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segunda-feira, 23 de junho de 2008

Cinema: Veredas – Os filmes a partir de Guimarães Rosa

MOSTRA CINEMATOGRÁFICA INSPIRADA NA OBRA DE GUIMARÃES ROSA
http://www1.caixa.gov.br/imprensa/imprensa_release.asp?codigo=6608632&tipo_noticia=0

Brasilia, 19 de Junho de 2008
Cinema: Veredas – Os filmes a partir de Guimarães Rosa

Um dos mais inventivos escritores do século XX, João Guimarães Rosa completaria cem anos em 2008. Para homenagear este brilhante mineiro de Cordisburgo, a mostra Cinema: Veredas – os filmes a partir de Guimarães Rosa apresenta 17 filmes (11 longas-metragens e seis curtas), mais três programas de TV que serão exibidos de 24 de junho a 6 de julho, nos Cinemas 1 e 2 da Caixa Cultural Rio.

O público vai conferir importantes obras de consagrados diretores brasileiros: de Nelson Pereira dos Santos a Glauber Rocha, passando por Sandra Kogut e Caetano Veloso, são filmes díspares entre si, mas que apresentam versões cinematográficas para o fantástico mundo de Rosa.

Guimarães Rosa é o mais aclamado autor brasileiro da geração modernista de 1945. Sua escrita absolutamente inventiva rompe com os ditames formais da norma culta, em sintaxe, semântica, ortografia, fonética, etc. A todo o momento, Guimarães Rosa recria a língua para que esteja na exata medida de seus personagens e de suas histórias. Teóricos e críticos literários só encontram paralelo para a escrita 'roseana' na obra de James Joyce.

Devido à complexidade de sua obra, durante muitos anos se costumou dizer que ela seria inadaptável. Mas em 1965 (dois anos antes de seu falecimento), se realizou o primeiro filme adaptado – aliás, não só um como dois: "A hora e a vez de Augusto Matraga", de Roberto Santos, e "O Grande Sertão", dos irmãos Renato e Geraldo Santos Pereira. São filmes de estéticas tão diferentes que, sem saber de antemão, seria difícil supor que tivessem partido de um mesmo autor literário.

A mostra Cinema: Veredas – Os filmes a partir de Guimarães Rosa foi aprovada pelo edital 2007 de ocupação dos espaços CAIXA Cultural.

SERVIÇO
Cinema: Veredas – Os filmes a partir de João Guimarães Rosa
de 24 de junho a 06 de julho

CAIXA Cultural – Cinemas 1 e 2
Av. Almirante Barroso, 25, Centro (ao lado da estação Carioca do metrô)
Tel.: 21 2544 4080 – Site: www.caixacultural.com.br
Temporada: 24 de junho a 06 de julho (terça a domingo)
Horários: 12h, 14h, 16h, 18h e 20h
Programação completa abaixo
Ingressos a R$4,00(inteira) e R$2,00 (meia) R$ 10,00 (passaporte para 08 sessões) – 100% da renda será destinada ao programa FOME ZERO

Assessoria de Imprensa da Caixa Econômica Federal
CAIXA Cultural - Rio de Janeiro/RJ
Fone: (21) 2497 5022
Cels: (21) 82150900//78921433//96174772
www.caixacultural.com.br

Programação – Cinema: veredas – os filmes a partir de João Guimarães Rosa
CAIXA Cultural, Rio de Janeiro – de 24 de junho a 6 de julho de 2008
Recomendação etária: de acordo com o filme, a ser informada no local da mostra.

Terça – 24/06
18h - A João Guimarães Rosa + A hora e a vez de Augusto Matraga
20h - Palestra com Vilma Guimarães Rosa

Quarta – 25/06
14h - Os nomes do Rosa - episódio 1
16h – Sarapalha
18h - Corpo fechado (TV Cultura)
20h - Soroco (TV Cultura)

Quinta – 26/06
14h - Os nomes do Rosa - episódio 2
16h - Programa de Curtas 1
18h - Programa de Curtas 2
20h - Aboio

Sexta – 27/06
14h - Os nomes do Rosa – episódio 3
16h - Cinema falado
18h - Mutum
20h - A criação literária + Sagarana, o Duelo

Sábado – 28/06
14h - Os nomes do Rosa - episódio 4
16h - Grande Sertão: Veredas (TV Globo)
18h - O Grande Sertão
20h - Deus e o diabo na terra do sol

Domingo – 29/06
14h - Os nomes do Rosa - episódio 5
16h - Cabaret Mineiro
18h - Noites do sertão
20h - Outras Estórias

Terça dia 01/07
12h - Os nomes do Rosa - episódio 1
16h - Noites do sertão
18h - Outras estórias
20h - DEBATE

Quarta dia 02/07
12h - Os nomes do Rosa - episódio 2
18h - O Grande Sertão
20h - Programa de Curtas 2

Quinta dia 03/07
12h - Os nomes do Rosa - episódio 3
16h - Corpo fechado (TV Cultura)
18h - Grande Sertão: Veredas (TV Globo)
20h - Deus e o Diabo na Terra do Sol

Sexta dia 04/07
12h - Os nomes do Rosa - episódio 4
14h - Os nomes do Rosa - episódio 5
16h - Soroco (TV Cultura)
18h - Cabaret Mineiro
20h - Programa de Curtas 1

Sábado dia 05/07
16h - Mutum
18h - Aboio
20h - Cinema falado

Domingo dia 06/07
16h – Sarapalha
18h - A João Guimarães Rosa + A hora e a vez de Augusto Matraga
20h - A criação literária + Sagarana, o Duelo

