domingo, 30 de junho de 2013

Vera Duarte – O arquipélago da paixão (A Nação)


Vera Duarte – O arquipélago da paixão
Ricardo Riso
Resenha publicada no semanário cabo-verdiano A Nação, n. 163, p. 11, 14/10/2010.

O segundo livro de poesia da escritora Vera Duarte, "O Arquipélago da Paixão" (Mindelo: Artletra, 2001), apresenta em suas epígrafes o constante diálogo entre os poetas de gerações posteriores com as tendências temáticas de seus predecessores. Vera Duarte presta tributo aos escritores que sedimentaram o corpo poético cabo-verdiano, parafraseando os temas que os caracterizaram.

Vera Duarte é poeta, romancista, ensaísta e juíza, para além de vários cargos em prol dos direitos da mulher. Nascida na cidade de Mindelo, ilha de São Vicente, formou-se em Direito na Universidade Clássica de Lisboa, em Portugal.

Como em seu 1º livro de poesia, "Amanhã amadrugada", este "O Arquipélago da Paixão" também divide-se em quatro cadernos. As homenagens não se restringem aos compatriotas, mas estendem-se a angolanos como Mario de Andrade e Luandino Vieira, entre outros.

Em "Os meninos", dedicado a Jorge Barbosa, o uso do pasargadismo como evasão denuncia a condição miserável em que se encontram "os meninos da pobreza, do abandono e do desespero. De ranho no nariz, pés descalços e calções rotos eles passeiam seus corpos esqueléticos". Como alento à triste situação os meninos "sonharão com terras distantes, glórias inexistentes e banquetes fabulosos até que o romper do sol e a fome crónica os arranque do sossego cúmplice dos botes para mais um dia de desesperanças”. E assim como o poeta claridoso, oferecer o gesto solidário: "Queria então estar ao lado deles e sem qualquer palavra, passar-lhes a Estrela da Manhã".

Na reflexão seguinte, Duarte homenageia outro claridoso, Baltasar Lopes (Osvaldo Alcântara). Em "A viagem", a imagem de Pasárgada é motivada pela pobreza do arquipélago: "No seu cotidiano de miséria, dormindo no chão húmido de terra batida, coberto de serapilheira e comendo os restos repartidos, (...)/ Aguarda contudo com ânsia o dia da partida./ A viagem. O vapor./ Sabe que um dia, escondido em um navio cargueiro, ele irá demandar novos horizontes, zarpará à procura da terra prometida./ Então sim ele poderá decifrar a angústia que lhe encolhe a alma quando o seu corpo celebra a ânsia da partida."

Já Mário Fonseca recebe um longo poema dedicado à liberdade, às conquistas de todos os povos e às mulheres. Em "Ortodoxias em desagregação", o eu lírico agradece a premonição do poeta, sua certeza na Utopia, sua defesa da justiça, sua exaltação nas vitórias diversas em todas as partes e em todas as épocas: "O fascínio vem-me de longe / de tudo o que foi esperança / desde o início dos tempos".

Ao poeta Oswaldo Osório o eu lírico reflete e denuncia a dor sofrida pela mulher, da estreita relação entre amor e morte. Divaga: "confusa me pergunto se o amor rima com escravidão, submissão, humilhação", e comenta o destino cruel: “converter-se de humano a farrapo/ no destino caótico de vidas/ que a vida nada reservou".

Em "A outra", dedicado à Dina Salústio, há o conflito existencial de uma mulher que se rebela contra as normas sociais em convívio inquietante com a mulher que aceita a submissão, além de questionar uma "civilização incoerente": "Quem é essa outra mulher que me habita e abusivamente ocupou quase todos os espaços? (...)/ Quem é essa mulher que me oferece as bem-aventuranças e me cega para os precipícios?/ Madalena a mulher espreita e tenta. Ela quer e sabe./ Mas há uma inquietação também por um destino feminino sem subversões, feito de silêncio e de renúncias, que garantem Maria, virgem mãe./ Quantas vezes me quedarei perplexa e angustiada perante as encruzilhadas desta civilização incoerente?".


