Conceição Evaristo lança o livro “Insubmissas lágrimas de Mulheres”, Editora Nandyala, no Espaço Cultural CEDIM Heloneida Stuart, às 18h30. A obra da renomada escritora é uma coletânea de 13 contos que têm como protagonistas mulheres negras que colocam seus anseios, dores, temores, retirando-se do lugar do sofrimento, transformando-o em resistência.
LANÇAMENTO DO LIVRO “INSUBMISSAS LÁGRIMAS DE MULHERES” DE CONCEIÇÃO EVARISTO
DATA: QUINTA-FEIRA, 8/12, ÀS 18H30
LOCAL: ESPAÇO CULTURAL CEDIM HELONEIDA STUART
ENDEREÇO: RUA CAMERINO, Nº 51 – CENTRO – RIO DE JANEIRO – RJ
Um espaço dedicado à literatura negro-brasileira, às literaturas africanas de língua portuguesa e demais literaturas negro-diaspóricas
quinta-feira, 8 de dezembro de 2011
Conceição Evaristo - Insubmissas lágrimas de Mulheres (lançamento RJ)
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quarta-feira, 7 de dezembro de 2011
Tchalê Figueira - Breve História Colonial em África
Para não esquecer o passado – Breve História Colonial em África, pinturas de Tchalê Figueira
Ricardo Riso
RESUMO: A sangrenta experiência colonial em África consolidada durante a Conferência de Berlim (1884-1885) é retratada de forma corrosiva nas pinturas da série “Breve História Colonial em África”, do artista plástico Tchalê Figueira, que objetiva não deixar que esse triste passado seja revisto de forma branda ou rasurado da História. Com isso, o artista procura desvelar terríveis personagens e demonstra a agonia dos povos africanos em um expressionismo voraz e de forte impacto. A análise aqui presente pretende mostrar como Tchalê Figueira realiza plasticamente suas denúncias ao sistemático genocídio de negros africanos durante o colonialismo. O suporte teórico escora-se nos historiadores Joseph Ki-Zerbo, Carlos Moore, Albert Memmi, entre outros.
Eis-me aqui África/ nas tuas entranhas/
de onde afinal/ nunca saí/
eis-me aqui África/ eis-me aqui/
aqui.
(Mário Fonseca)
Neste início de século XXI vivenciamos perigosos revisionismos históricos com o intuito de suavizar imensas tragédias da história da Humanidade, que encontram espaços generosos nos veículos de comunicação dominantes em uma procura incessante para silenciar as vozes de pesquisadores comprometidos com os estudos pós-coloniais, desveladores de visões que desmascaram os cínicos e hipócritas discursos hegemônicos.
Vários são os agentes nos países pós-coloniais nas diversas áreas do saber e das artes a lutarem contra a história oficial de suas nações. No continente africano essa situação é ainda mais grave, dentre vários motivos, em razão do recente processo de soberania desses países, principalmente as ex-colônias de língua portuguesa: Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique e São Tomé e Príncipe.
Atento ao tempo em que vive e às mazelas que uma perniciosa amnésia induzida em relação à representação do colonialismo em África, o artista plástico e também escritor Tchalê Figueira elaborou a recente série de pinturas intituladas “Breve História Colonial em África”, na qual procura resgatar terríveis passagens vivenciadas pelos africanos na virada do século XIX para o XX.
Atendendo sugestão de G. T. Didial, um dos heterônimos de João Manuel Varela, Carlos Alberto Silva Figueira passa a usar o nome Tchalê (nome pelo qual é conhecido pelos moradores de sua cidade) para designá-lo. Nasceu em 1953, no Mindelo, ilha de São Vicente, Cabo Verde. Aos 17 anos, em meio às guerras de libertação nas colônias africanas dominadas por Portugal, em um ato de rebeldia, Tchalê decide sair clandestinamente de Cabo Verde para não servir ao exército fascista português e assim lutar contra seus pares. Ruma a Roterdã, na Holanda, mas pouco tempo aí permanece. Viaja pelos mares da Europa à Ásia e às Américas. Em 1974, fixa-se na cidade da Basileia, Suíça, onde frequenta a escola de belas-artes e torna-se artista plástico. Retorna ao Mindelo somente em 1985 onde encontra-se até hoje. Atualmente é um dos mais prestigiados artistas plásticos de Cabo Verde com obra reconhecida por diversos países. Além disso, já possui uma considerável obra literária com os seguintes livros de poesia: “Todos os náufragos do mundo” (1992), “Onde os sentimentos se encontram” (1998) e “O azul e a luz” (2002); enquanto em prosa publicou “Ptolomeu e a sua viagem de circum-navegação” (2005), “Solitário” (2005) e “Contos da Basileia” (2011).
Acompanho com extremo interesse as obras plásticas e literárias de Tchalê Figueira através de seu blog “Arco da Velha” – tchale.blogspot.com – ou por redes sociais como o Facebook. Tchalê é um artista inquieto, indignado e revoltado com as injustiças de diversas ordens, principalmente as motivadas por políticos, e não deixa de expor suas opiniões com veemência. Essa vontade de manifestar-se a favor dos oprimidos acompanha suas pinturas, tornando-se uma característica costumeira. Estão lá representados os homens e mulheres marginalizados da cidade do Mindelo, na sua rua da Praia. Prostitutas, bêbados, traficantes, pescadores, pessoas ociosas do cotidiano e esquecidas pelo poder público, mas que ganham representatividade em suas telas. Uma pintura expressionista em suas formas distorcidas da figuração humana – geralmente em primeiro plano –, muitas vezes agressivas na denúncia social, em outras ocasiões apresentam-se irônicas, como também podem ser alegres nas celebrações festivas do cabo-verdiano. Suas cores obedecem a recusa de representação do real típica do fauvismo francês. Os fundos de suas telas costumam ser grandes manchas de cor, abstratizantes e de gestualidade agressiva como os melhores nomes do expressionismo abstrato, dentre tantos, Clifford Stills, são indefinidos e com a intenção de destacar a presença da figuração humana, pois é do homem que a obra deste mindelense se preocupa. Ou seja, Tchalê Figueira possui uma identidade plástica, ou como afirmou G. T. Didial: “há nestas obras uma linguagem própria e uma visão de mundo” (DIDIAL, 1999, p. 98). Traço característico e temáticas de forte contundência social são marcas as telas deste grande pintor.
