domingo, 30 de junho de 2013

Mulheres na poesia cabo-verdiana (A Nação)


Mulheres na poesia cabo-verdiana
Ricardo Riso
Resenha publicada no semanário cabo-verdiano A Nação, n. 239, de 29 de março de 2012, p. E20.
O mês de março configura-se como o de celebração da mulher, assim como de reflexão das condições adversas de subalternidade por que passam as mulheres no mundo diariamente, realidade assaz comum em sociedades regidas pela ética patriarcal-capitalista e de ideologia racial branca como padrão hegemônico.
Da insistente pertinência e urgência do tema, em trocas por correspondência eletrônica com a socióloga e poetisa Eurídice Monteiro, intelectual com destacada presença na defesa dos direitos da mulher cabo-verdiana, venho desenvolvendo algumas questões acerca da poesia de voz feminina em Cabo Verde.
Em profunda análise da trajetória das mulheres-poetisas em Cabo Verde, Monteiro discorre sobre a exclusão social e literária que essas mulheres sofreram e sofrem ao longo dos anos, conduzindo-as a fazer do texto literário o espaço para denúncia de suas condições invisibilizadas ou estigmatizadas pelo cânone do arquipélago.
O texto de Monteiro revela questões impeditivas que abarcam aspectos culturais, sociais, raciais e de gênero para apresentar a “imposição da subalternidade do Outro” determinados por três paradoxos, sendo o primeiro a cultura dominante que ainda se funda em termos europeizantes e regionalizads, nos quais se destacam o padrão étnico-cultural africanizante como de suposta inferioridade cultural predominante na ilha de Santiago; o segundo trata das diferenças entre os espaços urbano e rural; enquanto o terceiro revela a dialética de inclusão e exclusão das mulheres, em diferentes combinações de gênero, classe, ou região, estigmatizando diferenças internas de erotismo e exotismo no coletivo das mulheres das ilhas de S. Vicente e Santiago.
A partir dessas formulações, Monteiro questiona a ausência de poetisas no período nativista e na revista Claridade, sendo que nesta jamais foi publicado texto de qualquer escritora, enquanto naquele a ensaísta faz um interessante levantamento de poetisas com textos publicados nos almanaques de lembranças, tendo especial destaque Antónia Gertrudes Pusich, autora da primeira obra publicada de autoria cabo-verdiana, «Elegia àmemória das infelizes victimas assassinadas por Francisco de Mattos Lobo» (poemas, 1844), e a primeira mulher a dirigir e fundar jornais.
A ensaísta mostra-se audaciosa ao questionar o cânone e revelar o sexismo claridoso ao tratar a condição da prostituição nos poemas de Jorge Barbosa em importante comparação a poemas de Yolanda Morazzo, assim como a voz poética feminina evocando a participação como sujeito da história em Vera Duarte e Carlota de Barros, para além da subversão das práticas sexistas homogenizantes através da apropriação das manifestações culturais e da memória coletiva. Para isso, menciona-se a importância da tradição oral revista por Nha Nácia Gomi e sua “ironia mordaz e desafiadora das práticas sociais sexistas”.
Enriquecedores para os interessados na temática são as propostas comparativas de textos pré e pós-independência e entre gêneros literários, como Lay Lobo e Maria Helena Spencer; a perspectiva da luta feminista em Vera Duarte e Dina Salústio; a percepção das vozes diaspóricas e o deparar-se com as mutações do arquipélago no regresso em Carlota de Barros; e o especial destaque à Eneida Nelly, jovem poetisa que recentemente deu fim à vida, como resposta à asfixia vivenciada cotidianamente por uma mulher negra, pobre e “colocou simultaneamente em debate o acesso desigual ao campo literário-cultural, entre homens e mulheres de uma dada ilha, bem como entre as mulheres de diferentes classes sociais ou regiões do arquipélago”, condição traduzida no sugestivo título de seu único livro: “Sukutam” (Escuta-me).

Trata-se de um ensaio fundamental por chamar atenção para o fato da marginalização das mulheres na sociedade cabo-verdiana manter-se desde os tempos coloniais, mas que vem sendo alterado gradativamente por vozes-mulheres cada vez mais inseridas nas diferentes áreas do saber.

