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terça-feira, 30 de setembro de 2014

Naguib – Tatuagens d’Alma (exposição)

Naguib Elias Abdula – Tatuagens d’Alma
(Ricardo Riso)

https://www.youtube.com/watch?v=MKjN26QjbIU

Da multiplicidade do caos surge a Arte em diferentes facetas, suportes, cores, formas, figuras zoomorfas, hieróglifos de um tempo ido, também nosso, muito nosso, pois fala, toca, sente o nosso hoje, expande o agora. Arte que pressiona o que sentimos, que questiona o que vemos, que nos conduz a vivenciar o Belo ali traduzido.
Impactar.
Arte para desolhar o nosso tempo, para, a partir do encanto-espanto, confrontar o texto da constituição da república moçambicana e mergulhar naquele ontem-hoje que se prolonga, fragmentado como algumas formas ali expostas.
Corrosão.
Karingawa ua karingawa, recorda o Velho Cravo, e assim a Arte propõe o ato de decifrar o passado para tentarmos compreender esse cotidiano de injustiças, de crianças maltratadas, entregues à própria sorte. Por isso, o artista interfere no espaço, suas instalações e sites specifics gritam, “gritos sem som”, mas que ensurdecem nosso olhar, massacram nossos sentidos.
Desestabilizar.
“Pediatras do impossível”, os carrinhos de bebês, “amo-te mamã, amo-te papá”, pássaros estirados... lembro Malangatana Valente que na crua e rude finita possibilidade de materiais para construir a série “Desenhos da Prisão” exortava de seu interior um exterior de mulheres e crianças entristecidas, mas unidas, fortes, esperançosas pelo fim da longa noite... noite que perdura em novas máscaras.
“O facto de não veres lágrimas nos meus olhos, não significar que não estou a chorar”. A recusa da inércia... inquieta-nos o artista.
Seguir.
E caminhamos na imensidão do azul como retirantes para longe da Dor e do Desespero em busca de um novo tempo, trilhando as reinvenções plásticas de Naguib Elias Abdula que benzem Esperanças de Beleza como sorrisos moçambicanizados tatuando nossas Almas.

(Tatuagens d’Alma. Exposição de Naguib até 04 nov. 2014, Museu Nacional de Arte, Av. Ho Chi Min, nº 1233, Maputo, Moçambique)

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Malangatana Valente: 06/06/1936 - 05/01/2011

O meu apreço pelas literaturas africanas de língua portuguesa sempre acompanha a admiração pelos artistas plásticos desses países. É assim com os amigos cabo-verdianos Tchalé Figueira, Mito Elias e Abraão Vicente; com os angolanos Yonamine e Kiluanje Kia Henda, Antonio Ole, Van e Jorge Gumbe; de Moçambique, com Naguib Abdula e com Malangantana Ngwenia Valente. Sendo que este agora pinta seus all-over pollockianos de rostos retorcidos à exaustão em outras margens. Malangatana faleceu nesta madrugada, na cidade de Matosinhos, Portugal.

Portanto, aqui presto minha homenagem àquele que tanto me emocionou e emociona cada vez que folheio os livros que tenho sobre sua obra, do encantamento causado a cada apresentação que faço de sua arte, a este, como disse Mia Couto, “‘ingênuo’ invocador do caos, sábio perturbador das nossas certezas”, encerro, dizendo apenas meu muito obrigado e que descanse em paz.

A seguir o primeiro texto que fiz sobre a obra de Malangantana Valente, para ler a versão completa clique aqui.
Ricardo Riso

Estar-se no sítio como moçambicano, como africano, e fazer com que as pessoas conheçam mais um pouco Moçambique:
Malangatana Ngwenya Valente


Para o meu primeiro texto sobre Moçambique não poderia ter deixado de escolher o pintor da Matalana, Malagantana Ngwenya Valente. Nascido em 1936 numa região de etnia ronga, sendo que o apelido Ngwenya, significa jacaré, venha da África do Sul, de seu pai, que era de etnia zulu, Malangatana talvez seja hoje o maior pintor da história moçambicana.


A obra deste artista apresenta-nos e obriga-nos a mergulhar entre seres mitológicos assustadores e homens, ora híbridos, perdidos, comprimidos no espaço asfixiante da superfície pintada a revelar-nos a irracionalidade do colonialismo, a desumanidade das guerras colonial e da desestabilização em cores contrastantes e impactantes. Renascem figuras metamórficas, monstros que permeiam o imaginário do moçambicano, violentado com tantos anos de guerra. Mia Couto assinala:


“Estes rostos repetidos até a exaustão do espaço, estas figuras retorcidas por infinita amargura são imagens deste mundo criado por nós e, afinal, contra nós. Monstros que julgávamos há muito extintos dentro de nós são ressuscitados no pincel de Malangatana.


Ressurge um temor que nos atemoriza porque é o nosso velho medo desadormecido. Ficamos assim à mercê destas visões, somos assaltados pela fragilidade da nossa representação visual do universo. (...)


No seu traço está nua e tangível a geografia do tempo africano. No jogo das cores está, sedutor e cruel, o feitiço, (...)


Estes bichos e homens, atirados para um espaço tornado exíguo pelo acumular de elementos gráficos, procuram em nós uma saída. A tensão criada na tela não permite que fiquem confinados a ela, obriga-nos a procurar uma ordem exterior ao quadro. Aqui reside afinal o gênio apurado deste ‘ingênuo’ invocador do caos, sábio perturbador das nossas certezas.”

domingo, 12 de julho de 2009

FESTLIP - "O Homem Ideal" – Grupo M’BEU (Moçambique)

Peça parte da infelicidade amorosa de uma mulher para questionar as desigualdades do mundo contemporâneo
À Yana Campos

Por Ricardo Riso

As perversas relações humanas proporcionadas pela desigualdade econômica obrigam as camadas inferiores da sociedade a constantes humilhações. No caso específico da mulher que é negra, pobre e camponesa em Moçambique os seus sofrimentos são extremos quando necessita encarar a cidade grande, Maputo, capital do país.

O Grupo M’BEU trouxe para o FESTLIP a peça “O homem ideal”, texto e direção de Evaristo Abreu. Trata-se da conturbada história de Deolinda e a sua incessante busca pelo homem ideal citado no título. Ela é uma mulher que já teve vários homens, dentre eles Afrísio, Afrânio, Euros e Américo (detalhe para os nomes dos homens, alusão à exploração externa sofrida por Moçambique), sendo sempre desrespeitada e menosprezada por eles.

Para acompanhar as agruras da vida de Deolinda, sua Consciência e um barman escancaram seus pontos fracos, seus sonhos, deixando-a ainda mais confusa sobre que caminho seguir. Um telão expõe imagens de Maputo e as dificuldades passadas por ela na cidade grande. Estão ali o egoísmo, a insensibilidade e a falta de solidariedade daqueles que vivem na cidade grande. A personagem encontra espaço apenas em uma oficina de modelagem de barro, o que remete ao lugar de onde veio.

Por não conseguir se adaptar à vida na capital e permanecer desempregada, Deolinda conta com a caridade de um dono de restaurante que a deixa dormir no local, o espaço onde a peça é encenada. Entretanto, essa situação a leva a sofrer sucessivas humilhações de um barman a lembrá-la sempre da condição pela qual está ali e a deseja sexualmente. Sua Consciência exerce papel semelhante ao recordar sua trajetória infeliz com os homens e a questionar os futuros caminhos a seguir na infrutífera busca do homem ideal.

Como podemos perceber, trata-se de um texto (criado por eles) com o papel de conscientização social, premissa do Grupo M’BEU, que realiza através de sua associação cultural um belo trabalho de ampliação do teatro, oferecendo oficinas e apoiando outros grupos em Maputo e nas áreas próximas desde sua criação, em 1989.

Contudo, “O homem ideal” não se restringe aos desejos de uma mulher que quer apenas ter um companheiro que a ame. A encenação aborda questões contemporâneas comuns às pessoas excluídas dos países subdesenvolvidos, que são obrigadas a sair das pequenas cidades onde vivem, com pouca ou nenhuma instrução e entregues à própria sorte quando chegam aos grandes centros. Em seu pano de fundo, a peça questiona se o atual mundo neoliberal com sua ganância desmedida e que submete milhões de pessoas a viver em condições sub-humanas seria o ideal.

Outro questionamento que a peça deixa no ar, e este fala diretamente a nós brasileiros, diz respeito às discussões muitas vezes fúteis de Deolinda e sua Consciência, sentadas ao redor de uma mesa, a remeter à estética das nossas novelas. Será que não é um grito de Moçambique para não enviarmos a representação máxima do nosso lixo cultural para lá? Parece-me que sim.

Com música de altíssima qualidade de Fran Perez e Paulo Macamo, figurinos de Adélia Tique e Sheila Alexandre, fotografia de Chico Carneiro e o bom trabalho do elenco formado por Yolanda Fumo, Isabel Jorge e Eliot Alex a peça “O homem ideal” cumpre muito bem o seu papel.

terça-feira, 7 de julho de 2009

FESTLIP - Mar me quer (Grupo Tijac - Moçambique/Ilhas Reunião)

Bela montagem de texto de Mia Couto cativa o público

Por Ricardo Riso

Transpor para o teatro o universo literário extremamente particular e inovador de Mia Couto não é uma tarefa simplória, exige de quem resolve encarar tal desafio, um profundo mergulho nos vários aspectos intangíveis trabalhados em sua escrita, tais como: a memória, o sonho, o tempo, o animismo africano e a sua criativa maneira de subverter a língua portuguesa, criando um “português moçambicano”. E é dentro desta experiência com a oralidade que Mia desfila a sua genialidade ao inverter provérbios, modificar a sintaxe etc.

Fruto de uma parceria banhada pelo Índico, “Mar me quer” alia o diretor das Ilhas Reunião Mickael Fontaine, o músico Matchume e um afinado elenco de atores moçambicanos, para encenar a história de Zeca Perpétuo e Dona Luarmina. Os dois moram à beira do mar, solitários. Ela, desfolhando uma flor invisível e querendo esquecer o passado quer ouvir as histórias de Zeca, enquanto este evita falar do seu passado e tenta conquistá-la de diversas maneiras sem obter sucesso. A memória tenta ser esquecida, ambos não desejam revelar o outrora que coincide com a violenta guerra civil do país. Os segredos do nebuloso passado são revelados a partir do momento que surgem as inserções do pai e do avô de Zeca Perpétuo e de um narrador. Assim, começamos a compreender que a história de Zeca e Luarmina vão se entrelançando.

A pluralidade cultural moçambicana está presente no texto, identificada nas três gerações dos Perpétuos. Seu avô representa o negro, apegado ao chão e às tradições; o pai assimila-se e procura aproximar-se da cultura do branco invasor, condição que será cobrada pelos antepassados o deixando cego e com os olhos azulados se tornando um adivinho que passa a ser procurado pelos pescadores. Enquanto Zeca sofre o conflito de viver entre culturas opostas – a negra e a branca do colonizador –, pois foi criado por um padre e em meio a livros, mas que busca o mar e a rede de pesca com a mesma constância que se afasta dos livros. Já a senhora Luarmina é uma mestiça, a mescla de raças que formam a nação moçambicana.

