Um espaço dedicado à literatura negro-brasileira, às literaturas africanas de língua portuguesa e demais literaturas negro-diaspóricas
segunda-feira, 2 de setembro de 2013
Vera Duarte e Ungulani Ba Kha Khosa na UFMG
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Vera Duarte
sexta-feira, 30 de agosto de 2013
FLIAFRO Rio de Janeiro 2013
Participarei como coordenador da mesa LITERATURA CABO-VERDIANA com a
presença da escritora Vera Duarte e Dra. Maria Teresa Salgado, como debatedora.
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Eduardo White: universidades, bienais do livro e mercado editorial
Eduardo White, escritor moçambicano, expõe sua indignação acerca de
alguns problemas que envolvem a relação escritores africanos-mercado editorial-bienais
do livro-universidades brasileiras. A postagem foi feita no Facebook e
autorizada para publicação aqui.
Caro Ricardo Riso, já ligeiramente corrigido o meu texto, quanto 'a
questão que me puseste e muito bem:
Não esta' em causa o lançamento dos livros de dois escritores de muito
mérito e da minha geração com quem não tenho divergências nenhumas a não ser as
que sempre tivemos e haveremos de ter e ao longo das nossas vidas e
salutarmente.
Ninguém pode tirar o mérito aos distintos confrades que ai e muito bem
vão representar Moçambique.
O que é facto é que a vossa Bienal do Livro é a mais importante feira
no espaço dos falante e dos "escreventes" da Língua Portuguesa e um
mercado que pode possibilitar a ponte definitiva para o intercambio das
culturas dos nossos Países. Depois dessa seguem-se todas as outras que ocorrem
em Portugal, Angola e Cabo-Verde.
O que me vem indignando desde há algum tempo a esta parte é a
quantidade de mestrados e teses que se tem feito no Brasil sobre a minha obra e
sobre a orientação de duas Professoras Doutoras que ai vão estar como
palestrantes de quem em seu nome, inclusivamente, tenho recebido alguns dos
seus Doutores em Maputo, nunca se terem dignado, jamais, a dirigirem-me uma tese
por correio ou um convite para qualquer dessas sessões ou defesas de teses ou
mestrados e ou organizado contactos com os meritíssimos leitores que ai tenho
no Brasil. Ao longo deste tempo todo e como você poderá pesquisar na Internet
só me tenho surpreendido.
Inclusivamente, bem nos recentes anos ai esteve um delegação com o Luis
Abel dos Santos Cezerilo em que a minha obra era um dos temas em debate e em
Maputo fiquei para trás. E como esse exemplo existem vários, tanto cá, como em
Portugal, como com vários convites que me chegam pelos canais que deveriam
chegar, toda a gente sabe qual, e vão outras pessoas em minha representação.
Mas isso é de outro fórum.
O que eu fico surpreendido é que Alcance pretende internacionalizar um
autor que já está quase meio internacionalizado, passe-se a expressão, e
desconhece tudo sobre o autor que tinha.
Os meus livros, tanto da Texto Editora como da Alcance Editores, são
todos impressos em Portugal e não se justifica que não tenha eu um único livro
actual com prémios ganhos, este ano, aqui e lá, no mercado Português. E nem
hajam, igualmente, os que editei em Portugal no mercado Português. E se os há
alguns sou eu que os levo e os deixo porque faço eu o trabalho que as editoras
deveriam fazer. Comprova a MIL, Movimento Internacional da Língua Portuguesa
com a doação que fiz dos Nudos por achar aquele Movimento com pernas para
andar.
Se esse acontecimento que agora decorre no Brasil e que aplaudo
vivamente tem em vista uma maior participação dos autores africanos e
afro-brasileiros na Bienal do Livro, como se justifica que os meus livros, faz
anos, nunca tenham surgido nas feiras dos livros, como aconteceu bem há' pouco
tempo em Lisboa? E no Brasil?
Há qualquer coisa que está errado.
Da Prof. Dra. Carmen Tindo' Secco e outras, bem antes de eu seguir para
Portugal para receber o Prémio Gloria de Sant'Anna de que existem duvidas
quanto 'a legitimidade das razões do mesmo me ter sido atribuído, dei de caras
com um dos seus orientandos na Livraria Conhecimento, em Maputo, que procurava
pelo meu ultimo livro para levar para o Brasil para um trabalho na Universidade
onde ela lecciona.
Pergunto:
Que papel tem então África e os seus autores de Língua Portuguesa
nessas reuniões aonde a gente não participa mas estão lá eles?
E a CPLP, o que faz?
Desculpa este atabalhoado todo, mas estou cansado de ver nitidamente o
que se passa e de estar calado e por isso o "mito" - e todas as
catalogações - de que o Eduardo White temperamentalmente é um autor irreverente
e uma serie de bujardas a meu respeito.
Eu é que represento o meu trabalho e se o meu me confere o direito de o
representar, então sou eu e não eles.
E não me vou calar perante o que se esta' a passar comigo vivo porque
depois de morto a única herança e a melhor memoria de mim que deixarei para os
meus filhos e netos que já' os tenho, e' apenas esta loucura minha de me ter
casado com a escrita."