Danny Spínola – Do Paraíso dos Rabelados de Santiago (A Nação)


Danny Spínola – Do Paraíso dos Rabelados de Santiago
Ricardo Riso
Resenha publicada no semanário cabo-verdiano A Nação, n. 235, de 1 de março de 2012, p. E13.
João Vário e Timóteo Tio Tiofe, os heterônimos de João Manuel Varela, apresentaram novos paradigmas à poesia cabo-verdiana com a inserção do longo poema narrativo, metáforas muito bem elaboradas e complexas, o conteúdo epicizante quando também heroico, assim como questões ontológicas e metafísicas, características que isolaram Varela de seus pares poéticos como também o fez boa parte da crítica especializada das literaturas africanas de língua portuguesa, que em sua sistematização restrita à poesia de resistência não considerou a obra de Varela como pertinente à formação da literatura cabo-verdiana. Porém, como frisou Pires Laranjeira, a obra de Varela com seus “Exemplos” é pioneira na perspectiva de antecipar a universalidade preponderante a partir dos anos 1980 no macrossistema dessas literaturas, fato que o próprio Varela, assinando como T. T. Tiofe, mencionou como desacertos da crítica e apontou a mudança de paradigma na poesia de Cabo Verde.
Danny Spínola, pseudônimo de Daniel Euricles Rodrigues Spínola, nascido na ilha de Santiago, assim como José Luiz Tavares, entre outros, é um poeta contemporâneo que dialoga com as obras de Vário e Tiofe. Spínola, já com vasta obra literária e ensaística, debruça-se sobre a sua terra e sobre o homem cabo-verdiano para fazer deles matéria de sua poesia, conforme apresentado no poema “Do Paraíso dos Rabelados de Santiago” (pp. 299-306), inserido na antologia “Destino de Bai”, sob organização de Francisco Fontes.
A respeito dos Rabelados afirma o autor em nota que se trata de comunidades religiosas de ordem romano-cristã “que se afastaram da Igreja Católica em 1942, devido aos novos preceitos da igreja, e foram viver isolados (...) em comunidades dispersas pelo interior da ilha de Santiago. Comungando uma vida natural, ligada à natureza, vivendo em casas de madeira e colmo, não aceitando nada que cheirasse à modernidade, foram perseguidos e presos pela PIDE, acusados de revoltosos políticos que apoiaram Amílcar Cabral”.
Dividido em cinco partes, o poema “Do Paraíso dos Rabelados de Santiago” apresenta um sujeito lírico a narrar a saga épico-telúrica e heroica desses filhos “erigidos pela lei da pedra e do vento”, enfatizando a primeira pessoa do plural quase como anáfora com o uso do verbo “falamos”, ou reforçando a apresentação desse “punhado de gente, crente” com o uso do advérbio “eis”.
Assim o sujeito lírico valoriza “estes filhos do conflito e da fé”, tanto religiosa quanto política, “lutando contra o mundanismo e os mosquitos;/ As pulgas e a modernidade das reluzentes garrafas DDT/ Em uníssono com o estigma do Graal”. Na fé rebelada “querendo reinventar e reviver, como era no princípio,/ Os auspícios do verbo e da maçã,/ Negando a intromissão e a dominação/ Daqueles que dá nação as rédeas detêm”.
A poesia desvela o humanismo comovente em ricas imagens: “Tudo que seja ouro ou moeda sem carne, ao seu desprezo votam/ Enquanto que o prumo de uma choupana/ Ou o coração de um bosque à sua sombra/ São hóstias de sol a sol em suas faces/ São eucaristias de sal nos seus precários pratos”. E tal como Vário/Tiofe, vale-se da enumeração vasta como característica formal: “Eis os filhos dos homens revelados/ Com as suas cabanas e seus funcos de cana e de funchos/ Com os seus corpos tão-só cobertos de algodão e linho/ Com os seus peitos de acordeão e alcatrão/ Ornamentados de madeira e sisal em cruz/ Com os seus pés nus, gretados e hirtos, rescindindo a lavas e cinzas/ Com os seus barros, os seus odres e as suas madeiras utilitárias/ Aguardando impassíveis os derradeiros sóis dos céus”.
Da fé telúrica, “são esses os poucos cuja voz a natureza, de pássaros e fonte, entende”; de caráter libertário e reformulador, “lá vão eles inventando suas mezinhas,/ As suas poções místicas e as suas alquimias”; de sincretismo religioso, “tementes aos Eclesiástes e aos Provérbios”.
Eis os Rabelados do Paraíso de Santiago em bela e justa homenagem de Danny Spínola.

