quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Tânia Tomé - M’bique, conversas com a sombra (lançamento)



POSFÁCIO Uma leitura de “M’bique, conversas com a sombra”
Ricardo Riso, 30 de novembro de 2011.

A expectativa gerada por “Agarra-me o sol por trás”, primeiro livro de poesia de Tânia Tomé, poderá ser saciada por seus leitores com a sua segunda incursão poética que agora se apresenta com o enigmático título: “M’bique, conversas com a sombra”. Após o peso e a pressão da estreia, o livro seguinte de um(a) autor(a) carrega a responsabilidade da confirmação gerada pelo primeiro ou a decepção de um brilho fugaz ao qual o atual não se mostra compatível ao esperado. Caberá ao leitor esse exercício.

Neste novo livro, o conjunto de poemas apresenta questões de ordem ontológica de extremo interesse em um precioso labor com a linguagem, com a palavra poética. No “útero de palavras” aqui proposto, temos a ressignificação dos sentidos inertes empregados no cotidiano a convidar o leitor a refletir a sua existência e por isso as provocações interrogativas direcionadas a nós: “Entendes?”, “Confundiste-te agora?”.

O sujeito lírico de Tânia Tomé expõe suas indagações associando-as a um trabalho de renovação da linguagem, “O meu gosto em falar uma língua que não existe”, o que remete às considerações de Roland Barthes em “Aula” acerca do uso da língua:

Só nos resta, por assim dizer, trapacear com a língua, trapacear a língua. Essa trapaça salutar, essa esquiva, esse logro magnífico que permite ouvir a língua fora do poder, no esplendor de uma revolução permanente da linguagem, eu a chamo, quanto a mim: literatura. (...) porque é no interior da língua que a língua deve ser combatida, desviada: não pela mensagem de que ela é instrumento, mas pelo jogo de palavras de que ela é teatro. Posso portanto dizer, indiferentemente: literatura, escritura ou texto. As forças de liberdade não dependem da pessoa civil, do engajamento político do escritor, (...) mas do trabalho de deslocamento que ele exerce sobre a língua.

O ato de trapacear a língua encontra no fazer poético o seu espaço de excelência, pois o sujeito lírico possui a liberdade para deslocar as palavras do seu sentido usual e, ao mesmo tempo, procurar um novo sentido para a existência: “Aprendi a ser, de maneira difícil,/ sendo à medida que crescia para dentro,/ encolhendo os verbos. Distorcendo-os (...)”. Trata-se de um processo de interiorização do ser, de uma poética do eu para ampliar os sentidos adormecidos das palavras; nessa direção, encontrar a liberdade. Tal procedimento é por demais conhecido e consagrado na literatura moçambicana pelo célebre escritor Mia Couto, mas que neste livro de Tânia Tomé encontramos, em nosso entendimento, ressonâncias maiores na poesia do brasileiro Manoel de Barros.

Barros é autor de uma poesia de extrema criatividade e ludicidade com a palavra, deslocando-a e revelando surpreendentes e inusitados sentidos que espantam por subverter o real de forma radical. Não há como não lembrar do velho Manoel quando lemos o supracitado verso de Tomé: “O meu gosto em falar uma língua que não existe”; enquanto ele versifica da seguinte maneira em seu “Livro das Ignorãças”: “Usar algumas palavras que ainda não tenham idioma.” É nesse processo de desconstruir a linguagem, por conseguinte, descoisificar a realidade que o sujeito lírico de Tomé chama atenção para a urgente necessidade de transgressão do ser, de se ter “jeito de não ser”. Para isso, as imagens retratadas pelo sujeito lírico tornam-se dissonantes, surreais, sendo necessário – e retornamos a Manoel de Barros – desinventar objetos – e que na poesia de Tomé assim aparece: “Na casa tinha um televisor preto e branco. O evidente é que esse televisor só poderia ser de cartolina evidentemente, mais não podia ser.”