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sexta-feira, 16 de agosto de 2013
Ogum's Toques dos escritores: Éle Semog e José Carlos Limeira
#OgumsToques : Ogum's Toques dos escritores Éle Semog e José Carlos Limeira.
"A ação dos literatos foi fundamental para a rearticulação dos movimentos sociais negros durante a década de 1970. Autoras e autores reuniam-se em coletivos, trocavam informações em diferentes cidades, mimeografavam seus textos e distribuíam em bailes black music, por exemplo, e outros espaços negros.
Rompia-se a asfixia da ditadura militar com seus poemas e contos que denunciavam de forma explícita a farsa da democracia racial, assim como a discriminação a negras e negros como integrante do cotidiano brasileiro. Como parte histórica incontornável desse processo encontravam-se Éle Semog e José Carlos Limeira. Com atuações marcantes nos movimentos negros, desde cedo desenvolveram uma escrita negra, até que um vai ao encontro “daquele contínuo muito estranho que não saía da biblioteca” e começavam ali uma das mais representativas parcerias da literatura negro-brasileira. A união rendeu dois livros: “O Arco-Íris Negro”, de 1979, e “Atabaques” em 1983.
Para celebrar os 30 anos de “Atabaques”, conhecer como foi aquele encontro, ser escritor negro em plena ditadura e como manter a resistência literária no decorrer de tanto tempo, Ogum’s Toques do Escritor convida o público para reviver essa parceria em um bate-papo com Éle Semog e José Carlos Limeira. Uma excelente oportunidade para conhecermos as trajetórias desses dois autores e um pouco da história da literatura negro-brasileira contemporânea, que passa pelas suas escritas imprescindíveis, plenas de inquietação, conscientização e inquestionável apuro estético."
-Ricardo Riso-
"A ação dos literatos foi fundamental para a rearticulação dos movimentos sociais negros durante a década de 1970. Autoras e autores reuniam-se em coletivos, trocavam informações em diferentes cidades, mimeografavam seus textos e distribuíam em bailes black music, por exemplo, e outros espaços negros.
Rompia-se a asfixia da ditadura militar com seus poemas e contos que denunciavam de forma explícita a farsa da democracia racial, assim como a discriminação a negras e negros como integrante do cotidiano brasileiro. Como parte histórica incontornável desse processo encontravam-se Éle Semog e José Carlos Limeira. Com atuações marcantes nos movimentos negros, desde cedo desenvolveram uma escrita negra, até que um vai ao encontro “daquele contínuo muito estranho que não saía da biblioteca” e começavam ali uma das mais representativas parcerias da literatura negro-brasileira. A união rendeu dois livros: “O Arco-Íris Negro”, de 1979, e “Atabaques” em 1983.
Para celebrar os 30 anos de “Atabaques”, conhecer como foi aquele encontro, ser escritor negro em plena ditadura e como manter a resistência literária no decorrer de tanto tempo, Ogum’s Toques do Escritor convida o público para reviver essa parceria em um bate-papo com Éle Semog e José Carlos Limeira. Uma excelente oportunidade para conhecermos as trajetórias desses dois autores e um pouco da história da literatura negro-brasileira contemporânea, que passa pelas suas escritas imprescindíveis, plenas de inquietação, conscientização e inquestionável apuro estético."
-Ricardo Riso-
A mediação ficará a cargo de Ricardo Riso.
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quarta-feira, 31 de julho de 2013
Ogum's Toques da Escritora: CIDINHA DA SILVA
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terça-feira, 30 de julho de 2013
Eneida Nelly e o cânone
Eneida Nelly e o cânone
Ricardo Riso
Resenha publicada no semanário cabo-verdiano A Nação, n. 308, 25 de julho de 2013, p. A34.
O estabelecimento do cânone fala muito
mais pelas ausências e silenciamentos impostos do que por aqueles contemplados
para constituí-lo. Sua rigidez está conotada aos espaços de poder em disputa. Assim,
é fundamental questionar a homogeneização do cânone, “ignorar essa abertura é
reforçar o papel da literatura como mecanismo de distinção e hierarquização
social, deixando de lado as suas potencialidades como discurso desestabilizador
e contraditório”, afirma a ensaísta brasileira Regina Dalcastagnè no livro “Literatura
Brasileira Contemporânea: um território contestado” (2012, p. 12).
Nas literaturas africanas de língua
portuguesa, a ensaísta brasileira Laura Cavalcante Padilha, no artigo “A
diferença interroga o cânone”, chama atenção de obras que contribuíram para a
constituição deste cânone, são as antologias “No reino de Caliban” (1975), de
Manuel Ferreira, e “Entrevistas com Escritores” (1991), de Michel Laban. Ela
afirma que:
“Lembrando o fato de que o acervo
crítico dessas literaturas se ter forjado inicialmente fora da África – na
Europa e nas Américas, com Portugal e Brasil à frente –, começo a questionar
até que ponto, o cânone “consagrado” por outras vozes que não as africanas,
submeteu-se aos mesmos mecanismos de dominação e poder que sempre tiveram como
meta elidir as diferenças, sobretudo se o objeto recortado são questões como de
gênero e raça” (2002, p. 164).
