sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

José Luiz Tavares e Duarte Belo - CIDADE DO MAIS ANTIGO NOME (lançamento em Lisboa/Portugal)


Fonte: e-mail gentilmente enviado pelo poeta José Luíz Tavares em 05/02/2010.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Dina Salústio - Contra a violência, a literatura, por Ricardo Riso (Jornal A Nação 127 - 04/02/2010)



Dina Salústio – contra a violência, a literatura
Por Ricardo Riso

Diante da violência desmedida que assola os centros urbanos, vivenciamos uma estranha sensação de inércia, impotência frente às barbaridades do cotidiano e ao horror causado quando sabemos os motivos de determinados crimes e da pouca idade daqueles que os cometem. Questões que são abordadas em alguns contos de “Mornas eram as noites” (Camões, 1999), de Dina Salústio (1941 – ilha de Santo Antão, Cabo Verde), e que serão aqui expostos para nossa reflexão.

A violência descontrolada na sociedade demonstra-se nos atos agressivos dos jovens e da violência contra as crianças. Nos contos “Para quando crianças de junho a junho?” e “Filho de deus nenhum”, a revolta e a indignação apossam-se do narrador ao relatar dois momentos de crueldade extrema. No primeiro conto, um grupo de adolescentes espanca um doente mental sob os olhares inertes dos adultos, enquanto no segundo é mostrada a reação da sociedade contra a morte de um menino:

“De repente, uma rua larga, agora espreitada pela violência que transborda e agride os caminhantes. Uma dúzia. Talvez menos de uma dúzia de rapazes da quarta, que deviam ser crianças e que se haviam transformados em feras, perseguindo e atacando um doente mental. Livros e pastas esquecidos na valeta. Nas mãos, pedras. Nos gestos, ódio. Olhares frios. O homem no meio, indefeso, confuso, louco, impotente, cada vez mais agitado pelos uivos dos estudantes que nunca deveriam lançar outros sons que os da alegria e da esperança.” (p. 28)

“Homens e mulheres enfurecidos atacam a cadeia onde se encontra detida a assassina do pequeno Lizandro, de três anos, morto à dentada. (...) O pequeno Lizandro não resistiu às mordeduras e pancadas da madrasta. (...) Não conheceu alegrias. Para ele, apenas tristezas que o seu corpo cedo recusou.” (pp. 53-54).

Os dois contos poderiam ter acontecido em qualquer cidade do mundo. É a violência causada por um sistema neoliberal que exclui e oprime as classes menos favorecidas, traz desesperança aos jovens e deixa as famílias desestruturadas. Tempos amargos como o jovem que liderou o espancamento ao doente mental:

“‘... Se fosse meu pai, eu não teria pena... Se ele morresse, problema dele... Se eu gosto do meu pai? Se você o vir pergunte-lhe se ele gosta de mim, ou... se... se me conhece.’

Nas últimas palavras um soluço abandonado.(...) E quando o miúdo chefe se mexe e retoma o caminho para casa, arrastando os pés, não há crueldade nos seus olhos. Apenas uma criança amarga que havia parido prematuramente um homem. Desencantado.” (p. 29)

Entretanto, em “Campeões de qualquer coisa” o redimensionamento da atitude masculina é proposto por um personagem que se recusa a viver a hiper-competitividade que domina a sociedade capitalista. Ele questiona a hipocrisia de uma vida em mentiras e as máscaras que homens se obrigam a criar para sobressair.

““Ensinaram-nos que devíamos ser heróis de qualquer coisa. Exigem que façamos permanentemente exercícios de autoafirmação. Não nos educaram para corajosamente debatermos os nossos medos, falhas, hesitações, infernos. Apetrecharam-nos com o mito de super-machos e esperam que sejamos vencedores, fazendo-nos inimigos da própria maneira de estar, escamoteando a verdade, falseando as fronteiras. E porque somos apenas normais e temos vergonha da nossa normalidade, passamos o tempo todo a pensar numa roupagem que impressione. E vestimo-nos de atletas e mascaramo-nos de campeões, para, às escondidas, chorarmos a nossa simplicidade, a vulgaridade que enforma os nossos sentimentos íntimos. Não temos coragem para dizer não sou o melhor e não tenho que o ser, nem justificar-me da minha fragilidade. (...)” (p. 14-15)

Sendo assim, quem sabe se a partir dos contos de Dina Salústio, a reflexão sobre a ética distorcida da contemporaneidade, estimuladora da violência e que induz as pessoas a ser, ou a desejar ou a querer aquilo que não são ou não possuem, não nos ajudaria a buscar alternativas à degradação do ser humano?

