Um espaço dedicado à literatura negro-brasileira, às literaturas africanas de língua portuguesa e demais literaturas negro-diaspóricas
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segunda-feira, 2 de setembro de 2013
Vera Duarte e Ungulani Ba Kha Khosa na UFMG
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terça-feira, 30 de julho de 2013
Eneida Nelly e o cânone
Eneida Nelly e o cânone
Ricardo Riso
Resenha publicada no semanário cabo-verdiano A Nação, n. 308, 25 de julho de 2013, p. A34.
O estabelecimento do cânone fala muito
mais pelas ausências e silenciamentos impostos do que por aqueles contemplados
para constituí-lo. Sua rigidez está conotada aos espaços de poder em disputa. Assim,
é fundamental questionar a homogeneização do cânone, “ignorar essa abertura é
reforçar o papel da literatura como mecanismo de distinção e hierarquização
social, deixando de lado as suas potencialidades como discurso desestabilizador
e contraditório”, afirma a ensaísta brasileira Regina Dalcastagnè no livro “Literatura
Brasileira Contemporânea: um território contestado” (2012, p. 12).
Nas literaturas africanas de língua
portuguesa, a ensaísta brasileira Laura Cavalcante Padilha, no artigo “A
diferença interroga o cânone”, chama atenção de obras que contribuíram para a
constituição deste cânone, são as antologias “No reino de Caliban” (1975), de
Manuel Ferreira, e “Entrevistas com Escritores” (1991), de Michel Laban. Ela
afirma que:
“Lembrando o fato de que o acervo
crítico dessas literaturas se ter forjado inicialmente fora da África – na
Europa e nas Américas, com Portugal e Brasil à frente –, começo a questionar
até que ponto, o cânone “consagrado” por outras vozes que não as africanas,
submeteu-se aos mesmos mecanismos de dominação e poder que sempre tiveram como
meta elidir as diferenças, sobretudo se o objeto recortado são questões como de
gênero e raça” (2002, p. 164).
Ou seja, na obra de Ferreira temos 36
escritores e, dentre eles, apenas uma mulher (Yolanda Morazzo), omitindo-se a
questão de raça. Quase 20 anos depois, a seleção de Laban inclui 25 escritores,
entre eles, apenas uma mulher, Orlanda Amarilis. Como já afirmamos em outros
momentos, o negro e a mulher estão fora do cânone literário cabo-verdiano, por
isso, a pertinência de interrogar o cânone e a pergunta que incomoda a quem
interessa a manutenção do status quo: onde estão aqueles que sempre foram
silenciados e excluídos?
A intelectual indiana Gayatri
Chakravorty Spivak é uma das mais lúcidas vozes no combate à situação da
mulher, voz subalternizada e excluída do jogo do poder. Para Spivak (2010), essa
condição subalterna forçada mantém o silenciamento de sua voz e ainda assim
quando consegue se pronunciar não é escutada. A pergunta de Spivak: pode o
subalterno falar? O sujeito subalterno feminino não é sujeito da sua história,
não tem voz e não pode falar, falam por ele, o que se configura uma violência
epistêmica.
E perguntamos: se a mulher não pode
falar, será que a mulher negra pode falar?
Diante da heteronormatividade presente
nas sociedades patriarcais, logo brancocêntricas, não é de se estranhar a
ausência de uma escritora negra no cânone literário cabo-verdiano. Eneida Nelly
desafia esse cânone e os seus pesquisadores quando lança o seu único e
derradeiro livro de poesia, “Sukutam” (Escuta-me), em 2011. Primeiro pela
escrita em língua materna cabo-verdiana, que já conta com uma vasta produção
que é ignorada pelos especialistas da literatura de Cabo Verde – os brasileiros
que o digam, restritos à produção em língua portuguesa. Neocolonialismo? Por
que não? Segundo, nos 50 poemas do livro, Nelly desvela a mundivivência de uma
mulher negra, pobre, da zona rural da Ilha de Santiago. Estão ali a denúncia
social e a sensibilidade feminina ao retratar o cotidiano de dificuldades e de
resistência das manifestações culturais negras das camadas marginalizadas.
O papel pioneiro exercido por Eneida
Nelly ao trazer o gênero, a raça e a autoria feminina em crioulo, demonstra a
necessidade de reavaliação do cânone e da postura do pesquisador brasileiro de
literatura cabo-verdiana, restrito à produção em língua portuguesa. Diante das
adversidades da vida e do meio literário, seria surpresa o seu suicídio meses após
a publicação do livro? Tal abertura pode oferecer outras abordagens para a
literatura de Cabo Verde, contribuindo para sua diversidade. A poesia de Eneida
Nelly escancara o desejo de ser ouvida. Mas, deixaremos o subalterno falar?
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domingo, 30 de junho de 2013
António Pedro (1909-1966) (A Nação)
António Pedro (1909-1966)
Ricardo Riso
Resenha publicada no semanário cabo-verdiano A Nação, n. 302.
António Pedro da Costa nasceu na cidade da Praia, Ilha de Santiago, a
9/12/1909, e ainda na tenra idade foi para Portugal. Filho de pai português e
mãe inglesa, estudou na Faculdade de Letras de Lisboa e na Sorbonne. Foi
locutor da BBC. Atuou como poeta, artista plástico e teatro. No meio literário
português ficou conhecido pela forte influência do surrealismo em suas obras,
assim como entre os surrealistas ingleses. Veio a falecer na cidade do Minho
(Portugal) em 17/8/1966.
António Pedro foi fundamental para a historiografia literária
cabo-verdiana de língua portuguesa em razão de livro único de poesia, lançado
no arquipélago em 1929, intitulado “Diário”. Prestes a completar vinte anos de
idade, o poeta retornou a sua terra naquele ano e relacionou-se com pessoas
como Jorge Barbosa. Essa convivência fecunda estimulou Barbosa a alçar outros
voos literários para além dos anteriormente praticados nas ilhas, casos dos
antecessores António Januário Leite, Pedro Cardoso e José Lopes.
A poética constante em “Diário” revelou um autor vinculado às tendências
modernistas em voga na Europa. A versificação livre e o seu olhar distanciado
para o cotidiano das ilhas foi carregado de ironia, comum a um jovem branco de
formação europeia, que procurou se envolver com o meio novo ao qual era
(re)apresentado. Destacada sua irreverência quando o sujeito lírico deparou-se
com os ritmos locais: “Vi um batuque/ baque,/ bacanal!/ E fiquei de olhos
cansados/ – pobres selvagens –/ a ver horas e horas/ rolar a mesma dança/
doida...”, ou quando referiu-se à morna: “E a morna/ morna,/ bole/ mole,/ já
velha, sem ser antiga,/ num compasso de cantiga/ sexual.// Reminiscência dum
fado/ que, dançado/ num maxixe,/ tem a tristeza postiça/ dum cansaço.” Com esse
olhar diante do novo que António Pedro transformou esteticamente suas
impressões, sem medos ou fingimentos.
Seu olhar de estrangeiro, porém, não ficou imune ao drama da seca: “Ai
árvores ali/ e duras!,... ai!:/ e aqui/ terra queimada/ só.// Bé!,/ o pó/ da
ventania/ sufoca!/... Lá na baía/ ou doca/ ou que é,/ lá do vapor/ parecia/
melhor,/ embora fosse careca/ a terra seca,/ e o sol queimasse/ e adormentasse/
já.// Cá/ há mais do que calor,/ há dor/do sol!”. Também atento às mudanças da
paisagem com a chegada da chuva: “Chuva!,/ chuva que bonda!,/ chuva que tomba/
- bumba!...// Cheiro a chuva que embriaga.../ Chuva que alaga,/ e estraga o mal
do sol.// Esverdinharam-se os montes/ - um poema! -/ ... foi em dois dias/ um
poema...// Eram castanhos os montes/ e as árvores esgalhadas/ e atormentadas,/
e nuas...// Esverdinharam-se as árvores/ e as bordaduras/ das ruas”. Assim como
a observação irônica das relações raciais no arquipélago: “Os brancos daqui/
são mais modestos que os pretos:/ os pretos chamam-se pretos,/ os brancos
chamam-lhes gente daqui,/ e aqui.../ há brancos e pretos...”.
O livro “Diário”, de António Pedro, consagrou-o como precursor do
modernismo na literatura cabo-verdiana, a percepção, ainda que distanciada para
os aspectos sociais e culturais do arquipélago, trouxe
uma nova guinada e serviu como motivação para os jovens escritores que buscavam
romper com as formas ainda submissas e vinculadas ao colonizador português,
fato que se confirmaria com a revista “Claridade” e poetas como Jorge Barbosa e
Osvaldo Alcântara. Por isso, destacamos a relevância de António Pedro para o
desenvolvimento da mais que secular literatura cabo-verdiana de língua
portuguesa.
