terça-feira, 7 de junho de 2011

FELA: esta vida puta!, de Carlos Moore (lançamento RJ)


Rio de Janeiro
de 09 a 11 de junho
de quinta-feira a sábado

Fela: Esta Vida Puta,
de Carlos Moore
Prefácio de Gilberto Gil

dia 09, quinta-feira, às 19h 30min - lançamento
Livraria do Museu da República
Rua do Catete, 153 - Catete - 21-2558-6350
metrô Catete / Estacionamento no local

dia 10, sexta-feira, às 16h - tarde de autógrafos
Livraria da Travessa - Centro
Travessa do Ouvidor, 17 - Centro - 21-3231-8015

dia 10, sexta-feira, às 19h - noite de autógrafos
Kitabu Livraria Negra
Rua Joaquim Silva, 21 - Lapa, Centro - 21-2252-0533

dia 11, sábado, 23h 30min - Festa Makula de lançamento
Teatro Rival com Abayomy Afrobeat Orquestra
Rua Álvaro Alvim, 33 - Cinelândia - Centro - 21-2240-4469

LANÇAMENTOS NACIONAIS
Rio de Janeiro - 09 a 11/06
Belo Horizonte - 14/06
São Paulo - 25/06
Porto Alegre - 29/06
João Pessoa - 01/06
Recife - 02/06
Salvador - 03/06

Para saber sobre o lançamento em sua Cidade, entre em contato: atendimento@nandyalalivros.com.br

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Esteira Cheia ou o Abismo das Coisas, de António de Névada (Cabo Verde) na Kitabu (RJ)

Mais um livro de Literaturas Africanas de Língua Portuguesa que consigo para venda na Kitabu - Livraria Negra (Rio de Janeiro/Brasil): ESTEIRA CHEIA OU O ABISMO DAS COISAS, do poeta cabo-verdiano António de Névada.
Ricardo Riso

(clique na imagem para ampliá-la)

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Maria Helena Sato – Cristais (resenha)



Maria Helena de Morais Sato – "Cristais"
Por Ricardo Riso
Com estima e consideração, à autora.

Maria Helena de Morais Sato vive em São Paulo – Brasil, formada em Letras e pós-graduada em Literatura, Comunicação Social, Comunicação Internacional e Recursos Humanos, possui MBA em Administração. É tradutora juramentada (espanhol, francês e inglês).

Sato tem nove livros de poesia publicados, destacamos, dentre outros: “Bonsais e Haicais” (2000), “Farol” (2002), “Presente do Mar” (2003) e “Caminho Orvalhado” (2004), e em prosa/poesia “O poeta além-vale” (apresentação de antologia de António Januário Leite), em parceria com Luís Romano (2005).

Em 2005 lança “Cristais” pela editora paulista Komedi, prefaciado por D. Geraldo Gonzáles y Lima e ilustrado por Celso Massatoshi Sato. “Cristais” reúne 99 poemas que convidam à reflexão diante das intempéries do cotidiano imposto pela contemporaneidade. Talvez por isso a concisão dos poemas, os versos sejam curtos, ainda assim o sujeito lírico apresenta-se eloquente, preciso, propondo o reencontro do “ser com o Ser”.

As agruras de uma sociedade hipercompetiviva em correria frenética para acompanhar as imposições de um mundo globalizado possui a insensibilidade – “Ouvidos cansados/ e visão embrutecida” – entre os homens como consequência. Os sentidos esgarçados precisam ser restaurados e a analogia aos cristais lembra-nos que “Duros ou/ estilhaçando,/ esperamos lapidação...”.

O desejo de reencontrar o caminho expõe-se na busca pela recriação da palavra primordial, a que permite a harmonia entre seus pares, e suplica: “Mesmo assim/ viramos/ demiurgos,/ fórmulas/ para te/ alcançar!/ Só não inventamos/ ainda,/ neste templo,/ a palavra única,/ elo de/ corações/ sem/ lar”.

