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quarta-feira, 25 de maio de 2011

José Eduardo Agualusa - Conversas Plugadas (Palestra)


Conversas Plugadas - especial
José Eduardo Agualusa
Língua portuguesa, poder e diversidade cultural

Teatro Castro Alves
07 de junho
19h30

Pela primeira vez, um dos mais importantes autores de língua portuguesa da contemporaneidade, o escritor angolano José Eduardo Agualusa, estará em Salvador discutindo sua obra em evento aberto ao público. Ele é o convidado do projeto CONVERSAS PLUGADAS ESPECIAL, que acontece no dia 07 de junho, a partir das 19h30, na sala principal do Teatro Castro Alves, com o tema Língua portuguesa, poder e diversidade cultural.

A intenção do evento é possibilitar o entendimento e a discussão das noções de língua e literatura que gravitam em torno da obra de José Eduardo Agualusa, em especial em trabalhos como Nação Crioula, romance indicado para integrar o vestibular 2012 da UFBA, e Milagrário Pessoal, seu livro mais recente, em que a língua portuguesa no trânsito entre Angola, Portugal e Brasil é a grande personagem. Além destes dois títulos, Agualusa tornou-se conhecido no Brasil pelo livro O Ano em que Zumbi Tomou o Rio, romance cujo espaço narrativo diaspórico articula-se entre Luanda e o Rio de Janeiro em um produtivo exercício de discussão das questões etnicorraciais, e O Vendedor de Passados, no qual o narrador discute o processo de invenção das tradições individuais e coletivas que constituem subjetividades estratégicas no espaço nacional angolano. Além do evento no TCA, o escritor também participa do lançamento de Milagrário Pessoal, no dia 09 de junho, na Livraria Cultura, com uma mesa redonda com professores da Universidade Federal da Bahia e Unijorge.

O CONVERSAS PLUGADAS ESPECIAL com José Eduardo Agualusa é uma realização da Secretaria de Cultura do Estado da Bahia, da Universidade Federal da Bahia (UFBA) - através do Instituto de Letras (ILUFBA) e do PPGLitCult -, e da UNIJORGE, com apoio da Rede Bahia.

A entrada é gratuita, mas é preciso retirar pré-convites no SAC do Shopping Barra ou na bilheteria do TCA até às 19:00 do dia do evento. Entrada sujeita a lotação do Teatro.

SERVIÇO
O que: Conversas Plugadas Especial - José Eduardo Agualusa
Onde: Sala Principal do TCA
Quando: 07 de junho, 19h30
Quanto: Gratuito (retirar pré-convites na bilheteria do TCA ou SAC)
Realização: SECULT/UFBA/Unijorge – Apoio Rede Bahia
 

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

José Eduardo Agualusa - A Conjura (livro - edição brasileira)

A CONJURA
José Eduardo Agualusa

Editora Gryphus

SINOPSE
Publicado originalmente em Portugal, o livro A Conjura ganha agora sua primeira edição brasileira. Em seis capítulos, a obra narra as histórias dos habitantes da velha cidade de São Paulo da Assunção de Luanda, entre os anos de 1880 e 1911. Em um contexto marcado por turbulentas transformações, essa colônia portuguesa era o destino de degredados, ladrões e assassinos da pior espécie. Nessa época, quando nas ruas de Luanda se cruzavam as tipoias dos nobres senhores africanos com as caravanas de escravos angolanos, e os condenados vindos do Reino de Portugal se entranhavam pelos matos em busca de fortuna, estórias se passaram que a História não guardou. Estórias de amores e prodígios que ainda sobrevivem em antigas canções. Estórias de personagens como o barbeiro Jerónimo Caninguili e a jovem Alice, cujas desventuras acompanhamos até o fatídico 16 de junho de 1911, dia da frustrada tentativa de tornar Angola independente de Portugal.

