domingo, 30 de junho de 2013

Arménio Vieira – MITOgrafias (A Nação)


Arménio Vieira – MITOgrafias
Ricardo Riso
Resenha publicada no semanário cabo-verdiano A Nação, n. 233, de 16 de fevereiro de 2012, p. E20.
A voz poética singular de Arménio Vieira revela alguns dos melhores momentos da poesia cabo-verdiana, escorada na ironia fina e surpreendente, no sarcasmo corrosivo, na referência e reverência a toda uma cultura litero-filosófica ocidental estendendo-se às culturas orientais, árabes e do continente americano em busca de uma universalidade plena que demonstra vasta erudição e intenso labor de sua tessitura poética. Um livro de Arménio é deparar-se com um mundo ilimitado de imagens a dialogar, ora de forma explícita, ora de forma implícita, com autores expandindo-se em diferentes formas que vão do hai-kai a prosa poética, passando pela poesia experimental etc.
No livro MITOgrafias, da cabo-verdiana Ilhéu Editora e lançado em 2006, em três cadernos – Canto das graças, Dez poemas mais um (dedicado a João Cabral de Melo Neto) e MITOgrafias (tendo uma parte intitulada “A musa breve de Silvenius, que vai sendo longa”), o poeta renova o seu desmesurado arsenal poético a serviço de um sujeito lírico que navega pelo filosófico, mitológico, político, religioso, entre outras facetas de uma ininterrupta mutabilidade sempre subordinada a um rigor com a palavra poética precisa, exata e depurada. Preocupação estética que se apresenta ironicamente com o fazer poético e as simplórias soluções de colegas das letras e o uso de referências pouco criativas: “Com pauzinhos de fósforo/ podes construir um poema.// Mas atenção: o uso da cola/ estragaria o teu poema”, assim como a crítica a poetas que configuraram estilos na literatura de língua portuguesa, casos de Quevedo e Góngora: “Comparar um poema a um barco/ ou dizer dele que é uma rolha/ à deriva no azul, e, (...)/ sacar daí um texto/ em que os versos, em vez de versos,/ são mastros e velas e remos,/ é anunciar aos peixes que se preparem,/ pois alguém perdeu a bússola/ e um naufrágio é normal que aconteça”.
Uma poesia a serviço da transgressão que subverte os temas comuns da literatura cabo-verdiana como a seca e a chuva, procura no referencial brasileiro cabralino a Severina estética da pedra: “Não há guarda-chuva, João,/ contra o suão que em Setembro/ é uma vespa mordendo/ como se para o martírio/ não bastasse o calor e a secura./ Tão duro é o suão/ que, embora não tenha um som,/ se porventura o tivesse,/ jamais seria o som/ da chuva, que, ainda que molhe/ e mate, nunca mata queimando”.
Atento observador dessa vida “que é ácido e roda dentada”, poeta que jamais fugiu aos enfrentamentos da vida, revela o sujeito lírico que “Eu... sou/ como eu sou. Tenham paciência”. E assim, insubmisso e humanista, ataca a crueldade dos líderes sanguinários que aparecem aos montes em seus poemas: “Robespierre e Adolf Hitler/ se Átila os visse,/ largava a espada/ e fugia a cavalo”; porém, não deixa de ser sarcástico ao valorizar a inventividade poética à violência como o fato do título dar continuidade ao poema em “Apollinaire nas trincheiras” “declarou guerra à vírgula. O kaiser/ declarou guerra aos franceses”.
A dessacralização nas diversas ordens dos mitos greco-latinos, dos referenciais literários e filosóficos até arrancam o riso diante de desmedida ironia, por outro lado causam desconforto surpreendente quando há o mergulho nos mais tenebrosos infernos, visto que “há infernos sérios,/ pavorosos, como o vento, ciclónicos,/ não cabem nos livros, ninguém os pinta”, oriundos do mundo perverso dos homens e que “consta que Cérbero,/ o cão de três cabeças,/ fugiu do Inferno assim que os tipos/ da Gestapo aí entraram”.
A linguagem corrosiva que transfigura os referenciais gregos, como em “Excentricidades gregas”, ainda dá espaço para questões de ordem ontológica e metafísica, como também da religiosidade cristã subvertendo os seus dogmas são exemplos os poemas “A explicação dos deuses” e a onipresença de Deus em “Exercício teológico”.

MITOgrafias apresenta o poeta em estado pleno de maturidade poética, sempre inquietante e renovadora. É um prazer indescritível ler Arménio Vieira.

António Januário Leite – o poeta além-vale (A Nação)