Ou seja, na obra de Ferreira temos 36
escritores e, dentre eles, apenas uma mulher (Yolanda Morazzo), omitindo-se a
questão de raça. Quase 20 anos depois, a seleção de Laban inclui 25 escritores,
entre eles, apenas uma mulher, Orlanda Amarilis. Como já afirmamos em outros
momentos, o negro e a mulher estão fora do cânone literário cabo-verdiano, por
isso, a pertinência de interrogar o cânone e a pergunta que incomoda a quem
interessa a manutenção do status quo: onde estão aqueles que sempre foram
silenciados e excluídos?
A intelectual indiana Gayatri
Chakravorty Spivak é uma das mais lúcidas vozes no combate à situação da
mulher, voz subalternizada e excluída do jogo do poder. Para Spivak (2010), essa
condição subalterna forçada mantém o silenciamento de sua voz e ainda assim
quando consegue se pronunciar não é escutada. A pergunta de Spivak: pode o
subalterno falar? O sujeito subalterno feminino não é sujeito da sua história,
não tem voz e não pode falar, falam por ele, o que se configura uma violência
epistêmica.
E perguntamos: se a mulher não pode
falar, será que a mulher negra pode falar?
Diante da heteronormatividade presente
nas sociedades patriarcais, logo brancocêntricas, não é de se estranhar a
ausência de uma escritora negra no cânone literário cabo-verdiano. Eneida Nelly
desafia esse cânone e os seus pesquisadores quando lança o seu único e
derradeiro livro de poesia, “Sukutam” (Escuta-me), em 2011. Primeiro pela
escrita em língua materna cabo-verdiana, que já conta com uma vasta produção
que é ignorada pelos especialistas da literatura de Cabo Verde – os brasileiros
que o digam, restritos à produção em língua portuguesa. Neocolonialismo? Por
que não? Segundo, nos 50 poemas do livro, Nelly desvela a mundivivência de uma
mulher negra, pobre, da zona rural da Ilha de Santiago. Estão ali a denúncia
social e a sensibilidade feminina ao retratar o cotidiano de dificuldades e de
resistência das manifestações culturais negras das camadas marginalizadas.
O papel pioneiro exercido por Eneida
Nelly ao trazer o gênero, a raça e a autoria feminina em crioulo, demonstra a
necessidade de reavaliação do cânone e da postura do pesquisador brasileiro de
literatura cabo-verdiana, restrito à produção em língua portuguesa. Diante das
adversidades da vida e do meio literário, seria surpresa o seu suicídio meses após
a publicação do livro? Tal abertura pode oferecer outras abordagens para a
literatura de Cabo Verde, contribuindo para sua diversidade. A poesia de Eneida
Nelly escancara o desejo de ser ouvida. Mas, deixaremos o subalterno falar?
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Abelardo Rodrigues – Memória da noite revisitada & outros poemas (resenha)
Abelardo
Rodrigues – Memória da noite revisitada & outros poemas
Nós
somos daqueles que se recusam a esquecer.
Nós
somos daqueles que recusam a amnésia mesmo que seja como uma saída.
(Aimé
Césaire)
Para as comunidades negras na diáspora
africana, a memória é parte essencial da constituição e da afirmação
identitária em sociedades as quais a integração de negras e negros até hoje
passa por turbulências. Ainda que o período de discriminação explícita e de
base jurídica já tenha passado, caso dos EUA, neste e nos demais países do
continente americano, reivindicar uma identidade negra, exaltar seus feitos e
propor a revisão crítica da história ou pelo simples reconhecimento da
contribuição negra para a formação das nações são bandeiras de negociações árduas
e exaustivas na disputa pela hegemonia. Por isso, a recorrência à memória é uma
maneira de combater tudo aquilo que é imposto à população negra que, através da
transmissão oral de diferentes agentes, distantes do academicismo de origem
eurocêntrica, transmitem seus ensinamentos e mantêm vivos os percursos da
história de negras e negros em condições adversas nas sociedades do Novo Mundo.
O excerto de Aimé Césaire como epígrafe
assinala a resistência dos negros americanos, da denúncia de um
passado/presente de opressão aos quais os movimentos sociais negros não deixam
diluir-se no tempo. Apesar das (nossas) vozes não alcançarem o volume auditivo
das instâncias do poder, o balbucio de um objeto que insiste em ser sujeito
está sempre presente, marcando o lugar da sua fala que subverte a ordem das
vozes ditas legitimadas. O ensaísta uruguaio utiliza a metáfora dos planetas
sem boca, de Lacan, para ilustrar essa condição de repressão (ACHUGAR, 2006, p.
20), porém, o ato de balbuciar demonstra a insubmissão àquilo que querem que o
Outro seja, que “balbuciar não é uma carência, mas uma afirmação” (idem, ibidem,
p. 24). A audição desse balbucio demonstra que os “espaços incertos” precisam
ser repensados, que outras versões da História necessitam vir à tona. Insere-se
aqui a importância da estreia literária de Abelardo Rodrigues com “Memória da
noite” e que completa trinta e cinco anos celebrados com a reedição de “Memória
da noite revisitada e outros poemas”, uma iniciativa que contou com a
participação de Marciano Ventura e o Ciclo Contínuo.