Apreendemos o amor incondicional de Vera Duarte a Cabo Verde em “O Arquipélago da Paixão”, e, principalmente, à literatura das ilhas por meio das epígrafes dedicadas aos poetas, ora do passado claridoso, ora aos seus pares contemporâneos. Assim, percorremos o percurso de afirmação da literatura cabo-verdiana no decorrer do século XX, suas inquietações, conflitos e mudanças temáticas. É a poesia agindo com olhar crítico para um jovem país em construção.

sábado, 27 de abril de 2013

Memória da noite revisitado e outros poemas de Abelardo Rodrigues

 
Como celebração dos 35 anos da estreia em publicação individual de Abelardo Rodrigues, o relançamento de memória da noite - revisitada & outros poemas.

A seguir, texto de divulgação de Marciano Ventura.

Temos o prazer de convidá-lo para prestigiar o lançamento do livro Memória da noite revisitado e outros poemas de Abelardo Rodrigues, a ser realizado na sede da Ação Educativa, localizada à Rua General Jardim 666, Vila Buarque, São Paulo, no dia 10 de maio de 2013, às 19:h30 horas.

 Nessa noite, além da sessão de autógrafos, teremos leituras de poemas do autor, exposição, projeção de imagens e a participação de Denna Hill e Henrique Elói nos agraciando com um requintado repertório musical.

 Contamos com a presença de tod@s para partilhar esse importante momento da história e vida literária do poeta Abelardo Rodrigues, assim como, da literatura negra brasileira.

 Desde já, agende-se.
 

 Coordenação Editorial – Marciano Ventura
 Revisão: Camila Omena e Taís Lopes
 Revisão Final: Oswaldo de Camargo
 Capa: Edson Ikê
 Edição e Produção: Ciclo Contínuo, Produtora Axé, Elo da Corrente, Col. Esperança Garcia, Perifatividade e 5º Elemento.
 Apoio para o lançamento: Ação Educativa


 Sobre o autor:
 ABELARDO RODRIGUES

 Escritor e poeta, Abelardo Rodrigues nasceu em Monte Azul Paulista -SP, em 1952. Mora na zona leste paulistana a mais de 30 anos. É considerado um dos poetas mais representativo do cenário literário na comunidade negra a partir do final da década de 70.

 Foi cofundador do Quilombhoje Literatura, e depois junto com Oswaldo de Camargo e Paulo Colina seguiu seu itinerário traçando diversas iniciativas relacionadas a literatura. Publicou Memória da Noite(1978), tem participação na premiada antologia Axé– Antologia Contemporânea da poesia negra(1982), O Negro Escrito (1987), entre outras... Abelardo já publicou seus poemas e contos nos Estados Unidos e Alemanha e é geralmente citado em livros de crítica especializada.
 
Abaixo, capa da edição de 1978.
 
 

quinta-feira, 18 de abril de 2013

O mundo no Black Power de Tayó, de Kiusam de Oliveira (livro)

O mundo no Black Power de Tayó, de Kiusam de Oliveira e ilustrado por Taisa Borges
Descrição
O mundo no Black Power de Tayó
Ilustrações de Taisa Borges

https://www.facebook.com/blackpowerdetayo?fref=ts

O mundo no black-power de Tayó é a história de uma menina negra que tem orgulho do seu cabelo crespo com penteado black power, enfeitando-o das mais diversas formas. A autora apresenta uma personagem cheia de autoestima, capaz de enfrentar as agressões dos colegas de classe, que dizem que seu cabelo é “ruim”. Mas como pode ser ruim um cab...elo “fofo, lindo e cheiroso”? “Vocês estão com dor de cotovelo porque não podem carregar o mundo nos cabelos”, responde a garota para os colegas.
Com essa narrativa, a autora transforma o enorme cabelo crespo de Tayó numa metáfora para a riqueza cultural de um povo e para a riqueza da imaginação de uma menina saudável.

Apresentação
Não é por acaso que os cabelos Black Power têm o formato circular do universo. A circularidade é a base fundamental das culturas de matriz africana. Deixar os cabelos crescerem livres, soltos, redondos, harmônicos em todos os sentidos, foi a forma encontrada, na distante década de 1960, pela juventude afro-americana e, depois, por homens e mulheres afros do mundo todo, de marcar sua identidade e o orgulho de sua origem africana.
Mesmo tão pequenina, sem esses conhecimentos históricos, Tayó sente isso – sentir é muito mais profundo do que saber. E sente porque se espelha nos cabelos da mãe, para quem “ser bela” é sinônimo de se reconhecer e de ser feliz. Para as pessoas realmente felizes não há limites na criatividade de “brincar” com a própria beleza, tornando-a ainda mais esplendorosa. Sentir a necessidade de buscar outros padrões de beleza pode estar associado a uma insatisfação causada pelo desconhecimento de referências positivas em nossa própria origem. E o Black Power de Tayó é uma boa referência.
Tayó é uma princesinha que chega em forma de espelho para que outras princesinhas se mirem, se reconheçam e cresçam, cumprindo a única missão que nos foi dada, ao virmos viver nesse planeta: a de sermos felizes.
Mais uma vez Kiusam de Oliveira nos presenteia com uma linda história de princesa, como aquelas que ela já contou e muitas outras que, certamente, nascerão da criatividade e dos conhecimentos dessa grande escritora que, há muito tempo, também se descobriu Tayó.

