domingo, 30 de junho de 2013

Rinkel e Vera Duarte (A Nação)

Rinkel e Vera Duarte
Ricardo Riso
Resenha publicada no semanário cabo-verdiano A Nação, n. 245, de 10 de maio de 2012, p. E11
Os problemas oriundos da imposição da subalternidade às mulheres nas sociedades africanas contemporâneas são desvelados com extrema urgência pela poesia comprometida com questões de gênero, escancarando os preconceitos de diversas ordens sofridos por elas. Em razão do predomínio masculino na literatura não abordar com a devida atenção essas questões, vozes poéticas insubmissas apresentam, a partir de um ponto de vista feminino, as opressões impostas, a revolta e o acalanto para todas as mulheres, transformando os seus poemas em representações de dramas coletivos.
A escritora e jurista cabo-verdiana Vera Duarte e a moçambicana Rinkel são legítimas representantes dessa escrita comprometida a combater o machismo e as desigualdades sociais, pois constroem uma poesia de intervenção social e em defesa intransigente da mulher. Rinkel, pseudônimo de Márcia dos Santos nasceu em Inhambane, em 1977, e já publicou três livros de poesia: “Almas Gêmeas” (1998, AEMO), “Revelações” (2006, AEMO) e “Emoções e Abstrações” (2011, FUNDAC). Hoje, Rinkel é uma destacada voz poética feminina moçambicana, ao lado de Tânia Tomé e Sónia Sulthuane, seguidoras de importantes nomes do passado, tais como Noémia de Sousa e Glória de Sant’Anna.
Tal como em Cabo Verde, tímida é a presença das poetisas na literatura moçambicana, por isso a relevância das obras “Revelações”, de Rinkel, e "Preces e Súplicas ou os Cânticos da Desesperança", de Vera Duarte, para a representação de vozes silenciadas, visto que a persistência é a mola propulsora desse "escreviver". A perseverança permanece acesa para iluminar um futuro sem as desigualdades da contemporaneidade. Assim diz Rinkel: “Eu queria./ Queria muito./ Tanto mais que acreditei que iria conseguir!/ Enfim.../ Nem tudo se consegue.../ Mas continuo acreditando./ Ainda quero./ Quero bastante”. Já em Duarte a perseverança incontestável no porvir: “... até que um dia/ farta já da mediania/ dos voos rasantes// que planam sem ousar// me arme de um hino revolucionário/ e parta// em direcção a uma madrugada diferente”.
Contra as atrocidades do cotidiano, o sujeito lírico de Rinkel é rebelde e insubmisso diante dos preconceitos patriarcais. Revolta-se, atenta as mulheres para o destino cruel que as espera caso se mantenham inertes e as convoca para a libertação de uma consciência feminina: “Encara a realidade mulher!/ (...) Serás escrava do trabalho da tua própria casa,/ Não terminarás os estudos/ Serás amante de um barrigudo/ Teus filhos serão drogados// Não queres nada disso?/ Se não lutares para conquistares teus objetivos/ Vais acabar assim/ Por isso, minha irmã/ Mulher! Mãe!/ Vamos à luta!// Sem homens no comando,/ Sem ninguém dizendo que não conseguirás/ Apenas luta!/ Tu és capaz! A vitória é tua!” Enquanto Duarte mantém uma postura corrosiva, a palavra contestatária firme e direta a tocar nas mentes obliteradas: “Tempos novos/ ideais recuperados/ brilho no ar e transparência em tudo/ serão espelho/ onde se refletirá/ a imagem/ diferente e subversiva/ da mulher de hoje/ a ganhar forma/ a ganhar corpo/ a crescer/ a VIVER”.
Observadoras dos problemas de ontem e de hoje, Rinkel escancara as vidas destruídas, de famílias dilaceradas por ‘companheiros’ ausentes, capazes de abandonar suas mulheres grávidas entregues à própria sorte, como no sugestivo título do poema “Lei da Família Moçambicana”: “Barrigas grávidas/ De pais ausentes, infiéis, polígamos// Amantes/ Sem planos/ Sem promessas/ Sem esperanças/ Sem futuro// Apenas amantes”. Enquanto Duarte demonstra as consequências desse abandono e de sonhos dilacerados: “(...) Queria ser uma mulher sensual/ De formas cheias/ E peito redondo//(...) Queria ser.../ ... e não sou// (...) Queria mas o meu peito/ se exaure/ na busca desesperada do leite/ para a criança/ que me morre nos braços”

Por fim, Vera Duarte e Rinkel são vozes poéticas que incomodam a ordem estabelecida, vozes assumidamente feministas e corrosivas, imprescindíveis nas literaturas de seus países. 

Kaoberdiano Dambará (A Nação)


