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quarta-feira, 17 de junho de 2009

Tchale Figueira - Ulisses a espera de Penélope (conto)

Conto enviado pelo artista plástico e escritor Tchale Figueira, que revisita o mito grego e aborda temáticas pertinentes à literatura de Cabo Verde.
Ricardo Riso

Ulisses à espera de Penélope
Tchale Figueira

Ulisses como todos os rapazes de S. Vicente, tinha os olhos voltados para a baía do Porto Grande. Deslumbrado com os vapores da Blue Star e da Mala Real ancorados na baía da velha cratera em semicírculo, e o Monte – Cara secularmente contemplando nuvens passando, como um poeta em silencio, Ulisses idealizava a distante Argentina nas Américas e…um belo dia, enchendo-se de coragem foi ter com António Cara Linda, um abastado negociante de barcos e velho amigo da família, que o ajudasse a realizar seu sonho. Tirando o boné em sinal de respeito, entrou no enorme armazém do negociador repleto com miríades de cordas, tintas, e objectos marítimos, para ele desconhecidos e encontrou Cara Linda sentado numa velha cadeira americana de vai vem a moda dos Cow Boys, com as pernas estendidas numa enorme mesa repleta com papeis, lendo um jornal desportivo. Sem rodeios foi directo ao assunto e, expressando de forma clara o seu desejo, prometeu ao Cara Linda, jurando por Deus, ir trabalhar arduamente na terra das pampas, e um dia devolver ao comerciante a quantia do empréstimo para a sua viagem à terra das vacas infinitas, e de um tal de Jorge Luís Borges, escritor…

Cara Linda, homem bondoso, antigo emigrante que, após trinta anos de dura labuta no mundo tinha regressado endinheirado a Mindelo, compreendeu perfeitamente o direito de sonhar do rapaz, foi generoso…

Anos mais tarde, depois de muitas peripécias, bem na vida, Ulisses era o mulato mais desejado de Doc Sur em Buenos Aires. Bailava Tango melhor do que ninguém, trabalhava com primor, e tinha já amealhado em pouco tempo, uma considerável fortuna, vendendo charutos de contrabando. Visitou frequentemente alcovas e bordéis das belas senhoritas portenhas, sem nunca se esquecer da sua Penélope, a mulata mais linda da sua ilha, que ele carregava religiosamente na sua carteira de couro argentino genuíno... numa bela fotografia a preto e branco…

Após uma longa troca epistolar com a sua princesa que durou cinco anos e cinco meses, pediu por correspondência a mão da amada aos pais, e com grande felicidade foi-lhe concedido a bênção dos progenitores e… através de um procurador, após rígidas instruções de Ulisses, foram regrados os papéis num rigor burocrático colonial só visto, marcou-se o dia do casamento por procuração, devido a ausência do noivo, emigrante na distante Argentina…

Naquele dia, a cidade brilhou! …E dizem os mais velhos, que Penélope é até hoje, a mais linda noiva deste burgo e naquele dia fora conduzida ao altar pelo excelentíssimo Sr. Doutor juiz, Manuel da Cunha e Sacramento Pais Ferreira, padrinho do enlace por consentimento do aventureiro Ulisses… Célebre foi também, a festa do enlace com centenas de convidados distintos na sala do Nho Jom Tolentino, no bairro do Monte de Deus onde tudo era foguetes tambores e comida durante dias…

Terminado a festança, meses mais tarde a noiva embarcou para Buenos Aires numa noite de Fevereiro, num escuro de breu, em que a cacimba chicoteava as costas dos remadores semi nus do bote de Cara Linda. Penélope triste, embarcou no navio inglês de nome Faith, barco da mala real que rumava primeiro ao porto de Santos no Brasil, logo a capital Argentina…

Com um ambíguo sentimento de alegria e saudade, Penélope partira para terra longe, com os pais no cais chorando inconsoláveis, acompanhados por alguns familiares que acenavam a princesa com lanternas, no piche da noite tropical naquele cais da Alfândega, com as suas gruas fálicas fornicando a escuridão… Era a hora di bai… pensava a bela musa, lembrando-se por um segundo da morna do poeta Eugénio Tavares, ao mesmo tempo que escutava, o chapinhar dos remos cadenciados do bote, entrando e saindo da água…

Com o paquete cortando o azul imenso do mar, num esforço titânico, no segundo dia, Penélope logrou sair da sua cabine, depois de ter vomitado as tripas coração, chorar até não ter lágrimas para derramar tanta saudade… Com as pernas tremendo, dirigiu-se ao salão da nave, ali dentro, depara com um outro passageiro Cabo-verdiano, um belo homem, com quem tinha cruzado várias vezes na pequena praça da cidade… cavalheiro de paletó branco e sapatos a duas cores, preto e branco, brilhando impecavelmente… Que, ao avistar a linda mulata entrando no salão, convidou-a cordialmente para a sua mesa naquele amplo salão inglês, decorado com um enorme quadro com motivos de uma caçada, onde homens a cavalo com vários sabujos raivosos, perseguiam uma raposa, numa floresta bem deprimente. O pintor, um medíocre, com certa habilidade, lograra transmitir uma certa atmosfera kitch para a tela…

Com o seu cabelo crespo, preto de azeviche, alisado com brilhantina a moda de Carlos Gardel, e um bigode perfeitamente simétrico, o elegante gentil-homem, que residia em Salvador da Baía, regressava ao Brasil, após longas férias no arquipélago terra onde nascera. Com ar de sedutor afro-latino, Penélope não resiste ao charme do peralta, e no quinto dia de navegação, ela é seduzida de forma admirável, com gestos e palavras bonitas do finório, no seu belo e cantado português do Brasil… Foi desflorada com mestria num piscar de olho pelo o astuto António Cabo-Verde, um malandro e cafétão conhecido em toda as esquinas de Salvador da Baía. Apaixonaram-se perdidamente, amaram até a exaustão sem que os ingleses da tripulação interviessem nos seus jogos de amor e…

– Penélope, nunca chegou ao seu suposto destino… Como disse um sábio: O destino?... A gente faz! …

Arrasado com esta fatalidade, e sem nunca perceber o destino da sua amada, louco de dor, Ulisses perdeu a noção do tempo…

– Hoje, velho e andrajoso, com uma barba enorme e uns cabelos sujos e desgrenhados feitos punhais prontos para espetar-lhe no coração destroçado, triste Ulisses senta todos os dias no cais numero 7 em Doc Sur, Buenos Aires acompanhado do seu cão Argos, olhando o horizonte… Dizem, que está esperando o fantasma da amada, que nunca chegou aos seus braços.

sexta-feira, 8 de maio de 2009

A História da Princesa de Alafiá em Petrópolis

Performance de contação " A princesa Alafiá", na Inauguração do Busto de Zumbi na Praça da Liberdade, em Petrópolis
Prezad@s,
convido a tod@s para a apresentação da performance de contação
"A História da princesa de Alafiá", sábado próximo, na Praça da Liberdade em Petrópolis, dentro do evento de inaugaração do busto de Zumbi, escultura de Denis Cross, com a presença do prefeito Paulo Mustrangi e o Ministro da igualdade social, Edson Santos.
Em 09 mai 2009, a partir das 10:00 na Praça da Liberdade em Petrópolis

Um grande abraço a tod@s
Sinara Rúbia
pelo Grupo Cultural Vozes da África
fonte: e-mail de Sinara Rúbia às 00:25 de 05/05/2009

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

Dina Salústio - Natal


É época do Natal. De prendas, de frutas secas e fios dourados. De perus e bebidas várias. De plásticos. De muitos plásticos. E de sacrifícios.

Também festa de família.

Estou numa loja. Três mocinhos semi-esfarrapados entram. Não têm pressa. Não pedem para serem atendidos. Os olhitos passam de um brinquedo para o outro e neles vejo o mesmo brilho dos olhos dos meus filhos.

Timidamente, quando não se sentem observados pela vendedora, passam a mão – um dedo só – pela carroçaria de um camião. Estão mudos, num mundo à parte e nem sequer trocam olhares uns com os outros. Cada um vivendo o sonho de uma viagem, aventura de uma corrida.

Os compradores entram e saem atarefados. E não vejo alegria neles. A cada presentinho, a cada pacotinho de uma bagatela qualquer, um balanço às notas que ficam, um cálculo mental, uma decepção. E começam as lamentações que os artigos estão caros, que a vida está cada vez mais difícil, que já é tempo de se acabar com o Natal.