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Abraão Vicente - “A idade de Bruegel ou a queda dos anjos rebeldes” (exposição)


“A idade de Bruegel ou a queda dos anjos rebeldes” mais não é que um exercício de leitura de algumas obras de Pieter Bruegel, pintor flamengo que viveu entre 1525 e 1569. Bruegel viveu uma época conturbada, banhada de crueldade e extremas diferenças sociais e de classes. Tempo em que o império de Filipe II de Espanha entendia-se até as províncias dos Paises Baixos, territórios profícuos em protestantes. Assim, é pelas mãos do Duque de Alba que o reino de Espanha empreenderá uma intensa campanha cuja atrocidade fica demasiado evidente na afirmação do católico Rei Filipe II “ Prefiro sacrificar 100 000 vidas humanas a pôr fim à perseguição de hereges”.

Se por um lado Bruegel pode ser equiparado a um fotógrafo na linha de frente das guerras de hoje, por outro, ele é também o pintor das parábolas, dos provérbios e dos enigmas. Bruegel usa a linguagem da representação para ilustrar não só os costumes, tradições, hábitos do quotidiano e indumentária da época, mas também para decifrar os códigos que regiam as relações sociais de hierarquia e os jogos de poder em disputa. As obras de Bruegel remetem-nos para uma época em que o estado civilizacional da hoje conhecida como cultura ocidental, passava inevitavelmente por um período de barbárie.

As obras apresentadas por Abraão Vicente nesta colecção de oito quadros, sob o título de: “A idade de Bruegel ou a queda dos anjos rebeldes”, são justaposições, novas composições, rearranjos de temas, figuras e imagens pertencentes não só a obras bem especificas de pintor flamengo, mas também ao imaginário da época. Ao extremo exercício de composição, tradução, volume, contemporização de Bruegel, Abraão Vicente contrapõe traços livres e rápidos, figuras propositadamente descontextualizadas e um guião que bem poderia ser a de hoje, nas ilhas. Das ilhas. Sendo por isso “A Idade de Bruegel” um tempo simultaneamente longínquo e recente. Diria, que se repete no hoje. Algures.

Venham pois degustar o tempo…. e livros.
 
ABERTURA DA EXPOSIÇÃO: dia 04/02 (quinta-feira) às 19h, na i.gallery na livraria Nhô Eugénio, Achada Santo António, na Cidade da Praia - Cabo Verde
 

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Artigo publicado no jornal Notícias (Moçambique)


Prezados(as),


Publicado na edição de hoje – 27/01/2010 – do jornal Notícias (Moçambique), meu artigo “Voar Na Asa Da Poesia: O singelo compromisso poético de Manecas Cândido”, a respeito do seu livro “O Sentido das Metáforas”.

Abraços,
Ricardo Riso

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Arménio Vieira - O Poema, a Viagem, o Sonho (livro)

Como bem disse João Branco em seu excelente blog Café Margosocafemargoso.blogspot.com:

"Se houve alguma consequência palpável da atribuição do Prémio Camões a Arménio Vieira foi isso ter obrigado - por motivos comerciais, naturalmente - a que o poeta tirasse uma série de trabalhos da gaveta e que estes acabassem por ver a luz do dia mais cedo do que o previsto (não foi preciso, por exemplo, esperar que o poeta morresse para que alguém se lembrasse de lhe publicar obra inédita a título póstumo - lagarto, lagarto!)."

Com prazer, divulgo um novo título de Arménio VieiraO Poema, a Viagem, o Sonho.
Ricardo Riso



O Poema, a Viagem, o Sonho
Arménio Vieira

Existe alguém que te habita, enquanto um outro te acompanha; este porém não és tu, é apenas sombra tua.

