UMA INICIATIVA DO MOVIMENTO KUPHALUXA.
http://festivalliterariodemaputo.blogspot.com/
Maputo será palco de debates literários e palestras que juntarão Governo, escritores, docentes de literatura e de língua portuguesa, artistas musicais e jornalistas, numa iniciativa denominada “Semana Literária”, levada a cabo pelo Movimento Literário Kuphaluxa, na semana em que comemora o seu segundo aniversário de criação. A decorrer nos dias 09, 12 a 16 de Dezembro em curso, o evento visa igualmente marcar o início das acções rumo à realização daquela que será a primeira Festa Literária de Maputo, e acontece no Centro Cultural Brasil – Moçambique em Maputo, entre as 17 e 20 horas.
Durante seis dias, cerca de nove temas serão debatidos seis temas, proferidas duas palestras e uma conversa lírica, a terminar com um sarau cultural intitulado “A encarnação do verbo”, para marcar a festa dos dois anos do movimento. A “Semana Literária” vai começar debatendo as questões do Livro como património e base de construção sociocultural, no dia 09 de Dezembro (sexta-feira) as 18 horas, pelos ministérios da Educação e da Cultura, Celso Muianga da editora Ndjira e a Associação dos Escritores Moçambicanos (AEMO), com a moderação do filósofo, escritor, crítico literário e docente universitário, António Cabrita.
Segunda-feira, dia 12 de Dezembro, as 17 horas, será a ver do tema “A organização dos escritores e o seu papel para a construção de um Moçambique Literário” a ser debatido pelo Secretário-geral da AEMO, Jorge de Oliveira e pelo escritor, Juvenal Bucuane. No mesmo dia, as 18 e 30, os jornalistas e linguistas, vão debater, as páginas culturais e a abordagem dos assuntos literários, num debate a contar com três painelistas, nomeadamente, Policáripio Mapengo, jornalista do grupo SOICO (O País e Stv), Nélio Nhamposse, escritor e revisor linguístico, Rogério Guambe, linguista e director da Rádio Cidade em Maputo.
O actual estágio da Literatura Moçambicana e o surgimento de novos autores estará em discussão num debate encabeçado pelo escritor e docente de literatura moçambicana na Universidade Eduardo Mandlane, Lucílio Manjate, AEMO e pela editora Ndjira, na terça-feira, dia 13 de Dezembro as 17 horas.
Já no dia seguinte, quarta-feira, 14 de Dezembro, a escritora Ana de Sousa Baptista na companhia do escritor, docente universitário e membro da comissão nacional do Instituto Internacional de Língua Portuguesa, Calane da Silva, vão reflectir sobre “as vantagens e desvantagens da ratificação do Acordo Ortográfico para a Literatura de língua portuguesa”, as 17 horas. As 18 e 30 do mesmo dia, os escritores Élio Martins Mudender e Alex Dau, vão orientar uma palestra sobre “o ser escritor, o que escrever e para quê escrever”.
Quinta-feira, 15 de Dezembro, será a vez das mulheres. As escritoras Emmy Xyx e Rinkel, vão debater o espaço que as mulheres ocupam na literatura moçambicana, com a moderação da ensaísta e docente universitária, Sara Jonas, seguindo do tema “Revistas Literárias – a nascente dos escritores moçambicanos”, orientado por Pedro Chissano, que versará sobre a revista Charrua, Aurélio Furdela versará sobre a revista Oásis e por último Eduardo Quive, vai falar sobre a revista Literatas.
A ENCARNAÇÃO DO VERBO
Sexta-feira, dia 16 de Dezembro, os ânimos da Semana Literária vão centrar-se, primeiro, numa Conversa Lírica intitulada “Ritmo, Arte e Poesia” com o rapper do agrupamento Xitiku ni Mbaula, Dinguizuay e pelo poeta, Sangare Okapi as 16 horas. Já ao anoitecer, será a vez do esperado sarau cultural “A Encarnação do Verbo” a ser abrilhantada por declamadores e leitores do Movimento Literário Kuphaluxa, entre representações teatrais, com a música a cargo do jovem músico Dudas Aled. Uma verdadeira noite de exaltação dos novatos e encerramento das actividades do ano 2011, em dias em que o Kuphaluxa regista os dois anos de existência.
A NOMEAÇÃO DE MEMBROS HONORÁRIOS
Marca a celebração dos dois anos do Kuphaluxa, a nomeação de membros honorários da agremiação, a figuras da literatura moçambicana e lusófona que contribuíram para o crescimento da mesma. Entre os honrados, já são conhecidos como nomeados os escritores Rubervam Du Nascimento de Piauí, Brasil, que neste ano, na sua visita a Moçambique pela primeira vez, realizou diversas actividades com o movimento e a destacar, a doação de 50 livros da sua autoria. Ainda do Brasil, as escritoras, Ana Rüsche, e Luana Antunes Costa, integram essa lista, acompanhados pela escritora Lurdes Breda de Portugal. Ana Rusche, também deslocou-se a Maputo pela primeira vez e durante quatro dias realizou várias actividades com o Movimento Literário Kuphaluxa, além de ter trazido na sua bagagem, vários livros para oferecer ao movimento, a escolas e à Associação dos Escritores Moçambicanos (AEMO). Será a primeira vez que o Kuphaluxa vai anunciar oficialmente a nomeação de membros honorários, numa altura que só o escritor Calane da Silva tinha esse título.
Um espaço dedicado à literatura negro-brasileira, às literaturas africanas de língua portuguesa e demais literaturas negro-diaspóricas
sexta-feira, 9 de dezembro de 2011
Festival Literário de Maputo 2011
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Cadernos Negros 34 (contos) na Feira Preta
O lançamento do CN34 será no Centro de Exposições Imigrantes, dia 17 de dezembro, sábado, às 17h, na sala reservada aos eventos de literatura e educação.
CADERNOS NEGROS VOLUME 34 - CONTOS
Autores: Ademiro Alves (Sacolinha), Adilson Augusto, Claudia Walleska Conceição Evaristo, Cristiane Sobral, Cuti, Débora Garcia, Denise Lima, Elizandra Souza, Esmeralda Ribeiro, Fátima Trinchão Fausto Antônio, Guellwaar Adún, Henrique Cunha Jr., Jairo Pinto, Luís Carlos 'Aseokaýnha', Mel Adún, Míghian Danae, Miriam Alves, Onildo Aguiar, Thyko de Souza
CADERNOS NEGROS VOLUME 34 - CONTOS
Autores: Ademiro Alves (Sacolinha), Adilson Augusto, Claudia Walleska Conceição Evaristo, Cristiane Sobral, Cuti, Débora Garcia, Denise Lima, Elizandra Souza, Esmeralda Ribeiro, Fátima Trinchão Fausto Antônio, Guellwaar Adún, Henrique Cunha Jr., Jairo Pinto, Luís Carlos 'Aseokaýnha', Mel Adún, Míghian Danae, Miriam Alves, Onildo Aguiar, Thyko de Souza
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Amélia Dalomba - Uma mulher ao relento (lançamentos MG/RJ/SP)
A NANDYALA Editora convida você para os coquetéis de lançamentos do livro
"Uma mulher ao relento"
Amélia Dalomba, romance (Angola)
07/12, quarta-feira, 19h30
Biblioteca Pública Estadual Luiz de Bessa - Praça da Liberdade – Belo Horizonte - MG
10/12, sábado, 18h
Livraria Museu da República - Rua do Catete, 153 - Rio de Janeiro
17/12, sábado, 19h - FEIRA PRETA
Centro de Exposições Imigrantes - Rodovia dos Imigrantes, Km 1.5 - São Paulo
AMÉLIA DALOMBA
Sobre o livro: Uma mulher ao relento, Nandyala Editora, Belo Horizonte, 2011.
O romance Uma mulher ao relento trata da trajetória de vida da narradora que, em primeira pessoa, revela suas tristezas, alegrias, indignações e resistências à prática contemporânea do alembamento (cerimônia do dote oferecido à família da noiva, quando de oficializa o trato do casamento entre as famílias envolvidas) que não respeita a mulher como sujeito ou senhora de seu futuro, contrariamente às tradições bantoangolanas, de base matriarcal. Esta obra consolida a maturidade da produção literária de Amélia Dalomba, nas tensões cotidianas das relações de gênero.
Sobre a autora: AMÉLIA DA LOMBA , nasceu na Cidade de Cabinda, Angola. Tem artigos e poemas publicados em revistas e jornais e participações em CDs musicais angolanos, com letras e músicas. Ministra palestras sobre literatura e culturas de Angola, bem como sobre as relações de gênero em seu país.
Estudou Psicologia Geral e simultaneamente desenvolveu a sua atividade profissional na área do Jornalismo, nomeadamente o jornalismo radiofônico e de imprensa. É colaboradora do Jornal de Angola, tendo publicado alguns dos seus textos poéticos na sua página cultural. Frequentou diversos seminários de Jornalismo, Administração e Gestão de Empresas e Formação Política.
