Para o Ricardo Riso, no outro lado do Atlantico( um Axé à Bahia)
A ampulheta
media o tempo
Novo Mundo na
sua solitária
música de ondas
rendilhados na
aurífera areia
olhos indígenas
de nocturno azeviche
na linha do horizonte
As caravelas…
Pólvora negra
acendeu relâmpagos
selva violada
homens tombando
cruzes e gládios
o
livro negro
“palavra de Deus”
grilhetas sangrando…
atravessando
o Atlântico
levaram escravos
mas mais vale morrer
do que ser cativo
Zumbi dos Palmares
Oh liberdade!
Poema de Tchalê Figueira enviado em 8/11/2011.
Um espaço dedicado à literatura negro-brasileira, às literaturas africanas de língua portuguesa e demais literaturas negro-diaspóricas
quarta-feira, 9 de novembro de 2011
Tchalê Figueira - poema inédito
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Tchalê Figueira
Lívia Natália - Água Negra (livro)
Água Negra
Chove muito na cidade.
No asfalto betumoso
um sangue transparente,
ora de um rubro desencarnado,
ora encardido de um cinza nebuloso,
é vomitado em cólicas
por toda a parte.
Das paredes duras vaza um mais escuro que,
imagino,
seja a água mordendo as estruturas.
A água é assim:
atiçada do céu,
infinita no mar,
nômade no chão pedregoso,
presa no fundo de um poço imenso:
a água devora tudo
com seus dentes intangíveis.
Chove muito na cidade.
No asfalto betumoso
um sangue transparente,
ora de um rubro desencarnado,
ora encardido de um cinza nebuloso,
é vomitado em cólicas
por toda a parte.
Das paredes duras vaza um mais escuro que,
imagino,
seja a água mordendo as estruturas.
A água é assim:
atiçada do céu,
infinita no mar,
nômade no chão pedregoso,
presa no fundo de um poço imenso:
a água devora tudo
com seus dentes intangíveis.
LÍVIA NATÁLIA
Água Negra é um mergulho pra dentro de nós mesmas. Depois de séculos sendo personagem, nos tornamos senhoras de nossas histórias. Sem o imaginário preconceituoso de uma sociedade branca, racista, sexista, homofóbica, judaico-cristã, na tarefa incansável de sair do lugar de submissão e inferioridade historicamente reservado às escritoras negras. A mulher negra como mero objeto de uso e abuso masculino: ora explorada sexualmente, ora máquina insaciável de prazer. Água Negra nos devolve nosso corpo.
É revigorante e motivador acompanhar a reelaboração da mulher negra através dos escritos de Conceição Evaristo, Alzira Rufino, Esmeralda Ribeiro, Elizandra Souza e agora, Lívia Natália, uma grande alegria. Felicidade maior ainda em saber que Água Negra será lido na contramão das estatísticas.
A invisibilidade de escritoras negras no mercado literário não quer dizer que inexista uma produção fora do mainstreem das grandes editoras – assim como a invisibilidade de nomes na literatura brasileira não significa que elas não tenham existido, registros datados a partir de 1700 revelam escritoras como Rosa Egipcíaca, Teresa Margarida, Maria Firmina dos Reis, Luciana de Abreu, Auta de Souza, até chegarmos em Carolina Maria de Jesus, sem dúvida, um divisor de águas, já que foi fortemente comentada pelos meios de comunicação, ainda que tenham investido em desautorizá-la.
Toda vez que uma mulher negra fala por si mesma numa obra literária, ela empodera e dá voz a milhares de outras mulheres, Negras ou não.
A escrita de Lívia é “das delicadezas”, uma escrita de saia rodada, feminina e afiada. Ela carrega um abebe e um ofá e baila tanto ao som do agueré quanto o ijexá. Com sua voz macia, porém firme, nos guia por céus estrelados e nos desagua no colo de Orixás Omi.
Água Negra é um pedaço de mim, de você, das nossas e dos nossos. É água, Omi, barriga fértil gerando sonhos, desejos, esperanças.
Como todo rio, segue o seu curso e quando necessário traça novos caminhos. Lívia nos conduz por esses caminhos. A sua poesia é assim, tem passado e futuro, amor e dor, doce e amargo. Água Negra, como nós, mulheres negras, tem raízes e asas.
Mel Adún é jornalista e poeta dos Cadernos Negros
Água Negra foi o livro premiado pelo Projeto de Cultura e Arte do Banco Capital, categoria poesia, no ano de 2011.
Lívia Natália é Soteropolitana e como boa filha de Osun, se criou nas dunas no Abaeté. É poeta e contista, suas primeiras missões afetivas. Além disto, é Doutora em Letras pela Universidade Federal da Bahia na área de Estudos Literários e é Professora Adjunta do Setor de Teoria da Literatura na mesma instituição. Quando criança não tinha grandes narrativas a contar na volta das férias, então inventava. Nasce aí a ficcionista. A poeta vem desde sempre, descosendo o mundo. Descobriu a intimidade com as palavras muito cedo. Por isto, além de ministrar disciplinas de Teoria da Literatura, discute a produção literária contemporânea em seus artigos e ensaios e trabalha com oficinas de Criação Literária na Universidade e em casas de repouso, escolas e ONGs de apoio a crianças e adolescentes em situação de risco. Água Negra é seu livro de estréia.
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Circum-navegação literária: andanças de um cabo-verdiano em Salvador na novela “Ptolomeu e a viagem de circum-navegação”, de Tchalê Figueira
Abaixo a comunicação apresentada por mim para o evento Bahia de Todos - III Encontro de Cultura e Literatura, realizado no dia 8 de novembro, na Universidade Veiga de Almeida, campus Tijuca. Meu agradecimento à equipe de apoio e especialmente à Profª Drª Cristina Prates por tão belo e diversificado evento.
Ricardo Riso
Circum-navegação literária: andanças de um cabo-verdiano em Salvador na novela “Ptolomeu e a viagem de circum-navegação”, de Tchalê Figueira
Por Ricardo Riso
Dentro de um processo de afirmação identitária nas antigas colônias africanas sob o jugo de Portugal, é notória a influência do modernismo brasileiro na literatura de Cabo Verde, mais precisamente na geração da revista Claridade (nove edições de 1936 a 1960), representada, dentre tantos outros, por Jorge Barbosa, Baltasar Lopes (Osvaldo Alcântara) e Manuel Lopes. Os claridosos, assim conhecidos, visualizavam no exemplo dos modernistas brasileiros uma vertente para pensar o arquipélago, suas contradições e seus dilemas, distanciando-os da metrópole portuguesa. Surge nos intelectuais desse período, pois a Claridade não era uma revista apenas de literatura e abarcava outras áreas do saber, um olhar aprofundando dos problemas sociais do país, ou como afirma Manuel Ferreira: “Os modernos textos brasileiros andaram de mão em mão no momento em que os jovens intelectuais cabo-verdianos descobriam a urgência de rigorosa objectividade socio-literária” (FERREIRA, 1985, p. 261).
Baltasar Lopes, um dos idealizadores dessa proposta, assim narra a recepção aos textos dos modernistas brasileiros:
Há pouco mais de vinte anos eu e um grupo de reduzidos amigos começamos a pensar no nosso problema, isto é, no problema de Cabo Verde. Precisávamos de certezas sistemáticas que só nos podiam vir, como auxílio metodológico e como investigação, de outras latitudes. Ora aconteceu que por aquelas alturas nos caíram nas mãos fraternalmente juntas, em sistema de empréstimo, alguns livros que consideramos essenciais ‘pro domo nostra’. Na ficção o José Lins do Rego d’O menino de Engenho e do Bangüê, o Jorge Amado do Jubiabá e Mar Morto; o Amândio Fontes d’Os Corumbas; o Marques Rabelo d’O caso da Mentira, que conhecemos por Ribeiro Couto. Em poesia foi um ‘alumbramento’ a “Evocação do Recife”, de Manuel Bandeira, que, salvo um ou outro pormenor, eu visualizava com as suas figuras dramáticas, na minha vila da Ribeira Brava. (SANTOS, 1989, p. 43)
O romance regionalista brasileiro tem presença marcante com Jorge Amado, principalmente no que diz respeito aos costumes e às similitudes da cidade de Salvador com Cabo Verde, o que podemos inferir no depoimento do escritor e ensaísta cabo-verdiano Gabriel Mariano:
Em 1947 comecei a conhecer os contos admiráveis do Marques Rebelo (...) Bom, o Jorge Amado em 48. O primeiro livro que li do Jorge Amado foi Terras do Sem Fim... Aquela passagem ‘Eram três marias numa casa de putas pobres’. Nessa altura eu tinha... 20 anos, foi quando conheci o Jorge Amado e o modernismo brasileiro.