Oswaldo Faustino, jornalista e escritor

Agradecimento
Para escrever uma história como esta, eu precisei percorrer caminhos com o coração nos pés. E caminhar com o coração nos pés não é fácil, você bem deve saber. Exige um caminhar que valorize a jornada épica de cada um, reconhecendo a si próprio como herói ou heroína que luta bravamente para manter-se firme diante de tudo e de todos.
É com o coração nos pés que pulso, agradecendo fontes cristalinas de inspiração: crianças adultas e adultos crianças que me impulsionaram de alguma forma nesse sonho: Dona Erdi (in memorian), Edleuza Ferreira da Silva, Ciciá, Kayo Odê , Iasmin, Isabella, Jardel Coimbra, King Nino Brown, Airton Santos Pinto, José Geraldo Neres, Heloísa Pires Lima e Oswaldo Faustino, além de todas as crianças que compartilham seus conhecimentos comigo, como educadoras e aprendizes que são, e todas as vozes do outro mundo que povoam o meu Black Power até mesmo quando escrevo.

Kiusam de Oliveira
Sobre a autora:
Kiusam de Oliveira é artista multimídia, arte-educadora, bailarina, coreógrafa e contadora de histórias. Doutora em Educação e Mestre em Psicologia pela USP, tem ampla experiência em sala de aula, da educação infantil ao nível superior. Especialista nas temáticas das relações etnicorraciais, de gênero, da corporeidade e candomblé de ketu e educação é ativista do movimento negro há quase 30 anos. Trabalhou pela implementação da lei 10.639/03 (2005-2009) na Secretaria de Educação de Diadema. Especialista na Educação Especial - Deficiência Intelectual. Criadora e diretora do Programa de Rádio Povinho de Ketu – As Africanidades Brasileiras no Ar, transmitido pelas rádios públicas do país. Bailarina do show Tecnomacumba, de Rita Ribeiro há 6 anos. É autora de Omo-Oba: Histórias de Princesas (2009), selecionado pela FNLIJ/2010 e pelo PNBE/2011. Orientadora Espiritual.

Sobre a ilustradora:
Taisa Borges é natural de Sao Paulo, onde mora atualmente. Após cursar artes plásticas na capital paulistana, mudou-se para França, onde deu continuidade aos estudos de pintura na faculdade de Beaux-Arts de Paris. No mesmo período cursou estilismo no Studio Berçot. De volta a São Paulo, desenvolveu desenhos de estamparia para diversas confecções e para sua própria marca a “Motivos Brasileiros”. Desde 2006 dedica-se a ilustração.
É autora de cinco “livros de imagem” e um livro em HQ, “Frankenstein” este que integra a coleção da Editora Peirópolis dos “clássicos em quadrinhos”.
Para conhecer mais o trabalho de Taisa Borges, navegue pelo site: http://taisaborges.com/

Lívia Natália - Água Negra (resenha)


Lívia Natália - Água Negra

Ricardo Riso

Desde o final dos anos 1970 que a literatura negro-brasileira vem galgando o seu espaço e cobrando a sua inserção na literatura brasileira, que sempre legou a essa vertente literária o silêncio do ostracismo. Porém, escritoras e escritores dessa época seguiram a raiz quilombola da força negra, motivados pelas vozes de libertação dos países africanos de língua portuguesa, pelas reivindicações do movimento black nos EUA e pelas manifestações contra o apartheid na África do Sul, uniram-se e, em meio as rearticulações do movimento negro dentro do abrandamento da ditadura, lançaram “Cadernos Negros” em 1978. A partir daí, fortaleceram-se em grupos como o Quilombhoje (São Paulo, 1980) e o Negrícia – poesia e arte de crioulo (Rio de Janeiro, 1984-1992). Contudo, apesar dessa nova movimentação no meio literário brasileiro eles permaneceram marginalizados pelo mercado editorial.