Kaoberdiano Dambará
Ricardo Riso
Resenha publicada no semanário cabo-verdiano A Nação, n. 243, de 28 de abril de 2012, p. E14
Raras são as manifestações literárias da afro-crioulidade e da língua materna na literatura cabo-verdiana entre os nativistas, hesperitanos e claridosos até a chegada de uma postura mais contestatária dos representantes da Nova Largada, sendo assinalável para a timidez de tal afirmação a postura racista, branca e eurocêntrica da colonização portuguesa que sempre procurou desvalorizar os aspectos culturais da afro-crioulidade e das origens negras contribuintes para a formação da sociedade cabo-verdiana.
Diante de quadro opressor e de negatividade explícita, favorecido por um discurso de exaltação à mestiçagem que oculta os traços identitários negros, um sentimento afro-crioulizante só poderia surgir atrelado a um quadro de ruptura com a então colônia e de necessária libertação em prol da independência da nação a ganhar corpo na década de 1940, se torna um processo irreversível nos anos 1950, com a criação do PAIGC e a idealização da “reafricanização dos espíritos” de Amílcar Cabral e Manuel Duarte, e atinge o seu auge na década seguinte com as guerras coloniais iniciadas em Angola, Moçambique e Guiné-Bissau.
Nessa perspectiva, é de suma importância para a compreensão da luta anticolonial o papel exercido pelos escritores que vivenciaram esse período a leitura da obra de Kaoberdiano Dambará, pseudônimo de Felisberto Vieria Lopes, nascido em 1937 na ilha de Santiago. Segundo Mario Pinto de Andrade no prefácio para a Antologia Temática de Poesia Africana – O Canto Armado, vol. 2: “Kaoberdiano Dambará, que define a revolta para a liberdade, indica claramente o dever do militante de brandir o ferro no cimo dos montes. Daí o facto de o PAIGC ter saudado então a poesia do autor de Nóti (edição do PAIGC, 1964) como ‘das mais vigorosas, combativas que jamais se escreveu em língua crioula’” (1979, p. 13).
Expressiva é a maneira como a defesa do negro, do país e da África livres apresentam-se em seus poemas, também totalmente compreensível o apoio à divulgação de sua obra pelo PAIGC, já que os poemas são em língua materna e incisivos nas suas críticas como demonstram os textos selecionados na antologia supracitada de Andrade e no vol. 1, intitulado na Noite Grávida de Punhais. O uso do imperativo mostra o poder de arregimentação para a luta que se trava em todo o continente: “Ergue-te e caminha filho de África/ ergue-te negro escuta o clamor do povo: África Justiça Liberdade”.
Sua obra desvela os motivos da falta de união e os conflitos existenciais do ilhéu a partir da perspectiva racial: “Bo bem di londji / (...) Dikansa no bem kombersa / xinta bo bem flam,’m ta pidi’u!/ (...) nôs sangui ê kêl um ta korê na vea./ Ma ê kel: - Branko dja suparano,/ bo ta diskunfia di mi!”. Manifesta o caráter didático ao revelar o arquétipo do opressor na figura do espantalho do grande latifundiário: “Na triatu’l Mundo,/ tud’ê forsa’l Distino,/ tud’ê forsa’l spantadjo:/ Nhôs da ko nho Fifi na tchon,/ spantadjo ta kaba, Distino ta kaba!
Como também é assinalável a gradação tensa das estrofes rumo ao processo de conscientização identitária negra e libertária do poema Juramento em intertextualidade com “O galo cantou na baía” de Manuel Lopes: “galo dja korko assa;// sê pam sirbi Branko, ma’m krê morê/ probi, sukuro, negro – na bo pé:/ nh’aima ta russussita na floresta.// Nha mai dexam mustura nha sangui/ ko tromento, ko batuko, ko stribilim:/ Aima di nôs guentis dja labanta di koba!”
Substantivos os poemas dedicados ao grande líder Amílcar Cabral após a sua morte e a perpetuação de seus ideais para revigorar e inspirar a poesia de combate, sendo homenageado com as letras de seu sobrenome iniciando cada verso: “Canto no ôbi, no ka cêta:/ Anôs, nôs sorti ê spantado,/ Bento ki passa na sono,/ Riba’l kórda’l nôs bida,/ Anti kôrda, djê passa;/ Liberdádi ê kaminho kâ dexano!”

A luta pela libertação do país e a valorização do negro cabo-verdiano como inspiração para a poesia de Kaoberdiano Dambará é a testemunha da utopia que virou realidade. 

Mulheres na poesia cabo-verdiana (A Nação)