Diante dos conflitos entre tradição e modernidade, além da presença da memória, dos sonhos esgarçados e de certo mistério comuns na prosa coutiana, a direção da peça encontrou soluções cênicas interessantes e criativas que enriqueceram a narrativa bela e pungente. Sábia e caprichada a presença da música de Matchume, aliando tambores e sons eletrônicos sem jamais sobrepor as vozes dos autores. A presença constante do vídeo a pontuar os esgarçamentos da memória da velha Luarmina, simbolizados por um corredor interminável e vazio, ou a visão do mar e os momentos de fuga de Zeca Perpétuo fechando-se naquilo que quer encobrir. Os momentos de tensão e de presença do avô de Zeca são encenados dentro de uma tela circular em que ora o jogo de luz demarcar o ator, ora são as suas mãos e o seu rosto de encontro à tela a demonstrar os conflitos que passam os personagens. A iluminação do cenário, com destaque para a forte cor azul, também capta com bastante sutileza as passagens e tensões vivenciadas.

A atuação do elenco é segura, sem maiores sobressaltos, o que valoriza e reverencia a força do texto de Mia Couto. Zeca Perpétuo e Dona Luarmina são representados sem exageros, discretos e simples, angustiados com seus conflitos internos, de encarar seus medos, rever seus erros, de liberar a palavra e revelar o que está dentro de si. Daí a opção de Luarmina em refugiar-se na escolha de seu futuro (bem-me-quer / mar-me-quer) desfolhando as pétalas de flores invisíveis, enquanto Zeca Perpétuo escuta os gritos insistentes das gaivotas. Já o narrador possui a sobriedade e a serenidade necessária para pontuar os acontecimentos.

“Mar me quer” encenado pelo Grupo Tijac (Moçambique/Ilhas Reunião) convence por saber traduzir os aspectos essenciais do texto de Mia Couto, gratifica pela leveza de como os assuntos são tratados, por respeitar o sonho e, principalmente, por nos fazer refletir, a partir das tensões de Zeca Perpétuo e Luarmina, a maneira como encaramos nossos conflitos internos, nossos medos, os segredos sombrios que nos atormentam, que tentamos ocultar e esquecer, por conseguinte, travam a nossa evolução. “Mar me quer” fascina e emociona pela bela montagem, pelo final surpreendente como o é em todos os textos de Mia Couto. “Mar me quer” é uma peça obrigatória, naturalmente.


Última apresentação: 11/07 – 19h – Sesc Ginástico
Ficha Técnica:
Texto: Mia Couto
Adaptação e Direção: Mickael Fontaine
Elenco: Eliot Alex, Graça Silva, Leonardo Nhavoto e Zango Candido Salomão
Duração: 01:00h
Música: Matchume
Técnico: Hassan Aboudakar

segunda-feira, 6 de julho de 2009

UMOJAH: WORKSHOPS - TIMBILA E PERCUSSÃO MOÇAMBICANA NA MARACATU BRASIL


Olá a todos, salve!

Estou divulgando os workshops que serão oferecidos pelo músico moçambicano Matchume Zango da Orquestra Timbila Muzimba, no Rio de Janeiro nos próximos dias 09/07 e 12/07.

Ele é o músico que recebeu a mim e ao UMOJAH em nossa visita à Moçambique, durante fevereiro e março desse ano, e foi grande sua ajuda nas pesquiass de campo sobre a música tradicional do povo Chope de moçambique, além de ser um grande amigo.

Também aproveito pra divulgar a peça "Mar Me Quer", na qual ele faz a música ao vivo, e que representa a delegação e Moçambique e Ilhas Reunião no Festlip (Festival de Teatro da Língua Portuguesa). O texto é de Mia Couto, o autor homenageado do festival, e vai ser apreentado nas duas datas (mas infos www.festlip.com):

05/07 - 20hs Sesc Tijuca

11/07 - 19hs Sesc Ginástico (Entrada Franca - chegar 30min antes para pegar a senha)

Warethwa!

André Sampaio

Workshops: Timbila e Percussão Moçambicana
Com Matchume Zango – Orquestra Timbila Muzimba

A Timbila,instrumento declarado patrimônio cultural da humanidade pela UNESCO,é o nome genérico que se dá a um tipo de marimba da região de Zavala em Moçambique, tocado tradicionalmente pelo povo Chope.

Os Workshops visam proporcionar aos participantes de todas as idades um contato muito próximo com a cultura popular moçambicana, aproveitando a presença no Brasil do músico Matchume Zango, membro fundador da Orquestra Timbila Muzimba,compositor musical e fabricante de instrumentos tradicionais e modernos.

Local: Maracatu Brasil - Rua Ipiranga, 49 - Laranjeiras

Dia 09/07/09 Quinta-Feira às 20hs
Dia 12/07/09 Domingo às 16hs
Investimento : 1 Dia R$ 30,00 / 2 Dias R$ 50,00


Informações: (21) 2557-4754 / (21) 9444-4773 (André)
email: coletivo.umojah@gmail.com

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Roberto Chichorro - “Sonhos d’Agora e também d’Outros tempos” (exposição)

Imagem retirada de http://www.bci.co.mz/

Roberto Chichorro : Sonhos de ontem e de hoje na magia das cores e tintas

Fonte: http://macua.blogs.com/moambique_para_todos/2009/04/roberto-chichorro-sonhos-de-ontem-e-de-hoje-na-magia-das-cores-e-tintas.html

ROBERTO Chichorro está em Maputo. Para uma exposição individual. A sua exposição é uma retrospectiva. Da sua vida artística, que roça os cinquenta anos, social e como cidadão. A exposição amanhã, no Espaço Joaquim Chissano, e estará patente até 8 de Maio. Há 17 anos que o artista não vem expor em Moçambique e para a sua primeira retrospectiva seleccionou um conjunto de 70 trabalhos. Mais de metade pertencentes à sua colecção particular e que não serão comercializadas.

Maputo, Quarta-Feira, 22 de Abril de 2009:: Notícias
A concepção e a ideia de fazer a exposição em Moçambique tiveram que ver com a vontade que Chichorro tinha de fazer a primeira retrospectiva da sua vida. Ele fazia questão que a primeira retrospectiva fosse na sua terra.

E a realização desta exposição em Moçambique começou em conversas informais em casa dele e em festas de inauguração de outras exposições em Portugal. Um dos dinamizadores da iniciativa foi Embaixador de Moçambique em Portugal, Miguel M’Kaima.

Miguel M’kaima alavancou a ideia e convidou formalmente Roberto Chichorro para vir expor em Moçambique, ao mesmo tempo que iniciou os contactos que permitiram a Chichorro, mais João Maria Lopes – amigo do pintor há mais de 30 anos – obter o financiamento suficiente para esta deslocação a Maputo.

Posteriormente, fez-se a selecção das obras que era possível trazer para Moçambique.

Dentro da sua obra e do seu espólio, que é muito grande, não se afigurava fácil trazer um número de obras que não fosse enorme mas que constituísse uma mostra das diferentes fases do seu trabalho artístico. Neste sentido, foram escolhidas obras dos últimos quarenta anos.

“Trouxemos coisas dos anos 70/80/90 e 2000, fazendo uma incidência maior daquilo que é a fase dele mais representativa, se calhar de uma forma mais espiritual para ele, que é a pintura dos anos 80. Depois a fase do ano 2000 que, no meu entender, está muito bem representada. Nós trouxemos algumas obras cuja dimensão é grande, mas que me parecem obras muito significativas e foi por isso que as trouxemos”, diz João Maria Lopes.

No conjunto das 70 obras foram trazidas ainda alguns trabalhos que são dos anos 70/80 e que deixam bem patente a sua evolução desde que há mais de 30 anos saiu de Moçambique.

“Ele foi para outro sítio, mas, para ele, Moçambique é um bem. Ele é a pessoa que eu conheço que vivendo num país estrangeiro mais ligação tem à terra dele. E isso está aqui bem patente”, diz Lopes.

E esta retrospectiva, nas dimensões em que está, é, na perspectiva de João Maria Lopes, a realização de um sonho que ele tinha e que é de anos, trazendo a obra dele por completo para que seja vista aqui em Moçambique.

Vieram ainda algumas obras, mas poucas, que ele fez, por brincadeira, uma vez que ele costuma dizer que não é escultor, ele é pintor, mas que, a pedido do seu amigo João Lopes, trouxe. São três esculturas em bronze e mármore e três em cerâmica com motivos diferentes. São obras que ele fez numa fase da vida em que ao lado de amigos lhe apeteceu tentar a escultura. “Nunca fez obras de esculturas no verdadeiro sentido da palavra. Considera-se um pintor e não mais do que isso. E ele é mesmo”.

João Maria Lopes foi quem desenhou o catálogo. Ele vai ser vendido e o valor reverterá a favor de uma instituição social. O catálogo, muito bem conseguido, é acompanhado por textos da autoria de personalidades como Calane da Silva, Mia Couto, Luís Carlos Patraquim, Licínio de Azevedo. Tem também um texto do próprio Roberto Chichorro.

Trabalhou ainda ao longo da preparação da exposição com Chichorro, para além da totalidade de quadros que compõem a exposição.

“Nós somos tão amigos que estas coisas funcionam sempre, porque nos damos tão bem e eu gosto da obra, e, portanto, quando tenho que fazer alguma coisa a este nível gráfico para ele é sempre um prazer”.

Perguntamos a João Lopes como é que ele interpretava Roberto Chichorro como cidadão e artista, ao que nos respondeu: “Eu não tenho muito jeito para fazer aqueles deslumbrantes que muita gente faz, mas eu diria que Chichorro é o cidadão que as pessoas deveriam ser. Não sei se este é conceito e serve, mas todas as pessoas deveriam ser como Roberto Chichorro porque são honestas, boas e porque são livres de cabeça que é uma coisa que eu acho fundamental. E como artista fora da terra, Chichorro é uma pessoa que nunca conseguiu perder a ligação à terra, e viveu em países tão diferentes como Portugal e Espanha e Itália. E, portanto, colhendo técnicas e formas de pintar em países distintos, com culturas completamente diferentes ele nunca perdeu a linha orientadora daquilo que é a criação dele”.


PINCÉIS A DANÇAR

Maputo, Quarta-Feira, 22 de Abril de 2009:: Notícias

A obra de Chichorro é muito atravessada pelos sons, com muita musicalidade. Para quem repara a sua obra sente isso. A presença da multiplicidade de cores e formas e que nos remetem para a dimensão da musicalidade.

Quando uma vez escreveu sobre a sua pintura, João Lopes disse que ele pintava com som e música. Fala-se sempre das cores da pintura dele. Dos vermelhos, dos azuis… e Lopes diz ver tudo isso como música. São tonalidades musicais. “A pintura dele chamei-lhe um dia que eram pincéis a dançar”.

ESCULTURAS ENTRE PINCÉIS

No festival de cores e tintas estão presentes seis obras escultóricas. Três são feitas de bronze e mármore e as outras em cerâmica.