Não estou de acordo. É bom haver Natal. É bom escrever aos amigos e dizer-lhes que estão comigo o tempo todo, apesar do meu silêncio. É bom haver Natal e poder dizer-te que tenho saudades tuas, que te amo e que te queria abraçar forte. É bom haver Natal, quando não é época de sacrifícios e angústias e dívidas, para se manter uma ridícula aparência de sucesso.

A vendedora fica nervosa entre o atender os clientes e vigiar os meninos esfarrapados. Onde está a família deles? Já terão comido hoje? Só sei que estão a viver mais um Natal. O seu Natal, tecido com olhares e imaginação: um Natal de espreita.

Uma freguesa entra: Dezembro é mau, mas Janeiro é pior. Um mês comprido. Um mês de contas. Ela fala alto, enquanto enumera as prendas que faltam comprar. O show, para se fazer notada. No fundo, a eterna necessidade.

Um dos miúdos distrai-se e solta uma exclamação. Os clientes olham para ele, para eles e para vendedora e apertam com mais força os embrulhinhos de Natal. E a raiva e as frustrações que a contabilidade provoca soltam-se e aparecem nos olhos e nos murmúrios. São gente de bem que não podem aceitar a vadiagem que os fatinhos rotos deixam perceber.

A rapariga do balcão sente-se apoiada e expulsa os garotos. E não percebeu, porque não podia perceber que o que os compradores queriam era que as lojas fechassem, que não houvesse coisas para comprar e que um decreto proibisse aquela mascarada toda. A sua consciência ficaria tranqüila, o orgulho salvo. Talvez o natal passasse a ser mais humano, mais de compromisso, porque não artificial.

Há um sorriso nos mocinhos que eu não percebo, como se não fizessem parte de nós. Como se fôssemos uns palhaços para os divertir. Ou quem sabe, uma certa nostalgia de não serem palhaços como nós.

Tranqüilamente saem, em busca de outras lojas de sonhos.” (p. 69)

SALÚSTIO, Dina. Mornas eram as noites. Colecção Lusófona. Lisboa: Camões, 1999. p. 68-69

domingo, 14 de setembro de 2008

Ondjaki - oficina os caminhos do conto

Oficina: Os caminhos do conto – oficina de escrita criativa
25 setembro a 30 outubro
Ministrada por Ondjaki

Local:
POP – Pólo de Pensamento Contemporâneo
Rua Conde Afonso Celso, 103
Jardim Botânico, CEP 22461-060
Tel. (21) 2286-3299 e 2286-3682
contato@polodepensamento.com.br


A oficina abordará questões ligadas às inúmeras possibilidade de criação de um conto. Entre teoria e prática, serão abordados aspectos significativos da descrição e da narração. Personagens e ambientes. Da matéria às circunstâncias. O curso explorará as contingências bem como os elementos propulsionadores da criação do conto. Ficcionalidade, realidade e diversidade como elementos essenciais ao processo de escrita criativa. O lugar da música no universo do conto.


25 setembro
Introdução ao tema do conto curto. Apresentações e exercícios.

02 outubro
O conto curto. Escolhas e sensibilidades. Processos de coesão. Descrições: selecionar, ordenar, singularizar. Traços essenciais da descrição.

09 outubro
Motivações para o início/fim de um conto. Ponto de vista físico/afetivo. Descrição e personagens. Início do trabalho para a criação do conto. Obs: Visita de um(a) escritor(a) convidado(a).

16 outubro
Lugares e não-lugares. Narração: matérias e circunstâncias. Figurações, temas e funções. Abertura/desenvolvimento/clímax/conclusão: ou o inverso. Continuação de discussão e elaboração da criação do conto.

23 outubro
Aperfeiçoamento na revisão do conto: os cortes e os retoques. O conto como escultura delicada. O lugar da música na criação do conto. Obs: Visita de um(a) escritor(a) convidado(a).30 outubro Apresentação e comentários dos trabalhos finais.

Ondjaki é prosador e poeta angolano. Membro da União dos Escritores Angolanos, seus livros foram traduzidos para francês, espanhol, italiano, alemão, inglês. Entre outros, é autor de Os da minha rua (contos, 2007), Bom dia camaradas (romance, 2006), Quantas madrugadas tem a noite (romance, 2004), Momentos de aqui (contos, 2004), E se amanhã o medo (contos, 2004) e O assobiador (novela, 2002).

6 encontros, quintas-feiras: 19h30-21h30 Valor: R$ 420,00 50% na inscrição e o restante 30 dias após o início do curso

http://www.polodepensamento.com.br/sec_cursos_view.php?id=133


quinta-feira, 21 de agosto de 2008

Eu

Texto de Erika de Lima Pinto Marra, graduada em Letras


Eu, quando criança, sonhava com um mundo melhor, sem guerras e sem tanta desigualdade.

Naquela época onde eu era a “barbie” e meu marido era o “Ken” tudo era maravilhoso; tinha um carro, um marido perfeito e era uma mulher bem sucedida na vida.

Eu, quando adolescente, sonhava com um mundo menos injusto, apesar de saber que tudo isso não passava de ilusão.

Naquela época onde eu era a garota mais “popular” da escola, meu namorado era um príncipe encantado (que eu esperava chegar em um cavalo branco) e, apesar de o mundo conspirar contra mim, conseguia me sair bem de qualquer situação.

Eu, agora adulta, não tenho esperanças que o mundo melhore: na verdade eu nem sonho mais.

Hoje me chamo Erika, meu marido não é o “Ken” (mas na medida do possível tenta ser meu príncipe encantado), não sou uma pessoa bem sucedida e continuo achando que o mundo conspira contra mim, mas agora não consigo me sair bem de nenhuma situação.

Descobri que a vida só é boa quando a gente sonha, mas depois que viramos adultos nunca temos tempo para sonhar, logo, não somos felizes.

Bons tempos àqueles quando os sonhos se tornavam realidade...

segunda-feira, 2 de junho de 2008

Mia Couto - O fio e as missangas

Encontro JMC sentado num banco de jardim. Está recatado, em solene solidão, como se só ali, em assento público, encontrasse devida privacidade. Ou como se aquele fosse seu recinto de toda a vida morar. Em volta, o tempo intacto, só com horas certas.

Nunca soube o seu nome por extenso. Creio que ninguém sabe, nem mesmo ele. As pessoas chamam-no assim, soletrando as iniciais: jota eme ce.

Saúdo-o, em inclinação respeitosa. Ele ergue os olhos como se a luz fosse excessiva. Um subtil agitar de dedos: ele quer que eu me sente e o salve da solidão.

– Lembra que sentámos neste mesmo lugar há uns anos atrás?

– Recordo, sim senhor. Parece que foi ontem.

– O ontem é muito longe para mim. Minha lembrança só chega às coisas antigas.

– Ora, o senhor ainda é novo.

– Não sou velho, é verdade. Mas fui ganhando muitas velhices.

E deixámo-nos, calados. Vou lembrando os tempos em que este homem magro e alto desembocava neste mesmo jardim. Acontecia todo final de tarde. Recordo as suas confidências. Que ele, sendo devidamente casado, se enamorava de paixão ardente por infinitas mulheres. Não há dedos para as contar, todinhas, dizia.

– A vida é um colar. Eu dou o fio, as mulheres dão as missangas. São sempre tantas, as missangas...

Sempre que fazia amor com uma delas não regressava directamente a casa. Ia, sim, para casa de sua velha mãe. A ela lhe contava as intimidades de cada novo caso, as diferentes doçuras de cada uma das amantes. De olhos fechados, a velha escutava e fingia até adormecer no cansado sofá de sua sala. No final, tomava nas suas as mãos do filho e ordenava que ele tomasse banho ali mesmo.

– Não vá a sua mulher cheirar a presença de uma outra – dizia.

E JMC se enfiava na banheira enquanto a velha mãe o esfregava com uma esponja cheirosa. Acabado o banho, ela o enxugava, devagarosa como se o tempo passasse por sua mãos e ela o retivesse nas dobras da toalha.

– Continue, meu filho, vá distribuindo esse coração seu que é tão grande. Nunca pare de visitar as mulheres. Nunca para de as amar...

– E o pai, o pai sempre lhe foi fiel?

– Seu pai, mesmo leal, nunca poderia ser fiel...

– E porquê?

– Seu pai nunca soube amar ninguém...

Agora, tantos anos passados, quase não reconheço o mulherengo homem alto e magro.

– Desculpe perguntar; JMC. Mas o senhor ainda continua visitando mulheres?