A desorientação é a ordem do dia diante de vidas transfiguradas, de trajetórias fragmentadas pelo caos, o sujeito lírico necessita de ajuda para resgatar a sensibilidade perdida e questiona se precisa de um peregrino (de terras distantes) “para me repetir/ a primeira lição?” Nesse sentido, tal como retirante, deve-se apreender uma nova sensibilidade que parte da observação simples da natureza: “Fim de retiro./ Um arco-íris/ no cenário,/ no olhar./ As mesmas nuvens,/ mas há um arco-íris no céu!/ (...) Na alma do retirante,/ cores ligam/ Terra e Céu!”

Sendo assim, não causa estranhamento que o sujeito lírico de Maria Helena Sato se aproxime da poesia zen, pois para compreender a desfiguração da vida segundo Octavio Paz no artigo “A poesia de Matsuo Bashô”, recorre-se à “doutrina sem palavras (...) através da experiência do sem-sentido, descobrir um novo sentido”. Logo, versa o sujeito lírico: “O nada ilumina/ o que palavras/ obscurecem./ Sou/ minha própria/ nudez”. Por outro lado, ainda em sintonia com o Oriente, Sato subverte a temática do hai kai ao referir-se à religiosidade cristã: “Quase hora de missa,/ já pelo caminho, a pé/ cem ave-marias!”

A entrega incondicional ao ser amado ganha atenção especial em diversos poemas de Sato. Em “Amor Líquido – sobre a fragilidade dos relacionamentos humanos”, o sociólogo Zigmuth Bauman observa a dificuldade dos casais em manter suas relações, pois se considera que uma relação fechada obstrui relacionamentos futuros mesmo sem a certeza de concretizá-los, ou seja, segundo Bauman, “a solidão por trás da porta fechada de um quarto com um telefone celular à mão pode parecer uma condição menos arriscada e mais segura do que compartilhar um terreno doméstico comum”. Por isso, reconforta a posição do poema “Recriação”, rara e contrária à maneira dispersa que os relacionamentos amorosos se dão entre nós: “À tua Luz me/ rendo/ e em qualquer espaço/ me desvendo,/ se for em teu/ universo!”.

Como “cristais em lapidação/ constante”, nós, “sísifos da vida”, encontramos na leitura de “Cristais”, de Maria Helena de Morais Sato, sapiência e conforto para contermos as individualidades, o “nosso impulso/ de/ ter” e encararmos as atrocidades da vida como o herói menino que, após ter tido sua cesta de mantimentos roubada, “sorria/ por ter carregado tanto/ e não ter pesado/ nada!”

Trata-se de poesia diaspórica cabo-verdiana de excelente qualidade. E o melhor: publicada no Brasil. Portanto, recomendo a leitura deste “Cristais”, de Maria Helena Sato.

Maria Celestina Fernandes – A Árvore dos Gingongos (livro infantil angolano)


Maria Celestina Fernandes – A Árvore dos Gingongos (livro infantil angolano)
Por Ricardo Riso
Agradecimento especial à autora.

É com inenarrável satisfação que se celebra a publicação de A Árvore dos Gingongos, de Maria Celestina Fernandes, ilustrações de Jô Silveira, sob a chancela da Difusão Cultural do Livro para os pequeninos leitores brasileiros. Em caprichada edição, apresentação a cargo da Profa. Edna Bueno e um glossário muito bem elaborado elucidando os significados das palavras em quimbundo, etnia da autora, que aprendemos os sentidos de vocábulos estranhos para nós. Por outro lado, descobrimos a origem de outras tão próximas, caso de canjica.

Maria Celestina Fernandes nasceu no Lubango, Angola, em 1945, é uma renomada autora de livros infantis em Angola, tendo lançado mais de uma dezena de títulos para esse segmento com destaque para “As Amigas em Kalandula”, vencedor do Prêmio Literário Jardim do Livro Infantil em sua edição de 2010. Além disso, consta em seu currículo várias publicações para os adultos que passam pela poesia, romance e crônica, além de participação em coletâneas no seu país e no estrangeiro. Celestina Fernandes também é membro da União dos Escritores Angolanos e recebeu o prêmio de Mérito do Ministério da Cultura de 2009.

