditando./ Ainda quero./ Quero bastante” (p. 17).

Perseverante em dias melhores, a poesia de Rinkel desconstrói imagens para ir ao encontro da paz: “É debaixo da ponte que eu quero viver. (...)// Estar debaixo da ponte significa ter entre os meus braços a felicidade./ É viver momentos inesquecíveis, é ter o mundo a meus pés./ É ter todo o amor existente só para mim” (p. 39). E ainda tem a sensibilidade intocada para dedicar poemas àquilo que a mulher possui de mais sagrado: o desejo de ser mãe. Em um lirismo comovente, esse sentimento revela-se com delicadeza e leveza: “És a poesia mais linda da minha vida!/ Meu ventre gerou o mundo, gerou o teu ser/ Eu tornei-me poeta da tua existência” (p. 33).

Como aborda diversos aspectos da mulher, o erotismo, o desejo de ser fêmea, de sentir prazer, de expor a sexualidade feminina sem amarras estão presentes nos poemas finais:

“Transpirada e molhada/ Sinto o peso do teu corpo sobre o meu/ Teu suor/ Meio doce, meio salgado/ Mistura-se com o odor másculo que sai de ti/ Meu corpo não agüenta mais/ Sinto que o teu corpo também não/ E a explosão surge/ Simultânea/ Entre gemidos e sussurros/ Totalmente desorientados/ Sinto o amor sendo derramado em mim/ E o mel transbordando do meu favo” (p. 45)

Poesia de denúncia, testemunha de seu tempo a mostrar a desgraça das enchentes em “Menina Cheia”; a exaltar sua cidade, Maputo, apresentando sua cartografia de “cidade cheia de encantos./ Cidade cheia de contrastes” (p. 8); de clamar o necessário sentimento pan-africano frente às mazelas que assolam o continente, relembrando célebres poemas do passado como “Sangue Negro” de Noémia de Sousa, assim versa Rinkel: “Chora África minha/ Tuas lágrimas serão a salvação/ Do teu povo// Tuas lágrimas serão a água e a chuva que/ O povo tanto precisa// Chora África minha/ Porque eu sou África/ E eu também choro” (p. 7).

Pan-africanismo ainda urgente para unir as nações fragilizadas, para que não se comentam os erros do passado, conforme assinala o pensador Joseph Ki-Zerbo:

Na África, cada vez que se tentou fazer uma reforma micronacional de um sistema, houve um fracasso. Todas as tentativas micronacionais de libertação da África (...) fracassaram, em grande parte, porque foram solitárias e não solidárias. Penso que se deveria colocar como postulado a fórmula seguinte: a libertação da África será pan-africana, ou não será. (KI-ZERBO: 2006, p. 35-36)

Pode-se argumentar que na poesia de Rinkel as questões de gênero em uma combatividade exacerbada, ou algum anacronismo na defesa pan-africana, ou que a boa consciência denunciando os problemas sociais se sobrepõe a um melhor conseguimento estético no plano da linguagem, com ressonâncias na ética direta da poesia de combate dos tempos de exaltação da pátria moçambicana. Entretanto, em nosso entendimento, e seguindo o pensamento do ensaísta brasileiro Alfredo Bosi, constatamos que

a poesia resiste à falsa ordem, que é, a rigor, barbárie e caos (...). Resiste ao contínuo harmonioso pelo descontínuo gritante; resiste ao descontínuo gritante pelo contínuo harmonioso. Resiste aferrando-se à memória viva do passado; e resiste imaginando uma nova ordem que se recorta no horizonte da utopia. Quer refazendo zonas sagradas que o sistema profana (o mito, o rito, o sonho, a infância, Eros); quer desfazendo o sentido do presente em nome de uma liberação futura, o ser da poesia contradiz o ser dos discursos correntes (BOSI, 1977, p. 146).

Por isso, inferimos como de extrema urgência uma poesia comprometida com questões de gênero, escancarando os preconceitos que as mulheres ainda sofrem na sociedade contemporânea, e assumimos os valores éticos, sociais e políticos constantes na poesia de Rinkel como critérios valorosos para nossa análise. Revelações de uma voz poética que incomoda a ordem estabelecida, voz poética assumidamente feminista, assaz corrosiva, ainda que incipiente em alguns momentos, mas imprescindível no atual panorama poético moçambicano.

* Márcia dos Santos nasceu em Inhambane, em 1977. Mestre em Linguística Aplicada e docente universitária. Coordenou a página juvenil do jornal “Savana”.