Para complementar a visão crítica que se apresenta nesses novos poemas de Tânia Tomé, fundamental é o olhar para as descobertas das crianças: “Há coisas que só as crianças conseguem enxergar. Coisas do acredito”; de um olhar questionador à busca do “criançamento das palavras” de Manoel de Barros, desse olhar para o novo, que se maravilha com o inusitado a ponto do sujeito lírico retomar outro poeta brasileiro, Carlos Drummond de Andrade, e o seu célebre poema “No meio do caminho”. Para o sujeito lírico, “isso era o mais interessante da pedra, o incerto.” A pedra no meio do caminho como obstáculo para movimentar as dúvidas e inquietações do ser, de se tornar a mola propulsora para a investigação que gerará a descoberta, a elevação para um novo ser indagador e criativo. Poeta.

Na sua intensa vontade de desaprender para ser, mergulhado em suas indagações ontológicas ainda assim o sujeito lírico mostra-se político e preocupado com o tempo e com o meio que vive e demonstra ser extremamente moçambicano, vinculado à terra-mãe ao reverenciar sua cultura e a sua literatura relacionada ao macrotema da ilha – “Eu tenho uma ilha dentro de mim, navegando-me inteiro o todo, o tudo./ Oi ilha, dentro de mim!” –, ao encontrarmos ecos de Eduardo White, Mia Couto, Rui Knopfli e Luis Carlos Patraquim, apenas para citar alguns, e apresenta com virulência que a inquietação do ser também passa pela da nação moçambicana e os caminhos tortuosos desde a independência: “a terra tem sintoma, tem problema de existir,/ sofre de sofrer, e tudo por onde fenda/ vive mora numa hemorragia vermelha/ sem pressa de acabar”.

Uma profunda viagem ao âmago do ser é proposta pelo sujeito lírico, assim como as ressonâncias sociais e políticas que acompanham essa desconstrução do antigo ser para o nascimento de um novo ser a desvelar o “nosso futuro por vir”, espaço da utopia, espaço que encontra abrigo na palavra poética, que conduz o sujeito lírico a recordar o ainda necessário poema de José Craveirinha de recusa do real desigual e desumano. Por isso, aqui compartilhamos o sentimento de reconstrução e dizemos SIA-VUMA!

É essa vocação utópica da poesia que Tânia Tomé em “M’bique – conversas com a sombra” convida à reflexão aos constrangimentos do presente, suas incertezas e desenganos, e por meio da palavra poética pensar nossa existência para assim partirmos à constituição de um novo ser, “e aí, só aí seremos. M’bique.”

sábado, 10 de dezembro de 2011

Trajanno Nankhova Trajanno - Laço de Aço Lasso


Sobre a Obra Nok Nogueira, escritor e jornalista, frisou que "Laço de Aço Lasso", de Trajanno Nankhova Trajanno, vale-se pelo apurado exercício poético, pelo lapidar da palavra, isto é, que resulta de uma certa elasticidade comunicativo que dela se obtém quando traçado um campo entreberto à experimentação de novas interpretações da dimensão estética do pensamento artístico contemporâneo, e adicionado a isso um certo pionerismo em relação à pós-moderna poesia angolana, que passa a conhecer um exercício poético essencialmente voltado para uma herança sonetista à sua real dimensão. Cremos, sem veleidade alguma que nos venda o carácter crítico das nossas análises, que esta obra é indubitavelmente um marco na história da pós-moderna poesia angolana, por todos os aspectos que possam estar a ela associados...»

Fonte: http://www.ueangola.com/index.php/livros-on/item/1049-laço-de-aço-lasso.html

José Luis Mendonça - Olfacto do Afecto (livro)


Novo livro do escritor angolano José Luis Mendonça

A obra, “OLFACTO DO AFECTO” (2011) foi editada pela União dos Escritores Angolanos, na «Colecção Guaches da Vida».