Entretanto, a literatura negro-brasileira segue uma crescente linha ininterrupta, incomoda e exige a sua presença nos cadernos literários, nos programas de Letras das universidades e nas livrarias e editoras. “Cadernos Negros” completou 35 anos, vários autores possuem diversos títulos publicados, novos nomes surgem com vigor e uma rede negra segue traficando os seus agentes no boca a boca, em blogs e em redes sociais. Ou seja, a literatura negro-brasileira evidencia a necessidade de escurecer a literatura brasileira e a sua tão divulgada universalidade. Logo, contrária a essa universalidade redutora que me escoro no filósofo sul-africano Mogobe Ramose:

Considerando que “universal” pode ser lido como uma composição do latim unius (um) e versus (alternativa de...), fica claro que o universal, como um e o mesmo, contradiz a ideia de contraste ou alternativa inerente à palavra versus. A contradição ressalta o um, para a exclusão total do outro lado. Este parece ser o sentido dominante do universal, mesmo em nosso tempo. Mas, a contradição é repulsiva para a lógica. Uma das maneiras de resolver essa contradição é introduzir o conceito de pluriversalidade (RAMOSE, 2011, p. 10).

 

Dentro do processo de alargamento exigido para a concretização da pluriversalidade, destaca-se a literatura produzida por mulheres negras combatendo as esferas do poder falocrático[2]. Contra rasuras, estereótipos de sexualidade e animalização, Miriam Alves afirma que:

tendo em vista o aviltamento do qual foi vítima esse corpo negro que passou pela coisificação, mutilação, primeiro pela da escravização, e depois seguido da automutilação, para aproximá-lo da estética branca alienígena à sua feição natural. Antes de tudo, é um corpo vitimado que necessita de se desvencilhar das marcas de sexualização, racialização e punição nele inscritas para redefini-lo numa ação de afirmação e autoafirmação de identidade (ALVES, 2010, p. 71).

 

Contra as Bertolezas literárias, as escritoras marcam presença como sujeito discursivo que desestabiliza tanto o racismo quanto o sexismo, expõem o ponto de vista de vozes silenciadas por séculos de exclusão e reivindicam a sua inclusão na literatura brasileira. Sendo assim, hoje pode-se dizer que a produção de autoria feminina negra é o que há de mais instigante na literatura negro-brasileira com excelentes representantes que fazem do texto literário a arena para romper com os anos de opressão. As obras de Conceição Evaristo, Esmeralda Ribeiro, Lia Vieira, Miriam Alves, entre muitas outras jovens escritoras estão aí para provar a qualidade dessa escrita.

Nessa expectativa e ampliando a literatura negro-brasileira de autoria feminina, a renovação e a continuidade do seu fortalecimento e amadurecimento encontra no livro de estreia da baiana Lívia Natália, “Água Negra” uma expressão pungente de que a poesia ainda surpreende. E muito. Essa jovem escritora é Doutora em Estudos Literários pela UFBA onde atua como professora de Teoria da Literatura. A publicação de “Água Negra” tem sua origem na premiação do Projeto Arte e Cultura do Banco Capital, edição 2011. O livro é composto por 29 poemas distribuídos em três cadernos.

A leitura do livro demonstra que Lívia Natália é uma poetisa de múltiplos recursos, que domina como poucos a palavra poética, revela cuidado e respeito pela palavra depurada, “como uma ostra:/ tecendo a pérola” (p. 19), poesia que “dentro desta água doce cabe a violência das torrentes” (p. 29) de tão imprevisíveis que são as imagens criadas em seus versos. Assim inicia “Rastro”: “Somos todos feitos da poeira de estrelas./ Elas apenas tangenciam nossos sonhos/ inscrevendo-os na pele do infinito.// (...) Há, na trama retecida da minha alma,/ um ressoar silente como o das estrelas,/ a que chamo angústia,/ apesar da poeira luminosa e viva/ que trago debaixo dos pés” (p. 13). A poesia é feita das menores observações, dos gestos e objetos insignificantes, da poeira à inacessibilidade das estrelas a força da palavra poética ilimitada como os sonhos, como o infinito. A imaginação desmesurada em função de uma estética vigorosa para desestruturar os sentidos. Da angústia do “útero de poeta” fecunda essa arte inquietante de Lívia Natália.