BIBLIOGRAFIA:

BOSI, Alfredo. O ser e o tempo da poesia. São Paulo: Cultrix/EDUSP, 1977.

KI-ZERBO, Joseph. Para quando África? – Entrevista com René Holenstein. Rio de Janeiro: Pallas, 2006.

RINKEL. Revelações. Maputo: Associação dos Escritores Moçambicanos, 2006.

domingo, 10 de julho de 2011

África Diversa - I Encontro de Cultura Afro-Brasileira

Prefeitura do Rio e Secretaria Municipal de Cultura apresentam de 17 a 22 de julho de 2011
África Diversa - I Encontro de Cultura Afro-Brasileira
Centro Municipal de Artes Calouste Gulbenkian

* O Encontro

O Brasil recebeu e ainda recebe uma grande influência da África na formação de sua identidade. A riqueza e diversidade das manifestações culturais, grupos, artistas e pesquisadores que encontramos em nosso território e que dialogam com a cultura de alguns países do continente africano nos comprovam a veracidade desta afirmação.

O projeto "África Diversa: I Encontro de Cultura Afro-Brasileira" traz uma programação que inclui shows, apresentações, oficinas, mini-cursos, contações de histórias, mostra de cinema, livraria, lançamentos de livros, palestras e um seminário; no intuito de mostrar um panorama da diversidade cultural afro-brasileira e africana.

As atividades vão privilegiar em sua abordagem os seguintes temas: a formação de identidades da cultura afro-brasileira, sua diversidade cultural, a relação entre tradição e contemporaneidade, o diálogo África-Brasil e a importância da transmissão oral nestas sociedades.

O primeiro encontro será de 18 a 22 de julho de 2011 e será realizado no Centro Municipal de Artes Calouste Gulbenkian, na Praça Onze com artistas como Naná Vasconcelos (PE), François Moïse Bamba (Burkina Faso), Raíz de Polon (Cabo Verde). No dia 17 de julho, dia anterior à abertura oficial, dois cortejos bastante simbólicos - a Guarda de Moçambique de Nossa Senhora das Mercês e a Guarda de Congo de Nossa Senhora do Rosário da cidade de Oliveira, Minas Gerais - que cantam e dançam uma tradição iniciada antes de 1888, mas que hoje ainda se encontra viva e em constante movimento, farão cortejos pela cidade do Rio de Janeiro. Em Copacabana, estes grupos vão encontrar o mar, cantando e louvando as tradições de Nossa Senhora do Rosário, surgida das águas. Já na Praça XV, local da assinatura da lei que libertou os escravos, os tambores, gungas e patangomes - instrumentos utilizados pelos Congadeiros - vão mostrar a força da cultura negra.

Dentro da programação do "África Diversa", criamos um Seminário que inclui duas mesas, três mini-cursos e oito oficinas para a formação de 120 educadores, com a participação de nomes como Alberto da Costa e Silva, Nei Lopes, Emanoel Araújo. Esta ação vai colaborar na demanda da abordagem de questões ligadas à cultura afro-brasileira em sala de aula, trazendo novas questões, olhares e reflexões sobre essa temática no Brasil e na África, rememorando a nós, brasileiros, quem somos e os diversos caminhos, experiências e realidades que encontramos do lado de lá e de cá do Atlântico.

Daniele Ramalho
Curadoria

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quinta-feira, 7 de julho de 2011

Tânia Tomé – o desabrochar de um canto poético


Tânia Tomé – o desabrochar de um canto poético
Ricardo Riso

Nas literaturas africanas de língua portuguesa sempre houve discrepância entre a quantidade de vozes femininas atuando nas letras. No caso de Moçambique, dois nomes do período colonial durante o século XX foram de enorme relevância, falamos de Noémia de Sousa e Glória de Sant’Anna. Apesar desses dois nomes históricos, veio a independência do país em 1975 e as décadas de 1980 e 1990, mas poucos nomes femininos despontaram no panorama literário moçambicano, apesar do sucesso da prosa de Paulina Chiziane para além das fronteiras da nação.