(...) Foi um alumbramento porque eu lia um Jorge Amado e estava em Cabo Verde. de Jorge Amado, o Quincas Berro d’Água, quando eu o li pela primeira vez, a personagem, as características psicológicas da personagem, a reacção das pessoas, quando souberam da morte de Quincas Berro d’Água, eu li isso tudo e eu estava a ver a Ilha de São Vicente, Cabo Verde (...) Estava a ver a Rua de Passá Sabe...” (LABAN, pp. 331-2)
Para além dos romances regionalistas, acrescentamos o impacto causado pela poesia de Manuel Bandeira na geração claridosa e “as reverberações do tema de Pasárgada, colhido da poesia de Manuel Bandeira, alçaram-no a matriz poética do arquipélago, tendo como seu principal cultor o poeta Osvaldo Alcântara (Baltasar Lopes) que o legou entusiasticamente a outros escritores” (GOMES, 2008, p. 115). Dessa maneira, Osvaldo Alcântara, com maior ênfase, e outros escritores cabo-verdianos, seguem o verso de Bandeira, “Não quero mais saber do lirismo que não é libertador”, e incorporam o pasargadismo que inspirou o desejo de evasão para outro espaço conotado à justiça social e ao poder libertador da palavra poética.
O movimento pasargadista foi fundamental para a afirmação da geração claridosa, por outro lado, seu discurso evasionista sofreu severas e, por vezes, injustas críticas das gerações poéticas posteriores comprometidas com a libertação colonial, e aqui citamos Ovídio Martins e o célebre poema “Anti-Evasão” com o brado “não vou para Pasárgada”, assim como o escritor e ensaísta Onésimo da Silveira, ambos recusavam o evasionismo dos claridosos, como recusavam a emigração de cabo-verdianos. Era necessário ficar para resistir ao colonialismo sob a ditadura salazarista.
Para além das mazelas do colonialismo, vários fatores forçam a emigração do ilhéu, e recorremos ao antropólogo cabo-verdiano Dr. João Lopes Filho que aponta possíveis causas para a emigração do ilhéu:
a) – REPULSÃO – Problemas relacionados com frequentes e prolongadas crises de falta de chuvas, por vezes com consequências catastróficas: - Economia débil e de subsistência; - Elevado crescimento demográfico; - Desequilíbrios socioeconómicos.
b) – ATRACÇÃO – Oferta de melhores condições de vida pelos países hospedeiros: - Necessidade de abundante mão-de-obra barata por parte dos países desenvolvidos; - Espírito de aventura dos ilhéus; - Perspectivas de melhoria das condições de vida.
c) – COMUNICAÇÃO – O peso da tradição (emigração histórica): - Informações veiculadas pelos emigrantes de “torna-viagem”; - O estatuto económico que os emigrantes bem sucedidos são portadores no regresso à terra de origem; - Reportagens apresentadas pela comunicação social sobre os países mais desenvolvidos. (FILHO, p. 14)
Como vemos, em razão dos parcos recursos do arquipélago, são vários os motivos para o cabo-verdiano emigrar, e é a questão da emigração que será um dos motes para apresentarmos a novela Ptolomeu e a sua viagem de circum-navegação, do cabo-verdiano Tchalê Figueira. Neste livro pretendemos mostrar as experiências de um ilhéu na diáspora, mais precisamente na cidade de Salvador, Bahia. Mas, antes cabe apresentarmos o autor.
Carlos Alberto Silva Figueira, nome de Tchalê Figueira, nasceu em 1953, na cidade do Mindelo, ilha de São Vicente, Cabo Verde. Aos 17 anos, em meio às guerras de libertação nas colônias africanas dominadas por Portugal, em um ato de rebeldia, Tchalê decide sair clandestinamente de Cabo Verde para não servir ao exército fascista português e assim lutar contra seus pares. Ruma a Roterdã, na Holanda, mas pouco tempo aí permanece. Durante dois anos, opta por realizar a sua aventurosa viagem de circum-navegação, tal como o seu herói Ptolomeu Rodrigues, servindo de copeiro em barcos que rasgam os oceanos da Europa à Ásia e às Américas. Em 1974, fixa-se na cidade da Basileia, Suíça, onde frequenta a escola de belas-artes e torna-se artista plástico. Retorna ao Mindelo somente em 1985 onde encontra-se até hoje. Atualmente é um dos mais prestigiados artistas plásticos de Cabo Verde com obra reconhecida por diversos países. Além disso, já possui uma considerável obra literária com os seguintes livros de poesia: “Todos os náufragos do mundo” (1992), “Onde os sentimentos se encontram” (1998) e “O azul e a luz” (2002); enquanto em prosa publicou a novela “Solitário” (2005) e “Contos da Basileia” (2011).
Na novela Ptolomeu e a sua viagem de circum-navegação, publicada pela editora portuguesa Mar da Palavra em 2005, a história do personagem-título confunde-se com a do autor como bem observa Francisco Fortes em apresentação incluída no livro:
Ptolomeu emerge também como alter-ego do pintor Tchalê Figueira. Ambos partilham da ilha na verde juventude e se fizeram marinheiros e aventureiros. Também em ambos há o culto por um conhecimento erudito, um traço psicológico incomum no cidadão que emigra em busca de uma existência mais desafogada. (FIGUEIRA, 2005, pp. 9-10)
Recordamos o contexto histórico de sufoco por ser Cabo Verde uma colônia, colônia sob o fascismo salazarista e em plena guerra de libertação comandada pelo PAIGC (Partido Africano pela Independência de Guiné e Cabo Verde) de Amílcar Cabral em terras guineenses. Enquanto isso, Europa e EUA viviam ainda os ecos do flower Power de 1968 e os movimentos sociais e de valorização de minorias, tanto de gênero quanto raciais. Nesse sentido, o prefácio de Germano Almeida, o mais prestigiado romancista de Cabo Verde, é preciso ao mencionar as expectativas de um jovem ilhéu a desvendar o mundo:
Imagine-se, pois, o deslumbramento e as possibilidades de um jovem ilhéu curioso e irreverente, de repente saído de um meio de repressão familiar, social e política para se confrontar para um mundo onde tudo é permitido em termos de liberdade de cultivar e exprimir e inventar, não sem riscos de qualquer sanção, mas, pelo contrário, acarinhado com desvelo, quer pelo público quer pelos poderes (FIGUEIRA, 2005, p. 6).
A narrativa vale-se da oralidade, pois Ptolomeu conta suas aventuras e desventuras para o autor, referido por ele como “artista”, em um banco da praça:
Hoje, já velho e constantemente bêbado, Ptolomeu Rodrigues vai, todos os dias, pela tarde, sentar-se no seu banco favorito, na Praça de S. Pedro. Dali, ele vê o mar e sonha. Fala, quase sempre, sem parar e nos seus monólogos, aparentemente sem sentido, dilui-se nas intermináveis aventuras vividas.
Para soltar a língua, carrega com ele um grogue fedorento, (...) que o faz retroceder no tempo e reviver, de uma forma entusiástica, a atribulada vida de marinheiro. Num terrível vapor de álcool, os seus solilóquios nem tem um verdadeiro sentido cronológico. Mas, eu, o “artista”, fascinado pela capacidade de narração do ancião, todas as tardes, sento-me a seu lado, para ouvir estórias. (FIGUEIRA, 2005, pp. 18-19)
De certa maneira, Tchalê Figueira subverte e atualiza a importante figura, em diferentes culturas africanas, do griot, o contador de histórias tradicionais, ao deslocar este contador para o espaço da diáspora cabo-verdiana e as experiências contadas na terra-longe. Espaço este pouquíssimo documentado na literatura do arquipélago, como bem observa o Prof. Dr. Manuel Brito-Semedo na ocasião do lançamento em Cabo Verde do mais recente livro de Tchalê, “Contos da Basileia”:
Um dos grandes méritos destes Contos de Basileia é o facto de registar aspectos das vivências da diáspora caboverdiana lá na terra longe, de uma maneira geral ausente na literatura caboverdiana. Compreende-se, até certo ponto, esta falha na nossa literatura, que se justifica, por um lado, por a nossa emigração ser, na sua grande maioria, constituída por homens trabalhadores e não por homens de pena, e por outro, ser preciso uma certa distância física e temporal para se reflectir sobre os factos e as vivências e decantá-las, para se poder produzir arte, quer seja literatura, pintura ou música. (BRITO-SEMEDO, 2011).