“Este livro é uma selecta dos aromas sensuais flutuantes em quase todas as ânforas de poesia que já vos ofereci. O fio condutor que lhes enovela o coração é tecido dos cheiros ázimos e angelicais daquele sentimento que chamam de amor, mas que eu, depois de longamente ter farejado a húmida geografia do corpo feminino, prefiro denominar como devo(ra)ção. No entanto, o critério principal desta arrumação não foi somente o sentido do olfacto que magnetizou a minha mão na hora da escrita. Neles perpassam também outros sentidos térreos que certamente farão o leitor levantar o olhar do livro para surpreendê-los, não à flor da pele, mas naquele vértice irreversível da alma onde as cidades do afecto renascem das cinzas”.

O autor


Abreu Paxe - Projecto poético Nkalu a maza (poemas)

O angolano Abreu Paxe vem construindo um caminho poético dos mais interessantes e consistentes entre os agentes da literatura angolana. Abreu Castelo Vieira dos Paxe nasceu no Uige aos 19 de outubro de 1969. Publicou os seguintes livros de poesia: "A chave no repouso da porta" (2003) e "O vento fede de luz" (2007), para além de uma reconhecida atuação na crítica literária de seu país.

A revista digital portuguesa TRIPLOV - http://novaserie.revista.triplov.com/numero_22/abreu_paxe/index.html -  publicou o seu Projecto poético Nkalu a maza, uma série de doze poemas. Registramos neste espaço o primeiro destes, os demais encontram-se no site.

Ricardo Riso
1. Muna ulunga da brevíssima existência


sinto em mim oposto ao medo
- lá para dentro minha pedra (brevíssima existência) -,
o viver silenciado
como se desta vez a existência
abrisse a alma que o guia muna ulunga
a calma mas próxima função
conduz-me anunciando a sedução
a noite ganha razão
como ferida a glória no duro labirinto
muito perto do sofrer
morre em mim oposto a amargura
a doçura da vida espumas de luz lá para diante:
o fracasso, a desonra. que importa a vitória
talvez sobre os dias porque alguém me esmaga a cidade
pó só pó sobre os ombros da morte o vazio
efectivamente intervalo de noites a brevíssima,
inacreditável existência (a pedra) já nada seduz

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Festival Literário de Maputo 2011

UMA INICIATIVA DO MOVIMENTO KUPHALUXA.
http://festivalliterariodemaputo.blogspot.com/

Maputo será palco de debates literários e palestras que juntarão Governo, escritores, docentes de literatura e de língua portuguesa, artistas musicais e jornalistas, numa iniciativa denominada “Semana Literária”, levada a cabo pelo Movimento Literário Kuphaluxa, na semana em que comemora o seu segundo aniversário de criação. A decorrer nos dias 09, 12 a 16 de Dezembro em curso, o evento visa igualmente marcar o início das acções rumo à realização daquela que será a primeira Festa Literária de Maputo, e acontece no Centro Cultural Brasil – Moçambique em Maputo, entre as 17 e 20 horas.


Durante seis dias, cerca de nove temas serão debatidos seis temas, proferidas duas palestras e uma conversa lírica, a terminar com um sarau cultural intitulado “A encarnação do verbo”, para marcar a festa dos dois anos do movimento. A “Semana Literária” vai começar debatendo as questões do Livro como património e base de construção sociocultural, no dia 09 de Dezembro (sexta-feira) as 18 horas, pelos ministérios da Educação e da Cultura, Celso Muianga da editora Ndjira e a Associação dos Escritores Moçambicanos (AEMO), com a moderação do filósofo, escritor, crítico literário e docente universitário, António Cabrita.

Segunda-feira, dia 12 de Dezembro, as 17 horas, será a ver do tema “A organização dos escritores e o seu papel para a construção de um Moçambique Literário” a ser debatido pelo Secretário-geral da AEMO, Jorge de Oliveira e pelo escritor, Juvenal Bucuane. No mesmo dia, as 18 e 30, os jornalistas e linguistas, vão debater, as páginas culturais e a abordagem dos assuntos literários, num debate a contar com três painelistas, nomeadamente, Policáripio Mapengo, jornalista do grupo SOICO (O País e Stv), Nélio Nhamposse, escritor e revisor linguístico, Rogério Guambe, linguista e director da Rádio Cidade em Maputo.