Mulheres na poesia cabo-verdiana
Ricardo Riso
Resenha publicada no semanário cabo-verdiano A Nação, n. 239, de 29 de março de 2012, p. E20.
O mês de março configura-se como o de celebração da mulher, assim como de reflexão das condições adversas de subalternidade por que passam as mulheres no mundo diariamente, realidade assaz comum em sociedades regidas pela ética patriarcal-capitalista e de ideologia racial branca como padrão hegemônico.
Da insistente pertinência e urgência do tema, em trocas por correspondência eletrônica com a socióloga e poetisa Eurídice Monteiro, intelectual com destacada presença na defesa dos direitos da mulher cabo-verdiana, venho desenvolvendo algumas questões acerca da poesia de voz feminina em Cabo Verde.
Em profunda análise da trajetória das mulheres-poetisas em Cabo Verde, Monteiro discorre sobre a exclusão social e literária que essas mulheres sofreram e sofrem ao longo dos anos, conduzindo-as a fazer do texto literário o espaço para denúncia de suas condições invisibilizadas ou estigmatizadas pelo cânone do arquipélago.
O texto de Monteiro revela questões impeditivas que abarcam aspectos culturais, sociais, raciais e de gênero para apresentar a “imposição da subalternidade do Outro” determinados por três paradoxos, sendo o primeiro a cultura dominante que ainda se funda em termos europeizantes e regionalizads, nos quais se destacam o padrão étnico-cultural africanizante como de suposta inferioridade cultural predominante na ilha de Santiago; o segundo trata das diferenças entre os espaços urbano e rural; enquanto o terceiro revela a dialética de inclusão e exclusão das mulheres, em diferentes combinações de gênero, classe, ou região, estigmatizando diferenças internas de erotismo e exotismo no coletivo das mulheres das ilhas de S. Vicente e Santiago.
A partir dessas formulações, Monteiro questiona a ausência de poetisas no período nativista e na revista Claridade, sendo que nesta jamais foi publicado texto de qualquer escritora, enquanto naquele a ensaísta faz um interessante levantamento de poetisas com textos publicados nos almanaques de lembranças, tendo especial destaque Antónia Gertrudes Pusich, autora da primeira obra publicada de autoria cabo-verdiana, «Elegia àmemória das infelizes victimas assassinadas por Francisco de Mattos Lobo» (poemas, 1844), e a primeira mulher a dirigir e fundar jornais.
A ensaísta mostra-se audaciosa ao questionar o cânone e revelar o sexismo claridoso ao tratar a condição da prostituição nos poemas de Jorge Barbosa em importante comparação a poemas de Yolanda Morazzo, assim como a voz poética feminina evocando a participação como sujeito da história em Vera Duarte e Carlota de Barros, para além da subversão das práticas sexistas homogenizantes através da apropriação das manifestações culturais e da memória coletiva. Para isso, menciona-se a importância da tradição oral revista por Nha Nácia Gomi e sua “ironia mordaz e desafiadora das práticas sociais sexistas”.
Enriquecedores para os interessados na temática são as propostas comparativas de textos pré e pós-independência e entre gêneros literários, como Lay Lobo e Maria Helena Spencer; a perspectiva da luta feminista em Vera Duarte e Dina Salústio; a percepção das vozes diaspóricas e o deparar-se com as mutações do arquipélago no regresso em Carlota de Barros; e o especial destaque à Eneida Nelly, jovem poetisa que recentemente deu fim à vida, como resposta à asfixia vivenciada cotidianamente por uma mulher negra, pobre e “colocou simultaneamente em debate o acesso desigual ao campo literário-cultural, entre homens e mulheres de uma dada ilha, bem como entre as mulheres de diferentes classes sociais ou regiões do arquipélago”, condição traduzida no sugestivo título de seu único livro: “Sukutam” (Escuta-me).

Trata-se de um ensaio fundamental por chamar atenção para o fato da marginalização das mulheres na sociedade cabo-verdiana manter-se desde os tempos coloniais, mas que vem sendo alterado gradativamente por vozes-mulheres cada vez mais inseridas nas diferentes áreas do saber.

Danny Spínola – Do Paraíso dos Rabelados de Santiago (A Nação)


Danny Spínola – Do Paraíso dos Rabelados de Santiago
Ricardo Riso
Resenha publicada no semanário cabo-verdiano A Nação, n. 235, de 1 de março de 2012, p. E13.
João Vário e Timóteo Tio Tiofe, os heterônimos de João Manuel Varela, apresentaram novos paradigmas à poesia cabo-verdiana com a inserção do longo poema narrativo, metáforas muito bem elaboradas e complexas, o conteúdo epicizante quando também heroico, assim como questões ontológicas e metafísicas, características que isolaram Varela de seus pares poéticos como também o fez boa parte da crítica especializada das literaturas africanas de língua portuguesa, que em sua sistematização restrita à poesia de resistência não considerou a obra de Varela como pertinente à formação da literatura cabo-verdiana. Porém, como frisou Pires Laranjeira, a obra de Varela com seus “Exemplos” é pioneira na perspectiva de antecipar a universalidade preponderante a partir dos anos 1980 no macrossistema dessas literaturas, fato que o próprio Varela, assinando como T. T. Tiofe, mencionou como desacertos da crítica e apontou a mudança de paradigma na poesia de Cabo Verde.
Danny Spínola, pseudônimo de Daniel Euricles Rodrigues Spínola, nascido na ilha de Santiago, assim como José Luiz Tavares, entre outros, é um poeta contemporâneo que dialoga com as obras de Vário e Tiofe. Spínola, já com vasta obra literária e ensaística, debruça-se sobre a sua terra e sobre o homem cabo-verdiano para fazer deles matéria de sua poesia, conforme apresentado no poema “Do Paraíso dos Rabelados de Santiago” (pp. 299-306), inserido na antologia “Destino de Bai”, sob organização de Francisco Fontes.
A respeito dos Rabelados afirma o autor em nota que se trata de comunidades religiosas de ordem romano-cristã “que se afastaram da Igreja Católica em 1942, devido aos novos preceitos da igreja, e foram viver isolados (...) em comunidades dispersas pelo interior da ilha de Santiago. Comungando uma vida natural, ligada à natureza, vivendo em casas de madeira e colmo, não aceitando nada que cheirasse à modernidade, foram perseguidos e presos pela PIDE, acusados de revoltosos políticos que apoiaram Amílcar Cabral”.
Dividido em cinco partes, o poema “Do Paraíso dos Rabelados de Santiago” apresenta um sujeito lírico a narrar a saga épico-telúrica e heroica desses filhos “erigidos pela lei da pedra e do vento”, enfatizando a primeira pessoa do plural quase como anáfora com o uso do verbo “falamos”, ou reforçando a apresentação desse “punhado de gente, crente” com o uso do advérbio “eis”.
Assim o sujeito lírico valoriza “estes filhos do conflito e da fé”, tanto religiosa quanto política, “lutando contra o mundanismo e os mosquitos;/ As pulgas e a modernidade das reluzentes garrafas DDT/ Em uníssono com o estigma do Graal”. Na fé rebelada “querendo reinventar e reviver, como era no princípio,/ Os auspícios do verbo e da maçã,/ Negando a intromissão e a dominação/ Daqueles que dá nação as rédeas detêm”.
A poesia desvela o humanismo comovente em ricas imagens: “Tudo que seja ouro ou moeda sem carne, ao seu desprezo votam/ Enquanto que o prumo de uma choupana/ Ou o coração de um bosque à sua sombra/ São hóstias de sol a sol em suas faces/ São eucaristias de sal nos seus precários pratos”. E tal como Vário/Tiofe, vale-se da enumeração vasta como característica formal: “Eis os filhos dos homens revelados/ Com as suas cabanas e seus funcos de cana e de funchos/ Com os seus corpos tão-só cobertos de algodão e linho/ Com os seus peitos de acordeão e alcatrão/ Ornamentados de madeira e sisal em cruz/ Com os seus pés nus, gretados e hirtos, rescindindo a lavas e cinzas/ Com os seus barros, os seus odres e as suas madeiras utilitárias/ Aguardando impassíveis os derradeiros sóis dos céus”.
Da fé telúrica, “são esses os poucos cuja voz a natureza, de pássaros e fonte, entende”; de caráter libertário e reformulador, “lá vão eles inventando suas mezinhas,/ As suas poções místicas e as suas alquimias”; de sincretismo religioso, “tementes aos Eclesiástes e aos Provérbios”.
Eis os Rabelados do Paraíso de Santiago em bela e justa homenagem de Danny Spínola.

