domingo, 30 de junho de 2013

Conceição Lima - Canto obscuro da memória (A Nação)


Canto obscuro da memória
Ricardo Riso
Resenha publicada no semanário cabo-verdiano A Nação, n. 283, de 31 de janeiro de 2013, p. E14
Os agentes das literaturas africanas de língua portuguesa revisitam fatos, reconstroem acontecimentos, desvelam personagens rasurados pelos anos de colonização e de uma história escrita por um discurso hegemônico alheio aos interesses dos colonizados. Com o advento das independências em meados dos anos 1970, essas literaturas passaram a desenvolver releituras até então silenciadas nos tempos de antanho. O direito a significar mencionado por Homi Bhabha passa a ser exercido e o texto literário transforma-se no espaço para tensionar os apagamentos do passado, oferecendo a possibilidade do direito à memória àquelas vozes que deveriam sair da subalternidade.
Evidente que em uma “nova” ordem a disputa de poder permanece e outras negociações são realizadas. O ensaísta uruguaio Hugo Achugar destaca que o ato de narrar não é só para quem quer, mas de quem sabe e possui o direito ao relato, de escolher e decidir na tensão entre o esquecimento e a memória. Nesse sentido, quando as instâncias de poder são controladas por homens a voz feminina permanece excluída. Por isso, que ressaltamos o enorme interesse nas literaturas produzidas por mulheres, principalmente negras, pois são as vozes que sofrem maior silenciamento.
A obra poética da são-tomense Conceição Lima (1961) remexe incômodos do passado, estremece a inércia do presente, inquieta e pressiona para possibilidades de leituras diversificadas para o futuro por meio de sua linguagem contradiscursiva. Substanciada na condição feminina, os poemas de São Lima – como é carinhosamente conhecida – abordam diversos aspectos que angustiam seus conterrâneos e todos que se indignam com as injustiças impostas aos negros entre outras minorias. Seu livro “A dolorosa raiz do Micondó” (2011, 2ª ed.), o 2º de três obras, revela o quanto a poesia feita com esmero pode surpreender e agraciar aos sentidos indiferentes. Para isso, destaco o longo poema “Canto obscuro às raízes”.
Neste poema, o sujeito poético trata com habilidade um drama para os negros da diáspora: a origem de seus antepassados africanos. Assim, inspira-se na obra do escritor afro-americano Alex Haley, autor de “Raízes”, que narra a obsessiva recolha para reconstruir o caminho feito por seu antepassado forçosamente retirado da África no século XVII e escravizado nos EUA, “que ao olvido dos arquivos/ e à memória dos griots Mandinga/ resgatou o caminho para Juffure,/ a aldeia de Kunta Kinte –/ seu último avô africano/ primeiro na América”.
Porém, como percorrer esse caminho de retorno? Apesar de impor o seu direito à voz, “eu, a que agora fala”, o sujeito poético transparece a agonia diante da impossibilidade de reconstruir o percurso de seus antepassados, “não encontrei em Libreville o caminho para Juffure.// Perdi-me na linearidade das fronteiras”. Entretanto, ainda que os versos chamem atenção para a incompletude do ser negro, isso revela a necessidade de negociar a homogeneização autoritária das narrativas identitárias e das nações que ocultam o passado dos negros escravizados. É o que Stuart Hall assinala como enormes esforços empreendidos para a reconstrução das rotas fragmentárias e tornar o invisível visível. “[E]ncontrei em ti, Libreville, o injusto património a que chamo casa”, revela a memória fragmentada nessa arena de disputa permanente.

É com a emergência desses novos atores sociais que a poesia de Conceição Lima contribui para combater o esquecimento imposto pelo discurso dominante: “Eu, a peregrina que não encontrou o caminho para Juffure/ Eu, a nómada que regressará sempre a Juffure”. A insistência do sujeito poético mostra que a impossibilidade de reconstruir a origem da população negra na diáspora foi fruto do descaso da elite hegemônica branca. Não medir esforços para resgatar esses trajetos é colaborar com esse esquecimento imposto, negando histórias plurais ainda silenciadas pela manutenção da obscuridade das diferenças, tanto no Brasil quanto em Cabo Verde, Argentina, Cuba, São Tomé e Príncipe...

40 anos sem Amílcar Cabral (A Nação)