O actual estágio da Literatura Moçambicana e o surgimento de novos autores estará em discussão num debate encabeçado pelo escritor e docente de literatura moçambicana na Universidade Eduardo Mandlane, Lucílio Manjate, AEMO e pela editora Ndjira, na terça-feira, dia 13 de Dezembro as 17 horas.

Já no dia seguinte, quarta-feira, 14 de Dezembro, a escritora Ana de Sousa Baptista na companhia do escritor, docente universitário e membro da comissão nacional do Instituto Internacional de Língua Portuguesa, Calane da Silva, vão reflectir sobre “as vantagens e desvantagens da ratificação do Acordo Ortográfico para a Literatura de língua portuguesa”, as 17 horas. As 18 e 30 do mesmo dia, os escritores Élio Martins Mudender e Alex Dau, vão orientar uma palestra sobre “o ser escritor, o que escrever e para quê escrever”.

Quinta-feira, 15 de Dezembro, será a vez das mulheres. As escritoras Emmy Xyx e Rinkel, vão debater o espaço que as mulheres ocupam na literatura moçambicana, com a moderação da ensaísta e docente universitária, Sara Jonas, seguindo do tema “Revistas Literárias – a nascente dos escritores moçambicanos”, orientado por Pedro Chissano, que versará sobre a revista Charrua, Aurélio Furdela versará sobre a revista Oásis e por último Eduardo Quive, vai falar sobre a revista Literatas.

A ENCARNAÇÃO DO VERBO

Sexta-feira, dia 16 de Dezembro, os ânimos da Semana Literária vão centrar-se, primeiro, numa Conversa Lírica intitulada “Ritmo, Arte e Poesia” com o rapper do agrupamento Xitiku ni Mbaula, Dinguizuay e pelo poeta, Sangare Okapi as 16 horas. Já ao anoitecer, será a vez do esperado sarau cultural “A Encarnação do Verbo” a ser abrilhantada por declamadores e leitores do Movimento Literário Kuphaluxa, entre representações teatrais, com a música a cargo do jovem músico Dudas Aled. Uma verdadeira noite de exaltação dos novatos e encerramento das actividades do ano 2011, em dias em que o Kuphaluxa regista os dois anos de existência.

A NOMEAÇÃO DE MEMBROS HONORÁRIOS

Marca a celebração dos dois anos do Kuphaluxa, a nomeação de membros honorários da agremiação, a figuras da literatura moçambicana e lusófona que contribuíram para o crescimento da mesma. Entre os honrados, já são conhecidos como nomeados os escritores Rubervam Du Nascimento de Piauí, Brasil, que neste ano, na sua visita a Moçambique pela primeira vez, realizou diversas actividades com o movimento e a destacar, a doação de 50 livros da sua autoria. Ainda do Brasil, as escritoras, Ana Rüsche, e Luana Antunes Costa, integram essa lista, acompanhados pela escritora Lurdes Breda de Portugal. Ana Rusche, também deslocou-se a Maputo pela primeira vez e durante quatro dias realizou várias actividades com o Movimento Literário Kuphaluxa, além de ter trazido na sua bagagem, vários livros para oferecer ao movimento, a escolas e à Associação dos Escritores Moçambicanos (AEMO). Será a primeira vez que o Kuphaluxa vai anunciar oficialmente a nomeação de membros honorários, numa altura que só o escritor Calane da Silva tinha esse título.

Cadernos Negros 34 (contos) na Feira Preta

O lançamento do CN34 será no Centro de Exposições Imigrantes, dia 17 de dezembro, sábado, às 17h, na sala reservada aos eventos de literatura e educação.