*
Destacamos a forte presença de Cabo Verde no “VII
Semana da África - Identidades africanas na produção audiovisual em África e na
sua diáspora”, ocorrido em Salvador (Bahia/Brasil) de 20 a 25 de maio. A
literatura fez-se presente com os escritores Filinto Elísio e Joaquim Arena,
também estavam os colaboradores do “A Nação”, Márcia Souto (Uni-CV) e Ricardo
Riso. Souto e Elísio lançaram seus livros “Fenestra” e “Me_xendo no baú”,
respectivamente, durante o evento. Além da presença do Dr. Amarino Queiroz
(UFRN), do Dr. Claudio Alves Furtado (Uni-CV), de António Tavares (coreógrafo)
e dos cineastas Leão Lopes, Pedro Marcelino e César Schofield.
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Ricardo Riso
Arménio Vieira - Metaliteratura em “No Inferno” (A Nação)
Metaliteratura em “No Inferno”
Ricardo Riso
Resenha publicada no semanário cabo-verdiano A Nação, n. 287, de 28 de
fevereiro de 2013, p. E18
Um escritor é
convidado por um mecenas para escrever um romance. Para tal empreitada é
enclausurado em uma casa que possui uma vastíssima biblioteca, mas para ter sua
liberdade de volta, tem um ano para fazê-lo e necessita que esse romance seja
considerado excelente por um júri. Caso este o avalie como uma obra prima, imediata
a libertação. Como alternativa a essas exigências, o escritor pode decifrar
incontáveis códigos de vários cacifos, porém é logo desencorajado em razão do
tempo que pode levar para atingir sua meta.
As condições
inquestionáveis transformam-se no inferno ao qual se encontra o
personagem-narrador-autor deste (não)romance realizado por Arménio Vieira: “No
Inferno” (Praia, Mindelo: Centro Cultural Português, 1999). A obra de Arménio
caracteriza-se pelo esgarçamento das fronteiras literárias comuns ao sistema
literário cabo-verdiano, afastando-se, quando muitas vezes, subvertendo o
legado claridoso, ou melhor, um anticlaridoso como bem apontou José Luis
Hopffer C. Almada. De sua lavra, dentre outros, “Poemas”, “O eleito do Sol” e “MITOgrafias”,
além da participação em jornais e revistas desde os anos 1960. Galardoado com
Prêmio Camões em 2009.
Em “No
Inferno”, Vieira vai ao extremo da metalinguagem ao realizar um “romance” no
qual a maior homenageada é a Literatura, principalmente a ocidental, com
incontáveis referências aos cânones – Homero, Dante, Shakespeare, Rimbaud – e
personagens consagrados ao longo dos anos – Fausto, Godot, Robinson Crusoé,
Romeu, Ulisses –, em uma enorme colcha de retalhos, fragmentos que se fundem,
refundem numa história assaz criativa acerca da condição desesperada de um
escritor, originalmente poeta, para cumprir a sua tarefa.
Assinaláveis
as ocorrências de natureza autobiográfica ao longo do texto, a ausência de
memória identitária do narrador-personagem e a maneira habilidosa e envolvente
como o autor conduz o leitor a esse jogo. Por outro lado, da imensa biblioteca
à disposição do personagem surge a surpresa com a lembrança de livros inteiros,
transcrevendo-os. É a ironia, figura de retórica tão característica na obra de
Vieira. A partir daí, a frustração com o que escrever, uma vez que o gênero
romance se esgotou.
Delírios
desordenados aparecem em diálogos absurdos aos quais Robinson – que
transmuta-se em Leopold, Romeu, Safo, seja lá quem for – quando desanda a
escrever não cria romances, mas contos, pequenas histórias. A narrativa avança
nas intertextualidades, mas, questiona-se: e o romance, quando começa a
escrevê-lo? Cada vez mais rápida e inusitada segue a narrativa e o leitor à
espera de algo que não acontece. O que, de maneira nenhuma, gera frustração a
quem lê, mas sim satisfação com a inventividade de “(u)m escritor talvez
inconcebível fora de uma literatura-metalinguagem”, em feliz assertiva da
prefaciadora Clara Seabra.
Arménio
Vieira vai ao extremo do que a literatura pode oferecer como revelação do mundo
e de transformar cada um de nós a partir de dentro, como bem afirma Tzvetan
Todorov em “A literatura em perigo” (2010). A literatura pode muito, Vieira
sabe e faz isso muito bem a partir de um imenso – por vezes dá impressão de
inesgotável – repertório, construindo intertextualidades que cairiam fáceis na
pura vaidade e suposta complexidade oca da maioria dos autores contemporâneos.
Entretanto, Arménio não é um escritor narcisista e submete o fazer literário à vanglória.
Sendo assim, consegue estremecer o leitor com uma inesgotável capacidade de
surpreendê-lo a partir de referências díspares, de Walt Disney a Dante, passando
por Goethe, James Dean, Safo e Michael Jackson, e assim alcança uma
metaliteratura com a construção desse envolvente (não)romance “No Inferno”.
Da metáfora
da clausura na ilha à clausura do escritor para escrever, do esgotamento do
romance ou não, Arménio Vieira, como o próprio sinaliza em Nota Prévia, cultiva
o seu jardim, assim como Hemingway, Camus, García-Márquez e Saramago; e conforme
estes, saiu-se muito bem.
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40 anos sem Amílcar Cabral (A Nação)
40 anos sem Amílcar Cabral
Ricardo Riso
Resenha publicada no semanário cabo-verdiano A Nação, n. 281, de 17 de
janeiro de 2013, p. A26
Amílcar Cabral, o líder maior do
PAIGC e da luta pela independência das nações irmãs Cabo Verde e Guiné-Bissau,
completará quarenta anos de sua morte no próximo dia 20 de janeiro. Cabral foi
um dos nomes relevantes para libertação do continente africano, escrutinando ao
longo de sua curta vida político-intelectual uma teoria crítica para a
independência plena dos países africanos. A sua defesa pela unidade africana
com um novo viés inserido no contexto das lutas anticoloniais perpassava pela
união Cabo Verde-Guiné-Bissau, pois “esses territórios por diversas vezes
estiveram sob uma mesma administração, conformando uma única província” (ANJOS,
p. 163) e retomando de forma subversiva a união formulada pela colônia
portuguesa “ao mesmo tempo que representaria uma contribuição original à
unidade africana” (CABRAL, p. 45).
Cabral era um líder cônscio dos
problemas de seu tempo expostos por fragilidades de diversas ordens, tais como
os parcos recursos econômicos substanciados na agricultura e pesca
principalmente, as dissidências políticas e as desestabilizações promovidas em
meio a uma Guerra Fria bipolarizadora do mundo, passando pelo neocolonialismo
motivado pelas autonomias negociadas com as antigas colônias e o empobrecimento
de quadros competentes nas futuras nações e os desvios éticos de seus líderes,
como afirmava a seguir: “[ele] opõe-se à exploração de sentimentos identitários
por indivíduos ou grupos no momento da sua articulação no domínio sociopolítico
(...). Os ‘sentimentos étnicos’ não constituem problemas em si próprios. Só
existe perigo quando esses sentimentos são exacerbados por dirigentes
oportunistas e ambiciosos à procura da sua promoção pessoal” (WICKS, p. 86).
Dentre outros aspectos teóricos,
talvez os mais interessantes para a tentativa de criação de uma unidade e
efetiva participação dos cabo-verdianos na luta contra o colonialismo tenha
sido as provocações de “retorno às origens e reafricanização dos espíritos”,
uma vez que esse viés à África foi contrário à valorização da mestiçagem
proposta pelos intelectuais da revista “Claridade” e sua aproximação ao
continente europeu. Era este o pensamento predominante e também apoiado pelo
colonialismo. Para o sociólogo cabo-verdiano Gabriel Fernandes: “é
fundamentalmente a partir da recusa dos traços culturais africanos e da plena
assunção dos lusitanos que a nova elite intenta afastar-se dos colonizados e
aproximar-se do colonizador. Nessa operação, instaura-se uma espécie de
dinâmica automutiladora, na qual, sob os influxos teórico-epistemológicos
resgatados ao Brasil, idealizou-se ‘um mundo que o português criou’ e em que o
africano não entrou ou está prestes a sair” (FERNANDES, p. 17).