António Januário Leite – o poeta além-vale
Ricardo Riso
Resenha publicada no semanário A Nação, n. 231, de 2 de fevereiro de 2012, p. E16
De escassa produção, a literatura cabo-verdiana da virada dos séculos XIX e XX, o período do cabo-verdianismo, revelou nomes de extremo interesse, porém pouca diversidade temática, com destaque para os articuladores do mito hesperitano, Pedro Cardoso e José Lopes, a poesia de Eugénio Tavares, a prosa cabo-verdianista de Guilherme Dantas e José Evaristo de Almeida.
Esses escritores valeram-se da implantação da imprensa e do surgimento de uma elite letrada nas ilhas, revoltas motivadas por condições inaceitáveis da administração colonial e sufocadas pela metrópole, assim como o fim da monarquia e o início da república marcaram o conturbado contexto político da época.
Na literatura, os autores desse período foram influenciados pelos movimentos de destaque em Portugal, tais como o romantismo, o simbolismo e o ultrarromantismo. O poeta António Januário Leite (AJL) dialogou com estas duas últimas correntes. Nascido em Chã Margarida, no Paul, ilha de Santo Antão, a 10/06/1865 e faleceu em 10/06/1930, após uma vida com graves problemas de saúde causadores de vários impedimentos durante a infância e a adolescência, e dificuldades financeiras na vida adulta em razão de seu envolvimento nas ações subversivas organizadas por seus pares.
O livro “António Januário Leite – o poeta além-vale” contém perfil poético-biográfico e antologia organizada pelo escritor Luís Romano e apresentação de Maria Helena Sato, sob a chancela da editora brasileira Komedi em 2005. Os poemas estão divididos em três cadernos: Ecos da juventude (até 1890), Expansões d’alma (1890-1900) e Horas sombrias (1900-1930); os três cadernos subdivididos em sonetos e outros cantares.
Rígido sonetista, precursor de ótimos sonetistas contemporâneos, casos de Filinto Elísio e José Luiz Tavares, a poesia de AJL é impregnada pela metáfora e figuras como assonância e aliteração, do penumbrismo típica dos simbolistas, com forte influência de Charles Baudelaire, conduzindo o sujeito lírico de AJL a subverter a contemplação do mar: “Mas quando do seu leito vasto e fundo/ o vejo erguer-se em fúrias desmedidas,/ Titão que acorda, amedrontando o mundo,/ tigre esfaimado que só pede vidas...// E sobre o dorso das medonhas vagas/ vejo pairar a vela com receio,/ então exclamo, vendo as suas plagas:/ Senhor! Senhor! como o mar é feio!”.
O pessimismo ultrarromântico dos autores do Mal-do-Século é um tema recorrente, como no poema “Biografia”: “Imersa em dolorosa enfermidade,/ a minha infância vi correr obscura;/ só vendo a paz em sonhos e aventura./ Chorando, atravessei a mocidade.// Por toda a parte a negra adversidade/ e sempre a minha estrela infausta e dura,/ eu creio estar ao pé da sepultura,/ a porta que conduz à Eternidade!”
O apego à morte e o desejo de versá-la são trabalhados à exaustão: “Todos te odeiam! vou cantar-te, Morte,/ ó nossa eterna amiga verdadeira,/ que nos estende a mão hospitaleira/ no fim do nosso caminhar sem norte!” Fixação temática que lembra a boa poesia de Valentinous Velhinho.
Essas características levam o sujeito lírico ao desencanto com a Humanidade: “Lastimo o nada desta vida escura,/ tão cheia de ignorância e de vaidade;/ a vida da chamada – Humanidade –/ que por momentos ou instantes dura.// (...) Abre os teus olhos, Homem, vê a fundo/ o que és e o que te cerca; tudo é peta:/ és nada, como nada és o teu mundo!”
O amor não realizado, comum aos ultrarromânticos, é transferido para a adoração da figura materna, presente em diversos poemas: “Mãe!... recebe estes meus versos,/ embora na dor imersos, em sinal de gratidão”.
Apesar do desencanto, o nativismo surge de forma simplória: “Paul! oh! terra extremosa,/ onde nasce e cresce a rosa/ e a laranjeira formosa/ a sorrir à luz do sol”.

Esta compilação de poemas de António Januário Leite revela um poeta em sintonia com as correntes literárias e aos problemas de seu tempo. Seus poemas são uma excelente amostragem da vertente ultrarromântica no sistema literário cabo-verdiano. 

Tchalé Figueira - Contos da Basileia (A Nação)

Tchalé Figueira - Contos da Basileia
Ricardo Riso
Resenha publicada no semanário A Nação, n. 194, de 19 de maio de 2011, p. 23.
As vivências na diáspora cabo-verdiana marcam os textos reunidos em “Contos da Basileia”, este novo livro de Tchalé Figueira. Sua escrita carregada em oralidade, leve e solta apresenta as aventuras e as desventuras no cotidiano de um jovem imigrante que saiu de Cabo Verde - então colonizada por Portugal para não servir às tropas salazaristas -, na cidade suíça da Basileia dos anos 1970/1980. Tal fato se confunde com a própria biografia do autor.
Pela voz do narrador vemos as agruras que passam os cabo-verdianos na terra longe, encarando os subempregos e a vida com parcos recursos: “porque costuma matar-nos in extremis a fome soltando saborosos sanduíches depois da meia-noite quando o local encerra as suas portas. Pãezinhos que sobram todas as noites e se não forem comidos acabam em contentores de lixo. Porra! Aqui na Suíça até o lixo é luxo!”. E as constantes lembranças das ilhas do seu país: “Fomos viver durante semanas junto ao mar que tanta falta me faz na Suíça e me dá fortes saudades de Cabo Verde”.
Momentos históricos dos anos 1970 são retratados, como a felicidade com a independência do país: “Cabo Verde conquistou hoje a sua independência depois de quase quinhentos anos de domínio português, mano, e finalmente somos uma terra livre, mano, e vamos comemorar com uma feijoada”. Descortina-se uma Basileia cosmopolita, com exilados de várias partes do mundo. Estão lá peruanos, turcos, brasileiros, nigerianos e outros que compartilham suas experiências nas lutas contra o imperialismo, marcas de uma época de utopias. “Escuto uma miríade de idiomas que não percebo mas fascinam-me”, diz o narrador.
A literatura é reverenciada pelo narrador ao celebrar o encantamento com o real maravilhoso latino-americano e seus representantes: “Hoje sou fã incondicional do real maravilloso (...)”; ou ao ter contato com um texto de Amílcar Cabral: “Jamais tinha visto ou lido um livro escrito pelo herói da nossa Nação!”, Das artes plásticas, o deslumbre e o olhar sensível: “deparo com as gigantescas pinturas dos abstractos expressionistas americanos e o meu coração bate descompassadamente, fico em transe apreciando as enormes manchas coloridas de Clifford Still, (...) os dripping de Jackson Pollock e de repente vejo-me diante do último quadro que Mark Rotko pintou antes de se suicidar aos oitenta e tal anos da sua vida a minha alma fica de novo angustiada”.
 Entretanto, a maior reverência que há nesses contos é destinada às mulheres, presenças marcantes nas histórias. O narrador não discrimina etnia, religião, posição política etc. Elas são bonitas, inteligentes, cultas, gostosas; bibliotecárias, artistas, mães de seus filhos; suíças, espanholas, cabo-verdianas, americanas; chamam-se Zoe, Bia, Barbara (“a que tem nos olhos a tonalidade azul do mar de Cabo Verde”), Rita, Marta, Claudia, Flora, Liza, Rachel... Elas são as responsáveis pelas situações inusitadas dos contos, como as viagens repentinas; revoltam-se com a sua libertinagem; e o inesperado encontro entre sua mulher e uma amante em um parque com seus filhos mestiços.
Contudo, não é apenas o lado cafajeste que se revela do narrador, há o reconhecimento e a paixão pelas mulheres, assim como a valorização por contribuírem no seu desenvolvimento cultural, como as discussões literárias acerca dos contos de Jorge Luis Borges, o contato com a música erudita e aprendizado para apreciar o jazz.