CADERNOS NEGROS VOLUME 34 - CONTOS

Autores: Ademiro Alves (Sacolinha), Adilson Augusto, Claudia Walleska Conceição Evaristo, Cristiane Sobral, Cuti, Débora Garcia, Denise Lima, Elizandra Souza, Esmeralda Ribeiro, Fátima Trinchão Fausto Antônio, Guellwaar Adún, Henrique Cunha Jr., Jairo Pinto, Luís Carlos 'Aseokaýnha', Mel Adún, Míghian Danae, Miriam Alves, Onildo Aguiar, Thyko de Souza

Amélia Dalomba - Uma mulher ao relento (lançamentos MG/RJ/SP)


A NANDYALA Editora convida você para os coquetéis de lançamentos do livro

"Uma mulher ao relento"
Amélia Dalomba, romance (Angola)

07/12, quarta-feira, 19h30
Biblioteca Pública Estadual Luiz de Bessa - Praça da Liberdade – Belo Horizonte - MG

10/12, sábado, 18h
Livraria Museu da República - Rua do Catete, 153 - Rio de Janeiro

17/12, sábado, 19h - FEIRA PRETA
Centro de Exposições Imigrantes - Rodovia dos Imigrantes, Km 1.5 - São Paulo


AMÉLIA DALOMBA

Sobre o livro: Uma mulher ao relento, Nandyala Editora, Belo Horizonte, 2011.

O romance Uma mulher ao relento trata da trajetória de vida da narradora que, em primeira pessoa, revela suas tristezas, alegrias, indignações e resistências à prática contemporânea do alembamento (cerimônia do dote oferecido à família da noiva, quando de oficializa o trato do casamento entre as famílias envolvidas) que não respeita a mulher como sujeito ou senhora de seu futuro, contrariamente às tradições bantoangolanas, de base matriarcal. Esta obra consolida a maturidade da produção literária de Amélia Dalomba, nas tensões cotidianas das relações de gênero.

Sobre a autora: AMÉLIA DA LOMBA , nasceu na Cidade de Cabinda, Angola. Tem artigos e poemas publicados em revistas e jornais e participações em CDs musicais angolanos, com letras e músicas. Ministra palestras sobre literatura e culturas de Angola, bem como sobre as relações de gênero em seu país.

Estudou Psicologia Geral e simultaneamente desenvolveu a sua atividade profissional na área do Jornalismo, nomeadamente o jornalismo radiofônico e de imprensa. É colaboradora do Jornal de Angola, tendo publicado alguns dos seus textos poéticos na sua página cultural. Frequentou diversos seminários de Jornalismo, Administração e Gestão de Empresas e Formação Política.

Integrando a geração de 80, denominada pelo crítico e poeta Luís Kandjimbo como a "Geração das Incertezas", ao lado de nomes como Ana Paula Tavares, Ana de Santana, Lisa Castel, entre outros, Amélia Dalomba é uma das novas vozes femininas do universo literário, cujo contributo se reveste da maior importância para o desenvolvimento da poesia angolana. Como a obra dos restantes poetas dessa geração, filha da geração da guerra colonial, a sua poiesis, assentando num projeto metalinguístico e literário de recuperação da língua, constituiu-se como um espaço de denúncia da realidade angustiante vivida na sua Angola pós-independência, sem cair no "panfletarismo ideológico" que, muitas vezes, compromete a qualidade estética.

Fruto da grande desilusão provocada pela situação de corrupção, de fome, de miséria e de total desrespeito pelos direitos humanos, que caracteriza Angola, a poesia desta autora projeta, então, um "sujeito poético" desconcertado e desiludido, que vai usar a melancolia, associada à resistência, como forma de se libertar da catástrofe social que o envolve.

É galardoada com a Ordem do Vulcão – Medalha de Mérito de 1º Grau da República de Cabo Verde.

A sua poesia está incluída em coletâneas e livros coletivos, nomeadamente:
– Antologia da Poesia Feminina dos Palop (1998), do crítico Espanhol Xosé Lois Garcia
– Antologia do Mar na poesia Africana de Língua Portuguesa do século XX, Angola (2000), de Carmen Lúcia Tindó- crítica Brasileira
– Antologia “O Amor tem Asas de Ouro” – UEA (2006)
– Antologia da Moderna Poesia Angolana de Botelho de Vasconcelos – UEA (2006)
– Cacimbo 2000 - editora Patrick Houdin-Allliance Francaise de Luanda
– Participação no Livro Meu Céu, Céu de todos, Céu de Cada Um, de Renan Medeiros - Editora Zian- (2006)