Poesia que navega por água turva, os versos de Lívia Natália no melhor estilo simbolista formam um “périplo de rotas insondáveis” (p. 49), de uma escrita que percorre e dignifica o ser mulher, aguerrida e desafiadora perante a ordem falocrática da sociedade. Por isso, metaforiza a morte da cigarra com a força, sempre urgente, que acompanha a mulher: “dentro dela vive uma ferida sem remédio,/ ela abriga no seu ventre/ um corte nascido de dentro,/ que dilacera entranhas.// No seu ventre moram medos insondáveis./ E um corte que sangra alto.// Toda cigarra,/ como eu,/ morre gritando!” (p. 59).

Desse âmago feminino que dilacera as entranhas evoca uma postura de enfrentamento, pois “As senhas do meu corpo/ Falo nenhum devassa” (p. 57) traduz uma ressignificação ético-estética de um novo sujeito feminino, autônomo no seu discurso e obriga a revisão do posicionamento estratificado da hierarquia social que subjuga a mulher, sendo que dentro do gênero a negra ainda é mais inferiorizada. Ainda que tenha uma poesia de vísceras, Lívia Natália explora os sentidos polissêmicos, reconfigura sentidos, alegoriza os ciclos femininos, esse “líquido grosso” que “das paredes duras vaza um mais escuro que,/ imagino, seja a água mordendo as estruturas.// A água é assim:/ atiçada do céu,/ infinita no mar,/ nômade no chão pedregoso,/ presa no fundo de um poço imenso:/ A água devora tudo/ com seus dentes intangíveis” (p. 39).

Com isso, são metaforizados os ritos, os votos em uma poesia-corpo que também é das delicadezas como a de Paula Tavares, um caso paradigmático da literatura angolana, uma voz provocadora de novas semânticas para a poesia de Angola. Lívia e Paula transformam o fazer literário em arma, são vozes dissonantes combatendo as certezas masculinas e o seu furor sexual oco e opaco. Assim diz o sujeito lírico de Paula Tavares em “A curva do rio”:

Desce a curva do meu corpo, amado/ com o sabor da curva de outros rios/ conta as veias e deixas as mãos pousarem/ como asas/ como vento/ sobre o sopro cansado/ sobre o seio desperto// Parte a canoa e rasga a rede/ tens sede de outros rios/ olhos de peixes que não conheço/ e dedos que sentem em mim a pele arrepiada/ d’outro tempo// Sou a esperança cansada da vida/ que bebes devagar/ no corpo que era meu/ e já perdeste/ andas em círculos de fogo/ à volta do meu cercado/ Não entres, por favor não entres/ sem os óleos puros do começo/ e as laranjas” (TAVARES, 2004, p. 60).

 

Enquanto sujeito lírico de Lívia Natália revela o desencanto de “Perdida”:

Não há,/ na tua boca,/ dente são que me morda/ ou me devore...// Há apenas teu silêncio/ de vento mastigando as correntezas,/ de céu tenso sem o excesso de nuvens brancas.// Há desejo nesta língua de sonho/ que meu corpo devora sôfrego?// Se há natureza/ - na ordem harmônica do mundo -/ o tempo da espera e do silêncio,/ haverá tempo, ainda/ para que matures os dentes/ para o verde deste teu afeto?// Eis a maldição de toda mulher:/ viver, num só teu verão,/ ou teu inverno/ a urgência de todas as primaveras. (p. 51)

 

Para além da incapacidade masculina fechada em seu mundo de poder opressivo, a poesia de Lívia Natália apresenta outros diálogos com o heterônimo de Fernando Pessoa, Álvaro de Campos na epígrafe e na contestação social do poema “Da hora do cansaço” e a sua proximidade com o “Poema em Linha Reta” daquele, assim como a reconfiguração simbolista do mito grego de Ícaro em “Lágrima de Ícaro”. Porém, identifico como uma marca de enorme relevância na poética aqui exposta é a exploração sensível da religiosidade de matriz africana, deslocando seus signos, experimentando outras sensações em “Asé”:

O sangue, ejé que corre caudaloso,/ lava o mundo e alimenta/ o ventre poderoso de meus Orixás./ A cada um deles dou de comer/ um grânulo vivo do que sou/ com uma fé escura.// (...) Minha fé é negra,/ e minha alma enegrece a terra/ no ilá/ que de minha boca escapa.// Sou uma árvore negra de raiz nodosa./ Sou um rio de profundidade limosa e calma./ Sou a seta e seu alcance antes do grito./ E mais o fogo, o sal das águas, a tempestade/ e o ferro das armas.// E ainda luto em horas de sol obtuso/ nas encruzilhadas (p. 33).