40 anos sem Amílcar Cabral
Ricardo Riso
Resenha publicada no semanário cabo-verdiano A Nação, n. 281, de 17 de janeiro de 2013, p. A26
Amílcar Cabral, o líder maior do PAIGC e da luta pela independência das nações irmãs Cabo Verde e Guiné-Bissau, completará quarenta anos de sua morte no próximo dia 20 de janeiro. Cabral foi um dos nomes relevantes para libertação do continente africano, escrutinando ao longo de sua curta vida político-intelectual uma teoria crítica para a independência plena dos países africanos. A sua defesa pela unidade africana com um novo viés inserido no contexto das lutas anticoloniais perpassava pela união Cabo Verde-Guiné-Bissau, pois “esses territórios por diversas vezes estiveram sob uma mesma administração, conformando uma única província” (ANJOS, p. 163) e retomando de forma subversiva a união formulada pela colônia portuguesa “ao mesmo tempo que representaria uma contribuição original à unidade africana” (CABRAL, p. 45).
Cabral era um líder cônscio dos problemas de seu tempo expostos por fragilidades de diversas ordens, tais como os parcos recursos econômicos substanciados na agricultura e pesca principalmente, as dissidências políticas e as desestabilizações promovidas em meio a uma Guerra Fria bipolarizadora do mundo, passando pelo neocolonialismo motivado pelas autonomias negociadas com as antigas colônias e o empobrecimento de quadros competentes nas futuras nações e os desvios éticos de seus líderes, como afirmava a seguir: “[ele] opõe-se à exploração de sentimentos identitários por indivíduos ou grupos no momento da sua articulação no domínio sociopolítico (...). Os ‘sentimentos étnicos’ não constituem problemas em si próprios. Só existe perigo quando esses sentimentos são exacerbados por dirigentes oportunistas e ambiciosos à procura da sua promoção pessoal” (WICKS, p. 86).
Dentre outros aspectos teóricos, talvez os mais interessantes para a tentativa de criação de uma unidade e efetiva participação dos cabo-verdianos na luta contra o colonialismo tenha sido as provocações de “retorno às origens e reafricanização dos espíritos”, uma vez que esse viés à África foi contrário à valorização da mestiçagem proposta pelos intelectuais da revista “Claridade” e sua aproximação ao continente europeu. Era este o pensamento predominante e também apoiado pelo colonialismo. Para o sociólogo cabo-verdiano Gabriel Fernandes: “é fundamentalmente a partir da recusa dos traços culturais africanos e da plena assunção dos lusitanos que a nova elite intenta afastar-se dos colonizados e aproximar-se do colonizador. Nessa operação, instaura-se uma espécie de dinâmica automutiladora, na qual, sob os influxos teórico-epistemológicos resgatados ao Brasil, idealizou-se ‘um mundo que o português criou’ e em que o africano não entrou ou está prestes a sair” (FERNANDES, p. 17).
Entretanto, para a urgência do momento histórico por que a “estratégia por trás da formulação da identidade mestiça não busca romper, mas situar-se mais confortavelmente no jogo” (ANJOS, p. 156), caso dos intelectuais claridosos e referente ao que Fernandes mencionou como “mínimo cultural compartilhado”, que os mantinha como cidadãos de segunda classe, porém, continua o ensaísta, a emergência das formulações de Cabral do “retorno às origens também favoreceu uma autoconfrontação dos artífices identitários com o anverso e o não-ponderável da sua produção, pondo a descoberto todos os vieses de uma identidade que se afirmou autonegando-se” (FERNANDES, p. 20).
O originário pensamento de Cabral gerou críticas e oposições de diferentes prismas, sendo combatido internamente inclusive. Como suas ideias eram contrárias ao neocolonialismo e de difícil aceitação pelos dissidentes internos, motivaram o seu assassinato. Fato comum aos grandes líderes pan-africanistas da época. Para a literatura, Cabral foi enfático ao defender a transcendência da mensagem da geração claridoso, “o sonho tem que ser outro” e estimulou autores incisivos como Onésimo da Silveira e Mário Fonseca, e encontra na obra poética de José Luis Hopffer Almada a revisitação de seu passado.

BIBLIOGRAFIA:
ANJOS, José Carlos dos. Intelectuais, literatura e poder em Cabo Verde: lutas de definição da identidade nacional. Porto Alegre: Editora da UFRGS; Cabo Verde: Instituto de Investigação Promoção e Património Culturais – INIPC, 2004.
FERNANDES, Gabriel. A diluição da África: uma interpretação da saga identitária cabo-verdiana no panorama político (pós)colonial. Florianópolis: Ed. da UFSC, 2002.

WICK, Alexis. A nação no pensamento de Amílcar Cabral. In: LOPES, Carlos (Org.). Desafios contemporâneos da África – o legado de Amílcar Cabral. São Paulo: Editora da UNESP, 2012. p. 69-106.

Luís Romano - Clima (A Nação)