TÍTULO: A CONJURA
ISBN: 9788560610228
IDIOMA: Português (PT).
ENCADERNAÇÃO: Brochura Formato: 14 x 21 190 págs.
ANO EDIÇÃO: 2009
Fonte: http://www.travessa.com.br/A_CONJURA/artigo/775815be-3caf-453c-9b33-db046445771e


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Primeiro romance de José Eduardo Agualusa sai no Brasil após 20 anos

Bolívar Torres, JB Online

RIO - Dois tempos distintos unem e separam, com o Atlântico entre eles, a obra do escritor angolano José Eduardo Agualusa. Recém-lançado em Portugal, Barroco tropical, seu último romance, dá um pulo de 10 anos para vislumbrar uma Luanda em convulsão, num nem tão distante 2020. Deste lado do oceano, sua estreia na ficção, A conjura, escrita duas décadas atrás, chega hoje às livrarias do Rio, fazendo a trajetória inversa: volta 200 anos na história da mesma capital angolana para radiografar, entre 1880 e 1911, um período decisivo do seu passado colonial, marcado por um frustrado levante revolucionário. Mesmo com o abismo temporal, passado e futuro se completam com a mesma função. Em ambos os casos, o que interessa a Agualusa é decifrar a atualidade absurda de seu país.

– Escrevi A conjura como uma maneira de pensar o presente – comenta o autor, enquanto anda pelas ruas de Copacabana, onde está hospedado. – Isso era muito importante naquele momento, em que havia poucos estudos sobre o século 19 em Angola. Eu próprio passei a compreender melhor o país ao escrever o livro. Há divisões na sociedade que só podem ser explicadas ao se analisar o passado. A guerra civil foi mais um embate entre uma visão urbana e rural do que de ideologias de esquerda e direita. Ela opôs uma África profunda, presa à tradição rural, a uma África urbana. Claro que essas divisões já existiam no século 19.

Fato incomum para um escritor iniciante, A conjura é um romance histórico (assim como Nação crioula, sua quinta narrativa longa). Agualusa recria toda a agitação de um período de efervescência política de seu país. Como sempre, o autor traça uma galeria de retratos curiosos, que se agitam, numa espécie de histeria coletiva, dentro de um cenário em plena transformação. O sonho ainda é possível para a população pobre do bairro de Ingombotas, onde se instala, em meio a ladrões, assassinos e outros renegados de Portugal, o barbeiro benguelese Jerónimo Caninguili, um baixo e manco negro que, apesar da feiúra, logo conquista a população local. Fixado no fatídico 16 de junho de 1911, dia da primeira tentativa frustrada de obter a independência, o autor retrocede até às origens da data histórica, e é lá que encontra Caninguili e outros angolanos que organizam uma sociedade cospiradora, com o sonho de dar ao país desenvolvimento e tratamento digno aos excluídos.

– Relendo o livro depois de 20 anos, podemos dizer que este é um primeiro romance, com a ingenuidade de todo primeiro romance, mas também com algumas qualidades – confessa o autor. – E que já traz algumas das obsessões que trato em outros livros.

Identidade e memória

O leitor fiel de Agualusa reconhecerá a estrutura aleatória e movediça da maioria de seus livros. Entre as referidas obsessões, destacam-se as questões sobre identidade e memória, sempre presentes em sua obra.

– É normal que, num país jovem como Angola, a literatura, a música ou o cinema tragam este questionamento – diz o escritor. - Aconteceu o mesmo com o Brasil. À medida que o país vai se formando, a literatura reflete este questionamento. Mas o Brasil já é um país com mais estrutura. Em Angola, não temos bibliotecas num número desejável e a memória se perde facilmente. Há poucos jornais, também. Aliás, é o único país do mundo em que o jornalismo melhorou, já que antes era tão ruim que não poderia ter ficado pior.

Revelado por aqui depois da Flip de 2004 (quando foi elogiado por Caetano Veloso), Agualusa se diz um homem de três continentes, que se sente a vontade tanto no Brasil e em Angola quanto em Portugal. Para este filho de luso-brasileiros, a língua portuguesa é um terreno de experimentação multicultural, onde colonizador e colônia se atraem e se chocam na mesma sintaxe. A língua é fator de união, mas também de distinção. O autor não se furta em carregar seu texto de expressões locais, que ganham suas devidas traduções em notas de rodapé.