Ele não responde. Está absorvido, confrontando unhas com os respectivos dedos. Ter-me-á ouvido? Por recato, não repito a pergunta. Após um tempo, confessa num murmúrio:

– Nunca mais. Nunca mais visitei nenhuma mulher.

Uma tristeza lhe escava a voz. Me confessava, afinal, uma espécie de viuvez. Foi ele quem quebrou a pausa:

– É que sabe? Minha mãe morreu...

Meu coração sapateia, desentendido. Pudesse haver silêncio feito da gente estar calada. Mas esse silêncio não há. E nesse vazio permanecemos ambos até que, por entre o cinzentear da tarde, surge Dona Graciosa, esposa de JMC. Está irreconhecível, parece deslocada de um baile de máscaras. Vem de brilhos e flores, mais decote que blusa, mais perna que vestido. Me soergo para lhe dar o lugar no banco. Mas ela se dirige ao marido, suave e doce:

– Me acompanha, JMC?

– E você quem é, minha flor?

– O meu nome você me há-de chamar, mas só depois.

– Depois? Depois de quê?

– Ora, só depois...

De braços dados, os dois se afastam. A noite me envolve, com seu abraço de cacimbo. E não dou conta de que estou só.


COUTO, Mia. O fio das missangas. Lisboa: Caminho, 2004, 2a. ed, pp. 67-69.

sexta-feira, 25 de abril de 2008

Mia Couto - A cantadeira (conto)



Acabei a minha sessão de canto, estou triste, flor depois das pétalas. Reponho sobre meu corpo suado o vestido de que me tinha libertado. Canto sempre assim, despida. Os homens, se calhar, só me vêm ver por causa disso: sempre me dispo quando canto. Estranha-se? Eu pergunto: a gente não se despe para amar? Porque não ficar nua para outros amores? A canção é só isso: um amor que se consome em chama entre o instante da voz e a eternidade do silêncio.

Outros cantadores, quando actuam em público, se trajam de enfeites e reluzências. Mas, em meu caso, cantar é coisa tão maior que me entrego assim pequenitinha, destamanhada. Dessa maneira, menos que mínima, me torno sombra, desenhável segundo tonalidades da música.

Cantar, dizem, é um afastamento da morte. A voz suspende o passo da morte e, em volta, tudo se torna pegada da vida. Dizem mas, para mim, a voz serve-me para outras finalidades: cantando eu convoco um certo homem. Era um apanhador de pérolas, um vasculhador de maresias. Esse homem acendeu a minha vida e ainda hoje eu sigo por iluminação desse sentimento. O amor, agora sei, é a terra e o mar se inundando mutuamente.

Amei esse peroleiro tanto até dele perder memória. Lembro apenas de quanto estive viva. Minha vida se tornava tão densa que o tempo sofria enfarte, coagulando de felicidade. Só esse homem servia para meu litoral, todas vivências que eu tivera eram ondas que nele desmaiavam. Contudo, estou fadada apenas para instantes. Nunca provei felicidade que não fosse uma taça que, logo após o lábio, se estilhaça. Sempre aspirei ser árvore. Da árvore serei apenas luar, a breve crença de claridade.

Em certo momento, me extraviei de sua presença, perdi o búzio e o mar que ecoava dentro. Ele embarcou para as ilhas de Bazaruto, destinado a arrancar riquezas das conchas. Apanhador de pérolas, certeiro a capturar, entre as rochas, os brilhos delas. Só falhou me apanhar a mim, rasteirinha que vivi, encrostada entre rochas.

Na despedida, ele me pediu que cantasse. Não houve choradeiras. Lágrima era prova gasta. Vejam-se as aves quando migram. Choram? O que elas não prescindem é do canto.

– E porquê? – perguntou o peroleiro.

O gorjeio, explicou ele, é a âncora que os pássaros lançam para prenderem o tempo, para que as estações vão e regressem como marés.

– Você cante para chamar meu regresso.

Minha vida foi um esperadouro. Estive assim, inclinada como praia, mar desaguando em rio, Índico exilado, mar naufragado. Estive na sombra mas não fiquei sombria. Pelo menos, nas primeiras esperas. Valia-me cantar. Espraiei minha voz por mais lugares que tem o mundo.

– Esse homem me lançou um bom-olhado?

Demorasse assim sua ausência, a espera não se sujava com desespero. Me socorria a lembrança de seus braços como se fossem a parte do meu próprio corpo que me faltasse resgatar.

Para sempre me ficou esse abraço. Por via desse cingir de corpo minha vida se mudou. Depois desse abraço trocou-se, no mundo, o fora pelo dentro. Agora, é dentro que tenho pele. Agora, meus olhos se abrem apenas para as funduras da alma. Nesse reverso, a poeira da rua me suja é o coração. Vou perdendo noção de mim, vou desbrilhando. E se eu peço que ele regresse é para sua mão peroleira me descobrir ainda cintilosa por dentro. Todo este tempo me madreperolei, em enfeitei de lembrança.

Mas o homem de minha paixão se foi demorando tanto que receio me acontecer como à ostra que vai engrossando tanto a casca que morre dentro de sua própria prisão. Certamente, ele passará por mim e não me reconhecerá. Minha única salvação será, então, cantar, cantar como ele me pediu. Entoarei a mesma canção da despedida. Para que ele me confirme entre as demais conchas e se debruce em mim para me levar.

Mas, na barraca do mercado, eu canto e não encanto ninguém. Ao inviés, todos se riem de mim, toquinhando o dedo indicador nas respectivas cabeças. Sugerem assim que esteja louca, incapazes que são de me explicar.

Esta noite, como todas as noites antes desta, apanho minhas roupas enquanto escuto os comentários jocosos da assistência. Afinal, a mesma humilhação de todas as exibições anteriores. Desta vez, porém, aquela gozação me magoa como ferroada em minha alma.

Nas traseiras do palco, uma mulher me aborda, amiga, admirada do meu estado. Me estende uma folha de papel, pedindo que escrevesse o que sentia. Fico com a caneta gaguejando em meus dedos, incapaz de uma única letra. Pela primeira vez, me dói ser muda, me aleija ter perdido a voz na sucessiva convocação de meu amado. Me castigam não as gargalhadas dos que me fingiam escutar mas um estranho presságio. É então que, das traseiras do escuro, chega um pescador que me faz sinal, em respeitoso chamamento. Sabendo que não falo, ele também pouco fala.

– Lhe trago isto.

Suas mãos se abrem na concha das minhas. Deixa tombar uma pequena luminosidade que rola entre os meus dedos. É uma pérola, luzinhando como gota de uma estrela. Lhe mostro o papel onde rabisquei a angustiosa pergunta:

– Foi quando?

Ele apenas abana a cabeça. Interessava o quando? Aquela era a maneira de o mensageiro me dizer que o meu antigo amor se tinha desacontecido, exilado do tempo, emigrado do corpo.

– Enterraram-no?

Mas a interrogação, rabiscada na folha, não cumpre seu destino. Silencioso, o pescador se afunda nas trevas com a educação de ave nocturna. Fico eu, enfrentando sozinha o todo firmamento, monteplicado em pequenas pérolas. E escuto, como se fosse vinda de dentro, a voz desse peroleiro:

– Cante! Cante aquela canção em que eu parti.

E lanço, primeiro sem força, os acordes dessa antiga melodia. E me inespero quando noto que o mensageiro regressa, arrepiado do caminho que tomara. No seu rosto se acendia o espanto de me escutar, como se, em mim, voz e peito se houvessem reencontrado.


COUTO, Mia. Na Berma de Nenhuma Estrada e outros contos. Lisboa: Editorial Caminho, 2001, pp. 109-112.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

Nelson Saúte: A sombra vagabunda

- Estou a apodrecer vivo.

Olhei para trás e dei de chofre com o homem que pronunciara aquela frase. Mais do que uma pessoa, parecia o fiapo de uma extinguível sombra. Uma silhueta de si próprio, réstia de alguém que fora um ser humano. Olhei-o nos olhos. Olhei-o fixamente. Tinha um olhar que encenava uma tragédia. Um olhar que denunciava o estado do seu corpo já desfeito pelo tempo, não obstante a idade. Estava curvado e parecia levitar. Caminhava empurrado pela aragem. Com ele, havia a manhã de sol e algum frio naquele sábado findava. Tinha alguma luz naqueles olhos que acenavam à vida, que lhe fugia. Certamente.