Bom, após a travessia das páginas de orgias com mulheres, literatura e artes plásticas dentro de um cotidiano imprevisível de um mulherengo contumaz, fica o sorriso por identificar, através de uma escrita despretensiosa, a vivência, as experiências felizes, o choque cultural, as dificuldades encontradas pelo cabo-verdiano na tão sonhada, e às vezes ilusória, terra longe. “Contos da Basileia” proporciona uma leitura agradável para ser degustada “como um bom copo de grogue de S. Antão”.

Valentinous Velhinho – Adeus Loucura Adeus (A Nação)

Valentinous Velhinho – Adeus Loucura Adeus
Ricardo Riso
Resenha publicada no semanário cabo-verdiano A Nação, n. 188, 7 de abril de 2011, p. 10.
Ultrapassar os limites da linguagem poética por uma dicção própria dentro do panorama literário cabo-verdiano, originalidade caracterizada por uma linguagem rebuscada, por metáforas insólitas e surreais, por figuras como o paradoxo, a inversão e a ironia que perpassam as diferentes experimentações estético-formais sempre atingidas com excelência por Valentinous Velhinho em longos poemas de versos livres ou na concisão de dísticos e tercetos, também em sonetos.
Em seu 2º livro de poesia, “Adeus Loucura Adeus”, lançado pela edições Artiletra em 1997, Valentinous Velhinho desvela a expansão de seu mundo poético que possui “no quarto as quatro estações/ E não as quatro paredes” metamoforseadas para a “Morte, a Solidão, a Loucura, o Desespero”, temas que são trabalhados à exaustão e com resultados surpreendentes, para além da incessante recriação de temas bíblicos e da exploração criativa de cânones da cultura ocidental, de Nietzsche a Sísifo, passando por Lautréamont e Fernando Pessoa.
“O poeta e a sua língua de fogo” faz do inusitado a matéria para a tessitura poética, principalmente no que diz respeito à Morte, tratada com obsessão: “Eu quero a morte, a minha primeira viagem a sós”. Desejo motivado diante de uma percepção do real desarranjado em que vive: “e a realidade em suma/ é, por isso sòmente, mais bastarda e cada vez mais nenhuma”, encorajando-o a redimensionar o labiríntico mundo que se encontra: “Sim, a chave do labirinto a entrada é./ E a sombra uma saída para dentro./ Ao pé do labirinto gira à toa o mundo,/ Pois que o labirinto já aqui é outro mundo”.
Como “o poeta não faz nada em vão”, as indagações ontológicas e metafísicas são permanentes, instala-se a crise do ser perante a impossibilidade de respostas: “E um homem (um homem/ Entre si e o estar sozinho) pensa./ Os olhares que às coisas deita,/ Olhares tão fixos, não o sabe ele,/ São afinal os seus monólogos, compreendê-lo. (...)/ Às suas dúvidas se atiram os ombros./ As suas dúvidas tantas, para nada!” Condição que leva o sujeito lírico ao desespero e torna o suicídio uma opção viável: “Se te assaltar a meio da noite/ Uma razão qualquer// Um minuto depois, já pensado e re/ Pensado o assunto, podes então dar/ Cabo da vida, um minuto depois, que,/ Mais do que esse tempo, é dar/ Importância à vida, ao mundo – e,/ Quem sabe a ti próprio! – se te assaltar/ A meio da noite, a meio da noite, uma razão!”
A releitura peculiar dos temas bíblicos é uma característica marcante na sua poesia, ousadia a serviço do insólito frente aos dogmas católicos: “Não para que a separasse da treva/ Mas para que a apartasse/ Do seu espírito movendo sobre/ A face das águas é que Deus fez a luz./ É para que esta lhe parecesse sua,/ Definitivamente sua,/ Apagou-a só para ter esse prazer./ Foi na treva que Deus se descansou./ Na treva e sùbitamente”.
Um tanto distante dos temas que consagraram a poesia cabo-verdiana, o sujeito lírico subverte o terra-longismo enquadrando-o ao insólito, comum à sua poesia: “Ia-me narrando maravilhas./ Nessa tarde, lembro-me,/ Falou-me de uma terra longínqua./ Na última estação/ A seca fora a mais desesperadora./ Um teimoso homem de campo,/ De boné à cabeça íngreme,/ Chegara a ponto de esconder na terra,/ Como se de um mijo se tratasse,/ O chuvisco que tombara – o próprio”.
Valentinous Velhinho, heterónimo de Valdemar Valentino Velhinho Rodrigues, possui uma poesia surpreendente, virulenta e de imagens inusitadas, pelo espanto da reformulação de significantes em uma linguagem surreal, por vezes paradoxal, de um poeta que vivencia a própria insularidade dentro do panorama literário cabo-verdiano, configurando-se como um dos seus mais criativos artífices. “Adeus Loucura Adeus” confirma a excelência do poeta.

