Um espaço dedicado à literatura negro-brasileira, às literaturas africanas de língua portuguesa e demais literaturas negro-diaspóricas
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domingo, 20 de março de 2011
Curso “LITERATURA, FUTEBOL E NEGAÇA
Salve. Positividade. Com licença para um chamado.
Edições Toró, Sarau da Fundão e Coordenadoria de Bibliotecas da Secretaria Municipal de Cultura de SP - SMC convidam para o curso “LITERATURA, FUTEBOL E NEGAÇA".
Considerando as fintas, impedimentos e soladas das relações étnico-raciais brasileiras, abrindo rumos para vivências em Arte/Educação que contemplem questões ancestrais e urgentes da população negra e do povo brasileiro em geral. Atentando à forma e ao conteúdo (separados tantas vezes falsamente).
Com oficinas, aulas teóricas, projeção de vídeos, fotografias e músicas, leituras dramáticas e mapas.
Cinco encontros aos sábados, de 02 a 30/04/2011.
02/04 – "100 anos jogando com a raça: discriminação, ascensão social, pátria e grandes negócios”, com Flavio Francisco (Historiador e Pesquisador das Mídias Negras do começo do Século XX) e Uvanderson Vítor (Sociólogo, Pesquisador das Desigualdades Sócio-raciais Brasileiras)
Com textos de Nelson Rodrigues, Gilberto Freire e João Antônio
09/04 - "De Retratos a Chuteiras – A Nação envergonhada", com Monica Cardim (Fotógrafa e Arte-Educadora, Mestranda em Estética e História da Arte).
Com textos de Lima Barreto
16/04: "Corpo Negro em futebol e teatro: Dramaturgias, cenas e ritual", com Evani Tavares (Atriz, Angoleira, Doutora em Artes pela UNICAMP):
Com textos de Cidinha da Silva e Oduvaldo Vianna Filho
23/04: "O baque do Maracanã 50 e o goleiro Barbosa – enquadro e projeção”, com Renata Martins (Cineasta atuante em Direção, Roteiro e Montagem. Educadora em Artes Visuais)
Com textos de Eduardo Galeano
30/04: "Do campinho ao estádio: Geografia das emoções e Imagens da bola preta" - com Billy Malachias ( Mestre em Geografia Humana, Pesquisador do NEINB/USP e Consultor do MEC)
Com textos de Plínio Marcos, José Roberto Torero e do cordelista José Soares
Na Biblioteca Helena Silveira: Rua Doutor João Batista Reimão, 146 (Atrás do Terminal Campo Limpo)
GRATUITO para 35 participantes, com distribuição de certificados ao final do curso.
INSCRIÇÕES no sítio www.edicoestoro.net ou na Biblioteca tel: 5841-1259
Pedagoginga - mais reflexão e menos marketing, mais fogueira e menos fogos de artifício
Allan da Rosa/ Edições Toró
..................................................................
Realização: Edições Toró, Sarau da Fundão e Coordenadoria de Bibliotecas da Secretaria Municipal de Cultura de SP - SMC
Articulação Pedagógica: Allan da Rosa
Concepção do cartaz: Mateus 'Subverso'
Fonte: e-mail enviado por Allan da Rosa em 17 de março de 2011.
segunda-feira, 14 de junho de 2010
O Brasil que se quer branco não elogia as mulheres negras presentes na Copa
O Brasil que se quer branco não elogia as mulheres negras presentes na Copa
Por Ricardo Riso
É impressionante como o racismo se apresenta nas transmissões brasileiras durante os jogos da Copa do Mundo e nos demais canais de comunicação. Há pouco, deparei-me com esta matéria no site do G1: “Gatas na partida entre Holanda e Dinamarca - Lindas torcedoras marcam presença no duelo europeu”. Trata-se de uma série de fotos tiradas das mulheres nas arquibancadas. Todas brancas, louras, lábios finos e cabelos lisos. Por outro lado, o site UOL mostra-se sensível: de trinta e nove fotos das “Musas da Copa” encontramos duas negras, ou seja, 5,13%. (...)
Mais em A Bola Limpa.
Por Ricardo Riso
É impressionante como o racismo se apresenta nas transmissões brasileiras durante os jogos da Copa do Mundo e nos demais canais de comunicação. Há pouco, deparei-me com esta matéria no site do G1: “Gatas na partida entre Holanda e Dinamarca - Lindas torcedoras marcam presença no duelo europeu”. Trata-se de uma série de fotos tiradas das mulheres nas arquibancadas. Todas brancas, louras, lábios finos e cabelos lisos. Por outro lado, o site UOL mostra-se sensível: de trinta e nove fotos das “Musas da Copa” encontramos duas negras, ou seja, 5,13%. (...)