Originalmente lançado em 1978,
arrisco-me a dizer que “Memória da noite” pode ser enquadrado como integrante
de uma literatura de fundação, uma vez que marca a presença explícita de um
sujeito lírico negro dirigindo-se a um leitor negro com a preocupação de
conscientizá-lo e participá-lo das circunstâncias específicas das relações
étnico-raciais na sociedade brasileira. Trata-se de um livro-denúncia, da voz
sufocada pela escravidão, posterior democracia racial e de uma cruel ditadura
que considerava apontar o racismo no Brasil como passível de punição de acordo
com a Lei de Segurança Nacional (artigo 33º do Decreto-Lei nº 510, de
20/03/1969). Entretanto, o discurso homogêneo da ditadura, após longo tempo,
começa a sofrer com os questionamentos e a lenta rearticulação dos movimentos
sociais, dentre eles, o movimento social negro, que passa por uma onda de novas
instituições e grupos desabrochando no decorrer dos anos 1970 em várias
capitais do país, tais como Grupo Palmares (Porto Alegre, 1971), CECAN (Centro
de Cultura e Arte Negra, São Paulo, 1972), SINBA (Sociedade de Intercâmbio
Brasil-África, Rio de Janeiro, 1974), IPCN (Instituto de Pesquisas das Culturas
Negras, Rio de Janeiro, 1975), o bloco Ilê Ayê (Salvador, 1976). Além de
movimentos que tinham a literatura como grande importância, casos dos coletivos
“Garra Suburbana” que publicou a antologia “Incidente Normal” (RJ) e GENS
(Grupo de Escritores Negros de Salvador). Também destaque para o jornal “Árvore
da Palavra” e revista “Tição”, além de antologias como “Coletânea de Poesia
Negra”, organizada pelo Centro de Estudos Culturais Afro-brasileiro Zumbi em
1976 e “Negrice I” no ano de 1977, assim como as lutas pelos direitos civis nos
EUA e a descolonização dos países africanos, em especial os de língua
portuguesa (PEREIRA, pp. 44-49; CUTI, pp. 126-127). Para além de livros de
diferentes representantes da literatura negro-brasileira e seus cuidados com a
linguagem, demonstrando a pluralidade da literatura negro-brasileira, casos de
Adão Ventura, Oliveira Silveira, José Carlos Limeira, além de nomes mais
rodados como Carlos de Assumpção, Oswaldo de Camargo e Eduardo de Oliveira.
Todas essas manifestações estimularam os contatos entre os partícipes do
movimento negro.
Porém, o ano de 1978 é especial para a
literatura negro-brasileira em razão dos lançamentos dos livros do já citado
Abelardo Rodrigues, de “Poemas da Carapinha”, primeiro livro de poesia de Luiz
Silva, o Cuti, e do primeiro volume que se tornaria a série “Cadernos Negros”.
Também nesse ano começam as atividades do MNUCDR (Movimento Negro Unificado
Contra a Discriminação Racial) em São Paulo e a célebre manifestação contra o
racismo nas escadarias do Teatro Municipal, no mês de julho. Adequados à
urgência de seu tempo, os escritores que participam desse período possuem uma
postura incisiva. O prefácio de estreia de “Cadernos Negros” coloca-nos a par
da intensidade da época:
A África está se libertando! já
dizia Bélsiva, um dos nossos velhos poetas. E nós brasileiros de origem
africana, como estamos?
Estaremos no limiar de um novo
tempo. Tempo de África vida nova, mais justa e mais livre e, inspirados por
ela, renascemos arrancando as máscaras brancas, pondo fim à imitação.
Descobrimos a lavagem cerebral que nos poluía e estamos assumindo nossa negrura
bela e forte. Estamos limpando nosso espírito das idéias que nos enfraquecem e
que só querem nos dominar.
‘Cadernos Negros’ marca passos
decisivos para nossa valorização e resulta de nossa vigilância contra as idéias
que nos confundem, nos enfraquecem e nos sufocam. As diferenças de estilo,
concepções de literatura, forma, nada disso pode mais ser muro erguido entre
aqueles que encontram na poesia um meio de expressão negra. Aqui se trata da
legítima defesa dos valores do povo negro. A poesia como verdade, testemunha do
nosso tempo. (ALVES, 2012, p. 222)
Como dito anteriormente, a efervescência
do continente africano é mais um estímulo para os negros daqui fortalecerem-se
em grupos, propor discussões e partir para ações contra o sistema racista
brasileiro no nonagésimo aniversário da abolição da escravatura. Olhar para a
África independente é pensar a condição do negro no Brasil, a sua identidade, a
sua memória e o que diz a história oficial. Problematizar essas questões e
tensioná-las diante do mito da democracia racial é um dos objetivos imediatos
dos escritores negros. Por isso, o sujeito lírico de Abelardo Rodrigues em
“memória da noite...” é o “timoneiro de um novo tempo” (RODRIGUES, 2012, p.
