Mostrando postagens com marcador Abraão Vicente. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Abraão Vicente. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Abraão Vicente - e de repente a noite (resenha - A Nação)


Abraão Vicente – e de repente a noite
Ricardo Riso
Resenha publicada no semanário cabo-verdiano A Nação, n. 229, de 19/01/2012, p. E15

A recente produção literária de Cabo Verde realizada na diáspora, ou a tendo como tema, apresenta textos de interessante fôlego e com novos paradigmas ao sistema literário do arquipélago nos recentes anos. Para ilustrar tamanha desenvoltura e inovação, temos na poesia a reescritura incessante e ininterrupta de poemas de José Luis Hopffer Almada, os livros “Lisbon Blues” de José Luiz Tavares e “Areias e Ramas” de Maria Helena Sato; enquanto na prosa, assinalamos “Para onde voam as tartarugas” de Joaquim Arena e “Contos da Basileia” de Tchalê Figueira configuram-se agradáveis surpresas.

O multifacetado artista e agora deputado Abraão Vicente, nascido na ilha de Santiago em 1980, lançou a inquietante prosa de “O Trampolim” em 2010. No final de 2011, o seu primeiro livro de poesia, “e de repente a noite”, um enxuto conjunto de 29 poemas pela Kankan Studio.

Neste livro, Abraão Vicente revela-se como cidadão do mundo durante os três anos de vivência na Espanha. A condição diaspórica é sentida em versos por vezes melancólicos e inquietantes do sujeito lírico distante de sua terra. Em uma escrita de profunda introspecção, a recorrência ao silêncio como alegoria da inadaptação ao cotidiano – como em “Renúncia”, “Bastardo e/ estrangeiro/ onde quer/ que eu vá (...) Solidão” – marca as dificuldades da contemporaneidade e da fragmentação do sujeito agoniado com o tempo e o local onde vive: “Tempo de ser nada,/ reinventar o vazio. (...)  Não.// Eufemismo ruído,/ poesia desse tempo/ de se ser coisa alguma”.

A criação poética na diáspora agoniza, o isolamento do cabo-verdiano atinge o fazer poético em pleno diálogo com o Arménio Vieira de “No Inferno”: “A que sabe questionar/ uma folha em branco?” A intertextualidade prossegue com Manuel Bandeira – Pasárgada do campo do prazer físico – e Oswaldo Alcântara – Pasárgada do campo da justiça e da utopia – no poema “Rei”, no qual diferencia as agruras de sua época, “sou rei de coisa nenhuma”, e enfatiza “Sou rei e guerreiro desse/ tempo de perdedores,/ desse momento de quiçá…// …desta página onde rascunho/ meu retrato de louco”.

O comprometimento do sujeito lírico com o fazer poético desvela-se de forma solitária, a expor o comportamento individualista da atualidade e a busca por uma existência digna representada no comovente “Ser poeta”, pois só assim com a morte do silêncio inerte, firme e resistente com sua poesia a combater às agruras do mundo “valerá a pena/ teres existido”. Comprometimento que remete a um poeta histórico, Oswaldo Osório, que vivenciou o tempo da utopia e o belo “Signo Poético”: “levar ao tribunal da Humanidade os crimes/ e as mentiras que são milhões/ mas sobretudo compreender o teu tempo como nenhum / e por isso loucamente o amar”.

Charles Baudelaire consagrou o incômodo do homem moderno com a modernidade, sendo uma sensação permanente em nossos dias, que conduz o sujeito lírico a subverter a máxima cartesiana do “penso, logo existo” perante a dolorosa convivência entre os homens no poema “Pensar ser outra coisa”: “Sou gente penso e/ logo a duvida persiste”.

Apesar da recorrência a um silêncio quase que tangível, matéria bruta e incessante dessa poesia, “Ensina-lhes que/ sua essência/ é o antônimo/ de vazio”, o sujeito lírico revela um lirismo amoroso em “Lembro-me de ti”, por exemplo, e o oposto, a inconcretude do amor em “Talvez”, poema intimista que podemos identificar semelhança aos versos de Mario Lucio Sousa em “Para nunca mais falarmos de amor”.

O sujeito lírico marca a metapoética em “Momento da palavra”, sua origem étnica de negro e africano em “Conversas com Deus” e a necessária reinvenção do ser diante das impossibilidades do hoje, “Reinventa-te/ para ser algo mais…”. Em “e de repente a noite”, com poemas curtos em sua maioria e versos breves, Abraão Vicente desvela uma poesia de raros momentos de lirismo amoroso, muitas vezes melancólica e angustiada com a existência, em uma dicção íntima do eu que merece a atenção dos leitores.