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Época de Copa do Mundo, Barbosa merece ser lembrado
Época de Copa do Mundo, Barbosa merece ser lembrado
Por Ricardo Riso
A maior pena que existe para um crime no Brasil é de trinta anos. Mas desde 1950 eu sou condenado.
(Barbosa frase extraída do livro “A pátria em chuteiras – novas crônicas de futebol” de Nelson Rodrigues)
Aproxima-se uma nova estreia do Brasil em Copa do Mundo e urge recordar o jogador que sofreu a maior perseguição já afligida por um cidadão brasileiro, falamos do goleiro da Copa do Mundo de 1950, o negro Moacir Barbosa Nascimento. Pode-se perceber pela epígrafe que a declaração de Barbosa assinala a pena de vida à qual foi obrigado a viver até o dia 8 de abril de 2000, data de seu falecimento.
O drama do vitorioso goleiro Barbosa, nascido a 27 de março de 1921 na cidade de Campinas/SP, se deu após o chute fulminante do atacante uruguaio Ghiggia à meta canarinha, o fatídico gol que decretou a derrota brasileira, consagrando a seleção celeste bi-campeã na partida que entrou para a História como Maracanazzo. A tragédia maior do país, presenciada por duzentas mil pessoas, reforçou diversas máximas racistas ao jogador negro, a maior delas, talvez, a de que negro não serve para goleiro. (...)
Mais em A Bola Limpa.
Por Ricardo Riso
A maior pena que existe para um crime no Brasil é de trinta anos. Mas desde 1950 eu sou condenado.
(Barbosa frase extraída do livro “A pátria em chuteiras – novas crônicas de futebol” de Nelson Rodrigues)
Aproxima-se uma nova estreia do Brasil em Copa do Mundo e urge recordar o jogador que sofreu a maior perseguição já afligida por um cidadão brasileiro, falamos do goleiro da Copa do Mundo de 1950, o negro Moacir Barbosa Nascimento. Pode-se perceber pela epígrafe que a declaração de Barbosa assinala a pena de vida à qual foi obrigado a viver até o dia 8 de abril de 2000, data de seu falecimento.
O drama do vitorioso goleiro Barbosa, nascido a 27 de março de 1921 na cidade de Campinas/SP, se deu após o chute fulminante do atacante uruguaio Ghiggia à meta canarinha, o fatídico gol que decretou a derrota brasileira, consagrando a seleção celeste bi-campeã na partida que entrou para a História como Maracanazzo. A tragédia maior do país, presenciada por duzentas mil pessoas, reforçou diversas máximas racistas ao jogador negro, a maior delas, talvez, a de que negro não serve para goleiro. (...)
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domingo, 30 de maio de 2010
No futebol, questão racial não importa para as relações afetivas (????)
No futebol, questão racial não importa para as relações afetivas (????)
Por Ricardo Riso
A matéria a seguir foi publicada na edição on line do jornal Folha de São Paulo. Seu título, No futebol, questão racial não importa para as relações afetivas, tenta encobrir, sem sucesso, o racismo que há na relação das chamadas Maria-Chuteiras com os deslumbrados jogadores negros de futebol.
Aqui temos algumas questões que merecem vir à tona. A primeira refere-se ao negro que consegue ascender socialmente neste país e para completar a sua ascensão ele "necessita" ter uma mulher branca como companheira. Uma outra questão é que o homem negro só é aceito pela mulher branca se apresentar uma condição social elevada e, principalmente, uma conta bancária polpuda. Sim, há exceções, porém, raras. Vale recordar que são uniões que sofrem com os estereótipos, tais como: "ela gosta da coisa preta", ou o "negro de alma branca" que a família da mulher branca é obrigada a aceitar. Outro ponto a ser levantado é de como o estereótipo do negro como objeto sexual permanece em nossa sociedade, a verdadeira máquina de sexo. Se com o homem negro é assim, não preciso mencionar o que a mulher negra passa. (...)