Breve História Colonial em África
A partir de 1860 o continente africano sofre com os violentos ataques dos europeus, favorecidos por tecnologia bélica avançada à época, que Tchalê Figueira representa nas abomináveis figuras de Leopold II (Anexo I), rei da Bélgica, e incentivador das atrocidades cometidas no Congo, seguidas pelo desbravador e sanguinário Henry Stanley, representado na pintura “Henry Stanley, o monstro” (Anexo II) e “Stanley Cap” (Anexo III), para quem “os selvagens apenas respeitam a força, o poder, a audácia e a decisão” (SERRANO, WALDMAN, 2008, p.216), e pelo não menos abominável Guillaume Van Kerckhoven (Anexo IV) e do odioso Otto Von Bismarck na pintura “Clube alemão das colônias – Peitche und Zuken Brot” (Anexo V), um dos articuladores da Conferência de Berlim.
LEOPOLOD II DA BÉLGICA - O NOVO DONO DO REINO DO CONGO
HENRY STANLEY, O MONSTRO
STANLEY CAP
GUILLAUME VON KERKCHAVEN
CLUBE ALEMÃO DAS COLÔNIAS
Nas telas representativas desses repugnantes seres humanos, Tchalê recorre ao uso do texto para não deixar dúvidas sobre quem está representado. Para além da denúncia, salienta-se o caráter didático e necessário para que esses protagonistas do genocídio étnico não sejam rasurados da história africana. A representação da força e da soberania na figura ornada com suas patentes e designações reais de Leopold II (Anexo I), seu sorriso sádico em rosto típico de máscara africana, contrastam com o pavor dos africanos mortos e da presença predominante do vermelho a sangrar nosso olhar, a esquartejar nossa memória, e a partir daí, a retomada de consciência de um passado desesperador que a História não pode apagar. O pintor reflete em expressões hostis e sorrisos expondo carnívoros dentes as violentas ações desses monstros no período colonial. Aliás, de um modo geral, os sorrisos perversos com dentes escancarados são caracterizadores na obra plástica de Figueira dos líderes repressores da história da Humanidade em suas diversas facetas.
As expressões reveladas nas pinturas de Tchalê demonstram o ódio pelos africanos e o prazer que essas figuras tinham em cumprir as suas cruéis missões. Pinturas agressivas, todavia, jamais ultrapassariam os atos violentos motivados por seus personagens, que, infelizmente, foram reais. E trata-se de uma realidade para a qual não devemos esquecer. Homens que acompanharam o histórico de violência do tráfico negreiro e confirmaram a banalização de atos cruéis aos negros africanos. Cabe a lembrança de um artista ao qual a obra de Tchalê Figueira dialoga com frequência, e nessa série em especial, o inglês Francis Bacon, que também utilizava um expressionismo enfurecido para retratar a violência do cotidiano: “Quando trago a violência para pintura, dizia ele, não se trata da violência da guerra, mas, da violência da realidade por si mesma.” (SYLVESTER, 2007, p. 81).
Violência exacerbada na representação de sadismo e prazer no sorriso de Guillaume Van Kerckhoven (Anexo IV), com sua pose de satisfação em traje militar a exibir todas as suas medalhas ao cumprir a missão de exterminar negros, em contraponto às expressões aterrorizadas de incontáveis rostos de negros amontoados. Nesta pintura, Tchalê Figueira para demonstrar a imensa quantidade de africanos mortos utiliza um procedimento comum e consagrado na pintura do artista plástico moçambicano Malangatana Valente. Malangatana tinha como característica representar uma quantidade impressionante de pessoas espremidas em suas telas, comprimidos no espaço asfixiante da superfície pintada a revelar-nos a irracionalidade e desumanidade do colonialismo, e da desestabilização oriunda da repressão em cores contrastantes e impactantes. Para esta pintura de Tchalê resgato palavras de Mia Couto a respeito da pintura de Malangatana que encaixam com perfeição ao mostrado pelo mindelense:
Estes rostos repetidos até a exaustão do espaço, estas figuras retorcidas por infinita amargura são imagens deste mundo criado por nós e, afinal, contra nós. Monstros que julgávamos há muito extintos dentro de nós são ressuscitados no pincel de Malangatana.
Ressurge um temor que nos atemoriza porque é o nosso velho medo desadormecido. Ficamos assim à mercê destas visões, somos assaltados pela fragilidade da nossa representação visual do universo. (...)
No seu traço está nua e tangível a geografia do tempo africano. No jogo das cores está, sedutor e cruel, o feitiço, (...)
Estes bichos e homens, atirados para um espaço tornado exíguo pelo acumular de elementos gráficos, procuram em nós uma saída. A tensão criada na tela não permite que fiquem confinados a ela, obriga-nos a procurar uma ordem exterior ao quadro. Aqui reside afinal o gênio apurado deste ‘ingênuo’ invocador do caos, sábio perturbador das nossas certezas. (SECCO, 2003, pp. 224-225)
Como é possível conferir, as assustadoras imagens desses tristes representantes do colonialismo europeu não são mais horríveis do que as atitudes desumanas praticadas durante a conquista militar do continente africano. Figueira simplesmente transfere para suas pinturas as assombrosas ações do colonizador em África. A lembrança de Leopold II não é gratuita, pois promoveu um banho de sangue durante a ocupação do Congo em proporções maiores que o holocausto nazista, e está muito bem representado na pintura do cabo-verdiano. Escorro-me nas afirmações do historiador cubano Carlos Moore para lembrar que o Congo foi o “único caso de um país que fora incorporado à potência colonizadora como propriedade pessoal do chefe de Estado” (MOORE, 2009, p. 30). Ainda de acordo com o Moore, em 76 anos de colonização belga no Congo (1884-1960), estima-se que pereceram 25 milhões de pessoas. A violência desmedida – irracional define melhor – da colonização belga ultrapassa o absurdo, como podemos analisar na passagem abaixo incluída no livro de Moore e que se encontra no Wikipedia:
Para impingir as cotas de borracha, a Force Publique (Força Pública) foi instituida: de uso corrente, policiais, na sua maioria eram canibais do Lualaba. Armados com armas modernas e chicote. A “Força Pública” rotineiramente pegava e torturava reféns (na maioria mulheres), açoitavam, estupravam, incineravam aldeias e, acima de tudo, extirpavam mãos humanas como troféus mostrando que, quando as cotas não eram cumpridas, não estavam tendo vontade o suficiente de cumprir.