O enredo do livro é sobre os gingongos, os gêmeos aludidos no título. Considerados seres especiais, tanto para o bem quanto para o mal, que não devem ser contrariados. Além disso, de acordo com a mitologia dos quimbundos foram os primeiros habitantes de Angola. A história se passa em uma numerosa família que moram em uma casa simples de um musseque (favela), consagrado espaço de resistência dos angolanos no período colonial, sendo os gingongos os caçulês (caçulas), assim como acontecimentos do cotidiano familiar são apresentados ao longo do texto.

Aqui começamos a perceber a habilidade de contar histórias de Celestina Fernandes ao se valer do hibridismo na narrativa que se inspira na tradição oral, recriando-a e concretizando a sua própria escritura infantil. Esse procedimento remete ao que Walter Benjamin desenvolve em “O narrador”, no qual o intelectual afirma que “contar histórias sempre foi a arte de contá-las de novo”. Os gingongos são recebidos com grande festa, pois se “são mal recebidos, ficam zangados, podem adoecer a ponto de morrer! Assim falam os mais velhos...” (p. 9). Em seguida recebem o tratamento de uma velha curandeira para espantar os maus espíritos e a descrição desse ritual, e que depois será complementado pelo batismo na igreja católica. Aqui temos a presença do sincretismo religioso. Nesta cerimônia, recebem os nomes de Manuel e Manuela, entretanto, todos os chamam de Adão e Eva. Novamente, entrecruzam-se as origens africanas e as impostas nos tempos do colonialismo português, mesclam-se o mito quimbundu dos gêmeos como os habitantes primeiros de Angola e o mito bíblico, que aponta Adão e Eva como os seres originais.

Hibridismo que também encontramos no uso da língua portuguesa, do enfrentamento do passado e imposição do idioma do colonizador. Porém o grande conflito se deu no texto escrito em língua portuguesa que passou a ser contaminado com a oralidade própria das etnias angolanas, o que remete ao célebre artigo de Manuel Rui, “Eu e o outro invasor”: “No texto oral já disse não toco e não o deixo minar pela escrita arma que eu conquistei ao outro. Não posso matar o meu texto com a arma do outro. Vou é minar a arma do outro com todos os elementos possíveis do meu texto. Invento outro texto”. É o que apreendemos na narrativa de Celestina Fernandes enriquecida com os diversos vocábulos em quimbundu no seu decorrer, como no primeiro parágrafo da história: “Nga (senhora) Maria era uma senhora muito conhecida lá no musseque (favela). O marido dela, o senhor Policarpo, homem catita (elegante) em tempos idos, era ainda grande dançarino de rebita (dança tradicional), apesar da idade já um pouco avançada” (p. 7).

Outro ponto de resistência da cultura tradicional quimbundu acontece na passagem da Vovó Chica, mantendo acesa a sabedoria ancestral e a crença de que os gingongos são seres especiais, podendo ser perigosos, por isso a referência aos muloji (feiticeiros), repassando-as às crianças em forma de reprimenda por implicarem com os gingongos: “Xé, cuidado ehn! Faz favor não trazer desgraça aqui, deixem lá as crianças. Vocês não sabem que zanga dos gingongos traz azar? Essa gente são muloji, deixem-nos em paz” (p. 15).

Exatamente por considerarem-nos seres especiais, os gingongos são criados cheios de mimos e em razão desses mimos que se dá a grande maka (confusão, discussão) da história. Havia uma enorme mangueira no terreno da casa e um dia os gêmeos decidem pedir aos pais a árvore só para eles, juntamente com seus saborosos frutos. Os pais, crentes nos poderes sobrenaturais dos gingongos, acatam o desejo. Porém, com a chegada das frutas as outras crianças começam a pegá-las, os gêmeos se sentem contrariados e adoecem com gravidade. Como os seus desejos são sempre atendidos, prevalece o comportamento egoísta dos gingongos e todas as outras crianças afastam-se da árvore. Contudo, é óbvio que tal decisão não dura muito tempo e todos passam a conviver em harmonia.