Para ler o restante, acesse o blog A Bola Limpa
quarta-feira, 10 de março de 2010
O problema de Adriano mascara o racismo ao jogador negro
O problema de Adriano mascara o racismo ao jogador negro
O restante está no meu blog sobre o Negro e o racismo no futebol, "A Bola Limpa". Acesse http://abolalimpa.blogspot.com/2010/03/o-problema-de-adriano-mascara-o-racismo.html
Abraços,
Ricardo Riso
Por Ricardo Riso
Adriano, o ótimo atacante do Flamengo, volta a ser o centro das atenções do noticiário sensacionalista que domina o país. Infelizmente, o que ele melhor sabe fazer, que é jogar futebol, fica em segundo plano em razão das atitudes tomadas pelo conturbado jogador. Entretanto, o massacre midiático, o julgamento e as rápidas definições para o problema de Adriano revelam os diversos preconceitos ocultos em nossa sociedade. (...)
O restante está no meu blog sobre o Negro e o racismo no futebol, "A Bola Limpa". Acesse http://abolalimpa.blogspot.com/2010/03/o-problema-de-adriano-mascara-o-racismo.html
Abraços,
Ricardo Riso
quinta-feira, 7 de janeiro de 2010
Blog A Bola Limpa (Negro no Futebol)
Prezado(a),
Este é o meu novo blog: A Bola Limpa - http://abolalimpa.blogspot.com/ -, dedicado à presença do negro no futebol brasileiro.
Faça sua visita quando puder.
Abraços,
Ricardo Riso
À procura da bola limpa
Bola limpa é aquela bola que o atacante com sua habilidade, astúcia e técnica ganha do seu adversário e a entrega em condições ideais de passe ou finalização ao seu companheiro, ou bola limpa é aquela bola que o zagueiro retira, de forma legal, do seu oponente e a recupera para o seu time, limpando a área e o perigo de gol.
A recente conquista do campeonato brasileiro pelo Flamengo, tendo Andrade como o primeiro técnico negro a ganhar este título, me fez recordar vários momentos em que o negro é inferiorizado e discriminado no futebol, o que poderia ser uma metonímia da sociedade brasileira. A soma dessas lembranças motivou a criação deste blog.
Sendo assim, proponho a discussão das relações étnico-raciais no futebol brasileiro, englobando as situações entre os jogadores, técnicos, dirigentes, torcidas e mídia, ou seja, questões pertinentes que raríssimas vezes são debatidas. Temas que são verdadeiras bolas divididas. Todavia, ao mencioná-las, espero contribuir para a reflexão acerca do racismo em nossa sociedade e quebrar os estereótipos impostos pela perversidade da linguagem estabelecida e sobre a figura do jogador negro, incluído no mundo do futebol como o artista da bola, porém excluído das posições de liderança e de “saber” que cercam este mundo.
E quem sabe um dia a diversidade étnico-racial brasileira seja respeitada não só no futebol, mas em toda a sociedade, e tenha a generosidade de um jogador que passa uma bola limpa ao seu companheiro.
Ricardo Riso
quarta-feira, 22 de outubro de 2008
Copa de 78: a capacidade de um povo de viver uma irrealidade e não perceber
Acabo de assistir ao magistral programa Observatório da Imprensa (TV Brasil), comandado pelo jornalista Alberto Dines, um dos homens que representa a própria história do nosso jornalismo e um ardoroso defensor da democracia e da liberdade de imprensa. O programa de hoje foi realizado na Argentina e vasculha uma controversa passagem da história recente do país, que foi a Copa do Mundo de Futebol de 1978, sob o sangrento regime ditatorial do Gal. Videla.
Naquela Copa, a Argentina para chegar à final precisaria ganhar do Peru por uma diferença de quatro gols. Assim, eliminaria o Brasil. Como o selecionado peruano era considerado um bom time, havia um consenso de que a tarefa portenha seria difícil de ser concretizada. Todavia, para a surpresa de todos, quando começou a partida os gols argentinos foram se sucedendo com tamanha facilidade que ao apito final o placar marcava 6 x 0 para os donos da casa. Logo, a Argentina faria a final com a Holanda e o Brasil disputaria o terceiro lugar.
Imediatamente a delegação brasileira e nossos jornalistas fizeram sérias acusações a respeito do resultado do jogo, alegando suborno e outros mais. Como não houve apelo maior entre a imprensa mundial, as reclamações não foram investigadas, o Brasil ficou com o título de “campeão moral”, de acordo com o nosso técnico à época, o saudoso Cláudio Coutinho, a Argentina ganhou seu primeiro mundial e a ditadura militar garantiu uma sobrevida. Com o apoio da FIFA.
Feito um breve resumo do que aconteceu no fatídico campeonato, vamos ao programa.