João Lopes conta que, o sentido profissional com que faz a pintura, permitiu-lhe também fazer boas obras de escultura. Ele as trabalhou com um artístico forte e que são produto de uma troca de “galhardetes” com um amigo dele, que era um escultor espanhol já falecido. Na altura, Chichorro fez duas a três esculturas e o artista espanhol pintou também o mesmo número de telas.

“Eu acho que isto são obras verdadeiramente de Chichorro e é por isso que fiz alguma pressão para que ele as trouxesse”, conta.

Há ainda um conjunto de obras de uma fase em que Chichorro desenhava muito em tinta de china, no princípio dos anos 90, e que, para além de serem bastante significativos, são tecnicamente bem conseguidos.

Ao longo das 70 obras encontramos basicamente acrílico sobre tela, aguarelas sobre papel e ainda obras em tintas de china.

Chichorro apresenta-nos ainda duas serigrafias, das poucas que tem.

As serigrafias abrem uma possibilidade para as pessoas terem o visual de um quadro de um pintor, mas, em termos, artísticos e patrimoniais não é o mesmo que ter um original. Contudo, as serigrafias presentes são as mais significativas para ele.

Por Francisco Manjate

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Malangatana - homenagem a Eduardo Mondlane

Galeria Pinho Dinis
Malangatana até 21 Fevereiro

Homenagem a Eduardo Chivambo Mondlane - Pastor de Manjacaze
A exposição, fruto de organização conjunta da Câmara Municipal de Coimbra, através do Departamento de Cultura, e da Organização da Mulher Moçambicana (Coimbra), inaugura dia 7 (às 16h00), com a presença de Miguel da Costa Mkaima, Embaixador de Moçambique em Portugal. Estará patente até ao dia 21 de Fevereiro de 2008, na Galeria Pinho Dinis, da Casa Municipal da Cultura.


Pintura, Desenho e Ilustração são as propostas apresentadas numa iniciativa que, além de representar uma homenagem a Eduardo Chiovambo Mondlane - Pastor de Manjacaze, pretende assinalar e comemorar o 3 de Fevereiro, data alusiva aos Heróis Moçambicanos.

Com esta iniciativa, pretende-se envolver um maior número de cidadãos, ampliando a relação cultural, linguística, social e fraternal entre os moçambicanos (estudantes e trabalhadores) residentes em Coimbra e, mesmo, no País, e a população conimbricense, proporcionando ao público de Coimbra o contacto com a obra deste embaixador cultural de Moçambique.

Os fortes e antigos laços de amizade e cooperação que permanecem activos e se renovam, permanentemente, entre a nação irmã de Moçambique e a cidade de Coimbra, justificam e incentivam que acções como esta sejam sempre bem-vindas e aufiram da qualidade e diversidade que permitem contribuir para um maior enriquecimento e enraizamento entre as Instituições e os cidadãos.

A obra de Malangatana Valente, reconhecida em todo o mundo, apresenta um artista multifacetado, distinguido com elevados galardões do seu país e de países estrangeiros, portador de um currículo grandioso materializado em exposições individuais e colectivas e prémios artísticos nos mais diferentes espaços mundiais e nas mais diversas organizações de arte ostentando, também, um extraordinário palmarés do criador de Instituições de arte, do fomentador da cultura africana, do participante em actividades de âmbito social e humanitário da UNICEF e de cidadão da Paz.

Na polivalência da sua criatividade, Malangatana mostra-se como pintor, ceramista, cantor, actor, dançarino e poeta afirmando, em todo o lado e com o orgulho de inquestionável patriota, a sua origem africana e moçambicana. Em todas as iniciativas em que está presente (festivais, workshops, colóquios, exposições, membro de júris, conferências, encontros) proclama com alegria a sua identidade e abraça com amor as raízes da sua civilização.

Ao analisarmos a sua obra no contexto das artes plásticas, vemos um percurso de coragem, de determinação, de sensibilidade e de opção artística na área em que se notabilizou. Desde criança que sentiu uma vocação para a arte, descoberta nas capacidades inatas que o acompanhavam e fortalecida no querer indómito de ser pintor profissional. Apoiado e estimulado por amigos, veio a organizar a 1.ª exposição em Lourenço Marques, em 1961. Depois, frequentou escolas de arte, recebeu uma bolsa da Gulbenkian, viajou para diversos países, visitou galerias e museus, relacionou-se com artistas e criou a sua própria identidade artística, com características especiais que o prendem às suas raízes, à ancestralidade do seu povo, aos modos de vida, aos costumes e aos mitos e valores do seu país.

Com os conhecimentos da sua vivência comunitária enraizou esse património sem preço e a partir dele elabora um mundo imaginário ancestral africano com ligação ao real quotidiano. A sua pintura evoluiu com a grandeza da sua imaginação, saber e criatividade, passando por sucessivas formas e técnicas, desde o neo-barroco ao expressionismo e ao surrealismo, mas sem se afastar das características que o consagram. A cor, o traço, o contorno clarificante, a força dos seus "protagonistas", enfim, o conteúdo das composições, expandem um pendor reflexivo que emerge na inquestionável qualidade, que consagra um artista, que sem medos e com o querer dos grandes homens construiu uma obra que honra as artes plásticas e é bandeira desfraldada de Moçambique em todo o Mundo.

Neste entendimento, visitar e ler, na Galeria Pinho Dinis, a pintura de Malangatana é colher, nos seus trabalhos, a beleza, a inquietação, a denúncia, a revolta contra tempos passados e o sentimento de liberdade e de paz.

Fonte:

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

Carmen Tindó: lançamento do livro A Magia das Letras Africanas

A Quartet Editora e a Livraria do Museu da República convidam para o lançamento de A Magia das Letras Africanas, de Carmen Lucia Tindó R. Secco, dia 15 de outubro (quarta-feira), das 17h às 21:30, na Livraria do Museu da República, Rua do Catete, 153 - Rio de Janeiro - RJ.


terça-feira, 29 de julho de 2008

Artsambique

Artsambique é um ótimo site voltado para a promoção e divulgação da cultura moçambicana.

Recomendo a visita:

http://www.artsambique.com/

Ricardo Riso

quinta-feira, 13 de março de 2008

Mia Couto: Três fantasmas mudos para um orador luso-afónico

O orador avisado faz uso de toda a estratégia para considerar o tema da palestra como sendo do domínio do impossível. Neste caso, sucedeu o inverso: o tema é que tornou impossível o orador. Identidade, língua, marcas culturais: são três fantasmas partilhando a mesma cama. E quando se entra no quarto, acreditando surpreendê-los em flagrante delito eis que descobrimos que não há cama, nem quarto, nem amantes.

Corremos o risco de somar aos três anunciados fantasmas um outro inesperado. Esse outro fantasma sou eu mesmo. Venho de longe, para muitos de vocês sou um escritor desconhecido. Sou moçambicano e Moçambique é do domínio das miragens. Tenho uma pronúncia que, aos ouvidos da maioria dos brasileiros, me atira para a identidade de um “português”.

O mais fácil, pensei eu, seria começar por desvanecer o meu estatuto fantasmagórico. E é isso que tentarei fazer. Irei falar não de mim, mas da língua portuguesa em Moçambique, da errante identidade de uma literatura moçambicana e de marcas culturais brasileiras em sucessivas gerações de escritores moçambicanos.

O centro da minha intervenção, porém, será a questão da identidade. Ou das identidades no plural. Escolhi falar deste tópico exactamente porque as identidades não são faláveis. Elas são esquivas, fortuitas, inventadas. As identidades não são nomes. São verbos que se enunciam sempre no futuro. Recorro a um provérbio dos macuas, um povo do norte de Moçambique. E o provérbio diz assim:

Não fales sobre Deus porque Deus é como o ovo. Se apertas muito ele quebra; se não agarras bem ele cai.

A mesma condição volátil contamina o tema da nossa conversa de hoje.

A alguns de vocês terão visto o filme de Vítor Lopes sobre a Língua Portuguesa onde aparecem João Ubaldo, José Saramago, Martinho da Vila e outros. Quando dei o depoimento para este filme eu estava na Ilha da Inhaca, onde durante anos trabalhei como biólogo na Estação de Biologia da Universidade Eduardo Mondlane. (não só escritor, também sou uma pessoa séria...) Pois nessa ilha passou-se o seguinte (fala de improviso):

Certa vez eu estava no cais de saída para a capital quando vi chegar, num outro barco, que eu conhecera em Nápoles, um apaixonado pela África que vinha pela primeira vez a Moçambique. Ele não sabia uma palavra de português e viajava por sua conta para a ilha de Inhaca, durante a minha ausência. Na despedida, ele a si mesmo se consolou: “pois nós os italianos falamos muito com as mãos, vocês aqui também usam muito gesto, eu lá me entenderei...”

O homem ficou por lá uma semana, regressou a Maputo, feliz e gratificado por ter conseguido um entendimento pleno. Mais tarde, eu lá fui para a ilha, para a Estação de Biologia onde eu trabalhava. Cruzei com um velho funcionário, perseguido pelo italiano e, logo, veio a inesperada observação: “esse homem não tem juízo completo”. O que se passara? Pois, logo numa primeira conversa um grupo de ilhéus quis saber do italiano se ele tinha filhos. A resposta afirmativa foi reforçada com gestos para assinalar os tamanhos de seus rebentos. E aqui sucedeu o mal entendido. O italiano marcou a altura dos filhos com um gesto que, ali, na ilha era quase uma obscenidade. Qualquer europeu fazia o mesmo: estenderia a mão, paralela ao chão. Mas nos códigos locais, a mão plana, bem aberta, indica um objecto inanimado, um morto sem ligação afectiva. A mão curva, fechada e virada para cima indica o tamanho de quem está crescendo, de uma criança em trânsito para ser adulto. Que raio de pai era aquele europeu que falava assim dos seus próprios filhos?

Recordei-me deste episódio porque a identidade é como o tamanho da criança: está em trânsito, não pode ser capturada em gesto, nem em palavras.

Afinal, na pequena história que evoquei todos estão com a razão. Está certo o gesto do italiano. Na lógica do meu amigo europeu, a pessoa só tem tamanho quando se converte em medida, número e risco na fita métrica. Mas a questão, para os ilhéus da Inhaca, é que um menino não é ainda uma pessoa. É um indivíduo em trânsito para a idade adulta.
Na cosmogonia dos moçambicanos ninguém nasce pessoa. Vamo-nos tornando gente à medida que somos iniciados por experiências e vivências.

É por isso que a criança pode ir mudando de nome, à medida que cresce e cumpre rituais de passagem. O menino pequeno, quando falece, é enterrado junto ao rio. Só depois de receber o seu segundo nome é que pode ser sepultado em chão firme. É esse o nosso destino: nascemos água, vamos a caminho de sermos terra.

Aqui há algo que é anterior às línguas, e que são as lógicas com que vemos o mundo e o modo como damos nome às coisas e aos seres. No mundo rural africano, a identidade é definida de forma aberta, transitável e transitória. Alguém pode ser pessoa de dia, árvore de tarde e bicho de noite. Os mortos podem usar a voz e o corpo dos vivos, a vida está disponível para ser vivida pelos mortos.