O personagem Ptolomeu Rodrigues conta para “seu público invisível” (p. 60) histórias atribuladas, conturbadas e sempre com enredos que envolvem bebedeiras, bordéis, prostitutas, farras sexuais, roubos, brigas, prisões, tortura e interrogatórios, e racismo em diversos portos do mundo. Ptolomeu passa por lugares tais como Roterdã, na Holanda, Vladvostock, na antiga União Soviética, Espanha, Irlanda, Argentina, Japão etc. Essas aventuras são surpreendentes e inusitadas, as quais o então jovem Ptolomeu acaba traído pelo seu impulso sexual incontrolável: “Baixa a cabeça e começa a falar com seu pénis, nestes termos: ‘Sempre foste o meu infortúnio! Naquele tempo, pensei mais com tua cabeça, e não com a cachimônia’” (p. 52). Uma passagem que ilustra a fraqueza do jovem Ptolomeu se dá no relacionamento repentino com duas mulheres – uma irlandesa e a outra, basca – leva-as para o barco no qual trabalha com a promessa de conduzi-las clandestinamente para a Holanda. Entretanto, o plano é descoberto e os três são entregues para a polícia:
A inglesa, filha da mãe, descobriu as senhoritas no meu camarote. (...) Como uma cabra louca, dirige-se ao meu camarote, mete a chave na fechadura e entra de rompante. Com os olhos saindo das órbitas, ela depara com um grande filme de amor... Estou com as gajas na cama. É a desgraça! (...)
E fomos os três conduzidos à ‘casinha de vidro’, nome baptizado pelos meus patrícios a um compartimento onde as autoridades holandesas metem os estrangeiros ilegais que aguardam julgamento. (...) Acredites ou não, artista, meti-me numa encrenca terrível. A polícia criminal, ao investigar sobre as duas mulheres, (...) depois de minuciosamente interrogadas durante horas, descobrem que são simpatizantes dos grupos separatistas IRA e ETA. (FIGUEIRA, 2005, pp. 53-55)
São por esses caminhos tortuosos incluindo prisões e extradições que surgem encontros insólitos, como a vez que encontrou o grande líder da revolução cabo-verdiana Amílcar Cabral em Moscou, na URSS, e posteriormente ao Brasil, “país de seus sonhos” (p. 60), à cidade de Salvador, na Bahia, e chega “ao paraíso das mulheres, da música e do místico” (p. 72) e fica “deslumbrado com aquela cidade, que tem uma arquitetura parecida com esta, da nossa ilha. As pessoas são parecidas com o povo das ilhas...” (p. 73) Em terras baianas, Ptolomeu Rodrigues, vira cafetão de uma prostituta, adere ao candomblé, tornando-se filho de Iemanjá, aprende a jogar capoeira e todos os tipos de jogos de azar, além do envolvimento com várias mulheres. Até que briga com sua prostituta e arruma uma viúva rica, mulher culta e professora, que o acolhe, passa a aturar suas bebedeiras e o faz crescer culturalmente ensinando-lhe a gostar de literatura, pintura e música. Até ter uma recaída, retornar aos prostíbulos, ser preso e extraditado por estadia ilegal, sendo deportado para Cabo Verde.
Assim, encerra-se a viagem de circum-navegação de Ptolomeu que morre afogado por não conseguir subir ao bote que dormiria na noite em que contou a sua última história, a de Salvador, cumprindo o destino que a mãe-de-santo baiana havia traçado, de viver no mar, conhecer o mundo e morrer no mar, que, por sinal, esta mãe-de-santo “disse-me que um dia, viria a encontrar-te e que tu, meu paspalho, irás escrever as minhas memórias” (p. 74), para espanto e incredulidade do artista-ouvinte.
A narrativa termina com uma menção a um célebre poema de Osvaldo Alcântara, pseudônimo de Baltasar Lopes da Silva, “Capitão das Ilhas”. Para Gabriel Mariano, “Osvaldo Alcântara, ‘Capitão das Ilhas’, é um caçador de heranças e, (...) ele é um agente que recebe, enriquece e transmite a herança recebida” (MARIANO, 1991, p. 164). Assim vemos Ptolomeu, que transmite sua sabedoria e conhecimento ao artista-ouvinte, o qual iria repassá-las em livro. Ao encerrar a narrativa retomando Osvaldo Alcântara, temos o evasionismo caro a este poeta e à literatura cabo-verdiana, e que na história se apresenta no fato de o artista-ouvinte viajar pelo mundo conduzido pelas narrativas orais de Ptolomeu, ou seja, sem sair das ilhas, o artista-ouvinte acaba viajando pelo mundo contado por Ptolomeu, que, em analogia ao astrólogo grego homônimo (90? – 168?) considerava a Terra o centro do mundo, e assim como o antigo grego, a personagem Ptolomeu faz de Cabo Verde o centro de seu mundo, pois sai na adolescência, percorre o planeta e encerra sua trajetória na terra-mãe, Cabo Verde. O que consideramos como uma autêntica demonstração de amor ao seu país.
E aqui reproduzimos o poema “Capitão das Ilhas”, de Osvaldo Alcântara:
Morreu hoje o capitão de um navio das ilhas
Não foi porque ele era bom
e puxava afectuosamente o fumo do seu cigarro
quando falava comigo que eu fui ao seu enterro.
Fui ao enterro porque sou caçador de heranças
e queria confessar a minha gratidão pela
riqueza que ele me deixou,
pela sua dimensão desmesurada do mundo
e pela sua incorporação no veleiro em que
todos navegamos. (MARIANO, 1991, p. 171)
Parafraseando Osvaldo Alcântara, temos na narrativa de Tchalê Figueira esse impulso tão cabo-verdiano de dimensão desmesurada do mundo, de enriquecer enquanto homem com a contribuição das diversas mulheres com as quais se relacionou e o fizeram crescer intelectual e culturalmente, ampliando os seus limites, ao fim e ao cabo, grato por ser caçador e autor de heranças a nos conduzir no “veleiro em que todos navegamos”.
Para finalizar, o livro Ptolomeu e a sua viagem de circum-navegação estimula a pensarmos na condição do sujeito fragmentado que constrói e enriquece a sua identidade cabo-verdiana na vasta diáspora, encarando os desafios e as dificuldades encontradas na tão sonhada, e às vezes ilusória, terra-longe. Tchalê Figueira apresenta-nos um sujeito conotado ao seu tempo, e recorrendo a Edward Said e a condição do escritor enquanto intelectual, capaz de “representar o sofrimento coletivo do seu próprio povo, de testemunhar suas lutas, de reafirmar sua perseverança e de reforçar sua memória”, pois a “tarefa do intelectual é universalizar de forma explícita os conflitos e as crises, dar maior alcance humano à dor de um determinado povo ou nação” (SAID, 2005, p. 53).
BIBLIOGRAFIA:
BRITO-SEMEDO, Manuel. Tchalê Figueira e os seus ‘Contos da Basileia’. Disponível em < http://brito-semedo.blogs.sapo.cv/121473.html > Acessado em 15/06/2011.
FERREIRA, Manuel. Intertextualidade afro-brasileira. In: O discurso no percurso africano I – contribuição para uma estética africana. Lisboa: Plátano, 1989.
FERREIRA, Manuel. Aventura Crioula. Lisboa: Plátamo, 1985.
FIGUEIRA, Tchalê. Ptolomeu e a sua viagem de circum-navegação. Lisboa: Mar da Palavra, 2005.
FILHO, João Lopes. As migrações de cabo-verdianos. Disponível em < http://www.lopesfilho.com/?ID=4&cod=8B6CD4A5508A03241EA > Acessado em 04/11/2011
GOMES, Simone Caputo. Cabo Verde – literatura em chão de cultura. São Paulo: Ateliê Editorial, 2008.
LABAN, Michel. Encontro com Escritores – Cabo Verde. Porto: Fundação Engenheiro António de Almeida, 1992. V. 2. pp. 331-332. Apud: Cabo Verde e Brasil: um amor pleno e correspondido. In: GOMES, Simone Caputo. Cabo Verde – literatura em chão de cultura. São Paulo: Ateliê Editorial, 2008.
MARIANO, Gabriel. Cultura Caboverdeana - ensaios. Lisboa: Vega, 1991.
SAID, Edward. Manter nações e tradições à distância. In: Representações do Intelectual – as conferências Reith de 1993. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.
SANTOS, Elsa Rodrigues dos. As máscaras poéticas de Jorge Barbosa e a mundividência cabo-verdiana. Lisboa: Caminho, 1989.