– O mais interessante é que a língua une a geografia e as influências diversas, mas se distigue por suas variantes – diz Agualusa, que morou por três anos no Recife. – Mas nem sempre essas particularidades se dão entre países. Há mais diferenças entre o português de Pernambuco e do Rio Grande do Sul do que entre o português do Rio e do Maranhão. O carioca acredita que o português falado aqui é o português que se fala no Brasil todo. Mas não é verdade. Aqui no Rio existe uma variante da língua portuguesa, em São Luis do Maranhão ou no Recife você terá outra.

As trocas culturais são essenciais para Agualusa, que reclama da falta de interesse dos brasileiros pela África, matriz de sua cultura popular. Enquanto Angola absorve até os dias de hoje a influência brasileira, sua pátria irmã vira as costas.

– Muito em função do tráfico de escravos, as relações entre Brasil e Angola eram diretas, sem intermediações com Portugal – analisa. – Angola teve vários governadores de origem brasileira. Vários padres eram formados no Recife. Famílias que ficaram ricas com o tráfico tinham casas no Brasil e Angola. Essa relação direta se perdeu com o fim do tráfico, mas a influência cultural do Brasil no país continua, na música, na literatura e nas telenovelas. Já o Brasil, ao contrário de Portugal, não tem o conhecimento dessa cultura que o moldou.

20:09 - 02/09/2009

Fonte: http://jbonline.terra.com.br/pextra/2009/09/02/e020927842.asp

quarta-feira, 24 de junho de 2009

José Eduardo Agualusa - Barroco Tropical (livro)


BARROCO TROPICAL
de José Eduardo Agualusa

Uma mulher cai do céu durante uma tempestade tropical. As únicas testemunhas do acontecimento são Bartolomeu Falcato, escritor e cineasta, e a sua amante, Kianda, cantora com uma carreira internacional de grande sucesso. Bartolomeu esforça-se por desvendar o mistério enquanto ao seu redor tudo parece ruir. Depressa compreende que ele será a próxima vítima. Um traficante de armas em busca do poder total, um curandeiro ambicioso, um antigo terrorista das Brigadas Vermelhas, um ex-sapador cego, que esconde a ausência de rosto atrás de uma máscara do Rato Mickey, um jovem pintor autista, um anjo negro (ou a sua sombra) e dezenas de outros personagens cruzam-se com Bartolomeu, entre um crepúsculo e o seguinte, nas ruas de uma cidade em convulsão: Luanda, 2020.

http://www.youtube.com/watch?v=Z7Q7bsov-I8

http://www.agualusa.info/


ISBN: 978-972-20-3822-5
Páginas: 344
Dimensões: 15,5 x 23,5 cm

Colecção: Autores de Língua Portuguesa

Ano de Edição: 2009
Encadernação: Brochado

Preço com IVA: 16.65 €
Preço sem IVA: 15.86 €

Fonte: http://www.dquixote.pt/novidades.html?page=1&q=

quarta-feira, 30 de abril de 2008

Agostinho Neto não foi um poeta medíocre e o delírio de Agualusa

Uma grande maka acontece em Angola desde a publicação da entrevista de José Eduardo Agualusa ao Jornal Angolense, em 15 de março (o link para a entrevista está no final deste texto). Nela, o renomado escritor angolano afirma que cânones literários do seu país fizeram péssima poesia: “uma pessoa que ache que o Agostinho Neto, por exemplo, foi um extraordinário poeta é porque não conhece rigorosamente nada de poesia. Agostinho Neto foi um poeta medíocre. O mesmo se pode dizer de António Cardoso ou de António Jacinto”.

A partir da estapafúrdia declaração, Agualusa vem sendo extremamente criticado pelos seus compatriotas, com razão.