“Francamente. Não sei como seguir com estes versos,/ Nem o sabe o coração, este pobre sopro da alma./ Ao menos carregasse o espírito uma só interrogação minha./ Ao menos a alma me envolvesse com um aceno de despedida.”

Pedro Cardoso... a manduco! (A Nação)

Pedro Cardoso... a manduco!

Ricardo Riso
Resenha publicada no semanário A Nação, n. 174, 30/12/2010, p. 14.

Ao Prof. Manuel Brito-Semedo, com elevada estima.
Há uma faceta de extremo interesse e pouco conhecida do poeta pré-claridoso Pedro Monteiro Cardoso (13/09/1883 - 29/10/1942), reveladora de um importante momento das ilhas em razão das profundas mudanças em Portugal com o germinal sistema republicano. Trata-se da atuação de Pedro Cardoso como cronista de jornais. Com o pseudônimo AFRO colaborou em vários jornais cabo-verdianos e portugueses, dentre outros, “O Manduco”, do qual foi fundador, e foi autor da célebre coluna “A Manduco...”, espaço de polêmicas e de um olhar atento aos problemas sociais e políticos do cotidiano da então colônia cabo-verdiana.
As crônicas de “A Manduco...” foram recolhidas e organizadas por Manuel Brito-Semedo e Joaquim Morais em cuidadosa edição do IBNL, sob o título “PEDRO CARDOSO – Textos Jornalísticos e Literários (Parte I)”, no ano de 2008. O livro tem prefácio de Isabel Lima Lobo, é separado por duas seções: a primeira com duas conferências de Cardoso – uma em defesa da língua cabo-verdiana, a outra no Dia de Camões, exaltando o épico, Portugal e a língua portuguesa; a segunda seção conta com 33 crônicas publicadas de 1911 a 1914 no jornal A Voz de Cabo Verde, para além de fundamental ficha com a origem dos textos.
As crônicas de “A Manduco...” impressionam pelo tom incisivo, de marcante e ruidosa intervenção político-social em defesa incontestável dos ilhéus e das ilhas, assim como apresentam e valorizam a atuação pungente dos intelectuais cabo-verdianos durante os primeiros anos da república portuguesa. Em sua estreia, AFRO já demonstra o caráter de sua seção: “(...) ‘a manduco’ é simplesmente o título de uma nova secção onde discretamente, sem ódios nem lisonjas, e a bem dos interesses da província, se dirão verdades... agridoces”.
Célebre na poesia de Cardoso a exaltação da pátria lusitana e da mátria terra crioula, porém o autor para reivindicar igual tratamento ao ilhéu recorre à Constituição para combater o racismo: “Artigo 1º - O território de Portugal compreende na África Ocidental o Arquipélago de Cabo Verde; (...) art. 5º - o Estado Português é uma República Unitária baseada na igualdade dos cidadãos perante a Lei. Logo, eu nasci dentro do território português, sou membro constituinte da Nação e igual perante a Lei aos demais cidadãos.”
O problema da educação dos ilhéus é escancarado com indignação, principalmente na quase completa exclusão das mulheres nas escolas por “existir muito maior número de crianças do sexo feminino e não haver para elas escolas, não em proporção às alunas, mas nem mesmo em número aproximado das destinadas ao sexo masculino. A desproporcionalidade é flagrante e provém do exclusivismo de outros tempos”.
Preocupações sociais várias são manifestadas e denunciadas pelo autor, preocupações em sua maioria contemporâneas ao nosso tempo: “O uso e o abuso do álcool e do tabaco, a tuberculose por esse abuso favorecida, as estiagens e o analfabetismo são males que estão afectando intensa e extensamente a província. Urge combatê-las sem descanso (...)”.
A instabilidade política da Europa, a ascensão da belicista Alemanha e seu interesse nas colônias portuguesas em África é tema de “quem nasceu em África mas é português não só pela bandeira como pelo sentimento e sangue”: “(...) Não posso conformar-me à horrorosa ideia de que serei obrigado a não falar, a não cultivar esta formosíssima língua toda feita de harmonia e doçura, em que balbuciei as minhas primeiras canções destronada, substituída por aquela em que escreveu Goeth”.

Pan-africanista convicto, defensor dos negros, demonstra seu apreço ao dedicar crônicas ao brasileiro Luis Gama e ao libertador do Haiti, Toussaint Loverture. Também comunista ferrenho, sobretudo humanista, o nativista Pedro Cardoso revela nas crônicas de AFRO as tensões que nortearam o seu tempo. Jamais omisso, determinado na defesa de suas posições, a pena corrosiva de AFRO apresenta o grande homem e poeta: Pedro Cardoso. 

Vera Duarte – O arquipélago da paixão (A Nação)


Vera Duarte – O arquipélago da paixão
Ricardo Riso
Resenha publicada no semanário cabo-verdiano A Nação, n. 163, p. 11, 14/10/2010.

O segundo livro de poesia da escritora Vera Duarte, "O Arquipélago da Paixão" (Mindelo: Artletra, 2001), apresenta em suas epígrafes o constante diálogo entre os poetas de gerações posteriores com as tendências temáticas de seus predecessores. Vera Duarte presta tributo aos escritores que sedimentaram o corpo poético cabo-verdiano, parafraseando os temas que os caracterizaram.

Vera Duarte é poeta, romancista, ensaísta e juíza, para além de vários cargos em prol dos direitos da mulher. Nascida na cidade de Mindelo, ilha de São Vicente, formou-se em Direito na Universidade Clássica de Lisboa, em Portugal.