Integrando a geração de 80, denominada pelo crítico e poeta Luís Kandjimbo como a "Geração das Incertezas", ao lado de nomes como Ana Paula Tavares, Ana de Santana, Lisa Castel, entre outros, Amélia Dalomba é uma das novas vozes femininas do universo literário, cujo contributo se reveste da maior importância para o desenvolvimento da poesia angolana. Como a obra dos restantes poetas dessa geração, filha da geração da guerra colonial, a sua poiesis, assentando num projeto metalinguístico e literário de recuperação da língua, constituiu-se como um espaço de denúncia da realidade angustiante vivida na sua Angola pós-independência, sem cair no "panfletarismo ideológico" que, muitas vezes, compromete a qualidade estética.
Fruto da grande desilusão provocada pela situação de corrupção, de fome, de miséria e de total desrespeito pelos direitos humanos, que caracteriza Angola, a poesia desta autora projeta, então, um "sujeito poético" desconcertado e desiludido, que vai usar a melancolia, associada à resistência, como forma de se libertar da catástrofe social que o envolve.
É galardoada com a Ordem do Vulcão – Medalha de Mérito de 1º Grau da República de Cabo Verde.
A sua poesia está incluída em coletâneas e livros coletivos, nomeadamente:
– Antologia da Poesia Feminina dos Palop (1998), do crítico Espanhol Xosé Lois Garcia
– Antologia do Mar na poesia Africana de Língua Portuguesa do século XX, Angola (2000), de Carmen Lúcia Tindó- crítica Brasileira
– Antologia “O Amor tem Asas de Ouro” – UEA (2006)
– Antologia da Moderna Poesia Angolana de Botelho de Vasconcelos – UEA (2006)
– Cacimbo 2000 - editora Patrick Houdin-Allliance Francaise de Luanda
– Participação no Livro Meu Céu, Céu de todos, Céu de Cada Um, de Renan Medeiros - Editora Zian- (2006)
Obras individuais:
– Ânsia – Editora da UEA. (1995)
– Sacrossanto refúgio – Editora Edipress (1996)
– Espigas do Sahel – Editora kilomlombe (2004)
– Noites ditas à chuva – Editora da UEA (2005)
– Sinal de mãe nas estrelas– Zian Editora (2007)
– Aos teus pés quanto baloiça o vento – Zian Editora (2008)
– CD Verso Prece e Canto – Música Instrumental - Editora N’Gola Música (2008)
– NSINGA – o mar no signo do laço – Editora Mayamba (2011)
– Uma mulher ao relento – Editora Nandyala (2011)
INFORMAÇÕES: (31)3281-5894
NANDYALA Editora
Av. do Contorno, 6.000 - Loja 01 - Savassi
3110-060 - Belo Horizonte - MG
Fonte: e-mail gentilmente enviado pela Profª Drª Iris Amâncio.
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quinta-feira, 8 de dezembro de 2011
Luiz Silva, o Cuti: A empáfia do poeta Gullar
Luiz Silva Cuti: A empáfia do poeta Gullar
Detalhes Publicado em Quinta, 08 Dezembro 2011 11:05
Publicado em http://www.geledes.org.br/em-debate/colunistas/12190-luiz-silva-cuti-a-empafia-do-poeta-goulart
Desdobramento texto de Ferreira Gullar - Preconceito Cultural. "Cruz e Souza e Machado de Assis foram herdeiros de tendências européias: não se pode afirmar que faziam literatura negra..." - Folha de São Paulo (Ilustrada) de 03/12/2011.
por Cuti
Por conta da publicação, em quatro volumes, da Literatura e Afrodescendência no Brasil: antologia crítica, organizada pelos professores Eduardo de Assis Duarte e Maria Nazareth Fonseca, seja pela apresentação gráfica sofisticada da obra, seja pelo seu aporte crítico envolvendo profissionais de diversas universidades brasileiras e estrangeiras, a questão de ser ou não ser negra a vertente da literatura brasileira que compõe seu conteúdo tem trazido à tona manifestações que vão desde respeitosas e aprofundadas abordagens até esdrúxulos pitacos de quem demonstra sua completa ignorância do assunto, má vontade e racismo crônico. Neste último caso está o que publicou Ferreira Gullar, com o título "Preconceito cultural", no caderno Folha Ilustrada, do jornal Folha de São Paulo, de 04/12/2011.
O autor do Poema Sujo, no qual compara um urubu a um negro de fraque, deve estar estranhando (estranheza é a palavra que ele emprega) que o negro não é uma simples idéia desprezível, mas um imenso número de pessoas, cuja maior parte, hoje, não come carniça, e que aqueles ainda submetidos à miséria mais miserável jamais quiseram fazer o trabalho daquela ave, e que se a "a vasta maioria dos escravos nem se quer aprendia a ler", como diz ele, não é porque não queria. Era proibida. Há vários dispositivos legais e normas que comprovam isso. Havia uma vontade contrária. Há e sempre houve um querer coletivo negro de revolta contra a opressão racista.
Quanto a existir ou não literatura negro-brasileira, deixemos de hipocrisia. No mundo da cultura só existe o que uma vontade coletiva, ou mesmo individual, diz que sim e consegue vencer aqueles que dizem não. Foi assim com a própria literatura brasileira e os tantos ismos que por aqui deixaram seus rastros. Características, traços estilísticos, vocabulário etc, que demarcam a possibilidade de se rotular um corpus literário, no tocante à produção literária negra, já vem sendo estudados. Basta lembrar três antologias de ensaios: Poéticas afro-brasileiras, de 2002, com 259 páginas; A mente afro-brasileira (em três idiomas), de 2007, com 577 páginas; Um tigre na floresta dos signos, de 2010, com 748 páginas, além de outras reuniões de textos, estudos, dissertações e teses. Por outro lado, se Cruz e Sousa e Machado de Assis, como argumenta Gullar "foram herdeiros de tendências literárias européias", e, portanto, "não se pode afirmar que faziam literatura negra", o que dizer de Lépold Senghor e Aimé Césaire, principais criadores do Movimento da Negritude, embora herdeiros da tradição literária francesa? A literatura não é só resultado de si mesma. Só uma perspectiva genética tacanha desconheceria outras influências do texto literário, tais como a experiência existencial do autor, sua formação política e ideológica, o contexto social, entre tantas mais. Nenhum escritor é obrigado a reproduzir suas influências.
A maneira como o tal poeta cita o samba, a dança, o carnaval, o futebol é aquela que simplesmente aponta o "lugar do negro" que o branco racista determinou, um lugar que serviu de "contribuição" para que os brancos ganhassem dinheiro, não só produzindo sua arte a partir do aprendizado com os negros, mas também explorando compositores diretamente e calando-os na sua autoafirmação étnica. Basta inventariar quantos grandes compositores negros morreram na miséria. A essa realidade o poeta chama de: "nossa civilização mestiça". Mas, pelo visto, a literatura, sendo a menina dos olhos da cultura, deve ser defendida da invasão dos negros. O escritor e crítico Afrânio Peixoto, lá no passado, deixou a expressão bombástica sobre a literatura ser "o sorriso da sociedade". Gullar não pensa isso, com certeza, mas em seus pobres argumentos está a ruminar que a literatura não pode ser negra. Talvez sinta que a negrura pode sujá-la, postura bem ainda dentro do diapasão modernista que abordou o negro pelo viés da folclorização.
A esquerda caolha e daltônica brasileira sempre se negou a encarar o racismo existente em nosso país. Por isso andou e anda de braços e abraços com a direita mais reacionária quando se trata de enfrentar o assunto. Para ela, a mesma ilusão dos eugenistas, tipo Monteiro Lobato, se apresenta como verdade: o negro vai (e deve) desaparecer no processo de miscigenação. Para alguns cristinhos ressuscitados dos porões da ditadura militar e seus seguidores sobreviveria e sobreviverá apenas o operariado branco. Concebem isso completamente esquecidos de que a cor da pele e traços fenotípicos estão inseridos do mundo simbólico, o mundo da cultura. No seu inconsciente, o embranquecimento era líquido e certo, solução de um "problema". Hoje, é provável que os menos estúpidos já tenham se deparado com as estatísticas e ficado perplexos. Gullar, pelos seus argumentos, se coloca como um representante da encarquilhada maneira de encarar o Brasil sem a participação crítica do negro. E, como é de praxe, entre os encastelados no cânone literário brasileiro, incluindo os críticos, não ler e não gostar é a regra. Em se tratando de produção do povo negro, empinam e entortam ainda mais o nariz. Devem se sentir humilhados só de pensar em ler o que um negro brasileiro escreveu e, no fundo, um terrível medo de verem denunciado o seu analfabetismo relativo a um grave problema nacional: o racismo, ou serem levados a cuspir no túmulo de seus avós.
Gullar diz ser "tolice ou má-fé" se pensar um grande público afrodescendente como respaldo da produção literária negra. Será que ele algum dia teve em seu horizonte de expectativa o leitor negro? Certamente não, como a maioria dos escritores brancos. Isso, sim, é tolice, má-fé e, cá entre nós, uma sutil forma de genocídio cultural, próxima daquela obsessão de se matar personagens negros. E não adianta nesse quesito invocar um parente mulato como, em outros termos, fez o imbecil parlamentar racista Bulsonaro.