Estávamos os dois em plena avenida Samora Machel, na baixa de Maputo. A cidade imitava o bulício de outros dias. Interrompi meus pensamentos sobre o esqueleto do prédio Pott, que também apodrecia – como as palavras pungentes do homem que parara diante de mim -, resistindo as suas paredes mijadas e defecadas, sujas e ultrajadas depois de longos anos de abandono. Também o prédio, cuja construção começara em 1905, cem anos antes justamente, se queixava das mazelas do corpo. Deixei-me do corpo de pedra e dediquei-me àquele homem que entrara na minha solidão.

Eu estava à espera que o Moisés e os seus mufanas (rapazes, miúdos) acabassem de lavar o meu carro. Há muito que eles cuidam do meu automóvel. Em compensação o Moisés -, o patrão, tem uma avença. Tudo isto ali na praça.

Pensava vagarosamente sobre as mutações constantes da cidade. Do alto da avenida surgia, hierático, o edifício da câmara municipal, vulgo conselho executivo, terminologia que veio a reboque da revolução.

- O senhor doutor não está a ver quem sou eu?

Não hesitei em ser sincero.

- A sua cara não me é estranha. Mas do nome não me lembro.

Fixei a sua imagem sofredora. Era um homem escuro, demasiadamente escuro. Magro, pelo pescoço se adivinhavam as marcas das veias. No olhar, a sombra dele próprio. Fiquei aturdido perante aquela imagem de um homem que sobrara naquele esqueleto, da vida que resistia naquela expressão.

- Estou a sofrer senhor doutor.

Nada disse. Permaneci em silêncio.

- Estou a vir do hospital, tenho bolhas por todo o corpo...

Sem acabar a frase, baixou-se vagarosamente e puxou as calças pela bainha. Fiz-lhe um sinal com as mãos e a cabeça:

- Não precisa, meu caro senhor.

De nada me valeu a advertência. O homem mostrou as suas partes íntimas, naquele instante breve entre a sua primeira frase e o meu inescondível espanto.

- Está a ver? Tenho o corpo todo assim. Preciso de setenta meticais para o hospital. Não posso prometer, mas um dia eu vou pagar.

Para evitar constrangimentos de ser interpelado e não saber mentir, muitas vezes, quase sempre, ando sem dinheiro. Como era sábado, naquela manhã, eu tinha algum.

O homem tinha os ombros recurvos, que os fez dobrar para intensificar a sensação da dor, perante meu indisfarçável espanto. Pensei comigo: por que razão não darei os setenta meticais? Talvez contribua com mais um dia de vida no incauto destino deste homem.

Provavelmente o dinheiro teria outra utilização e não o hospital ou a farmácia. Mas lá tranqüilizei minha consciência por estar a partilhar com o próximo as parcas benesses que me couberam neste mundo.

- Muito obrigado. Nem sei como lhe agradecer, doutor.

- Não tem que me agradecer. Desejo-lhe rápidas melhoras.

O homem baixou-se numa vênia, o movimento foi feito com a lentidão das forças que lhe restavam. Vestia uma camisa às riscas, de flanela, uma camisola por dentro, umas calças jeans, sapatos pretos e meias grossas igualmente escuras. Olhei outra vez para a sua mão e tornei a reparar nas manchas que lhe brotavam daquela zona do corpo.

Enquanto o bulício da cidade se imiscuía nos meus pensamentos, deixei-me por uns momentos fixado na imagem daquele homem que dobrava a esquina da avenida Zedequias Manganhela, em direcção ao mercado Central, o famoso Bazar da baixa. Eu continuava ali na Samora Machel, a avenida que termina justamente na praça 25 de junho, onde se levam os carros, que se encontrava encerrada, em obras, ouvindo ao longe as buzinas dos motoristas impacientes, o trânsito caótico do meio-dia, da cidade toda que descera à baixa, dos veículos que não tinham onde estacionar.

- Sou da família Nhantumbo, dissera.

Confesso que anuíra com a cabeça mas, na verdade, não o conhecia. A cidade é pequena, quase todos nos conhecemos. É provável que este homem tenha sido alguém que tivera ou travara algum conhecimento comigo no passado. É provável, mas não me recordo. Olhava fixamente para o cimo da Samora Machel e tentava descortinar, nas teias da memória, algo que trouxesse aquele rosto aos dias do presente.

Há muito que não escrevo, pensei, a matéria prima está aqui, nos dias que passam rente ao meu nariz. Aqui estão as histórias, as vidas destes homens desencontrados com o seu tempo.

Lembrei-me então da mulher grávida e imensamente magra que se cruzara comigo horas antes. Era também o mapa de uma mulher sofrida, cuja barriga era maior que o seu corpo. Caminhava sem olhar para a frente. Caminhava como muitos dos que se perdem na esquina adiante. Caminhava como quase todos nós caminhamos. Deixava pelo caminho um pouco de nós próprios, perdendo em cada rasto a nossa desconhecida biografia. Como aquele homem que me deixara assombrado e que caminhava, não obstante. Provavelmente, em cada esquina da cidade ele deixava cair – já poucas forças restavam – o que lhe sobrava da sua sombra vagabunda.

Saúte, Nelson. A sombra vagabunda. In: Rio dos bons sinais. Rio de Janeiro: Língua Geral, 2007. 1ª edição. pp. 47-51.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

Dina Salústio: Tabus em saldo

Dina Salústio é uma conceituada voz da literatura feminina de Cabo Verde. Nascida em 1941, na Ilha de Santo Antão, em seus textos os dramas, anseios, desejos, medos da mulher cabo-verdiana ocupam posição de destaque. Entretanto, na escrita da autora os sentimentos femininos tornam-se universais, não se reduzem apenas à mulher de sua pátria, mas expandem-se a todas as mulheres do mundo.
Publicou, apenas para citar alguns, textos em poesia
(Mirabilis – veias ao sol), prosa (A louca do serrano), contos (Mornas eram as noites).

Tabus em saldo

Se tivesse nascido macho era um rapaz, mas como nasceu fêmea é mulher. As fêmeas são sempre mulheres. Mas mesmo mulheres, elas são de todos nós. Para serem protegidas. No entanto, porque já têm tudo para serem motivo de tudo, há outros de nós que as desejam para o folclore da fantasia e para o encobrimento ridículo e camuflado da irracionalidade do estar.

De repente – ou não terá sido assim tão de repente? – vamos aos esconderijos privados desta sociedade que dolorosamente ou não, recorre a proibições, enfatiza princípios, agrupa-os em tabus para a defesa mínima de um certo decoro, ou, dando uma de evoluídas, parcelas outras há, que embandeiradas na necessidade de se cortar de vez com a hipocrisia social, em nome do progresso e outros mais, arranham a ferida onde ela dói mais: as crianças e as adolescentes.

Não satisfaz mais a orquestrada exploração da candura das meninas européias, a sedução das orientais, a instrumentalização das americanas do sul e do norte. Não. É preciso vir para mais perto. Temos uma juventude tão bonita que há que se retirar os dividendos, transformando-as em objectos de gozo mais sofisticado, em produtos rentáveis. E por isso vamos, outros de nós, aos liceus, às escolas para as envolver em collants e transparências e expô-las em fotos aos instintos curiosos de outros.

O negócio rende. Cada espiadela vinte escudos, diz-se. Dois rebuçados ao fim e ao cabo. Barato como quase tudo em Cabo Verde. Barato como nós, a nossa autenticidade, as ambições, os sentires, o orgulho e a existência. Dois rebuçados: o custo de uma espiadela ao clandestino filmado das nossas crianças fêmeas.

A gargalhada forte de um grupo de meninas perturba-me de alegria, mas imediatamente olho para os lados com medo que algum fotógrafo, caçador de corpos, esteja por perto para um primeiro contacto.

Desisti de querer ver mais. É o que a maioria faz, por cobardia, vergonha e secretos desejos que as coisas ruins deixem de acontecer.

Para depois ficam a luta, a briga e a denúncia. E as consciências tranqüilizam-se com a promessa.

... À noite, na televisão, passou um filme sobre prostituição infantil, em várias nuances. Eram crianças americanas. Podiam ser caboverdianas.

Era o primeiro dia do Ano Novo de 1992. A primeira noite.

SALÚSTIO, Dina. Tabus em saldo. In: Mornas eram as noites. Colecção Lusófona. Lisboa: Instituto Camões, 1999. pp. 32-33.

segunda-feira, 5 de novembro de 2007

ONDJAKI - O homem mais magro de Luanda.