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Abraão Vicente - Bú ê (exposição - Lisboa/Portugal)


Bú ê


Nota de imprensa
Assunto: Exposição de pintura de Abraão Vicente

A Galeria Bozart vem por este meio divulgar a abertura da exposição de artes plásticas do artista Abraão Vicente. “Bú ê”, como título é ao mesmo tempo uma alusão ao neologismo que significa “muito” e à uma tradução literal do crioulo para o Português do Tu és. É um questionamento.

A vernissage de abertura é no dia 18 de Dezembro às 18h da tarde na Galeria Bozart, em Lisboa. (Ver o convite em anexo)

A exposição inclui três painéis distintos (ver anexo) à base de técnica mista, pintura, desenhos e colagem:

1- “Living room with everybody looking at the same thing and thinking the same thing at the same time”




 2- “Hard things in a very simple way”


3- “Some people never go crazy or else movement of pieces eating one another”
Os painéis reflectem temas e considerações recorrentes no trabalho de Abraão Vicente, como sendo, um forte questionamento identitário, a cidade e o tempo, a constância e a repetição. A cidade que por sua vez não é constante mas um corpo em mutação. O tempo por consequência múltiplo e repetitivo. Nos signos, nos símbolos, nos suportes, nas histórias/estórias, na cidade como tela, suporte e como matéria-prima (ver série “Some people never go crazy or else movement of pieces eating one another”)No painel “Hard things in a very simple way” é evidente uma revisitação à própria história de arte, com a presença de figuras centrais de algumas das mais conhecidas fotografias de Man Ray. Por sua vez essas imagens só e apenas ganham sentido na composição do quadro quando lidas à luz das palavras de Samuel Beckett.

Em “Living room with everybody looking at the same thing and thinking the same thing at the same time”, ao par de um estudo de formas e composição pela apropriação de uma escultura em barro das mulheres de “Trás di monte”, também há uma referência muito evidente à fotografia de Helena Almeida através das manchas negras que acabam por ser “sombras” dos mais conhecidos ensaios da fotógrafa portuguesa.

Também evidente é a presença da literatura através dos próprios títulos das séries, que são tributos a nomes como Charles Bukowski, Jack Kerouac e ao artista Marcel Duchamp.

A exposição estará patente de 18 Dezembro 2010 até 19 de Fevereiro de 2011.

Receba as nossas melhores saudações.

GALERIA BOZART
Rua da escola Politécnica, 4 R/C, 1200-457, Lisboa – Portugal
Opening hours:
Tue-Fri 2 pm – 6 pm
Sat 10 am – 2 pm
 
Fonte: e-mail gentilmente enviado por Abraão Vicente em 14/12/2010.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Abraão Vicente – O Trampolim (resenha)

Abraão Vicente – O Trampolim

Por Ricardo Riso
Publicado no semanário A Nação, nº 171, de 09 de dezembro de 2010, p. 10.

Abraão Vicente, o jovem e renomado artista plástico nascido na ilha de Santiago, concretiza sua estreia literária com o romance “O Trampolim”, sob a chancela da editora Kankan Studio.

A narrativa inicia-se com a observação amargurada do narrador de fotografias do passado da sua família. Apesar do tom melancólico, recordo Roland Barthes de “A câmara clara” no qual afirma que a força constativa da fotografia incide sobre o tempo, autenticando aquilo que foi; segundo Barthes, as fotografias devem ser habitáveis ao observador, conduzindo-o tanto a um tempo adiante – utópico – quanto a um tempo passado; desejo atingido durante a descrição das imagens, pois “essas fotos poderiam ter sido tiradas em qualquer bairro, vila ou cidade de Santiago ou de Cabo Verde, nos anos oitenta”.

Romance de memória, o narrador recorrer à infância, apropria-se dos amigos imaginários e das “reminiscências do rapaz ‘cabeça de ventos’, pegadas dos dias em que era dois, vivia façanhas inventadas e ouvia vozes que lhe pediam para voar”, e a partir daí tratar de diversos aspectos da condição humana.

Ambientado na periferia de Lisboa, apropriando-se do falar dos negros cabo-verdianos, recriados literariamente pelo autor com criatividade e ousadia ao subverter a língua portuguesa, ainda enriquecida por vários estrangeirismos, ou seja, “trapacear a língua. Essa trapaça salutar, essa esquiva, esse logro magnífico que permite ouvir a língua fora do poder, no esplendor de uma revolução permanente da linguagem”, como disse Barthes em Aula. Um falar peculiar, das ruas, que não causa conflito à compreensão do texto, experiência semelhante a de Allan da Rosa, destacado escritor da literatura periférica de São Paulo/BR.