Antonio Cândido, em entrevista publicada na revista Ethnos Brasil, em março de 2002, com o título "Racismo: crime ontológico", fazendo sua autocrítica relativa à sua omissão, por muito tempo, do debate sobre a questão racial, argumenta que o "nó do problema" estaria "no aspecto ontológico", e prosseguindo: "está no drama, para o negro, de ter de aceitar uma outra identidade, renegando a sua para ser incorporado ao grupo branco." Façamos um acréscimo ao que disse o consagrado mestre. A questão racial é um problema ontológico no Brasil porque diz respeito também ao ser branco, pois o debate sobre o problema enfrenta a ilusão da superioridade congênita do branco, que o racismo insiste em manter cristalizada na produção intelectual brasileira. Ele, o branco, tem o drama de ser forçado a aceitar uma outra identidade que não aquela de superioridade congênita que o racismo lhe assegurou, de ser obrigado pelo debate a experimentar a perda da empáfia da branquitude, descer do salto alto. Aliás, o sociólogo Guerreiro Ramos nos legou um ensaio elucidativo do assunto, intitulado "A patologia social do branco brasileiro".
A produção intelectual não é tão somente uma exclusividade de brancos racistas, apesar de certa hegemonia ainda presente. Além de brancos conscientes da história do país, negros escrevem, publicam livros e falam não só de si, mas também dos brancos, dos mestiços e de todos os demais brasileiros. Quem não leu e não gostou dessa produção, em especial a do campo literário, já não está fazendo tanta diferença. A crítica binária,baseada no Bem X Mal, está enfraquecida. Um dos propósitos de seus defensores quando pensam negros escrevendo é o de tirar o entusiasmo dos filhos e dos netos daqueles que por muitos séculos lhes serviram a mesa e lhes limparam o chão e mesmo daqueles que ainda o fazem. A vontade coletiva negra está em expansão e não é só no campo literário. Assim, quando o poeta Ferreira Gullar diz que falar em literatura negra não tem cabimento, é de ser fazer a célebre pergunta: "Não tem cabimento para quem, cara-pálida?" A sua descrença no que chama de "descriminação" na literatura, crendo que ela não "vá muito longe" e gera "confusão" é o simples reflexo da baixa expectativa de êxito que a maioria dos brancos tem em relação aos negros, resultado dos preconceitos inconfessáveis, passados de geração para geração, para minar qualquer ímpeto de autodeterminação da população negra.
Para Aristóteles havia os gregos e o resto (os bárbaros). O branco brasileiro precisa superar este complexo helênico de pensar que no Brasil há os brancos e o resto (mestiços e negros). Tal postura é uma das responsáveis pelo descompasso da classe dirigente em face da real população. Certamente, essa é a razão de Lima Barreto, o maior crítico do bovarismo brasileiro, ainda ser muito pouco ensinado em nossas escolas. O daltonismo de Ferreira Gullar, advindo de um tempo de utopia socialista, hoje é pura cegueira. Traços físicos que caracterizam historicamente os negros não são só traços físicos, como quer o articulista, mas representações simbólicas, por isso perfeitamente suscetíveis de gerar literatura com especificidades. Se o poeta não concebe negros possuidores de consciência crítica no país e as históricas particularidades de sua gente, devia fazer a sua autocrítica e não insistir na cegueira. Não dá mais para negar que a classe C está disputando também assentos no vôo literário, além dos bancos de universidades, nos shoppings e outros espaços sociais. E a população negra também faz parte dela. Quem não quiser enxergar vai continuar vivendo embriagado por esta cachaça genuinamente brasileira, produzida nos engenhos decadentes: o mito da democracia racial. Pena que alguns, de tão viciados, não largam a garrafa.
Veja mais sobre Cuti
Luiz Silva (Cuti), escritor, doutor em literatura brasileira.
Detalhes Publicado em Quinta, 08 Dezembro 2011 11:05
Publicado em http://www.geledes.org.br/em-debate/colunistas/12190-luiz-silva-cuti-a-empafia-do-poeta-goulart
Desdobramento texto de Ferreira Gullar - Preconceito Cultural. "Cruz e Souza e Machado de Assis foram herdeiros de tendências européias: não se pode afirmar que faziam literatura negra..." - Folha de São Paulo (Ilustrada) de 03/12/2011.
por Cuti
Por conta da publicação, em quatro volumes, da Literatura e Afrodescendência no Brasil: antologia crítica, organizada pelos professores Eduardo de Assis Duarte e Maria Nazareth Fonseca, seja pela apresentação gráfica sofisticada da obra, seja pelo seu aporte crítico envolvendo profissionais de diversas universidades brasileiras e estrangeiras, a questão de ser ou não ser negra a vertente da literatura brasileira que compõe seu conteúdo tem trazido à tona manifestações que vão desde respeitosas e aprofundadas abordagens até esdrúxulos pitacos de quem demonstra sua completa ignorância do assunto, má vontade e racismo crônico. Neste último caso está o que publicou Ferreira Gullar, com o título "Preconceito cultural", no caderno Folha Ilustrada, do jornal Folha de São Paulo, de 04/12/2011.
O autor do Poema Sujo, no qual compara um urubu a um negro de fraque, deve estar estranhando (estranheza é a palavra que ele emprega) que o negro não é uma simples idéia desprezível, mas um imenso número de pessoas, cuja maior parte, hoje, não come carniça, e que aqueles ainda submetidos à miséria mais miserável jamais quiseram fazer o trabalho daquela ave, e que se a "a vasta maioria dos escravos nem se quer aprendia a ler", como diz ele, não é porque não queria. Era proibida. Há vários dispositivos legais e normas que comprovam isso. Havia uma vontade contrária. Há e sempre houve um querer coletivo negro de revolta contra a opressão racista.
Quanto a existir ou não literatura negro-brasileira, deixemos de hipocrisia. No mundo da cultura só existe o que uma vontade coletiva, ou mesmo individual, diz que sim e consegue vencer aqueles que dizem não. Foi assim com a própria literatura brasileira e os tantos ismos que por aqui deixaram seus rastros. Características, traços estilísticos, vocabulário etc, que demarcam a possibilidade de se rotular um corpus literário, no tocante à produção literária negra, já vem sendo estudados. Basta lembrar três antologias de ensaios: Poéticas afro-brasileiras, de 2002, com 259 páginas; A mente afro-brasileira (em três idiomas), de 2007, com 577 páginas; Um tigre na floresta dos signos, de 2010, com 748 páginas, além de outras reuniões de textos, estudos, dissertações e teses. Por outro lado, se Cruz e Sousa e Machado de Assis, como argumenta Gullar "foram herdeiros de tendências literárias européias", e, portanto, "não se pode afirmar que faziam literatura negra", o que dizer de Lépold Senghor e Aimé Césaire, principais criadores do Movimento da Negritude, embora herdeiros da tradição literária francesa? A literatura não é só resultado de si mesma. Só uma perspectiva genética tacanha desconheceria outras influências do texto literário, tais como a experiência existencial do autor, sua formação política e ideológica, o contexto social, entre tantas mais. Nenhum escritor é obrigado a reproduzir suas influências.
A maneira como o tal poeta cita o samba, a dança, o carnaval, o futebol é aquela que simplesmente aponta o "lugar do negro" que o branco racista determinou, um lugar que serviu de "contribuição" para que os brancos ganhassem dinheiro, não só produzindo sua arte a partir do aprendizado com os negros, mas também explorando compositores diretamente e calando-os na sua autoafirmação étnica. Basta inventariar quantos grandes compositores negros morreram na miséria. A essa realidade o poeta chama de: "nossa civilização mestiça". Mas, pelo visto, a literatura, sendo a menina dos olhos da cultura, deve ser defendida da invasão dos negros. O escritor e crítico Afrânio Peixoto, lá no passado, deixou a expressão bombástica sobre a literatura ser "o sorriso da sociedade". Gullar não pensa isso, com certeza, mas em seus pobres argumentos está a ruminar que a literatura não pode ser negra. Talvez sinta que a negrura pode sujá-la, postura bem ainda dentro do diapasão modernista que abordou o negro pelo viés da folclorização.
A esquerda caolha e daltônica brasileira sempre se negou a encarar o racismo existente em nosso país. Por isso andou e anda de braços e abraços com a direita mais reacionária quando se trata de enfrentar o assunto. Para ela, a mesma ilusão dos eugenistas, tipo Monteiro Lobato, se apresenta como verdade: o negro vai (e deve) desaparecer no processo de miscigenação. Para alguns cristinhos ressuscitados dos porões da ditadura militar e seus seguidores sobreviveria e sobreviverá apenas o operariado branco. Concebem isso completamente esquecidos de que a cor da pele e traços fenotípicos estão inseridos do mundo simbólico, o mundo da cultura. No seu inconsciente, o embranquecimento era líquido e certo, solução de um "problema". Hoje, é provável que os menos estúpidos já tenham se deparado com as estatísticas e ficado perplexos. Gullar, pelos seus argumentos, se coloca como um representante da encarquilhada maneira de encarar o Brasil sem a participação crítica do negro. E, como é de praxe, entre os encastelados no cânone literário brasileiro, incluindo os críticos, não ler e não gostar é a regra. Em se tratando de produção do povo negro, empinam e entortam ainda mais o nariz. Devem se sentir humilhados só de pensar em ler o que um negro brasileiro escreveu e, no fundo, um terrível medo de verem denunciado o seu analfabetismo relativo a um grave problema nacional: o racismo, ou serem levados a cuspir no túmulo de seus avós.