A seguir um conto extraído do recente livro Os da minha rua, publicado pela editora Língua Geral, do escritor angolano Ondjaki, representante da novíssima geração do seu país. Nascido em Luanda, em 1977, é romancista, contista e às vezes poeta. É membro da União dos Escritores Angolanos. Recentemente co-dirigiu o documentário Oxalá crescam pitangas - histórias de Luanda (2006), e passou por aqui no Festival do Rio de Cinema 2007.
O homem mais magro de Luanda
– Mas caíste das escadas ou foi assim acidente de carro?
– Não, pá. Foi o Chico que me deu um apertão.
Palavras do Vaz, dias depois do apertão.
A casa do tio Chico tinha talvez a cerveja mais deliciosa de Luanda. Os mais-velhos é que falavam isso, antes e depois de beberem umas quantas. Eu e a tia Rosa tínhamos mais a ocupação de abrir a porta e ir buscar essa tal deliciosa cerveja.

Não me lembro bem se os toques eram diferentes ou não, mas o tio Chico sabia quem estava no portão pelo modo como a campainha tocava. As pessoas iam chegando.

– Ó Rosa, traz aí uns torresmos e o jindungo malandro.

Dois toques rápidos “é o Osório, vai abrir, Dalinho”, um toque suave tipo tímido “é o Mogofores, e vem com sede”, toque longo e palmas “é o Lima, ó Rosa dá aí um jeito”, a mesa enchia-se de copos de cerveja, aperitivos e sobras, quitetas, kitaba, camarões, chouriço, a televisão sempre ligada e pessoas de todas as cores que vinham beber dos barris de cerveja do tio Chico.

O tio Chico gostava de fazer obras no quintal, acho eu. Ao lado da enorme gaiola de rolas ele construiu dois quartos. Pensei que era quarto de gente, afinal era para guardar carne, peixe e o barril de cerveja que ficava lá dentro. Um quarto era tipo geleira, o outro era arca de congelar tudo.

Naquele tempo o tio Chico tinha um contacto para ir buscar barris de cerveja e podia haver maka se não houvesse aquela botija fininha de dar pressão aos finos. Ficava tudo dentro do quartinho-geleira. Cá fora havia a torneira da cerveja e um banquinho para eu chegar lá e poder encher os copos. Eu então gostava bué dessa minha missão de finos.

No quintal do tio Chico eu já não contava os finos, era perda de tempo. Depois do fino 77 as pessoas riam muito e já não havia quase torresmos no pires. Os olhos brilhavam mais e eu até já podia contar anedotas sem graça nenhuma que todos riam mesmo só à toa.

A campainha tocou. Só que o tio Chico não disse quem era. Olhei logo na direcção do portão, para saber se ia já a correr abrir. O Lima pousou o copo. O Mogofores parou de rir, ainda por cima arrotou sem pedir desculpa. O Osório puxou as calças para cima como sempre gostava de fazer mesmo que o cinto já estivesse perto do sovaco. A tia Rosa também esperou. A campainha tocou mais. Eu já só mexia os olhos.

– Vai lá ver – o tio Chico falou.

– O miúdo não vai sozinho – a tia Rosa agarrou-me no braço.

Os outros ficaram com cara de não-sei-quê. Era sempre assim, se houvesse uma pequena maka entre a tia Rosa e o tio Chico, todos paravam de beber. A tia Rosa levantou-se, fomos juntos. Era o Vaz.

O Vaz era um senhor muito alto, também camba do tio Chico, talvez o homem mais magro de Luanda.

– Boa noite, dona Rosa, o senhor Chico ta? – a tia abriu o portão para ele entrar.

No quintal já havia barulho de novo. Todos riram quando o Vaz entrou nessa maneira desajeitada de cumprimentar as pessoas.

– Ó meu sacana, então tu não sabes tocar a campainha como deve ser?

O Vaz não disse nada, cumprimentou todos e no fim aproximou-se com receio do tio Chico.

– Não me digas que tás outra vez com medo de me apertar a mão?

Não sei, eu era só uma crianças dessas a olhar os mais-velhos, mas muita gente não gostava assim muito de cumprimentar o tio Chico.

– Anda cá, meu sacana, andas a tocar a minha campainha com toques secretos, tu quase que entras pela racha do muro.

O Vaz, com medo, chegou perto do tio Chico. Quando foi abraçado, o tio Chico fez questão de lhe dar um apertozito. As costas do Vaz fizeram um ruído tipo estalido de porta enferrujada.

– Ó Dalinho, traz aí um fino bem tirado pra este sacana do Vaz.

Atravessei o quintal com o copo de vidro na mão, na direcção da torneira da cerveja pendurada na parede. Na cozinha aberta, cá fora, a tia Rosa, com o avental dela azul e bonito, com chinelas abertas e antigas, fritava mais torresmos e controlava o peixe grosso no forno. Durante muitos anos, para mim o mundo teve o cheiro daquele quintal maluco: as cervejas, as comidas e as mãos da tia Rosa a emprestrarem cheiros de cozinha aos meus cabelos despenteados.

De longe olhei o Vaz fazer caretas de dor. Tentava disfarçar, mas desconseguiu. Trouxe-lhe o fino bem gelado e ele bebeu tudo assim num gesto de matar a dor.

- Tavas cheio de sede, meu sacana.

Depois do jantar, as filhas do tio Chico já tinham ido dormir e a telenovela estava quase a acabar. Acordei com a voz do Sinhôzinho Malta a dizer “tou certo ou tou errado...?”, e o telefone tocou. O tio Chico atendeu. Primeiro ficou preocupado, depois riu devagarinho.

– Tá bem, tá bem, espero que corra tudo bem com esse sacana.

Eu e a tia Rosa também queríamos saber do caso. O tio andou devagar, de propósito, sentou-se.

– Ó Rosa, vai-me lá buscar um fino, filha – o tio Chico fechou as janelas da sala, recebeu o copo e bebeu de penalty. – À saúde do Vaz – ainda disse, enquanto ia para o quarto.

A tia Rosa apagou a luz da sala e fomos juntos para o quarto.

– O sacana do Vaz tá no hospital, tem duas costelas partidas.

Eu ainda queria perguntar se isso de costelas era o quê, mas já era tarde.

– Amanhã vamos lá ver o gajo, e tu podes mexer na manivela da cama, Dalinho.

O tio apagou o candeeiro, enquanto a tia Rosa fez-me uma festinha na bochecha e endireitou o lençol, como fazia sempre há tantos anos, para os mosquitos não me ferrarem nos braços e não me atrapalharem nos meus sonhos de falar durante a noite.


ONDJAKI. O homem mais magro de Luanda. In: Os da minha rua. Rio de Janeiro: Editora Língua Geral, 2007. pp. 53-57.

quinta-feira, 18 de outubro de 2007

Quando acontece (extended version)