Apesar de a narrativa estimular a importante reflexão do egoísmo aos pequenos leitores, A Árvore dos Gingongos fascina por apresentar diversas manifestações tradicionais da cultural da etnia quimbundu, suas crenças e mitos, a vivência no musseque e o cotidiano de uma família simples. Uma história que encanta por mostrar às crianças brasileiras um pedacinho de Angola, do caráter híbrido da formação identitária angolana com leveza e delicadeza. Encantamento facilitado pelas excelentes ilustrações de Jô Oliveira e um formidável trabalho de diagramação que harmoniza texto e imagens. Um livro essencial de Maria Celestina Fernandes, merecedor de congratulações à Difusão Cultural do Livro ao proporcionar este lançamento e incentivar a aproximação Brasil-Angola. Aliás, um exemplo que deveria ser seguido por outras editoras brasileiras que ainda ignoram as literaturas africanas de língua portuguesa. Para finalizar, A Árvore dos Gingongos, que recebeu “Menção Altamente Recomendável” pela Fundação Brasileira do Livro Para Crianças e Jovens, precisa ser considerado como uma ferramenta fundamental para os professores da Educação Básica que pretendem implantar as matrizes africanas em suas disciplinas, de acordo com as leis 10.639/2003 e 11.645/2008.



A Árvore dos Gingongos
de Maria Celestina Fernandes
Ilustrações de Jô Oliveira
São Paulo: Difusão Cultural do Livro, 2009.


















terça-feira, 31 de maio de 2011

Maria Celestina Fernandes – As Amigas em Kalandula (livro infantil angolano)


Maria Celestina Fernandes – As Amigas em Kalandula (livro infantil angolano)
Por Ricardo Riso

Agradecimento especial à autora.


O merecido reconhecimento da diversificada obra de Maria Celestina Fernandes para o público infanto-juvenil atingiu um dos seus melhores momentos com o livro As Amigas em Kalandula, ilustrado pelo competente Victorino Kiala e editado pelo Instituto Nacional das Indústrias Culturais de Angola no ano passado. Por isso a justa escolha do Prêmio Literário Jardim do Livro Infantil em sua edição de 2010, consagrando Celestina Fernandes como das principais partícipes na formação literária dos pequenos angolanos. Afinal, já são mais de dez títulos para este segmento desta autora nascida no Lubango, Angola, em 1945, que também atua na poesia, romance e crônica. Devido à longa trajetória, recebeu o prêmio de Mérito do Ministério da Cultura de 2009.


A contagiante narrativa de As Amigas em Kalandula tece uma viagem de magia e sonhos por meio da palavra, da palavra oral tal como um griot, o narrador de Fernandes possui extrema habilidade ao não se distanciar, oferecendo com maestria o espaço adequado para os seus apontamentos e para as falas das personagens dando vida ao que narra. É nesse fio envolvente da tradição oral que a autora a reinventa e a transpõe para a literatura infantil. Esse procedimento remete ao que Walter Benjamin aponta em “O narrador”, no qual o intelectual afirma que “contar histórias sempre foi a arte de contá-las de novo”, e aqui deparamo-nos com o encantamento da narrativa escrita de Celestina Fernandes que se aproxima ao máximo de uma narrativa oral.


O enredo é simples e fascinante: um pequeno grupo de formigas encanta-se com uma matéria de televisão sobre as quedas d’água de Kalandula, um dos pontos turísticos de Angola. Devido à distância, sonham com a possibilidade de conhecerem o lugar e contam com a ajuda de duas rãs para procura uma maneira de fazer a viagem de Luanda ao lugar paradisíaco. A solução encontrada para a travessia é que as formigas embarquem em uma caravana rumo a Kalandula. Dessa maneira chegam às quedas d’água e para felicidade completa o passeio ganha novo itinerário, dirigindo-se às grandes pedras negras de Pungo Andongo. Ao final, a plena satisfação com a viagem e o retorno para Luanda.