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segunda-feira, 7 de novembro de 2011
Bahia de Todos - UVA/RJ
Prezados,
Participarei do evento BAHIA DE TODOS - III Encontro de Cultura e Literaturas na Universidade Veiga de Almeida, campus Tijuca, dia 8/11 às 18h15. O evento é organizado pela Profª Drª Cristina Prates. Apresentarei a comunicação "Circum-navegação literária: andanças de um cabo-verdiano em Salvador na novela “Ptolomeu e a viagem de circum-navegação”, de Tchalê Figueira".
Quem puder comparecer, o convite está feito.
Abraços,
Ricardo Riso
Participarei do evento BAHIA DE TODOS - III Encontro de Cultura e Literaturas na Universidade Veiga de Almeida, campus Tijuca, dia 8/11 às 18h15. O evento é organizado pela Profª Drª Cristina Prates. Apresentarei a comunicação "Circum-navegação literária: andanças de um cabo-verdiano em Salvador na novela “Ptolomeu e a viagem de circum-navegação”, de Tchalê Figueira".
Quem puder comparecer, o convite está feito.
Abraços,
Ricardo Riso
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Heloisa Pires Lima - Tintim, a reportagem do racismo
TINTIM - A reportagem do racismo
Por Heloisa Pires Lima em 11/10/2011 na edição 663
Para ler o artigo completo, acesse http://www.observatoriodaimprensa.com.br/news/view/_areportagem_do_racismo
Tintim está na mídia. Mas não pelo filme que virá dirigido por Steven Spielberg. Um dos álbuns – Tintin au Congo – de autoria de Hergé está no banco dos réus. O herói nacional enfrenta o julgamento no país que o criou, a Bélgica. E o poder para tamanho questionamento vem de Bienvenu Mbutu Mondondo. Nascido em 1968, o autor do processo foi uma criança que leu a obra no Congo, o país colonizado pelos belgas e retratado nessa história.
A circunstância interessa à sociedade brasileira que acabou de refletir acerca de um caso bastante semelhante envolvendo obra juvenil de autor ícone e educação antiracista. Embora poucas matérias por aqui arrisquem opiniões, silêncio este que não significa neutralidade. E, antes que estas sobreponham ao episódio, o estilo do autor, as linhas do brilhante desenhista, ou transformem o africano proponente da ação num imbecil a ser zombado por sua atitude de se indignar sob a alegação do saco cheio pelo politicamente correto e até retomar o direito à liberdade de expressão versus a censura, vale sairmos do ralo.
Por Heloisa Pires Lima em 11/10/2011 na edição 663
Para ler o artigo completo, acesse http://www.observatoriodaimprensa.com.br/news/view/_areportagem_do_racismo
Tintim está na mídia. Mas não pelo filme que virá dirigido por Steven Spielberg. Um dos álbuns – Tintin au Congo – de autoria de Hergé está no banco dos réus. O herói nacional enfrenta o julgamento no país que o criou, a Bélgica. E o poder para tamanho questionamento vem de Bienvenu Mbutu Mondondo. Nascido em 1968, o autor do processo foi uma criança que leu a obra no Congo, o país colonizado pelos belgas e retratado nessa história.
A circunstância interessa à sociedade brasileira que acabou de refletir acerca de um caso bastante semelhante envolvendo obra juvenil de autor ícone e educação antiracista. Embora poucas matérias por aqui arrisquem opiniões, silêncio este que não significa neutralidade. E, antes que estas sobreponham ao episódio, o estilo do autor, as linhas do brilhante desenhista, ou transformem o africano proponente da ação num imbecil a ser zombado por sua atitude de se indignar sob a alegação do saco cheio pelo politicamente correto e até retomar o direito à liberdade de expressão versus a censura, vale sairmos do ralo.
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Antologia crítica traça a história da literatura afro-brasileira
http://oglobo.globo.com/blogs/prosa/posts/2011/11/05/antologia-critica-traca-historia-da-literatura-afro-brasileira-414930.asp#.TrfW2Tfu9Rc.facebook
A literatura afro-brasileira é “um conceito em construção”, diz o professor Eduardo de Assis Duarte, da Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), onde coordena o grupo de pesquisa “Afrodescendências na Literatura Brasileira”. Contribuição significativa para o edifício deste conceito, a coleção “Literatura e afrodescendência no Brasil: antologia crítica”, organizada por ele e recém-lançada pela Editora da UFMG, reúne, em quatro volumes, uma série de ensaios e referências biográficas e bibliográficas sobre cem escritores, dos tempos coloniais até hoje. Fruto da colaboração de 61 pesquisadores de 21 universidade brasileiras e seis estrangeiras, a coletânea procura organizar a ainda dispersa reflexão acadêmica atual sobre o tema, num percurso histórico que vai de clássicos (Machado de Assis, Lima Barreto, Cruz e Sousa) a contemporâneos (Nei Lopes, Paulo Lins, Ana Maria Gonçalves), passando por nomes importantes esquecidos (Maria Firmina dos Reis, José do Nascimento Moraes). O trabalho do projeto pode ser acompanhado no site.
Em entrevista ao GLOBO, Duarte diz que o objetivo da antologia não é estabelecer um cânone da literatura afro-brasileira, e sim compensar omissões da crítica nacional a autores negros — e à presença da questão racial na obra de escritores consagrados (tema de outro livro do pesquisador, “Machado de Assis afrodescendente”, de 2007).
— Nossa antologia não pretende instituir um cânone, mas trazer elementos para se refletir sobre as diversas facetas desta literatura e da literatura brasileira como um todo. Não se trata de evangelizar, criar novos altares (ou novas alturas), mas de fornecer elementos para uma formação mais aberta à diversidade, sobretudo para os jovens estudantes e pesquisadores de nossa literatura — afirma Duarte, por e-mail (leia a entrevista na íntegra abaixo).
Já disponível nas livrarias, a coleção será lançada oficialmente no Rio dia 28 de novembro, segunda-feira, às 18h, no Teatro Machado de Assis da Biblioteca Nacional, com a presença de 20 escritores cariocas (ou residentes no Rio) incluídos na antologia e uma homenagem a Abdias Nascimento.
Num ensaio da coleção, você propõe um conceito de “literatura afro-brasileira”. Como defini-la?
EDUARDO DE ASSIS DUARTE: Quando acrescentado ao texto do escritor negro brasileiro, o suplemento “afro” ganha densidade crítica a partir da existência de um ponto de vista específico — afroidentificado — a conduzir a abordagem do tema, seja na poesia ou na ficção. Tal perspectiva permite elaborar o tema do negro de modo distinto daquele predominante na literatura brasileira canônica. Os traços de negrícia ou negrura do texto seriam oriundos do que a escritora Conceição Evaristo chama de “escrevivência”, ou seja, a experiência como mote e motor da produção literária. Daí o projeto de trabalhar por uma linguagem que subverta imagens e sentidos cristalizados. É uma escrita que, de formas distintas, busca se dizer negra, até para afirmar o antes negado. E que, também neste aspecto, revela a utopia de formar um público leitor negro.
Na introdução à coleção, você aponta uma omissão histórica da crítica nacional quanto a autores negros, ou quanto a essa dimensão da obra de autores reconhecidos, como Machado de Assis. A que pode ser atribuída essa omissão?
O ponto de vista afroidentificado nem sempre se explicita como em muitos autores contemporâneos. E isto também tem a ver com o público leitor de outras épocas, sobretudo do século XIX e de pelo menos metade do século XX. O próprio Machado se considera um “caramujo” a dissimular sua negrícia perante o leitor branco de seu tempo. É um capoeirista da linguagem, como já afirmou Luiz Costa Lima. Por trás da aparente superficialidade de muitos de seus contos e romances, como “Helena”, está a crítica ao discurso senhorial e à branquitude que busca naturalizar esse discurso como verdadeiro. De fato, só mais recentemente tais aspectos passaram a ser enfatizados, em função do predomínio anterior de paradigmas críticos formalistas e/ou marxistas, entre outras razões. O eurocentrismo, a assunção dos valores estéticos ocidentais como norteamento crítico relegou muitos autores negros ao esquecimento. É o caso de Lino Guedes, que deixou 13 livros publicados entre os anos 1930 e 1940 e foi ignorado pela crítica modernista e pela história literária desde então. E este é apenas um exemplo. Poderia citar Solano Trindade, Nascimento Moraes, Raimundo de Souza Dantas, entre outros.
Em 2007, você publicou “Machado de Assis afrodescendente”, e agora volta a incluí-lo na antologia, no volume dedicado aos “precursores”. Como a questão racial se coloca na obra de Machado, muitas vezes tomado como avesso às questões políticas de seu tempo?