Noite quente de verão, enluarada. Assim que entrei no bar, olhei para o varandão e a vi, sozinha, com jeito pensativo e distante admirando a lua como se por lá estivesse. Ao redor, outros freqüentadores estavam empolgados com o dia lindo que havia se encerrado e a noite convidativa que rolava. De repente, nossos olhares se cruzaram. Tive a oportunidade de fitar um rosto delicado, brilhante em vida e sorrindo para mim, um sorriso discreto que pedia confirmação. Rapidamente reparei em seus olhos pretos, encaracolados cabelos, pele morena queimada pelo sol, o batom básico, brincos, cordão pulseirinhas, saia hippie, o anel de âum, fadinha tatuada sobre o cogumelo no tornozelo e sandália rasteira. Sorri. De imediato dirige-me a ela, pedi a mesma cerveja que estava bebendo. Percebi o cigarro sobre a mesa e a maneira convidativa com que me encarava. Posso, perguntei. Claro, foi a resposta dita pelos delicados seios estufados sob a fina blusinha com vários tons de rosa acompanhada por expressão radiante, mágica. O que diz a lua cheia, quis saber. Ela está próxima de Saturno, logo estarão na mesma casa com Marte, e quando isto acontecer será um momento que somente se repetirá daqui a quarenta anos. Sou Áries, ascendente em Virgem, planeta Marte. Jura, Capricórnio com ascendente em Aquário, planeta Saturno. Combinamos, questionei. Ela se empolga, ajeita os pequenos seios com ambas as mãos que descem suavemente pela barriga e estacionam entre as pernas. Há uma conjunção astral acontecendo, o momento é especial. Começo a sentir tesão ao vê-la arrumando os cabelos, coluna ereta, seios salientes apontados para mim e uma linda barriguinha aparece discretamente. Resolvo continuar no papo esotérico, apesar de todas as ressalvas que tenho atualmente com os astros. Contudo, diante daqueles peitinhos... tinha que ver onde chegaria. Talvez, porém de uns tempos para cá estou como uma antiga canção que fala sobre o desinteresse das teorias, “nem nessas coisas do oriente, romances astrais / a minha alucinação é suportar o dia-a-dia / e o meu delírio é a experiência com coisas reais”. Acho que perdi a última nave São Thomé das Letras – Ixtlán. Não tente fugir daquilo que você é, ela sorriu. Fale-me sobre você, quis saber. Alguém que ainda acredita nos sonhos, que o homem é bom, que procura viver em paz consigo e tenta manter acesa a chama da crença na justiça e bem-estar entre seus pares, respondi. O que é impossível, por isto inquieto e infeliz, completei. Sonhar é bom, é o que sustenta a nossa existência, o que nos conforta neste plano astral, como citou versos de uma canção, ou seja, os sonhos não envelhecem. Com eles, não deixamos morrer a tal da chama da indignação contra as perversidades cometidas pelos homens, ela respondeu empolgada e deu uma longa tragada, um sensual movimento de ombros e cruzar as pernas. Concentrei-me no som aveludado que aquela boca de lábios levemente carnudos emitia. O que somos, quixotescos, surreais, anacrônicos, questionei. Raros, ela disse e olhou novamente para a lua. Tais palavras vieram em minha como o efeito da ayahuasca, transmutando-se palavras, objetos e corpos em um só ser inominável e intangível. As cumplicidades começaram a surgir. Estudou letras. A literatura é séria demais e nem tudo pode ser explicado ou dito, disse. Largou, foi fazer teatro em Sampa nas companhias de zé celso e antunes filho. Enjoou, partiu para Alto Paraíso, na Chapada dos Veadeiros, e virou astróloga. Contou mais da estrada e dos seus sonhos. Fã do cinema surrealista de Buñuel e dos silêncios de Antonioni, reclamou da ausência do olhar distante de Matt Dillon nos filmes, empolgou-se com Gus van Sant e Ken Loach, das obras solitárias de Osvaldo Goeldi e Edward Hopper, do encantamento das telas de Cícero Dias e Marc Chagall, das canções de amor e amizade do Clube da Esquina, da poesia de Manoel de Barros e Manuel Bandeira, e acha que o fatalismo das letras Ian Curtis é o que melhor retrata o mundo que vivemos, infelizmente, completou. Fascinado com a maneira que falava e seus movimentos hipnotizantes, não escutava nada ao nosso redor, a não ser a voz e o olhar impactante sedento de desejo. Enquanto me encarava, só me imaginava abocanhando aqueles seios. Nossas mãos acariciavam-se, os pêlos arrepiavam-se, já estava duro. Ela pegou seu copo, levou-o à boca, com suavidade baixou a cabeça e me encarou. Não resisti. Beijei-a. A língua sagrada e universal do amor. A primeira penetração, intensa, forte, asfixiante. Nossos corpos espremiam-se, as mãos eufóricas, ágeis e certeiras desvendavam os corpos excitados. O tempo daquele beijo não sei quanto durou. Encerramos a conta, partimos para minha casa. Ela encanta-se com o ambiente ainda um tanto esotérico com incenso de massala, tapete, puff, artesanatos, pinturas, Jim Morrison e Bob Marley nas paredes. Continuamos nos beijando intensamente sobre o sofá. Com a mão entre suas pernas, acaricio seu grelo e meu dedo penetra sua xota encharcada. Ela se contorce, geme, me arranha e morde minha orelha com força, contraio-me. Arranco sua blusa e minha língua passeia pelos seus peitos enquanto ela abre minha calça, segura com firmeza o meu pau e me toca com rapidez. Deito-me, sou aquecido pela sua boca, e começo a preparar um baseado. Enevoadas chupadas elevam-me a Jah. Decido retribuir, ela se ajeita suavemente, beijo a barriguinha, desço, tiro sem pressa a calcinha, viajo no cheiro dos pêlos tratados com esmero, no sabor de sua xota e em mordidas no grelo duro em minha cara. Ela se contorce, aperta minha cabeça, rosna, grita, bate na minha cabeça, me sufoca. Penetro-a com voracidade, corpos molhados, epileticamente mexemo-nos. Suas pernas travam a minha cintura, aperta minha bunda, bate nela, me arranha, desfere um forte tapa em meu rosto, cuspo na sua boca. Ela está ensopada, aproveito o líquido que escorre e enfio o dedo no seu cu, delira. Jogo-a sobre mim, ela cavalga com frenesi, sua bunda está ardendo com a força dos meus tapas, pula ainda mais e pede para que a pegue como uma cachorra. Duplo penetro-a. Visceral. Puxo seus cabelos com força. Noto que domina o pompoarismo, fico louco. Ela grita por mais e mais e mais. De repente amoleço, busco forças, concentro-me, mas não consigo continuar. Despedaço-me ao seu lado, me encolho e começo a chorar, desesperado. Deixa, não fica assim. Ignoro seus comentários e desfaço-me em uma torrente de lágrimas. Ela insiste em falar, apenas choro, e muito. Ela se aflige, quer me abraçar, afasto com violência seu braço. Grito para que vá embora. Por quê? Não respondo, continuo a me contorcer e me enrosco nos lençóis. Fetal, aperto-me. Um tempo interminável se passa, eu permaneço na mesma. Ela fica falando e tentando me tocar, no que é prontamente repelida. Não me viro para ela. Não escuto mais sua voz. Apenas meus grunhidos quebram o silêncio e a frieza tangíveis do quarto. Até que a porta da sala bate. Permaneço chorando. Durmo.

nada a dizer

noite fria, chuvosa. decido não sair, fico em casa. olho para a tela incompleta pendurada na parede, toda preta, tudo preto. no som, perfect day do álbum transformer, lou reed na fase glam rock. um tanto lisérgico, um tanto depressivo como os anos 70 ou como sempre foi.
uísque no gargalo, resolvo preparar um baseado. toca o telefone, atendo. é ann do outro lado.
- oi, tudo bem?
sua voz está empolgada, apesar de certa indecisão.
- tudo, e você?
- estou com saudade, precisava falar contigo...
- tô escutando...
- o que cê tá fazendo?
- nada de novo. preparando um cigarro.
- então! não fume do teu. venha para cá! consegui um boldinho com a paty.
imagino-a sentada na ponta da poltrona, coluna ereta, a mão direita enrolando os cabelos, os olhos elétricos aguardando resposta.
- tá chovendo. é domingo. vou levar um tempão para chegar até aí.
- ah, vem! tem um vinho na geladeira...
- vinho é uma. espera um pouco.

(silêncio)

- oi! fui pegar um colomy.
- amor, venha para cá! preciso de você, tô tão sozinha... olha! peguei um filme: “medos privados em lugares públicos”!
- filme para pensar, bom título, é o que rola. mas prefiro um que me leve a sonhar...
já sinto sua aflição do outro lado da linha. não pretendo sair, muito menos vê-la.
- o que houve? você está bem?

(silêncio)