Obras individuais:
– Ânsia – Editora da UEA. (1995)
– Sacrossanto refúgio – Editora Edipress (1996)
– Espigas do Sahel – Editora kilomlombe (2004)
– Noites ditas à chuva – Editora da UEA (2005)
– Sinal de mãe nas estrelas– Zian Editora (2007)
– Aos teus pés quanto baloiça o vento – Zian Editora (2008)
– CD Verso Prece e Canto – Música Instrumental - Editora N’Gola Música (2008)
– NSINGA – o mar no signo do laço – Editora Mayamba (2011)
– Uma mulher ao relento – Editora Nandyala (2011)

INFORMAÇÕES: (31)3281-5894
NANDYALA Editora
Av. do Contorno, 6.000 - Loja 01 - Savassi
3110-060 - Belo Horizonte - MG
 
Fonte: e-mail gentilmente enviado pela Profª Drª Iris Amâncio.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Luiz Silva, o Cuti: A empáfia do poeta Gullar

Luiz Silva Cuti: A empáfia do poeta Gullar


Detalhes Publicado em Quinta, 08 Dezembro 2011 11:05

Publicado em http://www.geledes.org.br/em-debate/colunistas/12190-luiz-silva-cuti-a-empafia-do-poeta-goulart

Desdobramento texto de Ferreira Gullar - Preconceito Cultural. "Cruz e Souza e Machado de Assis foram herdeiros de tendências européias: não se pode afirmar que faziam literatura negra..." - Folha de São Paulo (Ilustrada) de 03/12/2011.

por Cuti

Por conta da publicação, em quatro volumes, da Literatura e Afrodescendência no Brasil: antologia crítica, organizada pelos professores Eduardo de Assis Duarte e Maria Nazareth Fonseca, seja pela apresentação gráfica sofisticada da obra, seja pelo seu aporte crítico envolvendo profissionais de diversas universidades brasileiras e estrangeiras, a questão de ser ou não ser negra a vertente da literatura brasileira que compõe seu conteúdo tem trazido à tona manifestações que vão desde respeitosas e aprofundadas abordagens até esdrúxulos pitacos de quem demonstra sua completa ignorância do assunto, má vontade e racismo crônico. Neste último caso está o que publicou Ferreira Gullar, com o título "Preconceito cultural", no caderno Folha Ilustrada, do jornal Folha de São Paulo, de 04/12/2011.

O autor do Poema Sujo, no qual compara um urubu a um negro de fraque, deve estar estranhando (estranheza é a palavra que ele emprega) que o negro não é uma simples idéia desprezível, mas um imenso número de pessoas, cuja maior parte, hoje, não come carniça, e que aqueles ainda submetidos à miséria mais miserável jamais quiseram fazer o trabalho daquela ave, e que se a "a vasta maioria dos escravos nem se quer aprendia a ler", como diz ele, não é porque não queria. Era proibida. Há vários dispositivos legais e normas que comprovam isso. Havia uma vontade contrária. Há e sempre houve um querer coletivo negro de revolta contra a opressão racista.

Quanto a existir ou não literatura negro-brasileira, deixemos de hipocrisia. No mundo da cultura só existe o que uma vontade coletiva, ou mesmo individual, diz que sim e consegue vencer aqueles que dizem não. Foi assim com a própria literatura brasileira e os tantos ismos que por aqui deixaram seus rastros. Características, traços estilísticos, vocabulário etc, que demarcam a possibilidade de se rotular um corpus literário, no tocante à produção literária negra, já vem sendo estudados. Basta lembrar três antologias de ensaios: Poéticas afro-brasileiras, de 2002, com 259 páginas; A mente afro-brasileira (em três idiomas), de 2007, com 577 páginas; Um tigre na floresta dos signos, de 2010, com 748 páginas, além de outras reuniões de textos, estudos, dissertações e teses. Por outro lado, se Cruz e Sousa e Machado de Assis, como argumenta Gullar "foram herdeiros de tendências literárias européias", e, portanto, "não se pode afirmar que faziam literatura negra", o que dizer de Lépold Senghor e Aimé Césaire, principais criadores do Movimento da Negritude, embora herdeiros da tradição literária francesa? A literatura não é só resultado de si mesma. Só uma perspectiva genética tacanha desconheceria outras influências do texto literário, tais como a experiência existencial do autor, sua formação política e ideológica, o contexto social, entre tantas mais. Nenhum escritor é obrigado a reproduzir suas influências.