Arménio Vieira – MITOgrafias (A Nação)


Arménio Vieira – MITOgrafias
Ricardo Riso
Resenha publicada no semanário cabo-verdiano A Nação, n. 233, de 16 de fevereiro de 2012, p. E20.
A voz poética singular de Arménio Vieira revela alguns dos melhores momentos da poesia cabo-verdiana, escorada na ironia fina e surpreendente, no sarcasmo corrosivo, na referência e reverência a toda uma cultura litero-filosófica ocidental estendendo-se às culturas orientais, árabes e do continente americano em busca de uma universalidade plena que demonstra vasta erudição e intenso labor de sua tessitura poética. Um livro de Arménio é deparar-se com um mundo ilimitado de imagens a dialogar, ora de forma explícita, ora de forma implícita, com autores expandindo-se em diferentes formas que vão do hai-kai a prosa poética, passando pela poesia experimental etc.
No livro MITOgrafias, da cabo-verdiana Ilhéu Editora e lançado em 2006, em três cadernos – Canto das graças, Dez poemas mais um (dedicado a João Cabral de Melo Neto) e MITOgrafias (tendo uma parte intitulada “A musa breve de Silvenius, que vai sendo longa”), o poeta renova o seu desmesurado arsenal poético a serviço de um sujeito lírico que navega pelo filosófico, mitológico, político, religioso, entre outras facetas de uma ininterrupta mutabilidade sempre subordinada a um rigor com a palavra poética precisa, exata e depurada. Preocupação estética que se apresenta ironicamente com o fazer poético e as simplórias soluções de colegas das letras e o uso de referências pouco criativas: “Com pauzinhos de fósforo/ podes construir um poema.// Mas atenção: o uso da cola/ estragaria o teu poema”, assim como a crítica a poetas que configuraram estilos na literatura de língua portuguesa, casos de Quevedo e Góngora: “Comparar um poema a um barco/ ou dizer dele que é uma rolha/ à deriva no azul, e, (...)/ sacar daí um texto/ em que os versos, em vez de versos,/ são mastros e velas e remos,/ é anunciar aos peixes que se preparem,/ pois alguém perdeu a bússola/ e um naufrágio é normal que aconteça”.
Uma poesia a serviço da transgressão que subverte os temas comuns da literatura cabo-verdiana como a seca e a chuva, procura no referencial brasileiro cabralino a Severina estética da pedra: “Não há guarda-chuva, João,/ contra o suão que em Setembro/ é uma vespa mordendo/ como se para o martírio/ não bastasse o calor e a secura./ Tão duro é o suão/ que, embora não tenha um som,/ se porventura o tivesse,/ jamais seria o som/ da chuva, que, ainda que molhe/ e mate, nunca mata queimando”.
Atento observador dessa vida “que é ácido e roda dentada”, poeta que jamais fugiu aos enfrentamentos da vida, revela o sujeito lírico que “Eu... sou/ como eu sou. Tenham paciência”. E assim, insubmisso e humanista, ataca a crueldade dos líderes sanguinários que aparecem aos montes em seus poemas: “Robespierre e Adolf Hitler/ se Átila os visse,/ largava a espada/ e fugia a cavalo”; porém, não deixa de ser sarcástico ao valorizar a inventividade poética à violência como o fato do título dar continuidade ao poema em “Apollinaire nas trincheiras” “declarou guerra à vírgula. O kaiser/ declarou guerra aos franceses”.
A dessacralização nas diversas ordens dos mitos greco-latinos, dos referenciais literários e filosóficos até arrancam o riso diante de desmedida ironia, por outro lado causam desconforto surpreendente quando há o mergulho nos mais tenebrosos infernos, visto que “há infernos sérios,/ pavorosos, como o vento, ciclónicos,/ não cabem nos livros, ninguém os pinta”, oriundos do mundo perverso dos homens e que “consta que Cérbero,/ o cão de três cabeças,/ fugiu do Inferno assim que os tipos/ da Gestapo aí entraram”.
A linguagem corrosiva que transfigura os referenciais gregos, como em “Excentricidades gregas”, ainda dá espaço para questões de ordem ontológica e metafísica, como também da religiosidade cristã subvertendo os seus dogmas são exemplos os poemas “A explicação dos deuses” e a onipresença de Deus em “Exercício teológico”.

MITOgrafias apresenta o poeta em estado pleno de maturidade poética, sempre inquietante e renovadora. É um prazer indescritível ler Arménio Vieira.

António Januário Leite – o poeta além-vale (A Nação)