Machado é de fato um precursor, um ancestral que deixou inúmeras lições, e não apenas para os escritores negros. Tem razão Octávio Ianni quando, num texto magistral de 1988 que fizemos questão de incluir no volume 4 da antologia, aponta-o, juntamente com Cruz e Sousa e Lima Barreto, como “fundador da literatura negra” no Brasil, sendo, portanto, “clássico duas vezes”: da literatura brasileira e da literatura negra. Ousaria dizer que o considero três vezes clássico, pois o é também da literatura mundial e, neste ponto, concordo com Harold Bloom. Machado é precursor da literatura afro-brasileira por diversas razões, conforme tentei mostrar no livro de 2007. Ressalto apenas duas, a segunda decorrente da primeira: o ponto de vista afroidentificado, não-branco e não-racista, apesar de toda a discrição e compostura do “caramujo”; e o fato de matar o senhor de escravos em seus romances, criando um universo ficcional que é alegoria do fim da escravidão e da decadência da classe que dela se beneficiou ao longo de mais de 300 anos de nossa História.
Além de Machado, você cita outros autores que se viram “encurralados entre a assunção e o recalque da afrodescendência”, como Cruz e Sousa, Lima Barreto e Maria Firmina dos Reis. Quais foram as consequências dessa posição na obra e na recepção crítica desses autores?
São inúmeras e infelizmente não há espaço para detalhar todas elas. Fico contente com a menção a Maria Firmina dos Reis, autora de “Úrsula”, primeiro romance abolicionista, publicado em 1859, e, sem dúvida, texto precursor. Firmina coloca o negro como referência moral da narrativa: nela, os brancos, quando bons, assim o são porque conseguem ser tão bons quanto o jovem escravo Túlio... E este ponto de vista, absolutamente revolucionário para o Brasil de meados do século XIX, juntamente com outros méritos do romance, não foi suficiente para retirar Firmina do mesmo esquecimento que recai sobre outros autores negros. A autora chega a se desculpar no prólogo por ser mulher de pouco estudo... Já Cruz e Sousa, apesar da militância abolicionista, dos inúmeros poemas, crônicas, cartas, e do contundente testamento literário que é o “Emparedado”, continua caracterizado por muitos como “negro de alma branca”. Em geral, dele só se lêem “Missal” e “Broquéis”. Quando digo que estão encurralados, remeto à branquitude dos conceitos e valores críticos hegemônicos, detentores do poder literário capaz de elevá-los ou deixá-los no limbo, e isto ainda hoje, em pleno século XXI. Se verificarmos atentamente, é possível que o romance “Recordações do escrivão Isaías Caminha” — onde Lima Barreto desnuda o racismo que perpetua a escravidão dissimulada —, não faça parte de nenhum programa de literatura de nossos cursos de Letras. Polêmico e provocador, Lima Barreto respondia sempre que o indagavam pela identidade étnica: “negro ou mulato, como queiram”... Resultado: morreu vendo serem-lhe fechadas todas as portas da cidade letrada.
O que há de mais singular na formação e no desenvolvimento da literatura afro-brasileira, em comparação com processos similares no resto do mundo?
Esta é uma questão complexa. Talvez o fato de os autores, sobretudo de 1930 em diante, terem a todo instante de declarar a palavra “negro” como instância de afirmação de uma identidade denegada pelo imaginário social hegemônico. Isto ocorreu também nos Estados Unidos, com o “New Negro Movement” e nos países francófonos com a “Négritude”, que assumiu a palavra “negro” como enfrentamento ao sentido pejorativo nela alocado. Tal rebaixamento decorre também do estigma que, a partir do discurso bíblico, envolve o signo “negro” no Ocidente. A transformação do negro em tabu linguístico talvez seja o mais cruel legado da escravidão. No dicionário, vemos dezenas de “sinônimos atenuantes”: preto, pardo (este adotado oficialmente pelo IBGE), marrom, moreno, bombom, chocolate... Diante disso, são inúmeros os autores a destacar a assunção pelos próprios afrodescendentes do estigma que os desqualifica a partir da cor da pele. E, diferentemente dos escritos africanos de língua portuguesa, na literatura afro-brasileira é uma constante a repetição de versos como “sou negro, meus avós foram queimados pelo sol da África”, como podemos ler em Solano Trindade.
Num dos textos da coleção, você afirma que a tese da democracia racial, no Brasil, “cristaliza a pátria como instância mítica de apagamento das diferenças”. Como a literatura afro-brasileira contesta a tese da democracia racial e que interpretações da sociedade nacional oferece em contraposição a ela?
Fico apenas num exemplo: já em 1915, em pleno São Luís do Maranhão dominado pelas oligarquias herdeiras do escravismo, o escritor negro José do Nascimento Moraes publicava seu romance “Vencidos e degenerados”, também presente na antologia. O livro se inicia às 8 da manhã do dia 13 de maio de 1888, algo raro, para não dizer inédito, no romance brasileiro. Além de toda a agitação ali ocorrida, traz, quase como crônica histórica, as reações provocadas pela nova situação na subjetividade e no comportamento de antigos senhores e dos novos homens e mulheres livres. Há cenas de crueldade e violência que nada ficam a dever a narrativas como “Cidade de Deus”, de Paulo Lins ou “Um defeito de cor”, de Ana Maria Gonçalves: ex-escravos que devolvem no rosto dos antigos senhores as bofetadas que sofriam diariamente; outros que apedrejam suas mansões; outros que deixam o jantar queimando no fogão... E há brancos revoltados que se articulam para dar o troco, ou que, em desespero, investem contra os próprios filhos. Nascimento Moraes traça um panorama realista do regime servil e de sua continuidade sob novas formas de exploração, respaldadas pelo racismo, tal como previsto por Machado de Assis. E, muito antes de Gilberto Freyre, desconstrói o 13 de maio como happy end apaziguador e consagrador do mito da escravidão benigna. Hoje, escritores como Oswaldo de Camargo, Cuti, Miriam Alves, Conceição Evaristo têm na denúncia do preconceito um dos pontos centrais de seu projeto literário.
Como você interpreta a situação da literatura afro-brasileira hoje? Que temas são os mais importantes e como se dá a circulação dessas obras no mercado nacional?
Costumo dizer que, no meio acadêmico, a literatura afro-brasileira é um conceito em construção, isto é, em discussão. Na prática, ou seja, verificando-se o volume de textos acumulados todo este tempo, não há como duvidar da existência desta vertente de nossas letras, ao mesmo tempo dentro e fora da literatura brasileira, como já defendia Octávio Ianni no ensaio aqui citado. É uma produção consistente, que se afirma pela diferença. Na poesia de Oswaldo de Camargo, Éle Semog, Oliveira Silveira, Cuti, Miriam Alves, Edimilson de Almeida Pereira, Conceição Evaristo, Esmeralda Ribeiro, Salgado Maranhão, e Cristiane Sobral, entre outros, expressa de diversas formas a positividade do ser negro, mulher ou homem; revisita a História, celebra os ancestrais e as divindades do culto afro; e denuncia, às vezes de forma explicitamente militante, a discriminação contemporânea. Mas trata também de tópicos mais universais, situando-os em nova perspectiva, o erotismo, por exemplo. Na ficção, reproduz estas linhas de força, em especial a recuperação crítica do passado, como em “Crônica de indomáveis delírios” e “Bichos da terra tão pequenos”, de Joel Rufino dos Santos; “Ponciá Vicêncio”, “Becos da memória”, e “Insubmissas lágrimas de mulheres”, de Conceição Evaristo; “Vinte contos e uns trocados”, “Mandingas da mulata velha na cidade nova” e “Oiobomé”, de Nei Lopes; além de “Um defeito de cor”, de Ana Maria Gonçalves; persiste ainda uma linhagem contundente sem se descuidar da leveza vinda do humor, a exemplo de “Contos crespos”, de Cuti, ou “Mulher mat(r)iz”, de Miriam Alves ou “Só as mulheres sangram”, de Lia Vieira. São obras que circulam majoritariamente em circuitos alternativos, infelizmente. Resta torcer para que consigam atingir maior visibilidade e, quem sabe, cumprir a utopia que os move: formar um público afrodescendente que com eles se identifique.