Luis Romano - Clima
Ricardo Riso
Resenha publicada no semanário cabo-verdiano A Nação, n. 268, de 18 de outubro de 2012, p. E15
Luís Romano de Madeira Melo nasceu a 10 de junho de 1922 na Vila da Ponta do Sol, ilha de Santo Antão, e faleceu a 22 de janeiro de 2010 na cidade de Natal, Rio Grande do Norte, Brasil, onde radicou-se e publicou boa parte de sua vasta e diversificada obra que inclui romances, poesia, contos, ensaios e crônicas, “que, na diáspora, perseverou no cultivo do amor à sua terra de origem, concebendo-a sempre como elo entre terras e culturas”, segundo a Dra. Simone Caputo Gomes na homenagem póstuma “Luís Romano: patrimônio intelectual caboverdianobrasileiro (Um depoimento)”.
Com destaque para “Famintos” (1962), “Negrume/Lzimparin, contos cabo-verdeanos” (1973) e “Cem anos de literatura caboverdiana” (1985), Romano organizou com Maria Helena Sato a antologia “António Januário Leite – o poeta além-vale” (2005). Também poliglota, foi defensor da língua materna como língua oficial do arquipélago chegando à conclusão “de que a língua cabo-verdeana procede dialetalmente de um antigo português quinhentista, então praticado nas ilhas durante as Navegações, e, como língua nacional, enquadra-se na categoria das neo-latinas, como testemunho inegável” (ROMANO; SATO, 2005, p. 204).
Aqui trataremos do livro “Clima” (1963, Recife) que reúne uma grande quantidade de poemas distribuídos nos sete cadernos das suas 308 páginas, o que prejudica de certa maneira a qualidade do livro, pois alguns poemas são dispensáveis para a estampa do livro, no nosso entendimento. Entretanto, tamanho fôlego corresponde à postura desse incansável art’vista demonstrada pela versatilidade linguística em poemas na língua portuguesa, língua materna cabo-verdeana e francês, estes reunidos no caderno “Climat”, assim como a inclusão de um caderno com poemas em prosa.
A versificação livre do neorrealismo é a característica predominante em seus poemas. A virulência a qual denuncia as mazelas sociais assemelha-se aos poemas de Mário Fonseca e Onésimo da Silveira. Inquestionável sua postura na defesa dos cidadãos desfavorecidos, o sujeito lírico de Romano angustia-se com o Humanismo – “esse sonho inexistente” (p. 137), para o qual as ideologias da época – “a farsa do socialismo” (p. 136) – não conseguem contemplar. Por isso, a contundência exposta com a mancha gráfica ao afirmar a sua postura contra as injustiças no emblemático “O que sou”: “Não é preciso que me indiquem a classe a que DEVO PERTENCER,/ (...) SOU DA CLASSE HUMANA: eis tudo” (p. 209).
Humanismo que não o deixa insensível aos problemas raciais e à discriminação sofrida pelos negros, “porque na verdade/ ser negro é tam natural/ quanto é/ a origem da espécie humana” (p. 234). Fato que nem sempre é lembrado, por isso chama o “Irmão Branco” para rever seus conceitos: “escuta-me um momento/ ainda é tempo/ porque te falo de irmão para irmão/ – No mistério daquilo que nos formou/ – considera-me –/ Só isso nos basta/ Só isso/ e estende-me tua mão” (p. 236). O poeta também aborda a violência sexual das relações etnicorraciais durante a colonização, fato nem sempre lembrado quando se exalta a mestiçagem: “A negra que varre o escritório/ teve um filho pardo do patrão branco./ (...) O patrão arranjou outras negras para ter filhos/ como quem muda de cigarros/ ou de camisas” (p. 141).
“Clima” é sobretudo um livro caboverdeano no qual a insularidade reforçou o olhar corrosivo à realidade do arquipélago, de compromisso com o seu tempo, de crença na função social da literatura, de amor: “Cabo Verde, Meu Drama, Meu Espanto,/ Meu Berço de Fôlhas,/ ansiedade e pranto,/ esfumando-se ante meus olhos/ como toada triste de morna distante/ para eu dormir sonhando tranquilamente,/ sonhando eternamente Contigo” (p. 181).
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A resenha aqui presente somente foi possível graças à oferta generosa do livro “Clima” pelo amigo Eidson Miguel, pesquisador atento da obra de Luís Romano desde a graduação e que vem dando continuidade na pós-graduação em Letras da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), estado no qual Romano viveu.

Rasuras da História desveladas na Poesia (A Nação)


Rasuras da História desveladas na Poesia
Ricardo Riso
Resenha publicada no semanário cabo-verdiano A Nação, n. 263, de 13 de setembro de 2012, p. E18
As diversas revoltas contra o sistema escravocrata ocorridas no século XIX aparecem de forma tímida na literatura cabo-verdiana, principalmente se levarmos em conta que “raramente aqueles escritores (‘da geração claridosa’) se debruçam sobre as grandes revoltas camponesas da ilha de Santiago. Mas descrevem repetidamente as revoltas urbanas do Mindelo ao qual se sentem associados”, de acordo com José Carlos Gomes dos Anjos em “Intelectuais, literatura e poder em Cabo Verde” (2006, p. 139), como exemplo o mitificado Ambrósio, versado por Gabriel Mariano.
Uma vertente bastante marcante da obra poética de José Luis Hopffer Almada é o resgate de cenários, protagonistas e revoltas antiescravocratas do passado, principalmente da ilha de Santiago, buscando a valorização da afro-crioulidade identitária conforme o próprio poeta esclarece a este jornal na sua edição 92: “A memória é um lugar onde se podem resguardar muitos milagres. Lugar de refúgio e de ancoragem, pode por outro lado ser constantemente reencenado nos termos propostos pela imaginação e pelo engenho do criador que se propõe revisitá-la. Para além dessa pressão incontornável, creio importante empreender algum labor de resgate do passado histórico de Cabo Verde e, especialmente, de Santiago, ilha particularmente vituperada durante grande parte do período colonial e do período pós-Independência. Tem-se por vezes a impressão de que alguns se especializaram na ocultação da história da ilha, das suas populações, das suas elites, das suas manifestações culturais mais características... Contra a amnésia (deliberada e induzida) há que contrapor a memória e as suas revisitações. (...) A interpretação do passado mediante o discurso científico não substitui todavia o que ao poeta, ao escritor e ao artista da palavra compete: criar emoções e comoções presentes com o olhar debruçado sobre as circunstâncias e os afectos dos nossos antepassados, reencenados no palco imaginário da nossa memória e da nossa genealogia.”
Contra a amnésia induzida que estranhamente ignora um contexto histórico de contestação à ordem estabelecida no século XIX presente nas revoltas dos Engenhos (1822), Monte Agarro (1835) e Achada Falcão (1842), dentre outros fatores, as invasões napoleônicas, a fuga da Família Real, a independência do Brasil às lutas liberais em Portugal (VIEIRA,1993;1999), valemo-nos do que Jacques Derrida menciona como “suplementar” para preencher as rasuras que se apresentam na literatura a partir de um contradiscurso inclusivo, pois para o ensaísta o “signo que substitui o centro, que o supre, que ocupa o seu lugar na sua ausência, esse signo acrescenta-se, vem a mais como suplemento (...), suprir uma falta do lado do significado” (DERRIDA, 1971, p. 245).
Com esta perspectiva que Hopffer Almada procura desvelar o passado colonial cabo-verdiano nos poemas de seu heterônimo NZé dy Sant’Y’Águ, tal como aparece no poema “Monte-Agarro”, incluído no livro Praianas (2009, p. 95-96). Este poema retrata a malograda insurreição antiescravocrata protagonizada por Gervásio, Narciso e Domingos em 1835, que pretendia extinguir o sistema escravista, matar os senhores brancos e tomar a ilha de Santiago, tornando-a um Haiti cabo-verdiano (ALMADA, 2007). Entretanto, com o insucesso “era esse o destino/ de monte-agarro fonteana/ julangue serra-malagueta/ e dos cavalos da sua noite exausta/ resfolegando contra os próceres/ do morgadio e do pelourinho...” (2009, p. 96).
Encerra-se o poema recordando outras revoltas malogradas, mas permanece a dimensão humanística da obra de José Luis Hopffer Almada conotada à evocação da filosofia ubuntu dos direitos humanos proferida pelo filósofo Mogobe Ramose no artigo “Globalização e Ubuntu”, que resgata o aforismo “Motho ke motho ka batho”, que “afirma ser humano é afirmar a humanidade própria através do reconhecimento da humanidade dos outros e, sobre tal embasamento, estabelecer relações humanas entre eles” (2010, p. 212).