Género(s): Literatura
Acabamento: brochado
Dimensão: 13,5x21 cm
Páginas: 136
Peso: 160 g
Colecção: «Outras Margens», n.º 0
Código: 93.000
ISBN: 978-972-21-2072-2
1.ª edição: Outubro 2009
1.ª edição: Outubro 2009
Data: Outubro 2009
Preço: 16,00 €

fonte: http://www.editorial-caminho.pt/cache/html/show_produto__q1obj_--_3D73346__--_3D_area_--_3Dcatalogo__q236__q30__q41__q5.htm

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Filinto Elísio em entrevista ao Jornal A Nação No. 125



21 a 27/01/2010 Nº 125 Semanário A Nação, p. 11

Uma conversa quinzenal entre João Branco e um artista cabo-verdiano, em tom descontraído, sobre a arte, a vida e as nossas pequenas inquietações. Desta vez, em exclusivo para o Jornal A NAÇÃO, a conversa é com o poeta Filinto Elísio, que se prepara para ter um ano de 2010 em grande, com mais quatro livros no prelo, entre os quais um romance, a serem lançados em Cabo Verde, Portugal, França, Brasil e Angola.

“Sou profundamente cosmopolita e universal, mesmo quando abordo a quietude de uma rosa”

A NAÇÃO - Neste momento, estou a falar com o escritor, com o homem, com o poeta, com o romancista, com o político ou com o utópico que quer o melhor para o seu país?
Filinto Elísio - Estás a falar com o escritor, o poeta e o cidadão que quer o melhor para todos e, nesta condição, para todos os que também vivem neste país. Estás também a falar com um cabo-verdiano que, pelo seu sentir humanista, se posiciona como cidadão do mundo.
Ou seja, no fundo, todos somos muitos e ao mesmo tempo a sua própria ilha...
Todos somos a ilha e o cosmos. É a dualidade da terra e céu, luz e sombra, ying e yang. Somos múltiplos, em tudo, em qualquer lugar e em qualquer tempo, mesmo quando nos sentimos uno. E pluribus unum.

É aquela história do macro e do micro, não é? As pessoas esquecem-se que isso não acontece apenas na economia. Em cada um de nós há essa possibilidade de olhar para a imensidão do mundo, de nos preocuparmos com as acções do Obama ou com o aquecimento global, mas em simultâneo, estarmos angustiados, pensarmos no abraço que queremos dar ao nosso filho, ou no momento em que a morte nos bater à porta...
Os grandes problemas são aqueles mais profundos e existenciais e não aqueles necessariamente disformes. A problemática da morte e da existência é o grande residual filosófico, por exemplo. Naturalmente que os problemas circunstanciais e estruturais acabam por interagir com as nossas tensões existenciais. Mas acredita que todo o Ser tem o dilema da sua própria existência e do espaço vazio que ocupa ou deixado pela sua existência.

Pois, mas deixa-me aproveitar a deixa e perguntar-te se não andamos com espaços demasiado vazios, há demasiado tempo, em tantas áreas onde se exigia um outro tipo de intervenção, quer pública quer de mudança de atitude dos próprios artistas? E já agora, tenta responder a esta provocação sem utilizar a expressão “mudança de paradigma” que foi tão banalizada que hoje ninguém acredita nela!

Bem, eu não entendo o termo “mudança de paradigma” como um cliché ou uma frase feita, ademais banalizada pelo discurso político. Admito que na elasticidade semântica desse termo, haja um esboroar do sentido e uma “perda de élan” do conceito.
Pessoalmente, o grande desafio existencial é mudarmo-nos de paradigma. Derrubarmos o império da razão que construímos a cada momento em nós próprios.