Chegamos, assim, a uma primeira constatação: as identidades são transitórias e precárias. O problema é que elas são quase sempre vividas como definitivas e eternas. Mais grave ainda é que a identidade toma-se a si mesma muito a sério. E atira-nos para a tentação de nos definirmos como essências, entidades puras, certezas inabaláveis que justificam guerras e cruzadas.

Não sou um especialista para falar do tema que escolhi. Sou sim, uma vítima predilecta dos equívocos gerados em redor da identidade. Já explico. Na nossa vida quotidiana os dados de identificação são facilmente sumarizados e constam de quase todos os formulários burocráticos. Esses dados são: o nome, o sexo, a nacionalidade, a raça, a língua, a idade, o estado civil. Seguiremos agora para cada uma dessas categorias e veremos como todas podem suscitar curiosos embaraços. Comecemos pelo nome.

O nome

Aos dois anos de idade tive a infeliz idéia de reclamar um novo nome para mim mesmo. Contra o António de nascença – eu inventei um outro nome: Mia. Rebaptizei-me com esse nome em celebração com a minha vivência com os gatos da vizinhança. Não é que eu gostava de gatos. Eu acreditava ser gato. Eu não pensava: eu era um gato.

Veremos, mais tarde, que tive que pagar por esse meu rebaptismo. O meu nome, esse que me confere a primeira identidade, tem-me causado um sem número de penosos mal-entendidos. Já li, por exemplo, uma tese argumentando que “Mia” é uma palavra africana bantu com significados mágico-religiosos.

Mais grave ainda é a forma com a tribo dos amantes de gatos me têm adoptado como membro incondicional. Certa vez, numa cidade de Portugal onde eu lançava um livro, uma simpática senhora me chamou e disse:

- Venha à minha livraria que eu quero que conheça o Gil Vicente.

Lá fui intimidado com a solenidade do encontro. Alguém que tinha o nome do célebre dramaturgo lusitano seria certamente pessoa de valor. Entrei na livraria, não havia ninguém. Foi quando a proprietária do estabelecimento se aproximou da caixa registadora e apontou para um enorme gato. E anunciou com ar formal:

- Gil Vicente, este é o escritor de que falei e que é um apaixonado por gatos.

De imediato, já ela apontava uma câmara fotográfica para eternizar em imagem o nosso encontro. Sugeriu para que me chegasse mais perto do bicho e, no momento em que tentei fazer-lhe uma carícia, o gato deu-me uma vigorosa dentada. Foi assim que surgi na fotografia, exibindo um esgar de dor e espanto perante os dentes felinos que se cravavam no meu braço.

Até hoje, guardo a cicatriz desta dentada. A dona do estabelecimento tornou-se uma amiga. E ganhei o orgulho de poder dizer que fui mordido por Gil Vicente.

O sexo

Não é que eu possua, devo dizer à partida, dúvidas de identidade neste capítulo. O problema são os mal-entendidos que decorrem do nome “Mia” que se acredita ser um nome feminino. Há tempos, na Argentina, o protocolo do Ministério da Educação que me tinha convidado, pediu para que esperasse na recepção do hotel pois tinham que mudar algo na acomodação prevista. Soube, depois, que me haviam reservado o chamado “quarto-cor-de-rosa”.

Numa visita como jornalista a Cuba, nos anos oitenta, recebi uma prenda do Presidente Fidel. Era um pequeno baú de madeira, que seguiu no porão. Estávamos em guerra, não tínhamos nada em Moçambique. A curiosidade perseguiu-me durante toda a viagem de regresso: o que se escondia no caixote? Chegado a casa não podia ser maior a minha desilusão: o baú continha eram vestidos, brincos, colares. O protocolo cubano tinha sido ludibriado pelo tom feminino do meu nome. Guardo a certeza de ter sido o único homem a quem Fidel Castro ofereceu uma saia.

A raça e a etnia

Nos lugares chamados de “civilizados” ninguém pergunta a que grupo étnico pertencemos. Mas quando se fala sobre África já se acredita que é importante discriminar a pertença étnica. África para uma certa facilidade televisiva explica-se facilmente pelas tribos e etnias.

A este propósito quero lembrar a história do missionário Henri Junod que nos finais do século 19 saiu da Suíça Francesa para vir pregar em Moçambique. Ao contrário das grandes potências europeias, a Suíça não tinha colónias em África. A Igreja Livre de Lausane a que pertencia Junod só podia sobreviver se encontrasse nos territórios africanos uma espécie de terra de ninguém. Junod chegou a Moçambique e deparou com um conjunto de clãs dispersos que se nomeavam a si mesmos em função da família dominante: havia os Kossas, os Bilas, os Maluleques, os Matsolo, etc. O que Junod fez foi propor uma espécie de língua franca a partir de variantes dialectais destes grupos. Fixou a língua, codificou-a, organizou uma gramática e publicou um dicionário. Deu a essa língua o nome de Tsonga. Depois sugeriu que os povos do Sul de Moçambique fossem igualmente denominados por Tsongas. Encontrou uma generalizada resistência. Tsonga era o nome que os invasores sul-africanos zulus davam aos moçambicanos escravizados. Era um termo depreciativo. Mas o termo ficou e foi abraçado por elites locais que estavam em conflito com a administração colonial portuguesa. Ocorreu assim uma espécie de negociação entre as chefaturas negras e os missionários suíços. Os religiosos suíços outorgavam uma identidade etno-linguística e recebiam em troca, a legitimidade para a sua presença em África. Eles faziam da língua aquilo que outros fizeram da terra.

Ainda hoje, mais de cem anos passados, uma grande parte dos moçambicanos oficialmente designados como tsongas não se reconhecem nesse nome. Mas a verdade é que cada vez há mais gente que não apenas se aceita como tsonga mas acredita que essa identidade sempre existiu e que a sua etnia é tão antiga quanto a Humanidade.

Este é um exemplo claro e recente de como se fabricam identidades. Eu vivi esta revisitação histórica na companhia de um amigo meu, que está na Suíça fazendo o seu doutoramento em filosofia.

Historio de Severino Nguenha. Ele me dizia em Genebra: quando parti eu sabia que era Moçambicano. Aqui na Europa eu aprendi que era africano. E como africano ele sentia que devia escolher um tema africano para a sua tese. Mas ele não sabia o que escolher. Foi então que lhe sugeriram que visitasse um missionário de noventa anos, de nome Clerg, que era dos poucos discípulos de Henri Junod que ainda sobreviva. Nguenha nessa tarde mesmo foi a casa do velho suíço, bateu à porta e escutou a voz cansada perguntando num francês rouco:

- Quem é?

- Sou um estudante que veio de Moçambique.

Então, Severino Nguenha escutou passos arrastando-se pelo corredor e se arrepiou quando ouviu a pergunta:

- I wena mani? (quem é ?)

Clerk perguntava quem era, falando em tsanva. E o moçambicano respondeu:

- Mina ni Nguonha. (Sou o Nguenha)

Então, retorquiu o suíço, então és um dos nossos, entra que esta é casa dos tsongas.
Severino Nguenha, um moçambicano negro de quarenta anos de idade aprendeu naquele dia que era um tsonga, da mesma tribo de um suíço branco com mais de noventa anos.

A nacionalidade

No tempo da infância, sempre que regressava das brincadeiras no manguezal, quem me recebia em casa era o baiano Dorival Caymmi. As canções do mar se repetiam infinitamente no velho toca-discos e eu escutava inebriado como era doce morrer no mar. E para mim já era claro: o que era doce não era morrer mas o modo de dizer essa morte. Esse sotaque adocicado de uma língua que era minha e que eu desconhecia me revelou um novo litoral na minha alma. Severino Nguenha viu abrir as portas de identidade tsonga pela mão de um suíço. A porta para uma outra condição de nação foi-me aberta pela canção de Caymmi. Esse deslumbramento cresceu quando, mais tarde, se voltou a acender com os poetas e os cantores brasileiros. Eu não apenas amava essa outra pátria sem contornos. Eu me tinha convertido num brasileiro. E sempre que visito o Brasil renovo essa cidadania de uma nação que inventei.

Amin Malouf escreveu um livro sobre aquilo que chamou de “identidades assassinas”. Em resposta, necessitamos nós de assassinar a identidade singular e redutora a que nos querem obrigar. Necessitamos assumir a nossa condição errante, de eternos contrabandistas de culturas. Há que ter raiz, sim. Mas quem tem demasiada raiz não chega nunca a ganhar asas.

Lembro um episódio que me aconteceu nos anos oitenta numa pequena cidade chamada Malmo, no Sul da Suécia. Eu trabalhava na adaptação teatral de textos meus quando uma das actrizes suecas organizou um jantar para que eu conhecesse o seu professor de lambada, um brasileiro acabado de chegar à Escandinávia. Esse natural do Rio de Janeiro abrira uma pequena escola de danças brasileiras. A actriz estava encantada com o charme do professor carioca e queria saber se ele poderia participar na peça teatral. Quando o brasileiro entrou na sala e se apresentou, verifiquei com espanto que falava comigo em italiano. Pensei, primeiro, que ele não soubesse o que era Moçambique e que língua seria a minha. Mas não. O dito dançarino era italiano, nunca tinha visitado o Brasil e não sabia uma palavra de português. Fazia-se passar por brasileiro por razões de marketing de imagem. Entendemo-nos, à custa do meu pobre italiano, perante o olhar encantado da actriz sueca que nos imaginava falando em português. Embaraçado, o falso professor desculpou-se:

- Por favor, me entenda, não tenho outro emprego.

O que podia eu fazer senão entender? Já o italiano se despedia quando regressou atrás e me segredou:

- E eu posso garantir-lhe uma coisa, quando danço lambada eu deixo mesmo de ser italiano.

Quando mais tarde a actriz sueca me perguntou se havia gostado do seu brasileiro, eu
respondi:

- Não há lugar neste mundo em que não se encontre um pedaço do Brasil.

Como podem ver, não apenas vou sendo abusivamente brasileiro como até já conferi a nacionalidade brasileira a europeus em estado de aflição. Espero que nenhum agente da polícia de migração esteja presente nesta sala.

No capítulo da nacionalidade e de como a nação define identidades farei ainda referência a alguém que todos vocês conhecem. Todos descobrimos os nossos mestres na arte de pular fronteiras identitárias. Para mim o maior mestre foi um brasileiro chamado João Guimarães Rosa.

A identidade da escrita

Sou moçambicano, filho de portugueses, vivi o sistema colonial, combati pela Independência, vivi mudanças radicais do socialismo ao capitalismo, da revolução a uma guerra civil que demorou 16 anos e fez um milhão de mortos. Nasci num tempo de charneira, entre um mundo que nascia e outro que morria. Entre uma pátria que nunca houve e outra que ainda está nascendo. A minha condição sempre foi a de criatura de fronteira. As duas partes de mim exigiam um medium, um tradutor. A poesia veio em meu socorro para criar essa ponte entre mundos aparentemente distantes. O que creio que todos carecemos é de um passaporte (ou se quisermos esse password) para emigrarmos de nós, saltarmos a fronteira daquilo que alguém chamou de identidade pessoal.