António Januário Leite – o poeta além-vale
Ricardo Riso
Resenha publicada no semanário A Nação, n. 231, de 2 de fevereiro de 2012, p. E16
De escassa produção, a literatura cabo-verdiana da virada dos séculos XIX e XX, o período do cabo-verdianismo, revelou nomes de extremo interesse, porém pouca diversidade temática, com destaque para os articuladores do mito hesperitano, Pedro Cardoso e José Lopes, a poesia de Eugénio Tavares, a prosa cabo-verdianista de Guilherme Dantas e José Evaristo de Almeida.
Esses escritores valeram-se da implantação da imprensa e do surgimento de uma elite letrada nas ilhas, revoltas motivadas por condições inaceitáveis da administração colonial e sufocadas pela metrópole, assim como o fim da monarquia e o início da república marcaram o conturbado contexto político da época.
Na literatura, os autores desse período foram influenciados pelos movimentos de destaque em Portugal, tais como o romantismo, o simbolismo e o ultrarromantismo. O poeta António Januário Leite (AJL) dialogou com estas duas últimas correntes. Nascido em Chã Margarida, no Paul, ilha de Santo Antão, a 10/06/1865 e faleceu em 10/06/1930, após uma vida com graves problemas de saúde causadores de vários impedimentos durante a infância e a adolescência, e dificuldades financeiras na vida adulta em razão de seu envolvimento nas ações subversivas organizadas por seus pares.
O livro “António Januário Leite – o poeta além-vale” contém perfil poético-biográfico e antologia organizada pelo escritor Luís Romano e apresentação de Maria Helena Sato, sob a chancela da editora brasileira Komedi em 2005. Os poemas estão divididos em três cadernos: Ecos da juventude (até 1890), Expansões d’alma (1890-1900) e Horas sombrias (1900-1930); os três cadernos subdivididos em sonetos e outros cantares.
Rígido sonetista, precursor de ótimos sonetistas contemporâneos, casos de Filinto Elísio e José Luiz Tavares, a poesia de AJL é impregnada pela metáfora e figuras como assonância e aliteração, do penumbrismo típica dos simbolistas, com forte influência de Charles Baudelaire, conduzindo o sujeito lírico de AJL a subverter a contemplação do mar: “Mas quando do seu leito vasto e fundo/ o vejo erguer-se em fúrias desmedidas,/ Titão que acorda, amedrontando o mundo,/ tigre esfaimado que só pede vidas...// E sobre o dorso das medonhas vagas/ vejo pairar a vela com receio,/ então exclamo, vendo as suas plagas:/ Senhor! Senhor! como o mar é feio!”.
O pessimismo ultrarromântico dos autores do Mal-do-Século é um tema recorrente, como no poema “Biografia”: “Imersa em dolorosa enfermidade,/ a minha infância vi correr obscura;/ só vendo a paz em sonhos e aventura./ Chorando, atravessei a mocidade.// Por toda a parte a negra adversidade/ e sempre a minha estrela infausta e dura,/ eu creio estar ao pé da sepultura,/ a porta que conduz à Eternidade!”
O apego à morte e o desejo de versá-la são trabalhados à exaustão: “Todos te odeiam! vou cantar-te, Morte,/ ó nossa eterna amiga verdadeira,/ que nos estende a mão hospitaleira/ no fim do nosso caminhar sem norte!” Fixação temática que lembra a boa poesia de Valentinous Velhinho.
Essas características levam o sujeito lírico ao desencanto com a Humanidade: “Lastimo o nada desta vida escura,/ tão cheia de ignorância e de vaidade;/ a vida da chamada – Humanidade –/ que por momentos ou instantes dura.// (...) Abre os teus olhos, Homem, vê a fundo/ o que és e o que te cerca; tudo é peta:/ és nada, como nada és o teu mundo!”
O amor não realizado, comum aos ultrarromânticos, é transferido para a adoração da figura materna, presente em diversos poemas: “Mãe!... recebe estes meus versos,/ embora na dor imersos, em sinal de gratidão”.
Apesar do desencanto, o nativismo surge de forma simplória: “Paul! oh! terra extremosa,/ onde nasce e cresce a rosa/ e a laranjeira formosa/ a sorrir à luz do sol”.

Esta compilação de poemas de António Januário Leite revela um poeta em sintonia com as correntes literárias e aos problemas de seu tempo. Seus poemas são uma excelente amostragem da vertente ultrarromântica no sistema literário cabo-verdiano. 

Tchalé Figueira - Contos da Basileia (A Nação)

