domingo, 14 de abril de 2013

Eulalia Bernard (Costa Rica), brevíssimos apontamentos da sua poesia


Eulalia Bernard (Costa Rica), brevíssimos apontamentos da sua poesia
Por Ricardo Riso

As histórias das nações do continente americano são marcadas pelo silenciamento da participação dos negros na construção desses países. Retirados à força da África, a presença negra é mencionada durante o absurdo da violenta escravidão, depois com os processos de abolição, porém mantém-se silêncio sepulcral à revolução dos negros escravizados no Haiti (1804) e posterior expulsão dos colonizadores franceses. Uma humilhação para europeus e elites coloniais temerosos que uma onda revolucionária negra expandisse pelas Américas, que legou ao ostracismo para o restante do mundo a digna revolta antiescravagista liderada por Toussaint Louverture.

O cânone das literaturas americanas participa desse processo de ocultar os negros tanto nas personagens como na autoria. Em razão disso, uma das funções do texto literário produzido por negros é o seu caráter testemunhal, revisitando as rasuras da história, rompendo com os estereótipos impostos pelo preconceito racial, exigindo o reconhecimento da dignidade dos negros e da sua contribuição na formação de seus países.

Na Costa Rica, pequeno país da América Central, não poderia ser diferente e Eulalia Bernard (1935) é um nome que se impõe ao romper com essa perspectiva. Nascida em Limón, filha de jamaicanos, professora de literatura, criadora da cátedra de estudos afro-americanos na Universidade da Costa Rica em 1981.

“Ritmohéroe” (Editorial Costa Rica, 1982), livro de estreia desta poetisa negra, a primeira a ter publicação individual no seu país, procura retratar a peculiar presença dos negros na Costa Rica e os embates para construir uma identidade costa-riquenha. O prefácio de Quince Duncan revela que a diáspora negra na Costa Rica começa com a chegada de negros antilhanos – maioria jamaicanos – para construção de ferrovias ao final do século XIX. Depois, os negros passam a trabalhar no cultivo da banana. Essa primeira geração concentra-se na cidade de Limón, comunica-se em inglês e objetiva juntar economias para retornar à Jamaica. A partir de 1930, o país atravessa grave crise econômica, o regime fascista impõe o uso do idioma espanhol e força a assimilação cultural dos negros. A segunda geração relaciona-se com a Jamaica como um Éden, Limón como sua cidade e que guarda certos valores da cultura negra. Em 1960, a geração seguinte reage a esse processo, busca suas raízes e a contribuição dos negros para o país. Desde então esse processo vem sendo fortalecido pela quarta geração já nos anos 1980, tendo na inserção às universidades a marca para a disputa de novas epistemologias para pensar a população negra na Costa Rica.

Na sua poesia a fé católica surge não como resignação, mas como forma de questionamento diante das injustiças sociais: “Y el negro rezó/ pero Jesús no lo oyó/ y el negro rezó/ pero La Virgen no lo vio/ rezó el negro/ el negro rezó/ (...) el negro no más rezó/ el negro el fusil tomó/ el negro habló y habló/ Jesús lo oyó/ la Virgen lo vio/ con su voz de fusil/ y su estómago de reloj”. A urgência de mudanças apresenta-se na brevidade dos versos a partir da não manifestação de apoio das figuras bíblicas de Jesus e da Virgem Maria, que podem ser transpassadas para a indiferença de uma sociedade calcada na exclusão. Resta à população negra a voz insurgente para a emergência de seu tempo.

Dentre as marcas culturais dos negros na Costa Rica, a festa do carnaval é celebrada em alguns poemas como o momento de liberdade e gozo para os negros: “El Carnaval,/ vamos, veamos los negros brincar,/ que trabajo no les vamos a dar.// El Carnaval,/ siéntete rey o reina del mar,/ negro!, es tu única oportunidad”. Realidade comum lá e cá.

O amadurecimento identitário, o pertencimento à nação e o mito do paraíso perdido se dá em “Requiem a mi primo jamaiquino”: “Soy negro del campo,/ del Valle La Estrella./ Soy uma estrella negra/ em el flamante Blanco, azul y rojo/ de nuestra bandera”. A ruptura com o motivo edênico da Jamaica para a primeira geração de negros na Costa Rica surge com a identificação ao novo lugar, ao Valle La Estrela, e com o símbolo nacional da bandeira. Com isso, na zona de tensão caracterizada o entrecruzamento cultural aparece no uso da língua para a comunidade de Limón, ora espanhol, ora inglês, ou no uso do ‘spainenglish’: “Sí Seño;/ soy costarricense,/ aunque apellidado este/ con ‘insky’, ‘man’, o ‘Le’”.