Gullar diz ser "tolice ou má-fé" se pensar um grande público afrodescendente como respaldo da produção literária negra. Será que ele algum dia teve em seu horizonte de expectativa o leitor negro? Certamente não, como a maioria dos escritores brancos. Isso, sim, é tolice, má-fé e, cá entre nós, uma sutil forma de genocídio cultural, próxima daquela obsessão de se matar personagens negros. E não adianta nesse quesito invocar um parente mulato como, em outros termos, fez o imbecil parlamentar racista Bulsonaro.
Antonio Cândido, em entrevista publicada na revista Ethnos Brasil, em março de 2002, com o título "Racismo: crime ontológico", fazendo sua autocrítica relativa à sua omissão, por muito tempo, do debate sobre a questão racial, argumenta que o "nó do problema" estaria "no aspecto ontológico", e prosseguindo: "está no drama, para o negro, de ter de aceitar uma outra identidade, renegando a sua para ser incorporado ao grupo branco." Façamos um acréscimo ao que disse o consagrado mestre. A questão racial é um problema ontológico no Brasil porque diz respeito também ao ser branco, pois o debate sobre o problema enfrenta a ilusão da superioridade congênita do branco, que o racismo insiste em manter cristalizada na produção intelectual brasileira. Ele, o branco, tem o drama de ser forçado a aceitar uma outra identidade que não aquela de superioridade congênita que o racismo lhe assegurou, de ser obrigado pelo debate a experimentar a perda da empáfia da branquitude, descer do salto alto. Aliás, o sociólogo Guerreiro Ramos nos legou um ensaio elucidativo do assunto, intitulado "A patologia social do branco brasileiro".
A produção intelectual não é tão somente uma exclusividade de brancos racistas, apesar de certa hegemonia ainda presente. Além de brancos conscientes da história do país, negros escrevem, publicam livros e falam não só de si, mas também dos brancos, dos mestiços e de todos os demais brasileiros. Quem não leu e não gostou dessa produção, em especial a do campo literário, já não está fazendo tanta diferença. A crítica binária,baseada no Bem X Mal, está enfraquecida. Um dos propósitos de seus defensores quando pensam negros escrevendo é o de tirar o entusiasmo dos filhos e dos netos daqueles que por muitos séculos lhes serviram a mesa e lhes limparam o chão e mesmo daqueles que ainda o fazem. A vontade coletiva negra está em expansão e não é só no campo literário. Assim, quando o poeta Ferreira Gullar diz que falar em literatura negra não tem cabimento, é de ser fazer a célebre pergunta: "Não tem cabimento para quem, cara-pálida?" A sua descrença no que chama de "descriminação" na literatura, crendo que ela não "vá muito longe" e gera "confusão" é o simples reflexo da baixa expectativa de êxito que a maioria dos brancos tem em relação aos negros, resultado dos preconceitos inconfessáveis, passados de geração para geração, para minar qualquer ímpeto de autodeterminação da população negra.
Para Aristóteles havia os gregos e o resto (os bárbaros). O branco brasileiro precisa superar este complexo helênico de pensar que no Brasil há os brancos e o resto (mestiços e negros). Tal postura é uma das responsáveis pelo descompasso da classe dirigente em face da real população. Certamente, essa é a razão de Lima Barreto, o maior crítico do bovarismo brasileiro, ainda ser muito pouco ensinado em nossas escolas. O daltonismo de Ferreira Gullar, advindo de um tempo de utopia socialista, hoje é pura cegueira. Traços físicos que caracterizam historicamente os negros não são só traços físicos, como quer o articulista, mas representações simbólicas, por isso perfeitamente suscetíveis de gerar literatura com especificidades. Se o poeta não concebe negros possuidores de consciência crítica no país e as históricas particularidades de sua gente, devia fazer a sua autocrítica e não insistir na cegueira. Não dá mais para negar que a classe C está disputando também assentos no vôo literário, além dos bancos de universidades, nos shoppings e outros espaços sociais. E a população negra também faz parte dela. Quem não quiser enxergar vai continuar vivendo embriagado por esta cachaça genuinamente brasileira, produzida nos engenhos decadentes: o mito da democracia racial. Pena que alguns, de tão viciados, não largam a garrafa.
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Luiz Silva (Cuti), escritor, doutor em literatura brasileira.
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Conceição Evaristo - Insubmissas lágrimas de Mulheres (lançamento RJ)
Conceição Evaristo lança o livro “Insubmissas lágrimas de Mulheres”, Editora Nandyala, no Espaço Cultural CEDIM Heloneida Stuart, às 18h30. A obra da renomada escritora é uma coletânea de 13 contos que têm como protagonistas mulheres negras que colocam seus anseios, dores, temores, retirando-se do lugar do sofrimento, transformando-o em resistência.
LANÇAMENTO DO LIVRO “INSUBMISSAS LÁGRIMAS DE MULHERES” DE CONCEIÇÃO EVARISTO
DATA: QUINTA-FEIRA, 8/12, ÀS 18H30
LOCAL: ESPAÇO CULTURAL CEDIM HELONEIDA STUART
ENDEREÇO: RUA CAMERINO, Nº 51 – CENTRO – RIO DE JANEIRO – RJ
LANÇAMENTO DO LIVRO “INSUBMISSAS LÁGRIMAS DE MULHERES” DE CONCEIÇÃO EVARISTO
DATA: QUINTA-FEIRA, 8/12, ÀS 18H30
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quarta-feira, 7 de dezembro de 2011
Tchalê Figueira - Breve História Colonial em África
Para não esquecer o passado – Breve História Colonial em África, pinturas de Tchalê Figueira
Ricardo Riso
RESUMO: A sangrenta experiência colonial em África consolidada durante a Conferência de Berlim (1884-1885) é retratada de forma corrosiva nas pinturas da série “Breve História Colonial em África”, do artista plástico Tchalê Figueira, que objetiva não deixar que esse triste passado seja revisto de forma branda ou rasurado da História. Com isso, o artista procura desvelar terríveis personagens e demonstra a agonia dos povos africanos em um expressionismo voraz e de forte impacto. A análise aqui presente pretende mostrar como Tchalê Figueira realiza plasticamente suas denúncias ao sistemático genocídio de negros africanos durante o colonialismo. O suporte teórico escora-se nos historiadores Joseph Ki-Zerbo, Carlos Moore, Albert Memmi, entre outros.
Eis-me aqui África/ nas tuas entranhas/
de onde afinal/ nunca saí/
eis-me aqui África/ eis-me aqui/
aqui.
(Mário Fonseca)
Neste início de século XXI vivenciamos perigosos revisionismos históricos com o intuito de suavizar imensas tragédias da história da Humanidade, que encontram espaços generosos nos veículos de comunicação dominantes em uma procura incessante para silenciar as vozes de pesquisadores comprometidos com os estudos pós-coloniais, desveladores de visões que desmascaram os cínicos e hipócritas discursos hegemônicos.
Vários são os agentes nos países pós-coloniais nas diversas áreas do saber e das artes a lutarem contra a história oficial de suas nações. No continente africano essa situação é ainda mais grave, dentre vários motivos, em razão do recente processo de soberania desses países, principalmente as ex-colônias de língua portuguesa: Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique e São Tomé e Príncipe.
Atento ao tempo em que vive e às mazelas que uma perniciosa amnésia induzida em relação à representação do colonialismo em África, o artista plástico e também escritor Tchalê Figueira elaborou a recente série de pinturas intituladas “Breve História Colonial em África”, na qual procura resgatar terríveis passagens vivenciadas pelos africanos na virada do século XIX para o XX.
Atendendo sugestão de G. T. Didial, um dos heterônimos de João Manuel Varela, Carlos Alberto Silva Figueira passa a usar o nome Tchalê (nome pelo qual é conhecido pelos moradores de sua cidade) para designá-lo. Nasceu em 1953, no Mindelo, ilha de São Vicente, Cabo Verde. Aos 17 anos, em meio às guerras de libertação nas colônias africanas dominadas por Portugal, em um ato de rebeldia, Tchalê decide sair clandestinamente de Cabo Verde para não servir ao exército fascista português e assim lutar contra seus pares. Ruma a Roterdã, na Holanda, mas pouco tempo aí permanece. Viaja pelos mares da Europa à Ásia e às Américas. Em 1974, fixa-se na cidade da Basileia, Suíça, onde frequenta a escola de belas-artes e torna-se artista plástico. Retorna ao Mindelo somente em 1985 onde encontra-se até hoje. Atualmente é um dos mais prestigiados artistas plásticos de Cabo Verde com obra reconhecida por diversos países. Além disso, já possui uma considerável obra literária com os seguintes livros de poesia: “Todos os náufragos do mundo” (1992), “Onde os sentimentos se encontram” (1998) e “O azul e a luz” (2002); enquanto em prosa publicou “Ptolomeu e a sua viagem de circum-navegação” (2005), “Solitário” (2005) e “Contos da Basileia” (2011).