20), condutor de vozes até então silenciadas. A preocupação maior dos poemas
que formam o corpo deste livro é com a construção identitária do negro, o
revisitar de sua memória trazendo o tensionamento dos apagamentos da história,
uma vez que “a memória é um elemento constituinte do sentimento de identidade”
(POLLAK, 1992, p. 204), trazê-la à tona é entrar num território de disputas
intensas, já que “a memória e a identidade são valores disputados em conflitos
sociais e intergrupais, e particularmente em conflitos que opõem grupos
políticos diversos” (idem, ibidem, p. 205). Dessa maneira será recorrente a
presença do vocábulo “grito” repetido à exaustão em seus poemas, como forma de
se fazer ouvir, pois estamos em um quadro de ditadura e de uma identidade negro-brasileira
massacrada pelos séculos de escravidão e pela condição subalterna permanente
que se encontram os negros no pós-abolição: “Gestos/ por que não contá-los/ gritos/
por que não libertá-los,/ irmão?” (RODRIGUES, 2013, p. 19). Rompendo a barreira
da asfixia o sujeito lírico enfatiza: “quero o jorro de minha garganta/ limpa
dessas teias seculares// Jugulares veias gritantes/ devem ser meus versos” (idem,
ibidem, p. 18).
O leitor está diante de uma poesia
comprometida em denunciar os séculos de opressão, o poeta realiza com a versificação
livre, muitas vezes em estrofe única, a melhor forma para atingir o seu leitor
negro e atentá-lo para a ruptura do tempo presente: “basta que façamos do
sopro/ um vendaval” (idem, ibidem, p. 22). O conteúdo prevalece em relação à
forma, é a urgência da palavra poética levando o dizer da Noite, pois “o
silêncio do poeta/ é o trovão das palavras silenciosas/ O frio do poeta/ é o
calor do conteúdo/ é a palavra ‘negro’ posta/ em pratos limpos” (idem, ibidem, p.
39). A afirmação identitária combate “as senzalas-prisões/ que permanecem/
corroendo nossas mentes” (idem, ibidem, p.42), porém o sujeito lírico “com seu
grito acordou/ nossas mentes adormecidas/ lançando palavras de escárnio/ aos
velhos livros/ nos quais aprendemos/ o beabá da servidão” (idem, ibidem, p.
61).
Somente com a emergência de novos
agentes sociais que o discurso hegemônico é desestabilizado, reescrever a
narrativa nacional passa por uma árdua negociação com diversos setores da
sociedade, principalmente os intelectuais e os políticos, implica
uma batalha pelo discurso e pela
representação. Implica, de fato, uma batalha por ocupar a posição do que
tem/possui a história, do que sabe e do que escolhe. (...) Implica o desafio de
abandonar as regras do jogo vigentes que eram vistas, de modo incontestável,
até bem pouco tempo. Implica um desafio e uma utopia. A utopia de tentar a
transformação do autoritarismo próprio do discurso nacional homogeneizador. O
desafio de construir os múltiplos cenários da memória nacional como um lugar
(...) onde diferentes concepções da nação disputam e negociam entre si
(ACHUGAR, 2006, p. 163)
O livro “memória da noite...” de
Abelardo Rodrigues está inserido nesse processo de negociação, contribui para
tentar resgatar a memória coletiva negra silenciada na longa noite de opressão
e atua contra o esquecimento imposto pela ordem racista brasileira. Uma poesia
marcada pelo enfrentamento direto da branquitude que a tudo domina, contra o
embranquecimento dos negros, que olha para o passado de matriz africana como
fortalecimento do seu capital simbólico. E aqui cabe um interesse especial de
minha parte que ora propõe este visitar pelo livro de Rodrigues, que é a
aproximação do escritor negro-brasileiro com os autores dos países africanos de
língua portuguesa.
Notória a influência do modernismo
brasileiro para a conscientização nacional de angolanos, moçambicanos,
cabo-verdianos etc. propalada pelos escritores africanos expoentes das décadas
de 1930 a 1950 como fundamental para a construção da identidade nacional e de
uma postura de crítica contrária ao colonialismo português. Exemplos explícitos
são os de Agostinho Neto (Angola) e José Craveirinha (Moçambique). Esse período
é bastante celebrado pelos estudiosos de literaturas africanas de língua
portuguesa aqui no Brasil.
Entretanto, estranho o fato de um
segundo momento de suma importância para essa relação entre a literatura
negro-brasileira e as literaturas africanas de língua portuguesa que é o final
dos anos 1970. O excerto do prefácio de Cadernos Negros supracitado evidencia o
quanto a libertação dos países africanos de língua portuguesa atualizam o
questionamento da condição do negro no Brasil: ele está liberto? Ou “E nós
brasileiros de origem africana, como estamos?” A confluência tempo e espaço é
de essencial importância para as comunidades negras e mostra uma característica
da diáspora africana: que é a relação com outros negros de diferentes países em
diversos lugares do mundo. O processo de independência dos países africanos, de
certa forma, torna-se mais um motivo para que os negros brasileiros olhem para
a sua cidadania na sociedade e partam para a denúncia do racismo e
reivindicação para solução de problemas sociais que afligem diretamente a
população negra.
