sexta-feira, 22 de junho de 2012

Sodade di Kabu Verdi (poema-homenagem a Corsino Fortes)

Segue poema em homenagem a Corsino Fortes (Cabo Verde) de Avani Souza Silva, amiga e doutoranda em Estudos Cabo-Verdianos na USP, gentilmente enviado para publicação aqui no blog.

Sodade di Kabu Verdi

Eu choro uma tristeza de sodade
Pena de Xandinha
Lembrança de Nhá Candinha
O silêncio do Monte Cara
A tosse de Parafuso
A esperança desabrida de Cruz
A magreza de Zefa...
Eu choro o semear em pó
O enterro dos meninos
A cicatriz medonha de Leandro
O fogão de três pedras
A morte das brasas
Os estalos calados
Meu Deus, eu choro
Por essas pessoas que não conheço
Palavras que não ouvi
Pedras que nunca pisei
Nhô Chic’Ana virou molambo
Morreu de fome
Ó, meu São Vicente
Ó, meu São Tiago
Ó, meu Santo Antão
Ó meu São Nicolau
Meus santos todos
E mais Santa Luzia
Iemanjás daqueles mares todos
Salamandras do Vulcão
Elfos dos ventos alíseos
Façam alguma coisa!

Sonia Rosa - Quando a escrava Esperança Garcia escreveu uma carta (resenha)


Sonia Rosa - Quando a escrava Esperança Garcia escreveu uma carta
Por Ricardo Riso

Revelar personagens históricos negros durante o Brasil Colônia é fundamental para mostrar a resistência de nossos antepassados, quebrar o estereótipo de que os negros aceitaram passivamente a escravidão e dar o devido valor de destaque a esses homens negros e mulheres negras rasurados da história oficial para a construção de um país justo e que respeite a diversidade étnica de sua população.

Em mais uma caprichada edição da editora Pallas para o segmento infantil, a renomada escritora Sonia Rosa agora apresenta a cativante história “Quando a escrava Esperança Garcia escreveu uma carta”. Trata-se da história real da escrava Esperança Garcia que, em 6 de setembro de 1770, juntou forças e coragem para escrever uma carta para o governador da capitania do Maranhão relatando os maus tratos sofridos por ordem de seu feitor na fazenda onde vivia. Na época a fazenda localizava-se no Piauí, então integrante da capitania do Maranhão.

Com a habitual escrita envolvente, a narrativa de Sonia Rosa apresenta diversos aspectos do cotidiano escravocrata, favorecendo a compreensão das injustiças e dos horrores submetidos aos escravos e escravas. Porém, a grande especificidade dessa história é que Esperança Garcia era uma escrava alfabetizada. Uma das raras mulheres que sabia escrever e ler em seu tempo, como frisa a personagem em dado momento. Esperança Garcia foi escrava em uma fazenda comandada por padres jesuítas da Companhia de Jesus, portanto, deve-se a isso o fato de saber escrever.

Entretanto, o drama, como se o fato de ser escrava já não fosse o maior dos dramas, acontece quando os padres jesuítas são expulsos do Brasil colônia por Marquês de Pombal no século XVIII. Com isso, Esperança Garcia, mulher casada e com filhos, vê sua família ser forçadamente separada de seu marido e filhos maiores. Ela e as crianças pequenas são transferidas para outra fazenda, ou seja, mais uma dispersão na vida dos escravizados, alijados da convivência entre seus entes, comprometendo as relações afetivas. Dispersão e vidas fragmentadas que marcaram e marcam as vidas dos negros nesse país.

Na nova fazenda, a violência física aos escravos torna-se rotineira e não alivia mulheres e crianças, para além do afastamento total da religião católica, a qual Esperança Garcia aprendeu e praticava com fervor. Com isso, o texto revela outra fragmentação imposta aos negros e negras com a dispersão da espiritualidade, na qual a assimilação com o aprendizado forçado da religião do opressor foi vitorioso, levando a personagem a reclamar do descumprimento de preceitos católicos, tais como a ausência do batismo dos filhos e o fato de não se confessar.

Ainda no campo das fragmentações dos corpos e mentes dos negros e das negras, podemos citar o nome cristão da escrava, Esperança Garcia, e o fato de desconhecer o significado de uma canção da língua de seus antepassados africanos que cantava para seu filho, como sua mãe cantava para ela, assim como sua avó cantava para sua mãe. O texto mostra a língua oral de sua etnia diluindo-se com o passar dos anos.