Como em seu 1º livro de poesia, "Amanhã amadrugada", este "O Arquipélago da Paixão" também divide-se em quatro cadernos. As homenagens não se restringem aos compatriotas, mas estendem-se a angolanos como Mario de Andrade e Luandino Vieira, entre outros.

Em "Os meninos", dedicado a Jorge Barbosa, o uso do pasargadismo como evasão denuncia a condição miserável em que se encontram "os meninos da pobreza, do abandono e do desespero. De ranho no nariz, pés descalços e calções rotos eles passeiam seus corpos esqueléticos". Como alento à triste situação os meninos "sonharão com terras distantes, glórias inexistentes e banquetes fabulosos até que o romper do sol e a fome crónica os arranque do sossego cúmplice dos botes para mais um dia de desesperanças”. E assim como o poeta claridoso, oferecer o gesto solidário: "Queria então estar ao lado deles e sem qualquer palavra, passar-lhes a Estrela da Manhã".

Na reflexão seguinte, Duarte homenageia outro claridoso, Baltasar Lopes (Osvaldo Alcântara). Em "A viagem", a imagem de Pasárgada é motivada pela pobreza do arquipélago: "No seu cotidiano de miséria, dormindo no chão húmido de terra batida, coberto de serapilheira e comendo os restos repartidos, (...)/ Aguarda contudo com ânsia o dia da partida./ A viagem. O vapor./ Sabe que um dia, escondido em um navio cargueiro, ele irá demandar novos horizontes, zarpará à procura da terra prometida./ Então sim ele poderá decifrar a angústia que lhe encolhe a alma quando o seu corpo celebra a ânsia da partida."

Já Mário Fonseca recebe um longo poema dedicado à liberdade, às conquistas de todos os povos e às mulheres. Em "Ortodoxias em desagregação", o eu lírico agradece a premonição do poeta, sua certeza na Utopia, sua defesa da justiça, sua exaltação nas vitórias diversas em todas as partes e em todas as épocas: "O fascínio vem-me de longe / de tudo o que foi esperança / desde o início dos tempos".

Ao poeta Oswaldo Osório o eu lírico reflete e denuncia a dor sofrida pela mulher, da estreita relação entre amor e morte. Divaga: "confusa me pergunto se o amor rima com escravidão, submissão, humilhação", e comenta o destino cruel: “converter-se de humano a farrapo/ no destino caótico de vidas/ que a vida nada reservou".

Em "A outra", dedicado à Dina Salústio, há o conflito existencial de uma mulher que se rebela contra as normas sociais em convívio inquietante com a mulher que aceita a submissão, além de questionar uma "civilização incoerente": "Quem é essa outra mulher que me habita e abusivamente ocupou quase todos os espaços? (...)/ Quem é essa mulher que me oferece as bem-aventuranças e me cega para os precipícios?/ Madalena a mulher espreita e tenta. Ela quer e sabe./ Mas há uma inquietação também por um destino feminino sem subversões, feito de silêncio e de renúncias, que garantem Maria, virgem mãe./ Quantas vezes me quedarei perplexa e angustiada perante as encruzilhadas desta civilização incoerente?".


Apreendemos o amor incondicional de Vera Duarte a Cabo Verde em “O Arquipélago da Paixão”, e, principalmente, à literatura das ilhas por meio das epígrafes dedicadas aos poetas, ora do passado claridoso, ora aos seus pares contemporâneos. Assim, percorremos o percurso de afirmação da literatura cabo-verdiana no decorrer do século XX, suas inquietações, conflitos e mudanças temáticas. É a poesia agindo com olhar crítico para um jovem país em construção.

sábado, 27 de abril de 2013

Memória da noite revisitado e outros poemas de Abelardo Rodrigues

 
Como celebração dos 35 anos da estreia em publicação individual de Abelardo Rodrigues, o relançamento de memória da noite - revisitada & outros poemas.

A seguir, texto de divulgação de Marciano Ventura.

Temos o prazer de convidá-lo para prestigiar o lançamento do livro Memória da noite revisitado e outros poemas de Abelardo Rodrigues, a ser realizado na sede da Ação Educativa, localizada à Rua General Jardim 666, Vila Buarque, São Paulo, no dia 10 de maio de 2013, às 19:h30 horas.

 Nessa noite, além da sessão de autógrafos, teremos leituras de poemas do autor, exposição, projeção de imagens e a participação de Denna Hill e Henrique Elói nos agraciando com um requintado repertório musical.

 Contamos com a presença de tod@s para partilhar esse importante momento da história e vida literária do poeta Abelardo Rodrigues, assim como, da literatura negra brasileira.

 Desde já, agende-se.
 

 Coordenação Editorial – Marciano Ventura
 Revisão: Camila Omena e Taís Lopes
 Revisão Final: Oswaldo de Camargo
 Capa: Edson Ikê
 Edição e Produção: Ciclo Contínuo, Produtora Axé, Elo da Corrente, Col. Esperança Garcia, Perifatividade e 5º Elemento.
 Apoio para o lançamento: Ação Educativa


 Sobre o autor:
 ABELARDO RODRIGUES

 Escritor e poeta, Abelardo Rodrigues nasceu em Monte Azul Paulista -SP, em 1952. Mora na zona leste paulistana a mais de 30 anos. É considerado um dos poetas mais representativo do cenário literário na comunidade negra a partir do final da década de 70.

 Foi cofundador do Quilombhoje Literatura, e depois junto com Oswaldo de Camargo e Paulo Colina seguiu seu itinerário traçando diversas iniciativas relacionadas a literatura. Publicou Memória da Noite(1978), tem participação na premiada antologia Axé– Antologia Contemporânea da poesia negra(1982), O Negro Escrito (1987), entre outras... Abelardo já publicou seus poemas e contos nos Estados Unidos e Alemanha e é geralmente citado em livros de crítica especializada.
 