Nessa perspectiva, não causa
estranhamento a influência de Agostinho Neto na poética de Abelardo Rodrigues
que até dedica um poema ao primeiro presidente de Angola intitulado “Sentinela”,
e destacado por Hélio Pinto Ferreira na primeira edição e Oswaldo de Camargo na
atual. Tal como a poesia de Neto, Rodrigues propõe o resgate das heranças
culturais negras, é contrário à assimilação imposta pelo colonizador branco,
dirige-se a um eu coletivo que se quer insubmisso em poéticas de devir, de
poetas que compreendem a urgência do tempo que lhes coube viver: “destruindo
coloniais ideias (...) alimentando a hora e o dia/ em que teremos nossa
humanidade/ resgatada” (RODRIGUES, 2013, p. 48), como em Rodrigues; enquanto em
Neto, “Eu já não espero/ sou aquele por quem se espera/ (...) teus filhos/ com
medo de te chamarmos Mãe// (...) Amanhã/ entoaremos hinos à liberdade/ quando
comemorarmos/ a data da abolição desta escravatura// Nós vamos em busca de luz
(...)” (NETO, 1986, p. 13-14). Também podemos falar de imagens dissonantes,
raras neste livro de Rodrigues em razão da proposta incisiva e de engajamento
de combate ao racismo, mas que o aproximam de José Craveirinha. Rodrigues em
“Moendas”: “Eles transitam sonhos parasitas/ são corpos mágicos/ vivendo o chão
espinhoso anestesiador” (RODRIGUES, 2013, p. 35) ou no poema “Futuro”:
“Abraçam-se/ beijam-se paladares de um novo dia/ quem são estes homens que
chocam ovos verdes?/ quem são estes homens negros e mulatos/ varando a lassidão
vítrea da paz?” (idem, ibidem, p. 23) desvelam a angústia de defrontar-se com o
racismo brasileiro e mostra a sua mensagem corrosiva, assim como o moçambicano
José Craveirinha que expande a semântica ao criar imagens surreais: “Noites
enjoadas de um milhão de angústias/ racham-me as unhas na lascívia das macias/ paredes
de cimento (mentira não são macias) caiado/ e no amoroso cárcere ensurdecedor
de silêncios (...)” (CRAVEIRINHA, 1980, p. 15). Ou seja, fica evidenciada a
aproximação desse diálogo dos negros brasileiros com as literaturas africanas
serve como fator de coragem para a afirmação identitária negra brasileira, que
teve a oportunidade de ler obras de Agostinho Neto, como “Poemas de Angola”,
aqui publicado pela Codecri, e antologias organizadas por Mário Pinto de
Andrade, tais como “Na noite grávida dos Punhais” e “O canto armado”, todos
títulos dos anos 1970. Agora, por que esse diálogo encontrado na poesia de
Abelardo Rodrigues, em “Cadernos Negros” e em tantos outros escritores dos anos
1970/80 não serve como estímulo para estudos comparativos entre essas
literaturas? Até quando ficaremos presos ao referencial modernista para as
literaturas africanas? Não seria caminho natural a origem africana de nossos
escritores negros para buscar vestígios, investigar semelhanças no texto
literário?
Para finalizar, destaco a importância da
retomada da obra de um autor fundamental para a literatura negro-brasileira
contemporânea, que é Abelardo Rodrigues, dando oportunidade às novas gerações
de desfrutar de um momento crucial da poética negro-brasileira e de como a
postura combativa deste autor ainda inspira muitos das autoras negras e autores
negros que sentem a obrigação do fazer do texto literário como espaço
ininterrupto de denúncia do racismo sistêmico brasileiro. “Memória da noite
revisitada & outros poemas” é um livro de inquietação, de um poeta
angustiado e comprometido com a população negra que utiliza a literatura como
arma de combate para uma sociedade justa e igualitária. Após 35 anos, ter a
oportunidade de acesso a uma obra completa desse marcante período do movimento
literário negro ainda é raro, mas que faço votos para que outras obras sejam
reeditadas e outras editoras demonstrem interesse por esse importante trabalho
de memória da literatura negro-brasileira. Por enquanto, meus parabéns para
Marciano Ventura e o Ciclo Contínuo, e principalmente para Oswaldo de Camargo e
Abelardo Rodrigues, dois nomes essenciais dessa trajetória.
Bibliografia:
ACHUGAR, Hugo. Planetas sem boca: escritos efêmeros
sobre Arte, Cultura e Literatura. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2006.
ALVES, Miriam. Cadernos Negros
(número 1): estado de alerta no fogo cruzado. In: FIGUEIREDO, Maria do Carmo
Lanna; FONSECA, Maria Nazareth Soares (Orgs.). Poéticas afro-brasileiras. 2ª ed. Belo Horizonte: Mazza Edições;
Editora PUC Minas, 2012. pp. 221-240.
CRAVEIRINHA, José. Cela 1. Lisboa: Edições 70, 1980.
CUTI. Literatura negro-brasileira. São Paulo: Selo Negro, 2010.
NETO, Agostinho. Sagrada Esperança. Luanda: União dos
Escritores Angolanos, 1986.
PEREIRA, Amauri Mendes. Trajetórias e perspectivas do Movimento
Negro Brasileiro. Belo Horizonte: Nandyala, 2008.
POLLAK, Michael. Estudos históricos. Rio de Janeiro, vol.
5, n. 10, 1992, p. 200-212.