Creio que Agualusa se esquece da importância histórica desempenhada pelos três poetas no período colonial de Angola, ou ignora a relevância dada pelos críticos literários e os diversos ensaios e teses acadêmicas nas universidades da Europa, Estados Unidos e Brasil. Injusta, principalmente com a obra "Sagrada Esperança", de Agostinho Neto, com poemas de reconhecimento internacional, e também o fundamental livro “Sobreviver em Tarrafal de Santiago”, de Antonio Jacinto. Será que Benjamin Abdala Junior, Russel Hamilton, Luis Kandjimbo, Carmen Lucia Tindó Secco, Rita Chaves e Laura Padilha não sabem nada de poesia? Desculpe-me, Agualusa, mas o senhor ultrapassou o aceitável. Não será com uma crítica da maneira “gosto/não gosto” que o senhor refutará as obras dos pesquisadores mencionados anteriormente.

Penso que qualquer pessoa tenha o direito de emitir sua opinião. Todavia, o que me deixou indignado foi a forma como Agualusa colocou a sua posição: simplista, sensacionalista e medíocre. No campo das idéias, a crítica deve ser séria, fundamentada e honesta, principalmente quando se trata de pessoas que não estão mais entre nós para se defender. Mas o escritor é conhecido por suas declarações bombásticas (recomendo a visita ao blog http://huambino.blogs.sapo.pt/ e a leitura do texto "Agualusa em foco"), o por quê, eu não sei. Talvez egocentrismo.
Sobre a entrevista de Agualusa, o professor Pires Laranjeira em recente artigo ao Jornal de Angola (confira a íntegra do artigo no link indicado no final do texto), afirma que:

“Agostinho Neto não é um poeta medíocre. Tudo estaria certo, e Agualusa não seria ‘incomodado’ e incomodativo, se opinasse, por exemplo, que Neto não é um poeta da sua preferência ou que, para ele, não é o poeta mais representativo de Angola. Estava no seu direito e não agredia o que quer que fosse. Porém, dizer que é um poeta medíocre só pode ser interpretado como provocação, como verdadeira tirada de mau gosto, vontade de exuberância mediática, ressabiamento político, etc.”

No decorrer do seu pensamento, Agualusa ainda comenta a respeito da fraca, na concepção dele, qualidade da literatura angolana. Para ele, “para se escrever grande poesia é preciso primeiro ler os grandes poetas universais”. Neste ponto, faço questão de citar o que escreveu o poeta e ensaísta angolano Luis Kandjimbo (abaixo link com o texto completo) ao rebater as afirmações de Agualusa:

“O que são «poetas universais»? Não existe qualquer relação de causalidade entre a leitura de tais poetas e a escrita de excelente poesia. Além disso, há aí uma confusão entre aquilo que releva da condição de simples leitor, membro de uma determinada comunidade interpretativa, e o que entra no campo da actividade dos estudiosos da literatura, porque ler os poetas do mundo ocidental pode ser apenas uma condição necessária para explicar e comentar obras num contexto institucional em que predominem constrangimentos próprios. Invocar o universal sem ter em conta a primazia do particular é uma forma tendenciosa de reconhecer a hegemonia das culturas do mundo ocidental numa lógica colonialista. O universal assim enunciado é uma autêntica armadilha, pois ignora a existência dos Africanos, por exemplo.”

Como se pode perceber, José Eduardo Agualusa foi, no mínimo, infeliz na maneira escabrosa que emitiu suas opiniões a respeito de três escritores essenciais para o desenvolvimento da literatura angolana. Agredir nomes consagrados gratuitamente como ele fez, só o desmerece como intelectual. Apesar de ter alguns bons romances como "Nação Crioula", e ser um dos mais prestigiados autores contemporâneos dos países africanos de língua portuguesa, tal condição não lhe dá o direito de menosprezar as obras de Agostinho Neto, António Jacinto e António Cardoso.

Entretanto, assim é a Literatura. Ela não vive sem polêmicas. O melhor a fazer é revisitar ou conhecer as obras dos três poetas criticados, e reler a de José Eduardo Agualusa, inclusive.

A seguir apresento o link com a polêmica entrevista de José Eduardo Agualusa, e dois artigos, um de Pires Laranjeira e outro do poeta Luis Kandjimbo.
Todas as citações foram tiradas destes três endereços.