A literatura afro-brasileira é “um conceito em construção”, diz o professor Eduardo de Assis Duarte, da Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), onde coordena o grupo de pesquisa “Afrodescendências na Literatura Brasileira”. Contribuição significativa para o edifício deste conceito, a coleção “Literatura e afrodescendência no Brasil: antologia crítica”, organizada por ele e recém-lançada pela Editora da UFMG, reúne, em quatro volumes, uma série de ensaios e referências biográficas e bibliográficas sobre cem escritores, dos tempos coloniais até hoje. Fruto da colaboração de 61 pesquisadores de 21 universidade brasileiras e seis estrangeiras, a coletânea procura organizar a ainda dispersa reflexão acadêmica atual sobre o tema, num percurso histórico que vai de clássicos (Machado de Assis, Lima Barreto, Cruz e Sousa) a contemporâneos (Nei Lopes, Paulo Lins, Ana Maria Gonçalves), passando por nomes importantes esquecidos (Maria Firmina dos Reis, José do Nascimento Moraes). O trabalho do projeto pode ser acompanhado no site
Em entrevista ao GLOBO, Duarte diz que o objetivo da antologia não é estabelecer um cânone da literatura afro-brasileira, e sim compensar omissões da crítica nacional a autores negros — e à presença da questão racial na obra de escritores consagrados (tema de outro livro do pesquisador, “Machado de Assis afrodescendente”, de 2007).
— Nossa antologia não pretende instituir um cânone, mas trazer elementos para se refletir sobre as diversas facetas desta literatura e da literatura brasileira como um todo. Não se trata de evangelizar, criar novos altares (ou novas alturas), mas de fornecer elementos para uma formação mais aberta à diversidade, sobretudo para os jovens estudantes e pesquisadores de nossa literatura — afirma Duarte, por e-mail (leia a entrevista na íntegra abaixo).
Já disponível nas livrarias, a coleção será lançada oficialmente no Rio dia 28 de novembro, segunda-feira, às 18h, no Teatro Machado de Assis da Biblioteca Nacional, com a presença de 20 escritores cariocas (ou residentes no Rio) incluídos na antologia e uma homenagem a Abdias Nascimento.
Num ensaio da coleção, você propõe um conceito de “literatura afro-brasileira”. Como defini-la?
EDUARDO DE ASSIS DUARTE: Quando acrescentado ao texto do escritor negro brasileiro, o suplemento “afro” ganha densidade crítica a partir da existência de um ponto de vista específico — afroidentificado — a conduzir a abordagem do tema, seja na poesia ou na ficção. Tal perspectiva permite elaborar o tema do negro de modo distinto daquele predominante na literatura brasileira canônica. Os traços de negrícia ou negrura do texto seriam oriundos do que a escritora Conceição Evaristo chama de “escrevivência”, ou seja, a experiência como mote e motor da produção literária. Daí o projeto de trabalhar por uma linguagem que subverta imagens e sentidos cristalizados. É uma escrita que, de formas distintas, busca se dizer negra, até para afirmar o antes negado. E que, também neste aspecto, revela a utopia de formar um público leitor negro.
Na introdução à coleção, você aponta uma omissão histórica da crítica nacional quanto a autores negros, ou quanto a essa dimensão da obra de autores reconhecidos, como Machado de Assis. A que pode ser atribuída essa omissão?
O ponto de vista afroidentificado nem sempre se explicita como em muitos autores contemporâneos. E isto também tem a ver com o público leitor de outras épocas, sobretudo do século XIX e de pelo menos metade do século XX. O próprio Machado se considera um “caramujo” a dissimular sua negrícia perante o leitor branco de seu tempo. É um capoeirista da linguagem, como já afirmou Luiz Costa Lima. Por trás da aparente superficialidade de muitos de seus contos e romances, como “Helena”, está a crítica ao discurso senhorial e à branquitude que busca naturalizar esse discurso como verdadeiro. De fato, só mais recentemente tais aspectos passaram a ser enfatizados, em função do predomínio anterior de paradigmas críticos formalistas e/ou marxistas, entre outras razões. O eurocentrismo, a assunção dos valores estéticos ocidentais como norteamento crítico relegou muitos autores negros ao esquecimento. É o caso de Lino Guedes, que deixou 13 livros publicados entre os anos 1930 e 1940 e foi ignorado pela crítica modernista e pela história literária desde então. E este é apenas um exemplo. Poderia citar Solano Trindade, Nascimento Moraes, Raimundo de Souza Dantas, entre outros.
Em 2007, você publicou “Machado de Assis afrodescendente”, e agora volta a incluí-lo na antologia, no volume dedicado aos “precursores”. Como a questão racial se coloca na obra de Machado, muitas vezes tomado como avesso às questões políticas de seu tempo?
Machado é de fato um precursor, um ancestral que deixou inúmeras lições, e não apenas para os escritores negros. Tem razão Octávio Ianni quando, num texto magistral de 1988 que fizemos questão de incluir no volume 4 da antologia, aponta-o, juntamente com Cruz e Sousa e Lima Barreto, como “fundador da literatura negra” no Brasil, sendo, portanto, “clássico duas vezes”: da literatura brasileira e da literatura negra. Ousaria dizer que o considero três vezes clássico, pois o é também da literatura mundial e, neste ponto, concordo com Harold Bloom. Machado é precursor da literatura afro-brasileira por diversas razões, conforme tentei mostrar no livro de 2007. Ressalto apenas duas, a segunda decorrente da primeira: o ponto de vista afroidentificado, não-branco e não-racista, apesar de toda a discrição e compostura do “caramujo”; e o fato de matar o senhor de escravos em seus romances, criando um universo ficcional que é alegoria do fim da escravidão e da decadência da classe que dela se beneficiou ao longo de mais de 300 anos de nossa História.
Além de Machado, você cita outros autores que se viram “encurralados entre a assunção e o recalque da afrodescendência”, como Cruz e Sousa, Lima Barreto e Maria Firmina dos Reis. Quais foram as consequências dessa posição na obra e na recepção crítica desses autores?
São inúmeras e infelizmente não há espaço para detalhar todas elas. Fico contente com a menção a Maria Firmina dos Reis, autora de “Úrsula”, primeiro romance abolicionista, publicado em 1859, e, sem dúvida, texto precursor. Firmina coloca o negro como referência moral da narrativa: nela, os brancos, quando bons, assim o são porque conseguem ser tão bons quanto o jovem escravo Túlio... E este ponto de vista, absolutamente revolucionário para o Brasil de meados do século XIX, juntamente com outros méritos do romance, não foi suficiente para retirar Firmina do mesmo esquecimento que recai sobre outros autores negros. A autora chega a se desculpar no prólogo por ser mulher de pouco estudo... Já Cruz e Sousa, apesar da militância abolicionista, dos inúmeros poemas, crônicas, cartas, e do contundente testamento literário que é o “Emparedado”, continua caracterizado por muitos como “negro de alma branca”. Em geral, dele só se lêem “Missal” e “Broquéis”. Quando digo que estão encurralados, remeto à branquitude dos conceitos e valores críticos hegemônicos, detentores do poder literário capaz de elevá-los ou deixá-los no limbo, e isto ainda hoje, em pleno século XXI. Se verificarmos atentamente, é possível que o romance “Recordações do escrivão Isaías Caminha” — onde Lima Barreto desnuda o racismo que perpetua a escravidão dissimulada —, não faça parte de nenhum programa de literatura de nossos cursos de Letras. Polêmico e provocador, Lima Barreto respondia sempre que o indagavam pela identidade étnica: “negro ou mulato, como queiram”... Resultado: morreu vendo serem-lhe fechadas todas as portas da cidade letrada.
O que há de mais singular na formação e no desenvolvimento da literatura afro-brasileira, em comparação com processos similares no resto do mundo?
Esta é uma questão complexa. Talvez o fato de os autores, sobretudo de 1930 em diante, terem a todo instante de declarar a palavra “negro” como instância de afirmação de uma identidade denegada pelo imaginário social hegemônico. Isto ocorreu também nos Estados Unidos, com o “New Negro Movement” e nos países francófonos com a “Négritude”, que assumiu a palavra “negro” como enfrentamento ao sentido pejorativo nela alocado. Tal rebaixamento decorre também do estigma que, a partir do discurso bíblico, envolve o signo “negro” no Ocidente. A transformação do negro em tabu linguístico talvez seja o mais cruel legado da escravidão. No dicionário, vemos dezenas de “sinônimos atenuantes”: preto, pardo (este adotado oficialmente pelo IBGE), marrom, moreno, bombom, chocolate... Diante disso, são inúmeros os autores a destacar a assunção pelos próprios afrodescendentes do estigma que os desqualifica a partir da cor da pele. E, diferentemente dos escritos africanos de língua portuguesa, na literatura afro-brasileira é uma constante a repetição de versos como “sou negro, meus avós foram queimados pelo sol da África”, como podemos ler em Solano Trindade.
Num dos textos da coleção, você afirma que a tese da democracia racial, no Brasil, “cristaliza a pátria como instância mítica de apagamento das diferenças”. Como a literatura afro-brasileira contesta a tese da democracia racial e que interpretações da sociedade nacional oferece em contraposição a ela?