Arménio Vieira – MITOgrafias (A Nação)


Arménio Vieira – MITOgrafias
Ricardo Riso
Resenha publicada no semanário cabo-verdiano A Nação, n. 233, de 16 de fevereiro de 2012, p. E20.
A voz poética singular de Arménio Vieira revela alguns dos melhores momentos da poesia cabo-verdiana, escorada na ironia fina e surpreendente, no sarcasmo corrosivo, na referência e reverência a toda uma cultura litero-filosófica ocidental estendendo-se às culturas orientais, árabes e do continente americano em busca de uma universalidade plena que demonstra vasta erudição e intenso labor de sua tessitura poética. Um livro de Arménio é deparar-se com um mundo ilimitado de imagens a dialogar, ora de forma explícita, ora de forma implícita, com autores expandindo-se em diferentes formas que vão do hai-kai a prosa poética, passando pela poesia experimental etc.
No livro MITOgrafias, da cabo-verdiana Ilhéu Editora e lançado em 2006, em três cadernos – Canto das graças, Dez poemas mais um (dedicado a João Cabral de Melo Neto) e MITOgrafias (tendo uma parte intitulada “A musa breve de Silvenius, que vai sendo longa”), o poeta renova o seu desmesurado arsenal poético a serviço de um sujeito lírico que navega pelo filosófico, mitológico, político, religioso, entre outras facetas de uma ininterrupta mutabilidade sempre subordinada a um rigor com a palavra poética precisa, exata e depurada. Preocupação estética que se apresenta ironicamente com o fazer poético e as simplórias soluções de colegas das letras e o uso de referências pouco criativas: “Com pauzinhos de fósforo/ podes construir um poema.// Mas atenção: o uso da cola/ estragaria o teu poema”, assim como a crítica a poetas que configuraram estilos na literatura de língua portuguesa, casos de Quevedo e Góngora: “Comparar um poema a um barco/ ou dizer dele que é uma rolha/ à deriva no azul, e, (...)/ sacar daí um texto/ em que os versos, em vez de versos,/ são mastros e velas e remos,/ é anunciar aos peixes que se preparem,/ pois alguém perdeu a bússola/ e um naufrágio é normal que aconteça”.
Uma poesia a serviço da transgressão que subverte os temas comuns da literatura cabo-verdiana como a seca e a chuva, procura no referencial brasileiro cabralino a Severina estética da pedra: “Não há guarda-chuva, João,/ contra o suão que em Setembro/ é uma vespa mordendo/ como se para o martírio/ não bastasse o calor e a secura./ Tão duro é o suão/ que, embora não tenha um som,/ se porventura o tivesse,/ jamais seria o som/ da chuva, que, ainda que molhe/ e mate, nunca mata queimando”.
Atento observador dessa vida “que é ácido e roda dentada”, poeta que jamais fugiu aos enfrentamentos da vida, revela o sujeito lírico que “Eu... sou/ como eu sou. Tenham paciência”. E assim, insubmisso e humanista, ataca a crueldade dos líderes sanguinários que aparecem aos montes em seus poemas: “Robespierre e Adolf Hitler/ se Átila os visse,/ largava a espada/ e fugia a cavalo”; porém, não deixa de ser sarcástico ao valorizar a inventividade poética à violência como o fato do título dar continuidade ao poema em “Apollinaire nas trincheiras” “declarou guerra à vírgula. O kaiser/ declarou guerra aos franceses”.
A dessacralização nas diversas ordens dos mitos greco-latinos, dos referenciais literários e filosóficos até arrancam o riso diante de desmedida ironia, por outro lado causam desconforto surpreendente quando há o mergulho nos mais tenebrosos infernos, visto que “há infernos sérios,/ pavorosos, como o vento, ciclónicos,/ não cabem nos livros, ninguém os pinta”, oriundos do mundo perverso dos homens e que “consta que Cérbero,/ o cão de três cabeças,/ fugiu do Inferno assim que os tipos/ da Gestapo aí entraram”.
A linguagem corrosiva que transfigura os referenciais gregos, como em “Excentricidades gregas”, ainda dá espaço para questões de ordem ontológica e metafísica, como também da religiosidade cristã subvertendo os seus dogmas são exemplos os poemas “A explicação dos deuses” e a onipresença de Deus em “Exercício teológico”.

MITOgrafias apresenta o poeta em estado pleno de maturidade poética, sempre inquietante e renovadora. É um prazer indescritível ler Arménio Vieira.