50 anos de Seló (A Nação)

50 anos de Seló
Ricardo Riso
Resenha publicada no semanário cabo-verdiano A Nação, n. 261, de 30 de agosto de 2012, p. E14
No dia 25 de maio de 1962, incorporada ao jornal Notícias de Cabo Verde, nº 321, surgia o primeiro exemplar de Seló – Página dos Novíssimos, organizada por Rolando Vera-Cruz Martins, Jorge Miranda Alfama e Osvaldo Osório, com modestíssimas duas páginas contendo contos e poemas dos nomes supracitados mais a participação de Mário Fonseca. Três meses depois, em 28 de agosto, sairia o segundo e derradeiro número de Seló, o mesmo número de páginas, os integrantes da edição inicial acrescidos do vate Arménio Vieira e da ilustre presença feminina de Maria Margarida Mascarenhas, sendo um conto a sua contribuição.
Celebrar este primeiro cinquentenário vejo como um dever com a história da literatura cabo-verdiana. Seló surge em um contexto histórico de enorme efervescência com as lutas contra o colonialismo espalhadas por todo o continente africano, os países tornavam-se independentes, ainda que poucos com líderes pan-africanistas e propostas progressivas, casos de Gana, sob liderança de Kwame Nkrumah, e Guiné, com Sekou Touré. Amílcar Cabral liderava o PAIGC e inflamava a mente dos jovens nesse tempo de utopia. Apesar de toda essa avalanche que percorria a África, Portugal mantinha-se irredutível ao negar a ruína do império ultramarino, restando apenas a opção pela guerra colonial. Legítima, por sinal.
No meio desse processo, a repressão nas colônias portuguesas aumenta consideravelmente, os jornais passam a ter maior vigilância, os jovens escritores não encontram espaços generosos para mostrar seus trabalhos, basta recordar as duas experiências ao final dos anos 1950, Boletim dos Alunos do Liceu Gil Eanes e Suplemento Cultural. Porém, o recrudescimento da repressão imposta pela PIDE não inibe a coragem desses neófitos escritores, que não abandonam a palavra insurreta e fazem do texto literário o veículo de conscientização de seus pares. Como uma espécie de nota introdutória do suplemento, Osvaldo Osório revela no texto “Reflexões” as propostas incisivas dentro de um discurso contra-hegemônico que orientam esse pequeno grupo de escritores: “e a Seló, (...) continuará a aflorar problemas e vivências do espírito ‘aqui’ e no tempo a que este se concerne – quase condicionada, na sua expressão, pelos problemas cíclicos do homem caboverdeano”.
Bom exemplo disso é a veemência de alguns poemas de Mário Fonseca, tal como “Fome” no qual o poeta escancara a miséria que assola o arquipélago com um expressionismo enfurecido: “Gargalhadas de escárneo/ Rasgando/ Até as comissuras dos lábios/ Máscaras irônicas/ Mascarando dores/ Sorrisos de hipocrisia/ Desfazendo em blocos/ Caras mulatas/ Escondendo a fome (...) E a fome a desfazer-se/ Em sorrisos de hipocrisia/ E a fome a desfazer-se/ Em irônicas gargalhadas”; ou ainda na habilidade do sujeito lírico posicionar-se tanto de forma distante quanto de se incluir no drama com a mudança pronominal no primeiro verso de “Os Estrangeiros”: “Lá vão eles! Vedê-os! Vedê-nos!”. A ênfase exclamativa chama atenção para uma realidade que não pode mais passar despercebida e o poeta assume o seu comprometimento ao lado dos desfavorecidos: “Eles caminham cambaleantes/ E eu vou com eles/ Pelos caminhos/ Do desespero e da angústia/ Rumo à noite mais profunda do nada”.
Tais como “crianças rejuvenescidas/ que já não temem o lobisomem/ que vinha à meia-noite chupar-lhes o sangue”, em versos de “No fim da jornada”, poema de Jorge Miranda Alfama, esses escritores fortalecem-se na concretização do sonho da pátria livre, renovam a esperança, denunciam sem medo os problemas de seu tempo. Partem para a reconfiguração dos sentimentos, necessários e urgentes como pede o momento, e assim versa Arménio Vieira: “Mar!/ do não-repartido/ do sonho afrontado// Mar!/ Quem sentiu mar?”

Coragem, ousadia e determinação para tornarem-se agentes da história, esses escritores assumiram a missão de seu tempo e todas as homenagens são poucas para este primeiro cinquentenário de Seló – Página dos Novíssimos.