Abaixo, capa da edição de 1978.
 
 

quinta-feira, 18 de abril de 2013

O mundo no Black Power de Tayó, de Kiusam de Oliveira (livro)

O mundo no Black Power de Tayó, de Kiusam de Oliveira e ilustrado por Taisa Borges
Descrição
O mundo no Black Power de Tayó
Ilustrações de Taisa Borges

https://www.facebook.com/blackpowerdetayo?fref=ts

O mundo no black-power de Tayó é a história de uma menina negra que tem orgulho do seu cabelo crespo com penteado black power, enfeitando-o das mais diversas formas. A autora apresenta uma personagem cheia de autoestima, capaz de enfrentar as agressões dos colegas de classe, que dizem que seu cabelo é “ruim”. Mas como pode ser ruim um cab...elo “fofo, lindo e cheiroso”? “Vocês estão com dor de cotovelo porque não podem carregar o mundo nos cabelos”, responde a garota para os colegas.
Com essa narrativa, a autora transforma o enorme cabelo crespo de Tayó numa metáfora para a riqueza cultural de um povo e para a riqueza da imaginação de uma menina saudável.

Apresentação
Não é por acaso que os cabelos Black Power têm o formato circular do universo. A circularidade é a base fundamental das culturas de matriz africana. Deixar os cabelos crescerem livres, soltos, redondos, harmônicos em todos os sentidos, foi a forma encontrada, na distante década de 1960, pela juventude afro-americana e, depois, por homens e mulheres afros do mundo todo, de marcar sua identidade e o orgulho de sua origem africana.
Mesmo tão pequenina, sem esses conhecimentos históricos, Tayó sente isso – sentir é muito mais profundo do que saber. E sente porque se espelha nos cabelos da mãe, para quem “ser bela” é sinônimo de se reconhecer e de ser feliz. Para as pessoas realmente felizes não há limites na criatividade de “brincar” com a própria beleza, tornando-a ainda mais esplendorosa. Sentir a necessidade de buscar outros padrões de beleza pode estar associado a uma insatisfação causada pelo desconhecimento de referências positivas em nossa própria origem. E o Black Power de Tayó é uma boa referência.
Tayó é uma princesinha que chega em forma de espelho para que outras princesinhas se mirem, se reconheçam e cresçam, cumprindo a única missão que nos foi dada, ao virmos viver nesse planeta: a de sermos felizes.
Mais uma vez Kiusam de Oliveira nos presenteia com uma linda história de princesa, como aquelas que ela já contou e muitas outras que, certamente, nascerão da criatividade e dos conhecimentos dessa grande escritora que, há muito tempo, também se descobriu Tayó.

Oswaldo Faustino, jornalista e escritor

Agradecimento
Para escrever uma história como esta, eu precisei percorrer caminhos com o coração nos pés. E caminhar com o coração nos pés não é fácil, você bem deve saber. Exige um caminhar que valorize a jornada épica de cada um, reconhecendo a si próprio como herói ou heroína que luta bravamente para manter-se firme diante de tudo e de todos.
É com o coração nos pés que pulso, agradecendo fontes cristalinas de inspiração: crianças adultas e adultos crianças que me impulsionaram de alguma forma nesse sonho: Dona Erdi (in memorian), Edleuza Ferreira da Silva, Ciciá, Kayo Odê , Iasmin, Isabella, Jardel Coimbra, King Nino Brown, Airton Santos Pinto, José Geraldo Neres, Heloísa Pires Lima e Oswaldo Faustino, além de todas as crianças que compartilham seus conhecimentos comigo, como educadoras e aprendizes que são, e todas as vozes do outro mundo que povoam o meu Black Power até mesmo quando escrevo.

Kiusam de Oliveira
Sobre a autora:
Kiusam de Oliveira é artista multimídia, arte-educadora, bailarina, coreógrafa e contadora de histórias. Doutora em Educação e Mestre em Psicologia pela USP, tem ampla experiência em sala de aula, da educação infantil ao nível superior. Especialista nas temáticas das relações etnicorraciais, de gênero, da corporeidade e candomblé de ketu e educação é ativista do movimento negro há quase 30 anos. Trabalhou pela implementação da lei 10.639/03 (2005-2009) na Secretaria de Educação de Diadema. Especialista na Educação Especial - Deficiência Intelectual. Criadora e diretora do Programa de Rádio Povinho de Ketu – As Africanidades Brasileiras no Ar, transmitido pelas rádios públicas do país. Bailarina do show Tecnomacumba, de Rita Ribeiro há 6 anos. É autora de Omo-Oba: Histórias de Princesas (2009), selecionado pela FNLIJ/2010 e pelo PNBE/2011. Orientadora Espiritual.

Sobre a ilustradora:
Taisa Borges é natural de Sao Paulo, onde mora atualmente. Após cursar artes plásticas na capital paulistana, mudou-se para França, onde deu continuidade aos estudos de pintura na faculdade de Beaux-Arts de Paris. No mesmo período cursou estilismo no Studio Berçot. De volta a São Paulo, desenvolveu desenhos de estamparia para diversas confecções e para sua própria marca a “Motivos Brasileiros”. Desde 2006 dedica-se a ilustração.
É autora de cinco “livros de imagem” e um livro em HQ, “Frankenstein” este que integra a coleção da Editora Peirópolis dos “clássicos em quadrinhos”.
Para conhecer mais o trabalho de Taisa Borges, navegue pelo site: http://taisaborges.com/

Lívia Natália - Água Negra (resenha)


Lívia Natália - Água Negra

Ricardo Riso

Desde o final dos anos 1970 que a literatura negro-brasileira vem galgando o seu espaço e cobrando a sua inserção na literatura brasileira, que sempre legou a essa vertente literária o silêncio do ostracismo. Porém, escritoras e escritores dessa época seguiram a raiz quilombola da força negra, motivados pelas vozes de libertação dos países africanos de língua portuguesa, pelas reivindicações do movimento black nos EUA e pelas manifestações contra o apartheid na África do Sul, uniram-se e, em meio as rearticulações do movimento negro dentro do abrandamento da ditadura, lançaram “Cadernos Negros” em 1978. A partir daí, fortaleceram-se em grupos como o Quilombhoje (São Paulo, 1980) e o Negrícia – poesia e arte de crioulo (Rio de Janeiro, 1984-1992). Contudo, apesar dessa nova movimentação no meio literário brasileiro eles permaneceram marginalizados pelo mercado editorial.