Um oficial branco de baixa patente descreveu uma incursão para punir uma aldeia que havia protestado. O oficial branco em comando: "Ordenaram-nos a cortar as cabeças dos homens e as pendurar nas cercas da aldeia, bem como seus membros sexuais, e pendurar as mulheres e crianças em forma de cruz". Após ver um íncola morto pela primeira vez, um missionário dinamarquês escreveu: "O soldado disse: 'Não leve muito a sério. Eles matam 'a nós' se não levarmos a borracha. O comissionário nos prometeu que se tivermos muitas mãos, ele encurtará nosso serviço'" Nas palavras de Peter Forbath:
“As cestas de mão cerradas, postas aos pés do chefe de posto europeus, tornaram-se o símbolo do Estado Livre do Congo. (...) A coleção de mãos se tornou um fim em si mesmo. Os soldados da “Força Pública” as traziam em vez da borracha; eles até mesmo iam colhê-las em lugar de borracha.(...) Elas tornaram-se um tipo de moeda. Elas são usadas para amenizar o déficit das cotas de borracha, substituir(...) o povo ao qual é exigido trabalhar para as gangues de trabalhos forçados; e os soldados da “Força Pública” tinham seus bônus pagos de acordo com quantas mãos eles coletavam. ”
Em teoria, cada mão direita provava um assassinato judicial. Na prática, soldados “trapaceavam”, simplesmente cortando a mão e deixando a vítima para viver ou morrer. Numerosos sobreviventes relataram que eles viveram além de um massacre fingindo de morto, não se movendo nem mesmo quando tinham suas mãos serradas. E esperavam os soldados partirem para então procurar socorro.
Estimativas do total das chacinas variam consideravelmente. O relatório famoso 1904 do diplomata britânico Roger Casement aponta para 3 milhões apenas nos 20 anos que o regime de Leopold durou; Forbath, no mínimo 5 milhões; Adam Hochschild 10 milhões; a Enciclopédia Britânica estima um declínio populacional de 20 ou 30 milhões para 8 milhões. (grifos do autor) (MOORE, 2009, p. 30-32)
A mutilação, a violência sexual e a matança indiscriminada de africanos foi uma prática comum em praticamente todo o continente africano. Milhões de negros foram mortos com sadismo e voracidade jamais vistas. Tchalê retrata a escravidão e o estupro feito com frequência nas mulheres negras, denunciando o caráter violento e forçado do início da miscigenação, principalmente nas colônias portuguesas, como mostram as pinturas “Violação I” (Anexo VI) e “Violação II” (Anexo VII). O detalhe para as expressões de horror e resignação dos oprimidos, assim como o vermelho dos corpos em analogia às batalhas desiguais travadas em solo africano que dizimaram um número incalculável de vítimas.
VIOLAÇÃO I
VIOLAÇÃO II
O historiador Joseph Ki-Zerbo é enfático ao afirmar o que os negros africanos vivenciaram a partir do tráfico negreiro e durante o período da colonização com o incontornável apoio da Igreja Católica:
Nenhuma coletividade humana foi mais inferiorizada do que os negros depois do século XV. Foram encomendados escravos negros aos milhões; utilizaram-se os negros como reprodutores de outros negros, em “coudelarias” constituídas para reproduzir novos negrinhos para o trabalho nas plantações. Quantas crianças africanas foram jogadas dos navios, ou abandonadas nos mercados escravos, longe das mães que eram levadas, porque era preciso muito tempo para alimentá-las até que fossem exploráveis? Os escravos eram comprados às toneladas. Amputava-se e esquartejava-se como carne bruta os rebeldes ditos “negros castanhos”. Durante esse tempo, na Europa, os teólogos debatiam doutamente a questão de saber se os negros tinham alma. Foi uma pergunta que não se fez a propósito de outros grupos humanos (KI-ZERBO, 2009, p. 24).
Como este texto procura desvelar as atrocidades aos povos do continente africano, salientamos que as colonizações realizadas pela Bélgica e Portugal foram marcadas pela violência extrema, em razão da
estrutura capitalista débil na comparação com países como a França e a Inglaterra, viram-se obrigados a recorrer a uma brutalidade maior, e não menor, no trato das populações dominadas. Isso porque, destituídos de capacidade de implantar sistemas dotados com maior composição orgânica de capital, tinham de recorrer, para competir com um mínimo de eficiência diante de nações capitalistas mais desenvolvidas, a todas as formas possíveis de coerção, inclusive as que se aproximavam da escravidão (SERRANO; WALDMAN, 2008, p.221).
Para além dos assassinatos em série cometidos sob a liderança de Henry Stanley, não devemos esquecer a criação das famigeradas legiões estrangeiras pela França e pela Espanha, ambas marcadas pela agressividade no trato das populações africanas e pela longa folha de serviços prestada ao domínio colonial (SERRANO, WALDMAN, 2008, p.216).
Carlos Moore chama atenção para a limpeza étnica ocorrida no continente africano durante a colonização. Moore afirma que “muitos continuam ignorando ou minimizando o fato de que a colonização da África foi um verdadeiro genocídio contra a raça negra” (MOORE, 2009, p. 29). Por isso, a importância desta série de intervenção realizada com furor expressionista e indignação por Tchalê Figueira.