Fico apenas num exemplo: já em 1915, em pleno São Luís do Maranhão dominado pelas oligarquias herdeiras do escravismo, o escritor negro José do Nascimento Moraes publicava seu romance “Vencidos e degenerados”, também presente na antologia. O livro se inicia às 8 da manhã do dia 13 de maio de 1888, algo raro, para não dizer inédito, no romance brasileiro. Além de toda a agitação ali ocorrida, traz, quase como crônica histórica, as reações provocadas pela nova situação na subjetividade e no comportamento de antigos senhores e dos novos homens e mulheres livres. Há cenas de crueldade e violência que nada ficam a dever a narrativas como “Cidade de Deus”, de Paulo Lins ou “Um defeito de cor”, de Ana Maria Gonçalves: ex-escravos que devolvem no rosto dos antigos senhores as bofetadas que sofriam diariamente; outros que apedrejam suas mansões; outros que deixam o jantar queimando no fogão... E há brancos revoltados que se articulam para dar o troco, ou que, em desespero, investem contra os próprios filhos. Nascimento Moraes traça um panorama realista do regime servil e de sua continuidade sob novas formas de exploração, respaldadas pelo racismo, tal como previsto por Machado de Assis. E, muito antes de Gilberto Freyre, desconstrói o 13 de maio como happy end apaziguador e consagrador do mito da escravidão benigna. Hoje, escritores como Oswaldo de Camargo, Cuti, Miriam Alves, Conceição Evaristo têm na denúncia do preconceito um dos pontos centrais de seu projeto literário.
Como você interpreta a situação da literatura afro-brasileira hoje? Que temas são os mais importantes e como se dá a circulação dessas obras no mercado nacional?
Costumo dizer que, no meio acadêmico, a literatura afro-brasileira é um conceito em construção, isto é, em discussão. Na prática, ou seja, verificando-se o volume de textos acumulados todo este tempo, não há como duvidar da existência desta vertente de nossas letras, ao mesmo tempo dentro e fora da literatura brasileira, como já defendia Octávio Ianni no ensaio aqui citado. É uma produção consistente, que se afirma pela diferença. Na poesia de Oswaldo de Camargo, Éle Semog, Oliveira Silveira, Cuti, Miriam Alves, Edimilson de Almeida Pereira, Conceição Evaristo, Esmeralda Ribeiro, Salgado Maranhão, e Cristiane Sobral, entre outros, expressa de diversas formas a positividade do ser negro, mulher ou homem; revisita a História, celebra os ancestrais e as divindades do culto afro; e denuncia, às vezes de forma explicitamente militante, a discriminação contemporânea. Mas trata também de tópicos mais universais, situando-os em nova perspectiva, o erotismo, por exemplo. Na ficção, reproduz estas linhas de força, em especial a recuperação crítica do passado, como em “Crônica de indomáveis delírios” e “Bichos da terra tão pequenos”, de Joel Rufino dos Santos; “Ponciá Vicêncio”, “Becos da memória”, e “Insubmissas lágrimas de mulheres”, de Conceição Evaristo; “Vinte contos e uns trocados”, “Mandingas da mulata velha na cidade nova” e “Oiobomé”, de Nei Lopes; além de “Um defeito de cor”, de Ana Maria Gonçalves; persiste ainda uma linhagem contundente sem se descuidar da leveza vinda do humor, a exemplo de “Contos crespos”, de Cuti, ou “Mulher mat(r)iz”, de Miriam Alves ou “Só as mulheres sangram”, de Lia Vieira. São obras que circulam majoritariamente em circuitos alternativos, infelizmente. Resta torcer para que consigam atingir maior visibilidade e, quem sabe, cumprir a utopia que os move: formar um público afrodescendente que com eles se identifique.
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quarta-feira, 2 de novembro de 2011
Cidinha da Silva na Kitabu - dia 4/11
Cidinha da Silva lançará três novos livros a partir das 18h30, dia 4/11 - sexta-feira, na Kitabu Livraria Negra.
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segunda-feira, 31 de outubro de 2011
o cinema da blax ploitation (CCBB)
blax ploitation nos CCBB Rio de Janeiro e São Paulo (3 a 13 de novembro) e no CineSESC (18 a 24 de novembro)
melhores informações em: http://www.blaxploitation.com.br/index.php
DEBATES
DE SUPER FLY A TIÃO MEDONHO: O NEGRO NO CINEMA AMERICANO E BRASILEIRO
Rififi no Harlem, em 1970, foi o primeiro filme de um diretor negro com elenco negro a obter sucesso – tendo sido campeão de bilheteria. Dois anos depois, Super Fly derrubou O poderoso chefão da posição de maior bilheteria dos Estados Unidos. Tanto em Super Fly como em Assalto ao trem pagador, o protagonista vem do mundo do crime: Super Fly é traficante enquanto Tião Medonho é assaltante. Nesse debate consideramos os papéis dos atores negros no cinema americano e brasileiro.
CCBB SP – DIA 4 DE NOVEMBRO 19h
Jeferson De é um cineasta paulista nascido em 1969 e formado em cinema pela ECA/USP. Militante da causa negra no cinema brasileiro, em 2005, lançou o manifesto Dogma Feijoada, uma análise histórica sobre a produção audiovisual dos negros no Brasil – que depois gerou o livro Dogma Feijoada e o Cinema Negro Brasileiro. Em 2003, fundou a produtora Barraco Forte. Dirigiu o curta-metragem Carolina, vencedor do prêmio de melhor curta-metragem e Prêmio da Crítica no Festival de Gramado. Sua estreia em longas-metragens foi em 2010 com o filme Bróder, cujo roteiro foi selecionado para o VI Laboratório de Roteiros do Instituto Sundance, e que estreou no Festival de Berlim. O filme recebeu o Prêmio da Crítica de melhor longa-metragem, além dos prêmios de melhor direção de arte, de som e fotografia no Festival de Paulínia de 2011.
Josiah Howard é autor e crítico americano formado em Filme e Televisão pela Universidade de Nova York. Grande estudioso, colecionador e entusiasta da cultura pop e cinema dos anos 1970, seus contos, artigos e fotografias têm sido publicados em inúmeras revistas e jornais. Ele é autor de Donna Summer: Her Life & Music (2003) e Blaxploitation Cinema – An Essential Guide (2008) – considerada a mais completa obra sobre esse gênero. Seu livro sobre a cantora Cher, Cher: Strong Enough, está em processo de finalização.
CCBB RJ – DIA 5 DE NOVEMBRO 18h
Marcos Romão é jornalista e sociólogo. Coordenador da Rádio Mamaterra de Hamburgo e ativista do movimento negro, é o criador da Mamapress, a primeira agência de notícias com um olhar indígena-afro-brasileiro da Europa. Mora em Hamburgo, Alemanha.