Entretanto, para a urgência do
momento histórico por que a “estratégia por trás da formulação da identidade
mestiça não busca romper, mas situar-se mais confortavelmente no jogo” (ANJOS,
p. 156), caso dos intelectuais claridosos e referente ao que Fernandes
mencionou como “mínimo cultural compartilhado”, que os mantinha como cidadãos
de segunda classe, porém, continua o ensaísta, a emergência das formulações de
Cabral do “retorno às origens também favoreceu uma autoconfrontação dos
artífices identitários com o anverso e o não-ponderável da sua produção, pondo
a descoberto todos os vieses de uma identidade que se afirmou autonegando-se”
(FERNANDES, p. 20).
O originário pensamento de Cabral
gerou críticas e oposições de diferentes prismas, sendo combatido internamente
inclusive. Como suas ideias eram contrárias ao neocolonialismo e de difícil aceitação
pelos dissidentes internos, motivaram o seu assassinato. Fato comum aos grandes
líderes pan-africanistas da época. Para a literatura, Cabral foi enfático ao
defender a transcendência da mensagem da geração claridoso, “o sonho tem que
ser outro” e estimulou autores incisivos como Onésimo da Silveira e Mário
Fonseca, e encontra na obra poética de José Luis Hopffer Almada a revisitação
de seu passado.
BIBLIOGRAFIA:
ANJOS,
José Carlos dos. Intelectuais, literatura
e poder em Cabo Verde: lutas de definição da identidade nacional. Porto
Alegre: Editora da UFRGS; Cabo Verde: Instituto de Investigação Promoção e
Património Culturais – INIPC, 2004.
FERNANDES,
Gabriel. A diluição da África: uma
interpretação da saga identitária cabo-verdiana no panorama político
(pós)colonial. Florianópolis: Ed. da UFSC, 2002.
WICK,
Alexis. A nação no pensamento de Amílcar Cabral. In: LOPES, Carlos (Org.). Desafios contemporâneos da África – o
legado de Amílcar Cabral. São Paulo: Editora da UNESP, 2012. p. 69-106.
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Luís Romano - Clima (A Nação)
Luis Romano - Clima
Ricardo Riso
Resenha publicada no semanário cabo-verdiano A Nação, n. 268, de 18 de
outubro de 2012, p. E15
Luís Romano de Madeira Melo nasceu a 10 de junho de 1922 na Vila da Ponta
do Sol, ilha de Santo Antão, e faleceu a 22 de janeiro de 2010 na cidade de
Natal, Rio Grande do Norte, Brasil, onde radicou-se e publicou boa parte de sua
vasta e diversificada obra que inclui romances, poesia, contos, ensaios e
crônicas, “que, na diáspora, perseverou no cultivo do amor à sua terra de
origem, concebendo-a sempre como elo entre terras e culturas”, segundo a Dra.
Simone Caputo Gomes na homenagem póstuma “Luís Romano: patrimônio intelectual
caboverdianobrasileiro (Um depoimento)”.
Com destaque para “Famintos” (1962), “Negrume/Lzimparin, contos
cabo-verdeanos” (1973) e “Cem anos de literatura caboverdiana” (1985), Romano
organizou com Maria Helena Sato a antologia “António Januário Leite – o poeta
além-vale” (2005). Também poliglota, foi defensor da língua materna como língua
oficial do arquipélago chegando à conclusão “de que a língua cabo-verdeana
procede dialetalmente de um antigo português quinhentista, então praticado nas
ilhas durante as Navegações, e, como língua nacional, enquadra-se na categoria
das neo-latinas, como testemunho inegável” (ROMANO; SATO, 2005, p. 204).
Aqui trataremos do livro “Clima” (1963, Recife) que reúne uma grande
quantidade de poemas distribuídos nos sete cadernos das suas 308 páginas, o que
prejudica de certa maneira a qualidade do livro, pois alguns poemas são
dispensáveis para a estampa do livro, no nosso entendimento. Entretanto,
tamanho fôlego corresponde à postura desse incansável art’vista demonstrada
pela versatilidade linguística em poemas na língua portuguesa, língua materna
cabo-verdeana e francês, estes reunidos no caderno “Climat”, assim como a
inclusão de um caderno com poemas em prosa.
A versificação livre do neorrealismo é a característica predominante em
seus poemas. A virulência a qual denuncia as mazelas sociais assemelha-se aos
poemas de Mário Fonseca e Onésimo da Silveira. Inquestionável sua postura na
defesa dos cidadãos desfavorecidos, o sujeito lírico de Romano angustia-se com
o Humanismo – “esse sonho inexistente” (p. 137), para o qual as ideologias da
época – “a farsa do socialismo” (p. 136) – não conseguem contemplar. Por isso,
a contundência exposta com a mancha gráfica ao afirmar a sua postura contra as
injustiças no emblemático “O que sou”: “Não é preciso que me indiquem a classe
a que DEVO PERTENCER,/ (...) SOU DA CLASSE HUMANA: eis tudo” (p. 209).
Humanismo que não o deixa insensível aos problemas raciais e à
discriminação sofrida pelos negros, “porque na verdade/ ser negro é tam
natural/ quanto é/ a origem da espécie humana” (p. 234). Fato que nem sempre é
lembrado, por isso chama o “Irmão Branco” para rever seus conceitos: “escuta-me
um momento/ ainda é tempo/ porque te falo de irmão para irmão/ – No mistério
daquilo que nos formou/ – considera-me –/ Só isso nos basta/ Só isso/ e
estende-me tua mão” (p. 236). O poeta também aborda a violência sexual das
relações etnicorraciais durante a colonização, fato nem sempre lembrado quando se
exalta a mestiçagem: “A negra que varre o escritório/ teve um filho pardo do
patrão branco./ (...) O patrão arranjou outras negras para ter filhos/ como
quem muda de cigarros/ ou de camisas” (p. 141).
“Clima” é sobretudo um livro caboverdeano no qual a insularidade reforçou
o olhar corrosivo à realidade do arquipélago, de compromisso com o seu tempo,
de crença na função social da literatura, de amor: “Cabo Verde, Meu Drama, Meu
Espanto,/ Meu Berço de Fôlhas,/ ansiedade e pranto,/ esfumando-se ante meus
olhos/ como toada triste de morna distante/ para eu dormir sonhando
tranquilamente,/ sonhando eternamente Contigo” (p. 181).
*
A resenha aqui presente somente foi possível graças à oferta generosa do
livro “Clima” pelo amigo Eidson Miguel, pesquisador atento da obra de Luís
Romano desde a graduação e que vem dando continuidade na pós-graduação em
Letras da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), estado no qual
Romano viveu.
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Rasuras da História desveladas na Poesia (A Nação)
Rasuras da História desveladas na
Poesia
Ricardo Riso
Resenha publicada no semanário cabo-verdiano A Nação, n. 263, de 13 de
setembro de 2012, p. E18
As diversas revoltas contra o sistema escravocrata ocorridas no século
XIX aparecem de forma tímida na literatura cabo-verdiana, principalmente se
levarmos em conta que “raramente aqueles escritores (‘da geração claridosa’) se
debruçam sobre as grandes revoltas camponesas da ilha de Santiago. Mas
descrevem repetidamente as revoltas urbanas do Mindelo ao qual se sentem
associados”, de acordo com José Carlos Gomes dos Anjos em “Intelectuais,
literatura e poder em Cabo Verde” (2006, p. 139), como exemplo o mitificado
Ambrósio, versado por Gabriel Mariano.
Uma vertente bastante marcante da obra poética de José Luis Hopffer
Almada é o resgate de cenários, protagonistas e revoltas antiescravocratas do
passado, principalmente da ilha de Santiago, buscando a valorização da
afro-crioulidade identitária conforme o próprio poeta esclarece a este jornal
na sua edição 92: “A memória é um lugar onde se podem resguardar muitos
milagres. Lugar de refúgio e de ancoragem, pode por outro lado ser
constantemente reencenado nos termos propostos pela imaginação e pelo engenho
do criador que se propõe revisitá-la. Para além dessa pressão incontornável,
creio importante empreender algum labor de resgate do passado histórico de Cabo
Verde e, especialmente, de Santiago, ilha particularmente vituperada durante
grande parte do período colonial e do período pós-Independência. Tem-se por
vezes a impressão de que alguns se especializaram na ocultação da história da
ilha, das suas populações, das suas elites, das suas manifestações culturais
mais características... Contra a amnésia (deliberada e induzida) há que
contrapor a memória e as suas revisitações. (...) A interpretação do passado
mediante o discurso científico não substitui todavia o que ao poeta, ao
escritor e ao artista da palavra compete: criar emoções e comoções presentes
com o olhar debruçado sobre as circunstâncias e os afectos dos nossos
antepassados, reencenados no palco imaginário da nossa memória e da nossa
genealogia.”