Tchalé Figueira - Contos da Basileia
Ricardo Riso
Resenha publicada no semanário A Nação, n. 194, de 19 de maio de 2011, p. 23.
As vivências na diáspora cabo-verdiana marcam os textos reunidos em “Contos da Basileia”, este novo livro de Tchalé Figueira. Sua escrita carregada em oralidade, leve e solta apresenta as aventuras e as desventuras no cotidiano de um jovem imigrante que saiu de Cabo Verde - então colonizada por Portugal para não servir às tropas salazaristas -, na cidade suíça da Basileia dos anos 1970/1980. Tal fato se confunde com a própria biografia do autor.
Pela voz do narrador vemos as agruras que passam os cabo-verdianos na terra longe, encarando os subempregos e a vida com parcos recursos: “porque costuma matar-nos in extremis a fome soltando saborosos sanduíches depois da meia-noite quando o local encerra as suas portas. Pãezinhos que sobram todas as noites e se não forem comidos acabam em contentores de lixo. Porra! Aqui na Suíça até o lixo é luxo!”. E as constantes lembranças das ilhas do seu país: “Fomos viver durante semanas junto ao mar que tanta falta me faz na Suíça e me dá fortes saudades de Cabo Verde”.
Momentos históricos dos anos 1970 são retratados, como a felicidade com a independência do país: “Cabo Verde conquistou hoje a sua independência depois de quase quinhentos anos de domínio português, mano, e finalmente somos uma terra livre, mano, e vamos comemorar com uma feijoada”. Descortina-se uma Basileia cosmopolita, com exilados de várias partes do mundo. Estão lá peruanos, turcos, brasileiros, nigerianos e outros que compartilham suas experiências nas lutas contra o imperialismo, marcas de uma época de utopias. “Escuto uma miríade de idiomas que não percebo mas fascinam-me”, diz o narrador.
A literatura é reverenciada pelo narrador ao celebrar o encantamento com o real maravilhoso latino-americano e seus representantes: “Hoje sou fã incondicional do real maravilloso (...)”; ou ao ter contato com um texto de Amílcar Cabral: “Jamais tinha visto ou lido um livro escrito pelo herói da nossa Nação!”, Das artes plásticas, o deslumbre e o olhar sensível: “deparo com as gigantescas pinturas dos abstractos expressionistas americanos e o meu coração bate descompassadamente, fico em transe apreciando as enormes manchas coloridas de Clifford Still, (...) os dripping de Jackson Pollock e de repente vejo-me diante do último quadro que Mark Rotko pintou antes de se suicidar aos oitenta e tal anos da sua vida a minha alma fica de novo angustiada”.
 Entretanto, a maior reverência que há nesses contos é destinada às mulheres, presenças marcantes nas histórias. O narrador não discrimina etnia, religião, posição política etc. Elas são bonitas, inteligentes, cultas, gostosas; bibliotecárias, artistas, mães de seus filhos; suíças, espanholas, cabo-verdianas, americanas; chamam-se Zoe, Bia, Barbara (“a que tem nos olhos a tonalidade azul do mar de Cabo Verde”), Rita, Marta, Claudia, Flora, Liza, Rachel... Elas são as responsáveis pelas situações inusitadas dos contos, como as viagens repentinas; revoltam-se com a sua libertinagem; e o inesperado encontro entre sua mulher e uma amante em um parque com seus filhos mestiços.
Contudo, não é apenas o lado cafajeste que se revela do narrador, há o reconhecimento e a paixão pelas mulheres, assim como a valorização por contribuírem no seu desenvolvimento cultural, como as discussões literárias acerca dos contos de Jorge Luis Borges, o contato com a música erudita e aprendizado para apreciar o jazz.

Bom, após a travessia das páginas de orgias com mulheres, literatura e artes plásticas dentro de um cotidiano imprevisível de um mulherengo contumaz, fica o sorriso por identificar, através de uma escrita despretensiosa, a vivência, as experiências felizes, o choque cultural, as dificuldades encontradas pelo cabo-verdiano na tão sonhada, e às vezes ilusória, terra longe. “Contos da Basileia” proporciona uma leitura agradável para ser degustada “como um bom copo de grogue de S. Antão”.

Valentinous Velhinho – Adeus Loucura Adeus (A Nação)