Nas intermináveis conversas do(s) Zé(s) os assuntos são diversos, atropelam-se. Surpreende o racismo, o desejo de embranquecimento dos negros ao tentar relacionar-se com mulher branca: “com uma branca qualquer boa, como faz todo preto decente que quer causar boa impressão e um pouco de inveja aos seus frendes cá na terra”, e concretizado pelo Nhô André, tornando-o exemplo a ser seguido. Assim como é racista a insensibilidade de políticos que vêm crianças disputarem o lixo dos parlamentares, pois tiram “daí o seu alimento de cada dia”.

A emigração forçada dos africanos em razão da crise econômica – consagrada na célebre exposição “Pass Ports” do autor/artista –, a assimilação dos negros e a amnésia induzida, no sentido empregado por José Luis Hopffer Almada; denúncias que fazem recordar a necesssária “reafricanização dos espíritos” de Amílcar Cabral: “de investigar como eram as coisas e como se transformaram”, no dizer do Zé; para além de um intenso humanismo, da conquista da igualdade – “querer o meu não é roubar o seu/ pois o que quero é só função de eu”, de Raul Seixas –, de respeitar a alteridade, “igualdade vem de saberes porque és diferente e entender a razão dos outros”.

Cabe ressaltar alguns procedimentos literários de imenso agrado, tais como o diálogo com a escrita automática surrealista – “uma coisa é escrever palavras da língua que eu sei ler e entender, outra coisa é escrever tudo que te passa pelo capacete e na língua que te mais te convier”; o dadaísmo do “jogo do absurdo”, as teorizações acerca da arte contemporânea e o uso de cartas enviadas para si mesmo, tal como o jovem Fernando Pessoa.

Para finalizar, apetece mencionar as pertinentes questões ontológicas levantadas ao longo do romance, as severas críticas à sociedade de consumo e ao vazio existencial dessa condição – e recordo o Zigmuth Bauman de Vidas para Consumo; entretanto, e sobretudo, celebrar o desejo permanente de sonhar e de voar como impulsionadores e motivadores frente às adversidades da vida e a defesa inconteste da liberdade individual em um mundo cada vez mais igual, previsível e competitivo. Esses são alguns dos grandes méritos apresentados durante a leitura d’O Trampolim, de Abraão Vicente. Um belo sopro de renovação à literatura cabo-verdiana.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Abraão Vicente lança "O Trampolim" na Cidade da Praia


O artista plástico, cronista e agora escritor Abraão Vicente lança a sua primeira aventura literária intitulada  “O Trampolim” na livraria Nhô Eugénio, Cidade da Praia, Ilha de Santiago/Cabo Verde, no dia 2 de Dezembro, a partir das 18h30. O autor informa que a apresentação terá a participação especial do músico e compositor Princezito que fará uma leitura dramatizado de um texto, para além de leituras encenadas de alguns diálogos do livro pelos actores Dulce Sequeira, José Pedro Bettencourt, Paulo Silva e Raquel Monteiro.


Sobre o Livro:

“O Trampolim” é um livro feito de estória que não chegam a ser contos, muito menos um romance. Estórias que são antes conversas de um miúdo de várias idades: 5,6,7 ou 8, se calhar até 9 anos. Conversas de um miúdo, que se chama Zé, com o seu amigo imaginário (ou se calhar seu alter ego) também de nome Zé. Por se repetir demasiadas vezes o nome Zé fica-se sem saber quem é a personagem real e quem é a fictícia. Falam da infância e de coisas sérias: Deus, amor, tecnologia, morte, emigração, racismo, dominação, arte. Coisas sérias faladas a brincar. Usam a linguagem da rua, o português mal falado, uma tradução quase literal do crioulo para o português. O livro está escrito em português mas também poderia ter sido em crioulo pela cadência, pelo ritmo e pelo imaginário. Um vocabulário muitas vezes inventado, recriado, enrolado, se calhar um livro para se ler em voz alta.

Como é que dois miúdos, ou se calhar apenas um, sabem tanto do mundo e dos seus mistérios? Não se sabe bem. Mas também não é se para entender. Linha da estória? Se houver uma, é a estória do miúdo que quer aprender a voar e pede ao amigo imaginário (ou será o contrário?) para lhe construir um trampolim. Enquanto esperam que o Trampolim seja construído os dois vão tecendo lembranças.

Este livro foi escrito em 2003 na Assomada. É lançado sob a chancela da editora Kankan Stúdio que, tal como as personagens deste livro, também ela é imaginária.
 