Entretanto, a literatura negro-brasileira segue uma crescente linha ininterrupta, incomoda e exige a sua presença nos cadernos literários, nos programas de Letras das universidades e nas livrarias e editoras. “Cadernos Negros” completou 35 anos, vários autores possuem diversos títulos publicados, novos nomes surgem com vigor e uma rede negra segue traficando os seus agentes no boca a boca, em blogs e em redes sociais. Ou seja, a literatura negro-brasileira evidencia a necessidade de escurecer a literatura brasileira e a sua tão divulgada universalidade. Logo, contrária a essa universalidade redutora que me escoro no filósofo sul-africano Mogobe Ramose:

Considerando que “universal” pode ser lido como uma composição do latim unius (um) e versus (alternativa de...), fica claro que o universal, como um e o mesmo, contradiz a ideia de contraste ou alternativa inerente à palavra versus. A contradição ressalta o um, para a exclusão total do outro lado. Este parece ser o sentido dominante do universal, mesmo em nosso tempo. Mas, a contradição é repulsiva para a lógica. Uma das maneiras de resolver essa contradição é introduzir o conceito de pluriversalidade (RAMOSE, 2011, p. 10).

 

Dentro do processo de alargamento exigido para a concretização da pluriversalidade, destaca-se a literatura produzida por mulheres negras combatendo as esferas do poder falocrático[2]. Contra rasuras, estereótipos de sexualidade e animalização, Miriam Alves afirma que:

tendo em vista o aviltamento do qual foi vítima esse corpo negro que passou pela coisificação, mutilação, primeiro pela da escravização, e depois seguido da automutilação, para aproximá-lo da estética branca alienígena à sua feição natural. Antes de tudo, é um corpo vitimado que necessita de se desvencilhar das marcas de sexualização, racialização e punição nele inscritas para redefini-lo numa ação de afirmação e autoafirmação de identidade (ALVES, 2010, p. 71).

 

Contra as Bertolezas literárias, as escritoras marcam presença como sujeito discursivo que desestabiliza tanto o racismo quanto o sexismo, expõem o ponto de vista de vozes silenciadas por séculos de exclusão e reivindicam a sua inclusão na literatura brasileira. Sendo assim, hoje pode-se dizer que a produção de autoria feminina negra é o que há de mais instigante na literatura negro-brasileira com excelentes representantes que fazem do texto literário a arena para romper com os anos de opressão. As obras de Conceição Evaristo, Esmeralda Ribeiro, Lia Vieira, Miriam Alves, entre muitas outras jovens escritoras estão aí para provar a qualidade dessa escrita.

Nessa expectativa e ampliando a literatura negro-brasileira de autoria feminina, a renovação e a continuidade do seu fortalecimento e amadurecimento encontra no livro de estreia da baiana Lívia Natália, “Água Negra” uma expressão pungente de que a poesia ainda surpreende. E muito. Essa jovem escritora é Doutora em Estudos Literários pela UFBA onde atua como professora de Teoria da Literatura. A publicação de “Água Negra” tem sua origem na premiação do Projeto Arte e Cultura do Banco Capital, edição 2011. O livro é composto por 29 poemas distribuídos em três cadernos.

A leitura do livro demonstra que Lívia Natália é uma poetisa de múltiplos recursos, que domina como poucos a palavra poética, revela cuidado e respeito pela palavra depurada, “como uma ostra:/ tecendo a pérola” (p. 19), poesia que “dentro desta água doce cabe a violência das torrentes” (p. 29) de tão imprevisíveis que são as imagens criadas em seus versos. Assim inicia “Rastro”: “Somos todos feitos da poeira de estrelas./ Elas apenas tangenciam nossos sonhos/ inscrevendo-os na pele do infinito.// (...) Há, na trama retecida da minha alma,/ um ressoar silente como o das estrelas,/ a que chamo angústia,/ apesar da poeira luminosa e viva/ que trago debaixo dos pés” (p. 13). A poesia é feita das menores observações, dos gestos e objetos insignificantes, da poeira à inacessibilidade das estrelas a força da palavra poética ilimitada como os sonhos, como o infinito. A imaginação desmesurada em função de uma estética vigorosa para desestruturar os sentidos. Da angústia do “útero de poeta” fecunda essa arte inquietante de Lívia Natália.

Poesia que navega por água turva, os versos de Lívia Natália no melhor estilo simbolista formam um “périplo de rotas insondáveis” (p. 49), de uma escrita que percorre e dignifica o ser mulher, aguerrida e desafiadora perante a ordem falocrática da sociedade. Por isso, metaforiza a morte da cigarra com a força, sempre urgente, que acompanha a mulher: “dentro dela vive uma ferida sem remédio,/ ela abriga no seu ventre/ um corte nascido de dentro,/ que dilacera entranhas.// No seu ventre moram medos insondáveis./ E um corte que sangra alto.// Toda cigarra,/ como eu,/ morre gritando!” (p. 59).