Entretanto, onde se encontra a poesia moçambicana de autoria feminina do pós-independência, mais precisamente da virada do século XX para o XXI? Em longo artigo sobre a poesia moçambicana contemporânea, a ensaísta brasileira Carmen Lucia Tindó Secco fez as seguintes considerações:

Ao tecermos o perfil da poesia moçambicana contemporânea, detectamos uma ausência quase completa de mulheres-poetas. Ecoam ainda vozes antigas: algumas questionadas, em determinados aspectos, como a de Noémia de Sousa (...) e outras reverenciadas, entre as quais a de Glória de Sant’Anna. (...) Clotilde Silva (...) é pouco conhecida fora de Moçambique. Concluímos, assim, que, de modo geral, na produção lírica da pós-independência, não há, por enquanto, como já se delineia com visibilidade na ficção, com Paulina Chiziane, Lília Momplé e Lina Magaia, uma significativa dicção ‘no feminino’. Na poesia, o grito de ‘ser mulher’ ainda é o de Noémia de Sousa, de Glória de Sant’Anna. (SECCO, p. 299-300)

Os pertinentes comentários de Tindó Secco são confirmados quando nos deparamos com a relação de títulos publicados na edição comemorativa de 25 anos da Associação dos Escritores Moçambicanos, de 2007. Nela, constatamos a presença dos nomes poéticos consagrados no passado como Noémia de Sousa e novas vozes, casos de Clotilde Silva, Isa Manhinque, Rinkel e Sónia Sulthuane. Ou seja, é realmente tímida a presença de poetisas com a estampa do livro.

Felizmente, uma novíssima voz feminina moçambicana revelou-se neste último decênio. A consagrada cantora e declamadora Tânia Tomé, nascida em Maputo (1981), lança em 2008 o seu livro de estreia em poesia, “Agarra-me o sol por trás”, que, em 2010, ganha uma edição brasileira, agora intitulada “Agarra-me o sol por trás (e outros escritos & melodias)”, organização e prefácio de Floriano Martins, ilustrações de Eduardo Eloy, textos críticos de António Cabrita e Francisco Manjate, e uma entrevista do organizador a poetisa. Trata-se de uma caprichada edição da editora paulista Escrituras, inserida na coleção Ponte Velha, que publicou anteriormente “O osso côncavo e outros poemas”, antologia poética de Luís Carlos Patraquim, “Lisbon Blues seguido de Desarmonia”, de José Luiz Tavares, e “A cabeça calva de Deus”, de Corsino Fortes. Os dois últimos são poetas cabo-verdianos.

A poesia de Tânia Tomé desvela uma nova dicção erótica prenhe em sinestesia, em que a metapoética se torna presente em uma linguagem que mostra o árduo e doloroso trabalho de sua tessitura poética, como em “Poema Impossível”: “Meu corpo impossível/ não me comas inteiro/ o possível poema/ que me subsiste/ deixa/ que deságue,/ que no abrigo/ os seus pedaços/ façam sentido./ Porque aí/ onde mais me dói escrever/ reside a alma.” (TOMÉ, p. 2010, p. 40). Desejo ininterrupto de entrega ao amor: “Não me salves, selva-me” (idem, ibidem, p. 17) e erotização moçambicanamente índica atravessando o jazzístico som do corpo do sujeito lírico: “E tu comigo, cá dentro, lá fora/ amando-me na medida do ritmo/ de um jazz cálido frenético./ Abraço do Índico, o piano/ atravessa as fronteiras que nos distam,/ recria o sopro do teu sax/ no meu corpo” (idem, ibidem, p. 48). Poesia que desabrocha um novo cântico, um novo ser a descobrir: “e não me perguntes/ quem é esta mulher/ que cresce comigo/ nas raízes profundas/ da flor do meu corpo” (idem, ibidem, p. 30).

Viagem ao âmago do ser, a poesia brota de uma vontade visceral e insana ao lapidar o “osso das palavras/ (...) uma asa cede-me a loucura/ e a noite me engole nesse desespero alucinante” (idem, ibidem, p. 13). Força criativa erotizando a linguagem, “despindo os versos um a um no centro deste poema” (idem, ibidem, p. 15), a nudez descontrolada do sujeito lírio manifesta-se na ânsia voraz de escrever, “e há um desejo insano de desfigurar a branca página” (idem, ibidem, p. 15).