Programação CCBB-RJ - 1 a 13 de novembro
01/11/2011 - Terça-Feira
Sala 1
18:00h - Rififi no Harlem, EUA, 1970, cor, 97 min, 35mm, 16 anos
20:00h - Cleópatra Jones, EUA, 1973, cor, 89 min, 35mm, 16 anos
02/11/2011 - Quarta-Feira
Sala 1
15:30h - Shaft na África, EUA, 1973, cor, 120 min, DVD, 16 anos
18:00h - O grande golpe de Shaft, EUA, 1972, cor, 104 min, DVD, 16 anos
20:00h - Shaft - O filme, EUA, 1971, cor, 100 min, 35mm, 14 anos
03/11/2011 - Quinta-Feira
Sala 1
18:00h - Killer of Sheep, EUA, 1977, p&b, 83 min, 35mm, 16 anos
20:00h - O chefão do gueto, EUA, 1973, cor, 87 min, 35mm, 14 anos
04/11/2011 - Sexta-feira
Sala 1
18:00h - Shaft - O filme, EUA, 1971, cor, 100 min, 35mm, 14 anos
20:00h - Cleópatra Jones e o cassino de ouro, EUA, 1975, cor, 94 min, 35mm, 16 anos
05/11/2011 - Sábado
Sala 1
16:00h - Superfly, EUA, 1972, cor, 93 min, DVD, 16 anos
20:00h - Rififi no Harlem, EUA, 1970, cor, 97 min, 35mm, 16 anos
06/11/2011 - Domingo
Sala 1
16:00h - O chefão do gueto, EUA, 1973, cor, 87 min, 35mm, 14 anos
18:00h - Sweet Sweetback’s Baadasssss Song, EUA, 1971, cor, 97 min, DigiBeta PAL, 18 anos
20:00h - Killer of Sheep, EUA, 1977, p&b, 83 min, 35mm, 16 anos
08/11/2011 - Terça-Feira
Sala 1
18:00h - Foxy Brown, EUA, 1974, cor, 94 min, 35mm, 16 anos
20:00h - Jackie Brown, EUA, 1997, cor, 155 min, 35mm, 18 anos
09/11/2011 - Quarta-Feira
Sala 1
17:30h - Mandingo – O fruto da vingança, EUA, 1975, cor, 127 min, Blu-ray, 16 anos
20:00h - Coffy, EUA, 1973, cor, 91 min, 35mm, 16 anos
10/11/2011 - Quinta-Feira
Sala 1
17:30h - Shaft na África, EUA, 1973, cor, 120 min, DVD, 16 anos
20:00h - O grande golpe de Shaft, EUA, 1972, cor, 104 min, DVD, 16 anos
11/11/2011 - Sexta-feira
Sala 1
18:00h - Sweet Sweetback’s Baadasssss Song, EUA, 1971, cor, 97 min, DigiBeta PAL, 18 anos
12/11/2011 - Sábado
Sala 1
13:00h - Jackie Brown, EUA, 1997, cor, 155 min, 35mm, 18 anos
20:00h - Foxy Brown, EUA, 1974, cor, 94 min, 35mm, 16 anos
13/11/2011 - Domingo
Sala 1
13:30h - Mandingo – O fruto da vingança, EUA, 1975, cor, 127 min, Blu-ray, 16 anos
18:30h - Superfly, EUA, 1972, cor, 93 min, DVD, 16 anos
20:30h - Wattstax, EUA, 1973, cor, 98 min, 35mm, 16 anos
melhores informações em: http://www.blaxploitation.com.br/index.php
DEBATES
DE SUPER FLY A TIÃO MEDONHO: O NEGRO NO CINEMA AMERICANO E BRASILEIRO
Rififi no Harlem, em 1970, foi o primeiro filme de um diretor negro com elenco negro a obter sucesso – tendo sido campeão de bilheteria. Dois anos depois, Super Fly derrubou O poderoso chefão da posição de maior bilheteria dos Estados Unidos. Tanto em Super Fly como em Assalto ao trem pagador, o protagonista vem do mundo do crime: Super Fly é traficante enquanto Tião Medonho é assaltante. Nesse debate consideramos os papéis dos atores negros no cinema americano e brasileiro.
CCBB SP – DIA 4 DE NOVEMBRO 19h
Jeferson De é um cineasta paulista nascido em 1969 e formado em cinema pela ECA/USP. Militante da causa negra no cinema brasileiro, em 2005, lançou o manifesto Dogma Feijoada, uma análise histórica sobre a produção audiovisual dos negros no Brasil – que depois gerou o livro Dogma Feijoada e o Cinema Negro Brasileiro. Em 2003, fundou a produtora Barraco Forte. Dirigiu o curta-metragem Carolina, vencedor do prêmio de melhor curta-metragem e Prêmio da Crítica no Festival de Gramado. Sua estreia em longas-metragens foi em 2010 com o filme Bróder, cujo roteiro foi selecionado para o VI Laboratório de Roteiros do Instituto Sundance, e que estreou no Festival de Berlim. O filme recebeu o Prêmio da Crítica de melhor longa-metragem, além dos prêmios de melhor direção de arte, de som e fotografia no Festival de Paulínia de 2011.
Josiah Howard é autor e crítico americano formado em Filme e Televisão pela Universidade de Nova York. Grande estudioso, colecionador e entusiasta da cultura pop e cinema dos anos 1970, seus contos, artigos e fotografias têm sido publicados em inúmeras revistas e jornais. Ele é autor de Donna Summer: Her Life & Music (2003) e Blaxploitation Cinema – An Essential Guide (2008) – considerada a mais completa obra sobre esse gênero. Seu livro sobre a cantora Cher, Cher: Strong Enough, está em processo de finalização.
CCBB RJ – DIA 5 DE NOVEMBRO 18h
Marcos Romão é jornalista e sociólogo. Coordenador da Rádio Mamaterra de Hamburgo e ativista do movimento negro, é o criador da Mamapress, a primeira agência de notícias com um olhar indígena-afro-brasileiro da Europa. Mora em Hamburgo, Alemanha.
Programação CCBB-RJ - 1 a 13 de novembro
01/11/2011 - Terça-Feira
Sala 1
18:00h - Rififi no Harlem, EUA, 1970, cor, 97 min, 35mm, 16 anos
20:00h - Cleópatra Jones, EUA, 1973, cor, 89 min, 35mm, 16 anos
02/11/2011 - Quarta-Feira
Sala 1
15:30h - Shaft na África, EUA, 1973, cor, 120 min, DVD, 16 anos
18:00h - O grande golpe de Shaft, EUA, 1972, cor, 104 min, DVD, 16 anos
20:00h - Shaft - O filme, EUA, 1971, cor, 100 min, 35mm, 14 anos
03/11/2011 - Quinta-Feira
Sala 1
18:00h - Killer of Sheep, EUA, 1977, p&b, 83 min, 35mm, 16 anos
20:00h - O chefão do gueto, EUA, 1973, cor, 87 min, 35mm, 14 anos
04/11/2011 - Sexta-feira
Sala 1
18:00h - Shaft - O filme, EUA, 1971, cor, 100 min, 35mm, 14 anos
20:00h - Cleópatra Jones e o cassino de ouro, EUA, 1975, cor, 94 min, 35mm, 16 anos
05/11/2011 - Sábado
Sala 1
16:00h - Superfly, EUA, 1972, cor, 93 min, DVD, 16 anos
20:00h - Rififi no Harlem, EUA, 1970, cor, 97 min, 35mm, 16 anos
06/11/2011 - Domingo
Sala 1
16:00h - O chefão do gueto, EUA, 1973, cor, 87 min, 35mm, 14 anos
18:00h - Sweet Sweetback’s Baadasssss Song, EUA, 1971, cor, 97 min, DigiBeta PAL, 18 anos
20:00h - Killer of Sheep, EUA, 1977, p&b, 83 min, 35mm, 16 anos
08/11/2011 - Terça-Feira
Sala 1
18:00h - Foxy Brown, EUA, 1974, cor, 94 min, 35mm, 16 anos
20:00h - Jackie Brown, EUA, 1997, cor, 155 min, 35mm, 18 anos
09/11/2011 - Quarta-Feira
Sala 1
17:30h - Mandingo – O fruto da vingança, EUA, 1975, cor, 127 min, Blu-ray, 16 anos
20:00h - Coffy, EUA, 1973, cor, 91 min, 35mm, 16 anos
10/11/2011 - Quinta-Feira
Sala 1
17:30h - Shaft na África, EUA, 1973, cor, 120 min, DVD, 16 anos
20:00h - O grande golpe de Shaft, EUA, 1972, cor, 104 min, DVD, 16 anos
11/11/2011 - Sexta-feira
Sala 1
18:00h - Sweet Sweetback’s Baadasssss Song, EUA, 1971, cor, 97 min, DigiBeta PAL, 18 anos
12/11/2011 - Sábado
Sala 1
13:00h - Jackie Brown, EUA, 1997, cor, 155 min, 35mm, 18 anos
20:00h - Foxy Brown, EUA, 1974, cor, 94 min, 35mm, 16 anos
13/11/2011 - Domingo
Sala 1
13:30h - Mandingo – O fruto da vingança, EUA, 1975, cor, 127 min, Blu-ray, 16 anos
18:30h - Superfly, EUA, 1972, cor, 93 min, DVD, 16 anos
20:30h - Wattstax, EUA, 1973, cor, 98 min, 35mm, 16 anos
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segunda-feira, 24 de outubro de 2011
Cristiane Sobral lança livro na Kitabu - 28/10
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Não vou mais lavar os pratos - Cristiane Sobral
Não vou mais lavar os pratos.
Nem limpar a poeira dos móveis.
Sinto muito.
Comecei a ler.
Abri outro dia um livro e uma semana depois decidi.
Não levo mais o lixo para a lixeira.
Nem arrumo mais a bagunça das folhas no quintal.
Sinto muito.
Depois de ler percebi a estética dos pratos, a estética dos traços, a ética, a estática.
Olho minhas mãos bem mais macias que antes e sinto que posso começar a ser a todo instante.
Sinto.
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E-books cabo-verdianos (IBNL)
Uma excelente dica para adquirir livros cabo-verdianos do Instituto Biblioteca Nacional (IBNL) são os e-books à venda em http://www.recortes.cv/eBooks/ Títulos de Manuel Brito-Semedo, Carlota de Barros, Baltasar Lopes, Ondina Ferreira, entre outros.
Abraços,
Ricardo Riso
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