Quando li pela primeira vez Guimarães Rosa experimentei uma sensação que já tinha sentido quando escutava os contadores de histórias da minha infância. Perante o texto eu não simplesmente lia: eu ouvia vozes antigas. Os livros de Rosa me atiravam para fora da escrita como se, de repente, eu me tivesse convertido num analfabeto selectivo. Para entrar naqueles textos eu devia fazer uso de um outro acto que não é “ler” mas que pede um verbo que ainda não tem nome.

Mais que a invenção de palavras, o que me tocou foi a emergência de uma poesia que me fazia sair do mundo, que me fazia inexistir. Aquela era uma linguagem em estado de transe, que se deixava possuir como os mediuns das cerimónias mágicas e religiosas. Havia como que uma embriaguez profunda que autorizava a que outras linguagens tomassem posse daquela linguagem. Exactamente como o dançarino da minha terra que não se limita a dançar. Ele prepara a possessão pelos espíritos. O dançarino só dança para criar o momento divino em que ele emigra do seu próprio corpo. O italiano da lambada também sabia disto.

Os contadores de histórias do meu país têm que proceder a um ritual quando terminam a narração. Tem que “fechar” a história. “Fechar” a história é um ritual em que o narrador fala com a própria história. Pensa-se que os relatos históricos são retirados de uma caixa que nos foi deixada por Guambe e Dzavane, o primeiro homem e a primeira mulher. No final da cerimónia, o narrador volta-se para a história — como se a história fosse um personagem e diz-lhe: “Volta para casa de Guambe e Dzavane”. É assim que a história volta a ser encerrada nesse baú primordial.

O que acontece quando não se “fecha” a história? A multidão que assiste fica doente, contaminada por uma enfermidade que se chama a doença de sonhar. João Guimarães Rosa é um contador que não fechou a história. Ficamos doentes, nós que o escutamos. E nos apaixonamos por essa doença, esse encantamento, essa aptidão para a fantasia.

Volto à categoria da identidade. E vou falar na questão do idioma.

A língua

Na categoria do idioma gostaria de me demorar um pouco mais. Afinal, a língua é um dos temas de cartaz deste Fórum. E a pergunta que seria preciso fazer não tem a ver comigo mas com o meu país, esse que confere identidade colectiva a 17 milhões de habitantes. E a pergunta é esta: será que Moçambique é um país de língua portuguesa?

E aqui gostaria de fazer um grande parêntesis. Nas zonas rurais onde trabalho existe uma curiosa maneira de responder ás perguntas formuladas por um estranho. Sobretudo se essas questões solicitam a cruel dicotomia do “sim” e do “não”. Resolve-se da seguinte maneira: responde-se sempre sim. O “não” simplesmente não se diz.

Esta forma de retórica (ou melhor esta ausência de retórica) traduz a nossa condição geográfica: Moçambique já é Oriente. Não negar é uma educação. Mas esta elegância de trato cria, por vezes, problemas aos que necessitam de respostas claras e concisas. É o meu caso quando chego a uma zona litoral e necessito organizar o meu trabalho. À minha pergunta:

- A maré está a subir?

A resposta já aconteceu assim:

- Está a subir, sim senhor, mas já começou a descer há mais de duas horas.

Uma outra vez, tendo por missão identificar a fauna numa floresta, perguntei a um velho que me acompanhava:

- Isto que está cantar é um pássaro?

- É, sim.

- E como se chama este pássaro ?, quis eu saber.

- Bom este pássaro, nós aqui em Niassa não chamamos bem-bem pássaro. Chamamos de sapo.

Num balanço da aplicação do lema de governação “por um futuro melhor” a Televisão de Moçambique fez um inquérito popular. A pergunta era: “sente que a sua vida está a melhorar?” Um cidadão respondeu assim:

- “Está melhorar, sim senhor. Mas está a melhorar muito mal’

Evoco estes episódios para regressar à questão inicial que é: Moçambique é um país lusófono? Tomando a lógica rural eu responderia, pronto e ligeiro: é, sim senhor. Mas sei que há outras lógicas que mandariam que eu dissesse: não, Moçambique não é um país lusófono.

Explico: fala-se hoje mais português em Moçambique que se falava na altura da Independência. O governo moçambicano fez mais pela língua portuguesa que os 500 anos de colonização. Em 1975, ano da Independência Nacional, mais de 60 por cento dos moçambicanos não falavam português. Trinta anos depois existem ainda 40 por cento de moçambicanos que não falam português. Mesmos os que tem essa competência fazem-no como segunda língua. Hoje cerca de 7 por cento dos moçambicanos tem o português como língua materna. Nas cidades, porém, este número já é de quase 20 por cento.

O meu país é, assim, um território de muitas nações e muitas línguas (mais de vinte diferentes idiomas). O idioma português é a língua de uma dessas nações — um território cultural inventado por negros urbanos, mestiços, indianos e brancos. Sendo minoritário e circunscrito às cidades, esse grupo ocupa lugares chaves nos destinos políticos e na definição daquilo que se entende por moçambicanidade. A língua portuguesa não é a ainda língua de Moçambique. Está-se exercendo, sim, como a língua da moçambicanidade.

Comecei a minha intervenção com alguns dados da minha meninice. O que tem a questão da língua a ver com estas lembranças? Para manter residência na infância necessito de uma língua em estado de infância. Essa é a minha aposta quando escrevo. Tenho a meu favor o facto de Moçambique ser ele próprio um lugar em infância, uma nação em flagrante invenção de si mesma e da sua língua de identidade. Estranha coincidência: a minha pátria é-me contemporânea. Fui nascendo com ela, ela está nascendo comigo. Eu e a minha terra somos da mesma geração.

A minha língua portuguesa, repito a minha língua portuguesa, é a pátria que estou inventando para mim. Essa língua nómada é viagem viajada, namoradeira de outras vozes e outros tempos. O importante não é tanto a língua, nem sequer o quanto ela nos é materna. Mais importante é essa outra língua que falamos mesmo antes de nascermos. Nesse registo está a porta e o passaporte em que todos nos fazemos humanos, fabricadores da palavra e, com igual mestria, criadores de infinitas identidades.

Conclusão — identidades fugidias

Tenho ao que parece a raça errada, o nome errado, o sexo errado, e aqui no Brasil tenho a pronúncia errada. A verdade é que, para mim, a escrita me ajudou a dissolver esses erros. Foi a aceitação da poesia como uma lógica para entender o mundo que me deu a solução. E me fez criar um modo de ser outro e outros, e me deu uma forma de desembarcar em novas entidades. Quando escrevo sobre uma mulher eu me converto em mulher, quando escrevo sobre uma criança eu sou uma criança. Essa liberdade contraria a ideia comum que nascemos para ter uma única e singular identidade. Alguns insistem que a identidade pede pureza e essência. A única maneira de sermos puros, porém, é sermos híbridos. A verdade é que só seremos um se formos muitos. E só seremos felizes se abraçarmos identidades plurais, capazes de reinventarem e se misturarem em imprevisíveis simbioses e combinações.

Ensinaram-nos a ter medo da indefinição e da imprevisão. Mas nós brasileiros e moçambicanos construímos sociedades em que a previsão não passa de uma falível contingência. A força do oculto e do não nomeável é muito forte. Devemos tirar partido disso: inventemos para nós a identidade que nos apetecer. E façamo-lo não porque seja politicamente correcto mas porque nos dá prazer sermos o que somos, mesmo que não saibamos exactamente o que isso é. Só poderemos sentir prazer se criarmos um universo de diferença num mundo em que o futuro se está já a escrever apenas em inglês.

Aquilo que nos torna próximos — a nós falantes do português no Brasil, em Portugal e em África — não é apenas a língua mas componentes culturais e, sobretudo, religiosos. Fomos moldados e moldamos percepções do mundo que resultaram de migrações e transculturações antigas. Os nossos santos são os mesmos. Os nossos santos protectores — mesmo que neles não acreditemos — poderiam sentar-se nesta sala, no Rio, com o mesmo à vontade que manteriam em Lisboa, Maputo ou Luanda.

O que estaremos discutindo nestes dias não são questões académicas. O que está em debate é a possibilidade de sermos construtores de identidades que, tal como a criança da ilha, não podem ser medidas, nem reduzidas a um nome ou a um gesto. Estaremos falando, muito simplesmente, de identidades, línguas e marcas culturais que nos tornem mais felizes, mais humanos e mais solidários.

Esta é a derradeira história e, de novo, relembro algo ocorrido na EB da Inhaca. Numa noite escura, eu e os meus colegas acabávamos de jantar na varanda da Estação quando escutamos tambores e sinais de que haveria, algures, uma festa. Decidimos ver o que se passava. Quando chegamos deparamos não exactamente com uma festa mas com uma cerimónia de agradecimento pela chegada das chuvas. Ao redor de uma fogueira havia só mulheres de uma certa idade. Receberam-nos com a maior das simpatias, foram buscar cadeiras (os homens não se sentam no chão) e serviram-nos de ngovo, uma bebida fermentada. Considerei que seria de bom tom usar da palavra para agradecer a hospitalidade. Eu era o único branco entre os meus colegas e era o que menos falava o xironga, a língua local. Quando nos dirigimos ao centro do pátio, as mulheres fizeram silêncio e esperaram que começássemos a falar. O meu colega porém, foi mandado calar logo nas primeiras palavras: Eh, Eh, se é para dizerem quem são não queremos que falem, queremos que dancem. Vocês vão dizer quem são e de onde vieram através da dança.

Entrei em pânico. Eu não danço coisa nenhuma e essa inaptidão é tão funda que eu já imaginei que eu apenas escrevo porque não sei dançar. Mas o problema é que os meus colegas dançavam qualquer coisa irreconhecível, uma mistura de Michael Jackson e Zeca Pagodinho. As mulheres, ante o patético espectáculo, levantaram os braços e clamaram: podem parar que nós não sabemos que país será esse onde se dança assim.

Esse país onde se inventa uma identidade dançada é o mesmo onde o italiano continua ensinando lambada, a mesma nação onde Guimarães Rosa vai tornando as palavras dançáveis. E como diz o provérbio moçambicano: quem dança não é o que levanta poeira; quem dança é aquele que inventa o seu próprio chão.

E muito obrigado.


VALENTE, André (ORG.). Língua portuguesa e identidade. Rio de Janeiro: Caetés, 2008. pp. 11-22.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

Naguib: arte moçambicana

São Paulo, a capital paulistana, sempre foi um lugar surpreendente e agradável para mim. Na adolescência ia para curtir as peças teatrais de Zé Celso e Antunes Filho e os shows de rock no saudoso Dama Xoc, visitar as lojas de vinil Baratos Afins e Woodstock, e a Galeria do Rock, é claro, com seus quatro andares repletos de rock’n’roll, tattoos e skate. Logo em seguida, as amizades e amores de estrada em lugares como Trindade, São Thomé das Letras e Ilha Grande. Depois, com a entrada da pintura em minha vida, passei a ir constantemente em busca das exposições nas galerias, museus e, principalmente, na Bienal de Arte.