A Conferência de Berlim (1884-1885) marca o auge da supremacia europeia no continente africano após diversos e sangrentos conflitos onde milhares de vidas foram ceifadas em nome da civilização, da fé e do progresso branco europeu. O desprezo aos africanos e a prepotência colonizadora foi de tal ordem que pode ser sentido na declaração do britânico Lord Salisbury a respeito da partilha realizada: “Traçamos linhas sobre mapas de regiões onde o homem branco nunca tinha pisado. Distribuímos montanhas, rios e lagos entre nós. Ficamos apenas atrapalhados por não sabermos onde ficavam estas montanhas, esses rios e esses lagos” (SERRANO; MUNANGA, 1995, p. 6. Apud: SERRANO, WALDMAN p.212).
A prepotência europeia é retratada na pintura “Com régua e esquadro dividiram o cake” (Anexo VIII), que de forma impactante representa a arbitrariedade do encontro dos países imperialistas assinalados nas cadeiras e do caos civilizador imposto aos africanos. A violência das figuras ilustradas na parte inferior da pintura pode representar a caótica situação e o desespero que se apoderou dos africanos desde o período do tráfico negreiro, alimentado por conflitos criados pelos invasores europeus entre as etnias africanas para assim enfraquecê-las e atingirem com maior rapidez os seus objetivos nefastos. Por outro lado, os colonizadores disputavam entre si as terras africanas. Nesse sentido, deve-se recordar o momento ruim de Portugal com economia fragilizada e pressionado pela Inglaterra, nação hegemônica da época, que
rifou o projeto português do mapa cor de rosa, pelo qual os territórios entre Angola e Moçambique, correspondendo aos atuais Zimbabwe, Malawi e Zâmbia, constavam como um domínio dos lusos. Portugal foi obrigado a recuar diante das pressões britânicas e da ameça de guerra entre os dois países (1890). (SERRANO; WALDMAN, 2008, p.210-211)
COM RÉGUA E ESQUADRO DIVIDIRAM O CAKE
O mapa do terror da ganância europeia foi dividido desconsiderando quaisquer opiniões de líderes africanos e assim demonstrado pela pintura voraz de Figueira em “Assim estava dividido o cake” (Anexo IX). As caveiras fantasmagóricas mostram o estado de espírito do continente africano. Novamente o caráter didático a mostrar a partilha realizada pelos colonizadores, revelando a maneira acintosa a qual o continente foi subjugado. Vale salientar o destaque à Etiópia, única nação que conseguiu manter sua soberania ao preço de muito sangue e de vidas de seus cidadãos.
ASSIM DIVIDIRAM O CAKE
Essa partilha do continente africano não foi bem digerida por Alemanha e Itália, nações atrasadas em seus processos de unificação, por conseguinte, ficaram com colônias menores. As grandes faixas de terra sob dominação portuguesa foram motivo de interesse dos alemães, por exemplo. Para retratar este temor de um eventual ataque alemão às colônias, verificamos a aflição do pré-claridoso Pedro Cardoso n’As Crónicas do AFRO, publicada no jornal A Voz de Cabo Verde de 8 de abril de 1912, e sua posição ambígua em relação ao colonizador luso em uma possível tomada das colônias portuguesas em África pelos alemães:
A armipotente Alemanha, fechando os olhos à conquista da Tripolitana pela sua amiga e aliada transalpina entendeu-se com a França sobre o Marrocos, com a Espanha sobre Fernando Pó, Guiné Espanhola e, quem sabe? sobre Portugal e agora quer entender-se com a Inglaterra...
Todos esses entendimentos visaram desde o seu início as possessões portuguesas. A esperta chancelaria leutónica tem procurado pela condescendência e satisfação às ambições das potências rivais assegurar que a premeditada rapinagem do Ultramar português se faça sem protesto (...)
Quem escreve estas linhas nasceu em África mas é português, não só pela bandeira como pelo sentimento e sangue.
(...) apesar de saber – pelo confronto – que a administração alemã oferece mais certas garantias de progresso às colónias no estado e circunstâncias portuguesas, não posso fazer calar o meu coração. Não posso conformar-me à horrorosa ideia de que serei obrigado a não falar, a não cultivar esta formosíssima língua toda feita de harmonia e doçura, em que balbuciei as minhas primeiras canções, destronada, substituída por aquela que escreve Goeth, é certo, mas sabendo a cerveja, desarmoniosa, gutural e arrepiante, como o cavo rugir do urso, ou como o horrendo gargalhar da estrige agoirenta.