António Januário Leite – o poeta além-vale (A Nação)

António Januário Leite – o poeta além-vale
Ricardo Riso
Resenha publicada no semanário A Nação, n. 231, de 2 de fevereiro de 2012, p. E16
De escassa produção, a literatura cabo-verdiana da virada dos séculos XIX e XX, o período do cabo-verdianismo, revelou nomes de extremo interesse, porém pouca diversidade temática, com destaque para os articuladores do mito hesperitano, Pedro Cardoso e José Lopes, a poesia de Eugénio Tavares, a prosa cabo-verdianista de Guilherme Dantas e José Evaristo de Almeida.
Esses escritores valeram-se da implantação da imprensa e do surgimento de uma elite letrada nas ilhas, revoltas motivadas por condições inaceitáveis da administração colonial e sufocadas pela metrópole, assim como o fim da monarquia e o início da república marcaram o conturbado contexto político da época.
Na literatura, os autores desse período foram influenciados pelos movimentos de destaque em Portugal, tais como o romantismo, o simbolismo e o ultrarromantismo. O poeta António Januário Leite (AJL) dialogou com estas duas últimas correntes. Nascido em Chã Margarida, no Paul, ilha de Santo Antão, a 10/06/1865 e faleceu em 10/06/1930, após uma vida com graves problemas de saúde causadores de vários impedimentos durante a infância e a adolescência, e dificuldades financeiras na vida adulta em razão de seu envolvimento nas ações subversivas organizadas por seus pares.
O livro “António Januário Leite – o poeta além-vale” contém perfil poético-biográfico e antologia organizada pelo escritor Luís Romano e apresentação de Maria Helena Sato, sob a chancela da editora brasileira Komedi em 2005. Os poemas estão divididos em três cadernos: Ecos da juventude (até 1890), Expansões d’alma (1890-1900) e Horas sombrias (1900-1930); os três cadernos subdivididos em sonetos e outros cantares.
Rígido sonetista, precursor de ótimos sonetistas contemporâneos, casos de Filinto Elísio e José Luiz Tavares, a poesia de AJL é impregnada pela metáfora e figuras como assonância e aliteração, do penumbrismo típica dos simbolistas, com forte influência de Charles Baudelaire, conduzindo o sujeito lírico de AJL a subverter a contemplação do mar: “Mas quando do seu leito vasto e fundo/ o vejo erguer-se em fúrias desmedidas,/ Titão que acorda, amedrontando o mundo,/ tigre esfaimado que só pede vidas...// E sobre o dorso das medonhas vagas/ vejo pairar a vela com receio,/ então exclamo, vendo as suas plagas:/ Senhor! Senhor! como o mar é feio!”.
O pessimismo ultrarromântico dos autores do Mal-do-Século é um tema recorrente, como no poema “Biografia”: “Imersa em dolorosa enfermidade,/ a minha infância vi correr obscura;/ só vendo a paz em sonhos e aventura./ Chorando, atravessei a mocidade.// Por toda a parte a negra adversidade/ e sempre a minha estrela infausta e dura,/ eu creio estar ao pé da sepultura,/ a porta que conduz à Eternidade!”
O apego à morte e o desejo de versá-la são trabalhados à exaustão: “Todos te odeiam! vou cantar-te, Morte,/ ó nossa eterna amiga verdadeira,/ que nos estende a mão hospitaleira/ no fim do nosso caminhar sem norte!” Fixação temática que lembra a boa poesia de Valentinous Velhinho.
Essas características levam o sujeito lírico ao desencanto com a Humanidade: “Lastimo o nada desta vida escura,/ tão cheia de ignorância e de vaidade;/ a vida da chamada – Humanidade –/ que por momentos ou instantes dura.// (...) Abre os teus olhos, Homem, vê a fundo/ o que és e o que te cerca; tudo é peta:/ és nada, como nada és o teu mundo!”
O amor não realizado, comum aos ultrarromânticos, é transferido para a adoração da figura materna, presente em diversos poemas: “Mãe!... recebe estes meus versos,/ embora na dor imersos, em sinal de gratidão”.
Apesar do desencanto, o nativismo surge de forma simplória: “Paul! oh! terra extremosa,/ onde nasce e cresce a rosa/ e a laranjeira formosa/ a sorrir à luz do sol”.

Esta compilação de poemas de António Januário Leite revela um poeta em sintonia com as correntes literárias e aos problemas de seu tempo. Seus poemas são uma excelente amostragem da vertente ultrarromântica no sistema literário cabo-verdiano. 

Tchalé Figueira - Contos da Basileia (A Nação)