RODRIGUES, Abelardo. Memória da noite revisitada & outros
poemas. 2ª ed. São Paulo: Edição do Autor, 2013.
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Ricardo Riso
terça-feira, 2 de julho de 2013
Namíbia, não! (nova temporada RJ)
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domingo, 30 de junho de 2013
António Pedro (1909-1966) (A Nação)
António Pedro (1909-1966)
Ricardo Riso
Resenha publicada no semanário cabo-verdiano A Nação, n. 302.
António Pedro da Costa nasceu na cidade da Praia, Ilha de Santiago, a
9/12/1909, e ainda na tenra idade foi para Portugal. Filho de pai português e
mãe inglesa, estudou na Faculdade de Letras de Lisboa e na Sorbonne. Foi
locutor da BBC. Atuou como poeta, artista plástico e teatro. No meio literário
português ficou conhecido pela forte influência do surrealismo em suas obras,
assim como entre os surrealistas ingleses. Veio a falecer na cidade do Minho
(Portugal) em 17/8/1966.
António Pedro foi fundamental para a historiografia literária
cabo-verdiana de língua portuguesa em razão de livro único de poesia, lançado
no arquipélago em 1929, intitulado “Diário”. Prestes a completar vinte anos de
idade, o poeta retornou a sua terra naquele ano e relacionou-se com pessoas
como Jorge Barbosa. Essa convivência fecunda estimulou Barbosa a alçar outros
voos literários para além dos anteriormente praticados nas ilhas, casos dos
antecessores António Januário Leite, Pedro Cardoso e José Lopes.
A poética constante em “Diário” revelou um autor vinculado às tendências
modernistas em voga na Europa. A versificação livre e o seu olhar distanciado
para o cotidiano das ilhas foi carregado de ironia, comum a um jovem branco de
formação europeia, que procurou se envolver com o meio novo ao qual era
(re)apresentado. Destacada sua irreverência quando o sujeito lírico deparou-se
com os ritmos locais: “Vi um batuque/ baque,/ bacanal!/ E fiquei de olhos
cansados/ – pobres selvagens –/ a ver horas e horas/ rolar a mesma dança/
doida...”, ou quando referiu-se à morna: “E a morna/ morna,/ bole/ mole,/ já
velha, sem ser antiga,/ num compasso de cantiga/ sexual.// Reminiscência dum
fado/ que, dançado/ num maxixe,/ tem a tristeza postiça/ dum cansaço.” Com esse
olhar diante do novo que António Pedro transformou esteticamente suas
impressões, sem medos ou fingimentos.
Seu olhar de estrangeiro, porém, não ficou imune ao drama da seca: “Ai
árvores ali/ e duras!,... ai!:/ e aqui/ terra queimada/ só.// Bé!,/ o pó/ da
ventania/ sufoca!/... Lá na baía/ ou doca/ ou que é,/ lá do vapor/ parecia/
melhor,/ embora fosse careca/ a terra seca,/ e o sol queimasse/ e adormentasse/
já.// Cá/ há mais do que calor,/ há dor/do sol!”. Também atento às mudanças da
paisagem com a chegada da chuva: “Chuva!,/ chuva que bonda!,/ chuva que tomba/
- bumba!...// Cheiro a chuva que embriaga.../ Chuva que alaga,/ e estraga o mal
do sol.// Esverdinharam-se os montes/ - um poema! -/ ... foi em dois dias/ um
poema...// Eram castanhos os montes/ e as árvores esgalhadas/ e atormentadas,/
e nuas...// Esverdinharam-se as árvores/ e as bordaduras/ das ruas”. Assim como
a observação irônica das relações raciais no arquipélago: “Os brancos daqui/
são mais modestos que os pretos:/ os pretos chamam-se pretos,/ os brancos
chamam-lhes gente daqui,/ e aqui.../ há brancos e pretos...”.
O livro “Diário”, de António Pedro, consagrou-o como precursor do
modernismo na literatura cabo-verdiana, a percepção, ainda que distanciada para
os aspectos sociais e culturais do arquipélago, trouxe
uma nova guinada e serviu como motivação para os jovens escritores que buscavam
romper com as formas ainda submissas e vinculadas ao colonizador português,
fato que se confirmaria com a revista “Claridade” e poetas como Jorge Barbosa e
Osvaldo Alcântara. Por isso, destacamos a relevância de António Pedro para o
desenvolvimento da mais que secular literatura cabo-verdiana de língua
portuguesa.
*
Destacamos a forte presença de Cabo Verde no “VII
Semana da África - Identidades africanas na produção audiovisual em África e na
sua diáspora”, ocorrido em Salvador (Bahia/Brasil) de 20 a 25 de maio. A
literatura fez-se presente com os escritores Filinto Elísio e Joaquim Arena,
também estavam os colaboradores do “A Nação”, Márcia Souto (Uni-CV) e Ricardo
Riso. Souto e Elísio lançaram seus livros “Fenestra” e “Me_xendo no baú”,
respectivamente, durante o evento. Além da presença do Dr. Amarino Queiroz
(UFRN), do Dr. Claudio Alves Furtado (Uni-CV), de António Tavares (coreógrafo)
e dos cineastas Leão Lopes, Pedro Marcelino e César Schofield.