Não! Antes mil vezes o pobre e lusitano do que rico e alemão. Não! (BRITO-SEMEDO; MORAIS, 2008, p. 132)
Com a colonização implantada no continente, valores ocidentais distantes dos africanos passam a ser implantados. Eles perdem completamente poderes político, econômico e militar. Seguem décadas de violência e racismo declarado, o homem branco europeu escora-se nas deploráveis teorias positivistas de supremacia racial e inferioridade do negro predominantes na derradeira metade do século XIX, subjugando os africanos ao que havia de mais tenebroso na espécie humana. Para Joseph Ki-Zerbo:
A colonização foi muito mais curta do que o tráfico negreiro, mas foi mais determinante. O colonialismo substituiu inteiramente o sistema africano. Fomos alienados, isto é, substituídos por outros, inclusive no nosso passado. Os colonizadores prepararam um assalto à nossa história. O ‘pacto colonial’ queria que os países africanos produzissem apenas produtos em bruto, matérias-primas a enviar para o Norte, para a indústria europeia. A própria África foi aprisionada, dividida, esquartejada, sendo-lhe imposto esse papel: fornecer matérias-primas. Esse pacto colonial dura até hoje. (KI-ZERBO, 2009, p. 25)
Para justificar a sua postura, o colonizador escora-se na arrogância e na prepotência, elevando os seus feitos e rebaixando tudo o que for relacionado ao colonizado, sendo este atingido moral e fisicamente, conforme diz Memmi:
Como pode a usurpação passar por legitimidade? Duas operações parecem possíveis: demonstrar os méritos eminentes do usurpador, tão eminentes que clamam por semelhante recompensa; ou insistir nos deméritos do usurpado, tão graves que não podem senão suscitar tal desgraça. E esses dois esforços são de fato inseparáveis. Sua inquietude, sua sede de justificação exigem do usurpador, ao mesmo tempo, que se eleve a si mesmo até as nuvens e que afunde o usurpado mais baixo que a terra. (MEMMI, 2007, p. 57)
Como sequência a esse pensamento, o ódio do colonizador age com extrema brutalidade, impõe suas certezas e frisa as diferenças que justificam a submissão do colonizado:
Utilizará para descrevê-lo as cores mais sombrias: agirá, se for preciso, para desvalorizá-lo, para anulá-lo. Mas não sairá jamais deste círculo: é preciso explicar a distância que a colonização estabelece entre ele e o colonizado; ora, a fim de justificar-se, é levado a aumentar mais ainda essa distância, a opor irremediavelmente as duas figuras, a sua tão gloriosa, a do colonizado tão desprezível. (MEMMI, 2007, p. 58)
Retomo Ki-Zerbo para demonstrar como era o ensino nas colônias, comum a todas elas, legando ao ostracismo a história e a cultura dos povos autóctones:
(...) a história africana era desconhecida. Fiz todos os meus estudos no âmbito francês, com manuais franceses. Não havia nada no programa que tratasse da África. Ainda pequenos, tínhamos de utilizar um livro de História francês que começa assim: “Nossos antepassados, os gauleses...” Repetimos maquinalmente o que queriam inculcar-nos. (KI-ZERBO, 2009, p. 14)
Esse colonizador, representante da civilização europeia, demonstrou a pior faceta do homem perante o seu semelhante durante o período da colonização e fez (e faz) do racismo a principal arma para massacrar os africanos. Esse mesmo “bárbaro civilizador” (Anexo X) que caçava, matava ou traficava animais (Anexo XI) da diversificada fauna africana e que permanece com a sua sanha usurpadora das riquezas minerais de todo o continente africano (Anexo XII) agora com a máscara do neoliberalismo, ou o neocolonialismo.
O BÁRBARO CIVILIZADOR
SEM TÍTULO 4
Entretanto, boa parte dos africanos jamais aceitou a dominação colonial, exceto as elites vassalas que mantinham a posição subalterna perante o colonizador branco. O racismo à população negra, tanto em África quanto na diáspora, estimulou o surgimento de dois movimentos de alcance mundial: a negritude e o pan-africanismo. Esses dois movimentos tiveram suas ressonâncias na política, na literatura, na história e em demais áreas do conhecimento. Seus líderes e simpatizantes foram agentes históricos em prol do fim do colonialismo em África, por conseguinte, da independência dos países africanos e contra a discriminação racial ao negro no restante do mundo. Esses dois movimentos estimularam líderes cativantes e a população de negros a reivindicar e lutar pela libertação dos países africanos, com maior ênfase a partir do fim da II Guerra Mundial e consequente enfraquecimento dos países europeus. As batalhas pela descolonização foram sangrentas, trazendo a morte para milhões de africanos. Somente de líderes pan-africanistas, Carlos Moore enumera 37 nomes assassinados “entre 1957, data da independência de Gana, e 1987, data do assassinato do último dirigente declaradamente pan-africanista, Thomas Sankara” (MOORE, p. 48). Mas o processo era irreversível, a História foi feita e a duras penas os países africanos conseguiram eliminar o famigerado colonialismo. Infelizmente, as novas nações dizimadas por séculos de opressão e usurpação ainda sofrem as consequências do atraso e estão hoje enfrentando as imposições da política neoliberal e das grandes empresas que praticamente dominam as economias dos países mais ricos do mundo.
Conclui-se que na crueldade retratada na série “Breve História Colonial em África”, o artista e ativista Tchalê Figueira crê na função social da arte como reveladora de vozes adormecidas, escancarando as feridas, sangrando as vísceras do passado colonial de injustiças que se perpetuam no presente, incomodando os olhares daqueles que desejam o esquecimento das atrocidades desse período. Por outro lado, pinceladas como facas a esquartejar as mentes obliteradas dos que não tiveram acesso ou foram obstruídos em sua instrução a esse triste passado colonial, ainda sangrento na crueldade dos dias contemporâneos em África. Pinturas a clamar liberdade e o direito à vida, suprimido de boa parte dos africanos. Pinturas de um humanista ao extremo, seguidor da “postulação irritada da fraternidade” de Aimé Cesaire e parafraseada pelo poeta cabo-verdiano Mário Fonseca. Pinturas que pretendem resgatar a história de sofrimento e dor dos africanos, assim como resgatar o necessário sentido solidário, político, denunciador e combativo do pan-africanismo. Tchalê segue uma tradição de obras de arte denunciatórias contra a Humanidade explicitada em Pablo Picasso com Guernica e as obras feitas durante a II Guerra Mundial, Francisco Goya e a série de gravuras Desastre da Guerra, e as pinturas de Malangatana Valente durante o período colonial em Moçambique e durante a guerra de desestabilização já com a nação independente. Tchalê Figueira integra um grupo de homens cada vez mais raros. Dos inconformados.
Encerro com um poema deste pintor-poeta Tchalê Figueira:
Do lado neutro da trincheira
Contempla a tua obra!...
Canta!... Glorifica teus mortos
Vê as suas frias camas
De poeira vermelha
Corpos radioactivos
Crianças deformadas,
Rostos empobrecidos em urânio
Cabeças rapadas
Hospital de angústias
Mercenários rugindo
Alfabeto de mortos
Artéria podre do paraíso
África encharcada de vírus
Coreografia abominável
Petróleo de sangue
Diamantes brilhantes
Em dedos de abutres.
BIBLIOGRAFIA:
BRITO-SEMEDO, Manuel; MORAIS, Joaquim. Pedro Cardoso – textos jornalísticos e literários: parte I. Praia: Instituto da Biblioteca Nacional e do Livro, 2008.
DIDIAL, G. T. Tchalê Figueira – pintor das grandes e pequenas vicissitudes cabo-verdianas. Anais – Associação de Estudos de Culturas Comparadas. Mindelo: Cabo Verde. v. 2. n. 3. dez/2000. pp. 97-99
FONSECA, Mário. Se a luz é para todos. Praia: Publicom, 1998.