Wanasema e Fliafro (A Nação)

Wanasema e Fliafro
Ricardo Riso
Resenha publicada no semanário cabo-verdiano A Nação, n. 249, de 7 de junho de 2012, p. E5
A virada de maio para junho deste ano rendeu boas discussões a respeito das relações literatura negro-brasileira e literaturas africanas de língua portuguesa no Rio de Janeiro, durante o evento 1º Wanasema – Festival Internacional de Diálogos Artístico-Interculturais – encontro da literatura negro-brasileira com a literatura moçambicana, e em Belo Horizonte com a FLIAFRO 2012 – Festa Literária de Expressões Indígenas, Africanas e Afro-brasileiras, com o tema Leitura, Diversidade e Sustentabilidade Social.

O Wanasema é um evento com idealização minha e da Drª Fernanda Felisberto (Kitabu Livraria Negra) e tem como principal objetivo estabelecer a aproximação das manifestações artísticas da cultura negro-brasileira com os países africanos e demais países da diáspora africana, tendo a literatura como o principal interlocutor dessas relações. Com a fundamental parceria do Renascença Clube, com o pronto atendimento de seu presidente, Sr. José Evangelista de Oliveira, o empenho da Srª Edilea Sylvério e da Srª Nanci Rosa, VP do Departamento Cultural e Artístico do clube, e patrocínio do Conselho Municipal de Defesa dos Direitos do Negro-COMDEDINE, o Wanasema aconteceu no dia 23 de maio.

Pela primeira vez em comitiva para um evento literário, a nova geração de escritores moçambicanos foi representada por Aurélio Furdela, Lucílio Manjate e Sangare Okapi; enquanto do Brasil marcaram presença os escritores Éle Semog e Helena Theodoro, e o Dr. Henrique Freitas (UFBA) e a Drª Iris Amâncio (UFF/RJ e da Nandyala – Livraria e Editora). Com duas mesas, uma sobre prosa e outra, poesia, as mediações ficaram a cargo da Drª Fernanda Felisberto e deste que aqui escreve, respectivamente. As restrições do mercado editorial hegemônico, a cansativa repetição de autores afro-lusos publicados e alternativas para inserir escritores negros africanos no mercado brasileiro, além do papel da lei 10.639/2003, que obriga o ensino da cultura, história e literaturas africanas e afro-brasileiro em toda a educação básica brasileira, e as relações entre Brasil e Moçambique foram alguns dos pontos abordados pelos palestrantes obtendo excelente retorno do público participante, que lotou a quadra do clube.

A FLIAFRO 2012 é uma festa organizada pela Nandyala Livraria e Editora, e teve mais de 70 palestrantes entre brasileiros e estrangeiros. Nesta edição, os escritores Pedro Matos e Vera Duarte representaram Cabo Verde, sendo que ambos constam no catálogo da editora, Matos com o livro de poesia “Midju de Fogo”, e Duarte lançou durante a festa o premiado romance “A Candidata”, a sua estreia no mercado brasileiro. Os dois integraram a mesa “Literatura Afro-Brasileira e Literaturas Africanas: diálogos e desafios” ao lado dos escritores Waldemar Euzébio, Aldrei Anunciação, Lia Vieira, Miriam Alves, Conceição Evaristo e Cacique Kaun Poty. O bate-papo foi coordenado pelo são-tomense Abdelasay de Sousa (Rádio UFMG) e participei como debatedor.

Devido ao espaço restrito, mencionarei somente a participação dos cabo-verdianos. Vera Duarte abordou a relação Brasil-Cabo Verde em três momentos assim determinados por ela: 1º a dor, os escravos vindos de Cabo Verde para o Brasil; 2º a assimilação, o modernismo brasileiro revolucionando a literatura cabo-verdiana; e 3º o amor, a relação mútua de aproximação cultural Brasil-Cabo Verde na contemporaneidade. Ao final de sua explanação, a autora recebeu aplausos calorosos do público. Já Pedro Matos, também bastante aplaudido, falou do desafio de escrever de uma forma simples e com cuidado estético para o público infanto-juvenil brasileiro a partir de aspectos culturais de Cabo Verde até então desconhecidos, e a preocupação de resgatar as memórias já dispersas da vida rural da Ilha do Fogo.


Imensa é a satisfação de acompanhar os laços culturais cada vez mais fortes entre Brasil, Cabo Verde e países africanos. Na terça, 5 de junho, tem mais: o lançamento de “A Candidata”, de Vera Duarte, na Kitabu Livraria Negra, no Rio de Janeiro.

Rinkel e Vera Duarte (A Nação)