Fonte: e-mail de divulgação para a imprensa enviado pelo autor em 29 de novembro de 2010.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Abraão Vicente - “A idade de Bruegel ou a queda dos anjos rebeldes” (exposição)


“A idade de Bruegel ou a queda dos anjos rebeldes” mais não é que um exercício de leitura de algumas obras de Pieter Bruegel, pintor flamengo que viveu entre 1525 e 1569. Bruegel viveu uma época conturbada, banhada de crueldade e extremas diferenças sociais e de classes. Tempo em que o império de Filipe II de Espanha entendia-se até as províncias dos Paises Baixos, territórios profícuos em protestantes. Assim, é pelas mãos do Duque de Alba que o reino de Espanha empreenderá uma intensa campanha cuja atrocidade fica demasiado evidente na afirmação do católico Rei Filipe II “ Prefiro sacrificar 100 000 vidas humanas a pôr fim à perseguição de hereges”.

Se por um lado Bruegel pode ser equiparado a um fotógrafo na linha de frente das guerras de hoje, por outro, ele é também o pintor das parábolas, dos provérbios e dos enigmas. Bruegel usa a linguagem da representação para ilustrar não só os costumes, tradições, hábitos do quotidiano e indumentária da época, mas também para decifrar os códigos que regiam as relações sociais de hierarquia e os jogos de poder em disputa. As obras de Bruegel remetem-nos para uma época em que o estado civilizacional da hoje conhecida como cultura ocidental, passava inevitavelmente por um período de barbárie.

As obras apresentadas por Abraão Vicente nesta colecção de oito quadros, sob o título de: “A idade de Bruegel ou a queda dos anjos rebeldes”, são justaposições, novas composições, rearranjos de temas, figuras e imagens pertencentes não só a obras bem especificas de pintor flamengo, mas também ao imaginário da época. Ao extremo exercício de composição, tradução, volume, contemporização de Bruegel, Abraão Vicente contrapõe traços livres e rápidos, figuras propositadamente descontextualizadas e um guião que bem poderia ser a de hoje, nas ilhas. Das ilhas. Sendo por isso “A Idade de Bruegel” um tempo simultaneamente longínquo e recente. Diria, que se repete no hoje. Algures.

Venham pois degustar o tempo…. e livros.
 
ABERTURA DA EXPOSIÇÃO: dia 04/02 (quinta-feira) às 19h, na i.gallery na livraria Nhô Eugénio, Achada Santo António, na Cidade da Praia - Cabo Verde
 

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Jornal A Nação (Cabo Verde) n. 120 - 17/12/2009 - coluna Ricardo Riso




Para quem quiser receber a versão pdf desta e das futuras edições do jornal A Nação, basta deixar o e-mail para contato neste post ou em qualquer outro do blog, ou enviar e-mail para risoatelie@gmail.com solicitando o jornal.
Abraços,
Ricardo Riso


Passaportes de Abraão Vicente renovam tema caro à literatura: a emigração


Ricardo Riso


A insularidade de Cabo Verde impôs ao ilhéu os dilemas “querer ficar e ter que partir” e “ter que partir e querer ficar” em razão das condições adversas do arquipélago ou a situações políticas, como o colonialismo português e as desigualdades econômicas que a independência não conseguiu resolver. Ou seja, emigrar é parte da cultura de Cabo Verde.

A evasão e a emigração são disseminadas na literatura. A geração da Claridade (1936), marco da cabo-verdianidade, foi acusada de evasiva por seus pares nas décadas seguintes.

Entre os claridosos havia o sentimento nacional independente a Portugal a partir da evasão e do sonho, como no “Poema de quem ficou” de Manuel Lopes:

Eu não te quero mal / por esse orgulho que tu trazes; / porque este ar de triunfo iluminado / com que voltas...(...)
...Que teu irmão que ficou / sonhou coisas maiores ainda, / mais belas que aquelas que conheceste... (...)
que nunca viram teus olhos / no mundo que percorreste...

Nos anos 1940, a revista Certeza (1944) explicita o absurdo do colonialismo. Nos 1960, as guerras coloniais levariam à independência.



A crescente revolta e a nova relação com o mar são retratadas por Ovídio Martins em “Unidos Venceremos”:

Estendemos as mãos / desesperadamente estendemos as mãos / por sobre o mar
As ondas não são muros / são laços / de sargaços / que servirão de leite / à grande madrugada (...)