KI-ZERBO, Joseph. Para quando África? – Entrevista com René Holenstein. Rio de Janeiro: Pallas, 2006.
MEMMI, Albert. Retrato do colonizado precedido do retrato do colonizador. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2007.
MOORE, Carlos. Da África mítica à África real: para uma cooperação realista entre a África e a diáspora. In: A África que incomoda – sobre a problematização do legado africano no quotidiano brasileiro. Belo Horizonte: Nandyala, 2009. p. 11-65.
RISO, Ricardo. Tchalê Figueira. Disponível em < http://ricardoriso.blogspot.com/2007/07/tchal-figueira.html > Acessado em 6 de dezembro de 2011.
SECCO, Carmen Lucia Tindó. Craveirinha e Malangatana: cumplicidade e correspondência entre as artes. In: A magia das letras africanas: ensaios escolhidos sobre as Literaturas de Angola, Moçambique e alguns outros diálogos. Rio de Janeiro: ABE Graph Editora. Rio de Janeiro, 2003.
SERRANO, Carlos; WALDMAN, Maurício. Memória D’África – a temática africana na sala de aula. 2. ed. São Paulo: Cortez, 2008.
SYLVESTER, D. (2007). Entrevistas com Francis Bacon. São Paulo: Cosac Naif. In: BORGES, Sonia. Francis Bacon: destituição subjetiva e formalização da obra de arte. Psicanálise & Barroco em revista. v.8, n.2, pp. 38-48, dez.2010
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terça-feira, 6 de dezembro de 2011
Luís Carlos Patraquim - Antologia Poética (ED.UFMG)
Luís Carlos Patraquim - Antologia Poética
Carmen Lucia Tindó Secco (Organizadora)
Editora UFMG
Coleção: Poetas de Moçambique
Coleção: Poetas de Moçambique
2011. 187 p. ISBN: 978-85-7041-910-1
Este livro apresenta a obra de Luís Carlos Patraquim entre 1980 e 2010. Considerado por críticos e especialistas como um dos maiores poetas moçambicanos vivos, Patraquim teve papel importante e inovador na literatura, cinema e jornalismo de Moçambique. Sua primeira obra, Monção (1980), que introduz esta antologia, demarcou o início de uma outra estação literária em Moçambique, até então marcada pela poesia panfletária. A nova vertente passou a aliar a reflexão aos sentidos, construindo poemas dotados da capacidade de enaltecer a vida, acreditar no amor, despertar os desejos, desbravar o espaço onírico, repensar a própria poesia.
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segunda-feira, 5 de dezembro de 2011
Conceição Evaristo e Amélia Dalomba em Belo Horizonte (MG)
A NANDYALA Editora convida você para coquetel de lançamentos
07/12, quarta-feira, 19h30
Biblioteca Pública Estadual Luiz de Bessa - Praça da Liberdade – Belo Horizonte - MG
Insubmissas lágrimas de mulheres, contos
Conceição Evaristo (Brasil)
Uma mulher ao relento, romance
Amélia Dalomba (Angola)
CONCEIÇÃO EVARISTO
O LIVRO: Insubmissas lágrimas de mulheres, Editora Nandyala, Belo Horizonte, 2011.
A antologia Insubmissas lágrimas de mulheres é composta de 13 contos, cujas histórias têm como protagonistas mulheres negras. De dentro da cena, vozes-mulheres explicitam suas dores, anseios, temores, mas, antes de tudo revelam a imensa capacidade de se retirem do lugar do sofrimento e inventarem modos de resistência. Uma intima fusão entre as personagens, a voz ficcional de quem apresenta essas personagens e a autora, marca o processo criativo dos textos e afirma o projeto literário de Conceição Evaristo, o de traçar uma escrevivência.
A AUTORA: Conceição Evaristo é Mestre em Literatura Brasileirapela PUC Rio, e Doutora em Literatura Comparadapela Universidade Federal Fluminense. Estreou na literatura em 1990, na série Cadernos Negros, antologia editada anualmente pelo Quilombhoje, de São Paulo, grupo de escritores afro-brasileiros reunidos, desde 1978. Dentre várias antologias lançadas no Brasil, a autora participa do livro Contos Afros, organizado por Marcio Barbosa (Quilombhoje), patrocinado pela Prefeitura de Belo Horizonte; no livro Contos do mar sem fim, da Editora Pallas, Rio de Janeiro e na Antologia Questão de Pele, da Editora Língua Geral, Rio de Janeiro, e vem mantendo uma constante publicação de poemas e contos, em Cadernos Negros. A escritora participa também de publicações, em antologias, na Alemanha, Inglaterra, Estados Unidos, África do Sul e em Angola.
É autora dos romances Ponciá Vicêncio e Becos da memória (Mazza Edições). O primeiro foi um dos livros indicados para o vestibular da UFMG, para o CEFET/MG e mais quatro faculdades de Minas Gerais em 2007, sendo ainda indicado como uma das obras do vestibular de 2008 e 2009 da Universidade Estadual de Londrina.
A obra Ponciá Vicêncio foi traduzida para o inglês, pela Host Publications, Texas, nos Estados Unidos, em 2007.
Em 2008, Conceição Evaristo lançou a antologia Poemas da Recordação e outros movimentos, (Nandyala Editora), obra que se classificou entre os 50 finalistas concorrentes ao Prêmio Portugal Telecom, no ano de 2009.
A produção de Conceição Evaristo é ampla, abarcando o campo da poesia, da prosa e do ensaio literário. Como escritora, ela tem sido convidada para participar de eventos acadêmicos e literários no Brasil e no exterior e tem marcado também presença nos movimentos sociais, notadamente, nos que se relacionam com a luta dos afro-descendentes.
OBRAS INDIVIDUAIS:
Ponciá Vicêncio (romance) Belo Horizonte, Mazza Edições, 2003/2005
Becos da memória (romance) Belo Horizonte, Mazza Edições, 2006.
Poemas da recordação e outros movimentos (antologia poética), Belo Horizonte, Nandyala, 2008.