É na transgressão da ordem estabelecida que a poesia de Eulalia Bernard desvela a participação dos negros na formação identitária costa-riquenha, tendo na ancestralidade do tambor a subversão da palavra escrita, da religião, da língua. A força da poesia ao ritmo do tambor, signo marcante da poética negra presente tanto no brasileiro Carlos de Assumpção quanto no martinicano Aimé Césaire, ou ainda no moçambicano José Craveirinha: “Mi poesía es um tamborileo. (A veces fuerte) con ritmos multiplicados por el fervor fuerte./ (...)En mi poesía el tambor es lira y el ritmo es el soneto. Yo soy la mambo del culto ancestro// Sé decir sí, sé decir ‘yes’. Sé decir lo que quiero en las lenguas que prefiero, con el habla del tambor./ En mi poesía, cada palabra es un dios. Cada dios es un ritmo, cada ritmo cópula, cada cópula un canto./ Mi poesía es. Hazte tambor y amarás mi canto”.

Estes são rápidos momentos da poética de Eulália Bernard, integrante dessa poética negro-diaspórica que incomoda com seus deslocamentos estéticos, semânticos, sintáticos, os cânones literários.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Carlos Lopes: Desafios contemporâneos da África - O legado de Amílcar Cabral


Desafios contemporâneos da África
O legado de Amílcar Cabral
Lopes, Carlos

ISBN: 9788539302291
Assunto: História
Idioma: Português
Formato: 14 x 21
Páginas: 216
Edição: 1ª
Ano: 2012
Acabamento: Brochura
Peso: 270g


Sinopse

Este livro, constituído de um conjunto de artigos escritos pelos principais especialistas na obra de Amilcar Cabral, é um convite à reflexão sobre a complexa situação do continente africano. Mas por que voltar ao pensador e revolucionário morto em 1973? A resposta está na importância de sua obra, a qual abre caminhos para compreender a situação atual da África, que se livrou do colonialismo, mas mergulhou em infindáveis lutas armadas sem ideologia que não podem dar respostas a seus problemas políticos, sociais e econômicos. “É justamente esta a razão pela qual é tão oportuno que aqueles que admiram Cabral paguem a ele o tributo de se aprofundar na difícil trilha da compreensão dos fenômenos atuais”, escreve o guineense Carlos Lopes organizador deste livro.
Tal compreensão passa pela obra desse pensador, considerado um dos mais inovadores e criativos já nascidos na África e um herói da emancipação do continente – Cabral foi fundador e líder do movimento de independência na Guiné-Bissau e Cabo Verde e um ativo participante da luta armada contra o colonialismo português nos anos 1970.

Cada um dos artigos reunidos neste livro reflete um ângulo diferente da obra do pensador. A apresentação, escrita por Peter Karibe Mendy, enfoca a situação da Guiné-Bissau colônia, que levou Cabral e seus camaradas a ingressarem na luta armada pela libertação dos guineenses e também dos cabo-verdianos. AlexisWick, Lars Rudebecke Ibrahim Abdullahfalam de sua originalidade ao tratar conceitos complexos com simplicidade e pragmatismo. Georges Nzongola-Ntalaja, John Fobajonge Carlos Lopes concentram-se na relevância das formulações de Cabral para a compreensão de dilemas persistentes, como a construção do Estado, o pan-africanismo e as dimensões éticas. Já Abebe Zegeyeaborda as ideias do intelectual sobre cultura num texto sobre sua influência na literatura africana.

Esta obra é, enfim, uma grande fonte de informações sobre o pensamento e a personalidade de Amílcar Cabral, que contribuiu de modo expressivo e definitivo para o processo que culminaria na independência das colônias portuguesas na África e representa uma chave para a compreensão daquele continente nos dias atuais.

Aimé Césaire - Diário de um retorno ao país natal (livro)

Em boa hora a edição brasileira de "Diário de um retorno ao país natal", do martinicano Aimé Césaire, publicado pela EDUSP. 