Contudo, uma mulher, ainda que escravizada, que sabia ler e escrever, tinha plena consciência das injustiças e dos malefícios do sistema escravocrata. Sendo assim, não poderia aceitar passivamente a sua vida de adversidades, o que estimulava a indignação, a revolta e o desejo de revelar os seus pensamentos, pois como afirma a personagem: “Saber ler e escrever é uma maneira de esticar, bem esticada, a voz da gente, fazendo com que ela chegue a tempos e lugares distantes, nunca antes imaginados”. Certa do seu comportamento insubmisso, resolve escrever uma carta para o governador e contar o seu sofrimento, a sua indignação e o seu desejo de mudanças. Na carta, dentre outros, relata os maus tratos aos escravos e a vontade maior de conviver novamente com seu marido e filhos.

A partir desse momento, o onomástico prevalece e Esperança Garcia passa a esperar a resposta do governador. A angústia aumenta enquanto a narrativa apresenta o cotidiano da escrava na fazenda. E Esperança Garcia espera a sua resposta, e espera, e espera, e espera...

Esse fato verídico foi descoberto pelo historiador Luiz Mott, posteriormente, por força da Lei nº 5.046, de 07 de janeiro de 1999, ficou instituído o dia 06 de setembro como sendo o “Dia Estadual da Consciência Negra” no Piauí. Além disso, o nome de Esperança Garcia foi dado a um hospital em Nazaré do Piauí, dá título ao Coletivo de Mulheres Negras de Teresina, dá nome a uma maternidade em São João do Piauí e inspira os negros e as negras do estado como exemplo da resistência e conscientização para a erradicação da discriminação racial no estado. Deve-se frisar também que a negra e escrava Esperança Garcia escreveu a primeira carta-petição do Brasil.

Complemento espetacular para a narrativa são as ilustrações da sempre competente Luciana Justiniani Hees, que muito engrandecem o livro, tornando-o uma verdadeira obra de arte. Para finalizar, talvez o maior mérito de “Quando a escrava Esperança Garcia escreveu uma carta” seja o de mais uma vez revelar a importância do ato da escrita para demonstrar as vivências sofridas das mulheres negras, já que suas vozes sempre foram silenciadas ao longo da história, por isso Esperança Garcia valoriza o fato da escrita atravessar lugares e desafiar o tempo, procedimento que depois seria consagrado com o livro “Quarto de Despejo”, de Carolina Maria de Jesus, e com as escritoras negras brasileiras contemporâneas, tais como Conceição Evaristo, Miriam Alves, Cristiane Sobral, Lia Vieira... ou seja, essas escrevivências vêm de longe... Um excelente livro de Sonia Rosa e recomendado para todas as idades.



Quando a escrava Esperança Garcia escreveu uma carta
Autora: Sonia Rosa
Ilustração: Luciana Justiniani Hees
Rio de Janeiro: Pallas Editora, 2012


Para conhecer um pouco o historiador Luiz Mott e ler o original da carta de Esperança Garcia, visite o link a seguir:
http://www.overmundo.com.br/overblog/um-rosto-para-esperanca-garcia

Entrevista com o historiador Luiz Mott:
http://www.revistadehistoria.com.br/secao/entrevista/luiz-mott

quinta-feira, 21 de junho de 2012

Nana & Nilo – que jogo é esse?, de Renato Noguera (resenha)


foto da página Nana & Nilo no Facebook


Nana & Nilo – que jogo é esse?, de Renato Noguera
por Ricardo Riso

Apresentar novas maneiras de brincadeiras para as crianças longe do estímulo à competição presente em nossa sociedade, assim como valores de solidariedade e de partilha de brinquedos, são os desafios aos quais se propôs o autor Renato Noguera para idealizar a coleção Nana & Nilo para o público infantil. Os dois primeiros volumes da coleção acabam de sair: “Aprendendo a Dividir” e “Que jogo é esse?”, sendo este o apresentado aqui.