Acompanho com extremo interesse as obras plásticas e literárias de Tchalê Figueira através de seu blog “Arco da Velha” – tchale.blogspot.com – ou por redes sociais como o Facebook. Tchalê é um artista inquieto, indignado e revoltado com as injustiças de diversas ordens, principalmente as motivadas por políticos, e não deixa de expor suas opiniões com veemência. Essa vontade de manifestar-se a favor dos oprimidos acompanha suas pinturas, tornando-se uma característica costumeira. Estão lá representados os homens e mulheres marginalizados da cidade do Mindelo, na sua rua da Praia. Prostitutas, bêbados, traficantes, pescadores, pessoas ociosas do cotidiano e esquecidas pelo poder público, mas que ganham representatividade em suas telas. Uma pintura expressionista em suas formas distorcidas da figuração humana – geralmente em primeiro plano –, muitas vezes agressivas na denúncia social, em outras ocasiões apresentam-se irônicas, como também podem ser alegres nas celebrações festivas do cabo-verdiano. Suas cores obedecem a recusa de representação do real típica do fauvismo francês. Os fundos de suas telas costumam ser grandes manchas de cor, abstratizantes e de gestualidade agressiva como os melhores nomes do expressionismo abstrato, dentre tantos, Clifford Stills, são indefinidos e com a intenção de destacar a presença da figuração humana, pois é do homem que a obra deste mindelense se preocupa. Ou seja, Tchalê Figueira possui uma identidade plástica, ou como afirmou G. T. Didial: “há nestas obras uma linguagem própria e uma visão de mundo” (DIDIAL, 1999, p. 98). Traço característico e temáticas de forte contundência social são marcas as telas deste grande pintor.
Breve História Colonial em África
A partir de 1860 o continente africano sofre com os violentos ataques dos europeus, favorecidos por tecnologia bélica avançada à época, que Tchalê Figueira representa nas abomináveis figuras de Leopold II (Anexo I), rei da Bélgica, e incentivador das atrocidades cometidas no Congo, seguidas pelo desbravador e sanguinário Henry Stanley, representado na pintura “Henry Stanley, o monstro” (Anexo II) e “Stanley Cap” (Anexo III), para quem “os selvagens apenas respeitam a força, o poder, a audácia e a decisão” (SERRANO, WALDMAN, 2008, p.216), e pelo não menos abominável Guillaume Van Kerckhoven (Anexo IV) e do odioso Otto Von Bismarck na pintura “Clube alemão das colônias – Peitche und Zuken Brot” (Anexo V), um dos articuladores da Conferência de Berlim.
LEOPOLOD II DA BÉLGICA - O NOVO DONO DO REINO DO CONGO
HENRY STANLEY, O MONSTRO
STANLEY CAP
GUILLAUME VON KERKCHAVEN
CLUBE ALEMÃO DAS COLÔNIAS
Nas telas representativas desses repugnantes seres humanos, Tchalê recorre ao uso do texto para não deixar dúvidas sobre quem está representado. Para além da denúncia, salienta-se o caráter didático e necessário para que esses protagonistas do genocídio étnico não sejam rasurados da história africana. A representação da força e da soberania na figura ornada com suas patentes e designações reais de Leopold II (Anexo I), seu sorriso sádico em rosto típico de máscara africana, contrastam com o pavor dos africanos mortos e da presença predominante do vermelho a sangrar nosso olhar, a esquartejar nossa memória, e a partir daí, a retomada de consciência de um passado desesperador que a História não pode apagar. O pintor reflete em expressões hostis e sorrisos expondo carnívoros dentes as violentas ações desses monstros no período colonial. Aliás, de um modo geral, os sorrisos perversos com dentes escancarados são caracterizadores na obra plástica de Figueira dos líderes repressores da história da Humanidade em suas diversas facetas.
As expressões reveladas nas pinturas de Tchalê demonstram o ódio pelos africanos e o prazer que essas figuras tinham em cumprir as suas cruéis missões. Pinturas agressivas, todavia, jamais ultrapassariam os atos violentos motivados por seus personagens, que, infelizmente, foram reais. E trata-se de uma realidade para a qual não devemos esquecer. Homens que acompanharam o histórico de violência do tráfico negreiro e confirmaram a banalização de atos cruéis aos negros africanos. Cabe a lembrança de um artista ao qual a obra de Tchalê Figueira dialoga com frequência, e nessa série em especial, o inglês Francis Bacon, que também utilizava um expressionismo enfurecido para retratar a violência do cotidiano: “Quando trago a violência para pintura, dizia ele, não se trata da violência da guerra, mas, da violência da realidade por si mesma.” (SYLVESTER, 2007, p. 81).
Violência exacerbada na representação de sadismo e prazer no sorriso de Guillaume Van Kerckhoven (Anexo IV), com sua pose de satisfação em traje militar a exibir todas as suas medalhas ao cumprir a missão de exterminar negros, em contraponto às expressões aterrorizadas de incontáveis rostos de negros amontoados. Nesta pintura, Tchalê Figueira para demonstrar a imensa quantidade de africanos mortos utiliza um procedimento comum e consagrado na pintura do artista plástico moçambicano Malangatana Valente. Malangatana tinha como característica representar uma quantidade impressionante de pessoas espremidas em suas telas, comprimidos no espaço asfixiante da superfície pintada a revelar-nos a irracionalidade e desumanidade do colonialismo, e da desestabilização oriunda da repressão em cores contrastantes e impactantes. Para esta pintura de Tchalê resgato palavras de Mia Couto a respeito da pintura de Malangatana que encaixam com perfeição ao mostrado pelo mindelense:
Estes rostos repetidos até a exaustão do espaço, estas figuras retorcidas por infinita amargura são imagens deste mundo criado por nós e, afinal, contra nós. Monstros que julgávamos há muito extintos dentro de nós são ressuscitados no pincel de Malangatana.
Ressurge um temor que nos atemoriza porque é o nosso velho medo desadormecido. Ficamos assim à mercê destas visões, somos assaltados pela fragilidade da nossa representação visual do universo. (...)
No seu traço está nua e tangível a geografia do tempo africano. No jogo das cores está, sedutor e cruel, o feitiço, (...)
Estes bichos e homens, atirados para um espaço tornado exíguo pelo acumular de elementos gráficos, procuram em nós uma saída. A tensão criada na tela não permite que fiquem confinados a ela, obriga-nos a procurar uma ordem exterior ao quadro. Aqui reside afinal o gênio apurado deste ‘ingênuo’ invocador do caos, sábio perturbador das nossas certezas. (SECCO, 2003, pp. 224-225)
Como é possível conferir, as assustadoras imagens desses tristes representantes do colonialismo europeu não são mais horríveis do que as atitudes desumanas praticadas durante a conquista militar do continente africano. Figueira simplesmente transfere para suas pinturas as assombrosas ações do colonizador em África. A lembrança de Leopold II não é gratuita, pois promoveu um banho de sangue durante a ocupação do Congo em proporções maiores que o holocausto nazista, e está muito bem representado na pintura do cabo-verdiano. Escorro-me nas afirmações do historiador cubano Carlos Moore para lembrar que o Congo foi o “único caso de um país que fora incorporado à potência colonizadora como propriedade pessoal do chefe de Estado” (MOORE, 2009, p. 30). Ainda de acordo com o Moore, em 76 anos de colonização belga no Congo (1884-1960), estima-se que pereceram 25 milhões de pessoas. A violência desmedida – irracional define melhor – da colonização belga ultrapassa o absurdo, como podemos analisar na passagem abaixo incluída no livro de Moore e que se encontra no Wikipedia:
Para impingir as cotas de borracha, a Force Publique (Força Pública) foi instituida: de uso corrente, policiais, na sua maioria eram canibais do Lualaba. Armados com armas modernas e chicote. A “Força Pública” rotineiramente pegava e torturava reféns (na maioria mulheres), açoitavam, estupravam, incineravam aldeias e, acima de tudo, extirpavam mãos humanas como troféus mostrando que, quando as cotas não eram cumpridas, não estavam tendo vontade o suficiente de cumprir.
Um oficial branco de baixa patente descreveu uma incursão para punir uma aldeia que havia protestado. O oficial branco em comando: "Ordenaram-nos a cortar as cabeças dos homens e as pendurar nas cercas da aldeia, bem como seus membros sexuais, e pendurar as mulheres e crianças em forma de cruz". Após ver um íncola morto pela primeira vez, um missionário dinamarquês escreveu: "O soldado disse: 'Não leve muito a sério. Eles matam 'a nós' se não levarmos a borracha. O comissionário nos prometeu que se tivermos muitas mãos, ele encurtará nosso serviço'" Nas palavras de Peter Forbath:
“As cestas de mão cerradas, postas aos pés do chefe de posto europeus, tornaram-se o símbolo do Estado Livre do Congo. (...) A coleção de mãos se tornou um fim em si mesmo. Os soldados da “Força Pública” as traziam em vez da borracha; eles até mesmo iam colhê-las em lugar de borracha.(...) Elas tornaram-se um tipo de moeda. Elas são usadas para amenizar o déficit das cotas de borracha, substituir(...) o povo ao qual é exigido trabalhar para as gangues de trabalhos forçados; e os soldados da “Força Pública” tinham seus bônus pagos de acordo com quantas mãos eles coletavam. ”
Em teoria, cada mão direita provava um assassinato judicial. Na prática, soldados “trapaceavam”, simplesmente cortando a mão e deixando a vítima para viver ou morrer. Numerosos sobreviventes relataram que eles viveram além de um massacre fingindo de morto, não se movendo nem mesmo quando tinham suas mãos serradas. E esperavam os soldados partirem para então procurar socorro.