A beleza da narrativa de Celestina Fernandes se dá com a valorização dos aspectos geográficos angolanos durante a descrição da travessia até Malange e a vegetação tropical, o cruzamento por riachos e rios como o grande Kwanza e o rio Lucala (o rio das quedas); as observações que estimulam a atenção para as diferenças, inclusive para aspectos sociais, e incentivam o olhar aguçado dos pequeninos por causa das “várias localidades, umas mais pitorescas, outras mais povoadas, umas mais pobres de arvoredo e de plantações e por todo o lado as pessoas sorriam, até as crianças de aspecto mais debilitado sorriam” (p. 14). O deslumbramento com a visão das quedas d’água, o arco-íris que se forma e a visão das grandes pedras negras de Pungo Andongo, além da imponência das pedras trata-se de um lugar mítico em razão das possíveis pegadas da rainha Njinga Mbandi, célebre por sua luta de resistência contra o colonialismo português.


Outro ponto de destaque é a empolgação com a paz oriunda pelo fim da guerra registrada nos comentários dos personagens humanos, deslumbrando um futuro próximo com a possibilidade do turismo e de que outras pessoas possam cruzar o país e conhecer Kalandula: “Estou mesmo a imaginar a quantidade de pessoas que virá até estas bandas quando melhorarem as condições (...)/ – Ah! Vai ser mesmo turismo a sério.../ – Será, com a santa paz tudo é possível, senão não estaríamos aqui tão à vontade!” (p. 19). Fato de igual emoção repete-se diante da maravilha que é contemplar as pedras negras, a consequente valorização do país incentivando as crianças a conhecerem o sítio e assim acarinhar a autoestima dos jovens angolanos: “Que espanto! Adorei ver as grandes quedas da nossa terra, mas a verdade é que existem outras cataratas pelo país e no estrangeiro, agora estes monstros assim, não sei se voltarei a encontrar coisa parecida em algum lugar...” (p. 22)


Por outro lado, a narrativa não deixa de mencionar algumas mazelas do país como as marcas de dor de um passado ainda recente, presente na estupidez violenta das minas, que permanecem na memória coletiva ainda se curando das fraturas daquele tempo: “Meninas, cuidado hein! Olhem bem onde pisam, pode haver ainda minas por aqui, estão a ouvir? – e foi com toda a precaução que circularam pelos sítios mais afastados.” (p. 17); e sociais, como a combinação inadequada de consumo excessivo de bebidas alcoólicas e trânsito: “Que loucura! Ainda há a estrada de regresso e essa gente nunca mais pára de beber? É por isso que a festa acaba muitas vezes em choro e lamentações, que bem poderiam ser evitados se acatassem o conselho ‘beber ou conduzir há que escolher’” (p. 20).


Para além do exposto acima, ficamos sabendo um pouco do comportamento das rãs e das formigas, do trânsito caótico de Luanda e a “condução do arranca-trava, trava-arranca...” Ou seja, estamos diante de uma narrativa rica, diversificada e encantadora. Envolvente na perseverança do sonho e na alegria em realizá-los, fascinante nas manifestações de contentamento diante das belezas das diferentes paisagens de Angola a estimular as crianças, por conseguinte os adultos, a conhecê-los. As Amigas em Kalandula de Maria Celestina Fernandes consagra o seu marcante percurso literário com uma história muitíssima bem contada, uma bela homenagem e um convite a conhecermos este exuberante país que é Angola.


As Amigas em Kalandula
de Maria Celestina Fernandes
Ilustrações de Victorino Kiala
Luanda: Instituto Nacional das Indústrias Culturais, Coleção Sol Nascente, 2010.

Maria Celestina Fernandes – Os Dois Amigos (livro infantil angolano)


Maria Celestina Fernandes – Os Dois Amigos (livro infantil angolano)

Por Ricardo Riso

Maria Celestina Fernandes nasceu no Lubango, Angola, em 1945. É membro da União dos Escritores Angolanos e possui uma vasta obra voltada para o segmento infanto-juvenil, dentre os quais destacamos: A Árvore dos Gingongos, A Rainha Tartaruga e As Amigas em Kalandula. Consta na bibliografia da autora em poesia: Poemas e O Meu Canto; os romances Os Panos Brancos e A Muxiluanda; o livro de crônicas, Retalhos da Vida; para além de participação em coletâneas no seu país e no estrangeiro. Celestina Fernandes recebeu o diploma de Mérito do Ministério da Cultura em 2009 e foi vencedora do Prêmio Jardim do Livro Infantil – 2010 com As Amigas em Kalandula.