A maneira como o tal poeta cita o samba, a dança, o carnaval, o futebol é aquela que simplesmente aponta o "lugar do negro" que o branco racista determinou, um lugar que serviu de "contribuição" para que os brancos ganhassem dinheiro, não só produzindo sua arte a partir do aprendizado com os negros, mas também explorando compositores diretamente e calando-os na sua autoafirmação étnica. Basta inventariar quantos grandes compositores negros morreram na miséria. A essa realidade o poeta chama de: "nossa civilização mestiça". Mas, pelo visto, a literatura, sendo a menina dos olhos da cultura, deve ser defendida da invasão dos negros. O escritor e crítico Afrânio Peixoto, lá no passado, deixou a expressão bombástica sobre a literatura ser "o sorriso da sociedade". Gullar não pensa isso, com certeza, mas em seus pobres argumentos está a ruminar que a literatura não pode ser negra. Talvez sinta que a negrura pode sujá-la, postura bem ainda dentro do diapasão modernista que abordou o negro pelo viés da folclorização.

A esquerda caolha e daltônica brasileira sempre se negou a encarar o racismo existente em nosso país. Por isso andou e anda de braços e abraços com a direita mais reacionária quando se trata de enfrentar o assunto. Para ela, a mesma ilusão dos eugenistas, tipo Monteiro Lobato, se apresenta como verdade: o negro vai (e deve) desaparecer no processo de miscigenação. Para alguns cristinhos ressuscitados dos porões da ditadura militar e seus seguidores sobreviveria e sobreviverá apenas o operariado branco. Concebem isso completamente esquecidos de que a cor da pele e traços fenotípicos estão inseridos do mundo simbólico, o mundo da cultura. No seu inconsciente, o embranquecimento era líquido e certo, solução de um "problema". Hoje, é provável que os menos estúpidos já tenham se deparado com as estatísticas e ficado perplexos. Gullar, pelos seus argumentos, se coloca como um representante da encarquilhada maneira de encarar o Brasil sem a participação crítica do negro. E, como é de praxe, entre os encastelados no cânone literário brasileiro, incluindo os críticos, não ler e não gostar é a regra. Em se tratando de produção do povo negro, empinam e entortam ainda mais o nariz. Devem se sentir humilhados só de pensar em ler o que um negro brasileiro escreveu e, no fundo, um terrível medo de verem denunciado o seu analfabetismo relativo a um grave problema nacional: o racismo, ou serem levados a cuspir no túmulo de seus avós.

Gullar diz ser "tolice ou má-fé" se pensar um grande público afrodescendente como respaldo da produção literária negra. Será que ele algum dia teve em seu horizonte de expectativa o leitor negro? Certamente não, como a maioria dos escritores brancos. Isso, sim, é tolice, má-fé e, cá entre nós, uma sutil forma de genocídio cultural, próxima daquela obsessão de se matar personagens negros. E não adianta nesse quesito invocar um parente mulato como, em outros termos, fez o imbecil parlamentar racista Bulsonaro.

Antonio Cândido, em entrevista publicada na revista Ethnos Brasil, em março de 2002, com o título "Racismo: crime ontológico", fazendo sua autocrítica relativa à sua omissão, por muito tempo, do debate sobre a questão racial, argumenta que o "nó do problema" estaria "no aspecto ontológico", e prosseguindo: "está no drama, para o negro, de ter de aceitar uma outra identidade, renegando a sua para ser incorporado ao grupo branco." Façamos um acréscimo ao que disse o consagrado mestre. A questão racial é um problema ontológico no Brasil porque diz respeito também ao ser branco, pois o debate sobre o problema enfrenta a ilusão da superioridade congênita do branco, que o racismo insiste em manter cristalizada na produção intelectual brasileira. Ele, o branco, tem o drama de ser forçado a aceitar uma outra identidade que não aquela de superioridade congênita que o racismo lhe assegurou, de ser obrigado pelo debate a experimentar a perda da empáfia da branquitude, descer do salto alto. Aliás, o sociólogo Guerreiro Ramos nos legou um ensaio elucidativo do assunto, intitulado "A patologia social do branco brasileiro".