Agualusa, José Eduardo. Um escriba interessado pelo absurdo. Jornal Angolense, Luanda, 15/03/2008. Acessado em 29/04/2008 - http://www.jornalangolense.com/full_index.php?id=2433&edit

Kandjimbo, Luis. A tradição literária angolana e o grau zero da memória de um escritor - (A propósito da incapacidade de fundamentar um juízo de natureza estética e literária). Acessado em 30/04/2008 - http://koluki.blogspot.com/

Laranjeira, Pires. Agostinho Neto não é um poeta medíocre. Acessado em 29/04/2008 -

terça-feira, 29 de abril de 2008

José Eduardo Agualusa: Funções do Mito em "O Filho do Vento"

A presente análise baseou-se no conto infantil “O filho do vento”, de José Eduardo Agualusa (Rio de Janeiro: Língua Geral, 2006), para apresentar como o mito, metaforicamente, explica fenômenos naturais, sentimentos humanos e atua como modelador de conduta social.

O autor, José Eduardo Agualusa, é angolano e um dos grandes destaques das literaturas africanas de língua portuguesa contemporânea. Já participou de duas edições da FLIP (Festa Literária de Paraty); é consultor editorial da Língua Geral, editora voltada apenas para autores de língua portuguesa; e publicou, entre outros romances, “Nação Crioula”, “As mulheres do meu pai” e “O ano em que Zumbi tomou o Rio de Janeiro”.

Agualusa inspirou-se na tradição oral dos bosquímanos (homens do bosque), etnia do sul de Angola também conhecida como Koi-san, e apropriou-se da lenda “O filho do vento”, para criar o seu conto infantil.

A tradição oral é de suma importância em uma cultura ágrafa, pois é através dela que os ensinamentos culturais são passados para as crianças de determinado grupo social, em um aprendizado constante no cotidiano. Nas sociedades africanas, o respeito à ancestralidade se dá pela transmissão oral dos conhecimentos, principalmente pelos anciãos da aldeia, ou um griot, contador de histórias e conhecedor das tradições locais. Segundo Nei Lopes:

“A transmissão oral do conhecimento é o veículo do poder e da força das palavras, que permanecem sem efeito em um texto escrito, (...) o Verbo Atuante, tem o valor de uma iniciação, que não está no nível da compreensão, porém na dinâmica do comportamento. Essa iniciação é baseada em reflexos que operam no raciocínio e que são induzidos por impulsos nascidos no fundamento cultural da sociedade.” (LOPES, 2005, p. 31)

“O filho do vento” narra a história de um menino, chamado Nakati, que desejava saber o nome do filho do vento. Porém, este nome era um segredo e jamais deveria ser pronunciado. Mas, de tanto insistir para que sua mãe o dissesse ele acabou conseguindo saber:

“– Está bem, concordou. Digo-te como ele se chama mas só podes chamá-lo com esse nome depois que o teu pai terminar de reforçar as paredes da nossa cabana. E disse-lhe ao ouvido, num sopro tímido: Kuan-Kuan Gau Baubu-Ti.” (AGUALUSA, 2006, pp. 9-10)

Nakati, inquieto como só ele, não atendendo a recomendação de sua mãe, rapidamente chamou pelo nome verdadeiro o filho do vento, assim que o encontrou. Com isso, logo “se erguia um redemoinho de poeira.” (AGUALUSA, 2006, p. 12) O narrador explica o que aconteceu a partir daí:

“O redemoinho cresceu, engrossou, um vento áspero e raso começou a soprar, não dando tempo às pessoas para se protegerem. Instantes depois não havia uma única cabana de pé sobre a imensa planície. Por isso quando venta dessa maneira nós dizemos que o vento está tombado. Quando o vento está de pé não sopra assim.” (AGUALUSA, 2006, p. 14)

Após o acontecido Kuan-Kuan passou a achar que os homens não gostavam mais dele. Ficou arredio, toda vez que se sentia ameaçado tornava-se um pássaro e fugia. Até que “um dia voou, voou, e não voltou mais” (AGUALUSA, 2006, p. 18).