Em uma dessas viagens, lembro de um final de semana que a programação era intensa e de altíssima qualidade. Só para ficar no espaço do Ibirapuera, havia no MAM uma retrospectiva sobre o Alfredo Volpi com mais de cem obras; o MAC/USP estava com o seu importante acervo de arte modernista brasileira, com obras fundamentais de Tarsila do Amaral, Anita Malfatti, Samsor Flexor e tantos outros. Porém, a maior surpresa viria com a exposição ao lado, “África/Brasil: um retorno às raízes”, apresentando o artista moçambicano Naguib Elias Abdula.

Nascido em 1955 na cidade de Tete às margens do rio Zambeze, Moçambique, Naguib freqüentou a Escola de Belas Artes de Lisboa, estagiou Serigrafia na Universidade do Cabo (África do Sul), partiu para a Alemanha onde fez Conservação e Restauro no Kunts Museum de Colônia e freqüentou a Universidade de Nothumbria, Reino Unido.

Iniciou sua trajetória artística após a independência moçambicana em 1975, participou de várias coletivas até realizar sua primeira individual em 1986, chamada “Grito de Paz”, na Galeria Decorama, em Maputo/Moçambique. Desde então, solidificou uma carreira consistente e inquietante, que denuncia o caos social do país, a valorização da condição humana e da pluralidade cultural moçambicana. Sua arte atravessou as fronteiras de seu país e do continente africano, conduzindo-o ao título de embaixador da Organização das Nações Unidas (ONU). Hoje, Naguib é um dos grandes nomes da arte moçambicana, equiparando-se aos artistas Malangatana Valente, Chissano e Roberto Chichorro.

Para o escritor Mia Couto, Naguib:

“é um artista plural, empenhado na procura de sua própria diversidade, na confrontação exigente consigo mesmo (...). Nos seus quadros reconhecemos os múltiplos tempos moçambicanos, as diversas raças do nosso colectivo (...). A pintura de Naguib confirma em mim a alegria de pertencer a essa pátria que existe apenas onde a inventamos: Moçambique.” (Naguib. Lisboa: Editorial Caminho, 2005, p. 45-48)

A valorização da mulher, o erotismo exacerbado e a diversidade de temas tratados por Naguib em suas obras são apontados por Ana Mafalda Leite:

“É esta também a marca da terra actual, generosa de alegria e de indevidos abusos e corrupção, mas a esperança, sem rosto, com um tremendo corpo de desejo não permite abandonar a promessa de um país culturalmente diverso e rico que também se prolonga, recriado em teus quadros. Talvez por isso volvam em alguns deles as inscrições rupestres, marcas zoomórficas, traços de crianças, reinícios nas tuas pinceladas, em que fragmentos fósseis, letras que retomam algumas frases de Samora Machel. Hieróglifos de um tempo novo que é preciso decifrar nas letras antigas, na tinta que escorre dos murais, em certas palavras de ordem que urge relembrar. As crianças percorrem esse princípio de pedra gravada, em que os répteis dançam, emolduram o negro-castanho-branco de fragmentos de tecidos nos corpos de mulheres.” (Naguib, op.cit., pp. 39-43)

Na referida exposição, a primeira obra é um site specific que denuncia com dados oficiais a miséria e abandono que vivem as crianças africanas e brasileiras. Apesar de sempre fazermos força para esquecer, é bom lembrarmos que temos indicadores sociais piores do que alguns países africanos. Temos uma elite corrupta e governos opressores como qualquer país periférico. No site specific, Naguib apresenta sua coragem em apropriar-se de objetos de consumo na construção do trabalho utilizando-se de bonecos enforcados e queimados em um forno, e ainda unir pintura e texto pichado na melhor escola neoexpressionista dos anos 1980. Explodem na memória a semelhança com as intervenções e instalações de Jean-Michel Basquiat e Keith Haring.

A ousadia híbrida na escolha de materiais para suas telas impactantes e viscerais dão a tônica do restante da exposição deste multifacetado artista. Naguib presta uma bela homenagem ao poeta moçambicano José Craveirinha na intervenção "Karingana wa karingana (In memória do Tio Zé Craveirinha)". Trata-se de postes pintados nas paredes, seus fios e roupas rabiscadas com trechos de poemas do Velho Cravo nesse varal lírico criado pelo artista.

Karingana Wa Karingana, 2005 (In memória do Tio Zé Craverinha)



Na série de três trabalhos chamada “Alquimia de jóias na dança de ucanho”, Naguib espanta-nos com a pluralidade de elementos concentrados sobre a tela, mostra a incessante procura por novas formas de expressão. Fotografias pintadas com mulheres zoomorfas, ora girafas, ora zebras, em intenso erotismo, estão ao lado de embondeiros geometrizados, aves sagradas, motivos tribais na busca de um lirismo primordial.

Alquimia de jóias na dança de ucanho I, 2005
acrílico, pintura corporal, digitalização, impressão litográfica e óleo s/ tela
2.48 X 1.83 m


Alquimia de jóias na dança de ucanho II, 2005
acrílico, pintura corporal, digitalização, impressão litográfica e óleo s/ tela. 2.01 X 2.49 m

Alquimia de jóias na dança de ucanho III, 2005
acrílico, pintura corporal, digitalização, impressão litográfica e óleo s/ tela. 2.50 X 2.37 m


Também nas três pinturas de “Exaltação lírica nas margens do Zambeze”, a manipulação digital alia-se aos traços rupestres da pintura, imagens de embondeiros e pedras ancestrais mesclam-se com hieróglifos representando mulheres ora nuas, ora com capulanas, tartarugas, elefantes, crianças e seres tribais a lembrar que o ato criativo do homem é ancestral. E mais, Naguib mostra-nos que se apropria de referências desse passado ancestral para criar o seu presente pictórico e, sobretudo, moçambicano.

Exaltação lírica nas margens do Zambeze I, 2005
acrílico s/ suporte fotográfico, impressão litográfica e óleo s/ tela
2.55 X 1.80 m


Exaltação lírica nas margens do Zambeze II, 2005
acrílico s/ suporte fotográfico, impressão litográfica e óleo s/ tela. 2.00 X 2.43 m


Exaltação lírica nas margens do Zambeze III, 2005
acrílico s/ suporte fotográfico, impressão litográfica e óleo s /tela. 2.60 X 1.87 m

A liberdade do seu traço, a sensualidade feminina, a mãe com a criança, os símbolos tribais reaparecem na série “Reinventário de manhãs para amar sem medo”. A originalidade de Naguib ao rabiscar e pintar tais motivos sobre jornais causa furor aos olhos. Naguib é um artista que busca se reinventar a cada série, apropriando-se de materiais inusitados e criando pontes surrealizantes entre os elementos que, quando unidos, transbordam em lirismo.

Reinventário de manhãs para amar sem medo I, 2005
(in memória de Carlos Cardoso)
pastel, carvão, acrílico s/papel de jornal digitalização, impressão litográfica e óleo s/tela
2.34 X 1.82 m

Reinventário de manhãs para amar sem medo II, 2005
pastel, carvão, acrílico s/papel de jornal digitalização, impressão litográfica e óleo s/tela


Reinventário de manhã para amar sem medo III, 2005
pastel, carvão, acrílico s/papel de jornal digitalização, impressão litográfica e óleo s/tela


Um expressionismo visceral é escancarado nas pinturas “Efabulírica com todas as claves” e “Australírica numa variação de nyau”. Telas em grande formato, grandes áreas com predomínio de uma cor, máscaras, mulheres sensuais, galinhas, tartarugas e símbolos rupestres embelezam essas obras.


Efabulírica com todas as claves, 2004
terra vermelha, cola vulcano 7, médio vinílico, pasta acrílica e acrilico s/ tela
1.43 X 1.10 m

Australírica numa variação de nyau, 2004
resíduo de mármore, cola vulcano 7, médio vinílico, pasta acrílica e acrílico s/ tela
1.45 X 1.78 m

Todavia, cabe aqui algumas considerações pertinentes quando nos referimos ao termo expressionismo ao lidarmos com artistas africanos, pois a nossa referência é o expressionismo alemão do início do séc. XX, mais precisamente aos artista do Die Brucke (A Ponte): Ernest Kirchner, Emil Nolde e outros da cidade de Dresden. Logo, a partir do momento em que os artistas modernistas tiveram contato com a arte africana na virada dos sécs. XIX e XX, isso fez com que se encorajassem e partissem para a ruptura com a prática de ensino acadêmico adotado nas escolas de artes e os valores burgueses europeus da época.

Os artistas apresentam novas características formais: o emprego livre das cores, pinceladas com gestual expressivo, rompimento da perspectiva renascentista, geometrização, abstracionismo das formas da natureza, emprego da luz sem preocupação em destacar ou modelar figuras, indistinção na relação figura/fundo e despreocupação com a verossimilhança. Ferreira Gullar, ao comentar tal ruptura em “Argumentação contra a morte da Arte”, diz que:

“a civilização européia, do mesmo modo que se julgava a única sociedade civilizada, considerava também sua arte como a expressão suprema e perfeita, diante da qual o que faziam os povos da Ásia, da África ou da América era puro barbarismo. A ruptura radical com as concepções acadêmicas e, em seguida, com os vínculos entre arte e natureza conduziu à desintegração progressiva da linguagem artística e pôs à mostra a expressividade das formas até então consideradas não-artísticas. A primeira conseqüência disso foi a valorização da arte dos povos ditos primitivos ou selvagens, como a escultura negra africana, as máscaras e totens da Oceania etc.”

Na arte ocidental européia, o expressionismo carrega uma relação conturbada com a mimese. Há o objetivo do artista em expressar o real, entretanto, este real é contaminado pela carga emocional que o pintor ou escultor emprega no momento da ação. O artista vale-se de um gestual agressivo, levando-o a distorcer as formas da figuração humana e da natureza, comprometendo, assim, o aspecto naturalista da obra. Contudo, tal desleixo e aparência rude das obras expressionistas, trazem em si outras discussões como o questionamento às rápidas mudanças tecnológicas que a modernidade apresentava, dilacerando a sensibilidade e oprimindo o homem em relação à máquina. Daí o retorno às coisas da natureza e um olhar atencioso aos povos ditos "primitivos".

Portanto, ao mencionarmos o expressionismo de um artista africano devemos levar em consideração essa diferenciação, pois, para o artista tradicional africano, conforme afirma Nei Lopes em “Kitábu”, a desproporção e assimetria da figuração humana é algo natural porque ele está ilustrando uma entidade que não tem forma. Por isso, quando uma escultura fala de uma deusa ou deus da fertilidade, apresentar-se-á com as genitálias maiores do que o normal; se for para falar da sabedoria, a cabeça será maior que o corpo e assim por diante.