Insubmissas lágrimas de mulheres (contos), Belo Horizonte, Nandyala Editora, 2011.
AMÉLIA DALOMBA
Sobre o livro: Uma mulher ao relento, Nandyala Editora, Belo Horizonte, 2011.
O romance Uma mulher ao relento trata da trajetória de vida da narradora que, em primeira pessoa, revela suas tristezas, alegrias, indignações e resistências à prática contemporânea do alembamento (cerimônia do dote oferecido à família da noiva, quando de oficializa o trato do casamento entre as famílias envolvidas) que não respeita a mulher como sujeito ou senhora de seu futuro, contrariamente às tradições bantoangolanas, de base matriarcal. Esta obra consolida a maturidade da produção literária de Amélia Dalomba, nas tensões cotidianas das relações de gênero.
Sobre a autora: AMÉLIA DA LOMBA , nasceu na Cidade de Cabinda, Angola. Tem artigos e poemas publicados em revistas e jornais e participações em CDs musicais angolanos, com letras e músicas. Ministra palestras sobre literatura e culturas de Angola, bem como sobre as relações de gênero em seu país.
Estudou Psicologia Geral e simultaneamente desenvolveu a sua atividade profissional na área do Jornalismo, nomeadamente o jornalismo radiofônico e de imprensa. É colaboradora do Jornal de Angola, tendo publicado alguns dos seus textos poéticos na sua página cultural. Frequentou diversos seminários de Jornalismo, Administração e Gestão de Empresas e Formação Política.
Integrando a geração de 80, denominada pelo crítico e poeta Luís Kandjimbo como a "Geração das Incertezas", ao lado de nomes como Ana Paula Tavares, Ana de Santana, Lisa Castel, entre outros, Amélia Dalomba é uma das novas vozes femininas do universo literário, cujo contributo se reveste da maior importância para o desenvolvimento da poesia angolana. Como a obra dos restantes poetas dessa geração, filha da geração da guerra colonial, a sua poiesis, assentando num projeto metalinguístico e literário de recuperação da língua, constituiu-se como um espaço de denúncia da realidade angustiante vivida na sua Angola pós-independência, sem cair no "panfletarismo ideológico" que, muitas vezes, compromete a qualidade estética.
Fruto da grande desilusão provocada pela situação de corrupção, de fome, de miséria e de total desrespeito pelos direitos humanos, que caracteriza Angola, a poesia desta autora projeta, então, um "sujeito poético" desconcertado e desiludido, que vai usar a melancolia, associada à resistência, como forma de se libertar da catástrofe social que o envolve.
É galardoada com a Ordem do Vulcão – Medalha de Mérito de 1º Grau da República de Cabo Verde.
A sua poesia está incluída em coletâneas e livros coletivos, nomeadamente:
– Antologia da Poesia Feminina dos Palop (1998), do crítico Espanhol Xosé Lois Garcia
– Antologia do Mar na poesia Africana de Língua Portuguesa do século XX, Angola (2000), de Carmen Lúcia Tindó- crítica Brasileira
– Antologia “O Amor tem Asas de Ouro” – UEA (2006)
– Antologia da Moderna Poesia Angolana de Botelho de Vasconcelos – UEA (2006)
– Cacimbo 2000 - editora Patrick Houdin-Allliance Francaise de Luanda
– Participação no Livro Meu Céu, Céu de todos, Céu de Cada Um, de Renan Medeiros - Editora Zian- (2006)
Obras individuais:
– Ânsia – Editora da UEA. (1995)
– Sacrossanto refúgio – Editora Edipress (1996)
– Espigas do Sahel – Editora kilomlombe (2004)
– Noites ditas à chuva – Editora da UEA (2005)
– Sinal de mãe nas estrelas– Zian Editora (2007)
– Aos teus pés quanto baloiça o vento – Zian Editora (2008)
– CD Verso Prece e Canto – Música Instrumental - Editora N’Gola Música (2008)
– NSINGA – o mar no signo do laço – Editora Mayamba (2011)
– Uma mulher ao relento – Editora Nandyala (2011)
INFORMAÇÕES: (31)3281-5894
NANDYALA Editora
Av. do Contorno, 6.000 - Loja 01 - Savassi
3110-060 - Belo Horizonte - MG
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sábado, 3 de dezembro de 2011
André V. de Figueiredo - O caminho quilombola (lançamento RJ)
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Shilambwashi Shetu: esta terra é nossa (cinema moçambicano)
Shilambwashi Shetu: esta terra é nossa - 110 anos de um combatente Makonde
(curta-metragem moçambicano)
O filme fala de um antigo combatente, ex-prisioneiro da PIDE que perde toda a sua juventude nos desígnios da Pátria. Um homem marcado pelo sofrimento, e apesar dos seus 110 anos, há sempre tempo para viver um amor.
Para ver o documentário clique no link abaixo:
https://www.youtube.com/watch?v=39IF2SwdrhI&feature=player_embedded
Direção: Albino Moisés
Câmera: Emílio Baloi
Produção: Natalina Fernando
Assistente de Produção: Teodosio Langa
Música: Helder Mondlane
(curta-metragem moçambicano)
O filme fala de um antigo combatente, ex-prisioneiro da PIDE que perde toda a sua juventude nos desígnios da Pátria. Um homem marcado pelo sofrimento, e apesar dos seus 110 anos, há sempre tempo para viver um amor.
Para ver o documentário clique no link abaixo:
https://www.youtube.com/watch?v=39IF2SwdrhI&feature=player_embedded
Direção: Albino Moisés
Câmera: Emílio Baloi
Produção: Natalina Fernando
Assistente de Produção: Teodosio Langa
Música: Helder Mondlane
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quinta-feira, 1 de dezembro de 2011
Documentários de Cabo Verde no Rio de Janeiro
Documentários de Cabo Verde no Rio de Janeiro
Ricardo Riso
Resenha publicada no semanário A Nação, n. 222, p. E-18, de 1 de dezembro de 2011.