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Aimé Césaire e a Negritude (A Nação)
Aimé
Césaire e a Negritude
Ricardo Riso
Resenha publicada no semanário cabo-verdiano A
Nação, n. 300, de 30 de maio de 2013, p. A28.
A
Negritude surge como movimento político e cultural a partir da reunião de
intelectuais negros africanos e da diáspora em Paris, França, nos anos 1930.
Esse contato entre negros de diferentes localidades mostra pontos comuns nas
condições adversas que encontram tanto na Europa quanto nos seus países, muitos
ainda sob o colonialismo, o que rapidamente transforma-se na tomada de
consciência racial.
No
seu momento inicial, os partícipes da Negritude inspiram-se nos ideais
políticos do marxismo e na estética inovadora do surrealismo a favor da
denúncia da opressão sofrida pelos negros no mundo. Várias publicações
sedimentam e revelam a efervescência da época, tais como Légitime Défense em 1932; o jornal L’Etudiant Noir com a participação de Aimé Césaire (Martinica),
Léon G. Damas (Guiana), Leopold S. Senghor (Senegal) são os principais nomes da
Negritude; e da Anthologie de la nouvelle
poésie nègre et malgache de langue française (1948), organizada por
Senghor.
A
Negritude escora-se na afirmação identitária negra, atenção para a situação
desigual do negro na diáspora e luta contra o colonialismo, e o ataque de
maneira frontal ao humanismo ocidental.
Aimé
Césaire (1913-2008) utiliza a expressão negritude pela primeira vez, produz uma
série de obras literárias, atua na política e torna-se voz explícita contra o
colonialismo em África, apesar de não ter a mesma postura em relação ao seu
país, a Martinica, talvez a maior contradição de seu pensamento. Para ele, a
Negritude é o simples reconhecimento de ser negro, a aceitação de seu destino,
de sua história, de sua cultura, que depois definiria em identidade (assumir
plenamente a condição de negro), fidelidade (a ligação com a terra-mãe) e
solidariedade (sentimento que liga todos os negros do mundo, a ajudá-los e a
preservar uma identidade comum).
Césaire
marca época quando menciona as contradições do marxismo e dos defensores da
luta de classes. Tal fato evidencia-se na sua ruptura com o Partido Comunista
Francês, na célebre Carta a Maurice
Thorez, de 1956, em que afirma:
Não
é a vontade de lutar a sós ou de desdenhar qualquer aliança. É a vontade de não
confundir aliança com subordinação. Solidariedade com renúncia. (...) O que eu
quero é que o marxismo e o comunismo sejam colocados ao serviço dos povos
negros, e não os povos negros ao serviço do marxismo e do comunismo.
No
ano anterior, Césaire escandaliza o Ocidente com o seu virulento Discurso sobre o Colonialismo com
críticas vorazes à civilização europeia:
que
não perdoa a Hitler não é o crime em
si, o crime contra o homem, não é a humilhação do homem em si, é o crime
contra o homem branco, a humilhação do homem branco e o ter aplicado à Europa
processos colonialistas a que até aqui só os árabes da Argélia, os ‘coolies’ da
Índia e os negros de África estavam subordinados.
Em
1987, Miami/EUA, após longo silêncio, Césaire reafirma o caráter humanista da
Negritude e o seu compromisso de revelar as rasuras da história, a validade de
seus ideais:
Nós
somos daqueles que se recusam a esquecer.
Nós
somos daqueles que recusam a amnésia mesmo que seja como uma saída.
Ao
longo de sua vida, Césaire demonstra a necessidade de um humanismo que englobe
as diferenças, não os expostos pela Declaração Universal dos Direitos Humanos,
de 1948, aprovada pela Assembleia Geral das Nações Unidas, mas que mantém o
colonialismo ao redor do mundo.
Na
sua vertente literária, vários de seus ideais estão explicitados no livro de
poesia Cahier d’um retour au pays natal,
publicado em 1939 e com versão definitiva em 1956. Neste enorme poema de forte
presença surrealista, Césaire propõe um movimento de exaltação da raça negra, o
orgulho apresenta-se a partir da subversão das conquistas celebradas pelos
modelos brancocêntricos:
Mas
que estranho orgulho de repente me ilumina?/ (...)Os que não inventaram nem a
pólvora nem a bússola/ os que nunca souberam domar o vapor nem a eletricidade/
os que não exploraram nem os mares nem o céu/ mas aqueles sem os quais a terra
seria a terra/ (...) a terra/ silo onde se preserva e amadurece o que a terra
tem de mais terra/ minha negritude não é uma pedra, sua surdez lançada contra o
clamor do dia/ minha negritude não é uma mancha de água morta sobre o olho
morto da terra/ minha negritude não é uma torre nem uma catedral
Com
Aimé Césaire a Negritude ganha a sua expressão mais politizada e radical, a
defesa dos negros e de outro humanismo para todos os povos. Ideologia
revolucionária, a Negritude passa a ser um referencial para os povos oprimidos
do mundo, influenciando, inclusive, os escritores africanos de língua
portuguesa que moram em Portugal e lançam a antologia Poesia negra de expressão portuguesa (1953), organizada por
Francisco José Tenreiro e Mário Pinto de Andrade.
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