Após essas considerações, voltemos a Naguib. É fascinante a diversidade de materiais utilizados por ele, tornando-o um artista diferenciado na arte moçambicana e atento às propostas contemporâneas dos principais artistas do mundo. Carlos Lopes, no catálogo da exposição, frisa que:

“Naguib destaca-se dos demais pela sua jornada estética arrojada. Nunca se deixou esgotar numa única visão. A sua originalidade não se mede pela alteridade repetida depois de encontrado o denominador comum da diferenciação. Não! Naguib prefere demarcar-se pela reinvenção, rebuscando no produto acabado por ele próprio a fonte para fazer diferente logo depois. Uma auto-alteridade assumida por séries que quase parecem sair de mãos diferentes, não fossem algumas constantes evocações à mulher, à terra e aos símbolos totêmicos.” (Carlos Lopes, Naguib, p. 3)

E é na incansável procura por novas manifestações de sua arte, que Naguib Elias Abdula renova e surpreende a cada tela, fazendo a constante ligação entre passado e presente, exaltando a natureza humana carregada em erotismo, revelando a multifacetada cultura de Moçambique com um olhar contemporâneo que funde o local ao universal.

Riso


Bibliografia:
Catálogo da exposição África/Brasil: um retorno às raízes – NAGUIB. Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo. 30 de março de 2006.
GULLAR, Ferreira. Argumentação contra a morte da Arte. Editora Revan. 1993.
LOPES, Nei. Kitábu – o livro do saber e do espírito negro africanos. Rio de Janeiro: Senac/RJ, 2006.
NAGUIB. Lisboa: Editorial Caminho, 2005.

Internet:
http://www.macvirtual.usp.br/MAC/templates/exposicoes/AfricaBrasil/AfricaBrasil.asp
http://www.artafrica.info/html/artistas/artistaficha.php?ida=456

sexta-feira, 23 de novembro de 2007

Craveirinha e Malangatana - Comunicação UFRJ

LETRAS E DESENHOS ENCARCERADOS: A RECLUSÃO LIBERTADORA NA ARTE DE JOSÉ CRAVEIRINHA E MALANGATANA VALENTE*
RICARDO SILVA RAMOS DE SOUZA1

RESUMO: A presente comunicação propõe-se a analisar a produção artística de José Craveirinha, com o livro Cela 1, e a série Desenhos de prisão, de Malangatana Valente, que retratam o recrudescimento da violência imposta pelo regime ditatorial português. O objetivo central é estabelecer um diálogo entre as duas obras realizadas quando os artistas eram prisioneiros nas cadeias da pide, e como a experiência da asfixia do cárcere serviu de inspiração para denunciar as mazelas da guerra, a reconstrução da memória coletiva e a afirmação de um Moçambique independente.


*Comunicação apresentada no III Encontro de Professores de Literaturas Africanas, realizado na Universidade Federal do Rio de Janeiro, no dia 22/11/2007.

1 Universidade Federal do Rio de Janeiro

Esta comunicação aborda um período marcante da história moçambicana, iniciado com a guerra colonial em 25 de setembro de 1964, em que os amigos e parceiros de cárcere José Craveirinha, com Cela 1, e Malangatana Valente, com Desenhos de Prisão, em condições adversas, imortalizaram a triste e fundamental passagem da luta pela independência, ao registrar a violência exacerbada nos cárceres do regime ditatorial português em suas obras.

Os poemas de José Craveirinha em Cela 1 referem-se à produção literária que os críticos das Literaturas Africanas de Língua Portuguesa denominam como a poesia de combate ou de protesto, momento histórico em que os temas políticos e sociais eram necessários. Porém, os dois artistas não reduziram seus trabalhos ao estilo panfletário comum à época. Em meio à revolta justificada por séculos de injustiças sofridas por causa da ação colonizadora, os poemas apresentam a pluralidade cultural que compõe o corpo moçambicano e abordam uma postura contrária ao regime salazarista, que esmagava as manifestações tradicionais locais.

No período citado, o sujeito-lírico versa sobre o desejo de independência da nação. Segundo Alfredo Bosi, “a poesia há muito que não consegue integrar-se, feliz, nos discursos correntes da sociedade”1, enquanto o crítico Manuel Ferreira descreve assim a situação do escritor:

“Nesta fase o escritor pensa a sua terra em termos de pátria, nação, rejeita o Outro – o colonizador –, e está determinado a uma prática literária integrada na nova situação, toda ela voltada, de vez, para a conquista da libertação nacional. Assume-se como homem inteiramente livre, repensa as suas raízes culturais, faz o reencontro consigo próprio e integra-se no destino colectivo de sua gente. (...) o escritor, após ter adquirido a consciência de sua condição de colonizado, liberta-se completamente da alienação e a sua prática literária cria a sua razão de ser na expressão das raízes profundas da realidade social nacional entendida dialecticamente.”2

Os poemas de Cela 1 foram escritos, em sua maioria, na prisão do poeta durante os anos de 1965 a 1969. Apesar de termos o cuidado em não misturar a vida do autor e a obra na análise literária, podemos, como afirma Rita Chaves, dizer que:

“(...) a força da História não deve ser minimizada na abordagem da literatura, em se tratando da produção dos países de língua portuguesa a compreensão desse peso merece atenção especial. Em Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique e São Tomé e Príncipe, o contato com os dilemas que a História arma é tão vivo e direto, que a sua dimensão surge visivelmente concreta no cotidiano das pessoas que escrevem e sobre as quais se escreve.”3

No caso de Craveirinha torna-se pertinente esta orientação, pois é com “o poeta e sua experiência que é por ele convertida em matéria poética, o que explica o interesse que ele ganha na abordagem de alguns dos caminhos de sua escrita”4. Logo, a arte é usada como forma de denunciar e conscientizar a sociedade. Segundo Antonio Candido: a “arte coletiva é a arte criada pelo indivíduo a tal ponto identificado às aspirações e valores do seu tempo, que parece dissolver-se nele”5. E é o que depreendemos nas obras do Velho Cravo e de Malangatana, que contam a seguir a experiência no cárcere:

“Lá estive eu na engorda, sem fazer nada. Eu e os amigos também, tão poetas no sentido negativo como eu: por exemplo, Rui Nogar e Malangatana. Só que o Malangatana é para mim um caso muito especial. Estivemos na mesma cela. Quando eu fui para esta cela, era uma cela de castigo, já pequena para mim sozinho; meteram então o Rui, e ficou mais pequena ainda; depois, incrivelmente ainda coube o Malangatana. Desde então, o que me espanta no Malangatana não são os seus quadros: é que ele conseguiu engordar lá dentro (risos). Deve ter havido muito poucos revolucionários na História iguais ao Malangatana. Cantava, assobiava, dormia: mas que grande paz de consciência é essa? (...)”6

“Mesmo na altura de 1961/62 tinha uma actividade política muito grande. Foi quando fiz parte do grupo em que o Craveirinha trabalhava clandestinamente, depois em 1963/64 as atividades crescem, também com o Luís Bernardo Honwana e outros. E somos presos, com o Rui Nogar, (...) Fomos presos juntos, alguns em celas diferentes. (...) fiquei pouco tempo na prisão comparado com muitos correligionários que ficaram de quatro a sete anos. Eu fiquei dezoito meses, (...) A base do julgamento foi pertencermos, sermos simpatizantes, da FRELIMO. (...)”7

O envolvimento com o partido político FRELIMO (Frente de Libertação de Moçambique) se dá no início de sua formação, sendo Craveirinha figura capital na sua construção:

“A ligação com a FRELIMO surge muito naturalmente, tinha que surgir (...) Então quem monta a sede da FRELIMO ali no sul fui eu. Desculpe a imodéstia. (...) Então aliciei alguns, como o Rui Nogar, como o José Parente (...) O Malangatana fui eu que o aliciei, e o actual (fevereiro/1990) embaixador moçambicano em Portugal. (...)” 8

Nos poemas e desenhos aqui analisados, veremos o espaço físico do cárcere e o que envolve o cotidiano do preso como fator motivador para os dois artistas. Contra a razão imposta por séculos de colonização européia, o espelhamento dos versos de Craveirinha subverte o barroco tradicional e denuncia as mazelas e fraturas sofridas pelos moçambicanos, escancarando a violência da famigerada polícia política salazarista, a PIDE. O cárcere é exposto de diversas maneiras nos poemas de Craveirinha. Em meio à indignação e revolta, o sujeito-lírico, em ferozes versos, neobarrocamente, mostra este espaço em metáforas insólitas e surreais, em um autêntico surrealismo africano, “bastante diverso do europeu, porque constituído com o esperma da criação e do conjuro cósmico”9:

“(...) E rectangulizados
os pensamentos tuberculizam-se em esquadria
e uns atrás dos outros aos cardumes de náuseas
sangram cotovelos nos ladrilhos.”
10

“Noites enjoadas de um milhão de angústias
racham-me as unhas na lascívia das macias
paredes de cimento (mentira não são macias) caiado
e no amoroso cárcere ensurdecedor de silêncios (...)”
11

A ironia, que beira o sarcasmo, aparece para apresentar a cela. O isolamento é cantado de diversas maneiras e a relação do poeta com o cárcere é exposta com “larga utilização de contrastes, como forma de fazer ressaltar, com maior brutalidade, o sentido dos versos”12.

“O mundo ensurdecedor de moscas de silêncios
os pulsos mata-fomes do grande rato verde do medo
o imaginário omnipotência dos nossos feitiços impossíveis aqui
e o táctil gosto das pontas dos dedos nas paredes (...)
E por dentro a porta ao meio
mais cega
mais surda
e mais muda do que nós
no papel autêntico
de porta fechada.”
13

O pintor Malangatana Valente ilustrará o cárcere em um expressionismo voraz, realizado com parcos recursos. Os desenhos são simples, sem as cores impactantes e os excessos alegóricos que caracterizam as obras do pintor, entretanto apresentam o olhar atento contra o dilaceramento de sua cultura:

“Ora violentos a violência praticada na prisão ora sonhadores o sonho de liberdade de qualquer preso ora com recurso às suas mais fundas origens culturais as da sua aldeia e do seu povo ora evocando as famílias e as tragédias quotidianas ora virados para o futuro imaginando o seu país livre e independente esses desenhos aparecem-nos, na sua diversidade, como um claro retrato da vida e dos sonhos de Malangatana e de seus companheiros de prisão e de luta.”14

Em desenhos como “Sala de castigo da PIDE”, o espaço exíguo ao qual o preso é submetido é contrastado com o seu tamanho desproporcional, denunciando os maus tratos sofridos. Carmen Lucia Tindó Secco cita, a respeito da pintura de Malangatana, a “ausência de vazios que tenta suplementar as lacunas provocadas pelo processo de neutralização das alteridades, ao longo de séculos de submissão”15, que, nesta série, é mostrada nas celas lotadas, em desumana condição. Por outro lado, apresentam a mobilização dos moçambicanos na luta contra o colonialismo, como em “Pavilhão 9 da Cadeia da Machava da PIDE”.