Estimativas do total das chacinas variam consideravelmente. O relatório famoso 1904 do diplomata britânico Roger Casement aponta para 3 milhões apenas nos 20 anos que o regime de Leopold durou; Forbath, no mínimo 5 milhões; Adam Hochschild 10 milhões; a Enciclopédia Britânica estima um declínio populacional de 20 ou 30 milhões para 8 milhões. (grifos do autor) (MOORE, 2009, p. 30-32)
A mutilação, a violência sexual e a matança indiscriminada de africanos foi uma prática comum em praticamente todo o continente africano. Milhões de negros foram mortos com sadismo e voracidade jamais vistas. Tchalê retrata a escravidão e o estupro feito com frequência nas mulheres negras, denunciando o caráter violento e forçado do início da miscigenação, principalmente nas colônias portuguesas, como mostram as pinturas “Violação I” (Anexo VI) e “Violação II” (Anexo VII). O detalhe para as expressões de horror e resignação dos oprimidos, assim como o vermelho dos corpos em analogia às batalhas desiguais travadas em solo africano que dizimaram um número incalculável de vítimas.
VIOLAÇÃO I
VIOLAÇÃO II
O historiador Joseph Ki-Zerbo é enfático ao afirmar o que os negros africanos vivenciaram a partir do tráfico negreiro e durante o período da colonização com o incontornável apoio da Igreja Católica:
Nenhuma coletividade humana foi mais inferiorizada do que os negros depois do século XV. Foram encomendados escravos negros aos milhões; utilizaram-se os negros como reprodutores de outros negros, em “coudelarias” constituídas para reproduzir novos negrinhos para o trabalho nas plantações. Quantas crianças africanas foram jogadas dos navios, ou abandonadas nos mercados escravos, longe das mães que eram levadas, porque era preciso muito tempo para alimentá-las até que fossem exploráveis? Os escravos eram comprados às toneladas. Amputava-se e esquartejava-se como carne bruta os rebeldes ditos “negros castanhos”. Durante esse tempo, na Europa, os teólogos debatiam doutamente a questão de saber se os negros tinham alma. Foi uma pergunta que não se fez a propósito de outros grupos humanos (KI-ZERBO, 2009, p. 24).
Como este texto procura desvelar as atrocidades aos povos do continente africano, salientamos que as colonizações realizadas pela Bélgica e Portugal foram marcadas pela violência extrema, em razão da
estrutura capitalista débil na comparação com países como a França e a Inglaterra, viram-se obrigados a recorrer a uma brutalidade maior, e não menor, no trato das populações dominadas. Isso porque, destituídos de capacidade de implantar sistemas dotados com maior composição orgânica de capital, tinham de recorrer, para competir com um mínimo de eficiência diante de nações capitalistas mais desenvolvidas, a todas as formas possíveis de coerção, inclusive as que se aproximavam da escravidão (SERRANO; WALDMAN, 2008, p.221).
Para além dos assassinatos em série cometidos sob a liderança de Henry Stanley, não devemos esquecer a criação das famigeradas legiões estrangeiras pela França e pela Espanha, ambas marcadas pela agressividade no trato das populações africanas e pela longa folha de serviços prestada ao domínio colonial (SERRANO, WALDMAN, 2008, p.216).
Carlos Moore chama atenção para a limpeza étnica ocorrida no continente africano durante a colonização. Moore afirma que “muitos continuam ignorando ou minimizando o fato de que a colonização da África foi um verdadeiro genocídio contra a raça negra” (MOORE, 2009, p. 29). Por isso, a importância desta série de intervenção realizada com furor expressionista e indignação por Tchalê Figueira.
A Conferência de Berlim (1884-1885) marca o auge da supremacia europeia no continente africano após diversos e sangrentos conflitos onde milhares de vidas foram ceifadas em nome da civilização, da fé e do progresso branco europeu. O desprezo aos africanos e a prepotência colonizadora foi de tal ordem que pode ser sentido na declaração do britânico Lord Salisbury a respeito da partilha realizada: “Traçamos linhas sobre mapas de regiões onde o homem branco nunca tinha pisado. Distribuímos montanhas, rios e lagos entre nós. Ficamos apenas atrapalhados por não sabermos onde ficavam estas montanhas, esses rios e esses lagos” (SERRANO; MUNANGA, 1995, p. 6. Apud: SERRANO, WALDMAN p.212).
A prepotência europeia é retratada na pintura “Com régua e esquadro dividiram o cake” (Anexo VIII), que de forma impactante representa a arbitrariedade do encontro dos países imperialistas assinalados nas cadeiras e do caos civilizador imposto aos africanos. A violência das figuras ilustradas na parte inferior da pintura pode representar a caótica situação e o desespero que se apoderou dos africanos desde o período do tráfico negreiro, alimentado por conflitos criados pelos invasores europeus entre as etnias africanas para assim enfraquecê-las e atingirem com maior rapidez os seus objetivos nefastos. Por outro lado, os colonizadores disputavam entre si as terras africanas. Nesse sentido, deve-se recordar o momento ruim de Portugal com economia fragilizada e pressionado pela Inglaterra, nação hegemônica da época, que
rifou o projeto português do mapa cor de rosa, pelo qual os territórios entre Angola e Moçambique, correspondendo aos atuais Zimbabwe, Malawi e Zâmbia, constavam como um domínio dos lusos. Portugal foi obrigado a recuar diante das pressões britânicas e da ameça de guerra entre os dois países (1890). (SERRANO; WALDMAN, 2008, p.210-211)
COM RÉGUA E ESQUADRO DIVIDIRAM O CAKE
O mapa do terror da ganância europeia foi dividido desconsiderando quaisquer opiniões de líderes africanos e assim demonstrado pela pintura voraz de Figueira em “Assim estava dividido o cake” (Anexo IX). As caveiras fantasmagóricas mostram o estado de espírito do continente africano. Novamente o caráter didático a mostrar a partilha realizada pelos colonizadores, revelando a maneira acintosa a qual o continente foi subjugado. Vale salientar o destaque à Etiópia, única nação que conseguiu manter sua soberania ao preço de muito sangue e de vidas de seus cidadãos.
ASSIM DIVIDIRAM O CAKE
Essa partilha do continente africano não foi bem digerida por Alemanha e Itália, nações atrasadas em seus processos de unificação, por conseguinte, ficaram com colônias menores. As grandes faixas de terra sob dominação portuguesa foram motivo de interesse dos alemães, por exemplo. Para retratar este temor de um eventual ataque alemão às colônias, verificamos a aflição do pré-claridoso Pedro Cardoso n’As Crónicas do AFRO, publicada no jornal A Voz de Cabo Verde de 8 de abril de 1912, e sua posição ambígua em relação ao colonizador luso em uma possível tomada das colônias portuguesas em África pelos alemães:
A armipotente Alemanha, fechando os olhos à conquista da Tripolitana pela sua amiga e aliada transalpina entendeu-se com a França sobre o Marrocos, com a Espanha sobre Fernando Pó, Guiné Espanhola e, quem sabe? sobre Portugal e agora quer entender-se com a Inglaterra...
Todos esses entendimentos visaram desde o seu início as possessões portuguesas. A esperta chancelaria leutónica tem procurado pela condescendência e satisfação às ambições das potências rivais assegurar que a premeditada rapinagem do Ultramar português se faça sem protesto (...)
Quem escreve estas linhas nasceu em África mas é português, não só pela bandeira como pelo sentimento e sangue.
(...) apesar de saber – pelo confronto – que a administração alemã oferece mais certas garantias de progresso às colónias no estado e circunstâncias portuguesas, não posso fazer calar o meu coração. Não posso conformar-me à horrorosa ideia de que serei obrigado a não falar, a não cultivar esta formosíssima língua toda feita de harmonia e doçura, em que balbuciei as minhas primeiras canções, destronada, substituída por aquela que escreve Goeth, é certo, mas sabendo a cerveja, desarmoniosa, gutural e arrepiante, como o cavo rugir do urso, ou como o horrendo gargalhar da estrige agoirenta.