Valentinous Velhinho – Adeus Loucura Adeus
Ricardo Riso
Resenha publicada no semanário cabo-verdiano A Nação, n. 188, 7 de abril de 2011, p. 10.
Ultrapassar os limites da linguagem poética por uma dicção própria dentro do panorama literário cabo-verdiano, originalidade caracterizada por uma linguagem rebuscada, por metáforas insólitas e surreais, por figuras como o paradoxo, a inversão e a ironia que perpassam as diferentes experimentações estético-formais sempre atingidas com excelência por Valentinous Velhinho em longos poemas de versos livres ou na concisão de dísticos e tercetos, também em sonetos.
Em seu 2º livro de poesia, “Adeus Loucura Adeus”, lançado pela edições Artiletra em 1997, Valentinous Velhinho desvela a expansão de seu mundo poético que possui “no quarto as quatro estações/ E não as quatro paredes” metamoforseadas para a “Morte, a Solidão, a Loucura, o Desespero”, temas que são trabalhados à exaustão e com resultados surpreendentes, para além da incessante recriação de temas bíblicos e da exploração criativa de cânones da cultura ocidental, de Nietzsche a Sísifo, passando por Lautréamont e Fernando Pessoa.
“O poeta e a sua língua de fogo” faz do inusitado a matéria para a tessitura poética, principalmente no que diz respeito à Morte, tratada com obsessão: “Eu quero a morte, a minha primeira viagem a sós”. Desejo motivado diante de uma percepção do real desarranjado em que vive: “e a realidade em suma/ é, por isso sòmente, mais bastarda e cada vez mais nenhuma”, encorajando-o a redimensionar o labiríntico mundo que se encontra: “Sim, a chave do labirinto a entrada é./ E a sombra uma saída para dentro./ Ao pé do labirinto gira à toa o mundo,/ Pois que o labirinto já aqui é outro mundo”.
Como “o poeta não faz nada em vão”, as indagações ontológicas e metafísicas são permanentes, instala-se a crise do ser perante a impossibilidade de respostas: “E um homem (um homem/ Entre si e o estar sozinho) pensa./ Os olhares que às coisas deita,/ Olhares tão fixos, não o sabe ele,/ São afinal os seus monólogos, compreendê-lo. (...)/ Às suas dúvidas se atiram os ombros./ As suas dúvidas tantas, para nada!” Condição que leva o sujeito lírico ao desespero e torna o suicídio uma opção viável: “Se te assaltar a meio da noite/ Uma razão qualquer// Um minuto depois, já pensado e re/ Pensado o assunto, podes então dar/ Cabo da vida, um minuto depois, que,/ Mais do que esse tempo, é dar/ Importância à vida, ao mundo – e,/ Quem sabe a ti próprio! – se te assaltar/ A meio da noite, a meio da noite, uma razão!”
A releitura peculiar dos temas bíblicos é uma característica marcante na sua poesia, ousadia a serviço do insólito frente aos dogmas católicos: “Não para que a separasse da treva/ Mas para que a apartasse/ Do seu espírito movendo sobre/ A face das águas é que Deus fez a luz./ É para que esta lhe parecesse sua,/ Definitivamente sua,/ Apagou-a só para ter esse prazer./ Foi na treva que Deus se descansou./ Na treva e sùbitamente”.
Um tanto distante dos temas que consagraram a poesia cabo-verdiana, o sujeito lírico subverte o terra-longismo enquadrando-o ao insólito, comum à sua poesia: “Ia-me narrando maravilhas./ Nessa tarde, lembro-me,/ Falou-me de uma terra longínqua./ Na última estação/ A seca fora a mais desesperadora./ Um teimoso homem de campo,/ De boné à cabeça íngreme,/ Chegara a ponto de esconder na terra,/ Como se de um mijo se tratasse,/ O chuvisco que tombara – o próprio”.
Valentinous Velhinho, heterónimo de Valdemar Valentino Velhinho Rodrigues, possui uma poesia surpreendente, virulenta e de imagens inusitadas, pelo espanto da reformulação de significantes em uma linguagem surreal, por vezes paradoxal, de um poeta que vivencia a própria insularidade dentro do panorama literário cabo-verdiano, configurando-se como um dos seus mais criativos artífices. “Adeus Loucura Adeus” confirma a excelência do poeta.

“Francamente. Não sei como seguir com estes versos,/ Nem o sabe o coração, este pobre sopro da alma./ Ao menos carregasse o espírito uma só interrogação minha./ Ao menos a alma me envolvesse com um aceno de despedida.”

Pedro Cardoso... a manduco! (A Nação)

Pedro Cardoso... a manduco!

Ricardo Riso
Resenha publicada no semanário A Nação, n. 174, 30/12/2010, p. 14.