 

É essa sintaxe inovadora transversalizando a alvura da literatura brasileira, é a diversidade poética ressemantizando e propondo o esgarçamento do cânone, este na encruzilhada tendo escancarada a percepção de sua fragilidade. Em ruidosas ruínas a sua indiferença fere e sangra. Delicada e visceral, a poesia de Lívia Natália é transnegressora, navega destemida por uma diversidade de águas, sendo sempre negra, reconfigurando margens, desbravando a multiplicação dos sentidos, provocando os redutores/detratores da literatura negro-brasileira ao mostrar o apurado conteúdo estético ainda assim engajado, preocupado com o social, atento à discriminação, mas, sobretudo, feminina e a serviço das possibilidades ilimitadas que o fazer poético pode oferecer. A poesia de Lívia Natália é um rio que deságua num mar sem fim, como o poema que encerra “Água Negra”, o orikai “Oriki para Osun”: “O rio se cala,/ mas há quem não saiba/ que ele é fundo” (p. 73).


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

ALVES, Miriam. A literatura negra feminina no Brasil – pensando a existência. Revista da ABPN. V.1, n. 3 – Nov 2010 – fev. 2011. p. 181-189.

AUGUSTO, Ronald. Transnegressão. In: PEREIRA, Edmilson de Almeida (Org.). Um tigre na floresta de signos – estudos sobre poesia e demandas sociais no Brasil. Belo Horizonte: Mazza Edições, 2010. pp. 425-437

RAMOSE, Mogobe B. Sobre a legitimidade e o estudo da filosofia africana. Revista Ensaios Filosóficos. Volume IV, outubro/2011.

TAVARES, Ana Paula. Poesia. Biblioteca da Literatura Angolana. Luanda: Edições Maianga, 2004.



[2] Ver ALVES, Miriam. A literatura negra feminina no Brasil – pensando a existência. Revista da ABPN. V.1, n. 3 – Nov 2010 – fev. 2011. p. 181-189

domingo, 14 de abril de 2013

Biblioteca de Literatura Afrocolombiana

Uma excelente iniciativa para democratizar o acesso à literatura afro-colombiana a partir da digitalização e disponibilidade para download de 18 títulos literários e um ensaio escrito por autores afro-colombianos nos últimos 200 anos.
Ricardo Riso
 
¿Qué es la Biblioteca de Literatura Afrocolombiana?

Biblioteca de Literatura Afrocolombiana contiene 18 títulos y un ensayo escritos por autores Afrocolombianos/as destacados en los últimos 200 años; entre ellos están las importantes obras de autores como: Manuel Zapata Olivella, Oscar Collazos, Helcías Martán Góngora, Arnoldo Palacios, Rogerio Velásquez, Candelario Obeso, entre otros. La relectura y re-significación de la literatura nacional, pasa por la visibilización y el reconocimiento de los aportes que los autores Afrocolombianos/as han realizado, a través de los importantes procesos de resistencia cultural que bajo el proyecto de libertad ejercido en épocas coloniales y contemporáneas se configuran en la consistencia y la valiosa capacidad creativa que en todas las áreas del arte poseen los descendientes de las diversas culturas africanas llegadas a Colombia.
Esta Biblioteca de Literatura Afrocolombiana ha querido congregar un ancho y variado caudal de una expresión literaria elaborada en nuestro país por una multitud de voces, registros escritos y tonalidades sonoras que han venido labrando su presencia en la cultura colombiana desde hace más de doscientos años. Y aunque es una muestra no exhaustiva ni totalizante, se habrá podido apreciar que involucra mucho más de lo que sus dieciocho volúmenes representan en sí mismos. No solo están los más significativos escritores, los casi veinte prologuistas y sus preparadas presentaciones a obras y autores,sino la voz de decenas de ancianos del Pacífico contadores de historias, los niños que las han interpretado en minuciosos dibujos, centenares de anónimos copleros y propagadores de leyendas, cantos e historias fantásticas, y también las decenas de mujeres poetas con su variedad y polifonía. Esta colección, en suma, pretende hacer patente la confluencia de la expresión y creatividad ancestral afrocolombiana de individuos, grupos, corrientes, congregaciones y audiencias que hoy, pero desde su origen mismo, dilatan, enriquecen y sensibilizan la vida cultural y emocional de este territorio.