Em 2010, compondo a coleção Pitanga da União dos Escritores Angolanos, Celestina Fernandes lança Os Dois Amigos, breve narrativa ilustrada por Victorino Kiala. Neste, a grande personagem é um sentimento universal: a amizade. Marito é um menino solitário que “sentia a falta de alguém com quem pudesse falar à vontade, alguém para partilhar as coisas boas e as más que aconteciam no dia a dia”, até que encontra a menina Ju. A afinidade acontece de imediato, durante a conversa falam onde moram, demonstram solidariedade ao compartilhar os doces e frutas que cada um tem. Em seguida, partem para as brincadeiras como o tradicional jogo da kiela e o da macaca. O dia passa, o sol se pondo, chega a hora da despedida e com ele a certeza de que iniciavam uma amizade.


A importância do livro infantil é introduzir a criança no mundo literário, ter a sensibilidade narrativa para cativar e aguçar a curiosidade do pequeno leitor, evitando o didatismo excessivo que subestime a sua inteligência. Por ter a amizade como a protagonista da história, Celestina Fernandes presta uma pertinente contribuição ao valorizar esse sentimento, a importância de saber ouvir e respeitar o outro. Condições que deveriam ser obrigatórias em nossas relações, mas que se tornam cada vez mais distantes de nós em um mundo de celebridades e de competição extrema.


Esse Os Dois Amigos de Maria Celestina Fernandes é um ótimo exemplo de como a literatura pode formar novos leitores e ser uma ferramenta fundamental para a formação do indivíduo com a sua maneira deliciosa de contar uma história, auxiliada pelas criativas e corretas ilustrações de Victorino Kiala, de caprichada e elegante edição, e de uma bem cuidada diagramação – apesar de tímida –, para além de atrair o interesse de um público estrangeiro, como o brasileiro, que se familiariza com as brincadeiras e as frutas angolanas, assim como as expressões em quimbundu inseridas no texto.

Os Dois Amigos
de Maria Celestina Fernandes
Ilustrações de Victorino Kiala
Luanda: União dos Escritores Angolanos, Coleção Pitanga, 2010

Maria Celestina Fernandes – A Rainha Tartaruga (livro infantil angolano)


Maria Celestina Fernandes – A Rainha Tartaruga (livro infantil angolano)
Por Ricardo Riso

A habilidade narrativa de Maria Celestina Fernandes para os pequeninos confirma-se na singela história A Rainha Tartaruga, editada pela INALD no ano de 2008 e ilustrado por Abraão Eba. Já com vários títulos direcionados ao público infantil, Celestina Fernandes possui uma escrita envolvente e precisa que estimula o imaginário do pequeno leitor, para além de passar ensinamentos com leveza e ludicidade.

A história de A Rainha Tartaruga se passa em uma floresta liderada pelo rei Leão, reconhecido por sua liderança sapiente e extrema generosidade. Este organiza o casamento de sua filha com um leão de outra família. Com isso, ficamos conhecendo como é um casamento de acordo com os costumes tradicionais, tais como a data de cerimônia de entrega do alembamento (dote), as festividades que duram dias, os instrumentos musicais como o quissange e a marimba, a comida farta e a “bebida para todos os gostos, desde o maruvo de palmeira à quissângua”, assim como a longa duração das comemorações: cerca de um mês.

O momento de tensão acontece quando a jovem leoa engravida e na hora do parto passa por dificuldades terríveis. Diversas curandeiras de várias partes da floresta vêm socorrer a parturiente, mas sem sucesso. O rei Leão desespera-se, até que por último chega a humilde tartaruga. Valendo-se de “seus dons misteriosos” e conhecimento das plantas medicinais, ela consegue realizar o parto com sucesso e ainda salvar a vida da leoa.

A felicidade do rei Leão é desmedida e com o seu bom coração resolve oferecer o trono à tartaruga, “pois reconhecia nela humildade e sabedoria suficiente para bem desempenhar o cargo”. Diante da insistência do rei, a tartaruga não consegue recusar a proposta. Mesmo com a morte do rei, a tartaruga ainda comandou o reino por longos anos e foi respeitada por todos, vencendo a inveja e a resistência dos animais que não aceitavam a liderança de uma fêmea.