Após a independência, a antologia Mirabilis – de veias ao sol marca a ruptura da literatura com os dilemas do ilhéu. No prefácio, José Luís Hopffer Almada afirma que:

Fustigada pelos ventos (da incompreensão!), pelo sol (da hipocrisia!), pelos tempos vários do mau tempo literário (...) No deserto, cresce a geração mirabílica (...) Mirabilis – de veias ao sol. Geração mirabílica indagando o sol. (...) Uma única rosa é a Mirabilis, e dela queda um sol de sangue. O sol da poesia mirabílica.

Nessa linha, Euricles Rodrigues escancara o rompimento com o passado literário em “Revolução-evolução”:

Viola a tua tradição / enterra a tua paranóia marítima secular / renega a tua estreita visão interior
E busca / novas formas / novas artes / novos engenhos / nova mente
De / cortar as amarras da estagnação / engravidar a terra de novo sangue / estabelecer nova aliança com o mar

A emigração hoje

É notório o elevado número de emigrantes cabo-verdianos pelo mundo. Porém a xenofobia dificulta o deslocamento de estrangeiros, que se arriscam em embarcações precárias.

Por outro lado, Cabo Verde recebe barcos ilegais africanos impedidos de chegar à Europa, o que gera transtornos ao país, sem estrutura para abrigá-los.

Essa situação denuncia o fracasso do neoliberalismo, em que países do 1o. mundo ignoram a situação caótica da África, em boa parte causada pelas pressões econômicas externas.

Os passaportes de Vicente

Nascido na ilha de Santiago em 1980, Abraão Vicente é autor do blog - http://abraaovicenti.blogspot.com -, com diversas séries expostas que surpreendem pela variedade das técnicas. Diversidade que demonstra segurança, conhecimento e ousadia.

Em duas séries, “Retratos” e “Passports Frames”, Vicente apropria-se de passaportes, objeto de desejo do cabo-verdiano, e cria inquietantes obras. Mas, atento ao momento adverso, recorre a um verso dos Rolling Stones: you can’t always get what you want.

Ao despedaçar o passaporte com pinceladas agressivas, figuras fragmentadas e textos caóticos, Vicente denuncia o desespero de quem quer emigrar. Desfigurando-o, mostra, pela impessoalidade das figuras despedaçadas, o cidadão comum que quer sair para um futuro incerto. O dilaceramento do documento, metáfora da dificuldade de alcançar o sonho, a saída do país.

Inquietação e multiplicidade na escolha dos meios deslocam o observador da passividade da contemplação. Abraão Vicente é um artista em sintonia com as questões do seu tempo ao renovar e não se omitir em denunciar as novas vertentes de um tema que atravessa a literatura cabo-verdiana: a emigração.

segunda-feira, 9 de março de 2009

‘Identidades…’ de Abraão Vicente no CCP da Praia

Abraão Vicente é um jovem e intrigante artista plástico cabo-verdiano. Semana passada foi a abertura de uma nova exposição com os seus questionadores trabalhos com passaportes, já comentados aqui neste blog e para ter acesso a este artigo basta clicar no marcador com o nome do artista ao final desta postagem.
Parabéns a este interessante artista de Cabo Verde.
Ricardo Riso
‘Identidades…’ de Abraão Vicente no CCP da Praia
Identidades e ®econstrução é o título da exposição de Abraão Vicente que o IC-CCP da Praia, Cabo Verde, exibe de 5 a 18 de Março, reunindo uma colecção de quadros/objectos/documentos (re)criados a partir de documentos de identificação de vários países, segundo uma nota de imprensa.

«Partindo de componente auto-biográfica, o projecto Identidades... coloca-nos perante linguagens que marcam a modernidade artística e perante temáticas que inquietam, na actualidade, cidadãos e países», afirma a nota.

Numa explicação do trabalho de Abraão Vicente (n. 1980) para a exposição, a nota refere que os objectos/documentos «são destruídos (reconstruídos - reconstituídos) sobre papel de aguarela de 297x420mm e devolvidos a um ‘Frame', que é a própria moldura, que se reconfigura como um novo documento de identificação».

A reflexão do artista plástico cabo-verdiano, que vive e trabalha em Lisboa, segundo o sítio Artafrica, do Centro de Estudos Comparatistas da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, «centra-se [...] no conceito de Identidade(s), sobretudo na Identidade fragmentada, construída, adquirida, forjada, inventada do homem contemporâneo, do cidadão crioulo/global» e «denuncia a Identidade e limites da própria língua como veículo identitário».

Com a utilização de um ‘frame', Abraão Vicente pretende transmitir a ideia de «um limite, um guia de circulação, de pertença e de territorialidade».

«Constituem igualmente linhas orientadoras, o explicitar das discrepâncias entre as vivências geográficas e as pertenças históricas, bem como do papel da burocracia na construção de barreiras, de fronteiras reais e mentais.»