A produção intelectual não é tão somente uma exclusividade de brancos racistas, apesar de certa hegemonia ainda presente. Além de brancos conscientes da história do país, negros escrevem, publicam livros e falam não só de si, mas também dos brancos, dos mestiços e de todos os demais brasileiros. Quem não leu e não gostou dessa produção, em especial a do campo literário, já não está fazendo tanta diferença. A crítica binária,baseada no Bem X Mal, está enfraquecida. Um dos propósitos de seus defensores quando pensam negros escrevendo é o de tirar o entusiasmo dos filhos e dos netos daqueles que por muitos séculos lhes serviram a mesa e lhes limparam o chão e mesmo daqueles que ainda o fazem. A vontade coletiva negra está em expansão e não é só no campo literário. Assim, quando o poeta Ferreira Gullar diz que falar em literatura negra não tem cabimento, é de ser fazer a célebre pergunta: "Não tem cabimento para quem, cara-pálida?" A sua descrença no que chama de "descriminação" na literatura, crendo que ela não "vá muito longe" e gera "confusão" é o simples reflexo da baixa expectativa de êxito que a maioria dos brancos tem em relação aos negros, resultado dos preconceitos inconfessáveis, passados de geração para geração, para minar qualquer ímpeto de autodeterminação da população negra.

Para Aristóteles havia os gregos e o resto (os bárbaros). O branco brasileiro precisa superar este complexo helênico de pensar que no Brasil há os brancos e o resto (mestiços e negros). Tal postura é uma das responsáveis pelo descompasso da classe dirigente em face da real população. Certamente, essa é a razão de Lima Barreto, o maior crítico do bovarismo brasileiro, ainda ser muito pouco ensinado em nossas escolas. O daltonismo de Ferreira Gullar, advindo de um tempo de utopia socialista, hoje é pura cegueira. Traços físicos que caracterizam historicamente os negros não são só traços físicos, como quer o articulista, mas representações simbólicas, por isso perfeitamente suscetíveis de gerar literatura com especificidades. Se o poeta não concebe negros possuidores de consciência crítica no país e as históricas particularidades de sua gente, devia fazer a sua autocrítica e não insistir na cegueira. Não dá mais para negar que a classe C está disputando também assentos no vôo literário, além dos bancos de universidades, nos shoppings e outros espaços sociais. E a população negra também faz parte dela. Quem não quiser enxergar vai continuar vivendo embriagado por esta cachaça genuinamente brasileira, produzida nos engenhos decadentes: o mito da democracia racial. Pena que alguns, de tão viciados, não largam a garrafa.

Veja mais sobre Cuti

Luiz Silva (Cuti), escritor, doutor em literatura brasileira.

Conceição Evaristo - Insubmissas lágrimas de Mulheres (lançamento RJ)

Conceição Evaristo lança o livro “Insubmissas lágrimas de Mulheres”, Editora Nandyala, no Espaço Cultural CEDIM Heloneida Stuart, às 18h30. A obra da renomada escritora é uma coletânea de 13 contos que têm como protagonistas mulheres negras que colocam seus anseios, dores, temores, retirando-se do lugar do sofrimento, transformando-o em resistência.


LANÇAMENTO DO LIVRO “INSUBMISSAS LÁGRIMAS DE MULHERES” DE CONCEIÇÃO EVARISTO
DATA: QUINTA-FEIRA, 8/12, ÀS 18H30
LOCAL: ESPAÇO CULTURAL CEDIM HELONEIDA STUART
ENDEREÇO: RUA CAMERINO, Nº 51 – CENTRO – RIO DE JANEIRO – RJ