Ao Prof. Manuel Brito-Semedo, com elevada estima.
Há uma faceta de extremo interesse e pouco conhecida do poeta pré-claridoso Pedro Monteiro Cardoso (13/09/1883 - 29/10/1942), reveladora de um importante momento das ilhas em razão das profundas mudanças em Portugal com o germinal sistema republicano. Trata-se da atuação de Pedro Cardoso como cronista de jornais. Com o pseudônimo AFRO colaborou em vários jornais cabo-verdianos e portugueses, dentre outros, “O Manduco”, do qual foi fundador, e foi autor da célebre coluna “A Manduco...”, espaço de polêmicas e de um olhar atento aos problemas sociais e políticos do cotidiano da então colônia cabo-verdiana.
As crônicas de “A Manduco...” foram recolhidas e organizadas por Manuel Brito-Semedo e Joaquim Morais em cuidadosa edição do IBNL, sob o título “PEDRO CARDOSO – Textos Jornalísticos e Literários (Parte I)”, no ano de 2008. O livro tem prefácio de Isabel Lima Lobo, é separado por duas seções: a primeira com duas conferências de Cardoso – uma em defesa da língua cabo-verdiana, a outra no Dia de Camões, exaltando o épico, Portugal e a língua portuguesa; a segunda seção conta com 33 crônicas publicadas de 1911 a 1914 no jornal A Voz de Cabo Verde, para além de fundamental ficha com a origem dos textos.
As crônicas de “A Manduco...” impressionam pelo tom incisivo, de marcante e ruidosa intervenção político-social em defesa incontestável dos ilhéus e das ilhas, assim como apresentam e valorizam a atuação pungente dos intelectuais cabo-verdianos durante os primeiros anos da república portuguesa. Em sua estreia, AFRO já demonstra o caráter de sua seção: “(...) ‘a manduco’ é simplesmente o título de uma nova secção onde discretamente, sem ódios nem lisonjas, e a bem dos interesses da província, se dirão verdades... agridoces”.
Célebre na poesia de Cardoso a exaltação da pátria lusitana e da mátria terra crioula, porém o autor para reivindicar igual tratamento ao ilhéu recorre à Constituição para combater o racismo: “Artigo 1º - O território de Portugal compreende na África Ocidental o Arquipélago de Cabo Verde; (...) art. 5º - o Estado Português é uma República Unitária baseada na igualdade dos cidadãos perante a Lei. Logo, eu nasci dentro do território português, sou membro constituinte da Nação e igual perante a Lei aos demais cidadãos.”
O problema da educação dos ilhéus é escancarado com indignação, principalmente na quase completa exclusão das mulheres nas escolas por “existir muito maior número de crianças do sexo feminino e não haver para elas escolas, não em proporção às alunas, mas nem mesmo em número aproximado das destinadas ao sexo masculino. A desproporcionalidade é flagrante e provém do exclusivismo de outros tempos”.
Preocupações sociais várias são manifestadas e denunciadas pelo autor, preocupações em sua maioria contemporâneas ao nosso tempo: “O uso e o abuso do álcool e do tabaco, a tuberculose por esse abuso favorecida, as estiagens e o analfabetismo são males que estão afectando intensa e extensamente a província. Urge combatê-las sem descanso (...)”.
A instabilidade política da Europa, a ascensão da belicista Alemanha e seu interesse nas colônias portuguesas em África é tema de “quem nasceu em África mas é português não só pela bandeira como pelo sentimento e sangue”: “(...) Não posso conformar-me à horrorosa ideia de que serei obrigado a não falar, a não cultivar esta formosíssima língua toda feita de harmonia e doçura, em que balbuciei as minhas primeiras canções destronada, substituída por aquela em que escreveu Goeth”.

Pan-africanista convicto, defensor dos negros, demonstra seu apreço ao dedicar crônicas ao brasileiro Luis Gama e ao libertador do Haiti, Toussaint Loverture. Também comunista ferrenho, sobretudo humanista, o nativista Pedro Cardoso revela nas crônicas de AFRO as tensões que nortearam o seu tempo. Jamais omisso, determinado na defesa de suas posições, a pena corrosiva de AFRO apresenta o grande homem e poeta: Pedro Cardoso. 

Vera Duarte – O arquipélago da paixão (A Nação)


Vera Duarte – O arquipélago da paixão
Ricardo Riso
Resenha publicada no semanário cabo-verdiano A Nação, n. 163, p. 11, 14/10/2010.

O segundo livro de poesia da escritora Vera Duarte, "O Arquipélago da Paixão" (Mindelo: Artletra, 2001), apresenta em suas epígrafes o constante diálogo entre os poetas de gerações posteriores com as tendências temáticas de seus predecessores. Vera Duarte presta tributo aos escritores que sedimentaram o corpo poético cabo-verdiano, parafraseando os temas que os caracterizaram.

Vera Duarte é poeta, romancista, ensaísta e juíza, para além de vários cargos em prol dos direitos da mulher. Nascida na cidade de Mindelo, ilha de São Vicente, formou-se em Direito na Universidade Clássica de Lisboa, em Portugal.

Como em seu 1º livro de poesia, "Amanhã amadrugada", este "O Arquipélago da Paixão" também divide-se em quatro cadernos. As homenagens não se restringem aos compatriotas, mas estendem-se a angolanos como Mario de Andrade e Luandino Vieira, entre outros.

Em "Os meninos", dedicado a Jorge Barbosa, o uso do pasargadismo como evasão denuncia a condição miserável em que se encontram "os meninos da pobreza, do abandono e do desespero. De ranho no nariz, pés descalços e calções rotos eles passeiam seus corpos esqueléticos". Como alento à triste situação os meninos "sonharão com terras distantes, glórias inexistentes e banquetes fabulosos até que o romper do sol e a fome crónica os arranque do sossego cúmplice dos botes para mais um dia de desesperanças”. E assim como o poeta claridoso, oferecer o gesto solidário: "Queria então estar ao lado deles e sem qualquer palavra, passar-lhes a Estrela da Manhã".