Licenciado em Sociologia pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, Abraão Vicente é um artista plástico autodidacta contemporâneo, que usa como técnicas o Desenho, a Pintura e a Fotografia, tendo começado a expor em Cabo Verde em 1998, segundo o sítio Artafrica. Desde então participou em numerosas exposições, nomeadamente em Lisboa, Londres, Lugo, Paris, Porto e Tunis.

A abertura da exposição está marcada para o dia 05 de Março, às 18h45 no Auditório do IC-CCP Praia.

domingo, 23 de novembro de 2008

Abraão Vicente e a emigração em Cabo Verde

Obras de jovem artista relêem tema caro à literatura do arquipélago

Por Ricardo Riso

A condição insular de Cabo Verde impôs ao ilhéu os dilemas “querer ficar e ter que partir” e/ou “ter que partir e querer ficar” em razão das condições adversas do arquipélago, ora devido às condições climáticas e geográficas desfavoráveis com as persistentes secas e solo árido para o plantio, ora com situações políticas e/ou financeiras como o colonialismo português no passado, e as desigualdades sociais e econômicas que a independência do país não conseguiu resolver. Ou seja, emigrar faz parte da cultura de Cabo Verde.

Disseminadas na literatura cabo-verdiana, a evasão e a emigração foram temas que percorreram todo o século XX gerando profundas polêmicas e atritos entre os escritores de diferentes gerações. O caso mais célebre é o da geração que lançou a revista Claridade (1936), marco da cabo-verdianidade. Seus poetas: Jorge Barbosa, Manuel Lopes e Osvaldo Alcântara (Baltasar Lopes) foram injustamente acusados de evasivos por seus pares nas décadas seguintes.

Entre os claridosos, como eram conhecidos, não havia crítica explícita ao regime colonial português vigente à época, porém, havia, sim, o surgimento de um sentimento nacional independente a Portugal, de apego à terra, fazendo da evasão a válvula de espace para o sonho, como podemos inferir no “Poema de quem ficou” de Manuel Lopes:

Eu não te quero mal
por esse orgulho que tu trazes;
porque este ar de triunfo iluminado
com que voltas...

...O mundo não é maior
que a pupila dos teus olhos
tem a grandeza
da tua inquietação e das tuas revoltas.

...Que teu irmão que ficou
sonhou coisas maiores ainda,
mais belas que aquelas que conheceste...
Crispou as mãos à beira do mar
e teve saudades estranhas, de terras estranhas,
com bosques, com rios, com outras montanhas
– bosques de névoas, rios de prata, montanhas de oiro –

que nunca viram teus olhos
no mundo que percorreste...

(ANDRADE, Mario de.
Antologia Temática de Poesia Africana Vol. 1 – Na Noite Grávida de Punhais. Lisboa: Sá da Costa, 1977. 2ª ed. p. 27)

Nos anos seguintes, aparece a revista Certeza (1944), de forte tendência marxista, que explicita o absurdo do colonialismo enfatizando o desejo de liberdade. Na década de 1950, nasce o PAIGC (Partido Africano para a Independência de Guiné e Cabo Verde) comandado por Amílcar Cabral; na década seguinte começam as guerras coloniais nos cinco países africanos dominados por Portugal que levariam à independência após a Revolução dos Cravos, em terras lusas, no ano de 1974.

O sentimento crescente de revolta e a nova relação com o mar, não mais castrador dos sonhos do ilhéu, são bens retratados por Ovídio Martins no poema “Unidos Venceremos”:

Estendemos as mãos
desesperadamente estendemos as mãos
xxxxxxpor sobre o mar
As ondas não são muros
são laços
de sargaços
que servirão de leite
à grande madrugada
Nosso amor de liberdade
xxxxxxxxxxxxe de justiça
será contemplado
e nosso povo terá direito ao pão
Povo que trabalha
xxxxxxxxxxxxMas não come
Povo que sonha
xxxxxxxxxxxxe obterá
Temos a ternura das nossas ilhas
temos as certezas das nossas rochas
Estendemos as mãos
desesperadamente estendemos as mãos
caboverdianamente estendemos as mãos
xxxxxxxpor sobre o mar.