Não! Antes mil vezes o pobre e lusitano do que rico e alemão. Não! (BRITO-SEMEDO; MORAIS, 2008, p. 132)
Com a colonização implantada no continente, valores ocidentais distantes dos africanos passam a ser implantados. Eles perdem completamente poderes político, econômico e militar. Seguem décadas de violência e racismo declarado, o homem branco europeu escora-se nas deploráveis teorias positivistas de supremacia racial e inferioridade do negro predominantes na derradeira metade do século XIX, subjugando os africanos ao que havia de mais tenebroso na espécie humana. Para Joseph Ki-Zerbo:
A colonização foi muito mais curta do que o tráfico negreiro, mas foi mais determinante. O colonialismo substituiu inteiramente o sistema africano. Fomos alienados, isto é, substituídos por outros, inclusive no nosso passado. Os colonizadores prepararam um assalto à nossa história. O ‘pacto colonial’ queria que os países africanos produzissem apenas produtos em bruto, matérias-primas a enviar para o Norte, para a indústria europeia. A própria África foi aprisionada, dividida, esquartejada, sendo-lhe imposto esse papel: fornecer matérias-primas. Esse pacto colonial dura até hoje. (KI-ZERBO, 2009, p. 25)
Para justificar a sua postura, o colonizador escora-se na arrogância e na prepotência, elevando os seus feitos e rebaixando tudo o que for relacionado ao colonizado, sendo este atingido moral e fisicamente, conforme diz Memmi:
Como pode a usurpação passar por legitimidade? Duas operações parecem possíveis: demonstrar os méritos eminentes do usurpador, tão eminentes que clamam por semelhante recompensa; ou insistir nos deméritos do usurpado, tão graves que não podem senão suscitar tal desgraça. E esses dois esforços são de fato inseparáveis. Sua inquietude, sua sede de justificação exigem do usurpador, ao mesmo tempo, que se eleve a si mesmo até as nuvens e que afunde o usurpado mais baixo que a terra. (MEMMI, 2007, p. 57)
Como sequência a esse pensamento, o ódio do colonizador age com extrema brutalidade, impõe suas certezas e frisa as diferenças que justificam a submissão do colonizado:
Utilizará para descrevê-lo as cores mais sombrias: agirá, se for preciso, para desvalorizá-lo, para anulá-lo. Mas não sairá jamais deste círculo: é preciso explicar a distância que a colonização estabelece entre ele e o colonizado; ora, a fim de justificar-se, é levado a aumentar mais ainda essa distância, a opor irremediavelmente as duas figuras, a sua tão gloriosa, a do colonizado tão desprezível. (MEMMI, 2007, p. 58)
Retomo Ki-Zerbo para demonstrar como era o ensino nas colônias, comum a todas elas, legando ao ostracismo a história e a cultura dos povos autóctones:
(...) a história africana era desconhecida. Fiz todos os meus estudos no âmbito francês, com manuais franceses. Não havia nada no programa que tratasse da África. Ainda pequenos, tínhamos de utilizar um livro de História francês que começa assim: “Nossos antepassados, os gauleses...” Repetimos maquinalmente o que queriam inculcar-nos. (KI-ZERBO, 2009, p. 14)
Esse colonizador, representante da civilização europeia, demonstrou a pior faceta do homem perante o seu semelhante durante o período da colonização e fez (e faz) do racismo a principal arma para massacrar os africanos. Esse mesmo “bárbaro civilizador” (Anexo X) que caçava, matava ou traficava animais (Anexo XI) da diversificada fauna africana e que permanece com a sua sanha usurpadora das riquezas minerais de todo o continente africano (Anexo XII) agora com a máscara do neoliberalismo, ou o neocolonialismo.
O BÁRBARO CIVILIZADOR
SEM TÍTULO 4
Entretanto, boa parte dos africanos jamais aceitou a dominação colonial, exceto as elites vassalas que mantinham a posição subalterna perante o colonizador branco. O racismo à população negra, tanto em África quanto na diáspora, estimulou o surgimento de dois movimentos de alcance mundial: a negritude e o pan-africanismo. Esses dois movimentos tiveram suas ressonâncias na política, na literatura, na história e em demais áreas do conhecimento. Seus líderes e simpatizantes foram agentes históricos em prol do fim do colonialismo em África, por conseguinte, da independência dos países africanos e contra a discriminação racial ao negro no restante do mundo. Esses dois movimentos estimularam líderes cativantes e a população de negros a reivindicar e lutar pela libertação dos países africanos, com maior ênfase a partir do fim da II Guerra Mundial e consequente enfraquecimento dos países europeus. As batalhas pela descolonização foram sangrentas, trazendo a morte para milhões de africanos. Somente de líderes pan-africanistas, Carlos Moore enumera 37 nomes assassinados “entre 1957, data da independência de Gana, e 1987, data do assassinato do último dirigente declaradamente pan-africanista, Thomas Sankara” (MOORE, p. 48). Mas o processo era irreversível, a História foi feita e a duras penas os países africanos conseguiram eliminar o famigerado colonialismo. Infelizmente, as novas nações dizimadas por séculos de opressão e usurpação ainda sofrem as consequências do atraso e estão hoje enfrentando as imposições da política neoliberal e das grandes empresas que praticamente dominam as economias dos países mais ricos do mundo.
Conclui-se que na crueldade retratada na série “Breve História Colonial em África”, o artista e ativista Tchalê Figueira crê na função social da arte como reveladora de vozes adormecidas, escancarando as feridas, sangrando as vísceras do passado colonial de injustiças que se perpetuam no presente, incomodando os olhares daqueles que desejam o esquecimento das atrocidades desse período. Por outro lado, pinceladas como facas a esquartejar as mentes obliteradas dos que não tiveram acesso ou foram obstruídos em sua instrução a esse triste passado colonial, ainda sangrento na crueldade dos dias contemporâneos em África. Pinturas a clamar liberdade e o direito à vida, suprimido de boa parte dos africanos. Pinturas de um humanista ao extremo, seguidor da “postulação irritada da fraternidade” de Aimé Cesaire e parafraseada pelo poeta cabo-verdiano Mário Fonseca. Pinturas que pretendem resgatar a história de sofrimento e dor dos africanos, assim como resgatar o necessário sentido solidário, político, denunciador e combativo do pan-africanismo. Tchalê segue uma tradição de obras de arte denunciatórias contra a Humanidade explicitada em Pablo Picasso com Guernica e as obras feitas durante a II Guerra Mundial, Francisco Goya e a série de gravuras Desastre da Guerra, e as pinturas de Malangatana Valente durante o período colonial em Moçambique e durante a guerra de desestabilização já com a nação independente. Tchalê Figueira integra um grupo de homens cada vez mais raros. Dos inconformados.
Encerro com um poema deste pintor-poeta Tchalê Figueira:
Do lado neutro da trincheira
Contempla a tua obra!...
Canta!... Glorifica teus mortos
Vê as suas frias camas
De poeira vermelha
Corpos radioactivos
Crianças deformadas,
Rostos empobrecidos em urânio
Cabeças rapadas
Hospital de angústias
Mercenários rugindo
Alfabeto de mortos
Artéria podre do paraíso
África encharcada de vírus
Coreografia abominável
Petróleo de sangue
Diamantes brilhantes
Em dedos de abutres.
BIBLIOGRAFIA:
BRITO-SEMEDO, Manuel; MORAIS, Joaquim. Pedro Cardoso – textos jornalísticos e literários: parte I. Praia: Instituto da Biblioteca Nacional e do Livro, 2008.
DIDIAL, G. T. Tchalê Figueira – pintor das grandes e pequenas vicissitudes cabo-verdianas. Anais – Associação de Estudos de Culturas Comparadas. Mindelo: Cabo Verde. v. 2. n. 3. dez/2000. pp. 97-99
FONSECA, Mário. Se a luz é para todos. Praia: Publicom, 1998.
KI-ZERBO, Joseph. Para quando África? – Entrevista com René Holenstein. Rio de Janeiro: Pallas, 2006.
MEMMI, Albert. Retrato do colonizado precedido do retrato do colonizador. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2007.
MOORE, Carlos. Da África mítica à África real: para uma cooperação realista entre a África e a diáspora. In: A África que incomoda – sobre a problematização do legado africano no quotidiano brasileiro. Belo Horizonte: Nandyala, 2009. p. 11-65.
RISO, Ricardo. Tchalê Figueira. Disponível em < http://ricardoriso.blogspot.com/2007/07/tchal-figueira.html > Acessado em 6 de dezembro de 2011.
SECCO, Carmen Lucia Tindó. Craveirinha e Malangatana: cumplicidade e correspondência entre as artes. In: A magia das letras africanas: ensaios escolhidos sobre as Literaturas de Angola, Moçambique e alguns outros diálogos. Rio de Janeiro: ABE Graph Editora. Rio de Janeiro, 2003.
SERRANO, Carlos; WALDMAN, Maurício. Memória D’África – a temática africana na sala de aula. 2. ed. São Paulo: Cortez, 2008.
SYLVESTER, D. (2007). Entrevistas com Francis Bacon. São Paulo: Cosac Naif. In: BORGES, Sonia. Francis Bacon: destituição subjetiva e formalização da obra de arte. Psicanálise & Barroco em revista. v.8, n.2, pp. 38-48, dez.2010
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terça-feira, 6 de dezembro de 2011
Luís Carlos Patraquim - Antologia Poética (ED.UFMG)
Luís Carlos Patraquim - Antologia Poética
Carmen Lucia Tindó Secco (Organizadora)
Editora UFMG
Coleção: Poetas de Moçambique
Coleção: Poetas de Moçambique
2011. 187 p. ISBN: 978-85-7041-910-1
Este livro apresenta a obra de Luís Carlos Patraquim entre 1980 e 2010. Considerado por críticos e especialistas como um dos maiores poetas moçambicanos vivos, Patraquim teve papel importante e inovador na literatura, cinema e jornalismo de Moçambique. Sua primeira obra, Monção (1980), que introduz esta antologia, demarcou o início de uma outra estação literária em Moçambique, até então marcada pela poesia panfletária. A nova vertente passou a aliar a reflexão aos sentidos, construindo poemas dotados da capacidade de enaltecer a vida, acreditar no amor, despertar os desejos, desbravar o espaço onírico, repensar a própria poesia.