Na reflexão seguinte, Duarte homenageia outro claridoso, Baltasar Lopes (Osvaldo Alcântara). Em "A viagem", a imagem de Pasárgada é motivada pela pobreza do arquipélago: "No seu cotidiano de miséria, dormindo no chão húmido de terra batida, coberto de serapilheira e comendo os restos repartidos, (...)/ Aguarda contudo com ânsia o dia da partida./ A viagem. O vapor./ Sabe que um dia, escondido em um navio cargueiro, ele irá demandar novos horizontes, zarpará à procura da terra prometida./ Então sim ele poderá decifrar a angústia que lhe encolhe a alma quando o seu corpo celebra a ânsia da partida."

Já Mário Fonseca recebe um longo poema dedicado à liberdade, às conquistas de todos os povos e às mulheres. Em "Ortodoxias em desagregação", o eu lírico agradece a premonição do poeta, sua certeza na Utopia, sua defesa da justiça, sua exaltação nas vitórias diversas em todas as partes e em todas as épocas: "O fascínio vem-me de longe / de tudo o que foi esperança / desde o início dos tempos".

Ao poeta Oswaldo Osório o eu lírico reflete e denuncia a dor sofrida pela mulher, da estreita relação entre amor e morte. Divaga: "confusa me pergunto se o amor rima com escravidão, submissão, humilhação", e comenta o destino cruel: “converter-se de humano a farrapo/ no destino caótico de vidas/ que a vida nada reservou".

Em "A outra", dedicado à Dina Salústio, há o conflito existencial de uma mulher que se rebela contra as normas sociais em convívio inquietante com a mulher que aceita a submissão, além de questionar uma "civilização incoerente": "Quem é essa outra mulher que me habita e abusivamente ocupou quase todos os espaços? (...)/ Quem é essa mulher que me oferece as bem-aventuranças e me cega para os precipícios?/ Madalena a mulher espreita e tenta. Ela quer e sabe./ Mas há uma inquietação também por um destino feminino sem subversões, feito de silêncio e de renúncias, que garantem Maria, virgem mãe./ Quantas vezes me quedarei perplexa e angustiada perante as encruzilhadas desta civilização incoerente?".


Apreendemos o amor incondicional de Vera Duarte a Cabo Verde em “O Arquipélago da Paixão”, e, principalmente, à literatura das ilhas por meio das epígrafes dedicadas aos poetas, ora do passado claridoso, ora aos seus pares contemporâneos. Assim, percorremos o percurso de afirmação da literatura cabo-verdiana no decorrer do século XX, suas inquietações, conflitos e mudanças temáticas. É a poesia agindo com olhar crítico para um jovem país em construção.

sábado, 27 de abril de 2013

Memória da noite revisitado e outros poemas de Abelardo Rodrigues

 
Como celebração dos 35 anos da estreia em publicação individual de Abelardo Rodrigues, o relançamento de memória da noite - revisitada & outros poemas.

A seguir, texto de divulgação de Marciano Ventura.

Temos o prazer de convidá-lo para prestigiar o lançamento do livro Memória da noite revisitado e outros poemas de Abelardo Rodrigues, a ser realizado na sede da Ação Educativa, localizada à Rua General Jardim 666, Vila Buarque, São Paulo, no dia 10 de maio de 2013, às 19:h30 horas.

 Nessa noite, além da sessão de autógrafos, teremos leituras de poemas do autor, exposição, projeção de imagens e a participação de Denna Hill e Henrique Elói nos agraciando com um requintado repertório musical.

 Contamos com a presença de tod@s para partilhar esse importante momento da história e vida literária do poeta Abelardo Rodrigues, assim como, da literatura negra brasileira.

 Desde já, agende-se.
 

 Coordenação Editorial – Marciano Ventura
 Revisão: Camila Omena e Taís Lopes
 Revisão Final: Oswaldo de Camargo
 Capa: Edson Ikê
 Edição e Produção: Ciclo Contínuo, Produtora Axé, Elo da Corrente, Col. Esperança Garcia, Perifatividade e 5º Elemento.
 Apoio para o lançamento: Ação Educativa


 Sobre o autor:
 ABELARDO RODRIGUES

 Escritor e poeta, Abelardo Rodrigues nasceu em Monte Azul Paulista -SP, em 1952. Mora na zona leste paulistana a mais de 30 anos. É considerado um dos poetas mais representativo do cenário literário na comunidade negra a partir do final da década de 70.

 Foi cofundador do Quilombhoje Literatura, e depois junto com Oswaldo de Camargo e Paulo Colina seguiu seu itinerário traçando diversas iniciativas relacionadas a literatura. Publicou Memória da Noite(1978), tem participação na premiada antologia Axé– Antologia Contemporânea da poesia negra(1982), O Negro Escrito (1987), entre outras... Abelardo já publicou seus poemas e contos nos Estados Unidos e Alemanha e é geralmente citado em livros de crítica especializada.
 
Abaixo, capa da edição de 1978.