Eulalia Bernard (Costa Rica), brevíssimos apontamentos da sua poesia


Eulalia Bernard (Costa Rica), brevíssimos apontamentos da sua poesia
Por Ricardo Riso

As histórias das nações do continente americano são marcadas pelo silenciamento da participação dos negros na construção desses países. Retirados à força da África, a presença negra é mencionada durante o absurdo da violenta escravidão, depois com os processos de abolição, porém mantém-se silêncio sepulcral à revolução dos negros escravizados no Haiti (1804) e posterior expulsão dos colonizadores franceses. Uma humilhação para europeus e elites coloniais temerosos que uma onda revolucionária negra expandisse pelas Américas, que legou ao ostracismo para o restante do mundo a digna revolta antiescravagista liderada por Toussaint Louverture.

O cânone das literaturas americanas participa desse processo de ocultar os negros tanto nas personagens como na autoria. Em razão disso, uma das funções do texto literário produzido por negros é o seu caráter testemunhal, revisitando as rasuras da história, rompendo com os estereótipos impostos pelo preconceito racial, exigindo o reconhecimento da dignidade dos negros e da sua contribuição na formação de seus países.

Na Costa Rica, pequeno país da América Central, não poderia ser diferente e Eulalia Bernard (1935) é um nome que se impõe ao romper com essa perspectiva. Nascida em Limón, filha de jamaicanos, professora de literatura, criadora da cátedra de estudos afro-americanos na Universidade da Costa Rica em 1981.

“Ritmohéroe” (Editorial Costa Rica, 1982), livro de estreia desta poetisa negra, a primeira a ter publicação individual no seu país, procura retratar a peculiar presença dos negros na Costa Rica e os embates para construir uma identidade costa-riquenha. O prefácio de Quince Duncan revela que a diáspora negra na Costa Rica começa com a chegada de negros antilhanos – maioria jamaicanos – para construção de ferrovias ao final do século XIX. Depois, os negros passam a trabalhar no cultivo da banana. Essa primeira geração concentra-se na cidade de Limón, comunica-se em inglês e objetiva juntar economias para retornar à Jamaica. A partir de 1930, o país atravessa grave crise econômica, o regime fascista impõe o uso do idioma espanhol e força a assimilação cultural dos negros. A segunda geração relaciona-se com a Jamaica como um Éden, Limón como sua cidade e que guarda certos valores da cultura negra. Em 1960, a geração seguinte reage a esse processo, busca suas raízes e a contribuição dos negros para o país. Desde então esse processo vem sendo fortalecido pela quarta geração já nos anos 1980, tendo na inserção às universidades a marca para a disputa de novas epistemologias para pensar a população negra na Costa Rica.

Na sua poesia a fé católica surge não como resignação, mas como forma de questionamento diante das injustiças sociais: “Y el negro rezó/ pero Jesús no lo oyó/ y el negro rezó/ pero La Virgen no lo vio/ rezó el negro/ el negro rezó/ (...) el negro no más rezó/ el negro el fusil tomó/ el negro habló y habló/ Jesús lo oyó/ la Virgen lo vio/ con su voz de fusil/ y su estómago de reloj”. A urgência de mudanças apresenta-se na brevidade dos versos a partir da não manifestação de apoio das figuras bíblicas de Jesus e da Virgem Maria, que podem ser transpassadas para a indiferença de uma sociedade calcada na exclusão. Resta à população negra a voz insurgente para a emergência de seu tempo.

Dentre as marcas culturais dos negros na Costa Rica, a festa do carnaval é celebrada em alguns poemas como o momento de liberdade e gozo para os negros: “El Carnaval,/ vamos, veamos los negros brincar,/ que trabajo no les vamos a dar.// El Carnaval,/ siéntete rey o reina del mar,/ negro!, es tu única oportunidad”. Realidade comum lá e cá.