(ANDRADE, Mario de.
Antologia Temática de Poesia Africana Vol. 2 – O canto armado. Lisboa: Sá da Costa, 1979. p. 142)

Conquistada a liberdade da nação, o cantalutismo domina a poesia engessando os temas tratados. Somente no final dos anos 1980, a antologia Mirabilis – de veias ao sol marcará uma ruptura com os eternos dilemas do ilhéu, tantas vezes versados pelos poetas cabo-verdianos. A proposta da antologia fica clara no prefácio de José Luís Hopffer Almada:

Fustigada pelos ventos (da incompreensão!), pelo sol (da hipocrisia!), pelos tempos vários do mau tempo literário, desse tempo querendo-se vegetação literária. No deserto, cresce a geração mirabílica, feita signo na margem desértica do mar. De veias ao sol. As veias da indagação. As veias alagadas da terra das estradas, da poeira do dia-a-dia, do massapé dos campos, do lixo dos caminhos suburbanos, do desespero recoberto de moscas, baratas e outros vermes. As veias loucas do mar, do marítimo lirismo dos dias afogados nos ciúmes dos montes. As veias, veias de vida, de morte, de desespero, das quatro estações místicas do que se medita no refúgio do silêncio. Veias do camponês e da enxada neste coito de séculos com a terra. Ao sol, hipócrita por entre a bruma e os cerros. Sol, signo de luz. Sol que ilumina. Sol que queima e ofusca o caminhar. Sol dependurado da perseverança secular. Mirabilis – de veias ao sol. Geração mirabílica indagando o sol. “No Deserto cresce a Mirabilis”. Diz o poeta Orlando Rodrigues. “Embora de veias ao sol”. Adita Rodrigo de Sousa, para que das imagens do deserto cresçam as palavras da nossa geração e delas reste, ao menos, o cadáver da poesia. Sugere Mito, o poeta plástico, ou que o cadáver se metamorfoseie em flor e espinho, num panorama azul, de onírico, sugere Mito, o plástico poeta. Uma única rosa é a Mirabilis, e dela queda um sol de sangue. O sol da poesia mirabílica.

(ALMADA, José Luís Hopffer (ORG.). Mirabilis – de veias ao sol – antologia dos novíssimos poetas cabo-verdianos. Praia: ICL, 1988. p.26-27)

Seguindo os novos rumos da poesia, Euricles Rodrigues escancara o rompimento com o passado literário em seu poema “Revolução – evolução”:

Viola a tua tradição
xxxxxxxxxxxxxenterra a tua paranóia marítima secular
xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxrenega a tua estreita visão interior
E busca
xxxxxxxnovas formas
xxxxxxxxxxxxxxxxxxxnovas artes
xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxnovos engenhos
xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxnova mente
De
xxcortar as amarras da estagnação
xxengravidar a terra de novo sangue
xxestabelecer nova aliança com o mar
(ALMADA, José Luís Hopffer (ORG.). Mirabilis – de veias ao sol – antologia dos novíssimos poetas cabo-verdianos. Praia: ICL, 1988. p.190)

A emigração hoje

Atualmente, Cabo Verde apresenta elevado número de emigrantes espalhados pelo mundo, principalmente nos Estados Unidos e continente europeu. Devido às dificuldades econômicas, o cabo-verdiano continua a sair do seu país a procura de melhores condições de vida nos lugares citados. Entretanto, a recessão econômica mundial crescente nos últimos anos e com maior evidência nos meses recentes, além do alto número de estrangeiros nos países de primeiro mundo, fez com que a entrada de estrangeiros sofresse sérias restrições e vigilância rigorosa.

Hoje, conseguir o “visto” para entrar em um país desenvolvido é extremamente difícil por causa das inúmeras exigências feitas pelos consulados. A conseqüência desse endurecimento é o aumento do fluxo de pessoas ilegais que arriscam a própria vida em embarcações superlotadas e com péssima estrutura, oriundas do continente africano.

Por outro lado, há um grave problema vivenciado por Cabo Verde. Por sua posição geográfica, o arquipélago acaba recebendo diversas embarcações ilegais que não conseguem atingir o seu destino, o mais comum são as Ilhas Canárias, território espanhol. Tal fluxo de clandestino gera imensos transtornos a Cabo Verde, pois o país não possui estrutura adequada para receber um grande número de pessoas vindos de várias partes da África, como a Mauritânia, Senegal, Mali e outros países. (Para ver algumas matérias sobre este problema, acesse os links relacionados no final deste texto)

Essa situação simplesmente denuncia o fracasso da política neoliberal dominante em nossos dias, onde os países do primeiro mundo fecham-se e ignoram a situação do continente africano, devastado pela miséria que assola seus países em boa parte causada pelas pressões econômicas dos europeus e americanos.

Os passaportes de Vicente

Nascido na ilha de Santiago em 1980, Abraão Aníbal Fernandes Barbosa Vicente, o Abraão Vicente, vive em Portugal desde 1998, onde se formou em Sociologia pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa.

Abraão Vicente possui um blog - http://abraaovicenti.blogspot.com/ - com diversas séries expostas, carecendo das fichas técnicas das obras.