Insanidade que conduzirá o sujeito lírico para se desprender da matéria à procura dos elementos do ar, signo da liberdade, da transcendência, é a poesia na busca da ampliação dos sentidos do verbo poético e surge a indagação: “Mas em que lugar da asa/ a palavra poderia ser mais bela?” (idem, ibidem, p. 41). Entretanto, não há resposta, há inquietação, há a incessante carpintaria da palavra e “o voo/ vai completamente fora/ da asa” (idem, ibidem, p. 26) para dizer o indizível. As palavras, tais quais as conhecemos, não cabem mais em seu discurso, por isso o uso de neologismos (cantoema, reflesou, amortradoxo, showesia) tenta suprir a necessidade do sujeito lírico. Sobre o sentido das palavras no poema, Octavio Paz afirma que:

“um poema que não lutasse contra a natureza das palavras, obrigando-as a ir mais além de si mesmas e de seus significados relativos, um poema que não tentasse fazê-las dizer o indizível, permaneceria uma simples manipulação verbal. O que caracteriza o poema é sua necessária dependência da palavra como sua luta por transcendê-la. (PAZ, 1972, p. 52)

E é na tentativa de expressar o indizível que as palavras transcendem imagens inusitadas em metáforas insólitas e impactantes, típicas do surrealismo, reveladas na veemência do poema “Abismo sol adentro”: “Agarra-me/ o sol/ por trás.// Escuta no vento/ a tua mão/ secreta” (TOMÉ, p. 2010, p. 19).

Em depoimento constante no livro, Tânia Tomé afirma que “a música influencia muito na minha poesia, não só nas palavras, mas na escolha das palavras que vêm a seguir, é tudo uma questão musical, é um processo muito natural” (idem, ibidem, p. 107). Seu sujeito lírico procura unir a música e a poesia para cantar a sua terra moçambicana: “Um cântico inteiro em abraços de terra nos lábios/ o poema que ainda irei escrever/ marrabentando-me/ urgente” (idem, ibidem, p. 63); no envolvimento com o seu chão e na valorização dos aspectos culturais tradicionais da dança, da música e seus instrumentos: “Na gala-gala percorrendo-me o tronco/ lentamente/ no toque das timbilas nas mãos,/ ecoando cântico chamamento dos tambores/ E no embrião dos mpipis/ mergulhados nas sílabas das cores deste sangue” (idem, ibidem, p. 55).

Pertencimento ao país que faz recordar o poeta maior José Craveirinha e o seu célebre poema “Hino à minha terra”, amor à terra que é renovado por essa jovem poetisa com o canto intitulado “Meu Moçambique”: “Eu sei-me Moçambique,/ no cume das árvores, na sede incontinente/ da minha falange, do Rovuma ao Incomati,/ no xigubo terrestre dos pés descalços/ e em todos os tambores que surdem/ das mãos coloridas nos braços em chaga” (idem, ibidem, p. 47).

“Escrevendo muhipiti/ no surrealismo do Índico” (idem, ibidem, p. 69), versa o sujeito lírico. Para além do surrealismo por vezes visceral como o de Craveirinha, encontramos ressonâncias de outros grandes poetas moçambicanos, ora nos cantos à ilha de Moçambique e referências ao Índico a recordar Rui Knopfli, ora na lírica erótica e nas citações aos elementos da natureza como o ar e a água de Eduardo White e Luís Carlos Patraquim. Salientamos que o lirismo erótico de Tânia Tomé exacerba em ousadia e inovação, diferindo de vozes femininas do passado e do presente no panorama poético moçambicano.

Na confluência das artes que a poesia de Tânia Tomé desvela um mundo de letras sonoras, de um erotismo pungente e de uma entrega violenta para ressemantizar a palavra. Em suas metáforas dissonantes e viscerais, com poemas que arriscam e transmitem a inquietação de uma poetisa que procura tirar da inércia os sentidos desgastados do verbo, este “Agarra-me o sol por trás (e outros escritos & melodias)” de Tânia Tomé surge como promessa de uma voz feminina que veio para ficar na poesia moçambicana contemporânea, qualidade ratificada por ter sido incluído como referência bibliográfica no curso de pós-graduação em Literaturas Africanas de Língua Portuguesa da UFRJ e selecionado para a primeira fase do Prêmio Portugal Telecom 2011.


BIBLIOGRAFIA:
ASSOCIAÇÃO DOS ESCRITORES MOÇAMBICANOS. Memorial 25 anos. AEMO, 2007.

PAZ, Octavio. A consagração do instante. In: Signos em Rotação. São Paulo: Perspectiva, 1972.


SECCO, Carmen Lucia Tindó. Paisagens, memórias e sonhos na poesia moçambicana contemporânea. In: A magia das letras africanas – ensaios escolhidos sobre as literaturas de Angola e Moçambique e alguns outros diálogos. Rio de Janeiro: ABE Graph Editora, 2003. pp. 280-306


TOMÉ, Tânia. Agarra-me o sol por trás (e outros escritos & melodias). São Paulo: Escrituras Editora, 2010.