O amadurecimento identitário, o pertencimento à nação e o mito do paraíso perdido se dá em “Requiem a mi primo jamaiquino”: “Soy negro del campo,/ del Valle La Estrella./ Soy uma estrella negra/ em el flamante Blanco, azul y rojo/ de nuestra bandera”. A ruptura com o motivo edênico da Jamaica para a primeira geração de negros na Costa Rica surge com a identificação ao novo lugar, ao Valle La Estrela, e com o símbolo nacional da bandeira. Com isso, na zona de tensão caracterizada o entrecruzamento cultural aparece no uso da língua para a comunidade de Limón, ora espanhol, ora inglês, ou no uso do ‘spainenglish’: “Sí Seño;/ soy costarricense,/ aunque apellidado este/ con ‘insky’, ‘man’, o ‘Le’”.

É na transgressão da ordem estabelecida que a poesia de Eulalia Bernard desvela a participação dos negros na formação identitária costa-riquenha, tendo na ancestralidade do tambor a subversão da palavra escrita, da religião, da língua. A força da poesia ao ritmo do tambor, signo marcante da poética negra presente tanto no brasileiro Carlos de Assumpção quanto no martinicano Aimé Césaire, ou ainda no moçambicano José Craveirinha: “Mi poesía es um tamborileo. (A veces fuerte) con ritmos multiplicados por el fervor fuerte./ (...)En mi poesía el tambor es lira y el ritmo es el soneto. Yo soy la mambo del culto ancestro// Sé decir sí, sé decir ‘yes’. Sé decir lo que quiero en las lenguas que prefiero, con el habla del tambor./ En mi poesía, cada palabra es un dios. Cada dios es un ritmo, cada ritmo cópula, cada cópula un canto./ Mi poesía es. Hazte tambor y amarás mi canto”.

Estes são rápidos momentos da poética de Eulália Bernard, integrante dessa poética negro-diaspórica que incomoda com seus deslocamentos estéticos, semânticos, sintáticos, os cânones literários.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Carlos Lopes: Desafios contemporâneos da África - O legado de Amílcar Cabral


Desafios contemporâneos da África
O legado de Amílcar Cabral
Lopes, Carlos

ISBN: 9788539302291
Assunto: História
Idioma: Português
Formato: 14 x 21
Páginas: 216
Edição: 1ª
Ano: 2012
Acabamento: Brochura
Peso: 270g


Sinopse

Este livro, constituído de um conjunto de artigos escritos pelos principais especialistas na obra de Amilcar Cabral, é um convite à reflexão sobre a complexa situação do continente africano. Mas por que voltar ao pensador e revolucionário morto em 1973? A resposta está na importância de sua obra, a qual abre caminhos para compreender a situação atual da África, que se livrou do colonialismo, mas mergulhou em infindáveis lutas armadas sem ideologia que não podem dar respostas a seus problemas políticos, sociais e econômicos. “É justamente esta a razão pela qual é tão oportuno que aqueles que admiram Cabral paguem a ele o tributo de se aprofundar na difícil trilha da compreensão dos fenômenos atuais”, escreve o guineense Carlos Lopes organizador deste livro.
Tal compreensão passa pela obra desse pensador, considerado um dos mais inovadores e criativos já nascidos na África e um herói da emancipação do continente – Cabral foi fundador e líder do movimento de independência na Guiné-Bissau e Cabo Verde e um ativo participante da luta armada contra o colonialismo português nos anos 1970.

Cada um dos artigos reunidos neste livro reflete um ângulo diferente da obra do pensador. A apresentação, escrita por Peter Karibe Mendy, enfoca a situação da Guiné-Bissau colônia, que levou Cabral e seus camaradas a ingressarem na luta armada pela libertação dos guineenses e também dos cabo-verdianos. AlexisWick, Lars Rudebecke Ibrahim Abdullahfalam de sua originalidade ao tratar conceitos complexos com simplicidade e pragmatismo. Georges Nzongola-Ntalaja, John Fobajonge Carlos Lopes concentram-se na relevância das formulações de Cabral para a compreensão de dilemas persistentes, como a construção do Estado, o pan-africanismo e as dimensões éticas. Já Abebe Zegeyeaborda as ideias do intelectual sobre cultura num texto sobre sua influência na literatura africana.

Esta obra é, enfim, uma grande fonte de informações sobre o pensamento e a personalidade de Amílcar Cabral, que contribuiu de modo expressivo e definitivo para o processo que culminaria na independência das colônias portuguesas na África e representa uma chave para a compreensão daquele continente nos dias atuais.