Sala de Castigo da PIDE

No cárcere, Craveirinha mostra-nos um tempo próprio do preso no seu cotidiano de “ausência citadina”. Em uma linguagem paradoxal e muitas vezes sinestésica, o sujeito-lírico versa sobre a angústia da espera, o silêncio e o barulho, as informações passadas sob os olhares dos carcereiros, o breve contato com a família:

“(...) Em centésimos de segundo
os nossos olhos privilegiados
decifram estritas instruções
de mil e duzentas palavras. (...)”
16

“(...) e depois as noites de vinte e quatro horas a fio
ensurdecedoras de silêncio dos ponteiros de angústia (...)”
17

“(...) o chão exausto dos passos
relojoados centímetro a centímetro ida e volta
na perspectiva de mundos de nada todo o dia. (...)”
18

“(...) – ‘São 30 minutos e acabou!’ (...)
Mas a cada visita (...)
Mais sessenta segundos com a família
Não era mais nada
... ERA OURO!”
19


Uma outra presença marcante nestas obras é o nefasto torturador, os agentes da PIDE encarregados de interrogar os presos. Com ódio e violência desmedida, estes agentes “de olhos raiados de sangue”20 procuravam minar a auto-estima dos que ali se encontravam sob suas garras, utilizando variadas e repugnantes práticas de tortura denunciadas na escrita corrosiva do poeta:


“(...) E ao ritmo
da contradança de joelhos nus nem parece
que algures há cartilagens sangrando
a esfolar-se no chão das cadeias.”
21


“(...) Quietos
quatro horas seguidas
comodamente sentados numa cadeira
ao milésimo século de perguntas (...)


Mas...
não falamos!


Nossos
sorrisos moçambicanizados
previamente a carícias
de cacetadas.

E
as bocas inchadas
a sangue natural imitando o vermelho
torna autêntico este verso.”
22

A desprezível figura do torturador foi ilustrada por Malangatana, recebendo a alcunha de “Chico Feio, o espancador da PIDE”. A degradante personagem é mostrada em cenas de violência extrema contra os prisioneiros, violência motivada pela ditadura salazarista, revelando o ódio que os agentes possuíam pelos revolucionários, como em “O prisioneiro” e “A cela”. Na ilustração supracitada, em “Devoragem” e “Pavilhão da Cadeia da Manchava, espancamento”, Malangatana substitui os espíritos das religiosidades ancestrais. Os seres fantásticos como os xicuembos, lumpfanas e shetanis que vivem no imaginário fragmentado dos seus compatriotas, tornam-se imensas e assustadoras figuras híbridas, com olhares alucinados, garras e dentes afiados. São monstros materializados, do e no tempo presente, os agentes da PIDE. Como observou Julio Navarro: “sem perder a qualidade estética, pelo contrário, Malangatana começa a integrar no seu imaginário aquela ligação dos seus monstros (...) com o monstro real: o colonialismo”23.

Chico Feio, o espancador da PIDE

O prisioneiro

A cela

Devoragem

Pavilhão da Cadeia da Manchava, espancamento

Entretanto, a resistência à tortura é ilustrada por Malangatana em “Apoio moral aos espancados cela IV” e motivada por Craveirinha com impactantes versos a clamar a união e a afirmação dos moçambicanos, e a inverter a relação com o carcereiro:


“(...) E no sofrimento deste prédio
nós os presos e os que não foram presos
conseguimos o seguinte consenso:
– Voz de prisão aos carcereiros!”
24


“(...) Não sou luso-ultramarino
SOU MOÇAMBICANO!


Será suficiente esta confissão
sr. chefe dos cassetetes
da 2ª brigada?”
25


“(...) Pátria:
o nosso próprio receio
leva-nos ao cúmulo da fúria
mas ao carcereiro o próprio medo
fabrica para toda a polícia
o auge do desespero.”
26


O projeto de nação em sua poesia surge antes da participação na FRELIMO e da guerra colonial. Para Fátima Mendonça o Velho Cravo é “o primeiro escritor a apresentar o espaço geográfico moçambicano em termos de nação”27, e complementa afirmando que:


“O elemento de afirmação nacional que emerge, desde o início, da poesia de José Craveirinha, é pois gerado e produzido por um real definido e marcado, porventura apreendido pelo poeta numa fase em que a sua configuração não é perceptível a muitos: o poeta limitou-se a antecipar-se no tempo, captando e prevendo, assumindo-se finalmente como o ‘fabricante de vaticínios infalíveis’.”28


Portanto, a Pátria é cantada em várias formas, sendo motivo para agregar os moçambicanos sedentos por liberdade:


“(...) Mas
a arma da paixão mais secreta
dos filhos que amam a terra-mãe cem por cento (...)”
29


“(...) Este infinito sentimento
no recíproco amor a homem e mulher
para jamais nos esquecermos de vez
do amor dos amores mais amados
o amor chamado pátria!”
30


“(...) percorro este universo emigrando
diariamente no interior africano
deste território minha pátria
escondido no meu país.”
31


Malangatana Valente recorre aos sonhos para suportar as agruras do colonialismo em desenhos como “Sonho, nota de soltura” e “Sonho de prisioneiro, almofada de grilhetas”. Já José Craveirinha versa sobre o desejo de almoçar com a família em casa “depois do grande sonho conseguido”32. Sonho que somente se concretizaria em 25 de junho de 1975, com a efetiva participação dos dois artistas que viram Moçambique se tornar independente. Com isto, o livro Cela 1 foi publicado em 1980 e a série Desenhos de prisão foi exposta como parte das comemorações do 70º aniversário de Malangatana Valente em 2006, imortalizando em suas obras a terrível experiência do cárcere na luta contra o colonialismo.


Sonho, nota de soltura

Sonho de prisioneiro, almofada de grilhetas


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
BALTAZAR, Rui. Sobre a poética de José Craveirinha. Via Atlântica, São Paulo, n. 5, p. 88-107, 2002.


BOSI, Alfredo. O ser e o tempo da poesia. São Paulo: Cultrix, 1977.


CANDIDO, Antonio. A literatura e a vida social. In: Literatura e sociedade. Rio de Janeiro: Ouro sobre Azul, 2006.


CHABAL, Patrick. Vozes moçambicanas – literatura e nacionalidade. Coleção Palavra Africana. Lisboa: Editora Veja, 1994.


CHAVES, Rita. Angola e Moçambique: experiência colonial e territórios literários. São Paulo: Ateliê Editorial, 2005.


CRAVEIRINHA, José. Cela 1. Lisboa: Edições 70, 1980.


FERREIRA, Manuel. O discurso no percurso africano 1. Lisboa: Plátano, 1989.


LEITE, Ana Mafalda. A fraternidade das palavras. Via Atlântica, São Paulo, n. 5, p. 20-28, 2002.

NAVARRO, Julio. Uma gula insaciável. Catálogo da exposição Malangatana: de Matalana a Matalana. Lisboa: Instituto Camões, 1999. p. 51.


SECCO, Carmen Lucia Tindó. A apoteose da palavra e do canto: a dimensão “neobarroca” da poética de José Craveirinha. Via Atlântica, São Paulo, n. 5, p. 40-51, 2002.



SECCO, Carmen Lucia Tindó. Craveirinha e Malangatana: cumplicidade e correspondência entre as artes. In: A magia das letras africanas: ensaios escolhidos sobre as Literaturas de Angola, Moçambique e alguns outros diálogos. Rio de Janeiro: ABE Graph Editora, 2003.


REFERÊNCIA INTERNET:
FUNDAÇÃO MÁRIO SOARES.
http://www.fmsoares.pt. Acesso em 26 de outubro de 2006.

NOTAS:

1 BOSI, Alfredo. O ser e o tempo da poesia. São Paulo: Cultrix, 1977. p. 143.
2 FERREIRA, Manuel. O discurso no percurso africano 1. Lisboa: Plátano, 1989. pp. 32-33.
3 CHAVES, Rita. José Craveirinha: a poesia em liberdade. In: Angola e Moçambique: experiência colonial e territórios literários. São Paulo: Ateliê Editorial, 2005. p. 139.
4 Idem, ibidem. p. 141.
5 CANDIDO, Antonio. A literatura e a vida social. In: Literatura e sociedade. Rio de Janeiro: Ouro sobre Azul, 2006. p. 35.
6 CHAVES, Rita. Entrevista: José Craveirinha. In: Angola e Moçambique: experiência colonial e territórios literários. São Paulo: Ateliê Editorial, 2005. pp. 241-242.
7 CHABAL, Patrick. Entrevista: Malangatana Valente. In: Vozes moçambicanas – literatura e nacionalidade. Coleção Palavra Africana. Lisboa: Editora Veja, 1994, pp. 207-208
8 CHABAL, Patrick. Entrevista: José Craveirinha. In: Vozes moçambicanas – literatura e nacionalidade. Coleção Palavra Africana. Lisboa: Editora Veja, 1994. pp. 99-100.
9 SECCO, Carmen Lucia Tindó. A apoteose da palavra e do canto: a dimensão “neobarroca” da poética de José Craveirinha. Via Atlântica, São Paulo, n. 5, p. 45, 2002.
10 CRAVEIRINHA, José. Cela 1. Lisboa: Edições 70, 1980. p. 73.
11 Idem, ibidem, p. 15.
12 BALTAZAR, Rui. Sobre a poética de José Craveirinha. Via Atlântica, São Paulo, n. 5, 2002, p. 100.
13 CRAVEIRINHA, José. Cela 1. Lisboa: Edições 70, 1980. p. 47.
14 FUNDAÇÃO MÁRIO SOARES. http://www.fmariosoares.pt. Acesso em 26 de outubro de 2006.
15 SECCO, Carmen Lucia Tindó. Craveirinha e Malangatana: cumplicidade e correspondência entre as artes. In: A magia das letras africanas: ensaios escolhidos sobre as Literaturas de Angola, Moçambique e alguns outros diálogos. Rio de Janeiro: ABE Graph Editora, 2003, p. 226.
16 CRAVEIRINHA, José. Cela 1. Lisboa: Edições 70, 1980. p. 84.
17 Idem, ibidem, p. 76.
18 Idem, ibidem, p. 73.
19 Idem, ibidem, p. 68.
20 Idem, ibidem, p. 49.
21 Idem, ibidem, p. 10.
22 CRAVEIRINHA, José. Cela 1. Lisboa: Edições 70, 1980. p. 14
23 NAVARRO, Julio. Uma gula insaciável. Catálogo da exposição Malangatana: de Matalana a Matalana. Lisboa: Instituto Camões, 1999. p. 51.
24 CRAVEIRINHA, José. Cela 1. Lisboa: Edições 70, 1980. p. 72.
25 CRAVEIRINHA, José. Cela 1. Lisboa: Edições 70, 1980. p. 38.
26 Idem, ibidem, p. 28.
27 MENDONÇA, Fátima. O conceito de nação em José Craveirinha, Rui Knopfli e Sérgio Vieira. Via Atlântica, São Paulo, n. 5, 2002, p. 54.
28 Idem, ibidem, p. 54.
29 CRAVEIRINHA, José. Cela 1. Lisboa: Edições 70, 1980. p. 17.
30 Idem, ibidem, p. 21.
31 Idem, ibidem, p. 81.
32 CRAVEIRINHA, José. Cela 1. Lisboa: Edições 70, 1980. p. 35.