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Luís Carlos Patraquim,
Moçambique
segunda-feira, 5 de dezembro de 2011
Conceição Evaristo e Amélia Dalomba em Belo Horizonte (MG)
A NANDYALA Editora convida você para coquetel de lançamentos
07/12, quarta-feira, 19h30
Biblioteca Pública Estadual Luiz de Bessa - Praça da Liberdade – Belo Horizonte - MG
Insubmissas lágrimas de mulheres, contos
Conceição Evaristo (Brasil)
Uma mulher ao relento, romance
Amélia Dalomba (Angola)
CONCEIÇÃO EVARISTO
O LIVRO: Insubmissas lágrimas de mulheres, Editora Nandyala, Belo Horizonte, 2011.
A antologia Insubmissas lágrimas de mulheres é composta de 13 contos, cujas histórias têm como protagonistas mulheres negras. De dentro da cena, vozes-mulheres explicitam suas dores, anseios, temores, mas, antes de tudo revelam a imensa capacidade de se retirem do lugar do sofrimento e inventarem modos de resistência. Uma intima fusão entre as personagens, a voz ficcional de quem apresenta essas personagens e a autora, marca o processo criativo dos textos e afirma o projeto literário de Conceição Evaristo, o de traçar uma escrevivência.
A AUTORA: Conceição Evaristo é Mestre em Literatura Brasileirapela PUC Rio, e Doutora em Literatura Comparadapela Universidade Federal Fluminense. Estreou na literatura em 1990, na série Cadernos Negros, antologia editada anualmente pelo Quilombhoje, de São Paulo, grupo de escritores afro-brasileiros reunidos, desde 1978. Dentre várias antologias lançadas no Brasil, a autora participa do livro Contos Afros, organizado por Marcio Barbosa (Quilombhoje), patrocinado pela Prefeitura de Belo Horizonte; no livro Contos do mar sem fim, da Editora Pallas, Rio de Janeiro e na Antologia Questão de Pele, da Editora Língua Geral, Rio de Janeiro, e vem mantendo uma constante publicação de poemas e contos, em Cadernos Negros. A escritora participa também de publicações, em antologias, na Alemanha, Inglaterra, Estados Unidos, África do Sul e em Angola.
É autora dos romances Ponciá Vicêncio e Becos da memória (Mazza Edições). O primeiro foi um dos livros indicados para o vestibular da UFMG, para o CEFET/MG e mais quatro faculdades de Minas Gerais em 2007, sendo ainda indicado como uma das obras do vestibular de 2008 e 2009 da Universidade Estadual de Londrina.
A obra Ponciá Vicêncio foi traduzida para o inglês, pela Host Publications, Texas, nos Estados Unidos, em 2007.
Em 2008, Conceição Evaristo lançou a antologia Poemas da Recordação e outros movimentos, (Nandyala Editora), obra que se classificou entre os 50 finalistas concorrentes ao Prêmio Portugal Telecom, no ano de 2009.
A produção de Conceição Evaristo é ampla, abarcando o campo da poesia, da prosa e do ensaio literário. Como escritora, ela tem sido convidada para participar de eventos acadêmicos e literários no Brasil e no exterior e tem marcado também presença nos movimentos sociais, notadamente, nos que se relacionam com a luta dos afro-descendentes.
OBRAS INDIVIDUAIS:
Ponciá Vicêncio (romance) Belo Horizonte, Mazza Edições, 2003/2005
Becos da memória (romance) Belo Horizonte, Mazza Edições, 2006.
Poemas da recordação e outros movimentos (antologia poética), Belo Horizonte, Nandyala, 2008.
Insubmissas lágrimas de mulheres (contos), Belo Horizonte, Nandyala Editora, 2011.
AMÉLIA DALOMBA
Sobre o livro: Uma mulher ao relento, Nandyala Editora, Belo Horizonte, 2011.
O romance Uma mulher ao relento trata da trajetória de vida da narradora que, em primeira pessoa, revela suas tristezas, alegrias, indignações e resistências à prática contemporânea do alembamento (cerimônia do dote oferecido à família da noiva, quando de oficializa o trato do casamento entre as famílias envolvidas) que não respeita a mulher como sujeito ou senhora de seu futuro, contrariamente às tradições bantoangolanas, de base matriarcal. Esta obra consolida a maturidade da produção literária de Amélia Dalomba, nas tensões cotidianas das relações de gênero.
Sobre a autora: AMÉLIA DA LOMBA , nasceu na Cidade de Cabinda, Angola. Tem artigos e poemas publicados em revistas e jornais e participações em CDs musicais angolanos, com letras e músicas. Ministra palestras sobre literatura e culturas de Angola, bem como sobre as relações de gênero em seu país.
Estudou Psicologia Geral e simultaneamente desenvolveu a sua atividade profissional na área do Jornalismo, nomeadamente o jornalismo radiofônico e de imprensa. É colaboradora do Jornal de Angola, tendo publicado alguns dos seus textos poéticos na sua página cultural. Frequentou diversos seminários de Jornalismo, Administração e Gestão de Empresas e Formação Política.
Integrando a geração de 80, denominada pelo crítico e poeta Luís Kandjimbo como a "Geração das Incertezas", ao lado de nomes como Ana Paula Tavares, Ana de Santana, Lisa Castel, entre outros, Amélia Dalomba é uma das novas vozes femininas do universo literário, cujo contributo se reveste da maior importância para o desenvolvimento da poesia angolana. Como a obra dos restantes poetas dessa geração, filha da geração da guerra colonial, a sua poiesis, assentando num projeto metalinguístico e literário de recuperação da língua, constituiu-se como um espaço de denúncia da realidade angustiante vivida na sua Angola pós-independência, sem cair no "panfletarismo ideológico" que, muitas vezes, compromete a qualidade estética.
Fruto da grande desilusão provocada pela situação de corrupção, de fome, de miséria e de total desrespeito pelos direitos humanos, que caracteriza Angola, a poesia desta autora projeta, então, um "sujeito poético" desconcertado e desiludido, que vai usar a melancolia, associada à resistência, como forma de se libertar da catástrofe social que o envolve.
É galardoada com a Ordem do Vulcão – Medalha de Mérito de 1º Grau da República de Cabo Verde.
A sua poesia está incluída em coletâneas e livros coletivos, nomeadamente:
– Antologia da Poesia Feminina dos Palop (1998), do crítico Espanhol Xosé Lois Garcia
– Antologia do Mar na poesia Africana de Língua Portuguesa do século XX, Angola (2000), de Carmen Lúcia Tindó- crítica Brasileira
– Antologia “O Amor tem Asas de Ouro” – UEA (2006)
– Antologia da Moderna Poesia Angolana de Botelho de Vasconcelos – UEA (2006)
– Cacimbo 2000 - editora Patrick Houdin-Allliance Francaise de Luanda
– Participação no Livro Meu Céu, Céu de todos, Céu de Cada Um, de Renan Medeiros - Editora Zian- (2006)
Obras individuais:
– Ânsia – Editora da UEA. (1995)
– Sacrossanto refúgio – Editora Edipress (1996)
– Espigas do Sahel – Editora kilomlombe (2004)
– Noites ditas à chuva – Editora da UEA (2005)
– Sinal de mãe nas estrelas– Zian Editora (2007)
– Aos teus pés quanto baloiça o vento – Zian Editora (2008)
– CD Verso Prece e Canto – Música Instrumental - Editora N’Gola Música (2008)
– NSINGA – o mar no signo do laço – Editora Mayamba (2011)
– Uma mulher ao relento – Editora Nandyala (2011)
INFORMAÇÕES: (31)3281-5894
NANDYALA Editora
Av. do Contorno, 6.000 - Loja 01 - Savassi
3110-060 - Belo Horizonte - MG
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sábado, 3 de dezembro de 2011
André V. de Figueiredo - O caminho quilombola (lançamento RJ)
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Shilambwashi Shetu: esta terra é nossa (cinema moçambicano)
Shilambwashi Shetu: esta terra é nossa - 110 anos de um combatente Makonde
(curta-metragem moçambicano)
O filme fala de um antigo combatente, ex-prisioneiro da PIDE que perde toda a sua juventude nos desígnios da Pátria. Um homem marcado pelo sofrimento, e apesar dos seus 110 anos, há sempre tempo para viver um amor.
Para ver o documentário clique no link abaixo:
https://www.youtube.com/watch?v=39IF2SwdrhI&feature=player_embedded
Direção: Albino Moisés
Câmera: Emílio Baloi
Produção: Natalina Fernando
Assistente de Produção: Teodosio Langa
Música: Helder Mondlane
(curta-metragem moçambicano)
O filme fala de um antigo combatente, ex-prisioneiro da PIDE que perde toda a sua juventude nos desígnios da Pátria. Um homem marcado pelo sofrimento, e apesar dos seus 110 anos, há sempre tempo para viver um amor.
Para ver o documentário clique no link abaixo:
https://www.youtube.com/watch?v=39IF2SwdrhI&feature=player_embedded
Direção: Albino Moisés
Câmera: Emílio Baloi
Produção: Natalina Fernando
Assistente de Produção: Teodosio Langa
Música: Helder Mondlane
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