Contra a amnésia induzida que estranhamente ignora um contexto histórico de
contestação à ordem estabelecida no século XIX presente nas revoltas dos
Engenhos (1822), Monte Agarro (1835) e Achada Falcão (1842), dentre outros
fatores, as invasões napoleônicas, a fuga da Família Real, a independência do
Brasil às lutas liberais em Portugal (VIEIRA,1993;1999), valemo-nos do que
Jacques Derrida menciona como “suplementar” para preencher as rasuras que se
apresentam na literatura a partir de um contradiscurso inclusivo, pois para o
ensaísta o “signo que substitui o centro, que o supre, que ocupa o seu lugar na
sua ausência, esse signo acrescenta-se, vem a mais como suplemento (...),
suprir uma falta do lado do significado” (DERRIDA, 1971, p. 245).
Com esta perspectiva que Hopffer Almada procura desvelar o passado
colonial cabo-verdiano nos poemas de seu heterônimo NZé dy Sant’Y’Águ, tal como
aparece no poema “Monte-Agarro”, incluído no livro Praianas (2009, p. 95-96).
Este poema retrata a malograda insurreição antiescravocrata protagonizada por
Gervásio, Narciso e Domingos em 1835, que pretendia extinguir o sistema escravista,
matar os senhores brancos e tomar a ilha de Santiago, tornando-a um Haiti
cabo-verdiano (ALMADA, 2007). Entretanto, com o insucesso “era esse o destino/ de
monte-agarro fonteana/ julangue serra-malagueta/ e dos cavalos da sua noite
exausta/ resfolegando contra os próceres/ do morgadio e do pelourinho...”
(2009, p. 96).
Encerra-se o poema recordando outras revoltas malogradas, mas permanece a
dimensão humanística da obra de José Luis Hopffer Almada conotada à evocação da
filosofia ubuntu dos direitos humanos proferida pelo filósofo Mogobe Ramose no
artigo “Globalização e Ubuntu”, que resgata o aforismo “Motho ke motho ka
batho”, que “afirma ser humano é afirmar a humanidade própria através do
reconhecimento da humanidade dos outros e, sobre tal embasamento, estabelecer
relações humanas entre eles” (2010, p. 212).
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50 anos de Seló (A Nação)
50 anos de Seló
Ricardo Riso
Resenha publicada no semanário cabo-verdiano A Nação, n. 261, de 30 de
agosto de 2012, p. E14
No dia 25 de maio de 1962, incorporada ao jornal Notícias de Cabo Verde,
nº 321, surgia o primeiro exemplar de Seló – Página dos Novíssimos, organizada
por Rolando Vera-Cruz Martins, Jorge Miranda Alfama e Osvaldo Osório, com
modestíssimas duas páginas contendo contos e poemas dos nomes supracitados mais
a participação de Mário Fonseca. Três meses depois, em 28 de agosto, sairia o
segundo e derradeiro número de Seló, o mesmo número de páginas, os integrantes
da edição inicial acrescidos do vate Arménio Vieira e da ilustre presença
feminina de Maria Margarida Mascarenhas, sendo um conto a sua contribuição.
Celebrar este primeiro cinquentenário vejo como um dever com a história
da literatura cabo-verdiana. Seló surge em um contexto histórico de enorme
efervescência com as lutas contra o colonialismo espalhadas por todo o
continente africano, os países tornavam-se independentes, ainda que poucos com
líderes pan-africanistas e propostas progressivas, casos de Gana, sob liderança
de Kwame Nkrumah, e Guiné, com Sekou Touré. Amílcar Cabral liderava o PAIGC e
inflamava a mente dos jovens nesse tempo de utopia. Apesar de toda essa
avalanche que percorria a África, Portugal mantinha-se irredutível ao negar a
ruína do império ultramarino, restando apenas a opção pela guerra colonial.
Legítima, por sinal.
No meio desse processo, a repressão nas colônias portuguesas aumenta
consideravelmente, os jornais passam a ter maior vigilância, os jovens
escritores não encontram espaços generosos para mostrar seus trabalhos, basta
recordar as duas experiências ao final dos anos 1950, Boletim dos Alunos do
Liceu Gil Eanes e Suplemento Cultural. Porém, o recrudescimento da repressão
imposta pela PIDE não inibe a coragem desses neófitos escritores, que não
abandonam a palavra insurreta e fazem do texto literário o veículo de
conscientização de seus pares. Como uma espécie de nota introdutória do
suplemento, Osvaldo Osório revela no texto “Reflexões” as propostas incisivas dentro
de um discurso contra-hegemônico que orientam esse pequeno grupo de escritores:
“e a Seló, (...) continuará a aflorar problemas e vivências do espírito ‘aqui’
e no tempo a que este se concerne – quase condicionada, na sua expressão, pelos
problemas cíclicos do homem caboverdeano”.
Bom exemplo disso é a veemência de alguns poemas de Mário Fonseca, tal como
“Fome” no qual o poeta escancara a miséria que assola o arquipélago com um
expressionismo enfurecido: “Gargalhadas de escárneo/ Rasgando/ Até as
comissuras dos lábios/ Máscaras irônicas/ Mascarando dores/ Sorrisos de
hipocrisia/ Desfazendo em blocos/ Caras mulatas/ Escondendo a fome (...) E a
fome a desfazer-se/ Em sorrisos de hipocrisia/ E a fome a desfazer-se/ Em
irônicas gargalhadas”; ou ainda na habilidade do sujeito lírico posicionar-se
tanto de forma distante quanto de se incluir no drama com a mudança pronominal
no primeiro verso de “Os Estrangeiros”: “Lá vão eles! Vedê-os! Vedê-nos!”. A
ênfase exclamativa chama atenção para uma realidade que não pode mais passar
despercebida e o poeta assume o seu comprometimento ao lado dos desfavorecidos:
“Eles caminham cambaleantes/ E eu vou com eles/ Pelos caminhos/ Do desespero e
da angústia/ Rumo à noite mais profunda do nada”.
Tais como “crianças rejuvenescidas/ que já não temem o lobisomem/ que
vinha à meia-noite chupar-lhes o sangue”, em versos de “No fim da jornada”,
poema de Jorge Miranda Alfama, esses escritores fortalecem-se na concretização
do sonho da pátria livre, renovam a esperança, denunciam sem medo os problemas
de seu tempo. Partem para a reconfiguração dos sentimentos, necessários e
urgentes como pede o momento, e assim versa Arménio Vieira: “Mar!/ do
não-repartido/ do sonho afrontado// Mar!/ Quem sentiu mar?”
Coragem, ousadia e determinação para tornarem-se agentes da história,
esses escritores assumiram a missão de seu tempo e todas as homenagens são
poucas para este primeiro cinquentenário de Seló – Página dos Novíssimos.
Rinkel e Vera Duarte (A Nação)
Rinkel e Vera Duarte
Ricardo Riso
Resenha publicada no semanário cabo-verdiano A Nação, n. 245, de 10 de
maio de 2012, p. E11
Os problemas oriundos da imposição da subalternidade às mulheres nas
sociedades africanas contemporâneas são desvelados com extrema urgência pela poesia
comprometida com questões de gênero, escancarando os preconceitos de diversas
ordens sofridos por elas. Em razão do predomínio masculino na literatura não
abordar com a devida atenção essas questões, vozes poéticas insubmissas
apresentam, a partir de um ponto de vista feminino, as opressões impostas, a
revolta e o acalanto para todas as mulheres, transformando os seus poemas em
representações de dramas coletivos.
A escritora e jurista cabo-verdiana Vera Duarte e a moçambicana Rinkel
são legítimas representantes dessa escrita comprometida a combater o machismo e
as desigualdades sociais, pois constroem uma poesia de intervenção social e em
defesa intransigente da mulher. Rinkel, pseudônimo de Márcia dos Santos nasceu
em Inhambane, em 1977, e já publicou três livros de poesia: “Almas Gêmeas”
(1998, AEMO), “Revelações” (2006, AEMO) e “Emoções e Abstrações” (2011,
FUNDAC). Hoje, Rinkel é uma destacada voz poética feminina moçambicana, ao lado
de Tânia Tomé e Sónia Sulthuane, seguidoras de importantes nomes do passado,
tais como Noémia de Sousa e Glória de Sant’Anna.