Libertação da concepção mecanicista
Está bem, Filinto, agora tenta lá dizer a mesma coisa sem passar pela expressão do paradigma, para que descrentes como eu, possam fazer uma leitura menos pessimista do estado actual de coisas...
Eu não quero profetizar ninguém e muito menos convencer ou mobilizar as pessoas sobre as minhas razões. Em verdade, temos de nos libertar da concepção mecanicista ou do logicismo do Universo. Se alguma coisa nos incomoda, sendo muita coisa que nos circunda negativamente, a questão que se nos coloca é de como mudar, como reconstruir, como desconstruir, enfim, sem nenhuma verborreia, como reformular os paradigmas e os padrões que nos definem as balizas… (pausa) Temos de questionar as coisas e, sobretudo, de nos questionarmos perante as coisas.

Sejamos práticos, poeta: vais lançar vários livros neste ano. Acreditas mesmo que vai haver muita gente a comprá-los e a lê-los aqui em Cabo Verde, por exemplo? O que podíamos fazer mais nessa vertente do incentivo à leitura?
Mesmo quando teorizo, não abro a mão do aspecto prático. Sou um leitor atento e crítico da prática, no sentido estrito e lato. Muitos dos meus livros não vão ser lidos. Não pretendo fazer nenhum best-seller para o mercado cabo-verdiano. Mas isso não me desconforta, nem me tira sono. Tão pouco me faz viver numa espécie de inferno astral. Aliás, os poetas não são lidos pela maioria. Mas se conseguir emocionar alguém, terei algum gozo. Se alguém se apaixonar pelos meus versos, ficarei numa excitação tremenda. É uma outra dimensão. Quem se preocupa com a distribuição, se tanto, será o meu editor. Já disse noutra ocasião que a escrita criativa não paga as minhas contas. Talvez a consultoria e sua servidão de escriba me garantam alguns honorários. Todavia, é a poesia que me gratifica a alma.

Fomento da leitura
A questão não é os teus livros serem ou não lidos, é não haver quem leia, no sentido mais lato...
Bem, quanto aos incentivos públicos à leitura, defendo uma política mais assertiva e de maior fomento da leitura, das bibliotecas e das novas tecnologias para a leitura, uma das tarefas do Estado no domínio cultural. Quanto aos meus livros, aos nossos, há sempre quem os leia, ao fundo desse túnel.

Bem, sabes que eu serei sempre um leitor atento da tua obra, e um dos aspectos que tenho reparado na tua poesia, não como crítico literário que não sou, mas como simples leitor, é que ela tem vindo a ficar com um grau de complexidade cada vez maior, mais eclética. Eu, que tanto apreciei o teu livro O Lado de Cá da Rosa, com pequenos poemas que nos tocam directamente. Fico por vezes com saudades desse poeta das linhas mais rudes...

O “Do Lado de Cá da Rosa” era um livro iniciático, muito intimista, tacteante ainda da minha liberdade e da minha subjectividade enquanto artífice do meu próprio projecto existencial. Por isso, levava a minha inocência primeva. Talvez tenhas apreciado nesse livro a sua candura e a sua primitiva pöesis…

Apreciei e tenho saudades dela, confesso…
Mas os meus outros livros foram colocando peças mais arrojadas e mais “maliciosas”, se quiseres, no puzzle existencial da minha poética. Tornei-me mais senhor da sintaxe e da semântica. E mais manipulador da força atomizada e metafórica das palavras. Mesmo através da Estética, as palavras são para mim matéria em determinada frequência.

Mas compreendes que haja quem não te entenda... e que haja quem nem se dê ao trabalho, depois de ler a primeira linha da primeira estrofe...

Claro que muita gente não me entende. Eu também não entendo muita gente. Pelo menos, esse entendimento linear, euclidiano e cartesiano. E alguns que me entendem, mesmo de forma percepcionada, não gostam da minha poesia. Mas eu não sou Deus, nem tenho pretensões de agradar a gregos, troianos, cabo-verdianos e seus afluentes. Alexandre O’ Neill dizia desse materialismo das palavras numa metáfora que me apanha: Há palavras que nos beijam/ Como se tivessem boca.

Cosmopolita e universal
Ah, mas por exemplo, essa frase de O’Neill tem um vocabulário que vai em auto-estrada directo para o coração dos leitores... Diria que a tua escrita hoje anda mais sinuosa...
Nada disso. Não ando pelas sinuosas estradas de achadas e cutelos, nem em ruelas de ponta de praia. Sou profundamente cosmopolita e universal, mesmo quando abordo a quietude de uma rosa. Creio que a minha escrita anda pelas estradas da 3ª geração. Mesmo quando “sonetizo”.