Dines, perspicaz e com a excelência costumeira, investiga o papel da imprensa argentina durante a Copa. Entrevista jornalistas daqui como Luís Mendes e Juca Kfouri; jornalistas de lá que cobriram o Mundial, como Ricardo Gotta, autor do bombástico livro recém publicado “Fuimos Campeones”; e jornalistas da nova geração que revisitam o passado e tentam desvendar o que aconteceu durante os vinte e cinco dias de disputa e, principalmente, na partida contra o Peru. Trinta anos depois, o fantasma daquele jogo está mais vivo do que nunca e novos depoimentos surpreendentes, demonstram a armação que foi a referida partida, como o jogador argentino que revela, além do já declarado suborno em outras ocasiões, mas o fato do time portenho ter jogado dopado.
Todavia, o que mais me chocou foi notar o clima de euforia causado no país. Nada diferente do que aconteceu aqui, na Copa de 70. Estávamos sob as garras de Médici, o mais cruel dos nossos ditadores, porém a Copa era no México. OK, mas o que me deixou estarrecido foi ver as imagens de televisão com a vibração da população nos estádios, enquanto o pau quebrava nos porões, e as manifestações contra os desaparecidos aconteciam e eram sufocadas etc. Impressiona-me o poder de manipulação do futebol e o seu uso político, algo que é sempre denunciado, nenhuma novidade. Contudo, ainda fico espantado.
Durante a Copa, a perversidade e a euforia estavam praticamente lado a lado. Não sabia que a dez quadras do estádio da final do Mundial, palco do time do River Plate, o grandioso Monumental Del Nuñez, localizava-se a Escuela de Mecanica de la Armada, o principal centro de tortura do país, local de milhares de mortes, também de onde saíam os presos políticos em aviões e, em seguida, jogados no mar.
Fico estarrecido com todas essas histórias ocorridas contra o homem, contra a supressão dos direitos individuais, contra a vida. A frase utilizada no título deste texto, “a capacidade de um povo de viver uma irrealidade e não perceber”, foi dita por um jovem documentarista, Christian Remoli, autor de “Mundial 78 – verdad o mentira”. E não há como não constatar que ele foi muito feliz ao se expressar. Basta ver o que aconteceu e acontece por aqui.
Para Alberto Dines, ao encerrar o programa, aquela partida contra o Peru e aquele Mundial de 78 ainda não terminaram. Uma partida de futebol encerra-se com o apito final, porém, diante de tantas suspeitas e dúvidas, é dever da Imprensa investigar o passado e trazer à tona as respostas ainda não esclarecidas de um triste, e por que não? (paradoxos latino-americanos), feliz momento da história contemporânea da Argentina.
Eu também aguardo o apito final daquela Copa do Mundo.
Ricardo Riso
Tinha quatro anos de idade durante a Copa de 78, que à época não sabia do que se tratava e muito menos que vivíamos sob uma ditadura, e ficou estático quando ouviu pela primeira vez, poucos anos depois, a armação do jogo Argentina x Peru e tudo o que o cercou. Naquele momento, descobriu que os fantasmas eram reais e vestiam fardas.
Tinha quatro anos de idade durante a Copa de 78, que à época não sabia do que se tratava e muito menos que vivíamos sob uma ditadura, e ficou estático quando ouviu pela primeira vez, poucos anos depois, a armação do jogo Argentina x Peru e tudo o que o cercou. Naquele momento, descobriu que os fantasmas eram reais e vestiam fardas.
http://www.tvebrasil.com.br/observatorio/
Este foi o primeiro de uma série de três programas realizados no país vizinho. Terças, às 22h30, na TVE Brasil/Rio de Janeiro.
terça-feira, 21 de agosto de 2007
Perder, ganhar, viver
Na semana passada o canal a cabo Sportv passou “De Letra – Carlos Drummond de Andrade”, tratando da relação do poeta com o futebol. E é exatamente sobre futebol a crônica abaixo, do dia da fatídica derrota do Brasil para a Itália na Copa do Mundo de 1982, quando um italiano que me recuso a escrever o nome fez três gols no Brasil e eliminou-o da Copa.
Naquele dia, creio que pela primeira vez no alto dos meus oito anos de idade, percebi o quanto era difícil sonhar.