Tal como em Cabo Verde, tímida é a presença das poetisas na literatura
moçambicana, por isso a relevância das obras “Revelações”, de Rinkel, e "Preces
e Súplicas ou os Cânticos da Desesperança", de Vera Duarte, para a
representação de vozes silenciadas, visto que a persistência é a mola
propulsora desse "escreviver". A perseverança permanece acesa para iluminar um
futuro sem as desigualdades da contemporaneidade. Assim diz Rinkel: “Eu
queria./ Queria muito./ Tanto mais que acreditei que iria conseguir!/ Enfim.../
Nem tudo se consegue.../ Mas continuo acreditando./ Ainda quero./ Quero
bastante”. Já em Duarte a perseverança incontestável no porvir: “... até que um
dia/ farta já da mediania/ dos voos rasantes// que planam sem ousar// me arme
de um hino revolucionário/ e parta// em direcção a uma madrugada diferente”.
Contra as atrocidades do cotidiano, o sujeito lírico de Rinkel é rebelde
e insubmisso diante dos preconceitos patriarcais. Revolta-se, atenta as
mulheres para o destino cruel que as espera caso se mantenham inertes e as
convoca para a libertação de uma consciência feminina: “Encara a realidade
mulher!/ (...) Serás escrava do trabalho da tua própria casa,/ Não terminarás
os estudos/ Serás amante de um barrigudo/ Teus filhos serão drogados// Não
queres nada disso?/ Se não lutares para conquistares teus objetivos/ Vais
acabar assim/ Por isso, minha irmã/ Mulher! Mãe!/ Vamos à luta!// Sem homens no
comando,/ Sem ninguém dizendo que não conseguirás/ Apenas luta!/ Tu és capaz! A
vitória é tua!” Enquanto Duarte mantém uma postura corrosiva, a palavra
contestatária firme e direta a tocar nas mentes obliteradas: “Tempos novos/
ideais recuperados/ brilho no ar e transparência em tudo/ serão espelho/ onde
se refletirá/ a imagem/ diferente e subversiva/ da mulher de hoje/ a ganhar
forma/ a ganhar corpo/ a crescer/ a VIVER”.
Observadoras dos problemas de ontem e de hoje, Rinkel escancara as vidas
destruídas, de famílias dilaceradas por ‘companheiros’ ausentes, capazes de
abandonar suas mulheres grávidas entregues à própria sorte, como no sugestivo
título do poema “Lei da Família Moçambicana”: “Barrigas grávidas/ De pais
ausentes, infiéis, polígamos// Amantes/ Sem planos/ Sem promessas/ Sem
esperanças/ Sem futuro// Apenas amantes”. Enquanto Duarte demonstra as
consequências desse abandono e de sonhos dilacerados: “(...) Queria ser uma
mulher sensual/ De formas cheias/ E peito redondo//(...) Queria ser.../ ... e
não sou// (...) Queria mas o meu peito/ se exaure/ na busca desesperada do
leite/ para a criança/ que me morre nos braços”
Por fim, Vera Duarte e Rinkel são vozes poéticas que incomodam a ordem
estabelecida, vozes assumidamente feministas e corrosivas, imprescindíveis nas
literaturas de seus países.
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Kaoberdiano Dambará (A Nação)
Kaoberdiano Dambará
Ricardo Riso
Resenha publicada no semanário cabo-verdiano A Nação, n. 243, de 28 de
abril de 2012, p. E14
Raras são as manifestações literárias da afro-crioulidade e da língua
materna na literatura cabo-verdiana entre os nativistas, hesperitanos e
claridosos até a chegada de uma postura mais contestatária dos representantes
da Nova Largada, sendo assinalável para a timidez de tal afirmação a postura
racista, branca e eurocêntrica da colonização portuguesa que sempre procurou
desvalorizar os aspectos culturais da afro-crioulidade e das origens negras
contribuintes para a formação da sociedade cabo-verdiana.
Diante de quadro opressor e de negatividade explícita, favorecido por um
discurso de exaltação à mestiçagem que oculta os traços identitários negros, um
sentimento afro-crioulizante só poderia surgir atrelado a um quadro de ruptura
com a então colônia e de necessária libertação em prol da independência da
nação a ganhar corpo na década de 1940, se torna um processo irreversível nos
anos 1950, com a criação do PAIGC e a idealização da “reafricanização dos espíritos”
de Amílcar Cabral e Manuel Duarte, e atinge o seu auge na década seguinte com
as guerras coloniais iniciadas em Angola, Moçambique e Guiné-Bissau.
Nessa perspectiva, é de suma importância para a compreensão da luta
anticolonial o papel exercido pelos escritores que vivenciaram esse período a
leitura da obra de Kaoberdiano Dambará, pseudônimo de Felisberto Vieria Lopes,
nascido em 1937 na ilha de Santiago. Segundo Mario Pinto de Andrade no prefácio
para a Antologia Temática de Poesia Africana – O Canto Armado, vol. 2:
“Kaoberdiano Dambará, que define a revolta para a liberdade, indica claramente
o dever do militante de brandir o ferro no cimo dos montes. Daí o facto de o
PAIGC ter saudado então a poesia do autor de Nóti (edição do PAIGC, 1964) como
‘das mais vigorosas, combativas que jamais se escreveu em língua crioula’”
(1979, p. 13).
Expressiva é a maneira como a defesa do negro, do país e da África livres
apresentam-se em seus poemas, também totalmente compreensível o apoio à
divulgação de sua obra pelo PAIGC, já que os poemas são em língua materna e
incisivos nas suas críticas como demonstram os textos selecionados na antologia
supracitada de Andrade e no vol. 1, intitulado na Noite Grávida de Punhais. O
uso do imperativo mostra o poder de arregimentação para a luta que se trava em
todo o continente: “Ergue-te e caminha filho de África/ ergue-te negro escuta o
clamor do povo: África Justiça Liberdade”.
Sua obra desvela os motivos da falta de união e os conflitos existenciais
do ilhéu a partir da perspectiva racial: “Bo bem di londji / (...) Dikansa no
bem kombersa / xinta bo bem flam,’m ta pidi’u!/ (...) nôs sangui ê kêl um ta
korê na vea./ Ma ê kel: - Branko dja suparano,/ bo ta diskunfia di mi!”. Manifesta
o caráter didático ao revelar o arquétipo do opressor na figura do espantalho
do grande latifundiário: “Na triatu’l Mundo,/ tud’ê forsa’l Distino,/ tud’ê
forsa’l spantadjo:/ Nhôs da ko nho Fifi na tchon,/ spantadjo ta kaba, Distino
ta kaba!
Como também é assinalável a gradação tensa das estrofes rumo ao processo
de conscientização identitária negra e libertária do poema Juramento em
intertextualidade com “O galo cantou na baía” de Manuel Lopes: “galo dja korko
assa;// sê pam sirbi Branko, ma’m krê morê/ probi, sukuro, negro – na bo pé:/
nh’aima ta russussita na floresta.// Nha mai dexam mustura nha sangui/ ko
tromento, ko batuko, ko stribilim:/ Aima di nôs guentis dja labanta di koba!”
Substantivos os poemas dedicados ao grande líder Amílcar Cabral após a
sua morte e a perpetuação de seus ideais para revigorar e inspirar a poesia de
combate, sendo homenageado com as letras de seu sobrenome iniciando cada verso:
“Canto no ôbi, no ka cêta:/ Anôs, nôs sorti ê spantado,/ Bento ki passa na sono,/ Riba’l kórda’l nôs bida,/ Anti kôrda, djê passa;/ Liberdádi ê kaminho kâ dexano!”
A luta pela libertação do país e a valorização do negro cabo-verdiano
como inspiração para a poesia de Kaoberdiano Dambará é a testemunha da utopia
que virou realidade.
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Mulheres na poesia cabo-verdiana (A Nação)
Mulheres na poesia cabo-verdiana
Ricardo Riso
Resenha publicada no semanário cabo-verdiano A Nação,
n. 239, de 29 de março de 2012, p. E20.
O mês de março configura-se como o de celebração da
mulher, assim como de reflexão das condições adversas de subalternidade por que
passam as mulheres no mundo diariamente, realidade assaz comum em sociedades
regidas pela ética patriarcal-capitalista e de ideologia racial branca como
padrão hegemônico.
Da insistente pertinência e urgência do tema, em
trocas por correspondência eletrônica com a socióloga e poetisa Eurídice
Monteiro, intelectual com destacada presença na defesa dos direitos da mulher
cabo-verdiana, venho desenvolvendo algumas questões acerca da poesia de voz
feminina em Cabo Verde.
Em profunda análise da trajetória das
mulheres-poetisas em Cabo Verde, Monteiro discorre sobre a exclusão social e
literária que essas mulheres sofreram e sofrem ao longo dos anos, conduzindo-as
a fazer do texto literário o espaço para denúncia de suas condições
invisibilizadas ou estigmatizadas pelo cânone do arquipélago.