O domínio da narrativa apresentado por Maria Celestina Fernandes impressiona por ter a medida certa de didatismo para as crianças sem importuná-las com lições de moral, mas sim demonstrar que o bom caráter, a generosidade, a humildade e o respeito ao próximo devem compor o cidadão independente de sua origem social.

Apesar de ter um formato agradável, excelentes e simpáticas ilustrações com cores sóbrias de Abraão Eba, o único senão fica para a diagramação sem ousadia e por três páginas seguidas de texto, o que pode tornar a leitura exaustiva para os pequenos que estão iniciando suas aventuras literárias.

Maria Celestina Fernandes nasceu no Lubango, Angola, em 1945. É membro da União dos Escritores Angolanos e possui uma vasta obra voltada para o segmento infanto-juvenil, com destaque para As Amigas em Kalandula, vencedora do Prêmio Jardim do Livro Infantil – 2010. A autora tem livros em poesia, romances, crônicas e participações em coletâneas no seu país e no estrangeiro. Recebeu o diploma de Mérito do Ministério da Cultura em 2009.


A Rainha Tartaruga
de Maria Celestina Fernandes
Ilustrações de Abraão Eba
Luanda: INALD, Coleção Sol Nascente, 2008.

quarta-feira, 25 de maio de 2011

José Eduardo Agualusa - Conversas Plugadas (Palestra)


Conversas Plugadas - especial
José Eduardo Agualusa
Língua portuguesa, poder e diversidade cultural

Teatro Castro Alves
07 de junho
19h30

Pela primeira vez, um dos mais importantes autores de língua portuguesa da contemporaneidade, o escritor angolano José Eduardo Agualusa, estará em Salvador discutindo sua obra em evento aberto ao público. Ele é o convidado do projeto CONVERSAS PLUGADAS ESPECIAL, que acontece no dia 07 de junho, a partir das 19h30, na sala principal do Teatro Castro Alves, com o tema Língua portuguesa, poder e diversidade cultural.

A intenção do evento é possibilitar o entendimento e a discussão das noções de língua e literatura que gravitam em torno da obra de José Eduardo Agualusa, em especial em trabalhos como Nação Crioula, romance indicado para integrar o vestibular 2012 da UFBA, e Milagrário Pessoal, seu livro mais recente, em que a língua portuguesa no trânsito entre Angola, Portugal e Brasil é a grande personagem. Além destes dois títulos, Agualusa tornou-se conhecido no Brasil pelo livro O Ano em que Zumbi Tomou o Rio, romance cujo espaço narrativo diaspórico articula-se entre Luanda e o Rio de Janeiro em um produtivo exercício de discussão das questões etnicorraciais, e O Vendedor de Passados, no qual o narrador discute o processo de invenção das tradições individuais e coletivas que constituem subjetividades estratégicas no espaço nacional angolano. Além do evento no TCA, o escritor também participa do lançamento de Milagrário Pessoal, no dia 09 de junho, na Livraria Cultura, com uma mesa redonda com professores da Universidade Federal da Bahia e Unijorge.

O CONVERSAS PLUGADAS ESPECIAL com José Eduardo Agualusa é uma realização da Secretaria de Cultura do Estado da Bahia, da Universidade Federal da Bahia (UFBA) - através do Instituto de Letras (ILUFBA) e do PPGLitCult -, e da UNIJORGE, com apoio da Rede Bahia.

A entrada é gratuita, mas é preciso retirar pré-convites no SAC do Shopping Barra ou na bilheteria do TCA até às 19:00 do dia do evento. Entrada sujeita a lotação do Teatro.

SERVIÇO
O que: Conversas Plugadas Especial - José Eduardo Agualusa
Onde: Sala Principal do TCA
Quando: 07 de junho, 19h30
Quanto: Gratuito (retirar pré-convites na bilheteria do TCA ou SAC)
Realização: SECULT/UFBA/Unijorge – Apoio Rede Bahia