Vicente surpreende pela variedade das técnicas apresentadas, que vão desde fotografias com cenas de batuques, de senhoras e senhores que sofrem a intervenção da pintura, criando um belo efeito plástico na série “Len di li”, a trabalhos extremamente expressivos como seus óleos sobre papel, delicadas cenas de nu em aquarelas, e instigantes trabalhos conceituais em que alia grafismos e imagens. Diversidade que poderia traduzir indecisão em sua produção, porém, felizmente, demonstra segurança, conhecimento e, principalmente, ousadia na trajetória deste jovem artista cabo-verdiano.

Em duas séries, “Retratos” e “Passports Frames”, Vicente apropria-se de passaportes para criar tensas e inquietantes obras acerca de um documento que, se pode dizer, mais do que nunca se tornou objeto de desejo do homem cabo-verdiano. Entretanto, antenado com o momento em que vive, o artista transcreve o sugestivo título de uma música dos Rolling Stones em um de seus trabalhos: you can’t always get what you want.

Despedaçando o documento do passaporte, rasurando-o, contaminando-o com pinceladas e traços de giz agressivos, pedaços de fotografias, partes do corpo humano desenhadas e textos nervosos e caóticos, Vicente denuncia o desespero a que conduz as pessoas a abandonar suas famílias e o país. Estendendo o olhar, podemos dizer que ao desfigurar tão importante documento, o artista levanta profundas discussões a respeito da identidade desse homem e da diáspora cabo-verdiana em diversos países como Suécia, Eslovênia, Estados Unidos, Brasil, Portugal, Cuba e Venezuela.

Dialongando com os traços viscerais e o grafismo neo-expressionista típico do americano Jean-Michel Basquiat – não há como não lembrar de suas obras –, Vicente mostra, pela impessoalidade das figuras representadas, o cabo-verdiano que emigra, o cidadão comum, que busca suprir suas necessidades no estrangeiro. Figuras fragmentadas, nunca representadas de corpo inteiro, despedaçadas como a vida que pretendem abandonar e a incerteza de um futuro promissor no destino pretendido. Assim como o próprio dilaceramento do documento demonstra a dificuldade de alcançar o objetivo, a saída do país. O próprio dilaceramento de Cabo Verde.

Pluralidade, diversidade, multiplicidade na escolha dos meios para expor suas obras. Abraão Vicente é um artista em sintonia com as questões que afligem o seu tempo, renovando e não se omitindo em denunciar as novas vertentes de um tema que sempre atravessou a cultura cabo-verdiana: a emigração. Seus trabalhos são impacientes e inquietos pelo tratamento dado e pelo o que fazem pensar, deslocando o observador da pura passividade da contemplação.

Abraão Vicente, um novo nome das artes plásticas de Cabo Verde que merece estar ao lado de artistas inovadores e ousados como Mito e Tchalê Figueira.


Bibliografia:
ALMADA, David Hopffer. A identidade cultural cabo-verdiana. In: Caboverdianidade & Tropicalismo – 2ª Jornada de Tropicologia. Recife: Massangana, 1992.

ALMADA, José Luís Hopffer (ORG.). Mirabilis – de veias ao sol – antologia dos novíssimos poetas cabo-verdianos. Praia: ICL, 1988.

ANDRADE, Mario de. Antologia Temática de Poesia Africana Vol. 1 – Na Noite Grávida de Punhais. Lisboa: Sá da Costa, 1977. 2ª ed.

ANDRADE, Mario de. Antologia Temática de Poesia Africana Vol. 2 – O canto armado. Lisboa: Sá da Costa, 1979.
GOMES, Simone Caputo. Rostos, gestos, falas, olhares de mulher: o texto literário de autoria feminina em Cabo Verde. In: CHAVES, Rita e MACEDO, Tânia. (Orgs.) Marcas da diferença: as literaturas africanas de língua portuguesa. São Paulo: Alameda, 2006.

Sobre Abraão Vicente na Internet:
http://www.confrariadovento.com/revista/numero18/artista.htm
http://www.artafrica.info/html/artistas/artistaficha.php?ida=195

Textos sobre emigração na Internet:
http://www.cndhc.org/?sec=5&sub=5&art=170
http://arquivo.vozdipovo-online.com/conteudos/cabo_verde/emigracao_ilegal:_cabo_verde_quer_negociar_restricao_a_entrada_de_africanos/
http://noticias.uol.com.br/ultnot/lusa/2006/05/28/ult611u72222.jhtm
http://www1.folha.uol.com.br/folha/mundo/ult94u95700.shtml