Dessa maneira, tenta-se explicar através do mito, um fenômeno natural, e, ao mesmo tempo, há uma lição moral, pois a aldeia foi penalizada por que uma criança desrespeitou uma recomendação da própria mãe.

No decorrer da narrativa é contado como as estrelas surgiram no céu, a importância delas para os bosquímanos e constatamos a transmissão de conhecimento oral:

“Agora vou dizer-vos como o vazio se iluminou de estrelas para que os koi-san possam orientar-se, mesmo depois que o sol se aninha no chão. Foi a minha mãe quem me contou isto: certa noite, era muito escuro, uma menina afundou os dedos na cinza ainda quente de uma fogueira e atirou-a ao céu. Foi assim que as estrelas se formaram. As estrelas brilham com suavidade porque são feitas de cinza morna. (...)”(AGUALUSA, 2006, p. 19)

Um belo dia, Kuan-Kuan descansava em um morro, uma mulher apresentou-se a ele e disse que ele parecia um pássaro que já foi homem:

“– Dizem que o tal homem virou pássaro porque tinha medo dos outros homens. Tinha medo de que se zangassem com ele nos dias de muito vento. É verdade que quando o vento cai pode ser muito perigoso. Mas o vento também faz coisas boas. O vento ajuda-nos a caçar. Os caçadores conseguem aproximar-se das gazelas, caminhando contra o vento, porque assim elas não sentem o seu cheiro, e não fogem. Além disso o vento espalha as sementes das árvores, e alivia o calor...” (AGUALUSA, 2006, p. 24)

A narrativa mostra o lado bom do vento às crianças, que ele não é um elemento apenas prejudicial ao homem. Kuan-Kuan emociona-se, e ao replicar desenrola-se o seguinte diálogo:

“– O vento também espalha as chamas dos incêndios...
– É verdade, concordou a mulher. O vento é como qualquer pessoa, tem seus dias. Culpa de quem?” (AGUALUSA, 2006, p. 25)

Com tal explicação a mulher deixa Kuan-Kuan encantado, e o conto traça uma bela analogia entre o comportamento humano e as leis da natureza.

Em seguida, a mulher descobre que Kuan-Kuan pode voar e pergunta-o se poderia levá-la até as estrelas, pois tinha o desejo de dormir entre elas:

“Kuan-Kuan abriu as asas e abraçou a mulher. No mesmo instante um grande golpe de vento varreu a savana. Nessa noite os primeiros homens viram surgir no céu o rosto iluminado da lua – era a namorada de Kuan-Kuan, dormindo feliz entre as estrelas.
Foi assim que nasceu o amor.” (AGUALUSA, 2006, p. 27)

Assim, o conto explica com lirismo como um satélite natural, no caso a lua, nasceu, e entre a afinidade de Kuan-Kuan e a mulher, surgiu o amor. Além de novamente apresentar a participação do homem nas origens dos fenômenos e aspectos do universo.

Conclusão

Na lenda dos bosquímanos, “O filho do vento”, apreendemos como o mito atua na sociedade, sendo fundamental nas regras de conduta de um determinado grupo. Recorrendo aos tempos primordiais da Criação, o mito procura explicar como o mundo é hoje, e ensina-nos como questões inerentes à condição humana surgiram. Apesar de apresentar justificativas sobrenaturais de como as coisas foram criadas, o que dá veracidade ao mito é a presença real do que foi relatado.

Por isto, é fundamental resgatarmos as lendas que vêm de tempos imemoriais para nos auxiliar na educação das crianças. Conduzindo-os a um mundo lúdico, metafórico e com valores sociais apresentados na sua essência.


BIBLIOGRAFIA:
AGUALUSA, José Eduardo. O filho do vento. Rio de Janeiro: Língua Geral, 2006.

LOPES, Nei. Kitábu – o livro do saber e do espírito negro-africanos. Rio de Janeiro: Senac, 2005.

INTERNET:
Sobre os bosquímanos, acessado em 14 de abril de 2008:
http://www.iict.pt/publicacoes/catalogo/pagpbl/vpbl03.asp?c_col=901&c_num=30