O que é que isso quer dizer?
Que sou pós-moderno e que faço parte de um circulo de escrita e de leitura pós moderna, de uma sociabilidade a nível global. Como dizia sempre ao Poeta Dimas Macedo, temos de levar o Clube do Bode para o sideral maior, para além da 3ª vaga.

E não há espaço para a frustração? Num existencialista, há sempre espaço para a frustração...
Sem desmerecer tais referentes, porque eles não têm muito a ver comigo. Naturalmente, tenho muitas, muitíssimas frustrações. Quem não as tem?

Isso alimenta a tua escrita?
Digamos que não me coibiria de as contar ao psicólogo e, numa necessária inconfidência, contá-las aos leitores. Tudo alimenta a minha escrita, as frustrações também.

E para terminar, qual a poesia outra que mais te tem alimentado nos últimos tempos?
São muitos os poetas que me dão prazer. Tantos que não gostaria de enumerá-los. Mas vou arriscar alguns: Maiakóvski, Baudelaire, Leminski, Borges, Senghor, Sophia. Dos de casa: Arménio Vieira e José Luiz Tavares. Vou escrever sobre Corsino Fortes, que é um poeta com uma gramática própria. Leio com gosto Oswaldo Osório e e Valentinous Velhinho. Gosto da poesia.

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

José Luiz Tavares - “Cidade do Mais Antigo Nome” (livro)




“CIDADE DO MAIS ANTIGO NOME” DE JOSÉ LUIZ TAVARES JÁ SAIU DA TIPOGRAFIA
Lisboa, 21 Dezembro – Editado pela prestigiada Assírio & Alvim, já está nas bancas “Cidade do Mais Antigo Nome”, de José Luiz Tavares, com larga cópia de fotografias da Cidade Velha do português Duarte Bello. Trata-se de um extenso poemário do mais premiado poeta cabo-verdiano (com importantes prémios que lhe foram atribuídos em Portugal, Brasil e Cabo Verde), actualmente a residir em Portugal. É um cancioneiro heróico, mas onde não falta um certo lirismo, sobre a Cidade Velha, Berço da Nação e hoje Património da Humanidade.

Não é um livro fácil: o verso em linguagem de recorte clássico, num português da melhor água, é por vezes duro e quase chocante, não fugindo (quando necessário e sem disfarce) ao vernáculo. É literatura da melhor qualidade.

Duarte Bello, cujos créditos como fotógrafo estão patentes em diversos álbuns e são pautados por significativas exposições, esteve na Cidade Velha, recolhendo com minúcia milhares de imagens, das quais foi feita criteriosa selecção. Duarte Bello é filho do falecido poeta Ruy Bello.

O poema de José Luiz Tavares foi escrito antes de Cidade Velha ser reconhecida pela UNESCO como Património da Humanidade. Depois encalhou por falta de oportunidade de publicação até que a Câmara Municipal da Ribeira Grande de Santiago se interessou, sensibilizando empresas e Câmaras suas amigas de Portugal. Assim, congraçando apoios, foi possível avançar para esta edição de alta qualidade.

O lançamento do livro chegou a estar previsto para Novembro, em Lisboa (na sede da UCCLA) e em Viseu, aquando da assembleia geral do ForalCPLP. No entanto, atrasos havidos na tipografia inviabilizaram estas apresentações. Agora, a apresentação oficial (lançamento) está marcada para 30 de Janeiro, na Cidade Velha, durante as Festas do Santo Nome. “Cidade do Mais Antigo Nome” será apresentado também no Tarrafal e na cidade da Praia.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Jornal A Nação 124 - 13/01/2010 - "A fortuna dos dias" de José Vicente Lopes, por Ricardo Riso





José Vicente Lopes – A Fortuna dos Dias

Por Ricardo Riso
José Vicente Lopes (JVL), natural da Ilha de São Vicente (1959), reúne pela primeira vez contos dispersos em publicações como as revistas “Ponto & Vírgula” e “Fragmentos” e na antologia Tchuba na Desert (2006). Agora, esses contos estão ao lado de alguns inéditos para compor as 18 narrativas de “A Fortuna dos Dias” (Praia: Spleen Edições 2007).