O texto de Monteiro revela questões impeditivas que
abarcam aspectos culturais, sociais, raciais e de gênero para apresentar a
“imposição da subalternidade do Outro” determinados por três paradoxos, sendo o
primeiro a cultura dominante que ainda se funda em termos europeizantes e
regionalizads, nos quais se destacam o padrão étnico-cultural africanizante
como de suposta inferioridade cultural predominante na ilha de Santiago; o
segundo trata das diferenças entre os espaços urbano e rural; enquanto o
terceiro revela a dialética de inclusão e exclusão das mulheres, em diferentes
combinações de gênero, classe, ou região, estigmatizando diferenças internas de
erotismo e exotismo no coletivo das mulheres das ilhas de S. Vicente e
Santiago.
A partir dessas formulações, Monteiro questiona a
ausência de poetisas no período nativista e na revista Claridade, sendo que
nesta jamais foi publicado texto de qualquer escritora, enquanto naquele a
ensaísta faz um interessante levantamento de poetisas com textos publicados nos
almanaques de lembranças, tendo especial destaque Antónia Gertrudes Pusich,
autora da primeira obra publicada de autoria cabo-verdiana, «Elegia àmemória
das infelizes victimas assassinadas por Francisco de Mattos Lobo» (poemas,
1844), e a primeira mulher a dirigir e fundar jornais.
A ensaísta mostra-se audaciosa ao questionar o cânone
e revelar o sexismo claridoso ao tratar a condição da prostituição nos poemas
de Jorge Barbosa em importante comparação a poemas de Yolanda Morazzo, assim
como a voz poética feminina evocando a participação como sujeito da história em
Vera Duarte e Carlota de Barros, para além da subversão das práticas sexistas
homogenizantes através da apropriação das manifestações culturais e da memória
coletiva. Para isso, menciona-se a importância da tradição oral revista por Nha
Nácia Gomi e sua “ironia mordaz e desafiadora das práticas sociais sexistas”.
Enriquecedores para os interessados na temática são
as propostas comparativas de textos pré e pós-independência e entre gêneros
literários, como Lay Lobo e Maria Helena Spencer; a perspectiva da luta
feminista em Vera Duarte e Dina Salústio; a percepção das vozes diaspóricas e o
deparar-se com as mutações do arquipélago no regresso em Carlota de Barros; e o
especial destaque à Eneida Nelly, jovem poetisa que recentemente deu fim à
vida, como resposta à asfixia vivenciada cotidianamente por uma mulher negra,
pobre e “colocou simultaneamente em debate o acesso desigual ao campo
literário-cultural, entre homens e mulheres de uma dada ilha, bem como entre as
mulheres de diferentes classes sociais ou regiões do arquipélago”, condição
traduzida no sugestivo título de seu único livro: “Sukutam” (Escuta-me).
Trata-se de um ensaio fundamental por chamar atenção
para o fato da marginalização das mulheres na sociedade cabo-verdiana manter-se
desde os tempos coloniais, mas que vem sendo alterado gradativamente por
vozes-mulheres cada vez mais inseridas nas diferentes áreas do saber.
Danny Spínola – Do Paraíso dos Rabelados de Santiago (A Nação)
Danny Spínola – Do Paraíso dos
Rabelados de Santiago
Ricardo Riso
Resenha publicada no semanário cabo-verdiano A Nação, n. 235, de 1 de
março de 2012, p. E13.
João Vário e Timóteo Tio Tiofe, os heterônimos de João Manuel Varela, apresentaram novos paradigmas à poesia cabo-verdiana com a inserção do longo
poema narrativo, metáforas muito bem elaboradas e complexas, o conteúdo
epicizante quando também heroico, assim como questões ontológicas e metafísicas,
características que isolaram Varela de seus pares poéticos como também o fez boa
parte da crítica especializada das literaturas africanas de língua portuguesa,
que em sua sistematização restrita à poesia de resistência não considerou a
obra de Varela como pertinente à formação da literatura cabo-verdiana. Porém,
como frisou Pires Laranjeira, a obra de Varela com seus “Exemplos” é pioneira
na perspectiva de antecipar a universalidade preponderante a partir dos anos
1980 no macrossistema dessas literaturas, fato que o próprio Varela, assinando
como T. T. Tiofe, mencionou como desacertos da crítica e apontou a mudança de
paradigma na poesia de Cabo Verde.
Danny Spínola, pseudônimo de Daniel Euricles Rodrigues Spínola, nascido
na ilha de Santiago, assim como José Luiz Tavares, entre outros, é um poeta
contemporâneo que dialoga com as obras de Vário e Tiofe. Spínola, já com vasta
obra literária e ensaística, debruça-se sobre a sua terra e sobre o homem
cabo-verdiano para fazer deles matéria de sua poesia, conforme apresentado no
poema “Do Paraíso dos Rabelados de Santiago” (pp. 299-306), inserido na
antologia “Destino de Bai”, sob organização de Francisco Fontes.
A respeito dos Rabelados afirma o autor em nota que se trata de
comunidades religiosas de ordem romano-cristã “que se afastaram da Igreja
Católica em 1942, devido aos novos preceitos da igreja, e foram viver isolados
(...) em comunidades dispersas pelo interior da ilha de Santiago. Comungando
uma vida natural, ligada à natureza, vivendo em casas de madeira e colmo, não
aceitando nada que cheirasse à modernidade, foram perseguidos e presos pela
PIDE, acusados de revoltosos políticos que apoiaram Amílcar Cabral”.
Dividido em cinco partes, o poema “Do Paraíso dos Rabelados de Santiago”
apresenta um sujeito lírico a narrar a saga épico-telúrica e heroica desses
filhos “erigidos pela lei da pedra e do vento”, enfatizando a primeira pessoa
do plural quase como anáfora com o uso do verbo “falamos”, ou reforçando a
apresentação desse “punhado de gente, crente” com o uso do advérbio “eis”.
Assim o sujeito lírico valoriza “estes filhos do conflito e da fé”, tanto
religiosa quanto política, “lutando contra o mundanismo e os mosquitos;/ As
pulgas e a modernidade das reluzentes garrafas DDT/ Em uníssono com o estigma
do Graal”. Na fé rebelada “querendo reinventar e reviver, como era no
princípio,/ Os auspícios do verbo e da maçã,/ Negando a intromissão e a
dominação/ Daqueles que dá nação as rédeas detêm”.
A poesia desvela o humanismo comovente em ricas imagens: “Tudo que seja
ouro ou moeda sem carne, ao seu desprezo votam/ Enquanto que o prumo de uma
choupana/ Ou o coração de um bosque à sua sombra/ São hóstias de sol a sol em
suas faces/ São eucaristias de sal nos seus precários pratos”. E tal como
Vário/Tiofe, vale-se da enumeração vasta como característica formal: “Eis os
filhos dos homens revelados/ Com as suas cabanas e seus funcos de cana e de
funchos/ Com os seus corpos tão-só cobertos de algodão e linho/ Com os seus
peitos de acordeão e alcatrão/ Ornamentados de madeira e sisal em cruz/ Com os
seus pés nus, gretados e hirtos, rescindindo a lavas e cinzas/ Com os seus
barros, os seus odres e as suas madeiras utilitárias/ Aguardando impassíveis os
derradeiros sóis dos céus”.
Da fé telúrica, “são esses os poucos cuja voz a natureza, de pássaros e
fonte, entende”; de caráter libertário e reformulador, “lá vão eles inventando
suas mezinhas,/ As suas poções místicas e as suas alquimias”; de sincretismo
religioso, “tementes aos Eclesiástes e aos Provérbios”.
Eis os Rabelados do Paraíso de Santiago em bela e justa homenagem
de Danny Spínola.
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Arménio Vieira – MITOgrafias (A Nação)
Arménio Vieira – MITOgrafias
Ricardo Riso
Resenha publicada no semanário cabo-verdiano A Nação, n. 233, de 16 de
fevereiro de 2012, p. E20.
A voz poética singular de Arménio Vieira revela alguns dos melhores
momentos da poesia cabo-verdiana, escorada na ironia fina e surpreendente, no
sarcasmo corrosivo, na referência e reverência a toda uma cultura litero-filosófica
ocidental estendendo-se às culturas orientais, árabes e do continente americano
em busca de uma universalidade plena que demonstra vasta erudição e intenso
labor de sua tessitura poética. Um livro de Arménio é deparar-se com um mundo
ilimitado de imagens a dialogar, ora de forma explícita, ora de forma
implícita, com autores expandindo-se em diferentes formas que vão do hai-kai a
prosa poética, passando pela poesia experimental etc.