Tchalé Figueira - Contos da Basileia
Ricardo Riso
Resenha publicada no semanário A Nação, n. 194, de 19 de maio de 2011, p. 23.
As vivências na diáspora cabo-verdiana marcam os textos reunidos em “Contos da Basileia”, este novo livro de Tchalé Figueira. Sua escrita carregada em oralidade, leve e solta apresenta as aventuras e as desventuras no cotidiano de um jovem imigrante que saiu de Cabo Verde - então colonizada por Portugal para não servir às tropas salazaristas -, na cidade suíça da Basileia dos anos 1970/1980. Tal fato se confunde com a própria biografia do autor.
Pela voz do narrador vemos as agruras que passam os cabo-verdianos na terra longe, encarando os subempregos e a vida com parcos recursos: “porque costuma matar-nos in extremis a fome soltando saborosos sanduíches depois da meia-noite quando o local encerra as suas portas. Pãezinhos que sobram todas as noites e se não forem comidos acabam em contentores de lixo. Porra! Aqui na Suíça até o lixo é luxo!”. E as constantes lembranças das ilhas do seu país: “Fomos viver durante semanas junto ao mar que tanta falta me faz na Suíça e me dá fortes saudades de Cabo Verde”.
Momentos históricos dos anos 1970 são retratados, como a felicidade com a independência do país: “Cabo Verde conquistou hoje a sua independência depois de quase quinhentos anos de domínio português, mano, e finalmente somos uma terra livre, mano, e vamos comemorar com uma feijoada”. Descortina-se uma Basileia cosmopolita, com exilados de várias partes do mundo. Estão lá peruanos, turcos, brasileiros, nigerianos e outros que compartilham suas experiências nas lutas contra o imperialismo, marcas de uma época de utopias. “Escuto uma miríade de idiomas que não percebo mas fascinam-me”, diz o narrador.
A literatura é reverenciada pelo narrador ao celebrar o encantamento com o real maravilhoso latino-americano e seus representantes: “Hoje sou fã incondicional do real maravilloso (...)”; ou ao ter contato com um texto de Amílcar Cabral: “Jamais tinha visto ou lido um livro escrito pelo herói da nossa Nação!”, Das artes plásticas, o deslumbre e o olhar sensível: “deparo com as gigantescas pinturas dos abstractos expressionistas americanos e o meu coração bate descompassadamente, fico em transe apreciando as enormes manchas coloridas de Clifford Still, (...) os dripping de Jackson Pollock e de repente vejo-me diante do último quadro que Mark Rotko pintou antes de se suicidar aos oitenta e tal anos da sua vida a minha alma fica de novo angustiada”.
 Entretanto, a maior reverência que há nesses contos é destinada às mulheres, presenças marcantes nas histórias. O narrador não discrimina etnia, religião, posição política etc. Elas são bonitas, inteligentes, cultas, gostosas; bibliotecárias, artistas, mães de seus filhos; suíças, espanholas, cabo-verdianas, americanas; chamam-se Zoe, Bia, Barbara (“a que tem nos olhos a tonalidade azul do mar de Cabo Verde”), Rita, Marta, Claudia, Flora, Liza, Rachel... Elas são as responsáveis pelas situações inusitadas dos contos, como as viagens repentinas; revoltam-se com a sua libertinagem; e o inesperado encontro entre sua mulher e uma amante em um parque com seus filhos mestiços.
Contudo, não é apenas o lado cafajeste que se revela do narrador, há o reconhecimento e a paixão pelas mulheres, assim como a valorização por contribuírem no seu desenvolvimento cultural, como as discussões literárias acerca dos contos de Jorge Luis Borges, o contato com a música erudita e aprendizado para apreciar o jazz.

Bom, após a travessia das páginas de orgias com mulheres, literatura e artes plásticas dentro de um cotidiano imprevisível de um mulherengo contumaz, fica o sorriso por identificar, através de uma escrita despretensiosa, a vivência, as experiências felizes, o choque cultural, as dificuldades encontradas pelo cabo-verdiano na tão sonhada, e às vezes ilusória, terra longe. “Contos da Basileia” proporciona uma leitura agradável para ser degustada “como um bom copo de grogue de S. Antão”.

Valentinous Velhinho – Adeus Loucura Adeus (A Nação)

Valentinous Velhinho – Adeus Loucura Adeus
Ricardo Riso
Resenha publicada no semanário cabo-verdiano A Nação, n. 188, 7 de abril de 2011, p. 10.
Ultrapassar os limites da linguagem poética por uma dicção própria dentro do panorama literário cabo-verdiano, originalidade caracterizada por uma linguagem rebuscada, por metáforas insólitas e surreais, por figuras como o paradoxo, a inversão e a ironia que perpassam as diferentes experimentações estético-formais sempre atingidas com excelência por Valentinous Velhinho em longos poemas de versos livres ou na concisão de dísticos e tercetos, também em sonetos.
Em seu 2º livro de poesia, “Adeus Loucura Adeus”, lançado pela edições Artiletra em 1997, Valentinous Velhinho desvela a expansão de seu mundo poético que possui “no quarto as quatro estações/ E não as quatro paredes” metamoforseadas para a “Morte, a Solidão, a Loucura, o Desespero”, temas que são trabalhados à exaustão e com resultados surpreendentes, para além da incessante recriação de temas bíblicos e da exploração criativa de cânones da cultura ocidental, de Nietzsche a Sísifo, passando por Lautréamont e Fernando Pessoa.
“O poeta e a sua língua de fogo” faz do inusitado a matéria para a tessitura poética, principalmente no que diz respeito à Morte, tratada com obsessão: “Eu quero a morte, a minha primeira viagem a sós”. Desejo motivado diante de uma percepção do real desarranjado em que vive: “e a realidade em suma/ é, por isso sòmente, mais bastarda e cada vez mais nenhuma”, encorajando-o a redimensionar o labiríntico mundo que se encontra: “Sim, a chave do labirinto a entrada é./ E a sombra uma saída para dentro./ Ao pé do labirinto gira à toa o mundo,/ Pois que o labirinto já aqui é outro mundo”.
Como “o poeta não faz nada em vão”, as indagações ontológicas e metafísicas são permanentes, instala-se a crise do ser perante a impossibilidade de respostas: “E um homem (um homem/ Entre si e o estar sozinho) pensa./ Os olhares que às coisas deita,/ Olhares tão fixos, não o sabe ele,/ São afinal os seus monólogos, compreendê-lo. (...)/ Às suas dúvidas se atiram os ombros./ As suas dúvidas tantas, para nada!” Condição que leva o sujeito lírico ao desespero e torna o suicídio uma opção viável: “Se te assaltar a meio da noite/ Uma razão qualquer// Um minuto depois, já pensado e re/ Pensado o assunto, podes então dar/ Cabo da vida, um minuto depois, que,/ Mais do que esse tempo, é dar/ Importância à vida, ao mundo – e,/ Quem sabe a ti próprio! – se te assaltar/ A meio da noite, a meio da noite, uma razão!”
A releitura peculiar dos temas bíblicos é uma característica marcante na sua poesia, ousadia a serviço do insólito frente aos dogmas católicos: “Não para que a separasse da treva/ Mas para que a apartasse/ Do seu espírito movendo sobre/ A face das águas é que Deus fez a luz./ É para que esta lhe parecesse sua,/ Definitivamente sua,/ Apagou-a só para ter esse prazer./ Foi na treva que Deus se descansou./ Na treva e sùbitamente”.
Um tanto distante dos temas que consagraram a poesia cabo-verdiana, o sujeito lírico subverte o terra-longismo enquadrando-o ao insólito, comum à sua poesia: “Ia-me narrando maravilhas./ Nessa tarde, lembro-me,/ Falou-me de uma terra longínqua./ Na última estação/ A seca fora a mais desesperadora./ Um teimoso homem de campo,/ De boné à cabeça íngreme,/ Chegara a ponto de esconder na terra,/ Como se de um mijo se tratasse,/ O chuvisco que tombara – o próprio”.
Valentinous Velhinho, heterónimo de Valdemar Valentino Velhinho Rodrigues, possui uma poesia surpreendente, virulenta e de imagens inusitadas, pelo espanto da reformulação de significantes em uma linguagem surreal, por vezes paradoxal, de um poeta que vivencia a própria insularidade dentro do panorama literário cabo-verdiano, configurando-se como um dos seus mais criativos artífices. “Adeus Loucura Adeus” confirma a excelência do poeta.