Diante de um quadro de incertezas e irrealizações deparamo-nos com narrativas que apresentam intensa ironia perante os acontecimentos do cotidiano do ilhéu, permeados por recursos do fantástico ao relatar a caótica, e, por vezes, surreal situação do país.

Os protagonistas são pessoas comuns que não se adaptam à “ordem” estabelecida como em “O buraco”, que narra o misterioso aumento de um buraco na rua de Cleofas Miranda. Saudoso dos tempos coloniais, ele “observou por alguns minutos o buraco, indignado com o descaso das autoridades competentes. ‘Por isso é que esta terra não vai para frente’, (...) ‘Eu sabia que a independência havia de dar nisto’”. (p. 117) E conclui que o buraco “continuava a afundar e a alargar-se, mas não encontrava nenhuma explicação lógica para aquilo” (p.120). O que poderia ser uma metáfora pessimista do futuro de Cabo Verde.

Elementos da oralidade auxiliam o fantástico no conto “Ribeira de Deus”: “e para provar o que estou a dizer, vou contar-vos esta história. (...) de modo que quem me quiser ouvir que ouça (...). Vejam este braço: mesmo depois de tantos anos, só de lembrar, ainda me arrepio todo.” (p. 104).

Em “A convenção”, um encontro com representantes da diáspora não apresenta soluções objetivas e mostra a ganância dos participantes: “Era a hora de as autoridades d’Azilhas reconhecerem de uma vez por todas, a importância que a Décima-Primeira Ilha tem na vida do país, isentando-os de certas taxas aduaneiras para suas importações ou conferindo-lhes certos direitos políticos.” (p. 130-133)

Em “A barragem”, um simples cidadão narra em carta a construção de uma barragem prometida há tempos, reafirmada com a independência: “também era para valer quando os moços do PAIGC apareceram aqui logo depois do 25 de abril e nos prometeram a barragem se aceitássemos a Independência” (p. 139). O uso eleitoral da obra: “Andam por aí a dizer que desta vez nem vai ser preciso fraude” (p. 144); o desperdício e a desesperança revelam-se: “Mas agora que a barragem está pronta, (...) se não houver chuva, qual vai ser a serventia da barragem? Afinal, há quantos anos não cai nesta terra uma pinga decente que seja de chuva? (...) e aí não haverá barragem nenhuma neste mundo capaz de conter a força da nossa desilusão.” (p. 145)

A solidão do homem contemporâneo e a manipulação de um passado histórico glorioso marcam o insólito em “A cidade e o ídolo”. O protagonista torna-se herói, mas não se revela o por quê: “Pouco importa o que aconteceu ou deixou de acontecer, nem o que você é ou deixa de ser... O que importa é o que as pessoas julgam o que aconteceu ou o que pensam quem você é” (p. 30). Forja-se uma biografia “para posterior compilação das suas Obras Completas” (p. 31-32). Todavia, após fugir para o estrangeiro e retornar anos depois, o herói se surpreende por não ser reconhecido e passa a ser tratado como louco. Metáfora de um mundo de imagens que manipula as pessoas ao seu bel prazer.

JVL beira o sarcasmo ao citar aspectos culturais do país. Lê-se em “Morabeza” que um navio encalhado “foi inteiramente pilhado” pela “população – como sabeis amável, hospitaleira e generosa” (p. 89).

Ao utilizar elementos do fantástico em suas narrativas, como as epígrafes que são alegorias dos contos, o uso criativo da oralidade e os diálogos constantes do narrador com o leitor, José Vicente Lopes faz críticas contundentes ao desarranjo por que passa Cabo Verde, assim como revela a solidão e a amargura do homem contemporâneo. “A Fortuna dos Dias” é uma grande contribuição para a evolução da prosa caboverdeana, elevando ao clássico o conto “O sonho do senhor JB”.