Rinkel e Vera Duarte
Ricardo Riso
Resenha publicada no semanário cabo-verdiano A Nação, n. 245, de 10 de maio de 2012, p. E11
Os problemas oriundos da imposição da subalternidade às mulheres nas sociedades africanas contemporâneas são desvelados com extrema urgência pela poesia comprometida com questões de gênero, escancarando os preconceitos de diversas ordens sofridos por elas. Em razão do predomínio masculino na literatura não abordar com a devida atenção essas questões, vozes poéticas insubmissas apresentam, a partir de um ponto de vista feminino, as opressões impostas, a revolta e o acalanto para todas as mulheres, transformando os seus poemas em representações de dramas coletivos.
A escritora e jurista cabo-verdiana Vera Duarte e a moçambicana Rinkel são legítimas representantes dessa escrita comprometida a combater o machismo e as desigualdades sociais, pois constroem uma poesia de intervenção social e em defesa intransigente da mulher. Rinkel, pseudônimo de Márcia dos Santos nasceu em Inhambane, em 1977, e já publicou três livros de poesia: “Almas Gêmeas” (1998, AEMO), “Revelações” (2006, AEMO) e “Emoções e Abstrações” (2011, FUNDAC). Hoje, Rinkel é uma destacada voz poética feminina moçambicana, ao lado de Tânia Tomé e Sónia Sulthuane, seguidoras de importantes nomes do passado, tais como Noémia de Sousa e Glória de Sant’Anna.
Tal como em Cabo Verde, tímida é a presença das poetisas na literatura moçambicana, por isso a relevância das obras “Revelações”, de Rinkel, e "Preces e Súplicas ou os Cânticos da Desesperança", de Vera Duarte, para a representação de vozes silenciadas, visto que a persistência é a mola propulsora desse "escreviver". A perseverança permanece acesa para iluminar um futuro sem as desigualdades da contemporaneidade. Assim diz Rinkel: “Eu queria./ Queria muito./ Tanto mais que acreditei que iria conseguir!/ Enfim.../ Nem tudo se consegue.../ Mas continuo acreditando./ Ainda quero./ Quero bastante”. Já em Duarte a perseverança incontestável no porvir: “... até que um dia/ farta já da mediania/ dos voos rasantes// que planam sem ousar// me arme de um hino revolucionário/ e parta// em direcção a uma madrugada diferente”.
Contra as atrocidades do cotidiano, o sujeito lírico de Rinkel é rebelde e insubmisso diante dos preconceitos patriarcais. Revolta-se, atenta as mulheres para o destino cruel que as espera caso se mantenham inertes e as convoca para a libertação de uma consciência feminina: “Encara a realidade mulher!/ (...) Serás escrava do trabalho da tua própria casa,/ Não terminarás os estudos/ Serás amante de um barrigudo/ Teus filhos serão drogados// Não queres nada disso?/ Se não lutares para conquistares teus objetivos/ Vais acabar assim/ Por isso, minha irmã/ Mulher! Mãe!/ Vamos à luta!// Sem homens no comando,/ Sem ninguém dizendo que não conseguirás/ Apenas luta!/ Tu és capaz! A vitória é tua!” Enquanto Duarte mantém uma postura corrosiva, a palavra contestatária firme e direta a tocar nas mentes obliteradas: “Tempos novos/ ideais recuperados/ brilho no ar e transparência em tudo/ serão espelho/ onde se refletirá/ a imagem/ diferente e subversiva/ da mulher de hoje/ a ganhar forma/ a ganhar corpo/ a crescer/ a VIVER”.
Observadoras dos problemas de ontem e de hoje, Rinkel escancara as vidas destruídas, de famílias dilaceradas por ‘companheiros’ ausentes, capazes de abandonar suas mulheres grávidas entregues à própria sorte, como no sugestivo título do poema “Lei da Família Moçambicana”: “Barrigas grávidas/ De pais ausentes, infiéis, polígamos// Amantes/ Sem planos/ Sem promessas/ Sem esperanças/ Sem futuro// Apenas amantes”. Enquanto Duarte demonstra as consequências desse abandono e de sonhos dilacerados: “(...) Queria ser uma mulher sensual/ De formas cheias/ E peito redondo//(...) Queria ser.../ ... e não sou// (...) Queria mas o meu peito/ se exaure/ na busca desesperada do leite/ para a criança/ que me morre nos braços”

Por fim, Vera Duarte e Rinkel são vozes poéticas que incomodam a ordem estabelecida, vozes assumidamente feministas e corrosivas, imprescindíveis nas literaturas de seus países. 

Kaoberdiano Dambará (A Nação)