No livro MITOgrafias, da cabo-verdiana Ilhéu Editora e lançado em 2006,
em três cadernos – Canto das graças, Dez poemas mais um (dedicado a João Cabral
de Melo Neto) e MITOgrafias (tendo uma parte intitulada “A musa breve de
Silvenius, que vai sendo longa”), o poeta renova o seu desmesurado arsenal
poético a serviço de um sujeito lírico que navega pelo filosófico, mitológico,
político, religioso, entre outras facetas de uma ininterrupta mutabilidade
sempre subordinada a um rigor com a palavra poética precisa, exata e depurada. Preocupação
estética que se apresenta ironicamente com o fazer poético e as simplórias
soluções de colegas das letras e o uso de referências pouco criativas: “Com
pauzinhos de fósforo/ podes construir um poema.// Mas atenção: o uso da cola/
estragaria o teu poema”, assim como a crítica a poetas que configuraram estilos
na literatura de língua portuguesa, casos de Quevedo e Góngora: “Comparar um
poema a um barco/ ou dizer dele que é uma rolha/ à deriva no azul, e, (...)/
sacar daí um texto/ em que os versos, em vez de versos,/ são mastros e velas e
remos,/ é anunciar aos peixes que se preparem,/ pois alguém perdeu a bússola/ e
um naufrágio é normal que aconteça”.
Uma poesia a serviço da transgressão que subverte os temas comuns da
literatura cabo-verdiana como a seca e a chuva, procura no referencial
brasileiro cabralino a Severina estética da pedra: “Não há guarda-chuva, João,/
contra o suão que em Setembro/ é uma vespa mordendo/ como se para o martírio/
não bastasse o calor e a secura./ Tão duro é o suão/ que, embora não tenha um
som,/ se porventura o tivesse,/ jamais seria o som/ da chuva, que, ainda que
molhe/ e mate, nunca mata queimando”.
Atento observador dessa vida “que é ácido e roda dentada”, poeta que
jamais fugiu aos enfrentamentos da vida, revela o sujeito lírico que “Eu...
sou/ como eu sou. Tenham paciência”. E assim, insubmisso e humanista, ataca a
crueldade dos líderes sanguinários que aparecem aos montes em seus poemas:
“Robespierre e Adolf Hitler/ se Átila os visse,/ largava a espada/ e fugia a
cavalo”; porém, não deixa de ser sarcástico ao valorizar a inventividade
poética à violência como o fato do título dar continuidade ao poema em
“Apollinaire nas trincheiras” “declarou guerra à vírgula. O kaiser/ declarou
guerra aos franceses”.
A dessacralização nas diversas ordens dos mitos greco-latinos, dos referenciais
literários e filosóficos até arrancam o riso diante de desmedida ironia, por
outro lado causam desconforto surpreendente quando há o mergulho nos mais
tenebrosos infernos, visto que “há infernos sérios,/ pavorosos, como o vento,
ciclónicos,/ não cabem nos livros, ninguém os pinta”, oriundos do mundo perverso
dos homens e que “consta que Cérbero,/ o cão de três cabeças,/ fugiu do Inferno
assim que os tipos/ da Gestapo aí entraram”.
A linguagem corrosiva que transfigura os referenciais gregos, como em
“Excentricidades gregas”, ainda dá espaço para questões de ordem ontológica e
metafísica, como também da religiosidade cristã subvertendo os seus
dogmas são exemplos os poemas “A explicação dos deuses” e a onipresença de
Deus em “Exercício teológico”.
MITOgrafias apresenta o poeta em estado pleno de maturidade poética,
sempre inquietante e renovadora. É um prazer indescritível ler Arménio Vieira.
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António Januário Leite – o poeta além-vale (A Nação)
António Januário Leite – o poeta
além-vale
Ricardo Riso
Resenha publicada no semanário A Nação, n. 231, de 2 de fevereiro de
2012, p. E16
De escassa produção, a literatura cabo-verdiana da virada dos séculos XIX
e XX, o período do cabo-verdianismo, revelou nomes de extremo interesse, porém
pouca diversidade temática, com destaque para os articuladores do mito
hesperitano, Pedro Cardoso e José Lopes, a poesia de Eugénio Tavares, a prosa
cabo-verdianista de Guilherme Dantas e José Evaristo de Almeida.
Esses escritores valeram-se da implantação da imprensa e do surgimento de
uma elite letrada nas ilhas, revoltas motivadas por condições inaceitáveis da
administração colonial e sufocadas pela metrópole, assim como o fim da
monarquia e o início da república marcaram o conturbado contexto político da
época.
Na literatura, os autores desse período foram influenciados pelos
movimentos de destaque em Portugal, tais como o romantismo, o simbolismo e o
ultrarromantismo. O poeta António Januário Leite (AJL) dialogou com estas duas
últimas correntes. Nascido em Chã Margarida, no Paul, ilha de Santo Antão, a 10/06/1865
e faleceu em 10/06/1930, após uma vida com graves problemas de saúde causadores
de vários impedimentos durante a infância e a adolescência, e dificuldades
financeiras na vida adulta em razão de seu envolvimento nas ações subversivas
organizadas por seus pares.
O livro “António Januário Leite – o poeta além-vale” contém perfil
poético-biográfico e antologia organizada pelo escritor Luís Romano e
apresentação de Maria Helena Sato, sob a chancela da editora brasileira Komedi
em 2005. Os poemas estão divididos em três cadernos: Ecos da juventude (até
1890), Expansões d’alma (1890-1900) e Horas sombrias (1900-1930); os três cadernos
subdivididos em sonetos e outros cantares.
Rígido sonetista, precursor de ótimos sonetistas contemporâneos, casos de
Filinto Elísio e José Luiz Tavares, a poesia de AJL é impregnada pela metáfora
e figuras como assonância e aliteração, do penumbrismo típica dos simbolistas,
com forte influência de Charles Baudelaire, conduzindo o sujeito lírico de AJL
a subverter a contemplação do mar: “Mas quando do seu leito vasto e fundo/ o
vejo erguer-se em fúrias desmedidas,/ Titão que acorda, amedrontando o mundo,/
tigre esfaimado que só pede vidas...// E sobre o dorso das medonhas vagas/ vejo
pairar a vela com receio,/ então exclamo, vendo as suas plagas:/ Senhor!
Senhor! como o mar é feio!”.
O pessimismo ultrarromântico dos autores do Mal-do-Século é um tema
recorrente, como no poema “Biografia”: “Imersa em dolorosa enfermidade,/ a
minha infância vi correr obscura;/ só vendo a paz em sonhos e aventura./
Chorando, atravessei a mocidade.// Por toda a parte a negra adversidade/ e
sempre a minha estrela infausta e dura,/ eu creio estar ao pé da sepultura,/ a
porta que conduz à Eternidade!”
O apego à morte e o desejo de versá-la são trabalhados à exaustão: “Todos
te odeiam! vou cantar-te, Morte,/ ó nossa eterna amiga verdadeira,/ que nos
estende a mão hospitaleira/ no fim do nosso caminhar sem norte!” Fixação
temática que lembra a boa poesia de Valentinous Velhinho.
Essas características levam o sujeito lírico ao desencanto com a
Humanidade: “Lastimo o nada desta vida escura,/ tão cheia de ignorância e de
vaidade;/ a vida da chamada – Humanidade –/ que por momentos ou instantes dura.//
(...) Abre os teus olhos, Homem, vê a fundo/ o que és e o que te cerca; tudo é
peta:/ és nada, como nada és o teu mundo!”
O amor não realizado, comum aos ultrarromânticos, é transferido para a
adoração da figura materna, presente em diversos poemas: “Mãe!... recebe estes
meus versos,/ embora na dor imersos, em sinal de gratidão”.
Apesar do desencanto, o nativismo surge de forma simplória: “Paul! oh!
terra extremosa,/ onde nasce e cresce a rosa/ e a laranjeira formosa/ a sorrir
à luz do sol”.
Esta compilação de poemas de António Januário Leite revela um poeta em
sintonia com as correntes literárias e aos problemas de seu tempo. Seus poemas
são uma excelente amostragem da vertente ultrarromântica no sistema literário
cabo-verdiano.
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Tchalé Figueira - Contos da Basileia (A Nação)
Tchalé Figueira - Contos da Basileia
Ricardo
Riso
Resenha
publicada no semanário A Nação, n. 194, de 19 de maio de 2011, p. 23.