ela sabe respeitar meus silêncios, por isto admiro-a. todavia, não dura muito tempo, por isto odeio-a.
- amor, estou falando com você...
- ah, oi, estava procurando o isqueiro – acendo o cigarro e trago longamente.
- olha, tem um rango especial que você adora: lula com arroz e brócolis.
- show... mas o que fez hoje?
- ah! encontrei aquele disco do beto guedes que você tanto fala, contos da lua vaga. é lindo demais, pensei em você direto! já escutei várias vezes: “o tema da canção / meu coração guardou / para dar a quem trouxer / a mensagem dos caminhos / livres...”
- mandou bem, grande disco. contudo, não consigo mais viajar em beto guedes... tô em outra. não creio mais, sei lá...
- pára de reclamar! sei que você adora-o e conheci contigo.
o assunto começa a me cansar. não digo a ela, mas deveria falar que não agüento mais as canções de beto guedes.
- amor, andei lendo o jornal hoje e tinha uma notícia aterrorizante.
- é?! acho que sempre há...
- deixa eu falar! robôs preparados para atuar na guerra, acredita? são robôs que serão utilizados em um futuro próximo nas linhas de frente dos combates. os eua pretendem ter 1/3 das suas forças assim. e o pior! estudam para que eles sejam inteligentes e tomem decisões acerca da vida de uma pessoa! é um absurdo!!!
- como em robocop, o filme, respondo com desinteresse.
- exato, amor. a matéria fala que esses robôs já são usados na coréia do sul e alguns outros países. diz também que os eua já usam aviões automáticos para atacar seus alvos. terrível!
- assim os soldados não se abalam com as mortes causadas e provavelmente, com tal atitude, impedirá qualquer pedido de indenização por trauma, depressão ou qualquer coisa desse tipo. a guerra finalmente vira um jogo de playstation. jean baudrillard já havia dito isto sobre a guerra da bósnia ou do iraque feita pelo bush pai.
- como podem lidar assim com o destino de milhares de vidas?
- o homem é isto que está aí, não há respeito à vida, às pessoas insignificantes que estão nessas áreas de conflito – respondo com voz arrastada querendo encerrar a conversa enquanto acerto o nó.
- outra notícia: o governo aumentará a verba e o contingente para a força nacional. depois de passar pelo espírito santo, rio, mato grosso e maranhão, ela irá para pernambuco, bahia e são paulo, e até dezembro voltará para cá.
- resolveram assumir a exclusão dos miseráveis, o refugo humano. cada vez se concentrarão mais nos serviços de segurança privada. não se preocuparão mais na solução de problemas sociais como moradia, educação, saneamento, saúde. deixarão entregues à própria sorte os excluídos, os conflitos urbanos serão constantes: os miseráveis bárbaros com paus e pedras enfrentarão as milícias particulares, ou os uniformes assassinos, equipados com alta tecnologia a proteger as cidades de muros encurraladas pelas favelas. não quero viver para ver isto. é o fim!
- também li que aproveitarão o derretimento do ártico para rotas comerciais de navios. não estão nem aí para o aquecimento global. são uns filhos-da-puta!
resolvo trocar o disco, o fone está torto em meu ombro e faço malabarismo para que não caia, apesar que se cair não fará diferença. coloco wish you were here, do pink floyd, procuro o incenso e mais uma vez o isqueiro.
- amor!

(silêncio)

- oi!
- o que você acha do derretimento global?
- eu? não acho mais nada. no teu disco, beto canta: “terra és o mais bonito dos planetas / tão te maltratando por dinheiro / tu que és a nave nossa irmã / canta / leva tua vida em harmonia...” acho que não há mais sentido para este tipo de idéia. nascemos durante as trevas da ditadura do médici, nossa geração está marcada pela escuridão. vimos quando crianças os comícios das diretas já!, talvez o único momento de luz. dezoito anos depois a farsa da vitória do lula e do pt. lennon vaticinou: the dream is over! é isto, não há mais nada a dizer, fazer, pensar, lutar, sonhar. nem amor. eles venceram...
- não fala assim, amor, ela chora do outro lado da linha, com os ombros escondendo o pescoço. já conheço a cena.

(silêncio meu, choro dela)

- consultei seu mapa hoje. é netuno regendo o período do mês e nos deixa confusos, sombrios. turva as soluções, fortalece a sensação de distopia, a crença no caos. não é ruim, ainda temos um ao outro.
o papo esotérico deprime-me. detono a garrafa de uísque. coloco o álbum closer, do joy division, a música só poderia ser love will tear us apart.

(silêncio)

- amor, você tá aí? (choro) amor... (choro)
pego o fone do chão, escuto sua voz, ela permanece chorando... ouço a música do outro lado: “são vidas dos belos horizontes / gente das mais preciosas fontes / onde ser é ternamente brotar...” não respondo... o celular toca, não atendo...


rapaz é encontrado morto em apartamento. o elemento foi achado pela namorada e estava preso por uma corda no ventilador de teto. vizinhos afirmam que o suicida era anti-social, usava drogas e promovia orgias constantes. segundo moradores que não quiseram se identificar, o rapaz teria dívida com traficantes. a polícia investiga o seu suposto envolvimento com o tráfico de drogas da região.


riso,
14/10/2007

terça-feira, 9 de outubro de 2007

Quando acontece

De repente nossos olhares se cruzam. Noto que seu sorriso um tanto discreto pede confirmação. Reparei rapidamente em seus olhos, encaracolados cabelos, pele queimada, pouca maquiagem, brincos e cordão daqueles feitos por hippies, blusinha leve e estampada moldando os pequenos seios, saia, tattoo no tornozelo, sandália rasteira. Sorri. Pego minha bebida e vou em sua direção. Bebemos a mesma cerveja, percebo seu cigarro. Posso, disse. Claro, é a resposta. Sento e começamos a nos descobrir. Concentro-me no som aveludado que aquela boca de lábios levemente carnudos emite. Na transcendência de sua voz e no olhar penetrante que me encara docemente, viajo. O bar está bastante movimentado como acontece em uma noite de sexta-feira, pessoas empolgadas, música alta, contudo, ouço apenas um ruído longínquo, indefinido e escuto apenas aquela voz. As cumplicidades começam a surgir, teatro – ela estuda teatro –, cinema, mapa astral, música, literatura, pintura, estrada, sonhos. Soltamo-nos, abrimo-nos. Os sorrisos tornam-se mais intensos, singelos e doces. Você tem um baseado, sim, vamos fumar, vamos. O toque. O desejo. Conta encerrada, saímos. Na rua a infinitude do beijo ardente, mãos ágeis, certeiras desvendam os corpos espremidos. Minha casa é aqui perto, partimos. Beto Guedes rolando, incenso no ar, baseado queimando, corpos acesos. Carícias agressivamente ternas, pungentes, despimo-nos. Penetro-a com voracidade, frenéticos mexemo-nos, devoramo-nos. O pompoarismo me alucina, enquanto me arranha solto tapas viscerais e ela pede mais e mais e mais. Até que desabo, saio de dentro dela, deito ao seu lado, encolho-me e choro desesperadamente. O que houve, ignoro a pergunta. Ela insiste e permaneço sem respondê-la. Choro ainda mais. Ela se aflige, quer me abraçar, não deixo. Grito para ir embora. Enrosco-me nos lençóis. Fetal, aperto-me. Não escuto mais sua voz. O vazio. A porta bate. Continuo chorando. Durmo.

Riso - 09 de outubro de 2007.

terça-feira, 25 de setembro de 2007

Caio Fernando Abreu - um conto

Aproveitando o lançamento nos cinemas de Onde andará Dulce Veiga?, filme de Guilherme de Almeida Prado, resolvi colocar um conto do Caio Fernando Abreu, escritor que conseguiu encarnar toda uma época nebulosa da história do país. Caio viveu em um período de céu acinzentado, gritos silenciosos e mentes inertes. Anos de uma juventude acuada, perdida em busca das cores, da alegria, de ideal, de ar para respirar. Escrevia como poucos, lúcido, conciso, emotivo, atemporal.
O dia em que Urano entrou em Escorpião (Velha história colorida) *
Para Zé e Lygia Sávio Teixeira e para Lucrécia (Lucas ou César Esposito)
*do livro de contos Morangos Mofados.


Estavam todos mais ou menos em paz quando o rapaz de blusa vermelha entrou agitado e disse que Urano estava entrando em Escorpião. Os outros três interromperam o que estavam fazendo e ficaram olhando para ele sem dizer nada. Talvez não tivessem entendido direito, ou não quisessem entender. Ou não estivessem dispostos a interromper a leitura, sair da janela nem parar de comer a perna de galinha para prestar atenção em qualquer outra coisa, principalmente se essa coisa fosse Urano entrando em Escorpião, Júpiter saindo de Aquário ou a Lua fora de curso.

Era sábado à noite, quase verão, pela cidade havia tantos shows e peças teatrais e bares repletos e festas e pré-estréias em sessões da meia-noite e gente se encontrando e motos correndo e tão difícil renunciar a tudo isso para permanecer no apartamento lendo, espiando pela janela a alegria alheia ou tentando descobrir alguma lasca de carne nas sobras frias da galinha de meio-dia. Uma vez renunciado ao sábado, os três ali ouvindo um velho Pink Floyd baixinho para que, como da outra vez, os vizinhos não reclamassem e viessem a polícia e o síndico ameaçando aos berros acabar com aquele antro (eles não gostavam da expressão, mas era assim mesmo que os vizinhos, o síndico e a polícia gritavam, jogando livros de segunda mão e almofadas indianas para todos os lados, como se esperassem encontrar alguma coisa proibida) – renunciando pois ao sábado, e tacitamente estabelecida a paz com o baixo volume do som e a quase nenhuma curiosidade em relação uns aos outros, já que se conheciam há muito tempo, eles não queriam ser sacudidos no seu sossego sábia e modestamente conquistado, desde que a noite anterior revelara carteiras e bolsos vazios. Então olharam vagamente para o rapaz de camisa vermelha parado no meio da sala. E não disseram nada.