Desse âmago feminino que dilacera as entranhas evoca uma postura de enfrentamento, pois “As senhas do meu corpo/ Falo nenhum devassa” (p. 57) traduz uma ressignificação ético-estética de um novo sujeito feminino, autônomo no seu discurso e obriga a revisão do posicionamento estratificado da hierarquia social que subjuga a mulher, sendo que dentro do gênero a negra ainda é mais inferiorizada. Ainda que tenha uma poesia de vísceras, Lívia Natália explora os sentidos polissêmicos, reconfigura sentidos, alegoriza os ciclos femininos, esse “líquido grosso” que “das paredes duras vaza um mais escuro que,/ imagino, seja a água mordendo as estruturas.// A água é assim:/ atiçada do céu,/ infinita no mar,/ nômade no chão pedregoso,/ presa no fundo de um poço imenso:/ A água devora tudo/ com seus dentes intangíveis” (p. 39).

Com isso, são metaforizados os ritos, os votos em uma poesia-corpo que também é das delicadezas como a de Paula Tavares, um caso paradigmático da literatura angolana, uma voz provocadora de novas semânticas para a poesia de Angola. Lívia e Paula transformam o fazer literário em arma, são vozes dissonantes combatendo as certezas masculinas e o seu furor sexual oco e opaco. Assim diz o sujeito lírico de Paula Tavares em “A curva do rio”:

Desce a curva do meu corpo, amado/ com o sabor da curva de outros rios/ conta as veias e deixas as mãos pousarem/ como asas/ como vento/ sobre o sopro cansado/ sobre o seio desperto// Parte a canoa e rasga a rede/ tens sede de outros rios/ olhos de peixes que não conheço/ e dedos que sentem em mim a pele arrepiada/ d’outro tempo// Sou a esperança cansada da vida/ que bebes devagar/ no corpo que era meu/ e já perdeste/ andas em círculos de fogo/ à volta do meu cercado/ Não entres, por favor não entres/ sem os óleos puros do começo/ e as laranjas” (TAVARES, 2004, p. 60).

 

Enquanto sujeito lírico de Lívia Natália revela o desencanto de “Perdida”:

Não há,/ na tua boca,/ dente são que me morda/ ou me devore...// Há apenas teu silêncio/ de vento mastigando as correntezas,/ de céu tenso sem o excesso de nuvens brancas.// Há desejo nesta língua de sonho/ que meu corpo devora sôfrego?// Se há natureza/ - na ordem harmônica do mundo -/ o tempo da espera e do silêncio,/ haverá tempo, ainda/ para que matures os dentes/ para o verde deste teu afeto?// Eis a maldição de toda mulher:/ viver, num só teu verão,/ ou teu inverno/ a urgência de todas as primaveras. (p. 51)

 

Para além da incapacidade masculina fechada em seu mundo de poder opressivo, a poesia de Lívia Natália apresenta outros diálogos com o heterônimo de Fernando Pessoa, Álvaro de Campos na epígrafe e na contestação social do poema “Da hora do cansaço” e a sua proximidade com o “Poema em Linha Reta” daquele, assim como a reconfiguração simbolista do mito grego de Ícaro em “Lágrima de Ícaro”. Porém, identifico como uma marca de enorme relevância na poética aqui exposta é a exploração sensível da religiosidade de matriz africana, deslocando seus signos, experimentando outras sensações em “Asé”:

O sangue, ejé que corre caudaloso,/ lava o mundo e alimenta/ o ventre poderoso de meus Orixás./ A cada um deles dou de comer/ um grânulo vivo do que sou/ com uma fé escura.// (...) Minha fé é negra,/ e minha alma enegrece a terra/ no ilá/ que de minha boca escapa.// Sou uma árvore negra de raiz nodosa./ Sou um rio de profundidade limosa e calma./ Sou a seta e seu alcance antes do grito./ E mais o fogo, o sal das águas, a tempestade/ e o ferro das armas.// E ainda luto em horas de sol obtuso/ nas encruzilhadas (p. 33).

 

É essa sintaxe inovadora transversalizando a alvura da literatura brasileira, é a diversidade poética ressemantizando e propondo o esgarçamento do cânone, este na encruzilhada tendo escancarada a percepção de sua fragilidade. Em ruidosas ruínas a sua indiferença fere e sangra. Delicada e visceral, a poesia de Lívia Natália é transnegressora, navega destemida por uma diversidade de águas, sendo sempre negra, reconfigurando margens, desbravando a multiplicação dos sentidos, provocando os redutores/detratores da literatura negro-brasileira ao mostrar o apurado conteúdo estético ainda assim engajado, preocupado com o social, atento à discriminação, mas, sobretudo, feminina e a serviço das possibilidades ilimitadas que o fazer poético pode oferecer. A poesia de Lívia Natália é um rio que deságua num mar sem fim, como o poema que encerra “Água Negra”, o orikai “Oriki para Osun”: “O rio se cala,/ mas há quem não saiba/ que ele é fundo” (p. 73).


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

ALVES, Miriam. A literatura negra feminina no Brasil – pensando a existência. Revista da ABPN. V.1, n. 3 – Nov 2010 – fev. 2011. p. 181-189.

AUGUSTO, Ronald. Transnegressão. In: PEREIRA, Edmilson de Almeida (Org.). Um tigre na floresta de signos – estudos sobre poesia e demandas sociais no Brasil. Belo Horizonte: Mazza Edições, 2010. pp. 425-437

RAMOSE, Mogobe B. Sobre a legitimidade e o estudo da filosofia africana. Revista Ensaios Filosóficos. Volume IV, outubro/2011.

TAVARES, Ana Paula. Poesia. Biblioteca da Literatura Angolana. Luanda: Edições Maianga, 2004.



[2] Ver ALVES, Miriam. A literatura negra feminina no Brasil – pensando a existência. Revista da ABPN. V.1, n. 3 – Nov 2010 – fev. 2011. p. 181-189