As
vivências na diáspora cabo-verdiana marcam os textos reunidos em “Contos da
Basileia”, este novo livro de Tchalé Figueira. Sua escrita carregada em
oralidade, leve e solta apresenta as aventuras e as desventuras no cotidiano de
um jovem imigrante que saiu de Cabo Verde - então colonizada por Portugal para
não servir às tropas salazaristas -, na cidade suíça da Basileia dos anos
1970/1980. Tal fato se confunde com a própria biografia do autor.
Pela
voz do narrador vemos as agruras que passam os cabo-verdianos na terra longe,
encarando os subempregos e a vida com parcos recursos: “porque costuma
matar-nos in extremis a fome soltando saborosos sanduíches depois da meia-noite
quando o local encerra as suas portas. Pãezinhos que sobram todas as noites e
se não forem comidos acabam em contentores de lixo. Porra! Aqui na Suíça até o
lixo é luxo!”. E as constantes lembranças das ilhas do seu país: “Fomos viver
durante semanas junto ao mar que tanta falta me faz na Suíça e me dá fortes
saudades de Cabo Verde”.
Momentos
históricos dos anos 1970 são retratados, como a felicidade com a independência
do país: “Cabo Verde conquistou hoje a sua independência depois de quase
quinhentos anos de domínio português, mano, e finalmente somos uma terra livre,
mano, e vamos comemorar com uma feijoada”. Descortina-se uma Basileia
cosmopolita, com exilados de várias partes do mundo. Estão lá peruanos, turcos,
brasileiros, nigerianos e outros que compartilham suas experiências nas lutas
contra o imperialismo, marcas de uma época de utopias. “Escuto uma miríade de
idiomas que não percebo mas fascinam-me”, diz o narrador.
A
literatura é reverenciada pelo narrador ao celebrar o encantamento com o real
maravilhoso latino-americano e seus representantes: “Hoje sou fã
incondicional do real maravilloso (...)”; ou ao
ter contato com um texto de Amílcar Cabral: “Jamais tinha visto ou lido um
livro escrito pelo herói da nossa Nação!”, Das artes plásticas, o deslumbre e o
olhar sensível: “deparo com as gigantescas
pinturas dos abstractos expressionistas americanos e o meu coração bate
descompassadamente, fico em transe apreciando as enormes manchas coloridas de
Clifford Still, (...) os dripping de Jackson Pollock e de repente vejo-me
diante do último quadro que Mark Rotko pintou antes de se suicidar aos oitenta
e tal anos da sua vida a minha alma fica de novo angustiada”.
Entretanto,
a maior reverência que há nesses contos é destinada às mulheres, presenças
marcantes nas histórias. O narrador não discrimina etnia, religião, posição
política etc. Elas são bonitas, inteligentes, cultas, gostosas; bibliotecárias,
artistas, mães de seus filhos; suíças, espanholas, cabo-verdianas, americanas;
chamam-se Zoe, Bia, Barbara (“a que tem nos olhos a tonalidade azul do mar de
Cabo Verde”), Rita, Marta, Claudia, Flora, Liza, Rachel... Elas são as
responsáveis pelas situações inusitadas dos contos, como as viagens repentinas; revoltam-se
com a sua libertinagem; e o inesperado encontro entre sua mulher e uma amante
em um parque com seus filhos mestiços.
Contudo,
não é apenas o lado cafajeste que se revela do narrador, há o reconhecimento e
a paixão pelas mulheres, assim como a valorização por contribuírem no seu
desenvolvimento cultural, como as discussões literárias acerca dos contos de
Jorge Luis Borges, o contato com a música erudita e aprendizado para apreciar o
jazz.
Bom,
após a travessia das páginas de orgias com mulheres, literatura e artes
plásticas dentro de um cotidiano imprevisível de um mulherengo contumaz, fica o
sorriso por identificar, através de uma escrita despretensiosa, a vivência, as
experiências felizes, o choque cultural, as dificuldades encontradas pelo
cabo-verdiano na tão sonhada, e às vezes ilusória, terra longe. “Contos da
Basileia” proporciona uma leitura agradável para ser degustada “como um bom
copo de grogue de S. Antão”.
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Valentinous Velhinho – Adeus Loucura Adeus (A Nação)
Valentinous Velhinho – Adeus Loucura Adeus
Ricardo Riso
Resenha publicada
no semanário cabo-verdiano A Nação, n. 188, 7 de abril de 2011, p. 10.
Ultrapassar os limites da linguagem poética por uma
dicção própria dentro do panorama literário cabo-verdiano, originalidade
caracterizada por uma linguagem rebuscada, por metáforas insólitas e surreais,
por figuras como o paradoxo, a inversão e a ironia que perpassam as diferentes
experimentações estético-formais sempre atingidas com excelência por
Valentinous Velhinho em longos poemas de versos livres ou na concisão de
dísticos e tercetos, também em sonetos.
Em seu 2º livro de poesia, “Adeus Loucura Adeus”,
lançado pela edições Artiletra em 1997, Valentinous Velhinho desvela a expansão
de seu mundo poético que possui “no quarto as quatro estações/ E não as quatro
paredes” metamoforseadas para a “Morte, a Solidão, a Loucura, o Desespero”, temas
que são trabalhados à exaustão e com resultados surpreendentes, para além da
incessante recriação de temas bíblicos e da exploração criativa de cânones da
cultura ocidental, de Nietzsche a Sísifo, passando por Lautréamont e Fernando
Pessoa.
“O poeta e a sua língua de fogo” faz do inusitado a
matéria para a tessitura poética, principalmente no que diz respeito à Morte,
tratada com obsessão: “Eu quero a morte, a minha primeira viagem a sós”. Desejo
motivado diante de uma percepção do real desarranjado em que vive: “e a
realidade em suma/ é, por isso sòmente, mais bastarda e cada vez mais nenhuma”,
encorajando-o a redimensionar o labiríntico mundo que se encontra: “Sim, a
chave do labirinto a entrada é./ E a sombra uma saída para dentro./ Ao pé do
labirinto gira à toa o mundo,/ Pois que o labirinto já aqui é outro mundo”.
Como “o poeta não faz nada em vão”, as indagações
ontológicas e metafísicas são permanentes, instala-se a crise do ser perante a
impossibilidade de respostas: “E um homem (um homem/ Entre si e o estar
sozinho) pensa./ Os olhares que às coisas deita,/ Olhares tão fixos, não o sabe
ele,/ São afinal os seus monólogos, compreendê-lo. (...)/ Às suas dúvidas se
atiram os ombros./ As suas dúvidas tantas, para nada!” Condição que leva o
sujeito lírico ao desespero e torna o suicídio uma opção viável: “Se te
assaltar a meio da noite/ Uma razão qualquer// Um minuto depois, já pensado e
re/ Pensado o assunto, podes então dar/ Cabo da vida, um minuto depois, que,/
Mais do que esse tempo, é dar/ Importância à vida, ao mundo – e,/ Quem sabe a
ti próprio! – se te assaltar/ A meio da noite, a meio da noite, uma razão!”
A releitura peculiar dos temas bíblicos é uma
característica marcante na sua poesia, ousadia a serviço do insólito frente aos
dogmas católicos: “Não para que a separasse da treva/ Mas para que a apartasse/
Do seu espírito movendo sobre/ A face das águas é que Deus fez a luz./ É para
que esta lhe parecesse sua,/ Definitivamente sua,/ Apagou-a só para ter esse
prazer./ Foi na treva que Deus se descansou./ Na treva e sùbitamente”.
Um tanto distante dos temas que consagraram a poesia
cabo-verdiana, o sujeito lírico subverte o terra-longismo enquadrando-o ao
insólito, comum à sua poesia: “Ia-me narrando maravilhas./ Nessa tarde,
lembro-me,/ Falou-me de uma terra longínqua./ Na última estação/ A seca fora a
mais desesperadora./ Um teimoso homem de campo,/ De boné à cabeça íngreme,/
Chegara a ponto de esconder na terra,/ Como se de um mijo se tratasse,/ O
chuvisco que tombara – o próprio”.
Valentinous Velhinho, heterónimo de Valdemar
Valentino Velhinho Rodrigues, possui uma poesia surpreendente, virulenta e de
imagens inusitadas, pelo espanto da reformulação de significantes em uma
linguagem surreal, por vezes paradoxal, de um poeta que vivencia a própria
insularidade dentro do panorama literário cabo-verdiano, configurando-se como
um dos seus mais criativos artífices. “Adeus Loucura Adeus” confirma a
excelência do poeta.
“Francamente. Não sei como seguir com estes versos,/
Nem o sabe o coração, este pobre sopro da alma./ Ao menos carregasse o espírito
uma só interrogação minha./ Ao menos a alma me envolvesse com um aceno de
despedida.”
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