“Francamente. Não sei como seguir com estes versos,/ Nem o sabe o coração, este pobre sopro da alma./ Ao menos carregasse o espírito uma só interrogação minha./ Ao menos a alma me envolvesse com um aceno de despedida.”

Pedro Cardoso... a manduco! (A Nação)

Pedro Cardoso... a manduco!

Ricardo Riso
Resenha publicada no semanário A Nação, n. 174, 30/12/2010, p. 14.

Ao Prof. Manuel Brito-Semedo, com elevada estima.
Há uma faceta de extremo interesse e pouco conhecida do poeta pré-claridoso Pedro Monteiro Cardoso (13/09/1883 - 29/10/1942), reveladora de um importante momento das ilhas em razão das profundas mudanças em Portugal com o germinal sistema republicano. Trata-se da atuação de Pedro Cardoso como cronista de jornais. Com o pseudônimo AFRO colaborou em vários jornais cabo-verdianos e portugueses, dentre outros, “O Manduco”, do qual foi fundador, e foi autor da célebre coluna “A Manduco...”, espaço de polêmicas e de um olhar atento aos problemas sociais e políticos do cotidiano da então colônia cabo-verdiana.
As crônicas de “A Manduco...” foram recolhidas e organizadas por Manuel Brito-Semedo e Joaquim Morais em cuidadosa edição do IBNL, sob o título “PEDRO CARDOSO – Textos Jornalísticos e Literários (Parte I)”, no ano de 2008. O livro tem prefácio de Isabel Lima Lobo, é separado por duas seções: a primeira com duas conferências de Cardoso – uma em defesa da língua cabo-verdiana, a outra no Dia de Camões, exaltando o épico, Portugal e a língua portuguesa; a segunda seção conta com 33 crônicas publicadas de 1911 a 1914 no jornal A Voz de Cabo Verde, para além de fundamental ficha com a origem dos textos.
As crônicas de “A Manduco...” impressionam pelo tom incisivo, de marcante e ruidosa intervenção político-social em defesa incontestável dos ilhéus e das ilhas, assim como apresentam e valorizam a atuação pungente dos intelectuais cabo-verdianos durante os primeiros anos da república portuguesa. Em sua estreia, AFRO já demonstra o caráter de sua seção: “(...) ‘a manduco’ é simplesmente o título de uma nova secção onde discretamente, sem ódios nem lisonjas, e a bem dos interesses da província, se dirão verdades... agridoces”.
Célebre na poesia de Cardoso a exaltação da pátria lusitana e da mátria terra crioula, porém o autor para reivindicar igual tratamento ao ilhéu recorre à Constituição para combater o racismo: “Artigo 1º - O território de Portugal compreende na África Ocidental o Arquipélago de Cabo Verde; (...) art. 5º - o Estado Português é uma República Unitária baseada na igualdade dos cidadãos perante a Lei. Logo, eu nasci dentro do território português, sou membro constituinte da Nação e igual perante a Lei aos demais cidadãos.”
O problema da educação dos ilhéus é escancarado com indignação, principalmente na quase completa exclusão das mulheres nas escolas por “existir muito maior número de crianças do sexo feminino e não haver para elas escolas, não em proporção às alunas, mas nem mesmo em número aproximado das destinadas ao sexo masculino. A desproporcionalidade é flagrante e provém do exclusivismo de outros tempos”.
Preocupações sociais várias são manifestadas e denunciadas pelo autor, preocupações em sua maioria contemporâneas ao nosso tempo: “O uso e o abuso do álcool e do tabaco, a tuberculose por esse abuso favorecida, as estiagens e o analfabetismo são males que estão afectando intensa e extensamente a província. Urge combatê-las sem descanso (...)”.
A instabilidade política da Europa, a ascensão da belicista Alemanha e seu interesse nas colônias portuguesas em África é tema de “quem nasceu em África mas é português não só pela bandeira como pelo sentimento e sangue”: “(...) Não posso conformar-me à horrorosa ideia de que serei obrigado a não falar, a não cultivar esta formosíssima língua toda feita de harmonia e doçura, em que balbuciei as minhas primeiras canções destronada, substituída por aquela em que escreveu Goeth”.