Programa de Curtas 1
“Eu carrego o sertão dentro de mim” (1980), de Geraldo Sarno
“Cordisburgo roseana: a cidade recriada” (2001), de Vítor da Costa Borysow
“Rio de-Janeiro, Minas” (1993), de Marily da Cunha Bezerra
“Desenredo” (2001), de Raquel de Almeida Prado
“Famigerado” (1991), de Aluízio Salles Jr

Programa de Curtas 2
“Do sertão ao Beco da Lapa” (1972), de Maurice Capovilla
“Veredas de Minas” (1975), de David Neves e Fernando Sabino
“João Rosa” (1980), de Helvécio Ratton
“Livro de Manuelzão” (2003), de Angélica Del Nery
“Urucuia” (1998), de Angélica del Nery

domingo, 9 de setembro de 2007

O Homem Provisório: a travessia da literatura para o teatro

Sertão, palavra-chave do romance, é mais que um lugar geográfico. Espaço sem fronteiras que habita o homem, posto entre limites, nunca antes alcançados, do mar e da cidade, e por isso condenando em sua saga de percorrer o lugar que carece de fechos para alcançar a dimensão mais interior: longe e fundo. Nesse cenário em que o fantástico e o maravilhoso fazem parte do cotidiano, pessoas comuns carregam na alma e no destino os grandes valores da vida: o amor, a coragem, a culpa, as alegrias. O sertão é o mundo, exatamente pela capacidade de ir às questões fundamentais da existência.
João Paulo. O sertão é o mundo. In: 50 anos de Grande sertão: veredas. Jornal Estado de Minas, Caderno Pensar, 04 de março de 2006.

Muito já se falou, muito já se escreveu sobre Grande sertão: veredas, de Guimarães Rosa, principalmente no ano passado quando a obra-prima roseana completou o seu primeiro cinqüentenário. O que foi muito bom por sinal e nada mais justo.

Desde a tenra idade desenvolvi enorme apreço pelo sertão. Fosse na televisão com Morte e Vida Severina, a mini-série Grande sertão: veredas, a música de Zé Ramalho, Alceu Valença, Elomar, Xangai e Chico Science & Nação Zumbi, filmes como Deus e o Diabo na terra do sol, Bye, Bye Brasil, e os livros Vidas Secas (filme também) de Graciliano Ramos, Ariano Suassuna e os regionalistas da Geração de 30. Além da literatura de cordel, a arte da xilogravura de Samico e o repente na Feira de São Cristóvão, dentre outras referências que não as listarei para não cansar o leitor. Daí surgir imensa expectativa quando há oportunidade de ver alguma arte que tenha o sertão como tema.

Entretanto, não quero aqui tecer maiores considerações sobre mim e menos ainda a respeito do clássico roseano da nossa Literatura, mas, sim, comentar sobre a agradabilíssima surpresa que foi o espetáculo O homem provisório, da companhia paulista Casa Laboratório para as Artes do Teatro, dirigida por Cacá Carvalho.

Quando peguei o folder da peça, gostei do que li. Porém, gato escaldado, procurei não criar maiores expectativas a partir do texto, pois já assisti peças em que o folder era melhor que a atração principal. Atentei para o trabalho de pesquisa na região do Cariri durante quarenta dias, o contato com artistas locais como o xilogravurista Nilo, que participa com uma bela exposição de gravuras na entrada do teatro, o músico Di Freitas e o poeta de raríssima beleza sertaneja Geraldo Alencar, parceiro de Patativa do Assaré, e responsável pelo excelente texto da peça (120 sonetos). Como bem afirma Cacá Carvalho: “Guimarães virou Geraldo”.

Todavia, foi com inenarrável satisfação que percebi rapidamente que não havia necessidade para maiores apreensões. A peça remete-nos a um sertão de extrema aridez, jagunços broncos e duros como a terra rachada. Belas e criativas transposições para as cavalgadas e lutas. A música é de um lirismo impressionante, às vezes assustadora, às vezes encantadora, mas sempre marcante e muito bem encaixada no decorrer do espetáculo. O cenário é formado por panos com paisagens do sertão e a iluminação sobre eles é fantástica. Simplicidade e bom gosto casados com perfeição. O sertão está por toda parte.

Surpreendentes e chocantes são as cabeças inspiradas nos cangaceiros mortos do bando de Lampião e o seu uso constante no decorrer do espetáculo. O elenco está afinado. O diabo Hermógenes é apavorante. Comovente os flertes entre Riobaldo e Diadorim, sem exageros e com grande sutileza. A cena final da morte de Diadorim e o sofrimento de Riobaldo é de marejar os olhos. Mas o que me pareceu o ponto alto da peça, talvez tenha sido a feliz transposição do imaginário místico e da fé exacerbada do sertanejo que permeia todo o espetáculo. A relação com o real fantástico do homem do sertão, daquele que diz que Deus “fez o mundo / Urgente porém sem pressa / Ele fez em um segundo / Esta é a lei do milagre / Do soberano profundo” e do “diabo não existe / Por isso ele é tão forte / Na rua, no redemoinho / Tem nome de toda a sorte”.

Bom, a peça ficará em cartaz somente até o dia 30 de setembro no Espaço Sesc - Copacabana e prestigiarei novamente a linda encenação. E trata-se de uma forte concorrente a qualquer lista de melhores do ano.

Parabéns para a Casa Laboratório para as Artes do Teatro! Parabéns a Cacá Carvalho, a todos os que participaram da criação deste belo e comovente espetáculo, que conseguiu transpor a travessia da existência humana das letras para o palco.