CAHIER D'UN RETOUR AU PAYS NATAL:
Diário de um Retorno ao País Natal 

de CÉSAIRE, Aimé
ISBN 10: 85-314-1355-9
ISBN 13: 978-85-314-1355-1
Formato: 14x21 cm
Nº de Páginas: 164 pp.
Peso: 242 g



Para Lilian Pestre de Almeida, Aimé Césaire constrói, em Diário de um Retorno ao País Natal, uma espécie de épico invertido: enquanto Os Lusíadas cantam a aventura dos colonizadores buscando impor às “terras viciosas” a marca da Cruz e do Ocidente, o poema de Césaire, aqui apresentado em edição bilíngue, é o canto dos colonizados e desenraizados sonhando em restabelecer o cordão umbilical com a Mãe África. O que o poeta da Martinica pretende é somar toda a experiência coletiva dos negros colonizados, sem deixar para trás nada do que constitui a história dos seus. O Diário se constrói como poema a partir de outras obras (das epopeias marítimas à poesia da Modernidade, de textos iniciáticos à História, da oralidade tradicional à linguagem científica), e conta também com a análise e excelente trabalho tradutório de Lilian Pestre de Almeida, que procura ser fiel em manter os termos regionais ou técnicos de Césaire, para que suas palavras não percam a força e a densidade.

http://www.edusp.com.br/detlivro.asp?id=413551

Aimé Césaire - Discurso sobre o colonialismo

O atualíssimo ensaio de Aimé Césaire, DISCURSO SOBRE O COLONIALISMO, em edição brasileira da Letras Contemporâneas.




DISCURSO SOBRE O COLONIALISMO
Autor: Aimé Césaire
Área: Direito | Filosofia | Política
ISBN: 9788576620570
Esperamos que a leitura deste livro possa contribuir para a construção de uma consciência coletiv de que, neste momento, é necessário prestar a mais ampla solidariedade ao povo haitiano, exigindo dos governos que enviem àquele país mais médicos, enfermeiros, professores, engenheiros e, nolugar de tropas de ocupação, alimentos, medicamentos, materiais de construção, roupas e todo o afeto de “um sonho intenso, um raio vívido de amor e de esperança”. (Cláudio Antonio Ribeiro)

Número de páginas: 85


http://www.letrascontemporaneas.com.br/catalogo.php?cod_ar=7&cod_lv=73


quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Boaventura Cardoso - Lançamento Livro R



Lançamento do romance Noites de Vigília, do angolano Boaventura Cardoso, com a presença do autor, Drª Laura Padilha (UFF), Drª Carmen Tindó (UFRJ) e Rafael Domingues Lenz Cesar (UFF)

domingo, 18 de novembro de 2012

Agenda Mulher Negra mostra sua Cara 2013


Wole Soyinka em Salvador


Literatura africana na sala de aula

Segue o link da matéria Literatura africana na sala de aula:
 
 
Inquietações deste blogueiro após ler a matéria.
 
A revista Nova Escola acaba de publicar uma matéria com o título, Literatura africana na sala de aula, de autoria do Prof. André Rosa, inserida no especial CONSCIÊNCIA NEGRA. Para além de tratar as literaturas de todo um continente no singular, pois gostaria de saber de qual literatura africana o prof. menciona (ou será que ficaríamos felizes se a nossa literatura fosse incluída sob o enorme guarda-chuva de literatura americana?), será que não causou nenhum ruído ao autor da matéria e à revista que todos os autores africanos citados são brancos? Não é um especial de CONSCIÊNCIA NEGRA? Será que negros não são escritores no continente africano? Por que escritores euro-descendentes precisam legitimar as literaturas africanas?
Além dessas pequenas questões, irrelevantes para alguns, dá para perceber o privilégio de determinadas editoras, pois os autores citados em sua maioria constam do catálogo daquela que talvez seja a maior editora do país, mas que não tem nenhum interesse em trabalhar com a lei 10.639/2003. Com um olhar um pouquinho além da ponta do nariz, o autor da matéria poderia perceber que existem editoras negras no país, publicando autores negros... ou se fosse o caso de falta de tempo, ou preguiça, talvez desconhecimento (creio que não), o autor poderia vasculhar o próprio catálogo da maior editora e encontraria Paulina Chiziane, Chimamanda Adichie, Chinua Achebe... Com um pouco mais de interesse, vasculhando outras editoras, descobriria Tânia Tomé, Nelson Saúte, Amélia Dalomba, Kandjila, José Luiz Tavares, Odete Semedo, Abdulai Sila, José Craveirinha... Ou seja, um especialista para a matéria evitaria esse alvo equívoco.
Ricardo Riso