Pan-africanista convicto, defensor dos negros, demonstra seu apreço ao dedicar crônicas ao brasileiro Luis Gama e ao libertador do Haiti, Toussaint Loverture. Também comunista ferrenho, sobretudo humanista, o nativista Pedro Cardoso revela nas crônicas de AFRO as tensões que nortearam o seu tempo. Jamais omisso, determinado na defesa de suas posições, a pena corrosiva de AFRO apresenta o grande homem e poeta: Pedro Cardoso. 

Vera Duarte – O arquipélago da paixão (A Nação)


Vera Duarte – O arquipélago da paixão
Ricardo Riso
Resenha publicada no semanário cabo-verdiano A Nação, n. 163, p. 11, 14/10/2010.

O segundo livro de poesia da escritora Vera Duarte, "O Arquipélago da Paixão" (Mindelo: Artletra, 2001), apresenta em suas epígrafes o constante diálogo entre os poetas de gerações posteriores com as tendências temáticas de seus predecessores. Vera Duarte presta tributo aos escritores que sedimentaram o corpo poético cabo-verdiano, parafraseando os temas que os caracterizaram.

Vera Duarte é poeta, romancista, ensaísta e juíza, para além de vários cargos em prol dos direitos da mulher. Nascida na cidade de Mindelo, ilha de São Vicente, formou-se em Direito na Universidade Clássica de Lisboa, em Portugal.

Como em seu 1º livro de poesia, "Amanhã amadrugada", este "O Arquipélago da Paixão" também divide-se em quatro cadernos. As homenagens não se restringem aos compatriotas, mas estendem-se a angolanos como Mario de Andrade e Luandino Vieira, entre outros.

Em "Os meninos", dedicado a Jorge Barbosa, o uso do pasargadismo como evasão denuncia a condição miserável em que se encontram "os meninos da pobreza, do abandono e do desespero. De ranho no nariz, pés descalços e calções rotos eles passeiam seus corpos esqueléticos". Como alento à triste situação os meninos "sonharão com terras distantes, glórias inexistentes e banquetes fabulosos até que o romper do sol e a fome crónica os arranque do sossego cúmplice dos botes para mais um dia de desesperanças”. E assim como o poeta claridoso, oferecer o gesto solidário: "Queria então estar ao lado deles e sem qualquer palavra, passar-lhes a Estrela da Manhã".

Na reflexão seguinte, Duarte homenageia outro claridoso, Baltasar Lopes (Osvaldo Alcântara). Em "A viagem", a imagem de Pasárgada é motivada pela pobreza do arquipélago: "No seu cotidiano de miséria, dormindo no chão húmido de terra batida, coberto de serapilheira e comendo os restos repartidos, (...)/ Aguarda contudo com ânsia o dia da partida./ A viagem. O vapor./ Sabe que um dia, escondido em um navio cargueiro, ele irá demandar novos horizontes, zarpará à procura da terra prometida./ Então sim ele poderá decifrar a angústia que lhe encolhe a alma quando o seu corpo celebra a ânsia da partida."

Já Mário Fonseca recebe um longo poema dedicado à liberdade, às conquistas de todos os povos e às mulheres. Em "Ortodoxias em desagregação", o eu lírico agradece a premonição do poeta, sua certeza na Utopia, sua defesa da justiça, sua exaltação nas vitórias diversas em todas as partes e em todas as épocas: "O fascínio vem-me de longe / de tudo o que foi esperança / desde o início dos tempos".

Ao poeta Oswaldo Osório o eu lírico reflete e denuncia a dor sofrida pela mulher, da estreita relação entre amor e morte. Divaga: "confusa me pergunto se o amor rima com escravidão, submissão, humilhação", e comenta o destino cruel: “converter-se de humano a farrapo/ no destino caótico de vidas/ que a vida nada reservou".

Em "A outra", dedicado à Dina Salústio, há o conflito existencial de uma mulher que se rebela contra as normas sociais em convívio inquietante com a mulher que aceita a submissão, além de questionar uma "civilização incoerente": "Quem é essa outra mulher que me habita e abusivamente ocupou quase todos os espaços? (...)/ Quem é essa mulher que me oferece as bem-aventuranças e me cega para os precipícios?/ Madalena a mulher espreita e tenta. Ela quer e sabe./ Mas há uma inquietação também por um destino feminino sem subversões, feito de silêncio e de renúncias, que garantem Maria, virgem mãe./ Quantas vezes me quedarei perplexa e angustiada perante as encruzilhadas desta civilização incoerente?".


Apreendemos o amor incondicional de Vera Duarte a Cabo Verde em “O Arquipélago da Paixão”, e, principalmente, à literatura das ilhas por meio das epígrafes dedicadas aos poetas, ora do passado claridoso, ora aos seus pares contemporâneos. Assim, percorremos o percurso de afirmação da literatura cabo-verdiana no decorrer do século XX, suas inquietações, conflitos e mudanças temáticas. É a poesia agindo com olhar crítico para um jovem país em construção.