Kaoberdiano Dambará
Ricardo Riso
Resenha publicada no semanário cabo-verdiano A Nação, n. 243, de 28 de abril de 2012, p. E14
Raras são as manifestações literárias da afro-crioulidade e da língua materna na literatura cabo-verdiana entre os nativistas, hesperitanos e claridosos até a chegada de uma postura mais contestatária dos representantes da Nova Largada, sendo assinalável para a timidez de tal afirmação a postura racista, branca e eurocêntrica da colonização portuguesa que sempre procurou desvalorizar os aspectos culturais da afro-crioulidade e das origens negras contribuintes para a formação da sociedade cabo-verdiana.
Diante de quadro opressor e de negatividade explícita, favorecido por um discurso de exaltação à mestiçagem que oculta os traços identitários negros, um sentimento afro-crioulizante só poderia surgir atrelado a um quadro de ruptura com a então colônia e de necessária libertação em prol da independência da nação a ganhar corpo na década de 1940, se torna um processo irreversível nos anos 1950, com a criação do PAIGC e a idealização da “reafricanização dos espíritos” de Amílcar Cabral e Manuel Duarte, e atinge o seu auge na década seguinte com as guerras coloniais iniciadas em Angola, Moçambique e Guiné-Bissau.
Nessa perspectiva, é de suma importância para a compreensão da luta anticolonial o papel exercido pelos escritores que vivenciaram esse período a leitura da obra de Kaoberdiano Dambará, pseudônimo de Felisberto Vieria Lopes, nascido em 1937 na ilha de Santiago. Segundo Mario Pinto de Andrade no prefácio para a Antologia Temática de Poesia Africana – O Canto Armado, vol. 2: “Kaoberdiano Dambará, que define a revolta para a liberdade, indica claramente o dever do militante de brandir o ferro no cimo dos montes. Daí o facto de o PAIGC ter saudado então a poesia do autor de Nóti (edição do PAIGC, 1964) como ‘das mais vigorosas, combativas que jamais se escreveu em língua crioula’” (1979, p. 13).
Expressiva é a maneira como a defesa do negro, do país e da África livres apresentam-se em seus poemas, também totalmente compreensível o apoio à divulgação de sua obra pelo PAIGC, já que os poemas são em língua materna e incisivos nas suas críticas como demonstram os textos selecionados na antologia supracitada de Andrade e no vol. 1, intitulado na Noite Grávida de Punhais. O uso do imperativo mostra o poder de arregimentação para a luta que se trava em todo o continente: “Ergue-te e caminha filho de África/ ergue-te negro escuta o clamor do povo: África Justiça Liberdade”.
Sua obra desvela os motivos da falta de união e os conflitos existenciais do ilhéu a partir da perspectiva racial: “Bo bem di londji / (...) Dikansa no bem kombersa / xinta bo bem flam,’m ta pidi’u!/ (...) nôs sangui ê kêl um ta korê na vea./ Ma ê kel: - Branko dja suparano,/ bo ta diskunfia di mi!”. Manifesta o caráter didático ao revelar o arquétipo do opressor na figura do espantalho do grande latifundiário: “Na triatu’l Mundo,/ tud’ê forsa’l Distino,/ tud’ê forsa’l spantadjo:/ Nhôs da ko nho Fifi na tchon,/ spantadjo ta kaba, Distino ta kaba!
Como também é assinalável a gradação tensa das estrofes rumo ao processo de conscientização identitária negra e libertária do poema Juramento em intertextualidade com “O galo cantou na baía” de Manuel Lopes: “galo dja korko assa;// sê pam sirbi Branko, ma’m krê morê/ probi, sukuro, negro – na bo pé:/ nh’aima ta russussita na floresta.// Nha mai dexam mustura nha sangui/ ko tromento, ko batuko, ko stribilim:/ Aima di nôs guentis dja labanta di koba!”
Substantivos os poemas dedicados ao grande líder Amílcar Cabral após a sua morte e a perpetuação de seus ideais para revigorar e inspirar a poesia de combate, sendo homenageado com as letras de seu sobrenome iniciando cada verso: “Canto no ôbi, no ka cêta:/ Anôs, nôs sorti ê spantado,/ Bento ki passa na sono,/ Riba’l kórda’l nôs bida,/ Anti kôrda, djê passa;/ Liberdádi ê kaminho kâ dexano!”

A luta pela libertação do país e a valorização do negro cabo-verdiano como inspiração para a poesia de Kaoberdiano Dambará é a testemunha da utopia que virou realidade. 

Mulheres na poesia cabo-verdiana (A Nação)


Mulheres na poesia cabo-verdiana
Ricardo Riso
Resenha publicada no semanário cabo-verdiano A Nação, n. 239, de 29 de março de 2012, p. E20.
O mês de março configura-se como o de celebração da mulher, assim como de reflexão das condições adversas de subalternidade por que passam as mulheres no mundo diariamente, realidade assaz comum em sociedades regidas pela ética patriarcal-capitalista e de ideologia racial branca como padrão hegemônico.
Da insistente pertinência e urgência do tema, em trocas por correspondência eletrônica com a socióloga e poetisa Eurídice Monteiro, intelectual com destacada presença na defesa dos direitos da mulher cabo-verdiana, venho desenvolvendo algumas questões acerca da poesia de voz feminina em Cabo Verde.
Em profunda análise da trajetória das mulheres-poetisas em Cabo Verde, Monteiro discorre sobre a exclusão social e literária que essas mulheres sofreram e sofrem ao longo dos anos, conduzindo-as a fazer do texto literário o espaço para denúncia de suas condições invisibilizadas ou estigmatizadas pelo cânone do arquipélago.
O texto de Monteiro revela questões impeditivas que abarcam aspectos culturais, sociais, raciais e de gênero para apresentar a “imposição da subalternidade do Outro” determinados por três paradoxos, sendo o primeiro a cultura dominante que ainda se funda em termos europeizantes e regionalizads, nos quais se destacam o padrão étnico-cultural africanizante como de suposta inferioridade cultural predominante na ilha de Santiago; o segundo trata das diferenças entre os espaços urbano e rural; enquanto o terceiro revela a dialética de inclusão e exclusão das mulheres, em diferentes combinações de gênero, classe, ou região, estigmatizando diferenças internas de erotismo e exotismo no coletivo das mulheres das ilhas de S. Vicente e Santiago.
A partir dessas formulações, Monteiro questiona a ausência de poetisas no período nativista e na revista Claridade, sendo que nesta jamais foi publicado texto de qualquer escritora, enquanto naquele a ensaísta faz um interessante levantamento de poetisas com textos publicados nos almanaques de lembranças, tendo especial destaque Antónia Gertrudes Pusich, autora da primeira obra publicada de autoria cabo-verdiana, «Elegia àmemória das infelizes victimas assassinadas por Francisco de Mattos Lobo» (poemas, 1844), e a primeira mulher a dirigir e fundar jornais.
A ensaísta mostra-se audaciosa ao questionar o cânone e revelar o sexismo claridoso ao tratar a condição da prostituição nos poemas de Jorge Barbosa em importante comparação a poemas de Yolanda Morazzo, assim como a voz poética feminina evocando a participação como sujeito da história em Vera Duarte e Carlota de Barros, para além da subversão das práticas sexistas homogenizantes através da apropriação das manifestações culturais e da memória coletiva. Para isso, menciona-se a importância da tradição oral revista por Nha Nácia Gomi e sua “ironia mordaz e desafiadora das práticas sociais sexistas”.
Enriquecedores para os interessados na temática são as propostas comparativas de textos pré e pós-independência e entre gêneros literários, como Lay Lobo e Maria Helena Spencer; a perspectiva da luta feminista em Vera Duarte e Dina Salústio; a percepção das vozes diaspóricas e o deparar-se com as mutações do arquipélago no regresso em Carlota de Barros; e o especial destaque à Eneida Nelly, jovem poetisa que recentemente deu fim à vida, como resposta à asfixia vivenciada cotidianamente por uma mulher negra, pobre e “colocou simultaneamente em debate o acesso desigual ao campo literário-cultural, entre homens e mulheres de uma dada ilha, bem como entre as mulheres de diferentes classes sociais ou regiões do arquipélago”, condição traduzida no sugestivo título de seu único livro: “Sukutam” (Escuta-me).