Perder, ganhar, viver
Carlos Drummond de Andrade
Jornal do Brasil, 21/06/1982
Vi gente chorando na rua, quando o juiz apitou o final do jogo perdido; vi homens e mulheres pisando com ódio os plásticos verde-amarelos que até minutos antes eram sagrados; vi bêbados inconsoláveis que já não sabiam por que não achavam consolo na bebida; vi rapazes e moças festejando a derrota para não deixarem de festejar qualquer coisa, pois seus corações estavam programados para a alegria; vi o técnico incansável e teimoso da Seleção xingado de bandido e queimado vivo sob a aparência de um boneco, enquanto o jogador que errara muitas vezes ao chutar em gol era declarado o último dos traidores da pátria; vi a notícia do suicida do Ceará e dos mortos do coração por motivo do fracasso esportivo; vi a dor dissolvida em uísque escocês da classe média alta e o surdo clamor de desespero dos pequeninos, pela mesma causa; vi o garotão mudar o gênero das palavras, acusando a mina de pé-fria; vi a decepção controlada do presidente, que se preparava, como torcedor número um do país, para viver o seu grande momento de euforia pessoal e nacional, depois de curtir tantas desilusões de governo; vi os candidatos do partido da situação aturdidos por um malogro que lhes roubava um trunfo poderoso para a campanha eleitoral; vi as oposições divididas, unificadas na mesma perplexidade diante da catástrofe que levará talvez o povo a se desencantar de tudo, inclusive das eleições; vi a aflição dos produtores e vendedores de bandeirinhas, flâmulas e símbolos diversos do esperado e exigido título de campeões do mundo pela quarta vez, e já agora destinados à ironia do lixo; vi a tristeza dos varredores da limpeza pública e dos faxineiros de edifícios, removendo os destroços da esperança; vi tanta coisa, senti tanta coisa nas almas...
Chego à conclusão de que a derrota, para a qual nunca estamos preparados, de tanto não a desejarmos nem a admitirmos previamente, é afinal instrumento de renovação da vida. Tanto quanto a vitória estabelece o jogo dialético que constitui o próprio modo de estar no mundo. Se uma sucessão de derrotas é arrasadora, também a sucessão constante de vitórias traz consigo o germe de apodrecimento das vontades, a languidez dos estados pós-voluptuosos, que inutiliza o indivíduo e a comunidade atuantes. Perder implica remoção de detritos: começar de novo.
Certamente, fizemos tudo para ganhar esta caprichosa Copa do Mundo. Mas será suficiente fazer tudo, e exigir da sorte um resultado infalível? Não é mais sensato atribuir ao acaso, ao imponderável, até mesmo ao absurdo, um poder de transformação das coisas, capaz de anular os cálculos mais científicos? Se a Seleção fosse à Espanha, terra de castelos míticos, apenas para pegar o caneco e trazê-lo na mala, como propriedade exclusiva e inalienável do Brasil, que mérito haveria nisso? Na realidade, nós fomos lá pelo gosto do incerto, do difícil, da fantasia e do risco, e não para recolher um objeto roubado. A verdade é que não voltamos de mãos vazias porque não trouxemos a taça. Trouxemos alguma coisa boa e palpável, conquista do espírito de competição. Suplantamos quatro seleções igualmente ambiciosas e perdemos para a quinta. A Itália não tinha obrigação de perder para o nosso gênio futebolístico. Em peleja de igual para igual, a sorte não nos contemplou. Paciência, não vamos transformar em desastre nacional o que foi apenas uma experiência, como tantas outras, da volubilidade das coisas.
Perdendo, após o emocionalismo das lágrimas, readquirimos ou adquirimos, na maioria das cabeças, o senso da moderação, do real contraditório, mas rico de possibilidades, a verdadeira dimensão da vida. Não somos invencíveis. Também não somos uns pobres diabos que jamais atingirão a grandeza, este valor tão relativo, com tendência a evaporar-se. Eu gostaria de passar a mão na cabeça de Telê Santana e de seus jogadores, reservas e reservas de reservas, como Roberto Dinamite, o viajante não utilizado, e dizer-lhes, com esse gesto, o que em palavras seria enfático e meio bobo. Mas o gesto vale por tudo, e bem o compreendemos em sua doçura solidária. Ora, o Telê! Ora, os atletas! Ora, a sorte! A Copa do Mundo de 82 acabou para nós, mas o mundo não acabou. Nem o Brasil, com suas dores e bens. E há um lindo sol lá fora, o sol de nós todos.
E agora, amigos torcedores, que tal a gente começar a trabalhar, que o ano já está na segunda metade?
Naquele dia, creio que pela primeira vez no alto dos meus oito anos de idade, percebi o quanto era difícil sonhar.