A quinta edição do Encontro de Cinema Negro Brasil, África & Caribe, curadoria de Zózimo Bulbul, no Rio de Janeiro de 24/11 a 01/12, trouxe dois documentários com temas cabo-verdianos: “São Tomé: os últimos contratados” (dir. Leão Lopes) e “Fragmentos de Mindelo” (FM) (Projeto dos cursistas da Especialização em Cinema do M_EIA/2011).
FM reúne seis pequenos curtas com diferentes facetas, em sua maioria marginalizadas, da cidade do Mindelo. O primeiro chama-se “Valentina”, no qual uma velha senhora conta histórias do passado colonial, trata das grandes secas nos anos 1940, recorda os tempos de prosperidade vivenciados na Ilha do Sal e critica os novos hábitos da contemporaneidade.
Já em “Ribeira Bote: primeira zona libertada” mostra o preconceito sofrido pelos moradores da região, histórico lugar de resistência anticolonial. Por ser uma área conhecida pela violência, precisam mentir o local onde vivem para conseguir emprego. Esses jovens desempregados e sem perspectivas chamam o lugar onde moram de B13, em referência ao filme francês homônimo que mostra moradores excluídos pela sociedade em um gueto cercado por um grande muro na Paris contemporânea, e expressam suas indignações através do rap. Tratados como párias sociais no cruel e insensível jogo pós-moderno - recorda-se o “cosmopolitismo do pobre” do crítico Silviano Santiago -, a apropriação e a identificação com o gueto francês B13 pelos jovens mindelenses demonstra, no contexto contemporâneo de um país independente, a guetização permanente sofrida pelos viventes da Ribeira Bote. Seus depoimentos são intercalados aos mais velhos que participaram das rebeliões e criavam barricadas para dificultar o acesso das forças coloniais.
“Trazêm uma cosa” mostra os itens diversos que a comunidade cabo-verdiana nos EUA envia para os familiares no arquipélago. Lembra o que Eugénio Tavares defendia em suas crônicas da importância do ilhéu partir para a emigração e sustentar sua família com a renda recebida na terra-longe, deixando seus parentes em condições de vida melhores as quais permanecesse em Cabo Verde.
“Pinkim Senegal” apresenta o preconceito ao imigrante africano no Mindelo, onde comunidade mulçumana de senegaleses, pejorativamente chamados de “mandjacos”, atua no comércio em feira popular.
“Mandingas” mostra manifestação afro-crioula no carnaval mindelense com o bloco “mandingas”. Participantes – homens e mulheres – pintam-se de preto, usam ornamentos de guerreiros africanos e saem pelas ruas da cidade expressando sua alegria. O bloco contribui para o resgate da autoestima dos moradores e é uma demonstração de valorizar a afro-crioulidade do cabo-verdiano.
“Casalata” demonstra o problema da moradia para os menos favorecidos no Mindelo. Uma família em condições paupérrimas vive amontoada em uma casa feita com pedaços de metal e sofre com as autoridades locais por se tratar de uma construção em local irregular.
“São Tomé: os últimos contratados”. O corrosivo documentário denuncia como vivem hoje os cabo-verdianos que foram contratados para trabalhar nas lavouras de São Tomé e Príncipe no período de 1950 a 1970, considerado o último fluxo de contratados para este arquipélago. Retrata o cotidiano de pobreza extrema de boa parte dos já velhos cabo-verdianos e seus descendentes, cidadãos são-tomenses, e o preconceito que sofrem na sociedade por serem estrangeiros. Depoimentos narram como eram realizadas as contratações, a violenta repressão colonial no arquipélago, as péssimas condições de trabalho que mais era uma escravidão, como fazem para se sustentar, as manifestações religiosas, a confraternização com um campeonato de futebol e o resgate de raízes e autoestima com o batuque realizado por um grupo de mulheres. Documentário forte, por outro lado, sensível e humano.
Um olhar diaspórico e um diversificado panorama do Mindelo contemporâneo. Dois documentários que contribuem para compreensão da cultura cabo-verdiana.
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Ricardo Riso
Lia Vieira - "Só as mulheres sangram" (lançamento N.IguaçuRJ)
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quarta-feira, 30 de novembro de 2011
Nina Silva e Akins Kintê - “Incorporos - Nuances de Libido” (lançamento RJ)
Livro “Incorporos - Nuances de Libido”. É Prazer em versos da Poesia Negra.
O lançamento do livro “InCorPoros – Nuances de Libido” dos autores Nina Silva e Akins Kintê será no dia 01 de dezembro, a partir das 19h, no Centro de Artes Caloustre Gulbenkian (rua Afonso Cavalcanti, 125 – próximo ao Terreirão do Samba). Para este dia, a programação inclui apresentação musical com Augusto Bapt e o Jongo Contemporâneo, dança afro e recital de poesia e literatura preta erótica. Entrada gratuita.
Pele, suor, envolvimento e sensibilidade. É assim que os autores do livro “Incorporos- Nuances de libido” oferecem aos leitores e leitoras suas poesias. Depois de ser lançando na cidade de São Paulo, chegou a hora da cidade carioca apreciar o prazer desta escrita literária. O livro lançado com o selo do Ciclo Contínuo de Literatura, além de ser pura poesia desnuda e erótica, traz uma particularidade: ele busca traduzir o ato singular de dois corpos no furor dos relacionamentos entre homens negros e mulheres negras.
Autores: Nina Silva e Akins Kintê
Edição: Ciclo Contínuo de Literatura
Organização: Marciano Ventura
Capa: Iléa Ferraz
Desenhos: Marcos Sousa Ferraz
Diagramação e arte finalista: Denis Quintal
Prefácio: Lia Vieira
Serviço:
Lançamento do livro “InCorPoros – Nuances de Libido”
Onde? Centro de Artes Calouste Gulbenkian (rua Afonso Cavalcanti, 125 – Centro / RJ – próximo ao Terreirão do Samba).
Quando? 01 de dezembro.
Que horas? A partir das 19h.
Realização: Burburinho Soluções Produções Artísticas - http://burburinhoproducoes.blogspot.com/
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Nina Silva
Homenagem às Damas Negras - Renascença Club
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