Trata-se de um ensaio fundamental por chamar atenção para o fato da marginalização das mulheres na sociedade cabo-verdiana manter-se desde os tempos coloniais, mas que vem sendo alterado gradativamente por vozes-mulheres cada vez mais inseridas nas diferentes áreas do saber.

Danny Spínola – Do Paraíso dos Rabelados de Santiago (A Nação)


Danny Spínola – Do Paraíso dos Rabelados de Santiago
Ricardo Riso
Resenha publicada no semanário cabo-verdiano A Nação, n. 235, de 1 de março de 2012, p. E13.
João Vário e Timóteo Tio Tiofe, os heterônimos de João Manuel Varela, apresentaram novos paradigmas à poesia cabo-verdiana com a inserção do longo poema narrativo, metáforas muito bem elaboradas e complexas, o conteúdo epicizante quando também heroico, assim como questões ontológicas e metafísicas, características que isolaram Varela de seus pares poéticos como também o fez boa parte da crítica especializada das literaturas africanas de língua portuguesa, que em sua sistematização restrita à poesia de resistência não considerou a obra de Varela como pertinente à formação da literatura cabo-verdiana. Porém, como frisou Pires Laranjeira, a obra de Varela com seus “Exemplos” é pioneira na perspectiva de antecipar a universalidade preponderante a partir dos anos 1980 no macrossistema dessas literaturas, fato que o próprio Varela, assinando como T. T. Tiofe, mencionou como desacertos da crítica e apontou a mudança de paradigma na poesia de Cabo Verde.
Danny Spínola, pseudônimo de Daniel Euricles Rodrigues Spínola, nascido na ilha de Santiago, assim como José Luiz Tavares, entre outros, é um poeta contemporâneo que dialoga com as obras de Vário e Tiofe. Spínola, já com vasta obra literária e ensaística, debruça-se sobre a sua terra e sobre o homem cabo-verdiano para fazer deles matéria de sua poesia, conforme apresentado no poema “Do Paraíso dos Rabelados de Santiago” (pp. 299-306), inserido na antologia “Destino de Bai”, sob organização de Francisco Fontes.
A respeito dos Rabelados afirma o autor em nota que se trata de comunidades religiosas de ordem romano-cristã “que se afastaram da Igreja Católica em 1942, devido aos novos preceitos da igreja, e foram viver isolados (...) em comunidades dispersas pelo interior da ilha de Santiago. Comungando uma vida natural, ligada à natureza, vivendo em casas de madeira e colmo, não aceitando nada que cheirasse à modernidade, foram perseguidos e presos pela PIDE, acusados de revoltosos políticos que apoiaram Amílcar Cabral”.
Dividido em cinco partes, o poema “Do Paraíso dos Rabelados de Santiago” apresenta um sujeito lírico a narrar a saga épico-telúrica e heroica desses filhos “erigidos pela lei da pedra e do vento”, enfatizando a primeira pessoa do plural quase como anáfora com o uso do verbo “falamos”, ou reforçando a apresentação desse “punhado de gente, crente” com o uso do advérbio “eis”.
Assim o sujeito lírico valoriza “estes filhos do conflito e da fé”, tanto religiosa quanto política, “lutando contra o mundanismo e os mosquitos;/ As pulgas e a modernidade das reluzentes garrafas DDT/ Em uníssono com o estigma do Graal”. Na fé rebelada “querendo reinventar e reviver, como era no princípio,/ Os auspícios do verbo e da maçã,/ Negando a intromissão e a dominação/ Daqueles que dá nação as rédeas detêm”.
A poesia desvela o humanismo comovente em ricas imagens: “Tudo que seja ouro ou moeda sem carne, ao seu desprezo votam/ Enquanto que o prumo de uma choupana/ Ou o coração de um bosque à sua sombra/ São hóstias de sol a sol em suas faces/ São eucaristias de sal nos seus precários pratos”. E tal como Vário/Tiofe, vale-se da enumeração vasta como característica formal: “Eis os filhos dos homens revelados/ Com as suas cabanas e seus funcos de cana e de funchos/ Com os seus corpos tão-só cobertos de algodão e linho/ Com os seus peitos de acordeão e alcatrão/ Ornamentados de madeira e sisal em cruz/ Com os seus pés nus, gretados e hirtos, rescindindo a lavas e cinzas/ Com os seus barros, os seus odres e as suas madeiras utilitárias/ Aguardando impassíveis os derradeiros sóis dos céus”.
Da fé telúrica, “são esses os poucos cuja voz a natureza, de pássaros e fonte, entende”; de caráter libertário e reformulador, “lá vão eles inventando suas mezinhas,/ As suas poções místicas e as suas alquimias”; de sincretismo religioso, “tementes aos Eclesiástes e aos Provérbios”.
Eis os Rabelados do Paraíso de Santiago em bela e justa homenagem de Danny Spínola.