Perder, ganhar, viver
Carlos Drummond de Andrade
Jornal do Brasil, 21/06/1982
Vi gente chorando na rua, quando o juiz apitou o final do jogo perdido; vi homens e mulheres pisando com ódio os plásticos verde-amarelos que até minutos antes eram sagrados; vi bêbados inconsoláveis que já não sabiam por que não achavam consolo na bebida; vi rapazes e moças festejando a derrota para não deixarem de festejar qualquer coisa, pois seus corações estavam programados para a alegria; vi o técnico incansável e teimoso da Seleção xingado de bandido e queimado vivo sob a aparência de um boneco, enquanto o jogador que errara muitas vezes ao chutar em gol era declarado o último dos traidores da pátria; vi a notícia do suicida do Ceará e dos mortos do coração por motivo do fracasso esportivo; vi a dor dissolvida em uísque escocês da classe média alta e o surdo clamor de desespero dos pequeninos, pela mesma causa; vi o garotão mudar o gênero das palavras, acusando a mina de pé-fria; vi a decepção controlada do presidente, que se preparava, como torcedor número um do país, para viver o seu grande momento de euforia pessoal e nacional, depois de curtir tantas desilusões de governo; vi os candidatos do partido da situação aturdidos por um malogro que lhes roubava um trunfo poderoso para a campanha eleitoral; vi as oposições divididas, unificadas na mesma perplexidade diante da catástrofe que levará talvez o povo a se desencantar de tudo, inclusive das eleições; vi a aflição dos produtores e vendedores de bandeirinhas, flâmulas e símbolos diversos do esperado e exigido título de campeões do mundo pela quarta vez, e já agora destinados à ironia do lixo; vi a tristeza dos varredores da limpeza pública e dos faxineiros de edifícios, removendo os destroços da esperança; vi tanta coisa, senti tanta coisa nas almas...
Chego à conclusão de que a derrota, para a qual nunca estamos preparados, de tanto não a desejarmos nem a admitirmos previamente, é afinal instrumento de renovação da vida. Tanto quanto a vitória estabelece o jogo dialético que constitui o próprio modo de estar no mundo. Se uma sucessão de derrotas é arrasadora, também a sucessão constante de vitórias traz consigo o germe de apodrecimento das vontades, a languidez dos estados pós-voluptuosos, que inutiliza o indivíduo e a comunidade atuantes. Perder implica remoção de detritos: começar de novo.
Certamente, fizemos tudo para ganhar esta caprichosa Copa do Mundo. Mas será suficiente fazer tudo, e exigir da sorte um resultado infalível? Não é mais sensato atribuir ao acaso, ao imponderável, até mesmo ao absurdo, um poder de transformação das coisas, capaz de anular os cálculos mais científicos? Se a Seleção fosse à Espanha, terra de castelos míticos, apenas para pegar o caneco e trazê-lo na mala, como propriedade exclusiva e inalienável do Brasil, que mérito haveria nisso? Na realidade, nós fomos lá pelo gosto do incerto, do difícil, da fantasia e do risco, e não para recolher um objeto roubado. A verdade é que não voltamos de mãos vazias porque não trouxemos a taça. Trouxemos alguma coisa boa e palpável, conquista do espírito de competição. Suplantamos quatro seleções igualmente ambiciosas e perdemos para a quinta. A Itália não tinha obrigação de perder para o nosso gênio futebolístico. Em peleja de igual para igual, a sorte não nos contemplou. Paciência, não vamos transformar em desastre nacional o que foi apenas uma experiência, como tantas outras, da volubilidade das coisas.
Perdendo, após o emocionalismo das lágrimas, readquirimos ou adquirimos, na maioria das cabeças, o senso da moderação, do real contraditório, mas rico de possibilidades, a verdadeira dimensão da vida. Não somos invencíveis. Também não somos uns pobres diabos que jamais atingirão a grandeza, este valor tão relativo, com tendência a evaporar-se. Eu gostaria de passar a mão na cabeça de Telê Santana e de seus jogadores, reservas e reservas de reservas, como Roberto Dinamite, o viajante não utilizado, e dizer-lhes, com esse gesto, o que em palavras seria enfático e meio bobo. Mas o gesto vale por tudo, e bem o compreendemos em sua doçura solidária. Ora, o Telê! Ora, os atletas! Ora, a sorte! A Copa do Mundo de 82 acabou para nós, mas o mundo não acabou. Nem o Brasil, com suas dores e bens. E há um lindo sol lá fora, o sol de nós todos.
E agora, amigos torcedores, que tal a gente começar a trabalhar, que o ano já está na segunda metade?
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