Aquele que tinha saído da janela fez assim como se estivesse prestando muita atenção na música, e falou que gostava demais daquele trechinho com órgão e violinos, que parecia uma cavalgada medieval. O rapaz de camisa vermelha percebeu que ele estava tentando mudar de assunto e perguntou se por acaso ele já tinha visto alguma vez na vida alguma cavalgada medieval. Ele disse que não, mas que com o órgão e todos aqueles violinos ao fundo ficava imaginando um guerreiro de armadura montado num cavalo branco, correndo contra o vento, assim tipo Távola Redonda, a silhueta de um castelo no alto da colina ao fundo – e o guerreiro era medieval, acentuou, disso tinha certeza. Ia continuar descrevendo a cena, pensou em acrescentar pinheiros, um crepúsculo, talvez um quarto crescente mourisco, quem sabe um lago até, quando a moça com o livro nas mãos tornou a baixar os óculos que erguera para a testa no momento em que o rapaz de camisa vermelha entrou, e leu um trecho assim:

Os homens são tão necessariamente loucos que não ser louco seria uma outra forma de loucura. Necessariamente porque o dualismo existencial torna sua situação impossível, um dilema torturante. Louco porque tudo o que o homem faz em seu mundo simbólico é procurar negar e superar sua sorte grotesca. Literalmente entrega-se a um esquecimento cego através de jogos sociais, truques psicológicos, preocupações pessoais tão distantes da realidade de sua condição que são formas de loucura - loucura assumida, loucura compartilhada, loucura disfarçada e dignificada, mas de qualquer maneira loucura.
Ernest Becker, A negação da morte

Quando ela parou de ler e olhou radiante para os outros, o que tinha saído da janela voltara para a janela, o rapaz de camisa vermelha continuava parado e meio ofegante no meio da sala enquanto o outro olhava para o osso descarnado da perna de galinha. Disse então que não gostava muito de perna, preferia pescoço, e isso era engraçado porque passara por três fases distintas: na infância, só gostava de perna, na casa dele aconteciam brigas medonhas porque eram quatro irmãos e todos gostavam de perna, menos a Valéria, que tinha nojo de galinha; depois, na adolescência, preferia o peito, passara uns cinco ou seis anos comendo só peito e agora adorava pescoço. Os outros pareceram um tanto escandalizados, e ele explicou que o pescoço tinha delícias ocultas, assim mesmo, bem devagar, de-lí-ci-as-o-cul-tas, e nesse momento o disco acabou e as palavras ficaram ressoando meio libidinosas no ar enquanto ele olhava para o osso seco.

O rapaz de camisa vermelha aproveitou o silêncio para gritar bem alto que Urano estava entrando em Escorpião. Os outros pareceram perturbados, menos com a informação e mais com o barulho, e pediram psiu, para ele falar baixo, se não lembrava do que tinha acontecido a última vez. Ele disse que a última vez não interessava, que agora Urano estava entrando em Escorpião, ho-je, falou lentamente, olhos brilhando. Ele estava lá há uns cinco anos, acrescentou, e os outros perguntaram ao mesmo tempo ele-quem-estava-onde? Urano o rapaz de camisa vermelha explicou, na minha Casa oito, a da Morte, vocês não sabem que eu podia morrer? e pareceria aliviado, não fosse toda aquela agitação. Os outros entreolharam-se e a moça com o livro nas mãos começou a contar uma história muito comprida e meio confusa sobre um garoto esquizofrênico que tinha começado bem assim, ela disse, a curtir coisas como alquimia, astrologia, quiromancia, numerologia, que tinha lido não sabia onde (ela lia muito, e quando contava uma história nunca sabia ao certo onde a teria lido, às vezes não sabia sequer se a tinha vivido e não lido). Acabou no Pinel, contou, é assim que começam muitos processos esquizóides. Olhou bem para ele ao dizer processos esquizóides, os outros dois pareceram muito impressionados e tudo, não se sabia bem se porque respeitavam a moça e a consideravam superculta ou apenas porque queriam atemorizar o rapaz de camisa vermelha. De qualquer forma, ficou um silêncio cheio de becos até que um dos outros se moveu da janela para virar o disco. E quando as bolhas de som começaram a estourar no meio da sala todos pareceram mais aliviados, quase contentes outra vez.

Foi então que o rapaz de camisa vermelha tirou da bolsa um livro que parecia encadernado por ele mesmo e perguntou se eles entendiam francês. Um dos rapazes jogou o osso de galinha no cinzeiro, como se quisesse dizer violentamente que não, olhando para o que estava na janela, e que já não estava mais na janela, mas sobre o tapete, remexendo nos discos. Parou de repente e olhou para a moça, que hesitou um pouco antes de dizer que entendia mais ou menos, e todos ficaram meio decepcionados. O rapaz de camisa vermelha falou baixinho que não tinha importância, e começou a ler um negócio assim:

Laposition de cet astre en secteur situe le lieu ou l’être dégage au maximum son indiuidualitéaans une voie de supersonnalisation, à lafaveur d’un développement d’énergie ou d’une croissance exagerée qui est moins une abondance de force de vie qu’une tension particulière d’enérgie. Ici, l’être tendà affirmer une volontélucide d’independence quipeutie conduire à une expression supérieure et originaledesapersonalité. Dans la dissonance, son exigence conduit à l’insensibilité, à la dureté, à l’excesszf à l’extremisme, au jusqu’au’boutisme, à l’aventure, aux bouleversements.
André Barbault, Astrologie

Parou de ler e olhou para os outros três devagar, um por um, mas só a moça sorriu, dizendo que não sabia o que era bouleversements. Um dos rapazes lembrou que boulevard era rua, e que portanto devia ser qualquer coisa que tinha a ver com rua, com andar muito na rua. Ficaram dando palpites, um deles começou a procurar um dicionário, o rapaz de blusa vermelha olhava de um para outro sem dizer nada. Depois que todos os livros foram remexidos e o dicionário não apareceu e o outro lado do disco também terminou, ele repetiu separando bem as sílabas e com uma pronúncia que os outros, sem dizer nada, acharam ótima:

L’être tendà affirmer une volonté lucide d’independence qui peut le conduire à une expression supérieure et originale de sapersonalité.

Então perguntou se os outros entendiam, eles disseram que sim, era parecidinho com português, lucide, por exemplo, e originale, era superfácil. Mas não pareciam entender. Aí os olhos dele ficaram muito brilhantes outra vez, parecia que ia começar a chorar quando de repente, sem que ninguém esperasse, deu um salto em direção à janela gritando que ia se jogar, que ninguém o compreendia, que nada valia mais a pena, que estava de saco cheio e não apostava um puto na merda de futuro.

O rapaz de camisa vermelha chegou a colocar uma das pernas sobre o peitoril, abrindo os braços, mas os outros dois o agarraram a tempo e o levaram para o quarto, perguntando muito suavemente o que era aquilo, repetindo que ele estava demais nervoso, e que estava tudo bem, tudo bem. A moça de óculos ficou segurando a mão dele e passando os dedos no seu cabelo enquanto ele chorava, um dos rapazes disse que ia até a cozinha fazer um chá de artemísia ou camomila, a moça falou que cidró é que era bom pra essas coisas, o outro falou que ia colocar aquele disco de música indiana que ele gostava tanto, embora todo mundo achasse chatíssimo, só que precisou botar bem alto para que pudessem ouvir do quarto. O chá veio logo, quente e bom, apareceu um baseado que eles ficaram fumando juntos, um de cada vez, e tudo foi ficando muito harmonioso e calmo até que alguém começou a bater na porta tão forte que pareciam pontapés, não batidas.

Era o síndico, pedindo aos berros para baixar o som e falando aquelas coisas desagradáveis de sempre. A moça de óculos disse que sentia muito, mas infelizmente naquela noite não podia baixar o volume do som, não era uma noite como as outras, era muito especial, sentia muito. Tirou os óculos e perguntou se o síndico não sabia que Urano estava entrando em Escorpião.

Lá no quarto, o rapaz de blusa vermelha ouviu e deu um sorriso largo antes de adormecer com os outros segurando nas suas mãos. Então sonhou que deslizava suavemente, como se usasse patins, sobre uma superfície dourada e luminosa. Não sabia ao certo se um dos anéis de Saturno ou uma das luas de Júpiter. Talvez Titã.