Integram a coleção os gêmeos Nana e Nilo; Mulemba, a árvore sábia; e Gino, o pássaro amigo. Este quarteto é o responsável pelas viagens por diferentes culturas, apresentando diversas formas de relacionamento, o que fica muito bem demonstrado em “Que jogo é esse?”. Neste, Nilo fica entristecido por não conhecer um jogo no qual todas as crianças ganhem e fiquem felizes ao seu final, pois, a partir do momento em que há um campeão, os outros, os perdedores, sentem-se tristes ou até com sentimento de raiva, o que estimula a competição e a vitória a qualquer preço. Isso é extremamente ruim e desde cedo adestra os pequeninos para a busca pelo sucesso, visto que somente os vencedores são dignos de congratulações em nossa sociedade dominada pelo consumo. De acordo com Zigmuth Bauman, isso determina o “critério de inclusão e exclusão, assim como orientam a distribuição do apreço e do estigma sociais, e também de fatias de atenção do público” (BAUMAN, p. 71).

Nessa sociedade competitiva de consumidores, qualquer forma de cultura alternativa que não siga as regras do mercado e do consumo são prontamente rejeitadas, por isso as crianças são direcionadas por essa ideologia na qual “tão logo aprendem a ler, ou talvez bem antes, a ‘dependência das compras’ se estabelece nas crianças. (...) Numa sociedade de consumidores, todo mundo precisa ser, deve ser e tem que ser um consumidor por vocação” (BAUMAN, p. 73). Como forma de provocação ao comportamento que temos, a Mulemba decide levar os gêmeos ao continente africano para conhecer a etnia Batwa, onde as crianças têm jogos nos quais todos são vencedores. Estranho, não? Que jogo é esse em que todos são ganhadores e felizes ao seu final? Inadmissível para a nossa cultura. Destaca-se a maneira como a simbologia da Mulemba é reconfigurada pelo autor, pois a árvore representa a ancestralidade, lugar de encontro da natureza e da espiritualidade, também da transmissão de sabedoria dos mais velhos para os mais novos que se aproveitam da sombra proporcionada por sua grande copa.

O retorno feliz dos gêmeos mostra a importância de resgatar valores simples da vida, da convivência harmoniosa dificultada pela ambição desenfreada que somos expostos desde novos. Sendo assim, desvela-se a relevância de conhecer as culturas africanas para contrapormos a maneira como vivemos e refletirmos se é essa a forma como queremos ensinar as nossas crianças. Mérito do autor Renato Noguera, doutor em Filosofia e professor da UFRRJ, ao proporcionar essas reflexões com a leitura desse livro, e para as simpáticas ilustrações de Sandro Lopes. “Nana & Nilo – Que jogo é esse?” é mais um título que atende com louvor a lei 10.639/2003, assim como deve-se destacar o ambicioso projeto que inclui um site – nanaenilo.com.br – com diversas atividades para as crianças, sendo um passo fundamental para a diversidade e a popularização da produção literária infantil negro-brasileira  inserida nas novas tecnologias. Portanto, grande expectativa para ver as animações com os voos da árvore Mulemba conduzindo os gêmeos para os mais diversos cantos do planeta. Uma excelente ideia a partir da força da nossa ancestralidade africana.


Nana & Nilo – Que jogo é esse?
Autor: Renato Noguera
Ilustrações de Sandro Lopes
Hexis Editora
2012

Bibliografia:
BAUMAN, Zigmuth. Vida para consumo – a transformação das pessoas em mercadoria. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2008.

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Nok Nogueira - Jardim de Estações, lançamento em Luanda

Lançamento terceiro livro de poemas de Nok Nogueira, intitulado "Jardim de Estações", já apresentado em Lisboa. Agora para Luanda, dia 11 de Julho de 2012, na sede da União Dos Escritores Angolanos. Apresentação por conta do ensaísta e poeta angolano Jimmy Rufino.

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Domi Chirongo e Alexandre Chaúque lançam livros em Moçambique

NOVA LITERATURA MOÇAMBICANA. O Conselho Municipal da Cidade de Maputo e a Associação de Escritores Moçambicanos tem a honra de convidar ao lançamento dos livros Ndekeni, de Alexandre Chaúque, e Nau Nyau e Outras Sinas, de Domi Chirongo, a ter lugar no dia 19 de Junho de 2012, pelas 16h, no Átrio do Conselho Municipal da Cidade de Maputo. As duas obras foram vencedoras do Prémio Municipal 10 de Novembro, em 2010 (Domi Chirongo) e 2011 (Alexandre Chaúque). Entrada Livre.